{"id":26497,"date":"2020-11-28T22:25:02","date_gmt":"2020-11-29T01:25:02","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26497"},"modified":"2020-11-28T22:25:02","modified_gmt":"2020-11-29T01:25:02","slug":"os-homens-sem-plumas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26497","title":{"rendered":"Os homens sem plumas"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2020\/11\/iasi-homens-plumas2.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Por Mauro Luis Iasi<\/p>\n<p>\u201cEntre a paisagem (flu\u00eda)<br \/>\nde homens plantados na lama;<br \/>\nde casas de lama<br \/>\nplantadas em ilhas de lama<br \/>\ncoaguladas de lama;<br \/>\npaisagem de anf\u00edbios<br \/>\nde lama e lama\u201d<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto<\/p>\n<p>Ele acordou bem cedo, como sempre. Andou pelas ruas ainda adormecidas como que virado para dentro, absorto em pensamentos desconexos, fragment\u00e1rios. Seus p\u00e9s o levavam com a maestria adquirida em anos de pr\u00e1tica, desviavam de obst\u00e1culos e encontravam o caminho \u00e0s cegas.<\/p>\n<p>A esta\u00e7\u00e3o de trem, como sempre, estava lotada. Centenas de pessoas viradas para dentro e perdidas em seus pensamentos. O caf\u00e9 no copo de pl\u00e1stico queimou sua boca, salvando-o do gosto abomin\u00e1vel da beberagem amarga, muitos outros seriam necess\u00e1rios para arranc\u00e1-lo de seu torpor.<\/p>\n<p>Em um instante ele passou pela torrente de pessoas que flu\u00edam como \u00e1gua suja de enchente para dentro dos vag\u00f5es at\u00e9 encontrar um cano frio de metal onde se encostar. Dormir em p\u00e9 \u00e9 uma arte pouco valorizada, a posi\u00e7\u00e3o firme dos bra\u00e7os junto a barra de metal, os p\u00e9s que pressentem o movimento e antecipam freadas e arranques, a cabe\u00e7a que pende e avisa da queda iminente.<\/p>\n<p>E ele sonhou.<\/p>\n<p>Seus p\u00e9s tocavam a areia quente e o sol da manh\u00e3 deixava tudo meio amarelo. O mar \u00e0 sua frente parecia im\u00f3vel, mas a areia movia-se como \u00e1gua provocando uma certa vertigem. Ela olhava para ele e dizia sem falar nenhuma palavra que estava feliz. Logo ali pessoas vestidas com cal\u00e7as e vestidos, carregando embrulhos e mochilas faziam fila para entrar no mar e quando as ondas abriam com um apito agudo se viam outras pessoas saindo do mar em um movimento de turba descontrolada. Sa\u00edam todos cobertos por uma grossa camada de lama.<\/p>\n<p>O movimento da \u00e1gua lhe provocava uma enorme vontade de ir ao banheiro, mas as portas estavam fechadas ou se abriam para outros c\u00f4modos, um quarto desarrumado, uma sala antiga com m\u00f3veis deteriorados, um p\u00e1tio com crian\u00e7as correndo. Uma escada com degraus \u00edngremes quase o fez cair. Ele acordou segurando firme no cano do vag\u00e3o enquanto sua cabe\u00e7a pendia num movimento violento para frente.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia praias. H\u00e1 muito foram interditadas. O c\u00e9u de um cinza chumbo permanente proibia os raios amarelos da manh\u00e3, assim como os tons de magenta e laranja dos entardeceres. Ele n\u00e3o estava feliz, ela n\u00e3o estava mais l\u00e1. Ele poderia considerar um bom dia quando conseguia sonhar com ela, carregaria a sensa\u00e7\u00e3o dela sorrindo por entre os escombros do dia at\u00e9 que a noite engolisse tudo sem piedade.<\/p>\n<p>Ela o iluminava, aquecia seus p\u00e9s como a areia imagin\u00e1ria, o guiava pela rua desviando de buracos e cal\u00e7adas assim\u00e9tricas, segurava seu corpo dormente para que n\u00e3o ca\u00edsse do sonho de volta naquele vag\u00e3o lotado. Ela n\u00e3o estava mais l\u00e1 desde que os oceanos morreram. Ele sempre pensou que ela n\u00e3o quis ficar num mundo sem o barulho das ondas, sem a brisa que vem do mar \u00e0 noite. Deixou um sorriso para gui\u00e1-lo e se foi.<\/p>\n<p>Formara-se uma enorme barreira de pl\u00e1stico e detritos de onde emanava um forte odor de putrefa\u00e7\u00e3o que afastou todos das \u00e1reas costeiras. Uma esp\u00e9cie de mangue, de lama e lixo, tomou conta de tudo e tornou-se o abrigo de uma forma h\u00edbrida de vida, uma casta de intoc\u00e1veis, anf\u00edbios e invis\u00edveis que encontraram um meio de respirar e comer lixo e lama.<\/p>\n<p>Os trens cruzavam velozes longe disto tudo, dentro das cidades de cimento, cercadas por muros sanit\u00e1rios e torres de controle. Diariamente enormes tubula\u00e7\u00f5es despejam toneladas de lixo, montanhas de pl\u00e1sticos e detritos para al\u00e9m dos muros da cidade e at\u00e9 as costas onde alimentavam os mangues que cercavam os oceanos assassinados.<\/p>\n<p>Ele foi cuspido do trem junto com uma enorme malta de semiacordados que buscavam \u00e0s cegas seu caminho num labirinto ordenado de caminhos pelos quais, surpreendentemente, as pessoas encontravam por onde ir como detritos boiando num rio pastoso e lento.<\/p>\n<p>Caminhavam at\u00e9 f\u00e1bricas enormes que os engoliam por todo o dia e das quais saiam cortejos de caminh\u00f5es repletos de produtos de pl\u00e1stico, embalados em pl\u00e1stico dentro de caixas de pl\u00e1stico.<\/p>\n<p>Distante da cidade de cimento e das orlas f\u00e9tidas do mangue, nas colinas, existiam casas confort\u00e1veis, jardins e \u00e1rvores. Ali foi instalado o sol artificial que aquecia e iluminava as constru\u00e7\u00f5es e ruas buc\u00f3licas. Havia, tamb\u00e9m, praias artificiais, piscinas que imitavam ondas e ess\u00eancias muito parecidas com o cheiro da maresia. Sistemas de som reproduziam o gorjeio de p\u00e1ssaros e o grasnar de gaivotas h\u00e1 muito extintas.<\/p>\n<p>Desde a \u00faltima rebeli\u00e3o, os acessos \u00e0 colina estavam fortemente vigiados e seus moradores raramente saiam de l\u00e1 e quando o faziam iam pelo ar em luxuosos helic\u00f3pteros individuais.<\/p>\n<p>Ele estava absorto em seu mon\u00f3tono e repetitivo trabalho enquanto lembrava do sorriso dela quando caminhava para as manifesta\u00e7\u00f5es com suas companheiras. Ela estava feliz. Ela estava l\u00e1 quando as tropas de seguran\u00e7a atacaram.<\/p>\n<p>No trem que o levava de volta \u00e0 sua casa ele n\u00e3o dormia. Olhava pela janela a paisagem de sombras passar velozmente produzindo um bal\u00e9 de luzes no ch\u00e3o do vag\u00e3o. Algu\u00e9m encostou nele e lhe passou um folheto amassado. Ele n\u00e3o precisava olhar, sabia do que se tratava. Amanh\u00e3 na estrada da colina, basta.<\/p>\n<p>Caminhava para casa da mesma forma autom\u00e1tica que realizara pela manh\u00e3. Voltava como que esvaziado, at\u00e9 mesmo de pensamentos desconexos e fragmentos de sonhos.<\/p>\n<p>Esquentou a embalagem pl\u00e1stica de seu jantar e desmoronou em uma cadeira olhando as paredes enormes dos edif\u00edcios que o cercavam. Luzes p\u00e1lidas denunciavam corpos curvados diante de suas mesas e bandejas de pl\u00e1stico, milhares de homens sozinhos em seus cub\u00edculos cinzas como containers empilhados e abandonados num porto \u00e0 noite.<\/p>\n<p>Ele parou por um segundo diante da lata de lixo onde despejava os restos da imita\u00e7\u00e3o de comida e a bandeja de pl\u00e1stico. Uma imensa tristeza o acometeu quando baixou a tampa e se arrastou para o quarto, e para a ins\u00f4nia que o aguardava.<\/p>\n<p>Elas caminhavam alegres e decididas. Elas n\u00e3o queriam viver em um mundo onde os oceanos estavam sendo assassinados. Quando ela olhou para tr\u00e1s e sorriu, todo o tempo se congelou como numa fotografia, mesmo no momento que as grossas torres de fuma\u00e7a tomaram conta de tudo e come\u00e7aram os tiros.<\/p>\n<p>Ela estava l\u00e1 e estava feliz.<\/p>\n<p>Pegou o folheto amassado em seu bolso. Foi quando se decidiu. Ele n\u00e3o podia aceitar um mundo que assassinava oceanos e sorrisos.<\/p>\n<p>No dia seguinte ele estava l\u00e1. Estava feliz e n\u00e3o estava sozinho.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Mauro Iasi \u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil e Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, \u00e0s quartas. Na TV Boitempo, apresenta o Caf\u00e9 Bolchevique, um encontro mensal para discutir conceitos-chave da tradi\u00e7\u00e3o marxista a partir de reflex\u00f5es sobre a conjuntura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26497\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[13],"tags":[224],"class_list":["post-26497","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s14-cultura","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6Tn","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26497","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26497"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26497\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26497"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26497"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26497"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}