{"id":26546,"date":"2020-12-08T21:40:13","date_gmt":"2020-12-09T00:40:13","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26546"},"modified":"2020-12-08T21:40:13","modified_gmt":"2020-12-09T00:40:13","slug":"a-armadilha-do-desenvolvimento-sustentado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26546","title":{"rendered":"A armadilha do desenvolvimento sustentado"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.abrilabril.pt\/sites\/default\/files\/styles\/node_aberto_vp768\/public\/assets\/img\/5668.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->A localidade de Bento Rodrigues foi arrasada pela lama t\u00f3xica da Samarco Minera\u00e7\u00e3o SA, em 5 de novembro de 2015.<br \/>\nA Samarco \u00e9 uma subsidi\u00e1ria da anglo-australiana BHP Hilton e da brasileira Vale, respectivamente a primeira e a quinta maiores mineradoras mundiais.<br \/>\nCr\u00e9ditos \/ Ag\u00eancia Brasil<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Goul\u00e3o<\/p>\n<p>ABRIL ABRIL<\/p>\n<p>A cultura do lucro m\u00e1ximo e sem restri\u00e7\u00f5es continua a se aprimorar. O discurso do desenvolvimento sustentado \u00e9 um dos seus principais suportes propagand\u00edsticos.<\/p>\n<p>E de repente tudo se tornou sustent\u00e1vel. Dos mais solenes discursos dos poderes \u00e0 publicidade mais assanhada instando ao mais desenfreado consumismo, \u00e0 \u00absustentabilidade\u00bb tornou-se um mandamento inapel\u00e1vel. Ignoramos se muitos dos doutrinadores saber\u00e3o do que est\u00e3o a falar. Em prol da sustentabilidade faz-se uma mix\u00f3rdia de conceitos onde cabem a ecologia, o combate \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, a pegada de carbono e respectiva neutraliza\u00e7\u00e3o, o efeito de estufa, o degelo, as energias renov\u00e1veis, o desenvolvimento sustent\u00e1vel; num \u00e1pice, as coisas que consumimos no dia-a-dia tornaram-se recicl\u00e1veis, compost\u00e1veis, biodegrad\u00e1veis, obrigatoriamente biol\u00f3gicas. Circula muito e h\u00e1 constante ru\u00eddo para nos obrigar a assimilar coisas de que a generalidade das pessoas n\u00e3o fazem ideia. Ora, nada disto \u00e9 inocente, conjuntural e fortuito.<\/p>\n<p>\u00abO capitalismo, o monstro cujas entranhas geraram a crise ambiental em que grande parte do planeta est\u00e1 mergulhado, promete agora limpar a sujeira que provocou \u2013 gerando para isso novos neg\u00f3cios\u00bb<\/p>\n<p>Embalados por t\u00e3o poderosa quanto compuls\u00f3ria campanha, caminhamos assim, promete-se, para o melhor dos mundos. E, milagre dos milagres, nada mudou para que isso acontecesse, a n\u00e3o ser \u00aba consci\u00eancia\u00bb do sistema. O capitalismo, o monstro cujas entranhas geraram a crise ambiental em que grande parte do planeta est\u00e1 mergulhado, promete agora limpar a sujeira que provocou \u2013 gerando para isso novos neg\u00f3cios. E j\u00e1 sabe como vai faz\u00ea-lo: atrav\u00e9s do desenvolvimento sustentado. Isto \u00e9, o capitalismo, na sua vers\u00e3o mais agressiva, o neoliberalismo, tornou-se \u00abverde\u00bb, ecologicamente correto.<\/p>\n<p>Alcan\u00e7ou-se assim a quadratura do c\u00edrculo. E, a par da crise ambiental, estamos agora mergulhados tamb\u00e9m na mais insustent\u00e1vel das mentiras.<\/p>\n<p>Mentindo desde 1987<br \/>\nFoi em 1987 que, atrav\u00e9s do chamado \u00abRelat\u00f3rio Brundtland\u00bb, a Comiss\u00e3o Mundial do Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU cunhou o conceito de desenvolvimento sustentado ou sustent\u00e1vel. O que corresponderia a \u00absatisfazer as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gera\u00e7\u00f5es futuras em suprir as suas pr\u00f3prias necessidades\u00bb. Para isso funcionar haveria, pois, que \u00absatisfazer as necessidades do presente\u00bb, meta da qual nos vamos afastando cada vez mais; e haveria tamb\u00e9m, nos termos do documento, que \u00abcriar e aplicar novas normas para o comportamento pessoal e rec\u00edproco no n\u00edvel do indiv\u00edduo em todos os pa\u00edses, a fim de alcan\u00e7ar o desenvolvimento sustent\u00e1vel\u00bb. O m\u00e9todo a seguir: o ardil da propaganda.<\/p>\n<p>A partir de ent\u00e3o, a sustentabilidade transformou-se num chav\u00e3o, numa muleta sem\u00e2ntica para garantir o respeito ambiental sempre que seja necess\u00e1rio vender uma inten\u00e7\u00e3o, promessa ou decis\u00e3o do sistema dominante. Na d\u00e9cada de noventa do s\u00e9culo passado, segundo t\u00e9cnicos que trabalharam na institui\u00e7\u00e3o, o Banco Mundial inseria pelo menos uma vez por p\u00e1gina dos seus documentos e relat\u00f3rios as palavras \u00absustent\u00e1vel\u00bb e \u00absustentabilidade\u00bb. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio recordar o papel do Banco Mundial como pilar do autoritarismo neoliberal e da asfixia globalista. Mas, para que conste, a sua conduta ecologicamente correta dir-se-\u00e1 irrepreens\u00edvel.<\/p>\n<p>Digamos que o conte\u00fado do citado \u00abRelat\u00f3rio Brundtland\u00bb foi o primeiro ataque em forma do capitalismo nos terrenos da ecologia e das preocupa\u00e7\u00f5es ambientais e pacifistas que emergiram com pujan\u00e7a na d\u00e9cada de oitenta, precisamente como oposi\u00e7\u00e3o ao aumento do poder predador do sistema imperial dominante. Na Alemanha Federal, o Partido Verde conseguiu afirmar-se e quebrar o monop\u00f3lio bipartid\u00e1rio; \u00e9 importante n\u00e3o confundi-lo, por\u00e9m, com o atual Partido Verde alem\u00e3o e respectivas sequelas transnacionais, convertidos ao colaboracionismo dentro do sistema neoliberal, de que \u00e9 exemplo maior o grupo Verde no Parlamento Europeu.<\/p>\n<p>A convers\u00e3o, ali\u00e1s, foi bastante r\u00e1pida. Durante a d\u00e9cada de noventa, com o conceito de \u00absustentabilidade\u00bb afirmando-se de vento em popa, os Verdes alem\u00e3es chegaram ao governo e ent\u00e3o foi poss\u00edvel observar como assumiram, sem pestanejar, o militarismo atlantista na guerra contra a Jugosl\u00e1via e o bombardeamento criminoso sobre Belgrado, em 1999. Joscka Fischer, o carism\u00e1tico chefe dos Verdes, era ent\u00e3o o ministro alem\u00e3o dos Neg\u00f3cios Estrangeiros, portanto mergulhado at\u00e9 aos cabelos nesta guerra de facto nada sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Dez a 15 anos antes, por\u00e9m, o cen\u00e1rio era ainda bem diferente. Os Verdes alem\u00e3es engrossaram o grandioso movimento de massas em que as preocupa\u00e7\u00f5es ambientais se manifestavam juntamente com a oposi\u00e7\u00e3o ao militarismo e \u00e0 instala\u00e7\u00e3o no continente europeu de uma nova gera\u00e7\u00e3o de armas nucleares norte-americanas. Foram os tempos das gigantescas Marchas da Paz em toda a Europa, em que as preocupa\u00e7\u00f5es com a sobreviv\u00eancia do planeta abrangiam, de facto, todas as insustent\u00e1veis formas de destrui\u00e7\u00e3o, desde a degrada\u00e7\u00e3o ambiental, a rapina de recursos naturais \u00e0 guerra. Ent\u00e3o, o neoliberalismo em vez de combater frontalmente esse movimento dividiu-o e assimilou parte, chamando a si a ecologia. E assim nasceu o desenvolvimento sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Um sil\u00eancio insustent\u00e1vel<br \/>\nHoje, quando tudo se tornou sustent\u00e1vel, a campanha pretensamente em defesa do planeta tornou-se bastante mais seletiva.<\/p>\n<p>E da mesma maneira que os partidos oficiais ecologistas foram convertidos \u00e0 sustentabilidade regimental, deste conceito desapareceram atividades como a guerra, a rapina de recursos naturais, a produ\u00e7\u00e3o de lixeiras consumistas e a intoxicante agricultura transnacional predadora, entre muitas outras.<\/p>\n<p>Essas pr\u00e1ticas sumiram-se da campanha de propaganda em torno da sustentabilidade por serem insustent\u00e1veis para o planeta e a esmagadora maioria dos seus habitantes?<\/p>\n<p>Nada disso. Apenas porque o sistema neoliberal e respectivas c\u00e2maras de eco fabricaram os seus pr\u00f3prios e inatac\u00e1veis modelos de sustentabilidade e de agress\u00e3o ambiental, excluindo deles todas as a\u00e7\u00f5es que devem ser ignoradas sempre que se fale da destrui\u00e7\u00e3o do planeta e, por isso, n\u00e3o cabem nos soundbites pol\u00edticos e publicit\u00e1rios. Ou seja, os predadores do planeta, que s\u00e3o os mesmos que se apropriaram da sua pretensa salva\u00e7\u00e3o, reconhecem a crise ambiental mas tentam esconder que \u00e9 um resultado inevit\u00e1vel do modo capitalista de produ\u00e7\u00e3o e consumo. Ora, como todos sabemos, o capitalismo nasceu e cresceu com base na extors\u00e3o dos recursos da Terra.<\/p>\n<p>Hist\u00f3rias da Carochinha<br \/>\nO resto da estrat\u00e9gia de constru\u00e7\u00e3o do mito da sustentabilidade \u00e9 buscado atrav\u00e9s de lavagens cerebrais, entretendo os cidad\u00e3os com infind\u00e1veis hist\u00f3rias da Carochinha elaboradas a partir das inconsequentes cimeiras clim\u00e1ticas da ONU, de agendas e recomenda\u00e7\u00f5es produzidas, com ou sem chancela das Na\u00e7\u00f5es Unidas, pelos poderes globalistas respons\u00e1veis pela trag\u00e9dia ambiental.<\/p>\n<p>Se o leitor visitar websites de alguns dos principais predadores do planeta, com atividades que v\u00e3o desde a explora\u00e7\u00e3o de combust\u00edveis f\u00f3sseis, as ind\u00fastrias mineiras at\u00e9 \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de armamentos, todos eles prometem ser \u00abneutros em carbono\u00bb at\u00e9 2050, enquanto garantem apoiar a\u00e7\u00f5es sustent\u00e1veis atrav\u00e9s de mil e uma medidas. Entretanto, continuam a fazer o mesmo de sempre, a emitir gases com efeito de estufa, a encher o mundo de cidad\u00e3os sem direitos nem acesso a bens e recursos essenciais, a arrasar meio planeta atrav\u00e9s de conflitos de \u00edndole colonial.<\/p>\n<p>A BP, por exemplo, foi respons\u00e1vel pelo gigantesco desastre ambiental decorrente da explos\u00e3o da plataforma petrol\u00edfera Deepwater Horizon, abstendo-se, entretanto, de completar o trabalho de limpeza das \u00e1reas atingidas. Hoje \u00abconduz carbono neutro\u00bb, isto \u00e9, garante a todos os consumidores que se abaste\u00e7am nos seus postos de combust\u00edveis que est\u00e3o tendo comportamento \u00absustent\u00e1vel\u00bb porque os efeitos poluentes da gasolina ou gas\u00f3leo que utilizarem s\u00e3o \u00abcompensados\u00bb pelo patroc\u00ednio de a\u00e7\u00f5es como a compra de cr\u00e9ditos de carbono \u00abgerados a partir de projetos globais\u00bb, ou a planta\u00e7\u00e3o de \u00e1rvores algures na Z\u00e2mbia, M\u00e9xico ou \u00cdndia \u2013 poupando-se assim \u00abdois milh\u00f5es de toneladas de carbono por ano\u00bb. Entretanto, o sistema dominante e os seus subprodutos arrasam milh\u00f5es de hectares de florestas em todo o mundo, da Amaz\u00f4nia \u00e0 Europa Ocidental, passando pela Calif\u00f3rnia.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, a BP e as suas concorrentes aceleram a explora\u00e7\u00e3o e pesquisa de combust\u00edveis f\u00f3sseis em todo o mundo \u2013 e certamente n\u00e3o ser\u00e1 para que as jazidas fiquem de pousio. Ser\u00e3o exploradas at\u00e9 ao \u00faltimo mililitro, incluindo os provenientes de fratura hidr\u00e1ulica (fracking), atividade ainda mais insustent\u00e1vel para as terras e as \u00e1guas atingidas.<\/p>\n<p>Por isso, e apesar de todos os avan\u00e7os em energias renov\u00e1veis, os combust\u00edveis f\u00f3sseis s\u00e3o ainda respons\u00e1veis por 80% do fluxo energ\u00e9tico mundial.<\/p>\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o obriga a refletir sobre o significado dos ve\u00edculos el\u00e9tricos na propaganda da sustentabilidade. Embora n\u00e3o poluam com emiss\u00f5es de carbono, essas viaturas consomem energia resultante de combust\u00edveis f\u00f3sseis, sem contar com a explora\u00e7\u00e3o n\u00e3o sustentada de recursos naturais, principalmente o l\u00edtio, que s\u00e3o componentes essenciais das baterias. Portando, \u00e0s custas das emiss\u00f5es \u00abzero carbono\u00bb da chamada \u00abmobilidade el\u00e9trica\u00bb existe o lan\u00e7amento de gases com efeito de estufa na atmosfera praticamente ao ritmo de sempre; al\u00e9m de atividades mineiras n\u00e3o sustent\u00e1veis.<\/p>\n<p>\u00ab\u00c9 uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia da humanidade: se todos os pa\u00edses emergentes como Brasil, China ou \u00cdndia, por exemplo, decidirem copiar o estilo de vida dos pa\u00edses desenvolvidos ser\u00e3o necess\u00e1rios cinco planetas Terra para atender ao aumento da procura\u00bb<\/p>\n<p>Sha Zukang, diplomata chin\u00eas (2012)<\/p>\n<p>Quando se fala na propaganda sobre as pretensas atividades sustent\u00e1veis dos produtores de combust\u00edveis podem igualmente ser abordados os comportamentos das transnacionais dos refrigerantes e do setor agroalimentar. Dizendo-se muito empenhadas na sustentabilidade \u2013 a Nestl\u00e9 promete borras de caf\u00e9 transformadas em gr\u00e3os de arroz \u2013 est\u00e3o envolvidas, por exemplo, na explora\u00e7\u00e3o desenfreada e a pre\u00e7os irris\u00f3rios dos recursos aqu\u00edferos quando as car\u00eancias de \u00e1gua atingem pelo menos um bilh\u00e3o de pessoas no mundo. E a privatiza\u00e7\u00e3o da \u00e1gua apenas agravar\u00e1 esse problema, aprofundado ainda pelo aquecimento global.<\/p>\n<p>Quando ao agroneg\u00f3cio, \u00e9 conhecida a atividade de grandes grupos como a Monsanto que, desde o envenenamento das terras com pesticidas \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica, multiplicam atividades nocivas para os seres humanos e o ambiente. \u00c9 dif\u00edcil acreditar que a sustentabilidade passe por aqui.<\/p>\n<p>Insustent\u00e1vel<br \/>\nEmbora se fale at\u00e9 \u00e0 exaust\u00e3o em desenvolvimento sustent\u00e1vel, a generalidade das pessoas desconhece do que se trata \u2013 e tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o muitos os esfor\u00e7os para inform\u00e1-las. Desenvolvimento sustentado seria a capacidade de travar ou compensar as atividades que provocam danos irrevers\u00edveis ao planeta atrav\u00e9s da ruptura de ecossistemas, de modo que houvesse soma zero entre preju\u00edzos e vantagens. Um equil\u00edbrio ideal, sempre prec\u00e1rio e delicado na sua din\u00e2mica, perfeitamente incompat\u00edvel com o modo como o mundo funciona sob o poder neoliberal de tend\u00eancia global.<\/p>\n<p>\u00abOs efeitos nocivos de 30 ou 40 anos de interven\u00e7\u00e3o intensiva [de explora\u00e7\u00e3o mineira], entre desperd\u00edcios, venenos, desertifica\u00e7\u00e3o e altera\u00e7\u00f5es geol\u00f3gicas, demoram centenas, milhares de anos para desaparecer. S\u00e3o feridas que ficam e que teriam de ser inseridas nas contas de sustentabilidade de uma teoria ecol\u00f3gica s\u00e9ria\u00bb<\/p>\n<p>A imposi\u00e7\u00e3o desse poder atrav\u00e9s dos padr\u00f5es industrializados e consumistas decorrentes da ideologia de livre mercado como modelo civilizacional \u00fanico torna imposs\u00edvel que o desenvolvimento sustentado seja alcan\u00e7ado por este caminho. Em mar\u00e7o de 2012, na chamada \u00abConfer\u00eancia do Rio + 20\u00bb, o diplomata chin\u00eas Sha Zukang, na altura secret\u00e1rio-geral adjunto das Na\u00e7\u00f5es Unidas respons\u00e1vel pelo Departamento dos Assuntos Econ\u00f3micos e Sociais, foi muito claro sobre as consequ\u00eancias dessa forma de globalismo: \u00ab\u00c9 uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia da humanidade: se todos os pa\u00edses emergentes como Brasil, China ou \u00cdndia, por exemplo, decidirem copiar o estilo de vida dos pa\u00edses desenvolvidos ser\u00e3o necess\u00e1rios cinco planetas Terra para atender ao aumento da procura\u00bb.<\/p>\n<p>Est\u00e1 \u00e0 vista de todos que a pol\u00edtica de desenvolvimento sustentado apregoada pelos grandes poderes ocidentais e as inst\u00e2ncias do globalismo neoliberal como o FMI, o Banco Mundial e o F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial, assenta numa mentalidade colonial.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 segredo que as grandes pot\u00eancias, no atual modelo econ\u00f4mico, n\u00e3o conseguem sobreviver com os pr\u00f3prios recursos. Essa \u00e9 uma das origens essenciais dos comportamentos dominantes para impor o modelo neoliberal global: a guerra, a corrida \u00e0s mat\u00e9rias-primas e a elimina\u00e7\u00e3o de fronteiras e soberanias nacionais atrav\u00e9s da dissolu\u00e7\u00e3o do conceito de Estado.<\/p>\n<p>E nenhum destes caminhos \u00e9 sustent\u00e1vel do ponto de vista humano e ambiental.<\/p>\n<p>A guerra \u00e9 insustent\u00e1vel por defini\u00e7\u00e3o. Por isso n\u00e3o surge nas contas de deve e haver que acompanham a doutrina ecol\u00f3gica do capitalismo \u00abverde\u00bb. As guerras sem fim que hoje constituem a dominante comportamental do neoliberalismo de tend\u00eancia global arrasam povos, pa\u00edses, territ\u00f3rios e tamb\u00e9m qualquer doutrina de sustentabilidade. Os efeitos das guerras n\u00e3o s\u00e3o compens\u00e1veis por \u00abcr\u00e9ditos de carbono\u00bb, planta\u00e7\u00f5es de \u00e1rvores ou substitui\u00e7\u00e3o de autom\u00f3veis a diesel por carros el\u00e9tricos. Estas medidas, tidas como grandes passos no caminho do desenvolvimento sustent\u00e1vel, n\u00e3o passar\u00e3o de panaceias irris\u00f3rias \u2013 mas bastante lucrativas &#8211; enquanto se mantiver o culto da guerra planet\u00e1ria: assumida ou alimentada por uma tens\u00e3o permanente geradora de uma infind\u00e1vel \u2013 e insustent\u00e1vel \u2013 corrida aos armamentos.<\/p>\n<p>N\u00e3o poder\u00e1 existir qualquer teoria ecol\u00f3gica s\u00e9ria e prof\u00edcua que n\u00e3o equacione com rigor as componentes belicista e militarista, doutrinariamente dominantes. No entanto, a OTAN diz-se comprometida com exerc\u00edcios militares onde a \u00absustentabilidade\u00bb \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o; e os gigantes da produ\u00e7\u00e3o e com\u00e9rcio de armamentos cada vez mais sofisticados prometem \u00abcarbono neutro\u00bb at\u00e9 2050 nas suas atividades. A mentira delirante n\u00e3o tem limites.<\/p>\n<p>T\u00e3o insustent\u00e1vel como a guerra \u00e9 a corrida desenfreada aos recursos naturais do planeta, que se desenvolve em muitas pistas \u2013 algumas delas muito bem guardadas atrav\u00e9s da implanta\u00e7\u00e3o de conflitos armados.<\/p>\n<p>Uma delas \u00e9 a atividade mineira transnacional, que n\u00e3o conhece direitos humanos e ambientais. Um territ\u00f3rio abandonado por uma transnacional depois da explora\u00e7\u00e3o de uma ou v\u00e1rias minas \u00e9 uma chaga aberta na crosta do planeta. Os efeitos nocivos de 30 ou 40 anos de interven\u00e7\u00e3o intensiva, entre desperd\u00edcios, venenos, desertifica\u00e7\u00e3o e altera\u00e7\u00f5es geol\u00f3gicas, demoram centenas, milhares de anos a desaparecer. S\u00e3o feridas que ficam e que teriam de ser inseridas nas contas de sustentabilidade de uma teoria ecol\u00f3gica s\u00e9ria.<\/p>\n<p>Ora isso n\u00e3o acontece. As transnacionais mineiras tamb\u00e9m prometem \u00abcarbono neutro\u00bb \u00e0 luz dos Acordos de Paris, chegam a instalar moinhos e\u00f3licos e pain\u00e9is solares nas \u00e1reas de interven\u00e7\u00e3o para simular que as suas atividades de extors\u00e3o s\u00e3o apoiadas por energias limpas e renov\u00e1veis, mas nada disso disfar\u00e7a, na pr\u00e1tica, a insustentabilidade dos seus comportamentos. Os fantasiosos resultados da propaganda, contudo, tornam-se mais reais que os fatos perante a opini\u00e3o p\u00fablica, e assim se vai disseminando, como virtuosa, uma ideia de ecologia absolutamente insustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Estamos perante uma fraude com dimens\u00f5es planet\u00e1rias. Enquanto isso, as calotas polares v\u00e3o-se derretendo, os mares sobem, a \u00e1gua continua a esgotar-se, as zonas des\u00e9rticas avan\u00e7am, as tempestades meteorol\u00f3gicas adquirem caracter\u00edsticas e periodicidades cada vez mais agravadas; entretanto, no setor colonialista do mundo os cidad\u00e3os est\u00e3o entretidos com bem-intencionados exerc\u00edcios ambientalistas, embalados pela conversa fiada do discurso sobre o desenvolvimento sustentado, enquanto o planeta continua a caminhar para o abismo.<\/p>\n<p>A pandemia de COVID-19 est\u00e1 proporcionando um processo de concentra\u00e7\u00e3o de riqueza nunca visto em apenas meia d\u00fazia de m\u00e3os; as inst\u00e2ncias neoliberais preparam o \u00abgrande rein\u00edcio\u00bb do sistema capitalista, apresentando a quest\u00e3o ambiental como um dos pilares; a guerra e a dilapida\u00e7\u00e3o dos recursos do planeta continuam incontrol\u00e1veis; a educa\u00e7\u00e3o para o consumismo, que transforma a Terra numa lixeira, \u00e9 uma das mais poderosas vertentes coloniais.<\/p>\n<p>A cultura do lucro m\u00e1ximo e sem restri\u00e7\u00f5es continua a se aprimorar. O discurso do desenvolvimento sustentado \u00e9 um dos seus principais suportes propagand\u00edsticos.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Goul\u00e3o, Exclusivo O Lado Oculto\/AbrilAbril<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26546\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[239],"tags":[233],"class_list":["post-26546","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiental","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6Ua","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26546","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26546"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26546\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26546"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26546"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26546"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}