{"id":26581,"date":"2020-12-15T22:03:23","date_gmt":"2020-12-16T01:03:23","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26581"},"modified":"2020-12-15T22:03:23","modified_gmt":"2020-12-16T01:03:23","slug":"acerca-da-ciencia-em-cuba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26581","title":{"rendered":"Acerca da ci\u00eancia em Cuba"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/media.nature.com\/lw800\/magazine-assets\/d43747-020-00571-w\/d43747-020-00571-w_18271744.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Centro de Imunologia Molecular de Havana | Foto: CIM \/ Facebook \/ Divulga\u00e7\u00e3o \/ CP Mem\u00f3ria<\/p>\n<p>\u2013 &#8220;Agora v\u00e3o falar os comunistas que trabalham no campo da ci\u00eancia&#8221;<\/p>\n<p>por Agust\u00edn Lage D\u00e1vila [*]<\/p>\n<p>Companheira Reitora Dra. Miriam Nicado,<\/p>\n<p>Professores e Alunos desta trincheira de soberania e justi\u00e7a social que \u00e9 a Universidade de Havana,<\/p>\n<p>Companheiros convidados:<\/p>\n<p>Poderia se pensar que, a partir de um certo momento na vida, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para novos compromissos; mas hoje para mim torna-se muito claro que isso n\u00e3o \u00e9 assim, pois este t\u00edtulo Honoris Causa \u00e9 fonte de compromissos superiores, que espero cumprir.<\/p>\n<p>Recebo-o n\u00e3o como pr\u00eamio e sim como ferramenta de trabalho e como fonte de novas responsabilidades.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 este um momento de inevit\u00e1vel reflex\u00e3o, mas prefiro refletir n\u00e3o sobre o que poderiam ter sido minhas contribui\u00e7\u00f5es cient\u00edficas e docentes em cada etapa e sim, ao contr\u00e1rio, comentar o que cada etapa contribuiu para mim, o que me permitiu aprender.<\/p>\n<p>Essas contribui\u00e7\u00f5es recebidas de muitos professores e companheiros s\u00e3o mais numerosas e mais importantes do que as que eu possa ter feito. Uma pessoa sempre est\u00e1 em d\u00edvida com esta sociedade socialista que nos deu tantas oportunidades e essa d\u00edvida inclui o dever de interpretar e transmitir o aprendizado.<\/p>\n<p>Toda trajet\u00f3ria est\u00e1 marcada por transi\u00e7\u00f5es e pode ser \u00fatil aos mais jovens descrever o aprendizado em cada uma delas. Disso quero lhes falar hoje:<\/p>\n<p>A etapa pr\u00e9-universit\u00e1ria e universit\u00e1ria da minha gera\u00e7\u00e3o foi a da fervorosa e fascinante d\u00e9cada dos anos 60: a cria\u00e7\u00e3o do Partido Comunista, a Ofensiva Revolucion\u00e1ria de 1968, a epopeia internacionalista do Che, a solidariedade com o Vietn\u00e3, o despertar anticolonial da \u00c1frica, a universaliza\u00e7\u00e3o do ensino universit\u00e1rio em Cuba, os planos de bolsas em prol da igualdade social, as campanhas de recolha de caf\u00e9, a safra grande do ano de 1970.<\/p>\n<p>Incluo o meu per\u00edodo como membro do Comit\u00ea Universit\u00e1rio da UJC.<\/p>\n<p>Trouxe aos jovens daquela \u00e9poca o compromisso com a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais justa que deixasse no passado simultaneamente o subdesenvolvimento e o capitalismo.<\/p>\n<p>Trouxe-nos a compreens\u00e3o de que qualquer que fosse a obra profissional ou cient\u00edfica que empreend\u00eassemos, esta era s\u00f3 uma parte de uma obra revolucion\u00e1ria maior, que dava sentido a qualquer esfor\u00e7o. Definitivamente, a voca\u00e7\u00e3o verdadeira era a Revolu\u00e7\u00e3o, e a ci\u00eancia era um instrumento para realiz\u00e1-la.<\/p>\n<p>Por isso, e conto aqui pela primeira vez este caso, quando no IV Congresso do Partido de 1991 no qual muito se falou sobre o P\u00f3lo Cient\u00edfico, um apresentador disse algo assim como: &#8220;e agora v\u00e3o falar os cientistas&#8230;&#8221; atrevi-me a retific\u00e1-lo e dizer&#8230; &#8220;N\u00e3o&#8230; Agora v\u00e3o falar os comunistas que trabalham no campo da ci\u00eancia &#8230;&#8221;<\/p>\n<p>As primeiras etapas de forma\u00e7\u00e3o como cientista, a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o no CNIC \u2013 naquela \u00e9poca parte da Universidade \u2013 e a seguir no Instituto Pasteur de Paris, al\u00e9m das primeiras experi\u00eancias do que \u00e9 a vida di\u00e1ria num laborat\u00f3rio de investiga\u00e7\u00f5es experimentais, semearam a confian\u00e7a no poder do pensamento racional e do m\u00e9todo cient\u00edfico para entender a realidade e transform\u00e1-la.<\/p>\n<p>Ilustraram os tra\u00e7os pr\u00f3prios das ci\u00eancias biol\u00f3gicas, que as distinguem da f\u00edsica e da qu\u00edmica pelo seu grau maior de complexidade.<\/p>\n<p>Ilustram que a ci\u00eancia n\u00e3o tem caminhos f\u00e1ceis e que n\u00e3o existem substitutos para o compromisso de fazer &#8220;boa ci\u00eancia&#8221;. H\u00e1 muito tempo de trabalho silencioso e an\u00f4nimo antes de se poder dizer &#8220;algo&#8221;.<\/p>\n<p>Mas, ao mesmo tempo, os primeiros resultados e as primeiras publica\u00e7\u00f5es solidificaram a confian\u00e7a de que os cubanos podem, Cuba pode.<\/p>\n<p>Os anos no Instituto Nacional de Oncologia exigiram aprender como conectar as ci\u00eancias b\u00e1sicas, primeiro com as ci\u00eancias cl\u00ednicas e a seguir com a epidemiologia e os programas de sa\u00fade. Ensinaram-nos que o m\u00e9todo cient\u00edfico de pensamento n\u00e3o \u00e9 exclusivo dos laborat\u00f3rios experimentais nem das ci\u00eancias b\u00e1sicas. \u00c9 uma maneira de pensar e uma conquista da cultura. A participa\u00e7\u00e3o na constru\u00e7\u00e3o do Programa Nacional de C\u00e2ncer permitiu-nos compreender que a Sa\u00fade \u00e9 uma ci\u00eancia social, com componentes de biologia e n\u00e3o ao contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>E que a longevidade humana saud\u00e1vel, que j\u00e1 se exprime claramente na nossa estrutura demogr\u00e1fica, n\u00e3o \u00e9 um produto colateral da sele\u00e7\u00e3o natural biol\u00f3gica e sim uma conquista da cria\u00e7\u00e3o de conhecimentos, coes\u00e3o social e valores. A experi\u00eancia recente no enfrentamento da pandemia do coronav\u00edrus ilustra muito bem esse conceito.<\/p>\n<p>Esta etapa do Instituto de Oncologia coincidiu com uma experi\u00eancia enriquecedora de participa\u00e7\u00e3o no Comit\u00ea Assessor de Investiga\u00e7\u00f5es em Sa\u00fade da OPS (Organiza\u00e7\u00e3o Panamericana de Sa\u00fade), espa\u00e7o de intera\u00e7\u00e3o com profundos pensadores sobre a Sa\u00fade P\u00fablica no nosso continente e de extensos debates sobre como colocar a ci\u00eancia em fun\u00e7\u00e3o das necessidades das popula\u00e7\u00f5es humanas.<\/p>\n<p>Ilustrou a complexidade intr\u00ednseca das interven\u00e7\u00f5es de sa\u00fade e a necessidade de articular todos os seus componentes, de maneira transdisciplinar, se se quiser ter impacto nos indicadores.<\/p>\n<p>Num debate internacional uma boa amiga de Cuba disse-me: &#8220;Veja, neste mundo da Sa\u00fade P\u00fablica h\u00e1 muitos que escrevem e n\u00e3o fazem nada do que escrevem, mas voc\u00eas os cubanos fazem e n\u00e3o escrevem o que fazem&#8221;. Elogio e cr\u00edtica ao mesmo tempo, que me ensinou a import\u00e2ncia de escrever as experi\u00eancias e de travar a\u00ed &#8220;batalhas de ideias&#8221;. Escrever \u00e9 uma responsabilidade perante os que v\u00eam depois. Dessa compreens\u00e3o sa\u00edram os primeiros artigos que poderiam entender-se como de &#8220;ci\u00eancias sociais&#8221;.<\/p>\n<p>A seguir veio a etapa da biotecnologia, o contato direto com a lideran\u00e7a, o magist\u00e9rio e a aud\u00e1cia de Fidel Castro, a constru\u00e7\u00e3o f\u00edsica do Centro de Imunologia Molecular \u2013 tamb\u00e9m aprendi muito com os construtores \u2013 e a cria\u00e7\u00e3o de conex\u00f5es entre a ci\u00eancia e a produ\u00e7\u00e3o, e entre estas e a economia. Essa etapa fez-nos entender o conceito de investiga\u00e7\u00e3o &#8220;em ciclo completo&#8221;, ou seja, assumindo as complexidades de levar o resultado cient\u00edfico at\u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o produtiva e econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Ao coletivo de bi\u00f3logos e m\u00e9dicos do nascente CIM somaram-se f\u00edsicos, matem\u00e1ticos, engenheiros, advogados e economistas. E isso expandiu notavelmente nosso campo visual e ilustrou o poder das &#8220;ci\u00eancias de converg\u00eancia&#8221;, quando campos do conhecimento at\u00e9 ent\u00e3o separados convergem para criar algo novo.<\/p>\n<p>Assim aconteceu quando a biotecnologia moderna emergiu das intera\u00e7\u00f5es entre a gen\u00e9tica, a imunologia e a engenharia das fermenta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Assim deve acontecer nos pr\u00f3ximos anos, quando continuar a aproxima\u00e7\u00e3o entre as ci\u00eancias biol\u00f3gicas e as ci\u00eancias da informa\u00e7\u00e3o, da gest\u00e3o de dados, da intelig\u00eancia artificial, das nanotecnologias, da rob\u00f3tica e de outros componentes da quarta revolu\u00e7\u00e3o industrial que se aproxima a grande velocidade.<\/p>\n<p>A tarefa de dirigir o CIM aproximou-nos das ci\u00eancias empresariais e da gest\u00e3o de projetos; e do conceito maior de &#8220;Economia do Conhecimento&#8221;, que depois se vinculou ao conceito de Empresa de Alta Tecnologia, que hoje est\u00e1 nos Lineamientos del Programa Econ\u00f3mico y Social de la Revoluci\u00f3n.<\/p>\n<p>Esta tarefa trouxe-nos tamb\u00e9m uma compreens\u00e3o da import\u00e2ncia e das complexidades da inser\u00e7\u00e3o da economia cubana na economia mundial, atrav\u00e9s das alavancas da ci\u00eancia, e incluiu o desafio das negocia\u00e7\u00f5es internacionais que conduziram a exporta\u00e7\u00f5es em dezenas de pa\u00edses, \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o e \u00e0 negocia\u00e7\u00e3o de ativos intang\u00edveis e \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de empresas em contextos t\u00e3o diferentes como podem ser o Canad\u00e1, China, \u00cdndia, Argentina, Brasil, Singapura e Tail\u00e2ndia, s\u00f3 para mencionar os mais complexos. Cada uma era como um curso de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o sobre contextos e culturas diferentes, no qual seria preciso aprovar ou suspender.<\/p>\n<p>A Assembleia Nacional do Poder Popular, na sua Comiss\u00e3o de Assuntos Econ\u00f4micos, que em 1993 era, como a chamou Fidel, &#8220;O Parlamento do Per\u00edodo Especial&#8221;, e as tarefas de desenvolvimento local no munic\u00edpio de Yaguajay coincidiram no tempo com a Biotecnologia e foram uma tremenda escola de realidades sociais e de cuban\u00eda. Quando algu\u00e9m est\u00e1 exposto a espa\u00e7os diversos \u2013 geogr\u00e1ficos e culturais \u2013 da realidade \u00e9 que se pode ver melhor as ess\u00eancias que os atravessam a todos.<\/p>\n<p>Esta etapa coincidiu tamb\u00e9m com o dif\u00edcil Per\u00edodo Especial, em que Cuba perdeu 35% do PIB, mas n\u00e3o perdeu nem um d\u00e9cimo da sua vontade de resistir e da sua confian\u00e7a no futuro.<\/p>\n<p>Cada sess\u00e3o da Assembleia era um di\u00e1logo com Fidel. O Che descreveu este processo de intera\u00e7\u00e3o de Fidel com as pessoas no seu ensaio cl\u00e1ssico sobre &#8220;O Socialismo e o Homem em Cuba&#8221;. Essa escola permitiu-nos entender os pap\u00e9is da ci\u00eancia no projeto socialista cubano e aspirar a que o m\u00e9todo cient\u00edfico de pensamento se convertesse num componente da cultura geral do cubano e um motor da nossa economia. Permitiu-nos tamb\u00e9m apreciar de perto o poder catalisador da doc\u00eancia universit\u00e1ria na sede municipal.<\/p>\n<p>Companheiros:<\/p>\n<p>Um reconhecimento como este frequentemente incita a falar sobre o passado, mas pe\u00e7o-lhes que me permitam utilizar esta ocasi\u00e3o para falar tamb\u00e9m sobre o futuro.<\/p>\n<p>Vendo todas essas etapas em retrospectiva, elas se nos apresentam como um grande per\u00edodo de aprendizagem, de ensinamentos que devemos a outros \u2013 alguns est\u00e3o aqui hoje \u2013 e que s\u00f3 teriam sentido em fun\u00e7\u00e3o das tarefas que \u00e9 preciso empreender de agora em diante. Como disse Shakespeare, &#8220;o passado \u00e9 um pr\u00f3logo&#8221;.<\/p>\n<p>Mart\u00ed, que disse tudo, tamb\u00e9m desenvolveu esta ideia e exprimiu que: &#8220;A antiguidade \u00e9 um monumento, n\u00e3o uma regra: estuda mal quem n\u00e3o estuda o porvir&#8221;.<\/p>\n<p>A ci\u00eancia tem agora responsabilidades novas. E \u00e9 preciso entend\u00ea-lo bem, porque certamente s\u00e3o novas. O espa\u00e7o da ci\u00eancia nas sociedades humanas est\u00e1 mudando, e os pap\u00e9is da ci\u00eancia s\u00e3o hoje bem diferentes do que eram inclusive em meados do s\u00e9culo XX. E isso \u00e9 especialmente assim quanto a Cuba.<\/p>\n<p>Num mundo globalizado e de r\u00e1pidas mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas, o desenvolvimento econ\u00f4mico depende cada vez mais da conex\u00e3o da nossa economia com a economia mundial e isso n\u00e3o pode ser feito exportando produtos prim\u00e1rios de baixo valor agregado, para importar manufaturas de alto valor agregado. Esta conex\u00e3o precisa ser feita com produtos e servi\u00e7os de alto conte\u00fado de conhecimentos e isso exige capacidades para assimilar criativamente conhecimentos e tecnologias novas, e exige capacidades para criar conhecimento, ou seja, de ci\u00eancia e inova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Trata-se de nos inserirmos nos fluxos globais, n\u00e3o s\u00f3 de produtos, servi\u00e7os e capital como tamb\u00e9m nos fluxos globais de conhecimentos.<\/p>\n<p>O isolamento econ\u00f4mico e tecnol\u00f3gico \u00e9 um enorme risco para o nosso projeto social. O inimigo o sabe e por isso mant\u00e9m o bloqueio. Mas n\u00f3s o sabemos tamb\u00e9m e contamos com a ci\u00eancia para refor\u00e7ar nossas conex\u00f5es com o mundo.<\/p>\n<p>Num mundo de enormes e r\u00e1pidos fluxos de informa\u00e7\u00e3o, a soberania nacional \u2013 que necessitamos para poder realizar nosso projeto de justi\u00e7a social \u2013 depende da nossa capacidade coletiva de pensar as realidades mundiais com a pr\u00f3pria cabe\u00e7a e depende, mais uma vez, da nossa capacidade de criar conhecimento. Disse-o Fidel, como tantas outras coisas, em 1991:<\/p>\n<p>\u201cA independ\u00eancia n\u00e3o \u00e9 uma bandeira, ou um hino, ou um escudo. A independ\u00eancia n\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de s\u00edmbolos. A independ\u00eancia depende do desenvolvimento, a independ\u00eancia depende da tecnologia, depende da ci\u00eancia no mundo de hoje\u201d.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m o Socialismo, sistema no qual continuamos a confiar como forma superior e sustent\u00e1vel de justi\u00e7a social e conviv\u00eancia humana, tamb\u00e9m o Socialismo depende do desenvolvimento cient\u00edfico e t\u00e9cnico. A confian\u00e7a na possibilidade de um sistema social superior e a confian\u00e7a na ci\u00eancia nasceram juntas na Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A ci\u00eancia e o conhecimento, no seu sentido mais amplo, s\u00e3o um produto social. Ningu\u00e9m pode possuir todas as pe\u00e7as de conhecimento pr\u00e9vio necess\u00e1rias para descobrir ou inventar algo. E na mesma medida em que a vida econ\u00f4mica depende da ci\u00eancia socialmente constru\u00edda, tornar-se-\u00e1 mais insustent\u00e1vel a contradi\u00e7\u00e3o fundamental do capitalismo entre o car\u00e1ter social da produ\u00e7\u00e3o e o car\u00e1ter privado da apropria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma economia cubana baseada no conhecimento ser\u00e1 n\u00e3o s\u00f3 mais eficiente e mais desenvolvida como tamb\u00e9m mais socialista.<\/p>\n<p>S\u00e3o as for\u00e7as produtivas tecnicamente avan\u00e7adas que tornam invi\u00e1vel que seja o mercado a forma principal das rela\u00e7\u00f5es entre as pessoas. Fazer ci\u00eancia, em Cuba, \u00e9 tamb\u00e9m defender o Socialismo.<\/p>\n<p>A sociedade socialista, justa, pr\u00f3spera e sustent\u00e1vel a que aspiramos exigir\u00e1 cada vez mais uma cultura cient\u00edfica. E n\u00e3o se trata de uma ou outra institui\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, vinculada \u00e0 ci\u00eancia mundial, e sim da integra\u00e7\u00e3o do pensamento cient\u00edfico na cultura geral do cubano, em todas as suas institui\u00e7\u00f5es, em todas as suas tarefas sociais, em todos os espa\u00e7os territoriais.<\/p>\n<p>Quando se semeia ci\u00eancia numa sociedade n\u00e3o se semeiam somente novos conhecimentos ou tecnologias, semeia-se tamb\u00e9m uma cultura de racionalidade, pensamento baseado em dados, constru\u00e7\u00e3o de hip\u00f3teses verific\u00e1veis, objetividade, debate, cr\u00edtica e verifica\u00e7\u00e3o constante e independente, tudo o que \u00e9 fonte de \u00e9tica e valores, e levanta um muro de conten\u00e7\u00e3o contra a superficialidade, a supersti\u00e7\u00e3o e a pseudoci\u00eancia. Todos devemos ser &#8220;homens de pensamento&#8221;.<\/p>\n<p>A Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica discutida e aprovada pela imensa maioria dos cubanos em 2019 captura muito claramente a ideia das novas responsabilidades da ci\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c9 um enfoque novo na nossa hist\u00f3ria constitucional.<\/p>\n<p>As Constitui\u00e7\u00f5es anteriores n\u00e3o davam esse protagonismo \u00e0 Ci\u00eancia, \u00e0 Tecnologia e \u00e0 Inova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Constitui\u00e7\u00e3o de 1940 \u2013 que Ra\u00fal Roa, nesta mesma Universidade, caracterizou como &#8220;um caminho e n\u00e3o uma meta&#8221; \u2013 apenas mencionava no seu Artigo 47 que &#8220;s\u00e3o livres a investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, a express\u00e3o art\u00edstica e a publica\u00e7\u00e3o dos seus resultados&#8221;.<\/p>\n<p>A Constitui\u00e7\u00e3o socialista de 1979 j\u00e1 implicava explicitamente o Estado ao estabelecer no Cap\u00edtulo IV da Educa\u00e7\u00e3o e Cultura \u2013 inciso f \u2013 que &#8220;A atividade criadora e de investiga\u00e7\u00e3o na ci\u00eancia \u00e9 livre. O Estado estimula e viabiliza a investiga\u00e7\u00e3o e prioriza aquela destinada a resolver os problemas que se refiram aos interesses da sociedade e ao benef\u00edcio do povo&#8221;.<\/p>\n<p>Mas esta nova Constitui\u00e7\u00e3o de 2019 aborda o tema da ci\u00eancia no seu T\u00edtulo II dos Fundamentos Econ\u00f4micos e diz no seu Artigo 21 que:<\/p>\n<p>&#8220;O Estado promove o avan\u00e7o da ci\u00eancia, da tecnologia e da inova\u00e7\u00e3o como elementos imprescind\u00edveis para o desenvolvimento econ\u00f4mico e social. Implementa igualmente formas de organiza\u00e7\u00e3o, financiamento e gest\u00e3o da atividade cient\u00edfica, propicia a introdu\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica e acelerada dos seus resultados nos processos produtivos e de servi\u00e7os&#8230;&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 um conceito superior: situa a Ci\u00eancia, a Tecnologia e a Inova\u00e7\u00e3o no centro da estrat\u00e9gia econ\u00f4mica e identifica-a como tarefa do Estado Socialista.<\/p>\n<p>Num dos debates que tivemos sobre a Constitui\u00e7\u00e3o com os trabalhadores do Centro de Imunologia Molecular, uma jovem cientista espontaneamente exclamou: &#8220;Como n\u00e3o a vamos aprovar, se a fizemos n\u00f3s mesmos?&#8221;<\/p>\n<p>Assumir as novas responsabilidades, porque novas s\u00e3o, da ci\u00eancia em Cuba implica fazer crescer, em capital humano e em infraestrutura, nosso sistema de ci\u00eancia, tecnologia e inova\u00e7\u00e3o e refor\u00e7ar suas conex\u00f5es com a economia, com a educa\u00e7\u00e3o, com a cultura e com o mundo, e encontrar com criatividade novas formas de financi\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Cuba n\u00e3o pode aspirar a uma inser\u00e7\u00e3o na economia mundial atrav\u00e9s da exporta\u00e7\u00e3o de recursos naturais porque n\u00e3o os temos. Tampouco somos um pa\u00eds de grandes dimens\u00f5es, com uma procura interna grande que funcione como atrator de desenvolvimento industrial. Nossa inser\u00e7\u00e3o soberana na economia mundial ter\u00e1 que ocorrer pelos caminhos da ci\u00eancia, da tecnologia e da inova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Isto ser\u00e1 obra dos jovens cubanos, muitos deles sa\u00eddos desta mesma Universidade. E confiamos que o far\u00e3o. Apesar dos emigrados geogr\u00e1ficos e dos emigrados mentais que ainda andam por a\u00ed, a massa grande e limpa de jovens cientistas competentes, comprometidos com Cuba e motivados pelo seu projeto socialista, est\u00e1 presente, reclamando seu posto na batalha.<\/p>\n<p>E n\u00e3o s\u00e3o poucos.<\/p>\n<p>Na trajet\u00f3ria hist\u00f3rica da Na\u00e7\u00e3o Cubana, a ci\u00eancia nunca foi um luxo. Foi uma combatente. Isso nos disse Jos\u00e9 Mart\u00ed desde o s\u00e9culo XIX e para o s\u00e9culo XXI: &#8220;A raz\u00e3o, se quiser guiar, tem que entrar na cavalaria&#8221;.<\/p>\n<p>H\u00e1 uns meses, ao falar no 25\u00ba Anivers\u00e1rio do CIM, falei aos jovens sobre cinco verdades essenciais e que creio pertinente repetir hoje aqui.<\/p>\n<p>S\u00e3o estas:<\/p>\n<p>1. Podemos. A experi\u00eancia destes anos ensinou-nos que podemos fazer coisas maiores do que n\u00f3s pr\u00f3prios imaginamos. Nenhum de n\u00f3s no CIE teria imaginado naquele ano de 1994, no fundo do per\u00edodo especial, quando apenas hav\u00edamos produzido os primeiros miligramas de anticorpos em frascos de cultivo de alguns mililitros e hav\u00edamos realizado venda no exterior de apenas US$100 mil, que estar\u00edamos hoje a falar de exporta\u00e7\u00f5es acumuladas de mais de um bilh\u00e3o de d\u00f3lares a dezenas de pa\u00edses, de f\u00e1bricas em v\u00e1rios pa\u00edses, de produ\u00e7\u00f5es de centenas de milh\u00f5es de bulbos, de mais de 100 mil pacientes cubanos que utilizaram nossos produtos.<\/p>\n<p>Esta ideia poderia gerar satisfa\u00e7\u00e3o \u2013 e isso poderia talvez ser justo \u2013, mas \u00e9 melhor que nos estimule a fazer-nos a pergunta: o que mais podemos fazer que nem sequer imaginamos hoje? As metas que os jovens colocam a si pr\u00f3prios t\u00eam de ser altas, muito altas, colossais, e n\u00e3o tenhamos medo disso.<\/p>\n<p>2. Alcan\u00e7ar grandes metas requer dedica\u00e7\u00e3o ao trabalho e ao estudo. Dedica\u00e7\u00e3o real, de muitas horas, muitos dias. A dedica\u00e7\u00e3o nunca foi uma meta, nem uma imposi\u00e7\u00e3o administrativa: foi uma express\u00e3o de \u00e9tica, derivada da capacidade de assumir deveres e do exemplo dos dirigentes. N\u00e3o se imp\u00f5e, mas quando surge essa \u00e9tica de maneira espont\u00e2nea significa muitas coisas. \u00c9 preciso fazer das nossas tarefas n\u00e3o um meio de vida e sim um sentido da vida.<\/p>\n<p>3. \u00c9 preciso fazer ci\u00eancia real, competitiva, com resultados de originalidade mundial. N\u00e3o h\u00e1 substituto para isso. N\u00e3o existe aqui a &#8220;meia ci\u00eancia&#8221;, nem a originalidade &#8220;nas nossas condi\u00e7\u00f5es&#8221;. Necessitamos de uma ind\u00fastria inovadora e competitiva em escala mundial, onde h\u00e1 que chegar com resultados de n\u00edvel mundial. \u00c9 dif\u00edcil, mas pode-se fazer.<\/p>\n<p>4. Fazer boa ci\u00eancia \u00e9 s\u00f3 a metade do caminho. A outra metade est\u00e1 em conectar a ci\u00eancia com a produ\u00e7\u00e3o, com o desenvolvimento do sistema de sa\u00fade cubano, com as exporta\u00e7\u00f5es, com a educa\u00e7\u00e3o. Por isso, apesar da origem cient\u00edfico-acad\u00eamica de muitos de n\u00f3s, no CIM n\u00e3o gostamos muito que nos chamem &#8220;um centro cient\u00edfico&#8221;. Somos uma opera\u00e7\u00e3o industrial de alta tecnologia, baseada na ci\u00eancia. Isso \u00e9 outra coisa.<\/p>\n<p>Conectar a ci\u00eancia com a economia significa, antes de tudo, conect\u00e1-la com a Empresa Estatal Socialista. Ela \u00e9 a express\u00e3o concreta da propriedade social sobre os meios de produ\u00e7\u00e3o e da distribui\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o do trabalho. \u00c9 o que garante a justi\u00e7a social.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que para Cuba h\u00e1 um nexo indissol\u00favel entre desenvolvimento cient\u00edfico e desenvolvimento da empresa estatal socialista.<\/p>\n<p>Teremos que encontrar a maneira de implementar a gest\u00e3o descentralizada e criadora que as for\u00e7as produtivas do s\u00e9culo XXI exigem, mantendo-nos ao mesmo tempo firmes na defesa da propriedade social e da distribui\u00e7\u00e3o equitativa dos resultados do trabalho. Ser\u00e3o a Ci\u00eancia e Cultura que nos permitir\u00e3o alcan\u00e7ar isto.<\/p>\n<p>5. E por \u00faltimo, para que depois na vida real o ponhamos em primeiro lugar na lista: somos parte da Revolu\u00e7\u00e3o. Trabalhamos para fazer emergir a maravilha da criatividade cient\u00edfica, isso \u00e9 certo e \u00e9 bom, mas trabalhamos tamb\u00e9m para faz\u00ea-lo a partir de Cuba, para defender o direito de Cuba soberana a inserir-se no mundo e na economia tecnol\u00f3gica do futuro; e trabalhamos tamb\u00e9m para faz\u00ea-lo a partir do Socialismo, com Laborat\u00f3rios e F\u00e1bricas que s\u00e3o, como diz a can\u00e7\u00e3o de S\u00edlvio, &#8220;edif\u00edcios sem dono&#8221;, ou melhor, com 11 milh\u00f5es de donos. Quem se esquecer disso n\u00e3o entender\u00e1 jamais como os cubanos chegaram at\u00e9 aqui e entender\u00e1 ainda menos o que temos de fazer nos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n<p>No que se refere a n\u00f3s, os que j\u00e1 acumularam alguns quil\u00f4metros percorridos nesse caminho, com a mochila carregada de experi\u00eancias criadoras que refor\u00e7am as certezas e validam os prop\u00f3sitos, e carregada tamb\u00e9m de erros que nos fazem refletir e continuar a aprender, a palavra de ordem \u00e9 &#8220;h\u00e1 que continuar&#8221;, transmitir o aprendizado, apoiar o trabalho dos jovens e pedir-lhes com humildade um posto junto a eles na trincheira.<\/p>\n<p>Como veem, este ato fez-me pensar um pouco sobre o feito, mas pensar muito sobre o que h\u00e1 que fazer de agora em diante.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m das fronteiras de Cuba, nossa heran\u00e7a cultural enraizada no individualismo ocidental e surgida do Renascimento e do &#8220;S\u00e9culo das Luzes&#8221; cont\u00e9m certamente um valioso humanismo do qual somos herdeiros, mas tamb\u00e9m cont\u00e9m na sua extrapola\u00e7\u00e3o a cren\u00e7a de que o progresso \u00e9 uma soma de \u00eaxitos individuais, que merecem reconhecimentos tamb\u00e9m individuais.<\/p>\n<p>Mas isso \u00e9 uma extrapola\u00e7\u00e3o equivocada: o progresso humano, inclu\u00eddo o progresso cient\u00edfico, \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o social, uma obra de muitos, ainda que se exprima aparentemente no trabalho de uma pessoa.<\/p>\n<p>Nas hist\u00f3rias e nas ideias que lhes contei aqui h\u00e1 o labor e o pensamento de centenas de companheiros. Alguns deles est\u00e3o hoje aqui e sei que eles sabem que s\u00e3o parte de tudo isto.<\/p>\n<p>Muito frequentemente os cubanos, quando t\u00eam uma ideia ou um sentimento, e n\u00e3o encontram as palavras para exprimi-los, recorrem de novo a Jos\u00e9 Mart\u00ed para buscar essa express\u00e3o e sempre a encontram.<\/p>\n<p>Desta vez, encontrei esta numa carta de Mart\u00ed de 1877 em que agradecia uma distin\u00e7\u00e3o e dizia:<\/p>\n<p>&#8220;Se de algo servi at\u00e9 este momento, j\u00e1 n\u00e3o me recordo; o que quero \u00e9 servir mais&#8221;.<\/p>\n<p>Portanto, agrade\u00e7o-vos agora com estas palavras, mas sei que o agradecimento que conta \u00e9 aquele que vos posso exprimir com mais trabalho a partir de amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Companheira Reitora, d\u00ea-me tarefas.<\/p>\n<p>Muito obrigado.<\/p>\n<p>04\/Dezembro\/2020<\/p>\n<p>[*] Director do Centro de Imunologia Molecular<\/p>\n<p>O original encontra-se em cubayeconomia.blogspot.com\/&#8230;<\/p>\n<p>Este artigo encontra-se em https:\/\/resistir.info\/ .<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26581\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[48],"tags":[228],"class_list":["post-26581","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c58-cuba","tag-5b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6UJ","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26581","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26581"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26581\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26581"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26581"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26581"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}