{"id":26583,"date":"2020-12-15T22:05:23","date_gmt":"2020-12-16T01:05:23","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26583"},"modified":"2020-12-15T22:05:23","modified_gmt":"2020-12-16T01:05:23","slug":"uber-e-lyft-contra-os-direitos-trabalhistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26583","title":{"rendered":"Uber e Lyft contra os direitos trabalhistas"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/mundouber.com\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/1608016105_A-campanha-da-Uber-e-da-Lyft-contra-os-direitos.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->(Imagem: Est\u00fadio Gauche com base em foto de Wistula)<\/p>\n<p>A campanha da Uber e da Lyft contra os direitos trabalhistas de motoristas de aplicativos<\/p>\n<p>Na Calif\u00f3rnia, empresas como Uber e Lyft gastaram 200 milh\u00f5es de d\u00f3lares para influenciar um referendo sobre seus trabalhadores.<\/p>\n<p>Por Gabriel Deslandes | Revista Opera<\/p>\n<p>Revis\u00e3o de Rebeca \u00c1vila<\/p>\n<p>200 milh\u00f5es de d\u00f3lares. Essa foi a cifra gasta por empresas de aplicativos associadas \u00e0 gig economy (\u201ceconomia colaborativa\u201d) com uma campanha publicit\u00e1ria para influenciar um referendo na Calif\u00f3rnia em novembro de 2020. O que estava em jogo nas urnas era o reconhecimento de motoristas e entregadores de aplicativos como empregados contratados e n\u00e3o como aut\u00f4nomos ou freelancers. Contra a medida que garantiria benef\u00edcios trabalhistas e prote\u00e7\u00f5es legais a essa categoria, a Uber, a Lyft e outras plataformas do Vale do Sil\u00edcio atuaram energicamente para convencer o eleitorado californiano a votar para manter o modelo de servi\u00e7os atual, que nega v\u00ednculos empregat\u00edcios a esses trabalhadores.<\/p>\n<p>A quantia milion\u00e1ria investida na campanha parece ter dado resultado: o mesmo estado norte-americano que optou massivamente por Joe Biden contra Donald Trump na elei\u00e7\u00e3o presidencial \u2013 63,5% a 34,5% \u2013 tamb\u00e9m aprovou no referendo com 58,63% dos votos a Proposta 22, projeto de lei que desobriga os aplicativos de transporte e entrega de seguirem a legisla\u00e7\u00e3o trabalhista estadual. Na pr\u00e1tica, a Proposta 22 garante a essas empresas o poder de retirar os direitos de seus motoristas oferecendo contrapartidas m\u00ednimas.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a opini\u00e3o da jornalista e integrante do conselho editorial da revista Dissent, Michelle Chen. Ela cobre reivindica\u00e7\u00f5es por melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho nos EUA e fez uma reflex\u00e3o sobre os caminhos que levaram a essa derrota para os motoristas e entregadores na Calif\u00f3rnia com repercuss\u00e3o e poss\u00edveis consequ\u00eancias a n\u00edvel global.<\/p>\n<p>Segundo Chen, os advogados trabalhistas veem na Proposta 22 um duro golpe contra os benef\u00edcios sociais, como a limita\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho, pagamento de horas extras e afastamento remunerado por doen\u00e7a, consolidados na hist\u00f3rica lei estadual Assembly Bill n\u00ba 5 (AB-5), que tornou mais rigoroso o enquadramento jur\u00eddico de trabalhadores como empregados ou como aut\u00f4nomos. A decis\u00e3o afeta n\u00e3o s\u00f3 motoristas, mas tamb\u00e9m outros tipos de freelancers, como escritores e m\u00fasicos, e \u00e9 especialmente danosa durante a pandemia da Covid-19, em que a atividade econ\u00f4mica se reduziu.<\/p>\n<p>AB-5, a lei que balan\u00e7ou os EUA<br \/>\nO lobby promovido pelas plataformas de aplicativo contra direitos trabalhistas n\u00e3o come\u00e7ou com a campanha em favor da Proposta 22. Na verdade, esse \u00e9 apenas mais um cap\u00edtulo de uma longa guerra pol\u00edtica iniciada com a aprova\u00e7\u00e3o provis\u00f3ria da AB-5 pela C\u00e2mara e o Senado da Calif\u00f3rnia em setembro de 2019. Essa legisla\u00e7\u00e3o, por sua vez, tamb\u00e9m faz parte dos esfor\u00e7os de anos na tentativa de regular os neg\u00f3cios das empresas de aplicativos e estabelecer novas regras para as rela\u00e7\u00f5es de trabalho na gig economy.<\/p>\n<p>S\u00edmbolo maior da transforma\u00e7\u00e3o que acompanha a revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e tamb\u00e9m conhecida como \u201ceconomia de bicos\u201d, a gig economy \u00e9 definida por um mercado de trabalho dominado pela presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os tempor\u00e1rios ou de curto prazo. Sob esse regime, trabalhadores realizam tarefas pontuais sem v\u00ednculos empregat\u00edcios com as empresas, como \u00e9 comum em plataformas como Airbnb e a pr\u00f3pria Uber. N\u00e3o por acaso esse processo de flexibiliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es trabalhistas e precariza\u00e7\u00e3o da m\u00e3o de obra foi classificado por estudiosos, como o soci\u00f3logo Ricardo Antunes e a historiadora Virg\u00ednia Fontes, como \u201cuberiza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Nessa fra\u00e7\u00e3o empresarial de desregula\u00e7\u00e3o desenfreada, o medo da interven\u00e7\u00e3o do Estado passou a se manifestar com mais veem\u00eancia depois de abril de 2018, quando a Suprema Corte da Calif\u00f3rnia julgou uma a\u00e7\u00e3o coletiva (caso Dynamex) e interpretou o direito estadual para estender a condi\u00e7\u00e3o de \u201cempregados\u201d aos motoristas de aplicativos. Na decis\u00e3o, ficou estabelecido um teste de tr\u00eas fatores \u2013 o ABC Test \u2013 para determinar se um trabalhador pode ser enquadrado como empregado (employee) ou como aut\u00f4nomo (independent contractor). Segundo a an\u00e1lise do mestrando em Direito pela UERJ, Jo\u00e3o Renda Leal Fernandes, pelo ABC Test, o trabalhador s\u00f3 pode ser considerado um independent contractor se cumulativamente a) estiver livre do controle e dire\u00e7\u00e3o do tomador de servi\u00e7os; b) prestar servi\u00e7os que estejam fora do escopo usual dos neg\u00f3cios do tomador; c) possuir um neg\u00f3cio independente no setor em que os servi\u00e7os s\u00e3o prestados (ou seja, se for, de fato, um microempreendedor).<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a decis\u00e3o da Suprema Corte, os legisladores da Calif\u00f3rnia foram al\u00e9m e, um ano mais tarde, aprovaram o ato normativo \u2013 AB-5 \u2013 positivando o ABC Test e o incorporando \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o trabalhista estadual. A nova lei, redigida pela deputada democrata de San Diego, Lorena Gonzalez, e sancionada pelo governador Gavin Newsom em setembro de 2019, imp\u00f4s um freio n\u00e3o s\u00f3 ao obrigar as plataformas a tratarem seus condutores como empregados. Ela tamb\u00e9m estipula que as companhias garantam adicional de horas extras, sal\u00e1rio m\u00ednimo por hora, limite para jornada de trabalho, afastamento remunerado em caso de doen\u00e7a, intervalos intrajornadas, aviso-pr\u00e9vio de 60 dias e o seguro-desemprego previsto nas leis californianas.<\/p>\n<p>A medida sancionada atingiu em cheio a Uber, a Lyft e a empresa de entrega de refei\u00e7\u00f5es DoorDash. As tr\u00eas companhias lan\u00e7aram um grupo chamado Protect App-Based Drivers and Services (Proteja Motoristas de Aplicativos e Servi\u00e7os, em tradu\u00e7\u00e3o livre) e prometeram gastar mais de 90 milh\u00f5es de d\u00f3lares para reverter a AB-5. Elas chegaram a apresentar uma contraproposta oferecendo a concess\u00e3o de alguns benef\u00edcios, como o pagamento de uma remunera\u00e7\u00e3o cerca de 20% superior ao sal\u00e1rio m\u00ednimo estadual por hora de trabalho, seguro contra acidentes e reembolso de despesas relacionadas \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o e abastecimento dos ve\u00edculos. Essa press\u00e3o, todavia, foi em v\u00e3o, e a legisla\u00e7\u00e3o entrou em vigor em janeiro de 2019.<\/p>\n<p>Em p\u00e2nico, as plataformas de aplicativos passaram a promover um conjunto de iniciativas para substituir ou revogar a lei. Uma das cartadas foi a proposi\u00e7\u00e3o do referendo para aprovar a projeto de lei Protect App-Based Drivers and Services Act \u2013 a chamada Proposta 22 \u2013 eximindo as empresas dos efeitos da AB-5. As empresas precisariam coletar em torno de 623 mil assinaturas entre os eleitores registrados da Calif\u00f3rnia para submeter o projeto ao escrut\u00ednio popular.<\/p>\n<p>Na Proposta 22, o retorno da \u201cflexibilidade\u201d<br \/>\nSegundo Michelle Chen, o argumento principal das companhias em favor da Proposta 22 girou em torno da no\u00e7\u00e3o de \u201cflexibilidade\u201d, ou seja, a suposta liberdade dos trabalhadores de escolher onde e quando trabalhar. A jornalista, por\u00e9m, acrescenta que essa vis\u00e3o corporativa ignora o quadro real de motoristas submetidos a longas jornadas de trabalho sem benef\u00edcios e mal conseguindo sobreviver com uma renda di\u00e1ria cada vez menor.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso dos funcion\u00e1rios da DoorDash, que ganham apenas um d\u00f3lar por entrega e, muitas vezes, n\u00e3o recebem a gorjeta dos clientes em seu valor integral, ficando retida pelo aplicativo. J\u00e1 os motoristas da Uber e Lyft relatam queda significativa na renda, redu\u00e7\u00e3o das horas na estrada e falta de fontes alternativas de remunera\u00e7\u00e3o durante a pandemia. De acordo com a Bloomberg, esses trabalhadores tamb\u00e9m t\u00eam reclamado da aus\u00eancia de suporte das empresas para os profissionais que tiveram que suspender as atividades di\u00e1rias ap\u00f3s o diagn\u00f3stico positivo para o coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>Com a Proposta 22 aprovada, pouca coisa muda em suas condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Os motoristas e entregadores continuam com o status de aut\u00f4nomos, com a promessa de concess\u00e3o de algumas garantias, como um sal\u00e1rio por hora de, pelo menos, 120% do m\u00ednimo local e um seguro-sa\u00fade calculado pelo n\u00famero de horas trabalhadas. Contudo, esses benef\u00edcios est\u00e3o condicionados ao \u201ctempo ocupado\u201d do motorista, quando h\u00e1 um passageiro no carro, o que corresponde a 28-33% dos turnos, ou seja, o tempo que leva para pegar e transportar uma pessoa ou concluir uma entrega. Assim, seria deixado de fora o tempo gasto com tarefas b\u00e1sicas, como abastecer o autom\u00f3vel ou limpar sujeira sobre o estofado. Estudos financiados pelas pr\u00f3prias empresas indicaram que os motoristas gastam at\u00e9 37% do seu tempo no carro logados no aplicativo de transporte, mas sem um passageiro.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a realidade cotidiana confidenciada a Michelle Chen pela motorista Nicole Moore, que tamb\u00e9m \u00e9 ativista da Rideshare Drivers United (RDU), associa\u00e7\u00e3o de defesa dos direitos trabalhistas dessa categoria. \u201cOs motoristas est\u00e3o vivendo no limite, tendo que atrasar o pagamento do aluguel e economizar a comida que t\u00eam para alimentar sua fam\u00edlia. N\u00e3o estamos recebendo os passageiros de que precisamos, n\u00e3o estamos recebendo o dinheiro de que precisamos. Nem mesmo um sal\u00e1rio m\u00ednimo ap\u00f3s pagarmos nossas despesas\u201d, afirmou Moore.<\/p>\n<p>Um estudo financiado pelo grupo favor\u00e1vel \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o da Proposta 22 estimou que os trabalhadores passariam a ganhar entre 25 e 27 d\u00f3lares por hora. Entretanto, outro estudo do Centro de Trabalho da Universidade da Calif\u00f3rnia (UC Berkeley) garante que os ganhos podem ser ainda bem abaixo do sal\u00e1rio m\u00ednimo de 5,64 d\u00f3lares por hora. Isso representa menos da metade do sal\u00e1rio m\u00ednimo de 14 d\u00f3lares da Calif\u00f3rnia institu\u00eddo a partir de 2021. A RDU prev\u00ea ainda que os motoristas continuar\u00e3o a arcar com despesas como custos de manuten\u00e7\u00e3o do ve\u00edculo por conta pr\u00f3pria. \u201cO que a Uber e a Lyft estabeleceram \u00e9 realmente pior do que aquilo que est\u00e3o nos pagando hoje e certamente pior do que a lei trabalhista b\u00e1sica\u201d, alertou Moore.<\/p>\n<p>Poder do lobby e da coopta\u00e7\u00e3o<br \/>\nO modelo de neg\u00f3cios das empresas de aplicativos por tr\u00e1s da Proposta 22 tem acumulado recordes de lucros bilion\u00e1rios. Quando a Lyft abriu seu capital nas bolsas de valores dos EUA em mar\u00e7o de 2019, ela foi avaliada em 22 bilh\u00f5es de d\u00f3lares com suas a\u00e7\u00f5es disparando em 21% poucos minutos ap\u00f3s a abertura do preg\u00e3o, terminando o dia com uma valoriza\u00e7\u00e3o mais modesta de 8,7%. A Lyft, que j\u00e1 contava \u00e0 \u00e9poca com 1,9 milh\u00e3o de motoristas trabalhando por seu aplicativo, se tornou o t\u00edpico exemplo de startup unic\u00f3rnio, isto \u00e9, firma com avalia\u00e7\u00e3o de pre\u00e7o de mercado superior a 1 bilh\u00e3o de d\u00f3lares. Por sua vez, a Uber estava avaliada em 82,4 bilh\u00f5es de d\u00f3lares antes de sua oferta p\u00fablica inicial em maio de 2019 e conta com 3,9 milh\u00f5es de condutores.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as a esse modelo empregat\u00edcio, em que as empresas classificam sua for\u00e7a de trabalho como empreiteiros privados, a Uber e a Lyft pretendem potencializar sua lucratividade expandindo a explora\u00e7\u00e3o de seus funcion\u00e1rios. Prova disso \u00e9 a recusa das duas plataformas em pagar para o fundo de seguro-desemprego da Calif\u00f3rnia, economizando juntas 413 milh\u00f5es de d\u00f3lares desde 2014.<\/p>\n<p>Por outro lado, as mesmas companhias investiram mais de 200 milh\u00f5es de d\u00f3lares na campanha pelo \u201cSim\u201d no referendo da Proposta 22, o que fez dela a consulta p\u00fablica mais cara da hist\u00f3ria dos EUA. Esse gasto inclui a contrata\u00e7\u00e3o de firmas de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, como a MB Public Affairs, que constituiu sua reputa\u00e7\u00e3o trabalhando para a ind\u00fastria do cigarro. De fato, o modus operandi durante a campanha do referendo recorreu a pr\u00e1ticas j\u00e1 usadas pelo lobby tabagista: as plataformas de aplicativo pressionam legisladores locais, financiam seus pr\u00f3prios estudos acad\u00eamicos favor\u00e1veis, criam movimentos de base falsos (processo chamado de astroturfing) e perseguem e assediam cr\u00edticos.<\/p>\n<p>A campanha chegou a tentar se aproveitar do movimento Black Lives Matter para limpar sua imagem por meio de estrat\u00e9gias de marketing evocando quest\u00f5es de justi\u00e7a racial. Assim, as companhias propuseram reformular a lei para eliminar o piso salarial de uma m\u00e3o de obra majoritariamente composta por minorias e imigrantes. A campanha buscou se apropriar da linguagem do ativismo de minorias para tentar persuadir o eleitorado a crer que a aprova\u00e7\u00e3o da Proposta 22 seria uma conquista para as comunidades n\u00e3o-brancas.<\/p>\n<p>Algumas lideran\u00e7as de grupos afro-americanos e latinos, de fato, declararam formalmente apoio ao projeto, como a Associa\u00e7\u00e3o Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP) da Calif\u00f3rnia. A Lyft chegou a oferecer viagens gratuitas para os membros dessa organiza\u00e7\u00e3o at\u00e9 o m\u00eas de abril. A presidente do NAACP da Calif\u00f3rnia, Alice Huffman, recebeu 85 mil d\u00f3lares como consultora de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas da campanha pela Proposta 22. Ela participou de an\u00fancios pedindo votos para o \u201cSim\u201d no referendo e apareceu em um e-mail enviado pela Uber aos seus clientes intitulado \u201cPor que as comunidades n\u00e3o-brancas apoiam a Proposta 22\u201d.<\/p>\n<p>Entretanto, houve tamb\u00e9m o recha\u00e7o expl\u00edcito por parte de trabalhadores afro-americanos \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o da medida. Em carta aberta para os California Black Media Partners, a motorista da Lyft e ativista por justi\u00e7a racial, Cherri Murphy, condenou duramente o marketing das companhias: \u201cN\u00e3o somos enganados. Seu discurso de apoio ao Black Lives Matter \u00e9 vazio, criado por equipes de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas bem-pagas e ausente de qualquer promessa de mudan\u00e7a real\u201d. Segundo pesquisa da Universidade da Calif\u00f3rnia em Santa Cruz citada na carta, 78% dos motoristas de aplicativos nos EUA s\u00e3o afro-americanos e outras pessoas de cor, e 56% s\u00e3o imigrantes. \u201cJusti\u00e7a racial \u00e9 justi\u00e7a econ\u00f4mica. As condi\u00e7\u00f5es que tornam poss\u00edvel e inevit\u00e1vel o assassinato de negros pela pol\u00edcia s\u00e3o as mesmas que tornam poss\u00edvel e inevit\u00e1vel a explora\u00e7\u00e3o de trabalhadores negros e pardos\u201d, acrescentou a ativista.<\/p>\n<p>Resist\u00eancia contra a uberiza\u00e7\u00e3o<br \/>\nPara triunfar nas urnas, a campanha pelo \u201cSim\u201d promoveu uma verdadeira blitzkrieg publicit\u00e1ria que envolveu um gasto recorde de mais de 6,5 milh\u00f5es de d\u00f3lares em an\u00fancios no Facebook entre 29 de julho e 27 de outubro. A cifra \u00e9 maior que toda a campanha digital na Calif\u00f3rnia dos dois candidatos presidenciais no mesmo per\u00edodo de 90 dias \u2013 Biden e Trump gastaram no estado, respectivamente, 4,6 milh\u00f5es e 3,6 milh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n<p>Os motoristas tamb\u00e9m foram bombardeados com an\u00fancios em suas pr\u00f3prias plataformas. Segundo Michelle Chen, essas mensagens prometiam proteger a \u201cflexibilidade\u201d e a \u201cindepend\u00eancia\u201d dos trabalhadores. O pr\u00f3prio CEO da Uber, Dara Khosrowshahi, mandou uma mensagem a eles na noite da vit\u00f3ria: \u201cO futuro do trabalho independente est\u00e1 mais bem assegurado agora, gra\u00e7as a muitos motoristas como voc\u00eas que se fizeram entender e aos eleitores de todo estado que ouviram\u201d. Na manh\u00e3 seguinte ao resultado, as a\u00e7\u00f5es da Lyft subiam 15,66%, enquanto as da Uber avan\u00e7avam 11% na Bolsa de Nova York.<\/p>\n<p>Na outra frente, a campanha de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 Proposta 22 reuniu coaliz\u00e3o de sindicatos, organiza\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias e deputados federais e estaduais da Calif\u00f3rnia. Os opositores, por\u00e9m, n\u00e3o contaram com 1\/10 do or\u00e7amento de seus oponentes, e suas mensagens nas redes sociais e servi\u00e7os banc\u00e1rios por telefone acabaram n\u00e3o tendo a mesma visibilidade, mesmo contando com o apoio formal do presidente eleito Joe Biden, da vice-presidente Kamala Harris e dos senadores Bernie Sanders e Elizabeth Warren.<\/p>\n<p>A liga\u00e7\u00e3o de pol\u00edticos democratas com as companhias de aplicativos explica a falta de engajamento dessas lideran\u00e7as, como o ex-procurador-geral adjunto do Departamento de Justi\u00e7a dos EUA no governo Obama e cunhado de Kamala Harris, Tony West, que hoje \u00e9 diretor jur\u00eddico da Uber, e a ex-assessora principal de Obama, Valerie Jarrett, que hoje est\u00e1 no conselho da Lyft. Al\u00e9m disso, o conselheiro-geral do Conselho Nacional de Rela\u00e7\u00f5es Trabalhistas, Peter B. Robbe, e o pr\u00f3prio Departamento do Trabalho do governo Trump ficaram do lado das empresas.<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria no referendo representa um est\u00edmulo para as plataformas de aplicativos levarem o modelo de legisla\u00e7\u00e3o da Proposta 22 para o restante dos EUA, promovendo lobbies contra as regula\u00e7\u00f5es trabalhistas estaduais. Esse promete ser um desafio para essas companhias, j\u00e1 que por todo o pa\u00eds t\u00eam crescido as cobran\u00e7as por sal\u00e1rios justos, prote\u00e7\u00f5es legais para os trabalhadores e pagamento de impostos, movimento refor\u00e7ado com a pandemia da Covid-19. Sindicatos e associa\u00e7\u00f5es trabalhistas t\u00eam entrado com processos judiciais contra abusos das empresas. A cidade de Nova York j\u00e1 conta, desde 2018, com uma legisla\u00e7\u00e3o fixando patamares m\u00ednimos de remunera\u00e7\u00e3o para os motoristas. Em setembro de 2020, Seattle passou uma lei semelhante, classificando os condutores como empregados.<\/p>\n<p>Apesar da derrota na Calif\u00f3rnia, a ativista da RDU, Nicole Moore, confia na perman\u00eancia da press\u00e3o sobre o Uber, a Lyft e as demais plataformas de aplicativos para a regulamenta\u00e7\u00e3o dos direitos trabalhistas. \u201cEstamos certos de que os motoristas n\u00e3o podem ser trabalhadores de segunda classe. Nosso sucesso no futuro do trabalho significa que, como pa\u00eds, fomos bem-sucedidos em estabelecer os padr\u00f5es trabalhistas b\u00e1sicos\u201d, disse Moore na revista Dissent. A ativista garante que a mobiliza\u00e7\u00e3o na Calif\u00f3rnia e por todos os EUA n\u00e3o terminou: \u201cLutaremos de forma absoluta. Lutaremos nos tribunais. Lutaremos com novas leis. Lutaremos contra isso da forma como os motoristas t\u00eam obtido mais sucesso, que \u00e9 com botas de couro e cartazes. Continuaremos nossa luta corpo a corpo\u201d.<\/p>\n<p>Gabriel Deslandes<br \/>\n\u00e9 jornalista formado pela Escola de Comunica\u00e7\u00e3o da UFRJ. \u00c9 articulista e tradutor da Revista Opera e colaborador do portal de not\u00edcias Brasil Wire.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26583\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[15],"tags":[224],"class_list":["post-26583","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s18-sindical","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6UL","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26583","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26583"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26583\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26583"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26583"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26583"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}