{"id":26542,"date":"2020-12-06T22:18:55","date_gmt":"2020-12-07T01:18:55","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26542"},"modified":"2023-02-26T01:00:51","modified_gmt":"2023-02-26T04:00:51","slug":"as-eleicoes-municipais-no-brasil-e-o-teorema-da-luta-de-classes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26542","title":{"rendered":"As elei\u00e7\u00f5es municipais no Brasil e o teorema da luta de classes"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/pw\/ACtC-3dTt2ILjdI1qGOiceTSFsCv7aqNn7_21NlgDQ-xdeuMdLjGCJssyMMZaxnK3k0Ui4dxm7xYusGATZpRrucssvYVDAhUAoJhER76Tb4Z-GfrvQVSaZo-xOIIJ8Dzl9TYvGNqiF3VutyZn3CUGQPl17my=w502-h326-no\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Edmilson Costa*<\/p>\n<p>O Brasil realizou em novembro as elei\u00e7\u00f5es municipais nos 5.569 munic\u00edpios do Pa\u00eds em dois turnos: o primeiro turno em 15 de novembro e o segundo em 29 de novembro. Estavam aptos a votar 147,9 milh\u00f5es de eleitores, mas houve uma absten\u00e7\u00e3o de cerca de 29% no primeiro turno e 31% no segundo turno. N\u00e3o participam do processo eleitoral Bras\u00edlia e Fernando de Noronha, onde s\u00e3o realizadas apenas elei\u00e7\u00f5es gerais. De todos os Estados, S\u00e3o Paulo \u00e9 o que possui o maior n\u00famero de eleitores, 33,56 milh\u00f5es, enquanto a capital do Estado tem 8,98 milh\u00f5es de eleitores, e a pequena cidade de Aragua\u00edna, no Mato Grosso, \u00e9 o menor munic\u00edpio, com apenas 1.100 eleitores. Do conjunto dos eleitores, 52,49% \u00e9 constitu\u00eddo por mulheres, enquanto 47,51% s\u00e3o de homens. Para efeito de an\u00e1lise vamos nos concentrar nas cidades do Pa\u00eds com mais de 200 mil eleitores, onde pode ocorrer segundo turno. Essas cidades representam os maiores conglomerados urbanos do Pa\u00eds, sendo justamente nesses espa\u00e7os onde se concentra a maioria do proletariado brasileiro e onde pulsa mais efetivamente a luta de classes.<\/p>\n<p>\u00c9 importante esclarecer ainda que as elei\u00e7\u00f5es nas sociedades capitalistas e, especialmente no Brasil, funcionam como uma esp\u00e9cie de espelho distorcido da luta social, uma vez que, em todas as elei\u00e7\u00f5es, as maiorias sociais costumeiramente s\u00e3o transformadas em minorias na representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica institucional. Isso ocorre porque as elei\u00e7\u00f5es s\u00e3o marcadas por um conjunto de condicionalidades, tais como a domina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica da burguesia, afinal as ideias hegem\u00f4nicas nas sociedades capitalistas s\u00e3o as ideias das classes dominantes; o poder econ\u00f4mico dos capitalistas, que financia e promove por meios legais e ilegais os seus representantes institucionais; as m\u00e1quinas administrativas tanto na esfera federal, estadual e municipal, especialmente nas pequenas e m\u00e9dias cidades; al\u00e9m de um limitado trabalho de base por parte da esquerda junto ao proletariado e a popula\u00e7\u00e3o pobre das periferias, tanto em fun\u00e7\u00e3o dos anos de concilia\u00e7\u00e3o de classe, que desarmaram e apassivaram os trabalhadores, quanto porque a esquerda classista ainda n\u00e3o reuniu for\u00e7as para reverter a despolitiza\u00e7\u00e3o e se colocar como alternativa nos locais de trabalho e moradia.<\/p>\n<p>Vale tamb\u00e9m lembrar que as elei\u00e7\u00f5es municipais ocorreram num per\u00edodo at\u00edpico da conjuntura brasileira, em consequ\u00eancia da pandemia, do distanciamento social, da inviabilidade de grandes concentra\u00e7\u00f5es de massa e da ofensiva neofascista do governo Bolsonaro, cujo governo tem sido de restri\u00e7\u00e3o permanente e cerco \u00e0s liberdades democr\u00e1ticas. Al\u00e9m disso, as elei\u00e7\u00f5es municipais, especialmente nas pequenas e m\u00e9dias cidades, possuem uma din\u00e2mica diferente das elei\u00e7\u00f5es nacionais porque est\u00e3o muito mais vinculadas aos problemas locais do que \u00e0s grandes quest\u00f5es nacionais, al\u00e9m das tradicionais press\u00f5es das oligarquias, muito mais pr\u00f3ximas dos eleitores que nas grandes cidades. Como nos grandes centros urbanos o n\u00edvel de circula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es \u00e9 bem maior e a estrutura da educa\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m mais elevada que nas pequenas cidades, \u00e9 exatamente nas grandes metr\u00f3poles onde se encontram as principais organiza\u00e7\u00f5es dos trabalhadores, o espa\u00e7o onde as contradi\u00e7\u00f5es de classes s\u00e3o mais vis\u00edveis e o n\u00edvel de a\u00e7\u00e3o das grandes massas \u00e9 mais intenso. Por isso, a import\u00e2ncia de analisarmos as 95 cidades com mais de 200 mil eleitores porque esses espa\u00e7os geogr\u00e1ficos determinam a din\u00e2mica da luta de classes no Brasil.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dessas quest\u00f5es, n\u00e3o podemos esquecer que esse pleito municipal ocorreu ap\u00f3s o tsunami das elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2018, quando Bolsonaro e a extrema-direita atropelaram n\u00e3o s\u00f3 a esquerda e a centro-esquerda, mas a pr\u00f3pria direita cl\u00e1ssica, que sempre teve maioria nas elei\u00e7\u00f5es municipais. Naquela conjuntura, parecia que o mundo tinha virado de cabe\u00e7a para baixo. Pela primeira vez no p\u00f3s-guerra uma extrema-direita neofascista, com um programa expl\u00edcito de extrema-direita, ganhara as elei\u00e7\u00f5es de forma acachapante no pa\u00eds. Tamanha foi a for\u00e7a de Bolsonaro naquela elei\u00e7\u00e3o que bastava um candidato se proclamar bolsonarista para ser eleito. Aquela conjuntura abriu espa\u00e7o para todo tipo de aventureiro, oportunista e para o lumpesinato politico tosco e desqualificado ganhar um mandato eleitoral. Resultado disso s\u00e3o as centenas de deputados federais, al\u00e9m de senadores e governadores, sem nenhuma express\u00e3o pol\u00edtica que hoje dirigem v\u00e1rios Estados. Nem eles mesmos acreditavam em sua elei\u00e7\u00e3o um m\u00eas antes do pleito.<\/p>\n<p>A derrota do bolsonarismo<\/p>\n<p>Feitas essas observa\u00e7\u00f5es iniciais, n\u00e3o vamos nos ater apenas aos aspectos quantitativos das elei\u00e7\u00f5es municipais, mesmo sabendo que essa dimens\u00e3o tem grande import\u00e2ncia, mas n\u00e3o define a din\u00e2mica da luta pol\u00edtica. Nos munic\u00edpios menores, em sua grande maioria, a pol\u00edtica \u00e9 dominada pelas classes dominantes tradicionais pelos motivos que j\u00e1 abordamos. Serve para garantir maiorias nas casas legislativas locais e no Congresso Nacional, mas tem pouca relev\u00e2ncia na din\u00e2mica geral da luta de classes.<\/p>\n<p>Portanto, avaliar as elei\u00e7\u00f5es a partir das grandes cidades com mais de 200 mil habitantes nos permite ter uma dimens\u00e3o mais qualitativa da luta de classes, do estado de \u00e2nimo da popula\u00e7\u00e3o e da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as no pa\u00eds. O Brasil possui 95 cidades com mais de 200 mil eleitores. No primeiro turno, a direita tradicional ganhou em 35 delas e a centro-esquerda em apenas duas e os bolsonaristas em nenhuma. Ou seja, desde o primeiro turno j\u00e1 se podia observar que a direita tradicional tinha se recuperado da derrota que sofreu em 2018 para a extrema-direita, fato que viria a se confirmar com o resultado das elei\u00e7\u00f5es no segundo turno.<\/p>\n<p>Numa primeira aproxima\u00e7\u00e3o anal\u00edtica pode-se dizer com seguran\u00e7a que a extrema-direita e Bolsonaro particularmente sa\u00edram bastante enfraquecidos das elei\u00e7\u00f5es. Para se ter uma ideia, o presidente apoiou diretamente 63 aliados entre candidatos a prefeito e vereador, conseguindo eleger apenas nove, dos quais somente um em capitais.<\/p>\n<p>Nessas elei\u00e7\u00f5es ocorreu o contr\u00e1rio das elei\u00e7\u00f5es passadas: Bolsonaro funcionou como uma esp\u00e9cie de dedo podre, pois os candidatos que indicava perdiam imediatamente prest\u00edgio eleitoral junto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Os casos t\u00edpicos ocorreram nas duas maiores cidades do pa\u00eds, S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro. Como Bolsonaro \u00e9 o principal inimigo dos trabalhadores, da juventude e do povo pobre das periferias, a derrota pol\u00edtica de seus aliados tem um significado importante porque indica que as ideias que foram vitoriosas em 2018, apenas dois anos depois foram derrotadas de Norte a Sul do pa\u00eds. No entanto, ainda sobrevive um restolho neofascista a ser derrotado, uma vez que muitos candidatos bolsonaristas tiveram mais de 40% dos votos em grandes cidades. Mas tudo leva a crer que sua popularidade tende a se reduzir, tanto porque seu mentor pol\u00edtico foi derrotado nos Estados Unidos, o que o deixa sem norte e sem rumo, quanto porque seu governo tem sido um desastre do ponto de vista econ\u00f4mico, pol\u00edtico, social e sanit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Alguns elementos muito importantes a ser levados em conta est\u00e3o relacionados \u00e0 queda de alguns mitos que estiveram em alta nas elei\u00e7\u00f5es passadas. O primeiro deles \u00e9 o fato de que os evang\u00e9licos pentecostais eram capazes de definir qualquer elei\u00e7\u00e3o. N\u00e3o foi o que ocorreu. Grande parte dos candidatos que apelaram ao fundamentalismo religioso, que funcionou no passado, foram derrotados. Al\u00e9m disso, os candidatos que apelaram para a pauta de costumes, agitando bandeiras ultraconservadoras, tamb\u00e9m n\u00e3o obtiveram grande \u00eaxito. Da mesma forma que as fake news n\u00e3o obtiveram o resultado que almejavam. Ou seja, o preconceito, a misoginia, o racismo e a onda ultraconservadora sa\u00edram enfraquecidos nestas elei\u00e7\u00f5es. Falaram mais alto a crise econ\u00f4mica, o desemprego e as p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de vida da popula\u00e7\u00e3o, o que mais uma vez vem demonstrar a centralidade da luta de classes, cujos desdobramentos tanto no terreno social quanto no pol\u00edtico ou eleitoral est\u00e3o acima das velhas catilin\u00e1rias do discurso reacion\u00e1rio. \u00c9 bem verdade que, em um ou outro local, esse discurso ainda teve for\u00e7a, como em Pernambuco e Porto Alegre, mas no geral foi um fracasso.<\/p>\n<p>Bolsonaro n\u00e3o compreendeu que sua popularidade n\u00e3o era a mesma do per\u00edodo em que se elegeu presidente e que a conjuntura brasileira tinha mudado nesses \u00faltimos dois anos. Ele at\u00e9 ensaiou um discurso de que n\u00e3o iria interferir no pleito quando foram definidas as datas da elei\u00e7\u00e3o. Possivelmente teria sido aconselhado por algum assessor sobre a possibilidade de uma derrota e a repercuss\u00e3o que isso poderia ter em suas aspira\u00e7\u00f5es eleitorais. Mas Bolsonaro, como de costume, n\u00e3o se conteve e come\u00e7ou a fazer lives com apoio a candidatos a prefeito e vereador de sua trupe, especialmente aqueles mais alinhados com o seu discurso de \u00f3dio, como aconteceu em S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Fortaleza e Manaus, todas essas grandes e m\u00e9dias capitais de Estados brasileiros. Em algumas dessas cidades ocorreram fatos inusitados como candidatos que, sentindo a queda de popularidade nas pesquisas eleitorais ap\u00f3s o apoio de Bolsonaro, come\u00e7aram a se distanciar do presidente, mas j\u00e1 era tarde. Esses fatos podem ser considerados, no m\u00ednimo, como uma desmoraliza\u00e7\u00e3o para quem se imaginava um mito em consequ\u00eancia da vit\u00f3ria nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais.<\/p>\n<p>Os vencedores das elei\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p>Os grandes vencedores das elei\u00e7\u00f5es municipais no Brasil, inclusive nas maiores concentra\u00e7\u00f5es populacionais, foram os partidos da direita cl\u00e1ssica, que agora procuram se fantasiar de centro, buscando assim se diferenciar de Bolsonaro. A vit\u00f3ria desses partidos significa que ocorreu um deslocamento da extrema-direita para a direita tradicional e que esses partidos se recuperaram da derrota de 2018 para a extrema-direita bolsonarista. Parece que as classes dominantes, incomodadas com as bizarrices do governo Bolsonaro, resolveram restabelecer suas lideran\u00e7as org\u00e2nicas e a representa\u00e7\u00e3o tradicional, inclusive com um processo de renova\u00e7\u00e3o das oligarquias. Eles concordam com a pol\u00edtica de terra arrasada e o ataque aos direitos e sal\u00e1rios dos trabalhadores e pensionistas, mas as fanfarronices de Bolsonaro e sua pol\u00edtica externa bizarra, especialmente no caso da China e do meio ambiente, estavam prejudicando os neg\u00f3cios e levando a enfrentamentos desnecess\u00e1rios. \u00c9 bom lembrar que a China \u00e9 o maior parceiro comercial do Brasil e todo o setor do agroneg\u00f3cio depende das exporta\u00e7\u00f5es para a China.<\/p>\n<p>Em outras palavras, para a direita cl\u00e1ssica, esse resultado eleitoral restaura seu dom\u00ednio tradicional tanto nos parlamentos municipais quanto nas prefeituras, inclusive com novos personagens reciclados buscando se diferenciar, especialmente naquilo que \u00e9 mais bizarro no governo Bolsonaro e que n\u00e3o coloca em xeque o dom\u00ednio burgu\u00eas, como a quest\u00e3o da pandemia e da ci\u00eancia, al\u00e9m da quest\u00e3o diplom\u00e1tica. A conjuntura pode estar indicando que o bolsonarismo foi uma esp\u00e9cie de acidente ocasional, necess\u00e1rio como uma esp\u00e9cie de freio de arruma\u00e7\u00e3o, como instrumento para realizar o trabalho sujo num momento de crise, mas que agora se torna inc\u00f4modo.<\/p>\n<p>No entanto, a direita tradicional enfrenta um dilema bastante dif\u00edcil de resolver: a pol\u00edtica econ\u00f4mica desenvolvida por Bolsonaro \u00e9 a mesma que as classes dominantes vinham aplicando desde o golpe de 2016 com Michel Temer e \u00e9 apoiada por praticamente todos os setores dominantes, mas a crise econ\u00f4mica e o fundamentalismo ortodoxo do ministro Paulo Guedes e sua insanidade em continuar a defesa do teto dos gastos aprofundam a crise econ\u00f4mica e inviabilizam qualquer tipo de retomada da economia a partir dos investimentos p\u00fablicos. Essa \u00e9 uma receita que em algum momento n\u00e3o muito distante pode levar a uma explos\u00e3o social em consequ\u00eancia do fim do aux\u00edlio emergencial, do elevado desemprego, do aumento da infla\u00e7\u00e3o e do aprofundamento da pobreza e das p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de maioria da popula\u00e7\u00e3o. E a insatisfa\u00e7\u00e3o popular nas ruas \u00e9 tudo que a direita teme.<\/p>\n<p>Mesmo fortalecida, a direita tradicional tamb\u00e9m n\u00e3o quer o impeachment do governo, o que n\u00e3o seria muito dif\u00edcil diante de seu fortalecimento e da maioria parlamentar no Congresso. Mas teme que um processo dessa ordem possa colocar em risco seu pr\u00f3prio dom\u00ednio e aquilo que imagina que seria um desdobramento natural das elei\u00e7\u00f5es de 2018 &#8211; a vit\u00f3ria em 2022. Al\u00e9m disso, a burguesia teme ainda a rea\u00e7\u00e3o das hordas bolsonaristas diante da deposi\u00e7\u00e3o de seu l\u00edder e tamb\u00e9m que uma crise provocada por um impeachment, aliada \u00e0 crise econ\u00f4mica e social brasileira, desperte a revolta latente das ruas e ponha em cheque seus planos para a elei\u00e7\u00e3o presidencial. Por isso prefere o desgaste lento e gradual de Bolsonaro, espera que ele continue fazendo o trabalho sujo na economia e nas rela\u00e7\u00f5es sociais, at\u00e9 chegar muito enfraquecido em 2022, o que abriria caminho para o dom\u00ednio cl\u00e1ssico da direita tradicional. N\u00e3o se pode prever ainda como evoluir\u00e1 a conjuntura do ponto de vista institucional, mas com certeza teremos at\u00e9 as elei\u00e7\u00f5es presidenciais um acirramento da luta de classes e possivelmente a emerg\u00eancia da luta popular como j\u00e1 est\u00e1 ocorrendo em v\u00e1rias partes do mundo.<\/p>\n<p>Vejamos de maneira factual os resultados do segundo turno das elei\u00e7\u00f5es municipais: novamente, a direita cl\u00e1ssica ganhou na grande maioria das cidades, consolidando seu desempenho do primeiro turno. Das 57 cidades em que houve disputa para o segundo turno, o PT disputou em 15, o PDT quatro e o PSB em sete, o PSOL em duas e o PC do B em uma. Ao final das elei\u00e7\u00f5es, O PT ganhou em quatro dessas cidades, o PDT e o PSB em tr\u00eas cada e o PSOL ganhou em uma capital.<\/p>\n<p>Aparentemente, tratou-se de um resultado matematicamente desfavor\u00e1vel \u00e0s for\u00e7as de esquerda e centro-esquerda, afinal a direita tradicional ganhou tanto no primeiro quanto no segundo turno a maioria das grandes cidades brasileiras. Se a isso acrescentarmos as vit\u00f3rias eleitorais na grande maioria das pequenas e m\u00e9dias cidades, ent\u00e3o tratar-se-ia efetivamente de uma vit\u00f3ria completa das classes dominantes. No entanto, n\u00e3o podemos ver a din\u00e2mica da luta social apenas pela apar\u00eancia dos fen\u00f4menos: a luta de classes \u00e9 muito mais complexa.<\/p>\n<p>A esquerda avan\u00e7ou nas grandes cidades<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio das an\u00e1lises recorrentes que t\u00eam aparecido nos meios de comunica\u00e7\u00e3o, envolvendo at\u00e9 mesmo v\u00e1rios setores progressistas, acreditamos que ocorreu um avan\u00e7o das for\u00e7as de esquerda, mesmo que estas tenham sido eleitoralmente derrotadas nas principais cidades. O problema \u00e9 que muitos confundem a performance do PT com o desempenho da esquerda em geral e n\u00e3o conseguem captar as novas din\u00e2micas da luta pol\u00edtica nem os novos caminhos que se abrem para outras for\u00e7as de esquerda. Conseguem ver apenas as \u00e1rvores na grande floresta da luta pol\u00edtica e n\u00e3o observam que nas grandes metr\u00f3poles ocorreu a elei\u00e7\u00e3o de um n\u00famero expressivo de vereadores mulheres, negros, LGBTs, quase todos de esquerda, dando uma nova configura\u00e7\u00e3o a essas cidadelas da burguesia, al\u00e9m de um prefeito do PSOL numa grande capital, e a incorpora\u00e7\u00e3o de milhares de ativistas sociais na luta pol\u00edtica. Se levarmos em conta ainda a derrota de 2018, a ofensiva neofascista de Bolsonaro ao longo de seu governo, a pr\u00e1tica anticomunista permanente, a politica de \u00f3dio e todo o retrocesso institucional que ocorreu desde a posse desse governo, um avan\u00e7o da esquerda nos grandes centros urbanos, especialmente em S\u00e3o Paulo, a maior cidade do pa\u00eds e o centro aglutinador do proletariado brasileiro, \u00e9 um feito extraordin\u00e1rio que indica tendencialmente um futuro promissor para a esquerda classista.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de romantizar as derrotas ou buscar sofismas para ofuscar os dados da realidade, mas n\u00e3o \u00e9 correto medir o resultado eleitoral por uma r\u00e9gua puramente matem\u00e1tica. A luta de classes n\u00e3o \u00e9 uma conta de soma e subtra\u00e7\u00e3o: \u00e9 precisar avaliar os movimentos mais profundos da conjuntura para compreender as tend\u00eancias mais gerais que nortear\u00e3o o desenvolvimento da luta social. Como todo espelho distorcido, as elei\u00e7\u00f5es refletiram, nas apar\u00eancias, apenas uma parte de um fen\u00f4meno da luta de classes. A outra parte veremos nos pr\u00f3ximos meses. Portanto, acreditamos que n\u00e3o \u00e9 correta a autoflagela\u00e7\u00e3o que \u00e9 observada em v\u00e1rios setores progressistas. Essa atitude \u00e9 t\u00edpica da pressa pequeno-burguesa, que s\u00f3 leva ao des\u00e2nimo e a paralisia na a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Da mesma forma que n\u00e3o adianta ficar sempre reclamando das manobras das classes dominantes no per\u00edodo eleitoral.<\/p>\n<p>Para a esquerda classista, as elei\u00e7\u00f5es ser\u00e3o sempre desiguais, afinal as classes dominantes possuem o poder econ\u00f4mico, as m\u00e1quinas administrativas federal, estadual e municipal e a hegemonia ideol\u00f3gica da sociedade. Tudo isso \u00e9 verdade e todos sabem que as regras desse jogo s\u00e3o feitas pelo inimigo. Uma vit\u00f3ria da esquerda pode ser considerada um ponto fora da curva e muitas vezes a burguesia sabota esses governos e os derrubam atrav\u00e9s de golpes de Estado. Mas n\u00e3o se pode deixar de registrar o imenso ac\u00famulo para a esquerda classista nessas elei\u00e7\u00f5es, fen\u00f4meno que ser\u00e1 fundamental nas batalhas que vir\u00e3o no pr\u00f3ximo per\u00edodo.<\/p>\n<p>Por isso, as elei\u00e7\u00f5es na cidade de S\u00e3o Paulo merecem uma considera\u00e7\u00e3o especial. Quem poderia imaginar que uma candidatura assumidamente de esquerda (PSOL, PCB e UP), com um l\u00edder oriundo dos movimentos sociais por moradia, com um programa claramente vinculado aos interesses populares, uma campanha sem esconder bandeiras para suavizar a imagem ou a natureza de esquerda da candidatura e apenas 17 segundos de propaganda na televis\u00e3o, fosse capaz de derrotar as siglas tradicionais e disputar o segundo turno na principal cidade do pa\u00eds? Al\u00e9m disso, essa mesma candidatura, com pouqu\u00edssimos recursos comparados aos partidos tradicionais, sem rebaixar o programa, conseguiu atrair mais quatro partidos de centro-esquerda para a campanha e ainda obter mais de 40% dos votos no segundo turno, ganhando em vastas regi\u00f5es da periferia. N\u00e3o \u00e9 pouca coisa: a performance da esquerda em S\u00e3o Paulo tem um significado pol\u00edtico expressivo n\u00e3o s\u00f3 porque projetou uma nova lideran\u00e7a nacional, mas tamb\u00e9m porque demonstrou que se pode disputar uma elei\u00e7\u00e3o sem posar de bom mo\u00e7o para a burguesia. S\u00f3 para lembrar: nas elei\u00e7\u00f5es municipais passadas, o atual governador de S\u00e3o Paulo ganhou as elei\u00e7\u00f5es municipais no primeiro turno.<\/p>\n<p>Aos mais apressados \u00e9 bom refor\u00e7ar: os tempos da vanguarda e da popula\u00e7\u00e3o s\u00e3o assim\u00e9tricos. A milit\u00e2ncia compreende muito mais rapidamente que o proletariado os meandros da conjuntura, pela pr\u00f3pria pr\u00e1tica militante e forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. O proletariado \u00e9 esmagado diariamente pelos aparelhos ideol\u00f3gicos da burguesia, que tentam semear confus\u00e3o e apontam para a busca de solu\u00e7\u00f5es individuais diante dos problemas coletivos, com o objetivo de consolidar a aliena\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o e manter o seu dom\u00ednio. Por isso, pela pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o de vida e luta pela sobreviv\u00eancia, o proletariado demora mais a compreender sua pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o de explorado e oprimido, mas quando essa compreens\u00e3o se torna maioria n\u00e3o tem for\u00e7a capaz de derrot\u00e1-la. Geralmente, a milit\u00e2ncia pequeno-burguesa n\u00e3o compreende essa diferen\u00e7a e sempre quer realizar as mudan\u00e7as de forma r\u00e1pida e autom\u00e1tica, de acordo com seus desejos. E quando isso n\u00e3o acontece, come\u00e7am as frustra\u00e7\u00f5es e as lam\u00farias. De certa forma, \u00e9 o que est\u00e1 acontecendo com v\u00e1rios setores da esquerda. Portanto, para esclarecer o proletariado, capacitar as maiorias para a luta pol\u00edtica, formar lideran\u00e7as e organizar a luta popular, \u00e9 fundamental o trabalho de base permanente nos locais de trabalho, moradia e estudo.<\/p>\n<p>Outro elemento importante dessa conjuntura eleitoral se refere ao desempenho do Partido dos Trabalhadores (PT). Como j\u00e1 afirmamos em trabalhos anteriores, o ciclo das lutas sociais que se iniciou em 1978 com as greves do ABC se fechou dramaticamente com o impeachment da presidente Dilma e todas as organiza\u00e7\u00f5es que nasceram e se desenvolveram nesse ciclo, inclusive o PT, tendem ao esgotamento, em fun\u00e7\u00e3o de sua incapacidade de fazer autocr\u00edtica dos erros do passado e se atualizar para as novas tarefas da luta de classes. Mesmo que o PT n\u00e3o tenha sofrido a mesma hecatombe das elei\u00e7\u00f5es municipais passadas, o partido n\u00e3o conseguiu eleger nenhum prefeito nas capitais, fato que n\u00e3o ocorria h\u00e1 v\u00e1rias d\u00e9cadas, e ganhou em apenas quatro prefeituras das 95 cidades com mais de 200 mil eleitores. No entanto, na maioria das 15 cidades em que disputou o segundo turno, teve em m\u00e9dia mais de 40% dos votos, o que n\u00e3o \u00e9 um desempenho desastroso diante daquilo que muitos prognosticavam. Mas o PT vive uma lenta agonia e, parafraseando Marx, uma esp\u00e9cie de tend\u00eancia declinante da influ\u00eancia social e pol\u00edtica. E tudo indica que continuar\u00e1 essa trajet\u00f3ria em virtude da sua aposta incondicional na institucionalidade.<\/p>\n<p>Podemos dizer que a esquerda no Brasil vive um per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o, em que a hegemonia do PT est\u00e1 sendo bastante reduzida nos centros urbanos, como S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Salvador, Porto Alegre e Fortaleza e novas for\u00e7as e novas lideran\u00e7as est\u00e3o surgindo no cen\u00e1rio pol\u00edtico do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>As perspectivas no pr\u00f3ximo per\u00edodo<\/p>\n<p>O pr\u00f3ximo per\u00edodo da luta social no Brasil ser\u00e1 intenso e qualquer progn\u00f3stico para 2022 ser\u00e1 pura especula\u00e7\u00e3o. At\u00e9 l\u00e1 muita \u00e1gua ainda vai rolar: a luta de classes n\u00e3o vai tirar f\u00e9rias e a pandemia, o fim do aux\u00edlio emergencial, o desemprego, a infla\u00e7\u00e3o e a mis\u00e9ria v\u00e3o acirrar a luta social. N\u00e3o dever\u00e1 ser surpresa para ningu\u00e9m a retomada das greves e das manifesta\u00e7\u00f5es de ruas, a exemplo do que j\u00e1 vem ocorrendo nos Estados Unidos, no Chile, no Peru, na Guatemala, na Fran\u00e7a e na \u00cdndia. Parece que as massas est\u00e3o perdendo a paci\u00eancia com a destrui\u00e7\u00e3o neoliberal, o fascismo de mercado e a pobreza. Como aqui no Brasil todos esses fen\u00f4menos ocorrem com muito mais intensidade, em fun\u00e7\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es cada vez maiores entre uma classe dominante truculenta, que vive nababescamente, e a maioria da popula\u00e7\u00e3o, que se encontra em p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de vida, a luta de classes em nosso pa\u00eds tende mesmo a ser mais acirrada no pr\u00f3ximo per\u00edodo.<\/p>\n<p>As cartas est\u00e3o na mesa e as classes dominantes j\u00e1 se movimentam no sentido de voltar o velho discurso neoliberal e os ataques contra os trabalhadores. A TV Globo, principal monop\u00f3lio de comunica\u00e7\u00f5es do pa\u00eds, procura de todas as formas transformar o resultado eleitoral num instrumento para evitar a ascens\u00e3o de uma esquerda classista, ao fantasiar em seus notici\u00e1rios a velha direita como pol\u00edticos de centro e dizer que os eleitores rejeitaram os extremismos. Buscam assim se afastar de Bolsonaro e condenar as posi\u00e7\u00f5es mais \u00e0 esquerda. Se n\u00e3o existisse o perigo de radicaliza\u00e7\u00e3o das massas a Globo n\u00e3o estaria perdendo tempo em condenar a esquerda. Espertamente, critica alguns aspectos da pol\u00edtica de Bolsonaro, mas defende com \u00eanfase a pol\u00edtica de terra arrasada de Paulo Guedes. Como a Globo \u00e9 uma esp\u00e9cie de porta-voz das classes dominantes, esse monop\u00f3lio midi\u00e1tico procura de todas as formas esconder que essa direita tradicional \u00e9 c\u00famplice da elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro, c\u00famplice dos ataques aos trabalhadores, c\u00famplice do entreguismo e da submiss\u00e3o aos interesses norte-americanos. Ningu\u00e9m pode se enganar com esse canto de sereia: Bolsonaro \u00e9 a cara das classes dominantes brasileiras, que agora est\u00e3o envergonhadas com alguns aspectos bizarros de seu governo, mas esse governo \u00e9 obra de sua pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O governo Bolsonaro saiu das elei\u00e7\u00f5es enfraquecido, perdeu sua refer\u00eancia pol\u00edtica com a derrota de Trump e foi derrotado nas elei\u00e7\u00f5es municipais e agora est\u00e1 ref\u00e9m do Centr\u00e3o, que vai cobrar cada vez mais caro seu apoio ao governo, afinal s\u00e3o profissionais do fisiologismo. Al\u00e9m disso, a crise econ\u00f4mica, social e pol\u00edtica \u00e9 profunda e vai levar as massas, premidas pelo desespero, a se colocarem em movimento contra a pol\u00edtica do governo. Por isso, a conjuntura necessita de propostas claras de mudan\u00e7as e organiza\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n<p>A esquerda deve mudar a t\u00e1tica e passar \u00e0 ofensiva se quiser obter protagonismo na nova conjuntura que se abre em nosso Pa\u00eds. A esquerda classista e as for\u00e7as progressistas em geral devem continuar os esfor\u00e7os para derrotar esse governo e sua pol\u00edtica de terra arrasada, de prefer\u00eancia nas ruas, nos locais de trabalho, estudo e moradia antes de 2022 se a conjuntura permitir. A luta vai ser muito dura, mas \u00e9 necess\u00e1rio que estejamos preparados para enfrentar esse governo em qualquer tipo de conjuntura. Nada de des\u00e2nimo nem autoflagela\u00e7\u00e3o: a conjuntura est\u00e1 favor\u00e1vel \u00e0 den\u00fancia do capitalismo e dos ataques contra os trabalhadores, a projetos claros que apontem no sentido de uma perspectiva anticapitalista e anti-imperialista para o pa\u00eds. \u00c9 hora de agir.<\/p>\n<p>*Edmilson Costa \u00e9 secret\u00e1rio-geral do Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26542\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[363,383],"tags":[219],"class_list":["post-26542","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-pcb-nas-eleicoes-2020","category-pronunciamentos-da-secretaria-geral","tag-manchete"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6U6","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26542","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26542"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26542\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26542"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26542"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26542"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}