{"id":2654,"date":"2012-04-08T21:36:11","date_gmt":"2012-04-08T21:36:11","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2654"},"modified":"2012-04-08T21:36:11","modified_gmt":"2012-04-08T21:36:11","slug":"entrevista-maud-chiriohistoriadora-guerra-da-memoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2654","title":{"rendered":"ENTREVISTA: MAUD CHIRIO\/HISTORIADORA &#8211; Guerra da mem\u00f3ria"},"content":{"rendered":"\n<p>O livro A pol\u00edtica nos quart\u00e9is \u2013 Revoltas e protestos de oficiais na ditadura militar brasileira \u00e9 obra de uma historiadora francesa, Maud Chirio, que faz inveja ao leitor brasileiro. Al\u00e9m do dom\u00ednio das informa\u00e7\u00f5es sobre a vida pol\u00edtica dentro das For\u00e7as Armadas (algo sempre negado por uma institui\u00e7\u00e3o que diz n\u00e3o gostar de pol\u00edtica), a autora demonstra conhecer bem o clima da caserna brasileira. Se a face vis\u00edvel para o cidad\u00e3o sempre foi a dos generais, o que a pesquisa mostra \u00e9 o setor m\u00e9dio da corpora\u00e7\u00e3o metido em pol\u00edtica at\u00e9 os ossos, sempre \u00e0 direita, com um empenho mais \u201crevolucion\u00e1rio\u201d que o da c\u00fapula.<\/p>\n<p>Longe da paz dos quart\u00e9is, o que ela descreve \u00e9 um ambiente de press\u00f5es e protestos, dominado a custo pelos princ\u00edpios da hierarquia e da obedi\u00eancia, mas que encontrava escape nas elei\u00e7\u00f5es do Clube Militar e, mais grave, em momentos marcados por viol\u00eancia e atentados. Esse ambiente de divis\u00e3o, escamoteada pela defesa de uma atua\u00e7\u00e3o profissional do Ex\u00e9rcito, pode ser percebido, em outro contexto, em epis\u00f3dios recentes como o da discuss\u00e3o da Comiss\u00e3o da Verdade.<\/p>\n<p>Em entrevista ao Pensar, Maud Chirio chama a aten\u00e7\u00e3o para a necessidade de conhecer em profundidade o per\u00edodo recente da ditadura militar, de modo a influir democraticamente nos rumos da institui\u00e7\u00e3o. Os tempos s\u00e3o outros, mas a persist\u00eancia de uma certa \u201ccultura hist\u00f3rica institucional\u201d obriga ao cuidado hist\u00f3rico, vigil\u00e2ncia pol\u00edtica e reflex\u00e3o permanente. Para isso, ela defende a abertura de arquivos e as pesquisas sobre o per\u00edodo.<\/p>\n<p><strong>Para o brasileiro o Ex\u00e9rcito, depois do golpe de 1964, \u00e9 identificado com a direita. Em seu estudo, percebe-se que havia um setor \u00e0 direita da direita, formado pelos setores m\u00e9dios da corpora\u00e7\u00e3o. Como se construiu o consenso em torno das For\u00e7as Armadas, de modo a esconder essa diferencia\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica?<\/strong><\/p>\n<p>O Ex\u00e9rcito brasileiro n\u00e3o foi sempre identificado com a direita. Falando s\u00f3 do p\u00f3s-1945, houve momentos de intensa bipolariza\u00e7\u00e3o, com setores importantes de oficiais e pra\u00e7as apoiando os governos getulistas e as pol\u00edticas nacionalistas implementadas por estes. Foi o que aconteceu, em particular, durante o segundo governo Vargas, quando o Clube Militar virou um espa\u00e7o de lutas pol\u00edticas violentas entre a fac\u00e7\u00e3o \u201cnacionalista\u201d e a \u201centreguista\u201d, usando o vocabul\u00e1rio da \u00e9poca. Mais para a frente, os sargentos foram uma for\u00e7a progressista importante e uma base de apoio fundamental para o governo de Jo\u00e3o Goulart. Esses setores mais \u00e0 esquerda foram expulsos das For\u00e7as Armadas ap\u00f3s o golpe de 1964, e a institui\u00e7\u00e3o militar inteira migrou para a direita. Alguns grupos de oficiais de patente intermedi\u00e1ria (em geral tenentes-coron\u00e9is e coron\u00e9is) eram, \u00e9 verdade, ainda mais extremados e entraram em conflito com o poder militar, por querer uma \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d mais radical, ou seja, a constru\u00e7\u00e3o r\u00e1pida de um regime autorit\u00e1rio e repressivo. Esse conflito n\u00e3o foi sempre escondido. Em 1964 e 1965, fazia manchete todo dia. Mas, aos poucos, a autoridade hier\u00e1rquica dos generais foi se restabelecendo. Os conflitos n\u00e3o desapareceram, mas sumiram dos jornais e dos olhos do mundo civil. No mesmo momento se reafirmou o discurso \u201coficial\u201d de uma institui\u00e7\u00e3o militar \u201cunida e coesa\u201d, sem conflitos pol\u00edticos internos. Foi essa imagem que a mem\u00f3ria coletiva guardou.<\/p>\n<p><strong>Com o golpe de 64, al\u00e9m do papel pol\u00edtico, o Ex\u00e9rcito assumiu tarefas administrativas e econ\u00f4micas. Houve um pensamento econ\u00f4mico nos quart\u00e9is naquele per\u00edodo?<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1, de uma certa forma, mas \u00e9 muito pouco elaborado. Todos os grupos de oficiais ativistas que estudei se consideram nacionalistas economicamente, e criticam o \u201centreguismo\u201d dos governos militares contra os quais eles lutam. Mas geralmente n\u00e3o passa de uma postura, sem reivindica\u00e7\u00f5es concretas. N\u00e3o que seja s\u00f3 uma maneira de desqualificar o advers\u00e1rio, pois esses oficiais s\u00e3o convencidos do nacionalismo econ\u00f4mico deles; mas eles n\u00e3o t\u00eam a forma\u00e7\u00e3o nem os contatos para elaborar uma pol\u00edtica alternativa \u00e0quela do poder.<\/p>\n<p><strong>A separa\u00e7\u00e3o entre elite militar e setores intermedi\u00e1rios deixou marcas nas For\u00e7as Armadas?<\/strong><\/p>\n<p>A elite militar da ditadura, os generais, nascidos em 1900 ou 1910, j\u00e1 morreu; e a jovem oficialidade ativista, que tinha geralmente a patente de major a coronel, est\u00e1 hoje na reserva, com 75, 80, 85 anos. O conflito entre essas duas gera\u00e7\u00f5es j\u00e1 \u00e9 hist\u00f3ria. Houve rancores, certamente, em particular por parte dos oficiais intermedi\u00e1rios mais ativos politicamente, e por essa raz\u00e3o marginalizados pelo poder. Quanto \u00e0queles que fizeram parte do aparelho repressivo, eles nunca perdoaram Geisel e Figueiredo por ter aberto o processo de distens\u00e3o. Mas o discurso da \u201crevolu\u00e7\u00e3o tra\u00edda\u201d, que era a acusa\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica da \u00e9poca, n\u00e3o aparece mais hoje e as cr\u00edticas contra os governos militares sucessivos s\u00e3o bem menos violentas. O que aconteceu \u00e9 que, depois da ditadura, os rancores e atritos entre os ex-golpistas foram cobertos por um discurso consensual sobre a ditadura \u2013 que o golpe foi uma \u201crevolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d necess\u00e1ria para salvar o pa\u00eds do comunismo, que a repress\u00e3o n\u00e3o foi bem repress\u00e3o, mas uma \u201cguerra suja\u201d contra um inimigo armado e perigoso, que \u201cgovernos militares\u201d modernizaram e enriqueceram o pa\u00eds etc. \u2013 e por um \u00f3dio comum de todos os \u201crevanchistas\u201d, na m\u00eddia e no mundo universit\u00e1rio em particular. Ou seja, todos os golpistas de ontem se encontram hoje no mesmo campo na \u201cguerra da mem\u00f3ria\u201d, e esqueceram numa larga medida os conflitos passados.<\/p>\n<p><strong>Sem o temor do comunismo, o radicalismo de direita das For\u00e7as Armadas identifica hoje outro tipo de inimigo preferencial (como os movimentos sociais) ou se volta de forma mais gen\u00e9rica contra o sistema pol\u00edtico e a corrup\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Para responder a essa pergunta, teria que estudar a produ\u00e7\u00e3o da direita militar hoje, coisa que eu n\u00e3o fiz. S\u00f3 posso dizer que o pensamento do \u201cinimigo interno\u201d \u00e9, desde a forma\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito brasileiro, imut\u00e1vel e ao mesmo tempo \u201cmigrante\u201d: nunca desapareceu, mas identificou ao longo do tempo inimigos diferentes \u2013 o separatista, o comunista, o criminal&#8230; \u2013 com caracter\u00edsticas imagin\u00e1rias comuns. O inimigo interno divide a na\u00e7\u00e3o, est\u00e1 a servi\u00e7o do estrangeiro e \u00e9 moralmente conden\u00e1vel. Ora, s\u00e3o caracter\u00edsticas que a direita militar sempre atribuiu tamb\u00e9m ao mundo pol\u00edtico, que dividiria a na\u00e7\u00e3o por seus conflitos partid\u00e1rios, seria vendilh\u00e3o da p\u00e1tria, corrupto e interesseiro. Na verdade, o inimigo identificado por essa direita militar \u00e9 sempre o contr\u00e1rio, a imagem no espelho do \u201cmilitar ideal\u201d, um homem puro, desinteressado, firme, nacionalista&#8230;<\/p>\n<p><strong>Como se manifesta e que papel ocupa a &#8220;jovem oficialidade radical&#8221; de d\u00e9cadas atr\u00e1s?<\/strong><\/p>\n<p>Como falei, hoje esses oficiais j\u00e1 est\u00e3o na reserva. Alguns continuam a milit\u00e2ncia no Clube Militar, como vimos recentemente, ou em associa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, que t\u00eam geralmente por objetivo a defesa de uma mem\u00f3ria positiva da ditadura. \u00c9 muito dif\u00edcil saber quais s\u00e3o suas conex\u00f5es com o mundo da ativa.<\/p>\n<p><strong>Como a senhora percebe a atual conjuntura do pensamento militar, com o Minist\u00e9rio da Defesa sob comando civil e a presid\u00eancia ocupada por uma ex-guerrilheira?<\/strong><\/p>\n<p>O \u201cpensamento militar\u201d em geral \u00e9 algo dificilmente sond\u00e1vel, no passado como no presente, justamente porque os militares da ativa n\u00e3o s\u00e3o autorizados a adotar publicamente posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Al\u00e9m disso, n\u00e3o acredito que haja um pensamento militar. Para os oficiais que viveram e apoiaram o golpe e a ditadura, a chegada ao poder da Dilma foi obviamente uma derrota hist\u00f3rica e vista como uma amea\u00e7a. Quem \u00e9 hoje tenente ou capit\u00e3o e nem era nascido em 1964 n\u00e3o pode ter a mesma perspectiva sobre essa situa\u00e7\u00e3o. Mas existe claramente uma \u201ccultura institucional\u201d, inclu\u00edda uma \u201ccultura hist\u00f3rica institucional\u201d, que foi transmitida de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, e sobre a qual \u00e9 importante influir democraticamente. Com a abertura de arquivos, a realiza\u00e7\u00e3o de pesquisas sobre o per\u00edodo e a divulga\u00e7\u00e3o dos trabalhos da Comiss\u00e3o da Verdade, por exemplo.<\/p>\n<p><strong>Moralismo e apolitismo e nacionalismo foram instrumentos fortes da ideologia linha-dura. Hoje eles parecem alimentar outros estratos conservadores da sociedade. H\u00e1 o risco de uma nova onda reacion\u00e1ria baseada naqueles elementos?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 muito dif\u00edcil dizer. Essa cultura pol\u00edtica, autorit\u00e1ria, que n\u00e3o foi sempre nacionalista, existe no Brasil desde o in\u00edcio do s\u00e9culo 20. Ela, em si, n\u00e3o provoca golpes de Estado e ditaduras. Mas me parece que o desprezo radical pelo mundo pol\u00edtico, por ser considerado inerentemente corrupto, fraco e interesseiro \u2013 que eu n\u00e3o chamaria de \u201capolitismo\u201d, mas de uma cultura \u201cantipol\u00edtica civil\u201d \u2013, fragiliza qualquer democracia.<\/p>\n<p><strong>O conhecimento sobre o pensamento pol\u00edtico do Ex\u00e9rcito \u00e9 relativamente recente no Brasil e vem sendo estudado a partir de novas fontes, muitas delas ainda secretas. O que falta pesquisar sobre as For\u00e7as Armadas e sua participa\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria brasileira contempor\u00e2nea?<\/strong><\/p>\n<p>Falta pesquisar muita coisa, pois por enquanto h\u00e1 pouqu\u00edssimos arquivos liberados. S\u00f3 sobre o per\u00edodo do regime militar, que conhe\u00e7o melhor, precisamos de arquivos para poder pesquisar as conex\u00f5es entre fac\u00e7\u00f5es militares e grupos ativistas civis, a integra\u00e7\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o ao aparelho repressivo nas carreiras profissionais dos militares, e a evolu\u00e7\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o dos militares no p\u00f3s-ditadura, entre outras coisas.<\/p>\n<p>http:\/\/sergyovitro.blogspot.com.br\/2012\/03\/entrevista-maud-chiriohistoriadora.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\n\n\n\n\n\n\n\n\n\nArmadas durante o per\u00edodo da ditadura militar brasileira e desvenda o falso apolitismo por parte dos generais \nJo\u00e3o Paulo\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2654\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[106],"tags":[],"class_list":["post-2654","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c119-olhovivo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-GO","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2654","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2654"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2654\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2654"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2654"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2654"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}