{"id":2660,"date":"2012-04-10T20:40:38","date_gmt":"2012-04-10T20:40:38","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2660"},"modified":"2012-04-10T20:40:38","modified_gmt":"2012-04-10T20:40:38","slug":"china-ascensao-queda-e-retomada-como-poder-global-as-licoes-da-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2660","title":{"rendered":"China: ascens\u00e3o, queda e retomada como poder global \u2013 as li\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"\n<p>Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>O estudo do poder mundial tem sido prejudicado por historiadores euroc\u00eantricos que t\u00eam distorcido e ignorado o papel dominante que a China desempenhou na economia mundial entre 1100 e 1800. A brilhante pesquisa hist\u00f3rica de John Hobson1 a respeito da economia mundial durante esse per\u00edodo fornece dados emp\u00edricos abundantes, que tratam da superioridade econ\u00f4mica e tecnol\u00f3gica da China sobre a civiliza\u00e7\u00e3o ocidental na maior parte do mil\u00eanio, antecedendo sua conquista e o decl\u00ednio no s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>A reemerg\u00eancia da China como poder econ\u00f4mico mundial levanta importantes quest\u00f5es sobre o que podemos aprender de sua anterior ascens\u00e3o e queda, bem como a respeito das amea\u00e7as internas e externas a esse superpoder econ\u00f4mico emergente para o futuro imediato.<\/p>\n<p>Primeiramente, vamos esbo\u00e7ar os principais contornos da ascens\u00e3o hist\u00f3rica da China rumo \u00e0 superioridade econ\u00f4mica no Ocidente antes do s\u00e9culo XIX, seguindo de perto as considera\u00e7\u00f5es de John Hobson emThe Eastern Origins of Western Civilization [As origens orientais da Civiliza\u00e7\u00e3o Ocidental]. Desde que a maioria dos historiadores econ\u00f4micos do ocidente (liberais, conservadores e marxistas) apresentou a China hist\u00f3rica como uma sociedade estagnada, retr\u00f3grada e paroquial, como um \u201cdespotismo oriental\u201d, algumas corre\u00e7\u00f5es cuidadosas precisam ser feitas. \u00c9 especialmente importante enfatizar como a China, a pot\u00eancia tecnol\u00f3gica mundial entre 1100 e 1800, tornou poss\u00edvel a emerg\u00eancia do Ocidente. Foi apenas por meio do empr\u00e9stimo e assimila\u00e7\u00e3o das inova\u00e7\u00f5es chinesas que o Ocidente foi capaz de fazer a transi\u00e7\u00e3o para as economias modernas capitalistas e imperialistas.<\/p>\n<p>Na parte 2, vamos analisar e discutir os fatores e as circunst\u00e2ncias que levaram ao decl\u00ednio da China no s\u00e9culo XIX e sua subsequente domina\u00e7\u00e3o, explora\u00e7\u00e3o e pilhagem pelos pa\u00edses imperiais do Ocidente, primeiramente a Inglaterra e depois o resto da Europa, Jap\u00e3o e Estados Unidos.<\/p>\n<p>Na parte 3, vamos delinear brevemente os fatores que levaram \u00e0 emancipa\u00e7\u00e3o da China do jugo do poder colonial e neocolonial e analisaremos sua recente ascens\u00e3o \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de segunda maior pot\u00eancia econ\u00f4mica mundial.<\/p>\n<p>Por fim, vamos observar as amea\u00e7as do passado e do presente ao processo de emancipa\u00e7\u00e3o da China com rela\u00e7\u00e3o ao poder colonial e neocolonial, destacando as similaridades entre o colonialismo brit\u00e2nico dos s\u00e9culos XVIII e XIX e as atuais estrat\u00e9gias imperialistas dos EUA, focando nos pontos fracos e nos pontos fortes das respostas chinesas do passado e do presente.<\/p>\n<p>China: a ascens\u00e3o e a consolida\u00e7\u00e3o do poder global (1100-1800)<\/p>\n<p>Num formato comparativo sistem\u00e1tico, John Hobson fornece uma fartura de indicadores emp\u00edricos demonstrando a superioridade da China na economia global com rela\u00e7\u00e3o ao Ocidente e em particular \u00e0 Inglaterra. Eis alguns fatos marcantes:<\/p>\n<p>J\u00e1 em 1078, a China era o maior produtor mundial de a\u00e7o (125.000 toneladas); enquanto a Gr\u00e3-Bretanha em 1788 produzia 76.000 toneladas.<\/p>\n<p>A China era a l\u00edder mundial em inova\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica na manufatura t\u00eaxtil, sete s\u00e9culos antes da \u201crevolu\u00e7\u00e3o t\u00eaxtil\u201d da Inglaterra, no s\u00e9culo XVIII.<\/p>\n<p>Suas inova\u00e7\u00f5es na produ\u00e7\u00e3o de papel, impress\u00e3o de livros, armas de fogo e ferramentas produziram uma superpot\u00eancia manufatureira, cujas mercadorias eram transportadas pelo mundo afora pelo mais avan\u00e7ado sistema de navega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A China possu\u00eda os maiores navios comerciais do mundo. Em 1588, as maiores embarca\u00e7\u00f5es inglesas suportavam 400 toneladas; as chinesas, 3 mil toneladas. Mesmo j\u00e1 tardiamente, no final do s\u00e9culo XVIII, os mercadores chineses empregaram 130.000 navios de transporte, muitas vezes o contingente total da Gr\u00e3-Bretanha. A China manteve sua posi\u00e7\u00e3o proeminente na economia mundial at\u00e9 o in\u00edcio do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>Industriais ingleses e europeus seguiram a lideran\u00e7a chinesa, assimilando e tomando de empr\u00e9stimo sua mais avan\u00e7ada tecnologia, ansiosos para penetrar no avan\u00e7ado e lucrativo mercado chin\u00eas.<\/p>\n<p>Com bancos, com uma economia de papel-moeda est\u00e1vel, com produ\u00e7\u00e3o e altos resultados na agricultura, a renda per capita da China equiparou-se com a da Gr\u00e3-Bretanha j\u00e1 em 1750.<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o de dom\u00ednio global da China foi desafiada pela ascens\u00e3o do imperialismo brit\u00e2nico, que adotou as inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas, de navega\u00e7\u00e3o e de mercado da China e outros pa\u00edses asi\u00e1ticos, a fim de saltar etapas anteriores e se tornar uma pot\u00eancia mundial.2<\/p>\n<p>O imperialismo ocidental e o decl\u00ednio da China<\/p>\n<p>A conquista brit\u00e2nica e ocidental do Oriente foi baseada na natureza militar do Estado imperialista, nas suas rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas n\u00e3o rec\u00edprocas com os parceiros comerciais estrangeiros e na ideologia ocidental imperialista, que motivou e justificou as conquistas em terras estrangeiras.<\/p>\n<p>Diferentemente da China, a revolu\u00e7\u00e3o industrial inglesa e sua expans\u00e3o al\u00e9m-mar foi dirigida por uma pol\u00edtica militarista. De acordo com Hobson, durante o per\u00edodo de 1688-1815, a Gr\u00e3-Bretanha esteveenvolvida em guerras durante 52% do tempo.3 Enquanto os chineses se basearam nos mercados abertos, na produ\u00e7\u00e3o superior, na sofisticada atividade banc\u00e1ria e comercial, a Inglaterra se utilizou da prote\u00e7\u00e3o alfandeg\u00e1ria, da conquista militar, da destrui\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de empresas estrangeiras competitivas e da apropria\u00e7\u00e3o e saque de recursos locais. A predomin\u00e2ncia global da China foi baseada em \u201cbenef\u00edcios rec\u00edprocos\u201d com seus parceiros comerciais, enquanto a Inglaterra recorria ao uso de ex\u00e9rcitos mercen\u00e1rios de ocupa\u00e7\u00e3o, repress\u00e3o brutal e \u00e0 pol\u00edtica do \u201cdividir para conquistar\u201d, de est\u00edmulo \u00e0s rivalidades locais. Diante da resist\u00eancia nativa, a Inglaterra (assim como outras pot\u00eancias imperialistas ocidentais) n\u00e3o hesitou em exterminar comunidades inteiras.4<\/p>\n<p>Impossibilitada de superar o mercado chin\u00eas atrav\u00e9s de uma melhor competitividade econ\u00f4mica, a Inglaterra recorreu ao brutal poderio militar. Ela mobilizou, armou e comandou mercen\u00e1rios, retirados de suas col\u00f4nias na \u00cdndia e em quaisquer lugares para for\u00e7ar sua transfer\u00eancia para a China e impor tratados desiguais com tarifas mais baixas. Como resultado, a China foi inundada pelo \u00f3pio ingl\u00eas produzido em suas planta\u00e7\u00f5es na \u00cdndia \u2013 apesar das leis chinesas que proibiam ou regulavam a importa\u00e7\u00e3o e a venda de narc\u00f3ticos. Os governantes chineses, h\u00e1 muito acostumados \u00e0 sua superioridade comercial e industrial, estavam despreparados para as \u201cnovas regras imperialistas\u201d impostas pelo poder global. A disposi\u00e7\u00e3o ocidental para usar o poder militar a fim de ganhar col\u00f4nias, pilhar recursos e recrutar amplos ex\u00e9rcitos mercen\u00e1rios comandados por oficiais europeus, decretou o fim da China como pot\u00eancia mundial.<\/p>\n<p>A China tem baseado sua predomin\u00e2ncia econ\u00f4mica na \u201cn\u00e3o interfer\u00eancia nos assuntos internos de seus parceiros comerciais\u201d. Em contraste, os imperialistas brit\u00e2nicos intervieram violentamente na \u00c1sia, reorganizando economias locais para seguir as necessidades do imp\u00e9rio (eliminando competidores econ\u00f4micos, inclusive fabricantes de algod\u00e3o indianos mais eficientes) e passou a ter controle na pol\u00edtica local, no aparato econ\u00f4mico e administrativo a fim de estabelecer o Estado colonial.<\/p>\n<p>O imp\u00e9rio brit\u00e2nico foi constru\u00eddo com recursos trazidos das col\u00f4nias e atrav\u00e9s de militariza\u00e7\u00e3o massiva de sua economia.5 Desse modo, foi f\u00e1cil garantir a supremacia militar sobre a China. A pol\u00edtica externa da China foi prejudicada pela excessiva confian\u00e7a de suas elites nas rela\u00e7\u00f5es comerciais. Autoridades chinesas e elites comerciais locais visaram acalmar a Inglaterra e convenceram o seu imperador a conceder enormes regi\u00f5es extraterritoriais, abrindo mercados em detrimento das manufaturas chinesas, entregando a soberania local. Como sempre, a Inglaterra incentivou rivalidades internas e revoltas que vieram a desestabilizar o pa\u00eds.<\/p>\n<p>A penetra\u00e7\u00e3o ocidental e inglesa e a coloniza\u00e7\u00e3o do mercado da China criaram uma classe inteiramente nova: os ricos \u2018compradores\u2019 entreguistas chineses importavam bens ingleses e facilitavam a tomada dos mercados locais e seus recursos. A pilhagem imperialista for\u00e7ou uma maior explora\u00e7\u00e3o e taxa\u00e7\u00e3o de grande contingente de camponeses chineses e trabalhadores. Os governantes da China eram obrigados a pagar as d\u00edvidas de guerra e financiar o deficit comercial imposto pelo poder imperial ocidental atrav\u00e9s da explora\u00e7\u00e3o do seu campesinato. Essa situa\u00e7\u00e3o levou os camponeses \u00e0 fome e \u00e0 revolta.<\/p>\n<p>No in\u00edcio do s\u00e9culo XX (menos de um s\u00e9culo depois da Guerra do \u00d3pio), a China descendeu da condi\u00e7\u00e3o de pot\u00eancia econ\u00f4mica mundial para a de um pa\u00eds semicolonial falido, com uma enorme popula\u00e7\u00e3o pobre. Os principais portos foram controlados por administra\u00e7\u00f5es imperialistas ocidentais e o campo passou ao jugo de violentos e corruptos caudilhos. O \u00f3pio ingl\u00eas escravizou milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Acad\u00eamicos brit\u00e2nicos: apologistas eloquentes pela conquista imperialista<\/p>\n<p>Toda profiss\u00e3o acad\u00eamica ocidental \u2013 sobretudo os historiadores do imperialismo brit\u00e2nico \u2013 atribu\u00edram o dom\u00ednio imperialista ingl\u00eas da \u00c1sia \u00e0 \u201csuperioridade tecnol\u00f3gica\u201d, \u00e0 mis\u00e9ria da China e o status colonial ao \u201catraso oriental\u201d, omitindo qualquer men\u00e7\u00e3o ao mil\u00eanio do progresso t\u00e9cnico e comercial chin\u00eas, com sua superioridade at\u00e9 o alvorecer do s\u00e9culo XIX. Pelo fim dos anos de 1920, com a invas\u00e3o imperialista japonesa, a China deixou de existir como pa\u00eds unificado. Sob a \u00e9gide da lei imperialista, centenas de milh\u00f5es de chineses passaram fome, foram desapropriados ou assassinados, assim como os poderes do ocidente e do Jap\u00e3o saquearam sua economia. A elite chinesa \u201ccolaboradora\u201d entreguista foi desmoralizada diante do povo chin\u00eas.<\/p>\n<p>O que permaneceu na mem\u00f3ria coletiva de grandes contingentes do povo chin\u00eas \u2013 e o que estava totalmente ausente das considera\u00e7\u00f5es de prestigiosos acad\u00eamicos ingleses e estadunidenses \u2013 foi o fato de a China ter sido uma vez uma pot\u00eancia global pr\u00f3spera e din\u00e2mica. Comentaristas ocidentais descartaram essa mem\u00f3ria coletiva da ascens\u00e3o da China como se fossem pretens\u00f5es tolas de uma realeza e uma nobreza nost\u00e1lgicas \u2013 como arrog\u00e2ncia Han sem sentido.<\/p>\n<p>A China levanta das cinzas da humilha\u00e7\u00e3o e do saqueio imperialista: a Revolu\u00e7\u00e3o Comunista Chinesa<\/p>\n<p>A ascens\u00e3o da China moderna para se tornar a segunda maior economia do mundo foi poss\u00edvel apenas atrav\u00e9s do sucesso da revolu\u00e7\u00e3o comunista chinesa na metade do s\u00e9culo XX. O Ex\u00e9rcito \u201cVermelho\u201d de Liberta\u00e7\u00e3o Popular derrotou primeiramente o ex\u00e9rcito invasor imperialista japon\u00eas e posteriormente o ex\u00e9rcito \u201cnacionalista\u201d liderado pelo Kuomintang e sustentado pelo imperialismo dos EUA. Isso permitiu a reunifica\u00e7\u00e3o da China como Estado soberano independente. O governo comunista aboliu os privil\u00e9gios extraterritoriais dos imperialistas ocidentais, acabaram com os feudos dos caudilhos e g\u00e2ngsteres regionais e expulsaram os milion\u00e1rios propriet\u00e1rios de bord\u00e9is, traficantes de mulheres e de drogas, bem como outros \u201cprovedores de servi\u00e7os\u201d para o imp\u00e9rio euro-estadunidense.<\/p>\n<p>No pleno sentido do termo, a revolu\u00e7\u00e3o comunista forjou o moderno Estado chin\u00eas. Os novos l\u00edderes come\u00e7aram ent\u00e3o a reconstruir uma economia arrasada pelas guerras imperialistas e pela pilhagem ocidental e dos capitalistas japoneses. Depois de 150 anos de inf\u00e2mia e humilha\u00e7\u00e3o, o povo chin\u00eas recuperou seu orgulho e dignidade nacional. Esses elementos sociopsicol\u00f3gicos foram essenciais na motiva\u00e7\u00e3o dos chineses na defesa de seu pa\u00eds contra os ataques, sabotagens, boicotes e bloqueios dos EUA, montados imediatamente ap\u00f3s a liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que afirmam economistas chineses e ocidentais neoliberais, o crescimento din\u00e2mico da China n\u00e3o come\u00e7ou em 1980. Teria come\u00e7ado em 1950, quando a reforma agr\u00e1ria proveu terra, infraestrutura, cr\u00e9dito e aux\u00edlio t\u00e9cnico a centenas de milh\u00f5es de camponeses e trabalhadores rurais sem-terra e despossu\u00eddos. Atrav\u00e9s do que hoje \u00e9 chamado \u201ccapital humano\u201d e gigantesca mobiliza\u00e7\u00e3o social, os comunistas constru\u00edram estradas, aeroportos, pontes, canais e linhas f\u00e9rreas, assim como as ind\u00fastrias de base, como de carv\u00e3o, ferro e a\u00e7o, para formar a coluna vertebral da moderna economia chinesa. Os vastos sistemas comunistas chineses de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o gratuitos criaram uma for\u00e7a de trabalho motivada, saud\u00e1vel e instru\u00edda. Seus militares altamente profissionais impediram que os EUA expandissem seu imp\u00e9rio militar atrav\u00e9s da pen\u00ednsula coreana at\u00e9 as fronteiras do territ\u00f3rio chin\u00eas. Assim como os velhos scholars e propagandistas ocidentais fabricaram uma hist\u00f3ria de um imp\u00e9rio \u201cestagnado e decadente\u201d para justificar sua conquista destrutiva, tamb\u00e9m seus equivalentes modernos t\u00eam reescrito a hist\u00f3ria dos primeiros 30 anos da hist\u00f3ria comunista chinesa, negando o papel da revolu\u00e7\u00e3o no desenvolvimento de todos os elementos essenciais para uma economia, Estado e sociedade modernos. Est\u00e1 claro que o r\u00e1pido crescimento econ\u00f4mico da China, baseado no desenvolvimento de seu mercado interno, no r\u00e1pido crescimento de seu quadro cient\u00edfico, em t\u00e9cnicos e trabalhadores qualificados, na rede de seguran\u00e7a social que protegeu e promoveu a mobilidade da classe trabalhadora e camponesa, foram produzidos pelos investimentos e planejamentos comunistas.<\/p>\n<p>O avan\u00e7o da China rumo ao poder global come\u00e7ou em 1949, com a expuls\u00e3o de todas as camadas parasit\u00e1rias entreguistas, especuladoras e financeiras que serviram de intermedi\u00e1rias para imperialistas europeus, japoneses e estadunidenses, que drenaram grandes riquezas da China.<\/p>\n<p>A transi\u00e7\u00e3o da China para o capitalismo<\/p>\n<p>A partir de 1980, o governo chin\u00eas iniciou uma guinada dr\u00e1stica em sua estrat\u00e9gia econ\u00f4mica: atrav\u00e9s das tr\u00eas d\u00e9cadas seguintes, ele abriu o pa\u00eds para investimentos estrangeiros em larga escala; privatizou milhares de ind\u00fastrias e isso colocou em movimento um processo de concentra\u00e7\u00e3o de renda baseado numa estrat\u00e9gia deliberada de criar novamente uma classe dominante de bilion\u00e1rios ligados aos capitalistas estrangeiros. A classe pol\u00edtica dominante na China abra\u00e7ou a ideia de tomar emprestado o know how t\u00e9cnico e o acesso aos mercados estrangeiros de firmas internacionais em troca de disponibilizar trabalho barato e abundante, com o custo mais baixo poss\u00edvel.<\/p>\n<p>O Estado chin\u00eas redirecionou grande quantidade de subs\u00eddios p\u00fablicos para promover alto crescimento capitalista atrav\u00e9s do desmantelamento de seu sistema nacional de educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica gratuita e assist\u00eancia \u00e0 sa\u00fade. Eles terminaram com as habita\u00e7\u00f5es p\u00fablicas subsidiadas para centenas de milh\u00f5es de camponeses e trabalhadores fabris urbanos e concederam fundos para especuladores imobili\u00e1rios para a constru\u00e7\u00e3o de apartamentos privados de luxo e arranha-c\u00e9us comerciais. A nova estrat\u00e9gia capitalista da China, bem como seu crescimento de dois d\u00edgitos, foram baseados em profundas mudan\u00e7as estruturais e amplos investimentos p\u00fablicos tornados poss\u00edveis pelo governo comunista anterior. A decolagem do setor privado da China foi baseada em grandes gastos p\u00fablicos efetuados desde 1949.<\/p>\n<p>A nova classe capitalista triunfante e seus colaboradores do ocidente reivindicaram todo o cr\u00e9dito pelo seu \u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d, uma vez tendo a China ascendido \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de segunda maior economia do mundo. Essa nova elite chinesa tem sido menos apressada para anunciar a condi\u00e7\u00e3o da China em termos da brutal desigualdade de classes, rivalizando apenas com os EUA.<\/p>\n<p>China: da depend\u00eancia imperialista a competidor mundial<\/p>\n<p>O crescimento sustentado da China no seu setor manufatureiro foi resultado de investimentos p\u00fablicos altamente concentrados, altos lucros, inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e um mercado dom\u00e9stico protegido. Enquanto ocapital estrangeiro lucrava, isso ocorria sempre dentro da plataforma das prioridades do Estado chin\u00eas e suas regulamenta\u00e7\u00f5es. A din\u00e2mica do regime de \u201cestrat\u00e9gia exportadora\u201d levou a enormes superavitcomerciais, que eventualmente fizeram da China um dos maiores credores mundiais, especialmente da d\u00edvida dos EUA. Tendo por objetivo manter suas ind\u00fastrias din\u00e2micas, a China demandou amplos influxos de mat\u00e9rias-primas, resultando em investimentos internacionais de larga escala e acordos comerciais com pa\u00edses de exporta\u00e7\u00e3o agromineral na \u00c1frica e Am\u00e9rica Latina. Em 2010, a China deslocou os EUA e a Europa da condi\u00e7\u00e3o de principal parceiro comercial de muitos pa\u00edses na \u00c1sia, \u00c1frica e Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>A ascens\u00e3o da China moderna como pot\u00eancia econ\u00f4mica mundial, como sua predecessora entre 1100 e 1800, est\u00e1 baseada em sua gigantesca capacidade produtiva: com\u00e9rcio e investimento foram governados por uma estrita pol\u00edtica de n\u00e3o interfer\u00eancia nas rela\u00e7\u00f5es internas de seus parceiros comerciais. Diferentemente dos EUA, a China n\u00e3o iniciou guerras brutais por petr\u00f3leo; em vez disso, assinou contratos lucrativos. E a China n\u00e3o faz guerras pelos interesses de chineses no estrangeiro, como os EUA t\u00eam feito no Oriente M\u00e9dio por Israel.<\/p>\n<p>O aparente desequil\u00edbrio entre o poder econ\u00f4mico e militar chineses est\u00e1 em gritante contraste com os EUA, onde um imp\u00e9rio militar inchado e parasit\u00e1rio continua a erodir a sua pr\u00f3pria presen\u00e7a econ\u00f4mica global.<\/p>\n<p>O gasto militar dos EUA \u00e9 vinte vezes o da China. Cada vez mais os militares dos EUA desempenham um papel-chave na defini\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas de Washington na tentativa de impedir a ascens\u00e3o da China como pot\u00eancia global.<\/p>\n<p>A ascens\u00e3o da China como pot\u00eancia global: a hist\u00f3ria vai se repetir?<\/p>\n<p>A China tem crescido cerca de 9% por ano e seus bens e servi\u00e7os est\u00e3o aumentando rapidamente a qualidade e o valor. Em contrapartida, os EUA e a Europa t\u00eam afundado em cerca de 0% de crescimento de 2007 a 2012. O contexto t\u00e9cnico-cient\u00edfico inovador da China assimila constantemente as \u00faltimas inven\u00e7\u00f5es do ocidente (e Jap\u00e3o) e as aperfei\u00e7oa, reduzindo assim o custo de produ\u00e7\u00e3o. A China substituiu as \u201cinstitui\u00e7\u00f5es financeiras internacionais\u201d controladas pelos EUA e Europa (FMI, Banco Mundial e Banco Interamericano de Desenvolvimento) como principal credor na Am\u00e9rica Latina. A China continua a liderar como primeiro investidor nos recursos de energia e minera\u00e7\u00e3o na \u00c1frica. A China substituiu os EUA como principal mercado para o petr\u00f3leo da Ar\u00e1bia Saudita, Sud\u00e3o e Ir\u00e3, com perspectiva de logo tomar a posi\u00e7\u00e3o dos EUA como principal mercado para derivados de petr\u00f3leo da Venezuela. Hoje, a China \u00e9 o maior produtor de bens industrializados e o maior exportador do mundo, dominando at\u00e9 mesmo o mercado estadunidense, enquanto desempenha seu papel no mercado financeiro, detendo mais de 1,3 trilh\u00e3o de d\u00f3lares em t\u00edtulos do Tesouro dos EUA.<\/p>\n<p>Sob crescente press\u00e3o de seus trabalhadores e agricultores, os governantes chineses t\u00eam desenvolvido o mercado dom\u00e9stico com aumentos de sal\u00e1rios e gastos sociais para equilibrar a economia e evitar o espectro da instabilidade social. Em contraste, a renda nos EUA, os sal\u00e1rios e os servi\u00e7os p\u00fablicos vitais t\u00eam ca\u00eddo vertiginosamente em termos absolutos e relativos.<\/p>\n<p>Dadas as atuais tend\u00eancias hist\u00f3ricas, est\u00e1 claro que a China vai assumir o lugar dos EUA como pot\u00eancia econ\u00f4mica mundial na pr\u00f3xima d\u00e9cada, isso se os EUA n\u00e3o revidarem e se as profundas desigualdades de classe na China n\u00e3o produzirem maiores convuls\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>A ascens\u00e3o da China moderna como poder global enfrenta s\u00e9rios desafios. Em contraste com a ascens\u00e3o hist\u00f3rica da China em n\u00edvel mundial, o poder econ\u00f4mico mundial da China moderna n\u00e3o est\u00e1 sendo acompanhado por nenhuma concorr\u00eancia imperialista. Contudo, a China ficou seriamente defasada com rela\u00e7\u00e3o aos EUA e \u00e0 Europa na capacidade de promover guerras. Essa op\u00e7\u00e3o pode ter permitido que a China direcionasse recursos p\u00fablicos para maximizar o crescimento econ\u00f4mico, mas isso deixou o pa\u00eds vulner\u00e1vel diante da superioridade militar dos EUA com seu enorme arsenal, sua rede de postos avan\u00e7ados e bases militares em posi\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas, pr\u00f3ximas da costa chinesa e territ\u00f3rios adjacentes.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XIX, o imperialismo brit\u00e2nico demoliu a posi\u00e7\u00e3o global da China com sua superioridade militar, tomando seus portos \u2013 por reconhecer a depend\u00eancia da Inglaterra \u00e0 China com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua \u201csuperioridade mercantil\u201d.<\/p>\n<p>A conquista da \u00cdndia, Birm\u00e2nia e a maior parte da \u00c1sia permitiu \u00e0 Inglaterra estabelecer bases coloniais e recrutar ex\u00e9rcitos mercen\u00e1rios locais. A Inglaterra e seus aliados mercen\u00e1rios cercaram e isolaram a China, criando as condi\u00e7\u00f5es para uma grave perturba\u00e7\u00e3o dos mercados chineses e a imposi\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es comerciais brutais. A presen\u00e7a armada do imp\u00e9rio brit\u00e2nico determinava o que a China importava (com o \u00f3pio contabilizando mais de 50% das exporta\u00e7\u00f5es da Inglaterra nos anos de 1850), enquanto minava as vantagens competitivas da China com pol\u00edticas tarif\u00e1rias.<\/p>\n<p>Hoje em dia, os EUA est\u00e3o tentando pol\u00edticas semelhantes: a frota naval dos EUA patrulha e controla as linhas de navega\u00e7\u00e3o chinesas e os recursos de petr\u00f3leo do exterior atrav\u00e9s de suas bases mar\u00edtimas. A Casa Branca de Obama-Clinton est\u00e1 em processo de desenvolver uma r\u00e1pida resposta militar envolvendo suas bases na Austr\u00e1lia, Filipinas e outros lugares da \u00c1sia. Os EUA est\u00e3o intensificando seus esfor\u00e7os para abalar o acesso chin\u00eas a recursos estrangeiros estrat\u00e9gicos enquanto sustentam separatistas e \u201cinsurgentes\u201d no oeste da China, Tibete, Sud\u00e3o, Birm\u00e2nia, Ir\u00e3, L\u00edbia, S\u00edria e outros lugares. Os acordos militares dos EUA com a \u00cdndia e a instala\u00e7\u00e3o de um regime fantoche no Paquist\u00e3o s\u00e3o avan\u00e7os na estrat\u00e9gia de isolar a China. Enquanto a China sustenta sua pol\u00edtica de \u201cdesenvolvimento harmonioso\u201d e \u201cn\u00e3o interfer\u00eancia nos neg\u00f3cios estrangeiros de outros pa\u00edses\u201d, o imperialismo dos EUA e da Europa atacaram uma s\u00e9rie de parceiros comerciais da China para basicamente reverter a pac\u00edfica expans\u00e3o comercial chinesa.<\/p>\n<p>A car\u00eancia de estrat\u00e9gia pol\u00edtica e ideol\u00f3gica da China para proteger seus interesses econ\u00f4micos no exterior tem sido um convite aos EUA e \u00e0 OTAN para erigir regimes hostis \u00e0 China. O exemplo mais marcante \u00e9 a L\u00edbia, quando os EUA e a OTAN intervieram para depor um governo independente liderado pelo presidente Kadafi, com quem a China havia assinado acordos de investimentos e comerciais de muitos bilh\u00f5es de d\u00f3lares. O bombardeio da OTAN nas cidades da L\u00edbia, nos portos e instala\u00e7\u00f5es petrol\u00edferas, for\u00e7ou a China a retirar 35 mil engenheiros de petr\u00f3leo e trabalhadores de constru\u00e7\u00e3o em quest\u00e3o de dias. A mesma coisa aconteceu no Sud\u00e3o, onde a China investiu bilh\u00f5es para desenvolver sua ind\u00fastria de petr\u00f3leo. Os EUA, Israel e a Europa armaram os rebeldes sudaneses do Sul para romper o fluxo de petr\u00f3leo e atacar os trabalhadores chineses.6 Nos dois casos, a China permitiu passivamente que os militares imperialistas dos EUA e da Europa atacassem seus parceiros comerciais e sabotassem seus investimentos.<\/p>\n<p>Sob Mao Tse-tung, a China teve uma pol\u00edtica ativa contra a agress\u00e3o imperialista: ela sustentou movimentos revolucion\u00e1rios e governos independentes no terceiro mundo. A China capitalista de hoje n\u00e3o tem tido uma pol\u00edtica ativa de apoio a governos ou movimentos capazes de proteger o com\u00e9rcio bilateral chin\u00eas e seus acordos de investimento. A inabilidade chinesa para confrontar a agress\u00e3o militar contra seus interesses econ\u00f4micos \u00e9 devida a profundos problemas estruturais. A pol\u00edtica exterior da China \u00e9 orientada por grandes interesses comerciais, financeiros e industriais que contam apenas com suas \u201cmargens econ\u00f4micas de competitividade\u201d para ganhar fatias crescentes de mercados, n\u00e3o tendo a devida compreens\u00e3o a respeito dos fundamentos militares do sistema econ\u00f4mico mundial. A classe pol\u00edtica da China \u00e9 profundamente influenciada por uma nova classe de bilion\u00e1rios que possuem la\u00e7os fortes com os fundos de capitais ocidentais e que tem absorvido acriticamente os valores culturais do ocidente. Isso \u00e9 ilustrado pela sua prefer\u00eancia a enviar seus pr\u00f3prios filhos para universidades de elite nos EUA e Europa. Eles procuram \u201cadequa\u00e7\u00e3o ao ocidente\u201d a qualquer pre\u00e7o.<\/p>\n<p>Essa falta de qualquer entendimento estrat\u00e9gico a respeito da constru\u00e7\u00e3o militar de um imp\u00e9rio os tem conduzido a responder de maneira ineficaz e ad hoc a cada a\u00e7\u00e3o imperialista que vise minar seu acesso a recursos ou mercados. A perspectiva de \u201cneg\u00f3cios em primeiro lugar\u201d da China parece ter funcionado enquanto o pa\u00eds era um jogador menor no tabuleiro econ\u00f4mico mundial e os imperialistas dos EUA viam na \u201cabertura capitalista\u201d uma chance de facilmente capturar as empresas p\u00fablicas da China e saquear sua economia. Contudo, quando a China (ao contr\u00e1rio da antiga URSS) decidiu reter controles de capitais e desenvolver uma \u201cpol\u00edtica industrial\u201d cuidadosamente controlada e dirigida pelo Estado, direcionando o capital ocidental e a transfer\u00eancia de tecnologia para empresas estatais, que efetivamente penetraram nos mercados dom\u00e9sticos e estrangeiros dos EUA, Washington come\u00e7ou a reclamar e falou em retalia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os enormes superavit comerciais da China com os EUA provocaram uma resposta dupla em Washington: eles venderam massivas quantidades de t\u00edtulos do Tesouro dos EUA para os chineses e come\u00e7aram a desenvolver uma estrat\u00e9gia global para bloquear o avan\u00e7o da China. Desde que os EUA viram declinar sua influ\u00eancia econ\u00f4mica, para reverter o processo, eles se ativeram \u00e0 sua \u00fanica \u201cvantagem comparativa\u201d \u2013 sua superioridade militar baseada num sistema mundial de bases de ataque, uma rede internacional de regimes-clientes, representa\u00e7\u00f5es militares, ONGs, intelectuais e mercen\u00e1rios armados. Washington voltou-se para seus aparatos militares ostensivos e clandestinos para sabotar os parceiros comerciais da China. Washington depende de antigos la\u00e7os com governantes corruptos, dissidentes, jornalistas e magnatas da m\u00eddia para promover sua poderosa prote\u00e7\u00e3o de propaganda, enquanto avan\u00e7am sua ofensiva militar contra os interesses da China ao redor do mundo.<\/p>\n<p>A China n\u00e3o tem nada compar\u00e1vel ao \u201caparato de seguran\u00e7a\u201d internacional dos EUA, pois pratica a pol\u00edtica da \u201cn\u00e3o interfer\u00eancia\u201d. Dado o estado avan\u00e7ado da ofensiva imperialista ocidental, a China tem tomado apenas algumas iniciativas diplom\u00e1ticas, tal como financiar meios de comunica\u00e7\u00e3o em l\u00edngua inglesa para apresentar sua perspectiva, usando seu poder de veto no Conselho de Seguran\u00e7a da ONU para se opor aos esfor\u00e7os dos EUA para derrubar o regime independente de Assad, na S\u00edria, e se opor \u00e0s imposi\u00e7\u00f5es de san\u00e7\u00f5es dr\u00e1sticas contra o Ir\u00e3. Ela repudiou seriamente o questionamento \u00e1cido da secret\u00e1ria de Estado estadunidense Hilary Clinton a respeito da \u201clegitimidade\u201d do Estado chin\u00eas quando este votou contra a resolu\u00e7\u00e3o dos EUA-ONU de preparar um ataque na S\u00edria.7<\/p>\n<p>Estrategistas militares chineses est\u00e3o mais atentos e alarmados a respeito da crescente amea\u00e7a militar contra a China. Eles t\u00eam exitosamente solicitado um aumento anual de 19% nos gastos militares nos pr\u00f3ximos cinco anos (2011-2015).8 Mesmo com esse aumento, as despesas militares da China v\u00e3o continuar abaixo de um quinto do or\u00e7amento militar dos EUA e a China n\u00e3o tem sequer uma base militar estrangeira, em gritante contraste com as mais de 750 instala\u00e7\u00f5es estrangeiras dos EUA. As opera\u00e7\u00f5es da intelig\u00eancia chinesas no exterior s\u00e3o m\u00ednimas e ineficazes. Suas embaixadas s\u00e3o dirigidas por e para os interesses estritamente comerciais, que claramente falharam na compreens\u00e3o da pol\u00edtica violenta da OTAN para mudar o regime na L\u00edbia e na necessidade de informar Pequim a respeito de sua significa\u00e7\u00e3o para o Estado chin\u00eas.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda outras duas fraquezas estruturais que prejudicam a ascens\u00e3o da China como pot\u00eancia mundial. Trata-se da altamente \u201cocidentalizada\u201d intelligentsia que tem engolido de maneira acr\u00edtica a doutrina econ\u00f4mica dos EUA a respeito dos livre-mercados, enquanto ignoram a militariza\u00e7\u00e3o da sua economia. Esses intelectuais chineses repetem como papagaios a propaganda da doutrina econ\u00f4mica dos EUA a respeito das \u201cvirtudes democr\u00e1ticas\u201d das campanhas presidenciais de bilh\u00f5es de d\u00f3lares, enquanto sustentam a desregulamenta\u00e7\u00e3o financeira que teria levado Wall Street a adquirir bancos e reservas chinesas. Muitos consultores financeiros e acad\u00eamicos chineses foram educados nos EUA e foram influenciados pelos seus v\u00ednculos com acad\u00eamicos estadunidenses e institui\u00e7\u00f5es financeiras internacionais diretamente ligadas a Wall Street e Londres. Eles prosperaram como executivos de alta renda, recebendo prestigiosas posi\u00e7\u00f5es em institui\u00e7\u00f5es chinesas. Eles identificam a \u201cliberaliza\u00e7\u00e3o dos mercados financeiros\u201d com \u201ceconomias avan\u00e7adas\u201d capazes de aprofundar la\u00e7os com os mercados globais, em vez de atuarem como fontes da atual crise financeira. Esses \u201cintelectuais ocidentalizados\u201d s\u00e3o como seus hom\u00f3logos entreguistas do s\u00e9culo XIX, que subestimaram e rejeitaram as consequ\u00eancias de longo prazo da penetra\u00e7\u00e3o imperialista ocidental. Eles n\u00e3o conseguem entender como a desregulamenta\u00e7\u00e3o financeira nos EUA precipitou a atual crise e como a desregulamenta\u00e7\u00e3o levaria a uma captura do sistema financeiro da China pelo ocidente \u2013 o que teria como consequ\u00eancia a realoca\u00e7\u00e3o das reservas dom\u00e9sticas da China para atividades n\u00e3oprodutivas (especula\u00e7\u00e3o financeira), precipitando a crise financeira e finalmente comprometendo a posi\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7a global da China.<\/p>\n<p>Esses yuppies imitam o que h\u00e1 de pior nos estilos de vida consumistas do ocidente e suas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas s\u00e3o guiadas por esses estilos de vida e por identidades ocidentalizadas que impedem qualquer sentido de solidariedade com a sua pr\u00f3pria classe trabalhadora.<\/p>\n<p>Existe uma base econ\u00f4mica para os sentimentos pr\u00f3-ocidente nos neoentreguistas da China. Eles transferiram bilh\u00f5es de d\u00f3lares para contas banc\u00e1rias estrangeiras, compraram mans\u00f5es e apartamentos de luxo em Londres, Toronto, Los Angeles, Manhattan, Paris, Hong Kong e Singapura. Eles t\u00eam um p\u00e9 na China (a sua fonte de riqueza) e outro no ocidente (onde consomem e guardam sua riqueza).<\/p>\n<p>Os entreguistas ocidentalizados est\u00e3o plenamente integrados ao sistema econ\u00f4mico chin\u00eas, tendo la\u00e7os familiares com as lideran\u00e7as pol\u00edticas na estrutura partid\u00e1ria e no Estado. Suas conex\u00f5es s\u00e3o mais fracas entre militares e nos crescentes movimentos sociais, apesar de alguns estudantes \u201cdissidentes\u201d e ativistas acad\u00eamicos nos \u201cmovimentos democr\u00e1ticos\u201d serem patrocinados por ONGs imperialistas do ocidente. Na medidaem que os entreguistas ganham influ\u00eancia, enfraquecem as fortes institui\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas do Estado que dirigiu a eleva\u00e7\u00e3o da China \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de pot\u00eancia, assim como fizeram no s\u00e9culo XIX como agentes intermedi\u00e1rios do imp\u00e9rio brit\u00e2nico. Anunciando o \u201cliberalismo\u201d do s\u00e9culo XIX, o \u00f3pio brit\u00e2nico viciou mais de 50 milh\u00f5es de chineses em menos de uma d\u00e9cada. Anunciando \u201cdemocracia e direitos humanos\u201d, os barcos militares dos EUA agora patrulham a costa da China. A ascens\u00e3o da China \u00e0 pot\u00eancia mundial dirigida pela elite gerou desigualdades monumentais entre milhares de novos bilion\u00e1rios e multimilion\u00e1rios no topo e centenas de milh\u00f5es de trabalhadores empobrecidos, camponeses e trabalhadores imigrantes na base.<\/p>\n<p>A r\u00e1pida acumula\u00e7\u00e3o de riqueza e capital da China foi poss\u00edvel atrav\u00e9s da intensa explora\u00e7\u00e3o de seus trabalhadores, que foram retirados de suas redes de prote\u00e7\u00e3o social e das suas condi\u00e7\u00f5es de trabalho regulamentado anteriormente vigentes sob o comunismo. Milh\u00f5es de fam\u00edlias chinesas est\u00e3o sendo desapropriadas em raz\u00e3o de se promoverem e desenvolverem especuladores imobili\u00e1rios que ent\u00e3o constroem altos pr\u00e9dios de escrit\u00f3rios e apartamentos de luxo para as elites dom\u00e9sticas e estrangeiras. Esses aspectos brutais do crescente capitalismo chin\u00eas criaram uma fus\u00e3o entre o local de trabalho e um espa\u00e7o ativo de lutas de massas que est\u00e1 crescendo a cada ano. O slogan empreendedor-especulador \u201cenriquecer \u00e9 maravilhoso\u201d perdeu seu poder de iludir o povo. Em 2011, existiam mais de 200 mil vilas rurais e f\u00e1bricas populares no entorno urbano.<\/p>\n<p>O pr\u00f3ximo passo, que certamente vir\u00e1, ser\u00e1 a unifica\u00e7\u00e3o dessas lutas em novos movimentos sociais nacionais com uma agenda classista que exigir\u00e1 a restaura\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o de que se gozava durante o per\u00edodo dos comunistas, assim como uma melhor distribui\u00e7\u00e3o da riqueza da China. Demandas atuais por melhor renda podem se converter em demandas por uma maior democracia nos locais de trabalho. Para responder a essas novas demandas populares, os novos liberais entreguistas e ocidentalizados da China n\u00e3o podem indicar como \u201cmodelo\u201d os EUA, uma vez que os trabalhadores estadunidenses est\u00e3o tendo seus benef\u00edcios retirados, enquanto que os chineses lutam para reconquist\u00e1-los.<\/p>\n<p>A China, cindida por crescentes conflitos pol\u00edticos e de classe, n\u00e3o pode sustentar sua continuidade rumo \u00e0 lideran\u00e7a econ\u00f4mica mundial. A elite chinesa n\u00e3o pode confrontar a amea\u00e7a militar imperialista crescente dos EUA com seus aliados entreguistas entre as elites liberais internas, enquanto o pa\u00eds \u00e9 uma sociedade profundamente dividida com uma classe trabalhadora de hostilidade crescente. A \u00e9poca da explora\u00e7\u00e3o indiscriminada do trabalho chin\u00eas tem que acabar para encarar o cerco militar estadunidense \u00e0 China, bem como os ataques econ\u00f4micos nos seus mercados estrangeiros. A China tem enormes recursos. Com mais de 1,5 trilh\u00e3o de d\u00f3lares em reservas, a China pode financiar programas abrangentes de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o p\u00fablicas atrav\u00e9s do pa\u00eds.<\/p>\n<p>A China pode bancar a obten\u00e7\u00e3o de um intensivo \u201cprograma p\u00fablico de habita\u00e7\u00e3o\u201d para os 250 milh\u00f5es de trabalhadores migrantes atualmente vivendo em condi\u00e7\u00f5es de mis\u00e9ria. A China pode impor um sistema de tributa\u00e7\u00e3o de renda progressiva sobre seus novos bilion\u00e1rios e milion\u00e1rios, financiando pequenas propriedades rurais, cooperativas familiares e ind\u00fastrias rurais para reequilibrar a economia. Seu programa para desenvolver fontes alternativas de energia \u2013 como pain\u00e9is solares e fazendas de energia e\u00f3lica \u2013 s\u00e3o um come\u00e7o promissor para mitigar sua grave polui\u00e7\u00e3o do meio-ambiente. A degrada\u00e7\u00e3o ambiental e os problemas de sa\u00fade relacionados j\u00e1 mobilizam a preocupa\u00e7\u00e3o de dezenas de milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Atualmente, a melhor defesa da China contra as interfer\u00eancias imperialistas seria um regime est\u00e1vel baseado na justi\u00e7a social para centenas de milh\u00f5es e uma pol\u00edtica externa de apoio a movimentos anti-imperialistas no estrangeiro \u2013 para quem a independ\u00eancia \u00e9 um interesse vital da China. \u00c9 necess\u00e1ria uma pol\u00edtica pr\u00f3-ativa baseada em parcerias de benef\u00edcio m\u00fatuo, incluindo solidariedade militar e diplom\u00e1tica. Um ainda pequeno, mas influente, grupo de intelectuais chineses tem levantado a quest\u00e3o do crescimento da amea\u00e7a militar estadunidense e est\u00e3o \u201cdizendo n\u00e3o \u00e0 diplomacia dos navios de guerra\u201d.9<\/p>\n<p>A China moderna tem plenos recursos e oportunidades, ent\u00e3o inexistentes na China do s\u00e9culo XIX quando estava subjugada pelo imp\u00e9rio brit\u00e2nico. Se os EUA continuarem a incrementar sua pol\u00edtica militarista agressiva contra a China, Pequim pode dar in\u00edcio a uma s\u00e9ria crise fiscal por meio do despejo de algumas das centenas de bilh\u00f5es de d\u00f3lares do Tesouro estadunidense que det\u00e9m.<\/p>\n<p>A China, uma pot\u00eancia nuclear, deveria se aproximar de sua similarmente armada e amea\u00e7ada vizinha R\u00fassia, para confrontar e atrapalhar os devaneios b\u00e9licos da secret\u00e1ria de Estado dos EUA, Hilary Clinton. O futuro presidente da R\u00fassia, Putin, promete que vai aumentar os gastos militares de 3% para 6% do PIB durante a pr\u00f3xima d\u00e9cada, para se contrapor \u00e0 ofensiva de Washington e suas bases de m\u00edsseis nas fronteiras da R\u00fassia, bem como para contrariar os programas de \u201cmudan\u00e7a de regime\u201d de Obama contra seus aliados, como a S\u00edria.10<\/p>\n<p>A China tem poderosas redes econ\u00f4micas, de com\u00e9rcio e investimentos ao redor do globo, bem como poderosos parceiros econ\u00f4micos. Essas liga\u00e7\u00f5es t\u00eam se tornado essenciais para o crescimento continuado de muitos pa\u00edses ao redor do mundo em desenvolvimento. Ao confrontar a China, os EUA ter\u00e3o que enfrentar a oposi\u00e7\u00e3o de muitas elites econ\u00f4micas poderosas ao redor do mundo. Poucos pa\u00edses ou elites v\u00eaem algum futuro no atrelamento de suas fortunas a um imp\u00e9rio economicamente inst\u00e1vel baseado no militarismo e em ocupa\u00e7\u00f5es colonialistas destrutivas.<\/p>\n<p>Em outros termos, a China moderna, uma pot\u00eancia mundial, \u00e9 incomparavelmente mais forte do que j\u00e1 foi no in\u00edcio do s\u00e9culo XVIII. Os EUA n\u00e3o t\u00eam a influ\u00eancia econ\u00f4mica que o ascendente imp\u00e9rio brit\u00e2nico possu\u00eda nas guerras pelo \u00f3pio. Al\u00e9m disso, muitos intelectuais chineses e a larga maioria dos cidad\u00e3os n\u00e3o t\u00eam a inten\u00e7\u00e3o de deixar esse grupo de \u201centreguistas ocidentalizados\u201d vender o pa\u00eds. Nada agravaria mais a polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica na sociedade chinesa e aceleraria a vinda de uma segunda revolu\u00e7\u00e3o social na China do que uma lideran\u00e7a t\u00edmida submetida a uma nova era de pilhagem pelo imperialismo ocidental.<\/p>\n<p>Notas<\/p>\n<p>1. John Hobson, The Eastern Origins of Western Civilization (Cambridge UK : Cambridge University Press, 2004).<\/p>\n<p>2. Ibidem, Ch. 9, pp. 190-218.<\/p>\n<p>3. Ibidem, Ch. 11, pp. 244-248.<\/p>\n<p>4. Richard Gott, Britain\u2019s Empire: Resistance, Repression and Revolt (London: Verso 2011) Para uma cr\u00f4nica hist\u00f3rica detalhada da selvageria que acompanhou o imp\u00e9rio colonial brit\u00e2nico.<\/p>\n<p>5. Hobson, pp. 253-256.<\/p>\n<p>6. Katrina Manson, \u201cSouth Sudan puts Beijing \u2019s policies to the test\u201d, Financial Times, 21\/2\/2012, p. 5.<\/p>\n<p>7. Entrevista de Clinton NPR, 26\/2\/2012.<\/p>\n<p>8. La Jornada, 15\/2\/2012 (Mexico City).<\/p>\n<p>9. China Daily (20\/2\/2012).<\/p>\n<p>10. Charles Clover, &#8220;Putin vows huge boost in defense spending&#8221;, Financial Times, 12\/2\/2012.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: PCB (Partido Comunista Brasileiro)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Old\n\n\n\n\n\n\n\n\nJames Petras\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2660\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-2660","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-GU","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2660","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2660"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2660\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2660"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2660"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2660"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}