{"id":26522,"date":"2020-12-02T21:16:23","date_gmt":"2020-12-03T00:16:23","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26522"},"modified":"2020-12-02T21:16:23","modified_gmt":"2020-12-03T00:16:23","slug":"peru-crise-politica-e-mobilizacao-popular","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26522","title":{"rendered":"Peru: crise pol\u00edtica e mobiliza\u00e7\u00e3o popular"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/pw\/ACtC-3eq5cWjn9LiU9QskKxgfjs_X7t23AQDU6aAAaNv5edahSsJBi2JlWd8NyUMQ5yLk67vNeV2xg8CoO5bG-DfYO52iyqEqMmAWIbzfgwPqmaYrJuaSXqi-q1CzAjjLfVBx97ylL4eKqlJ38XQ38SpF_HP=s979-no\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Por Sebasti\u00e1n Sarapura Rivas<\/p>\n<p>A luta de classes na Am\u00e9rica Latina adquiriu, no segundo semestre de 2020, n\u00edveis de enfrentamento semelhantes aos vividos no final do s\u00e9culo XX. A crise pol\u00edtica peruana, em particular, nos fez lembrar acontecimentos como \u201cel Argentinazo\u201d. Tr\u00eas presidentes em menos de uma semana, duas mortes, centenas de feridos e in\u00fameras den\u00fancias sobre pris\u00f5es for\u00e7adas de manifestantes foram os resultados do confronto entre as for\u00e7as repressivas do Estado peruano e a mobiliza\u00e7\u00e3o de centenas de milhares de jovens trabalhadores.<\/p>\n<p>A m\u00eddia liberal \u2014 e at\u00e9 alguns \u00f3rg\u00e3os de propaganda de organiza\u00e7\u00f5es de esquerda \u2014 explicam as causas dessa crise pol\u00edtica por fatores institucionais. Segundo estes, o mau funcionamento das institui\u00e7\u00f5es do Estado teria sua raz\u00e3o de ser nos recorrentes atos de corrup\u00e7\u00e3o, tanto de funcion\u00e1rios p\u00fablicos como de representantes pol\u00edticos. Uma explica\u00e7\u00e3o um pouco mais sofisticada \u00e9 a que acusa a constitui\u00e7\u00e3o de 1993 \u2014 principal legado da ditadura de Fujimori \u2014 como a origem da corrup\u00e7\u00e3o e da crise institucional.<\/p>\n<p>Embora com elementos reais, consideramos essas explica\u00e7\u00f5es insuficientes. Ambas s\u00e3o, em certa medida, tautol\u00f3gicas, visto que se, por um lado, o mau funcionamento das institui\u00e7\u00f5es se explica pela exist\u00eancia de funcion\u00e1rios corruptos, por outro, os atos de corrup\u00e7\u00e3o se explicam pela exist\u00eancia de institui\u00e7\u00f5es fracas. Chamar a aten\u00e7\u00e3o para os limites desse racioc\u00ednio circular \u00e9 importante porque, como veremos, ele tem consequ\u00eancias diretas na solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que as for\u00e7as de esquerda prop\u00f5em como solu\u00e7\u00e3o para a crise pol\u00edtica atual.<\/p>\n<p>Em contrapartida, esta breve an\u00e1lise parte de considerar o Estado como manifesta\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter irreconcili\u00e1vel das contradi\u00e7\u00f5es de classe e como instrumento necess\u00e1rio para o dom\u00ednio de uma classe sobre a outra. Essa constata\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica permite avan\u00e7ar na caracteriza\u00e7\u00e3o da crise pol\u00edtica peruana. A entrada e sa\u00edda de governantes, a corrup\u00e7\u00e3o generalizada nas institui\u00e7\u00f5es do Estado e a curta dura\u00e7\u00e3o do consenso entre os partidos pol\u00edticos s\u00e3o indicadores de uma atua\u00e7\u00e3o at\u00edpica na domina\u00e7\u00e3o de classe e n\u00e3o apenas um problema \u201cinstitucional\u201d. Dito isso, o pr\u00f3ximo passo \u00e9 identificar as determina\u00e7\u00f5es por tr\u00e1s desse processo. Este exerc\u00edcio \u00e9 importante n\u00e3o s\u00f3 para a an\u00e1lise da situa\u00e7\u00e3o atual, porque, a rigor, o Peru vive uma crise pol\u00edtica permanente desde \u2014 pelo menos \u2014 o fim dos anos 90.<\/p>\n<p>O ano de 2020 foi um ano particularmente dif\u00edcil e excepcional para a classe trabalhadora em todo o mundo. A crise de sa\u00fade global desencadeada pela pandemia aprofundou os efeitos disruptivos da crise capitalista n\u00e3o resolvida (2007-2008). Embora o desemprego e a desigualdade estivessem generalizados em todo o mundo, \u00e9 fundamental considerar que com a centraliza\u00e7\u00e3o do capital e a fal\u00eancia dos capitais menos produtivos se aprofundaram as assimetrias entre os pa\u00edses imperialistas e os pa\u00edses dependentes. Como n\u00e3o poderia ser diferente, o maior fardo da crise recaiu sobre a classe trabalhadora destes \u00faltimos pa\u00edses. Falta de acesso universal aos servi\u00e7os p\u00fablicos de sa\u00fade, sem casa, com n\u00edveis de renda insuficientes para uma reposi\u00e7\u00e3o normal da for\u00e7a de trabalho e com uma economia informal, as necessidades de acumula\u00e7\u00e3o de capital em meio \u00e0 pandemia custaram \u2014 e continuam custando \u2014 a vida de centenas de milhares na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Sem uma pandemia ou com uma pandemia, nada parecia indicar que 2020 seria um ano de estabilidade pol\u00edtica para a burguesia peruana. Desde a sa\u00edda de Fujimori, esta classe viu seus representantes pol\u00edticos ca\u00edrem um a um. Alejandro Toledo, Alan Garc\u00eda, Ollanta Humala, Pedro Pablo Kuczynski e Mart\u00edn Vizcarra t\u00eam em comum \u2014 al\u00e9m de terem sido presidentes do Peru \u2014 serem acusados ou presos por crimes de corrup\u00e7\u00e3o. No caso das quatro primeiras, essas foram etapas que acabaram sendo rejeitadas em massa pela popula\u00e7\u00e3o. Apenas Vizcarra gozou da aprova\u00e7\u00e3o popular antes mesmo de ser demitido. O parlamento, por sua vez, tamb\u00e9m n\u00e3o teve a aprova\u00e7\u00e3o popular. O legislativo \u00e9 geralmente comparado a um circo e sua rejei\u00e7\u00e3o foi igual ou mais difundida do que a rejei\u00e7\u00e3o do executivo. N\u00e3o s\u00f3 na situa\u00e7\u00e3o atual, mas nos \u00faltimos 25 anos.<\/p>\n<p>Os confrontos que culminaram com o afastamento de Mart\u00edn Vizcarra, em novembro deste ano, devem ser pensados como uma disputa entre fac\u00e7\u00f5es de uma mesma classe social. A sa\u00edda de Pedro Pablo Kuczynski, em 2018, expressou claramente o grau de tens\u00e3o dentro da classe dominante. Assim, Vizcarra foi destitu\u00eddo pelo parlamento. Mas, no caso do primeiro, a mobiliza\u00e7\u00e3o popular n\u00e3o foi canalizada pelo Executivo. Antecipando-se a um julgamento que j\u00e1 havia sido perdido de qualquer maneira, Kuzcynski preferiu renunciar. O slogan da maioria nas ruas, embora fosse a rejei\u00e7\u00e3o do parlamento, n\u00e3o significava apoio massivo a Kuczynski.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a entre os dois ex-presidentes \u00e9 que Vizcarra adotou uma postura de confronto com o parlamento. Kuczynski, ao contr\u00e1rio, tentou conciliar permanentemente com seus advers\u00e1rios, sendo o maior gesto de concilia\u00e7\u00e3o o perd\u00e3o de Alberto Fujimori em 2017. Este fato lhe custou a rejei\u00e7\u00e3o popular e \u2013 paradoxalmente \u2013 foi o que lan\u00e7ou as bases do fujimorismo avan\u00e7ar at\u00e9 as \u00faltimas conseq\u00fc\u00eancias com as acusa\u00e7\u00f5es de corrup\u00e7\u00e3o contra ele.<\/p>\n<p>Vizcarra teve que assumir a presid\u00eancia porque era o \u201cvice\u201d de Pedro Pablo Kuczynski. Chamado para governar quando ainda servia como embaixador no Canad\u00e1, ele assumiu sua investidura enfrentando a maioria fujimorista. As tens\u00f5es entre os dois grupos pol\u00edticos n\u00e3o esperaram. Embora n\u00e3o seja a \u00fanica contradi\u00e7\u00e3o entre os poder Executivo e o poder Legislativo, a Lei Universit\u00e1ria 30220 tem sido, desde sua implementa\u00e7\u00e3o em 2014, durante o governo de Ollanta Humala, um estopim de confrontos entre diferentes fra\u00e7\u00f5es da burguesia peruana. N\u00e3o \u00e9 por acaso que \u00e9 a principal causa que mobilizou a coaliz\u00e3o parlamentar contra Vizcarra.<\/p>\n<p>Promovido como uma reforma para \u201cmelhorar a qualidade do ensino superior\u201d frente a \u201cuniversidades de neg\u00f3cios\u201d, essa lei era uma exig\u00eancia de um setor da burguesia \u201clime\u00f1a\u201d associado ao capital estrangeiro, para fazer frente \u00e0 competi\u00e7\u00e3o que implicava a prolifera\u00e7\u00e3o de universidades mais baratas no interior do pa\u00eds e na pr\u00f3pria capital.<\/p>\n<p>Os propriet\u00e1rios destas \u00faltimas n\u00e3o fazem parte das fam\u00edlias tradicionais da burguesia peruana. S\u00e3o capitalistas do interior do pa\u00eds, vinculados a atividades il\u00edcitas, como o narcotr\u00e1fico e a minera\u00e7\u00e3o ilegal, que se espalharam no pa\u00eds a partir da liberaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica irrestrita implementada nos anos 1990. Destas atividades vem, em grande medida, seu processo acelerado de acumula\u00e7\u00e3o de capital.<\/p>\n<p>O crescente poder e influ\u00eancia deste grupo empresarial t\u00eam sido refletidos em uma maior presen\u00e7a parlamentar. Nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, in\u00fameros partidos pol\u00edticos, de origem regional, v\u00eam se distanciando dos partidos pol\u00edticos tradicionais. O caso mais expressivo \u00e9 o de Alianza para el Progreso (AP), partido do milion\u00e1rio cajamarquino Cesar Acu\u00f1a, dono da universidade com maior quantidade de sedes no pa\u00eds, a Universidad C\u00e9sar Vallejo, conhecida tanto pelos pre\u00e7os baixos quanto pelo baixo n\u00edvel educacional. Caso semelhante \u00e9 o de Jos\u00e9 Luna Galvez, fundador do partido pol\u00edtico Podemos Peru e propriet\u00e1rio da Universidade Privada TELESUP. Luna, assim como Acu\u00f1a, fazem parte do grupo empresarial emergente que se op\u00f5e \u00e0 pol\u00edtica implementada pelo grande capital transnacional para manter sob seu controle os neg\u00f3cios das universidades privadas.<\/p>\n<p>Este conflito de interesses explica, em grande medida, o fechamento do congresso promovido por Vizcarra em 2019. A bancada de Fujimori, apesar de certos nuances internos, responde, desde 2016, de forma favor\u00e1vel aos interesses do setor burgu\u00eas interessado em manter a desregulamenta\u00e7\u00e3o jur\u00eddica que possibilitou a eclos\u00e3o das novas universidades neg\u00f3cio e a quebra do monop\u00f3lio que detinham as grandes empresas do setor. Um dos principais financiadores do partido, o empres\u00e1rio Joaqu\u00edn Ramirez, n\u00e3o por acaso, \u00e9 o acionista majorit\u00e1rio da Universidad Alas Peruanas e, atualmente, est\u00e1 sendo acusado de desviar 8 milh\u00f5es de soles (nome da moeda peruana) dos fundos desta universidade para a campanha de Keiko Fujimori em 2016.<\/p>\n<p>As contradi\u00e7\u00f5es de segunda ordem contribu\u00edram para agu\u00e7ar as fac\u00e7\u00f5es capitalistas e seus representantes pol\u00edticos. Enquanto o fujimorismo e os partidos das universidades-neg\u00f3cio tentavam promover uma agenda conservadora, Pedro Pablo Kuczinsky primeiro, e Vizcarra depois, se comprometeu com uma agenda mais ou menos liberal. A modifica\u00e7\u00e3o do conte\u00fado curricular em favor da inclus\u00e3o da abordagem de g\u00eanero foi repetidamente rejeitada por o fujimorismo e pela bancada das universidades-neg\u00f3cio. As acusa\u00e7\u00f5es de que os liberais estariam defendendo uma \u201cideologia de g\u00eanero\u201d foram usadas para mobilizar fi\u00e9is cat\u00f3licos e protestantes contra o governo. Em contrapartida, setores da esquerda parlamentar e alguns movimentos progressistas tomaram partido pelos liberais, sob a desculpa de que era o mal menor diante do conservadorismo da nova direita.<\/p>\n<p>Vizcarra iniciou seu governo em mar\u00e7o de 2018. Durante seu mandato, para enfrentar a maioria de fujimorista, buscou alian\u00e7as com partidos de centro-direita e centro-esquerda (Partido Morado, Nuevo Peru), ganhando assim a simpatia de as classes m\u00e9dias urbanas. O desprest\u00edgio da maioria fujimorista, devido ao financiamento il\u00edcito na campanha de 2016, e devido ao seu papel obstrucionista nos governos de Kuczynski e Vizcarra, fez com que a mobiliza\u00e7\u00e3o das classes m\u00e9dias urbanas e dos setores mais politizados da juventude trabalhadora mantivessem-se levantados por meses com palavras de ordem para elei\u00e7\u00f5es gerais e \u201cque se vayan todos\u201c. \u00c9 neste contexto que a Vizcarra tomou a decis\u00e3o de fechar o congresso no dia 30 de setembro de 2019, convocando novas elei\u00e7\u00f5es apenas para o poder legislativo do Estado. Isso lhe valeu uma aprova\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica em todas as classes sociais, mas especialmente nas classes m\u00e9dias. Com essa concentra\u00e7\u00e3o de poder, o projeto econ\u00f4mico da grande burguesia peruana se afirmou diante da burguesia emergente.<\/p>\n<p>A configura\u00e7\u00e3o do novo parlamento, apesar de n\u00e3o ter maioria fujimorista, n\u00e3o aliviou em nada a disputa pol\u00edtica. As contradi\u00e7\u00f5es dentro da classe capitalista permaneceram, apesar do fato dos partidos pol\u00edticos e seus pesos no parlamento terem mudado. Os interesses da burguesia emergente, ligados \u00e0s universidades \u2013 neg\u00f3cio, foram organizados em novas tendas pol\u00edticas. A base eleitoral fujimorista foi substitu\u00edda por Acci\u00f3n Popular, Uni\u00f3n por el Per\u00fa, Podemos Per\u00fa e FREPAP. Todos, exceto a\u00e7\u00e3o popular, do interior do pa\u00eds ou fortemente vinculados a movimentos pol\u00edticos regionais.<\/p>\n<p>A pandemia veio acompanhada por acusa\u00e7\u00f5es de corrup\u00e7\u00e3o entre o parlamento e o poder executivo. Como o fujimorismo fez contra Kuczynski, Vizcarra agora tinha que enfrentar a possibilidade de ser deposto. O fracasso de sua gest\u00e3o diante da pandemia, com mais de um milh\u00e3o de infectados e pelo menos 30 mil mortes, implicou em uma queda consider\u00e1vel em sua popularidade. O Congresso, nada melhor na aprova\u00e7\u00e3o, aproveitou a oportunidade para tomar o poder e, assim, garantir os neg\u00f3cios de seus patr\u00f5es.<\/p>\n<p>O que se seguiu ao processo de vac\u00e2ncia foi massivas mobiliza\u00e7\u00f5es. No in\u00edcio, uma boa parte foi organizada com o objetivo da volta de Vizcarra. No entanto, a velocidade com que Vizcarra entregou o poder; sua incapacidade de resolver problemas fundamentais da classe trabalhadora, favorecendo as grandes empresas; junto com as acusa\u00e7\u00f5es de corrup\u00e7\u00e3o contra ele, acabaram afundando sua popularidade. Com isso, as a\u00e7\u00f5es de rua contra o parlamento se transformaram em mobiliza\u00e7\u00f5es contra toda a classe pol\u00edtica, inclusive Vizcarra.<\/p>\n<p>Apesar da repress\u00e3o brutal que ocorreu nas ruas, a mobiliza\u00e7\u00e3o da juventude trabalhadora em todo o pa\u00eds atingiu seu objetivo imediato: a ren\u00fancia de Merino. Os jovens trabalhadores superaram a dire\u00e7\u00e3o dos partidos pol\u00edticos de centro-esquerda e deram uma li\u00e7\u00e3o sobre o imobilismo das centrais sindicais. Aproveitando a recente experi\u00eancia chilena contra a repress\u00e3o, os jovens peruanos transbordaram da orienta\u00e7\u00e3o institucionalista que os partidos pol\u00edticos de centro e centro-esquerda (Nuevo Peru, Partido Morado, Frente Amplio) queriam dar \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es. Em menos de 24 horas, foram organizados destacamentos de atendimento m\u00e9dico aos feridos, grupos destinados a desativar bombas de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo e uma primeira linha de escudos para conter os tiros da pol\u00edcia. Sob o lema da \u201cNova Constitui\u00e7\u00e3o!\u201d, A mobiliza\u00e7\u00e3o continuou por seis dias ininterruptos em todos os cantos do pa\u00eds.<\/p>\n<p>A sa\u00edda de Merino ocasionou a necessidade de um novo acordo entre as diferentes fra\u00e7\u00f5es da classe dominante. A burguesia emergente demonstrou, com seu manejo incorreto da crise, sua incapacidade de unir os interesses das diferentes fra\u00e7\u00f5es do capital, como fizera antes Vizcarra. A ascens\u00e3o do militante do partido Morado, Francisco Sagasti, como presidente do pa\u00eds, n\u00e3o acaba com a crise pol\u00edtica. Cinco meses antes das novas elei\u00e7\u00f5es, nada indica que os principais motivos que geraram a crise pol\u00edtica foram superados. Um novo surto pode estar chegando.<\/p>\n<p>O que esse processo evidencia \u00e9 a dificuldade crescente e cada vez mais expl\u00edcita que a burguesia tem para exercer plenamente o poder pol\u00edtico. As suas tens\u00f5es internas s\u00e3o paradoxalmente o resultado necess\u00e1rio da abertura econ\u00f4mica que no passado foram encarregadas de promover. O modelo econ\u00f4mico neoliberal, implantado pela operadora de plant\u00e3o Fujimori, lan\u00e7ou as bases para novos processos de acumula\u00e7\u00e3o que, com o passar do tempo, come\u00e7aram a buscar ganhar espa\u00e7o dentro do Estado. O acirramento da competi\u00e7\u00e3o intercapitalista foi transferido para o aparelho de Estado. Isso explica em grande parte a constante crise pol\u00edtica que atravessa o pa\u00eds andino.<\/p>\n<p>As mobiliza\u00e7\u00f5es dos \u00faltimos dias podem ser o in\u00edcio de uma mudan\u00e7a geracional e ideol\u00f3gico-program\u00e1tica dentro dos partidos pol\u00edticos de esquerda. Desde a \u201cmarcha de los cuatro suyos\u201c, que derrubou Fujimori, o Peru n\u00e3o experimentou mobiliza\u00e7\u00f5es em t\u00e3o grande escala. Os jovens que sa\u00edram em marcha viam esta experi\u00eancia como muito distante. A maioria deles sequer havia nascido quando essas mobiliza\u00e7\u00f5es aconteceram. A experi\u00eancia recente, por outro lado, \u00e9 um ponto de inflex\u00e3o com o \u201canti-fujimorismo\u201d que prevaleceu em todas as mobiliza\u00e7\u00f5es anteriores a esta. Aqui, o inimigo n\u00e3o era mais um \u00fanico partido pol\u00edtico, mas \u201ctoda a classe pol\u00edtica\u201d. O slogan principal foi, em quest\u00e3o de horas, de um \u201cfora Merino\u201d \u00e0 agita\u00e7\u00e3o por uma nova constitui\u00e7\u00e3o com participa\u00e7\u00e3o popular. Esse processo expressa claramente um avan\u00e7o na leitura sobre as ra\u00edzes da corrup\u00e7\u00e3o e da instabilidade pol\u00edtica. Isso e o alto grau de coordena\u00e7\u00e3o que se alcan\u00e7ou em poucos dias para enfrentar a repress\u00e3o estatal, expressam uma mudan\u00e7a substantiva diante da imobilidade do sindicalismo tradicional. A tarefa pendente dos revolucion\u00e1rios \u00e9 continuar promovendo a organiza\u00e7\u00e3o independente das massas, bem como sua educa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, para que n\u00e3o voltem a ser um instrumento de nenhuma das fra\u00e7\u00f5es do capital.<\/p>\n<p>Nesse processo, o papel das organiza\u00e7\u00f5es comunistas ser\u00e1 fundamental. Embora a maioria deles tenha priorizado o trabalho eleitoral nas \u00faltimas d\u00e9cadas, os \u00faltimos dias nos alertam para a necessidade de pensar a organiza\u00e7\u00e3o independente dos trabalhadores fora da luta institucional. A frente pol\u00edtica \u201cJuntos por el Per\u00fa\u201d, cuja candidata presidencial \u00e9 a ex-deputada Ver\u00f3nica Mendoza, desponta como a principal alternativa eleitoral da esquerda. Sem subestimar a import\u00e2ncia da participa\u00e7\u00e3o nas elei\u00e7\u00f5es, \u00e9 fundamental reconhecer que a participa\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es de esquerda n\u00e3o foi muito expressiva nas mobiliza\u00e7\u00f5es recentes.<\/p>\n<p>A convoca\u00e7\u00e3o de uma assembleia constituinte, proposta pelas organiza\u00e7\u00f5es de esquerda e pelos comunistas, n\u00e3o pode ser pensada apenas a partir da disputa eleitoral. Os \u00faltimos dias mostraram que a organiza\u00e7\u00e3o independente dos trabalhadores \u00e9 a \u00fanica garantia para iniciar um processo de transforma\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria. A assembleia constituinte, que como palavra de ordem come\u00e7a a ganhar massa, n\u00e3o pode ser ponto de chegada dos comunistas. \u00c9 um ponto de partida para consolidar organiza\u00e7\u00f5es de poder popular e para que a classe trabalhadora peruana ganhe confian\u00e7a em sua capacidade de dirigir a sociedade.<\/p>\n<p>Sebasti\u00e1n Sarapura Rivas peruano, estudante de Hist\u00f3ria na Universidade Federal da Integra\u00e7\u00e3o Latino-Americana e militante da Uni\u00e3o da Juventude Comunista e do MUP.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26522\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[52],"tags":[227],"class_list":["post-26522","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c63-peru","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6TM","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26522","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26522"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26522\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26522"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26522"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26522"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}