{"id":26574,"date":"2020-12-13T11:04:29","date_gmt":"2020-12-13T14:04:29","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26574"},"modified":"2020-12-13T11:04:29","modified_gmt":"2020-12-13T14:04:29","slug":"agua-a-vidaou-a-bolsa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26574","title":{"rendered":"\u00c1gua: a vida\u2026ou a Bolsa?"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.laboratorioagualimpa.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/dicas_reaproveitamento_da_agua-547x320.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Latifa Madani<\/p>\n<p>ODIARIO.INFO<\/p>\n<p>Vital ou n\u00e3o, quanto mais um recurso escasseia, mais ele agu\u00e7a o apetite do capital. A prova: o ouro azul da Calif\u00f3rnia est\u00e1 chegando a Wall Street. Pior, este novo \u00edndice do mercado de a\u00e7\u00f5es pode tornar-se \u00abuma refer\u00eancia mundial no pre\u00e7o da \u00e1gua\u00bb. Um precedente in\u00e9dito e desastroso para a humanidade.<\/p>\n<p>A \u00e1gua \u00e9 vida, dizemos n\u00f3s. \u00c9 tamb\u00e9m e acima de tudo um man\u00e1 financeiro inestim\u00e1vel para negociantes \u00e1vidos e sem escr\u00fapulos. Os operadores da Chicago Mercantile Exchange (CME) e da Nasdaq anunciaram, em 27 de outubro, o lan\u00e7amento no final do ano de contratos a termo sobre as \u00e1guas californianas. Uma nova etapa na financeiriza\u00e7\u00e3o da \u00e1gua consagrada ainda como um direito humano universal pela ONU.<\/p>\n<p>O recurso vital torna-se um produto financeiro juntamente com o petr\u00f3leo ou o trigo num dos mercados de a\u00e7\u00f5es mais especulativos em que os \u00abespeculadores poder\u00e3o empurrar os pre\u00e7os para cima, tentando vender caro o que compraram barato, colocando portanto em dificuldades agricultores, munic\u00edpios e os seus habitantes\u00bb, explica Pierre Ivorra, jornalista econ\u00f4mico (\u00abL\u2019Humanit\u00e9\u00bb, 28 de outubro).<\/p>\n<p>Esta mudan\u00e7a perigosa do estatuto da \u00e1gua tinha sido anunciada h\u00e1 cinco anos ap\u00f3s a COP21. \u00abA altera\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica ter\u00e1 um grande impacto na \u00e1gua dispon\u00edvel. O per\u00edodo da \u00e1gua de nascente que flui naturalmente na ducha terminou\u201d, disse Willem Buiter, consultor do Citigroup, um grande banco americano. \u00ab\u00c9 necess\u00e1rio que as pessoas sintam na carteira em cada gole de \u00e1gua que bebem que a \u00e1gua tem um custo. N\u00e3o \u00e9 porque \u00e1gua \u00e9 vida que n\u00e3o signifique que n\u00e3o deva ter um pre\u00e7o\u00bb, acrescentou sem complexos. \u00abEncontramo-nos no in\u00edcio da revolu\u00e7\u00e3o financeira da \u00e1gua.\u00bb<\/p>\n<p>Cinco anos depois, aqui estamos. Privatizada na Gr\u00e3-Bretanha por Thatcher, propriedade de fundos de investimento na Austr\u00e1lia, a \u00e1gua est\u00e1 a caminho de se tornar um \u00edndice bolsista no qual os negociantes ir\u00e3o apostar. Com um clique na tela, eles comprar\u00e3o, vender\u00e3o ou controlar\u00e3o megalitros de \u00e1gua. Um recurso sem o qual n\u00e3o haveria vida. O novo \u00edndice bolsista de \u00e1gua da Calif\u00f3rnia pode tornar-se \u201cuma refer\u00eancia mundial em pre\u00e7os de \u00e1gua\u201d, avan\u00e7a a Chicago Mercantile Exchange em 27 de outubro, acrescentando: \u00abDois ter\u00e7os da popula\u00e7\u00e3o mundial v\u00e3o enfrentar escassez de \u00e1gua em 2025.\u00bb<\/p>\n<p>\u00c1GUA CONTAMINADA MATA 2,6 MILH\u00d5ES DE PESSOAS<\/p>\n<p>Quanto mais o recurso escasseia, pela procura e pelo aquecimento global, mais agu\u00e7a o apetite do capital. A escassez pode afetar, segundo a ONU, 5 bilh\u00f5es de pessoas em 2050. 2,6 milh\u00f5es de pessoas, especialmente crian\u00e7as, morrem todos os anos de doen\u00e7as relacionadas \u00e0 \u00e1gua contaminada. A procura de \u00e1gua provoca guerras e migra\u00e7\u00f5es. No seu relat\u00f3rio de mar\u00e7o, a ONU teme que essas tens\u00f5es aumentem no futuro.<\/p>\n<p>Uma b\u00ean\u00e7\u00e3o, por outro lado, para especuladores que contam com este quadro dram\u00e1tico. Para eles, o setor promete um futuro brilhante: \u201cO recurso mais cobi\u00e7ado do planeta tem uma avenida de crescimento. O seu valor pode em breve superar o do petr\u00f3leo\u201d, argumentou a revista \u201cCapital\u201d na edi\u00e7\u00e3o de mar\u00e7o, por ocasi\u00e3o do Dia Mundial da \u00c1gua. \u00abA urbaniza\u00e7\u00e3o, que deve promover um aumento de 80% no consumo urbano\u00bb daqui a 2050, \u201cir\u00e1 beneficiar aqueles que gerem o transporte e distribui\u00e7\u00e3o de \u00e1gua\u201d como indica, na mesma revista, um especialista do grupo de gest\u00e3o dos ativos do Pictet Asset Management. Para \u201clucrar com as boas perspectivas para as profiss\u00f5es de \u00e1gua\u201d, o especialista recomenda um fundo dedicado, como o Pictet Water. Criado h\u00e1 vinte anos, este fundo registou um ganho de 263% desde o in\u00edcio e de 15% nos \u00faltimos doze meses.<\/p>\n<p>No dia 27 de outubro, a Bolsa de Valores de Chicago anunciou o lan\u00e7amento de futuros sobre a \u00e1gua da Calif\u00f3rnia. S\u00e3o produtos financeiros que podem gerar enormes especula\u00e7\u00f5es, especialmente neste Estado em que as reservas de \u00e1gua baixam dramaticamente (frente ao lago Oroville que est\u00e1 seco).<\/p>\n<p>1,1 BILH\u00d5ES:<br \/>\nEsta \u00e9, em d\u00f3lares, a estimativa do mercado de \u00e1gua na Calif\u00f3rnia. 40% do consumo neste Estado est\u00e1 ligado \u00e0 irriga\u00e7\u00e3o de 3,5 milh\u00f5es de hectares de produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola.<\/p>\n<p>PIONEIROS AUSTRALIANOS COM DENTES LONGOS<\/p>\n<p>Os fundos de investimento inauguraram na Austr\u00e1lia o mercado de \u00e1gua como um bom investimento. Neste pa\u00eds, particularmente afetado pelo aquecimento global, cada gota de \u00e1gua conta. Os cursos de \u00e1gua, variando com o clima, inflacionaram os dividendos dos investidores e provocaram a morte de muitas pequenas explora\u00e7\u00f5es familiares. Como podemos especular sobre um produto natural essencial para a vida e a humanidade? \u00ab\u00c9 her\u00e9tico. Os mercados financeiros est\u00e3o sempre prontos para fazer qualquer coisa, a ir sempre mais longe\u00bb, comenta Emmanuel Poilane, secret\u00e1rio-geral da France Libert\u00e9s &#8211; Funda\u00e7\u00e3o Danielle-Mitterrand. Ele lembra que o CEO da Nestl\u00e9 queria, h\u00e1 dez anos, a cria\u00e7\u00e3o deste tipo de contratos sobre a \u00e1gua, alegando que \u00abseria bom para o planeta, porque seria para proteger o recurso\u00bb. No entanto, em 2010, a ONU proclamou que \u00abo direito \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel e saneamento \u00e9 um direito fundamental, essencial para o pleno gozo da vida e exerc\u00edcio de todos os direitos humanos\u00bb. Uma primeira vit\u00f3ria na longa batalha pelo estatuto da \u00e1gua, bem comum.<\/p>\n<p>As Na\u00e7\u00f5es Unidas reconheceram assim a centralidade da \u00e1gua na realiza\u00e7\u00e3o de outros direitos. Contudo, \u00abentre uma resolu\u00e7\u00e3o da ONU e a implementa\u00e7\u00e3o efetiva de um direito, existe um mundo\u00bb, explica Sylvie Paquerot da Funda\u00e7\u00e3o Danielle-Mitterrand, professora na Universidade de Ottawa. \u00abEste direito n\u00e3o p\u00f4s em causa o estatuto da \u00e1gua, ou seja, uma vis\u00e3o puramente econ\u00f4mica, utilitarista e extrativista, o que causa a destrui\u00e7\u00e3o de coisas vivas e cria fortes desigualdades de acesso. Hoje mais e mais direitos humanos s\u00e3o condicionados \u00e0 capacidade de pagamento.\u00bb Para a especialista, \u00abAs batalhas na \u00e1gua s\u00e3o fundamentalmente batalhas pol\u00edticas e democr\u00e1ticas\u00bb.<\/p>\n<p>DIREITO \u00c0 \u00c1GUA, BOL\u00cdVIA E EQUADOR NA PONTA<\/p>\n<p>A aposta \u00e9 civilizacional. \u00c9 objeto de fortes mobiliza\u00e7\u00f5es populares no mundo inteiro. O direito \u00e0 \u00e1gua experimentou um progresso significativo quando o Equador, em 2007, e a Bol\u00edvia, em 2009, inscreveram nas suas Constitui\u00e7\u00f5es, aprovadas por referendo, \u201c\u00e1gua, bem comum nacional submetido ao princ\u00edpio de n\u00e3o mercantiliza\u00e7\u00e3o\u201d. O Equador tamb\u00e9m definiu a natureza como sujeito de direito. A Nova Zel\u00e2ndia atribuiu aos seus ecossistemas aqu\u00e1ticos personalidade jur\u00eddica.<\/p>\n<p>Na Europa, s\u00e3o regularmente travadas lutas contra a mercantiliza\u00e7\u00e3o da \u00e1gua. Em 2012, a iniciativa europeia \u201cDireito \u00e0 \u00c1gua (right2water)\u201d reuniu mais de 2 milh\u00f5es de assinaturas. A Comiss\u00e3o Europeia tomou nota, sem que isso se tivesse traduzido em fatos. Est\u00e1 cheio de armadilhas o caminho para fazer do direito \u00e0 \u00e1gua uma realidade, para impor que a \u00e1gua seja o bem comum da humanidade e dos seres vivos, e especialmente que n\u00e3o se torne \u00abouro azul\u00bb, o petr\u00f3leo do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>Em La Victoria del Portete, a cerca de quinze quil\u00f4metros de Cuenca, Equador, Carlos P\u00e9rez Guartambel garante que n\u00e3o o v\u00e3o deixar. \u201cOs meus pais ensinaram-me que \u00e1gua e fogo partilham-se, n\u00e3o se vendem\u00bb, diz o presidente da Uni\u00e3o de Sistemas Comunit\u00e1rios de \u00c1gua de Azuay. Neste pa\u00eds, a gest\u00e3o da \u00e1gua pela comunidade foi arrancada \u00e0 custa de sangue. Al\u00e9m disso, promete, \u00aba luta pela \u00e1gua vai ser a luta pela vida\u00bb.<\/p>\n<p>Original em: https:\/\/www.france-libertes.org\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/leau-la-vie-ou-la-bourse-huma-dimanche-201120.pdf<\/p>\n<p>(Traduzido por STAL)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26574\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[239],"tags":[227],"class_list":["post-26574","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiental","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6UC","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26574","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26574"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26574\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26574"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26574"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26574"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}