{"id":26641,"date":"2020-12-30T22:37:57","date_gmt":"2020-12-31T01:37:57","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26641"},"modified":"2020-12-30T22:37:57","modified_gmt":"2020-12-31T01:37:57","slug":"mensagens-na-garrafa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26641","title":{"rendered":"Mensagens na garrafa"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2020\/12\/1-mauro-iasi.jpg?w=620\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Blog da Boitempo<\/p>\n<p>Por Mauro Luis Iasi<\/p>\n<p>\u201cSempre escrevi sem saber ao certo por que fa\u00e7o isso,<br \/>\nmovido um pouco pela sorte, por uma s\u00e9rie<br \/>\nde casualidades: as coisas chegam como um p\u00e1ssaro<br \/>\nque pode passar pela janela.\u201d<br \/>\nJ\u00falio Cortazar<\/p>\n<p>Quem poderia imaginar? Um estoque inesgot\u00e1vel de garrafas, papel e canetas era tudo de que ele dispunha. Como chegaram ali era o que menos o preocupava. No in\u00edcio, sim, elucubrava sobre poss\u00edveis naufr\u00e1gios, carregamentos desviados, mar\u00e9s trai\u00e7oeiras. Mas agora ele organizara metodicamente seu dia e suas tarefas. Escrevia, acondicionava as mensagens nas garrafas e as jogava ao mar no momento em que a mar\u00e9 baixava, ent\u00e3o as correntes as levavam para longe da praia.<\/p>\n<p>Primeiro foram os bilhetes de socorro, mas logo estes se viram abandonados, uma vez que n\u00e3o tinha a menor ideia de onde se encontrava. Mesmo com detalhadas descri\u00e7\u00f5es da natureza local, seus dados pessoais e outras informa\u00e7\u00f5es, seria pouco prov\u00e1vel que isso pudesse indicar vagamente onde ele estava \u2013 e muito menos mover algu\u00e9m na inten\u00e7\u00e3o de resgat\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Depois de uma fase em que se ocupou de praguejar em longos bilhetes nos quais maldizia sua pouca sorte, o infort\u00fanio da vida, as mazelas de um destino cruel, passou a enviar cartas. Era estranho. Nunca escrevera carta alguma. N\u00e3o tinha de fato proximidade com ningu\u00e9m em especial, nem mesmo familiares que pudessem receber a delicadeza de uma missiva. Apenas escrevia e escrevia, compulsivamente.<\/p>\n<p>Costumava come\u00e7ar como seguindo um tema de conversa antiga, como se o destinat\u00e1rio tivesse conhecimento do assunto. \u201cN\u00e3o houve baixas significativas que levariam o comandante a imaginar ser necess\u00e1rio mudar de estrat\u00e9gia\u201d, assim come\u00e7ava uma de suas mensagens. \u201cSabemos muito bem que os p\u00e1ssaros, nesta \u00e9poca do ano, migram\u201d, escrevia no in\u00edcio de outra.<\/p>\n<p>Entretanto, foi quando come\u00e7ou a divagar em pensamentos mais profundos que o volume de suas mensagens ganhou a dimens\u00e3o oce\u00e2nica que verificamos. Divaga\u00e7\u00f5es, pensamentos que flu\u00edam pela tinta escura das canetas na aspereza amarelada do papel a uma velocidade que o assustaria se naquele momento j\u00e1 n\u00e3o houvesse perdido da capacidade de surpreender-se com alguma coisa.<\/p>\n<p>Haveria algu\u00e9m do outro lado, recolhendo garrafas? Lendo mensagens, pensando sobre elas ou tentando entend\u00ea-las? Aquele fluir intermin\u00e1vel de ideias, sobre o mundo, sobre si mesmo e sobre os outros, as constata\u00e7\u00f5es precisas sobre determinados fatos e personagens, os sentidos revelados sobre a natureza e a humanidade, teriam interessado a algu\u00e9m? Quem perderia alguma fra\u00e7\u00e3o de seu tempo abrindo a garrafa, desdobrando cuidadosamente o papel, lendo a mensagem, olhando para o vazio por um momento enquanto meditava sobre a relev\u00e2ncia do que estava ali escrito?<\/p>\n<p>Indagava-se: por que seguia nessa man\u00edaca sina todos os dias, todas as horas, se ningu\u00e9m leria o que escreveu nem pensaria sobre aqueles temas, tampouco despertaria para conclus\u00f5es precisas e argumentos perspicazes? O que o levava a continuar escrevendo e escrevendo? Dobrando seus bilhetes com precis\u00e3o, colocando-os em garrafas velhas e opacas, indo at\u00e9 a ponta da vazante e jogando-as com for\u00e7a para que as correntes as levassem? Para onde as levavam?<\/p>\n<p>Estaria logo ali adiante um amontoado de garrafas tilintando ao bater umas nas outras sob o sol inclemente, sendo beliscadas por peixes curiosos? Eternamente na vastid\u00e3o de um oceano intermin\u00e1vel vagariam sem nunca chegar a lugar nenhum? Ou chegariam a praias t\u00e3o desertas como essa da qual partiram apenas para trocar a pele molhada do mar pela areia e seus min\u00fasculos gr\u00e3os, meio enterradas e para sempre esquecidas?<br \/>\nAo contr\u00e1rio de desmotiv\u00e1-lo, essas divaga\u00e7\u00f5es o impulsionavam a escrever mais e mais. Bilhetes que se tornaram mensagens, que se tornaram cartas, agora assumiam a forma de cap\u00edtulos de grandes obras inacabadas que exigiam mais argumentos e considera\u00e7\u00f5es, outros olhares e perspectivas. Os dias e as noites quentes passavam como um pano de fundo et\u00e9reo sob o qual suas m\u00e3os deslizavam com maestria a caneta num jorrar caudaloso de palavras e palavras.<\/p>\n<p>Numa tarde qualquer, ele parou. Logo ap\u00f3s escrever uma frase de efeito que bem sintetizava todo seu pensamento, ele parou. Colocou calmamente os pap\u00e9is na garrafa, fechou-a hermeticamente e colocou-a diante de si. Ficou ali, olhando a garrafa por horas. Por fim, levantou-se e caminhou at\u00e9 a ponta da vazante pela \u00faltima vez. Segurou firme a garrafa pelo gargalo e a lan\u00e7ou nas \u00e1guas turbulentas.<\/p>\n<p>Os dias que se seguiram foram tomados por certo torpor. Sentava-se \u00e0 frente de sua velha mesa e apenas olhava o brilho do sol que cruzava as garrafas de um marrom opaco e formavam caleidosc\u00f3pios no piso de madeira. Caminhava pela areia, sentava-se \u00e0 sombra da grande \u00e1rvore que se debru\u00e7ava junto \u00e0 praia, olhando fixo para o horizonte.<\/p>\n<p>Estava estranhamente tranquilo, n\u00e3o porque n\u00e3o tivesse mais d\u00favidas \u2013 ainda as tinha em grande quantidade \u2013, mas uma tranquilidade inexplic\u00e1vel, como a de um artes\u00e3o que olha seu produto com a certeza que est\u00e1 pronto ou como o cozinheiro que fecha a panela e desliga o fogo mais por intui\u00e7\u00e3o que seguindo alguma receita.<\/p>\n<p>Ficou assim por muito tempo, olhando o horizonte e esperando por uma garrafa, uma \u00fanica garrafa que, chegando \u00e0 praia, dan\u00e7ando na arrebenta\u00e7\u00e3o, fosse se aconchegar na areia. Uma \u00fanica garrafa que traria um bilhete ou uma carta, um pedido de socorro ou uma divaga\u00e7\u00e3o qualquer. N\u00e3o importa. Mais que a mensagem que pudesse trazer, a garrafa lhe comunicaria algo essencial e pelo que esperou toda a vida. Do outro lado, havia algu\u00e9m.<\/p>\n<p>***<br \/>\nMauro Iasi \u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil e Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, \u00e0s quartas. Na TV Boitempo, apresenta o Caf\u00e9 Bolchevique, um encontro mensal para discutir conceitos-chave da tradi\u00e7\u00e3o marxista a partir de reflex\u00f5es sobre a conjuntura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26641\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[234],"class_list":["post-26641","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-6b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6VH","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26641","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26641"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26641\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26641"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26641"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26641"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}