{"id":2665,"date":"2012-04-11T19:42:26","date_gmt":"2012-04-11T19:42:26","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2665"},"modified":"2012-04-11T19:42:26","modified_gmt":"2012-04-11T19:42:26","slug":"uma-crise-estrutural-exige-uma-mudanca-estrutural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2665","title":{"rendered":"Uma crise estrutural exige uma mudan\u00e7a estrutural"},"content":{"rendered":"\n<p>Quando se afirma a necessidade de uma mudan\u00e7a estrutural radical \u00e9 necess\u00e1rio que fique desde logo claro que n\u00e3o se trata de um apelo a uma utopia irrealiz\u00e1vel. Bem pelo contr\u00e1rio, a caracter\u00edstica essencial das teorias utopistas modernas \u00e9 precisamente a projec\u00e7\u00e3o de que o melhoramento das condi\u00e7\u00f5es de vida dos trabalhadores pode ser alcan\u00e7ado no quadro estrutural existente nas sociedades criticadas. Foi neste esp\u00edrito que Robert Owen de New Lanark, que mantinha uma parceria insustent\u00e1vel com o fil\u00f3sofo utilitarista liberal Jeremy Bentham, tentou realizar as suas reformas sociais e pedag\u00f3gicas. Ele exigia o<em>imposs\u00edvel. <\/em>Como sabemos, o sonante princ\u00edpio moral utilitarista do\u00a0<em>&#8220;maior bem para o maior n\u00famero&#8221; <\/em>n\u00e3o teve, desde que Bentham o advogou, nenhuma tradu\u00e7\u00e3o real. O problema \u00e9 que, sem uma correcta compreens\u00e3o da natureza econ\u00f3mica e social da crise do nosso tempo \u2013 que hoje j\u00e1 n\u00e3o pode ser negada nem sequer pelos defensores da ordem capitalista, mesmo que estes continuem a rejeitar a necessidade de uma mudan\u00e7a estrutural \u2013 as hip\u00f3teses de chegar a bom porto ficam seriamente comprometidas. O deperecimento do &#8220;Estado Social&#8221;, mesmo nos poucos pa\u00edses privilegiados onde chegou realmente a ser implementado, apresenta-se como uma grande li\u00e7\u00e3o neste dom\u00ednio.<\/p>\n<p>Permitam-me come\u00e7ar por citar um artigo recente dos editores de\u00a0<em>The Financial Times,<\/em>jornal di\u00e1rio de refer\u00eancia da burguesia internacional.<\/p>\n<p>Ao abordar os perigos das crises financeiras \u2013 reconhecidas agora at\u00e9 pelos seu editores como perigosas \u2013 terminam o seu editorial com as seguintes palavras: &#8220;Os dois lados (Democratas e Rep\u00fablicanos) s\u00e3o respons\u00e1veis pelo vazio de lideran\u00e7a e pela aus\u00eancia de uma decis\u00e3o respons\u00e1vel. \u00c9 uma falha grave de governa\u00e7\u00e3o e mais perigosa do que aquilo que Washington pensa.&#8221;\u00a0<strong>[1]<\/strong> A sabedoria editorial n\u00e3o vai mais longe que isto no que toca \u00e0 quest\u00e3o das &#8220;d\u00edvidas soberanas&#8221; e do crescente d\u00e9fice or\u00e7amental. Aquilo que torna o editorial do\u00a0<em>Financial Times <\/em>ainda mais vazio que o &#8220;vazio de lideran\u00e7a&#8221; que critica \u00e9 o sonante subt\u00edtulo do artigo: &#8220;Washington deve parar de fazer pose e come\u00e7ar a governar&#8221;. Como se os editoriais deste tipo n\u00e3o contribu\u00edssem mais para a pose do que para a governa\u00e7\u00e3o propriamente dita. Pois o que est\u00e1 realmente em quest\u00e3o \u00e9 o endividamento catastr\u00f3fico da toda-poderosa &#8220;casa-m\u00e3e&#8221; do capitalismo global, os Estados Unidos da Am\u00e9rica, onde a d\u00edvida do governo (excluindo as d\u00edvidas individuais e privadas) atinge j\u00e1 o valor de\u00a0<em>14 milh\u00f5es de milh\u00f5es (trillions) de d\u00f3lares <\/em>\u2013 valor que aparece projectado na fachada de um edif\u00edcio p\u00fablico de Nova Iorque a atestar a tend\u00eancia crescente da d\u00edvida.<\/p>\n<p>O que pretendo sublinhar \u00e9 que a crise com que temos de lidar \u00e9 uma crise profunda e estrutural que necessita da adop\u00e7\u00e3o de medidas estruturais e abrangentes, de modo atingirmos uma solu\u00e7\u00e3o duradoura. \u00c9 tamb\u00e9m necess\u00e1rio relembrar que a crise estrutural com que lidamos hoje n\u00e3o teve a sua origem em 2007, com o &#8220;rebentar da bolha&#8221; do mercado imobili\u00e1rio americano, mas, pelo menos, quatro d\u00e9cadas antes. Eu j\u00e1 tinha exposto esta situa\u00e7\u00e3o, nestes termos, em 1967, ainda antes da explos\u00e3o do Maio de 68 em Fran\u00e7a\u00a0<strong>[2]<\/strong> , e escrevi, em 1971, no pref\u00e1cio \u00e0 terceira edi\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>Marx&#8217;s Theory of Alienation, <\/em>que os acontecimentos e desenvolvimentos que ent\u00e3o se davam: &#8220;testemunhavam de forma dram\u00e1tica a intensifica\u00e7\u00e3o da crise estrutural global do capital&#8221;.<\/p>\n<p>A este respeito \u00e9 necess\u00e1rio clarificar as diferen\u00e7as relevantes entre os v\u00e1rios tipos e modalidades de crise. N\u00e3o \u00e9 de somenos import\u00e2ncia o facto de uma crise na esfera social poder ser considerada peri\u00f3dica (conjuntural), ou de os seus fundamentos serem muito mais profundos do que isso. Pois, como \u00e9 evidente, a forma de lidar com uma crise estrutural, uma crise dos fundamentos, n\u00e3o pode ser conceptualizada nos mesmos termos e segundo as mesmas categorias que se utilizam para lidar com as crises peri\u00f3dicas ou conjunturais. A diferen\u00e7a fundamental entre estes dois tipos de crise contrastantes \u00e9 que a crise peri\u00f3dica ou conjuntural pode ser compreendida e resolvida dentro da estrutura actual, enquanto que a outra afecta a pr\u00f3pria estrutura estabelecida no seu todo.<\/p>\n<p>Em termos gerais, a diferen\u00e7a n\u00e3o se reduz a uma mera quest\u00e3o de gravidade contrastante entre os dois tipos de crise. Uma crise peri\u00f3dica ou conjuntural pode revelar-se de uma gravidade dram\u00e1tica \u2013 como foi o caso da Grande Depress\u00e3o de 1929-1933 \u2013 e ainda assim poder ser resolvida dentro dos par\u00e2metros do sistema em que ocorre. Da mesma forma, mas em sentido inverso, o car\u00e1cter &#8220;n\u00e3o explosivo&#8221; de uma crise estrutural prolongada, contrastando com as &#8220;grandes tempestades&#8221; (palavras de Marx) nas quais se d\u00e3o e se resolvem as crises conjunturais, pode levar \u00e0 concep\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias erradas resultantes de uma m\u00e1 interpreta\u00e7\u00e3o induzida pela aus\u00eancia de &#8220;tempestades&#8221;; Como se a aus\u00eancia dessas &#8220;tempestades&#8221; fosse a prova cabal da estabilidade infinita do &#8220;capitalismo organizado&#8221; e da &#8220;integra\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria&#8221; no sistema.<\/p>\n<p>Nunca \u00e9 demais assinalar que a crise que vivemos n\u00e3o pode ser compreendida se n\u00e3o a remetermos para a estrutura social no seu todo. Isto quer dizer que, para clarificarmos a natureza desta crise, cada vez mais grave e duradoura, que afecta hoje o mundo inteiro, devemos considerar a crise do sistema capitalista no seu todo. Pois a crise do capital que experimentamos hoje \u00e9 uma crise estrutural que tudo abrange.<\/p>\n<p>Vejamos, de forma t\u00e3o breve e concisa quanto poss\u00edvel, as caract\u00e9risticas fundamentais da crise estrutural com que lidamos.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: justify;\">A novidade\u00a0<em>hist\u00f3rica <\/em>da crise actual manifesta-se em quatro aspectos:<\/p>\n<ul>\n<li>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: justify;\">O seu\u00a0<em>car\u00e1cter universal, <\/em>por oposi\u00e7\u00e3o ao car\u00e1cter circunscrito a uma esfera particular determinada (financeira ou comercial, ou afectando este ou aquele ramo espec\u00edfico da produ\u00e7\u00e3o, ou aplicando-se a um tipo de trabalho, com a sua esfera espec\u00edfica de capacidades e n\u00edveis de produ\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o a outro, etc&#8230;)<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: justify;\">O seu \u00e2mbito \u00e9 verdadeiramente\u00a0<em>global <\/em>(no mais amea\u00e7ado sentido literal do termo) ao inv\u00e9s de estar confinado a um conjunto determinado de pa\u00edses (como estiveram as maiores crises do passado),<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: justify;\">A sua\u00a0<em>escala de tempo <\/em>\u00e9 extensa, cont\u00ednua \u2013 permanente se preferirem \u2013 em vez de ser limitada e\u00a0<em>c\u00edclica, <\/em>como se acabaram por ser as anteriores crises do capital.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: justify;\">A sua forma de desdobramento, contrastando com os colapsos mais espectaculares e mais dram\u00e1ticos do passado, pode ser considerada\u00a0<em>gradual, <\/em>n\u00e3o excluindo no mesmo movimento a hip\u00f3tese de violentas convuls\u00f5es futuras: ou seja, quando a complexa m\u00e1quina que se ocupa hoje da &#8220;gest\u00e3o da crise&#8221;, acabar, com o inevit\u00e1vel agravamento futuro das contradi\u00e7\u00f5es crescentes, por perder vapor.<\/p>\n<\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: justify;\">Neste ponto \u00e9 necess\u00e1rio tecer algumas considera\u00e7\u00f5es gerais sobre os crit\u00e9rios que definem uma crise estrutural, bem como acerca das formas que pode tomar a sua supera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para o p\u00f4r em termos mais simples e mais gerais, a crise estrutural afecta a totalidade de um complexo social, e todas as rela\u00e7\u00f5es entre as partes que o constituem (ou sub-complexos), bem como a sua rela\u00e7\u00e3o com outros complexos aos quais possa estar ligado. Em sentido inverso, uma crise n\u00e3o estrutural afecta somente as partes do complexo em quest\u00e3o, e assim, por mais grave que seja para as partes afectadas, n\u00e3o p\u00f5e em perigo a sobreviv\u00eancia da estrutura no seu todo.<\/p>\n<p>Consequentemente, o deslocar das contradi\u00e7\u00f5es \u00e9 poss\u00edvel apenas enquanto a crise for parcial, relativa e control\u00e1vel internamente pelo sistema, necessitando apenas de viragens &#8211; mesmo que de grandes dimens\u00f5es &#8211; relativamente aut\u00f3nomas dentro do pr\u00f3prio sistema. Desta forma uma crise estrutural p\u00f5e em quest\u00e3o a exist\u00eancia da totalidade do complexo envolvido, postulando a sua transcend\u00eancia e a sua substitui\u00e7\u00e3o por um complexo alternativo.<\/p>\n<p>Este mesmo contraste pode ser revelado pelos limites imediatos que um complexo social particular tem, em qualquer per\u00edodo de tempo, quando comparados com aqueles que ficam al\u00e9m do seu alcance. Assim, uma crise estrutural n\u00e3o se prende aos limites imediatos, mas sim aos derradeiros limites de uma estrutura global&#8230;\u00a0<strong>[3]<\/strong><\/p>\n<p>Assim, e num sentido \u00f3bvio, nada pode ser mais s\u00e9rio que a crise estrutural do modo de reprodu\u00e7\u00e3o metab\u00f3lico do capital (que define os derradeiros limites da ordem estabelecida). Mas, apesar da profunda seriedade nos seus par\u00e2metros gerais, a crise estrutural pode, \u00e0 primeira vista, n\u00e3o aparentar ser de uma import\u00e2ncia assim t\u00e3o decisiva quando comparada com as vicissitudes dram\u00e1ticas de uma grande crise conjuntural. De facto, as &#8220;tempestades&#8221; com que se manifestam as crises conjunturais s\u00e3o bastante paradoxais, na medida em que, pelo seu modo de desdobramento, as crises conjunturais n\u00e3o s\u00f3 descarregam tais tempestade mas acabam, no mesmo movimento, por se resolver enquanto crises (na medida em que as circunst\u00e2ncias o permitem). Isto \u00e9 poss\u00edvel gra\u00e7as ao seu car\u00e1cter parcial, que n\u00e3o implica os limites \u00faltimos da estrutura global estabelecida. Ao mesmo tempo, e pela mesma raz\u00e3o, as crises parciais podem apenas solucionar os problemas estruturais subjacentes &#8211; que inevitavelmente se continuar\u00e3o a manifestar sob a forma de crises conjunturais &#8211; de forma tempor\u00e1ria, parcial e bastante limitada: at\u00e9 a pr\u00f3xima crise estrutural come\u00e7ar a surgir no horizonte da sociedade.<\/p>\n<p>Contrariamente, atendendo \u00e0 natureza necessariamente complexa e prolongada de uma crise estrutural, que, n\u00e3o sendo epis\u00f3dica nem fugaz, se manifesta num tempo hist\u00f3rico determinado e \u00e9 condicionada pelo sentido de uma \u00e9poca, \u00e9 na inter-rela\u00e7\u00e3o cumulativa do todo que a quest\u00e3o se decide, mesmo sob a (falsa) apar\u00eancia de normalidade. Isto ocorre assim porque numa crise estrutural tudo est\u00e1 em jogo, envolvendo os mais abrangentes e derradeiros limites da ordem em quest\u00e3o, dos quais n\u00e3o pode haver uma inst\u00e2ncia particular simb\u00f3lica. Sem a compreens\u00e3o do todo das rela\u00e7\u00f5es e implica\u00e7\u00f5es sist\u00e9micas dos acontecimentos particulares, perderemos a no\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as significativas reais e das correspondentes alavancas de uma poss\u00edvel interven\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica que possa afectar positivamente o problema, em vista da sua transforma\u00e7\u00e3o sist\u00e9mica. A nossa responsabilidade social clama por uma vigil\u00e2ncia cr\u00edtica e determinada das inter-rela\u00e7\u00f5es cumulativas emergentes, que n\u00e3o se pode contentar nem reconfortar com a normalidade ilus\u00f3ria que antecede o desabamento do tecto que jaz sobre as nossas cabe\u00e7as.<\/p>\n<p>\u00c9 por demais necess\u00e1rio sublinhar que, durante as tr\u00eas d\u00e9cadas que se seguiram \u00e0 Segunda Guerra Mundial, a expans\u00e3o econ\u00f3mica dos pa\u00edses capitalistas de proa gerou a ilus\u00e3o, mesmo junto dos mais distintos intelectuais de Esquerda, da supera\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da &#8220;crise do capitalismo&#8221;, e do surgimento de uma nova fase de &#8220;capitalismo organizado avan\u00e7ado &#8220;. Gostaria de ilustrar este problema com algumas passagens da lavra daquele que foi um dos maiores intelectuais militantes do s\u00e9culo XX: Jean-Paul Sartre; por quem, como ficou claro no livro que escrevi sobre a sua obra, tenho a maior das considera\u00e7\u00f5es. No entanto, a verdade \u00e9 que a adop\u00e7\u00e3o da ideia de que pela supera\u00e7\u00e3o da &#8220;crise do capitalismo&#8221; a ordem estabelecida se tornou num &#8220;capitalismo avan\u00e7ado&#8221; foi para Sartre fonte de grandes dilemas. Isto \u00e9 ainda mais significativo dado que ningu\u00e9m poder\u00e1 negar o compromisso que Sartre mantinha com a busca de uma solu\u00e7\u00e3o emancipat\u00f3ria vi\u00e1vel, nem t\u00e3o pouco a sua integridade moral. Em rela\u00e7\u00e3o ao nosso problema \u00e9 da maior utilidade recordar a importante entrevista que Sartre concedeu ao grupo italiano\u00a0<em>Manifesto <\/em>\u2013 depois de clarificarmos a sua concep\u00e7\u00e3o das insuper\u00e1veis implica\u00e7\u00f5es negativas da sua pr\u00f3pria categoria explicativa da institucionaliza\u00e7\u00e3o inevitavelmente prejudicial, que ele chamava &#8220;grupo em fus\u00e3o&#8221; na sua\u00a0<em>Critica da Raz\u00e3o Dial\u00e9ctica <\/em>\u2013 na qual ele chegou a esta dolorosa conclus\u00e3o: &#8220;Ao mesmo tempo que reconhe\u00e7o a necessidade de organiza\u00e7\u00e3o tenho de confessar que n\u00e3o vejo como \u00e9 que podem ser resolvidos os problemas aos quais se confronta uma qualquer estrutura organizada&#8221;\u00a0<strong>[4]<\/strong><\/p>\n<p>A dificuldade prende-se com o facto de os termos da an\u00e1lise social de Sartre serem concebidos de uma forma tal que v\u00e1rios factores e correla\u00e7\u00f5es, que na realidade est\u00e3o interligados, constituindo as diferentes faces de um mesmo complexo societal, s\u00e3o apresentados separadamente, por dicotomias e oposi\u00e7\u00f5es, gerando um dilema insol\u00favel e condenando ao fracasso as for\u00e7as emancipat\u00f3rias sociais. Isto \u00e9 claramente demonstrado na entrevista ao grupo Manifesto:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: justify;\"><em>Manifesto: <\/em>Em que bases precisas \u00e9 que se pode preparar uma alternativa revolucion\u00e1ria?<\/p>\n<p><em>Sartre: <\/em>Repito, \u00e9 mais na base da\u00a0<em>&#8220;aliena\u00e7\u00e3o&#8221; <\/em>do que na base das\u00a0<em>&#8220;necessidades&#8221;. <\/em>Em suma na reconstru\u00e7\u00e3o do individual e da liberdade, reconstru\u00e7\u00e3o essa t\u00e3o necess\u00e1ria que as mais refinadas t\u00e9cnicas de integra\u00e7\u00e3o n\u00e3o se podem dar ao luxo de ignorar.\u00a0<strong>[5]<\/strong><\/p>\n<p>Desta forma Sartre, pela sua compreens\u00e3o estrat\u00e9gica de como superar o car\u00e1cter opressivo da realidade capitalista, constr\u00f3i uma oposi\u00e7\u00e3o indefens\u00e1vel entre a &#8220;aliena\u00e7\u00e3o&#8221; dos trabalhadores e as suas &#8220;necessidades&#8221; alegadamente j\u00e1 satisfeitas, tornando muito dif\u00edcil prever uma solu\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica exequ\u00edvel. O problema n\u00e3o se prende apenas com a desmesurada credibiliza\u00e7\u00e3o das &#8220;refinadas t\u00e9cnicas de integra\u00e7\u00e3o&#8221;, teoria sociol\u00f3gica refinada e muito em voga, mas muito superficial. Infelizmente, o problema \u00e9 bem mais s\u00e9rio.<\/p>\n<p>O real problema \u00e9 o da valida\u00e7\u00e3o do &#8220;capitalismo avan\u00e7ado&#8221;, e da tese subsequente da &#8220;integra\u00e7\u00e3o&#8221; da classe oper\u00e1ria no sistema, que Sartre partilha em larga medida com Herbert Marcuse. A verdade \u00e9 que, em contraste com a integra\u00e7\u00e3o (sem d\u00favida poss\u00edvel) de alguns trabalhadores na ordem capitalista, a classe trabalhadora &#8211; antagonista estrutural do capital, e que representa a \u00fanica alternativa hegem\u00f3nica historicamente poss\u00edvel ao sistema do capital &#8211; n\u00e3o pode ser integrada na estrutura exploradora e alienante de reprodu\u00e7\u00e3o social do capital. O que torna imposs\u00edvel tal assimila\u00e7\u00e3o \u00e9 o antagonismo estrutural subjacente entre capital e trabalho que decorre necessariamente da realidade das rela\u00e7\u00f5es de classe, isto \u00e9, da incontorn\u00e1vel rela\u00e7\u00e3o de dom\u00ednio e subordina\u00e7\u00e3o que entre elas existe.<\/p>\n<p>Neste discurso, at\u00e9 a plausibilidade m\u00ednima da falsa alternativa, de tipo Sartriano e Marcusiano, entre cont\u00ednua aliena\u00e7\u00e3o e &#8220;satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades&#8221; \u00e9 &#8220;estabelecida&#8221; com base na descarrilhante compartimentaliza\u00e7\u00e3o das (suicid\u00e1rias) indetermina\u00e7\u00f5es estruturais do capital, globalmente implementadas e globalmente insustent\u00e1veis, das quais depende a mais elementar viabilidade sist\u00e9mica da hegem\u00f3nica ordem social vigente do capital. Assim \u00e9 extremamente problem\u00e1tico separar o &#8220;capitalismo avan\u00e7ado&#8221; das chamadas &#8220;zonas marginais&#8221; e do &#8220;terceiro mundo&#8221;. Como se a ordem reprodutiva do &#8220;capitalismo avan\u00e7ado&#8221; se pudesse sustentar por um qualquer per\u00edodo de tempo, e no futuro mesmo indefinidamente, sem a explora\u00e7\u00e3o constante das &#8220;zonas marginais&#8221; e sem o dom\u00ednio imperialista do &#8220;terceiro mundo&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 aqui necess\u00e1rio citar a passagem na qual Sartre trata destes problemas. Essa passagem reveladora \u00e9 a seguinte:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: justify;\">O\u00a0<em>capitalismo avan\u00e7ado, <\/em>em rela\u00e7\u00e3o com a consci\u00eancia que tem da sua pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o, e apesar das enormes disparidades na distribui\u00e7\u00e3o de dividendos, consegue satisfazer as necessidades elementares da maior parte da classe oper\u00e1ria \u2013 ficam ainda por satisfazer as zonas marginais, 15 por cento dos trabalhadores dos Estados Unidos, os negros e os imigrantes, os idosos e, a uma escala global, o\u00a0<em>&#8220;terceiro mundo&#8221;. <\/em>Mas o capitalismo satisfaz certas necessidades prim\u00e1rias, e tamb\u00e9m satisfaz certas necessidades artificialmente criadas, como por exemplo a\u00a0<em>necessidade de ter um carro. <\/em>Esta situa\u00e7\u00e3o, obrigou-me a rever a minha &#8220;teoria das necessidades&#8221; uma vez que estas necessidades j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o, no &#8220;capitalismo avan\u00e7ado&#8221;, em oposi\u00e7\u00e3o fundamental ao sistema. Pelo contr\u00e1rio, elas tornaram-se, pelo menos em parte e quando controladas pelo sistema, num\u00a0<em>instrumento de integra\u00e7\u00e3o <\/em>do proletariado em certos processos produzidos e dirigidos pelo lucro. O trabalhador esgota-se para produzir um carro e para ganhar o dinheiro para poder comprar um carro; esta\u00a0<em>compra <\/em>d\u00e1-lhe a impress\u00e3o de ter suprimido uma\u00a0<em>necessidade <\/em>sua. O sistema explora-o ao mesmo tempo que lhe oferece um objectivo e a possibilidade de o alcan\u00e7ar. A consci\u00eancia do car\u00e1cter intoler\u00e1vel do sistema j\u00e1 n\u00e3o deve ser procurada na impossibilidade de satisfazer as necessidades b\u00e1sicas, mas sobretudo na consci\u00eancia da aliena\u00e7\u00e3o \u2013 por outras palavras, no facto de que\u00a0<em>esta vida n\u00e3o merece ser vivida e n\u00e3o tem significado, <\/em>que este mecanismo \u00e9 enganador, que estas necessidades s\u00e3o falsas, artificialmente criadas, extenuantes e que s\u00f3 servem uma l\u00f3gica de lucro. Mas unir uma classe com base nisto \u00e9 ainda\u00a0<em>mais dif\u00edcil. <\/em><strong>[6]<\/strong><\/p>\n<p>Se aceitarmos sem mais esta caracteriza\u00e7\u00e3o da ordem do &#8220;capitalismo avan\u00e7ado&#8221;, a tarefa de produ\u00e7\u00e3o de uma consci\u00eancia emancipat\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 apenas\u00a0<em>&#8220;mais dif\u00edcil&#8221;, <\/em>\u00e9\u00a0<em>imposs\u00edvel. <\/em>Mas o fundamento d\u00fabio a partir da qual podemos chegar a um tal conclus\u00e3o\u00a0<em>aprior\u00edstica, <\/em>pessimista e derrotista \u2013 que prescreve, do alto da &#8220;nova teoria das necessidades&#8221; formulada pelos intelectuais, a ren\u00fancia dos oper\u00e1rios, \u00e0s suas &#8220;\u00e1vidas necessidades artificiais&#8221;, representadas pelos carros, e a sua substitui\u00e7\u00e3o pelo postulado, completamente abstracto, de que\u00a0<em>&#8220;esta vida n\u00e3o vale a pena ser vivida e n\u00e3o tem sentido&#8221; <\/em>(um postulado nobre, mas consider\u00e1velmente abstracto, e de resto efectivemente contrariado pela necessidade real que t\u00eam os membros da classe trabalhadora de assegurar as condi\u00e7\u00f5es de uma exist\u00eancia economicamente sustent\u00e1vel) \u2013 \u00e9 simultaneamente a aceita\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>afirma\u00e7\u00f5es <\/em>insustent\u00e1veis e a\u00a0<em>omiss\u00e3o, <\/em>igualmente inaceit\u00e1vel, de algumas das mais vitais determina\u00e7\u00f5es do actual sistema do capital na sua\u00a0<em>crise estrutural <\/em>historicamente irrevers\u00edvel.<\/p>\n<p>Desde logo, falar de &#8220;capitalismo\u00a0<em>avan\u00e7ado <\/em>&#8221; \u2013 quando o sistema do capital, enquanto forma de reprodu\u00e7\u00e3o social metab\u00f3lica, se encontra na fase descendente do seu desenvolvimento hist\u00f3rico, e, portanto, \u00e9 avan\u00e7ado apenas de um ponto de vista capitalista e sob nenhuma outra forma, visto que apenas se mant\u00e9m de uma forma cada vez mais destrutiva e, em \u00faltima an\u00e1lise, auto-destrutiva \u2013 \u00e9 muito problem\u00e1tico. Outra asser\u00e7\u00e3o: a caracteriza\u00e7\u00e3o da esmagadora maioria da humanidade \u2013 a categoria da pobreza, que inclui &#8220;os negros e os imigrantes&#8221;, os &#8220;idosos&#8221; e &#8220;em grande escala, o terceiro mundo&#8221; \u2013 como pertencente a &#8220;zonas marginais&#8221; (no sentido dos &#8220;marginais&#8221; de Marcuse), \u00e9 igualmente insustent\u00e1vel. Pois, na realidade, \u00e9 o &#8220;mundo capitalista avan\u00e7ado&#8221; que constitui uma margem privilegiada no seio do sistema, que \u00e9, a longo prazo, totalmente insustent\u00e1vel, e que nega \u00e0 maior parte do mundo as suas necessidades mais b\u00e1sicas. Esta \u00e9 a verdadeira margem e n\u00e3o aquilo que Sartre descreve na sua entrevista ao grupo\u00a0<em>Manifesto <\/em>como constituindo as &#8220;zonas marginais&#8221;. Mesmo no que diz respeito aos Estados Unidos, a margem de pobreza \u00e9 consideravelmente subestimada: apenas 15% da popula\u00e7\u00e3o. Para al\u00e9m disso, caracterizar os carros dos oper\u00e1rios como meras &#8220;necessidades artificiais&#8221; que apenas &#8220;servem o lucro&#8221; \u00e9 ter um ponto de vista completamente unilateral. Pois, ao contr\u00e1rio de muitos intelectuais, nem todos os oper\u00e1rios relativamente bem pagos, para j\u00e1 n\u00e3o falar da classe trabalhadora como um todo, t\u00eam a sorte de ter o seu local de trabalho ao lado da porta do seu quarto.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m do mais, algumas das mais graves falhas e contradi\u00e7\u00f5es estruturais encontram-se surpreendentemente ausentes da descri\u00e7\u00e3o feita por Sartre do &#8220;capitalismo avan\u00e7ado&#8221;, o que esvazia virtualmente o conceito de sentido. Assim, uma das mais importantes necessidades, sem a qual nenhuma sociedade \u2013 passada, presente ou futura \u2013 pode sobreviver, \u00e9 a necessidade de trabalhar, tanto para os indiv\u00edduos produtivamente activos \u2013 reunidos numa ordem social completamente emancipada \u2013 como para a sociedade em geral, na sua rela\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel com a natureza. A incapacidade cong\u00e9nita do sistema do capital para resolver este problema estrutural fundamental, que afecta todas as categorias de trabalhadores, n\u00e3o apenas no &#8220;terceiro mundo&#8221;, mas tamb\u00e9m nos mais privilegiados pa\u00edses do &#8220;capitalismo avan\u00e7ado&#8221;, uma tal incapacidade, que leva a um aumento perigoso do desemprego, constitui um dos limites absolutos do sistema do capital no seu todo. Outro problema s\u00e9rio, que refor\u00e7a a inviabilidade presente e futura do sistema do capital \u00e9 o peso cada vez maior dado a sectores parasit\u00e1rios na economia \u2013 como a especula\u00e7\u00e3o aventureira, produtora de crise, que infesta (sob a forma de uma necessidade objectiva, muita vezes erroneamente representada sobre a forma de erro ou falha pessoal) o sector financeiro, e a fraude institucionalizada que se lhe associa \u2013 em contraste com os ramos produtivos da economia social, necess\u00e1rios \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades humanas genu\u00ednas. Uma tal configura\u00e7\u00e3o manifesta um acentuado, e amea\u00e7ador, contraste com a fase ascendente do desenvolvimento hist\u00f3rico do capital, quando o prodigioso dinamismo expansionista do sistema (incluindo a revolu\u00e7\u00e3o industrial) era devido a feitos produtivos socialmente vi\u00e1veis e valoriz\u00e1veis. Temos ainda que adicionar a tudo isto os fardos econ\u00f3micos perdul\u00e1rios impostos \u00e0 sociedade de forma autorit\u00e1ria pelo estado e pelo complexo militar\/industrial \u2013 a permanente ind\u00fastria de armamento e as guerras correspondentes \u2013 como parte integral do perverso &#8220;crescimento econ\u00f3mico&#8221; do &#8220;capitalismo avan\u00e7ado organizado&#8221;. E, para mencionar apenas mais uma das consequ\u00eancias catastr\u00f3ficas do desenvolvimento sist\u00e9mico do capital &#8220;avan\u00e7ado&#8221;, devemos ter em mente a perdul\u00e1ria transgress\u00e3o ecol\u00f3gica do nosso insustent\u00e1vel modo de reprodu\u00e7\u00e3o social metab\u00f3lico num planeta finito\u00a0<strong>[7]<\/strong> a sua explora\u00e7\u00e3o ganaciosa dos recursos materiais n\u00e3o-renov\u00e1veis e a cada vez mais perigosa destrui\u00e7\u00e3o da natureza. Diz\u00ea-lo n\u00e3o \u00e9 tentar parecer s\u00e1bio depois do facto consumado. Escrevi na mesma altura em que Sartre deu a sua entrevista ao grupo\u00a0<em>Manifesto <\/em>que:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: justify;\">Outra contradi\u00e7\u00e3o b\u00e1sica do sistema capitalista de controlo \u00e9 que ele n\u00e3o pode separar &#8220;avan\u00e7o&#8221; de destrui\u00e7\u00e3o, nem &#8220;progresso&#8221; de desperd\u00edcio \u2013 independentemente de qu\u00e3o catastr\u00f3fico seja o resultado. Quanto mais liberta o seu poder produtivo, mais desencandeia o seu poder destrutivo; e quanto mais aumenta o seu volume de produ\u00e7\u00e3o, mais \u00e9 obrigado a enterrar tudo sob montanhas de desperd\u00edcios. O conceito de economia \u00e9 radicalmente incompat\u00edvel com a &#8220;economia&#8221; da produ\u00e7\u00e3o do capital que, necessariamente, junta ultraje ao ultraje ao usar primeiro, num ganacioso desperd\u00edcio, os\u00a0<em>recursos limitados <\/em>do nosso planeta, para depois agravar o resultado atrav\u00e9s\u00a0<em>da polui\u00e7\u00e3o e do envenenamento <\/em>do ambiente humano, com a sua produ\u00e7\u00e3o massiva de lixos e efl\u00favios.\u00a0<strong>[8]<\/strong><\/p>\n<p>Assim, as asser\u00e7\u00f5es problem\u00e1ticas e as importantes\u00a0<em>omiss\u00f5es <\/em>presentes na caracteriza\u00e7\u00e3o sartriana do &#8220;capitalismo avan\u00e7ado&#8221; enfraquecem consideravelmente o poder de nega\u00e7\u00e3o do seu discurso emancipat\u00f3rio. Baseando-se num princ\u00edpio dicot\u00f3mico, que afirma repetidamente &#8220;a irredutibilidade da ordem cultural \u00e0 ordem natural&#8221;, Sartre procura sempre solu\u00e7\u00f5es de &#8220;ordem cultural&#8221;, ou seja, ao n\u00edvel da consci\u00eancia individual, atrav\u00e9s\u00a0<em>do trabalho intelectual comprometido da &#8220;consci\u00eancia sobre a consci\u00eancia&#8221;. <\/em>Sugere assim que a solu\u00e7\u00e3o est\u00e1 num aumento da &#8220;consci\u00eancia da aliena\u00e7\u00e3o&#8221; &#8211; na &#8220;ordem cultural&#8221; &#8211; ao mesmo tempo que rejeita a viabilidade de uma estrat\u00e9gia revolucion\u00e1ria baseada numa necessidade de &#8220;ordem natural&#8221;. As necessidades materiais, ali\u00e1s consideradas como estando j\u00e1 satisfeitas para a maioria dos trabalhadores, constituiriam um &#8220;mecanismo ilus\u00f3rio e falso&#8221; e um &#8220;instrumento de integra\u00e7\u00e3o do proletariado&#8221;.<\/p>\n<p>Sartre est\u00e1 certamente bastante preocupado com o desafio que representa responder \u00e0 quest\u00e3o de como aumentar &#8220;a consci\u00eancia do car\u00e1cter intoler\u00e1vel do sistema&#8221;. Mas, como \u00e9 inevit\u00e1vel notar, a pr\u00f3pria base tida como condi\u00e7\u00e3o vital para o sucesso de tal empresa \u2013 o poder da &#8220;consci\u00eancia da aliena\u00e7\u00e3o&#8221; sublinhado por Sartre \u2013 necessita fortemente de um suporte material. De outra forma, a ideia (mesmo deixando de lado a fraqueza da dita base e a sua circularidade auto-referencial) de que tal consci\u00eancia &#8220;pode prevalecer face ao car\u00e1cter intoler\u00e1vel do sistema&#8221; est\u00e1 condenada a ser posta de lado, como um ideal nobre, mas ineficaz. As declara\u00e7\u00f5es pessimistas de Sartre a prop\u00f3sito de necessidade de vencer a realidade materialmente e culturalmente destrutiva, mas solidamente estruturada, deste &#8220;conjunto miser\u00e1vel que \u00e9 o nosso planeta&#8221;, com as suas &#8220;horr\u00edveis, feias e m\u00e1s determina\u00e7\u00f5es, sem esperan\u00e7a&#8221;, mostram que esta quest\u00e3o \u00e9 problem\u00e1tica mesmo se vista do interior do sistema de representa\u00e7\u00f5es sartriano.<\/p>\n<p>Nesta medida, a quest\u00e3o primeira diz respeito \u00e0 demonstrabilidade, ou n\u00e3o, do car\u00e1cter objectivamente intoler\u00e1vel do sistema, pois se tal demonstra\u00e7\u00e3o carecer de subst\u00e2ncia, como \u00e9 proclamado pela no\u00e7\u00e3o de um &#8220;capitalismo avan\u00e7ado&#8221; capaz de satisfazer todas as necessidades materiais, com a mera excep\u00e7\u00e3o das &#8220;zonas marginais&#8221;, ent\u00e3o\u00a0<em>&#8220;o longo e paciente trabalho de constru\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia&#8221; <\/em>advogado por Sartre torna-se quase imposs\u00edvel. Este \u00e9 o tal embasamento objectivo que \u00e9 necess\u00e1rio (e actualmente pode) ser estabelecido dentro dos seus pr\u00f3prios termos de refer\u00eancia, e que requer a desmistifica\u00e7\u00e3o radical do car\u00e1cter cada vez mais destrutivo do &#8220;capitalismo avan\u00e7ado&#8221;. A &#8221;\u00a0<em>consci\u00eancia <\/em>do car\u00e1cter intoler\u00e1vel do sistema&#8221; s\u00f3 pode ser constru\u00edda sobre este\u00a0<em>terreno material <\/em>\u2013 que inclui o sofrimento causado pela incapacidade do capital &#8220;avan\u00e7ado&#8221; satisfazer mesmo as necessidades mais elementares nas suas &#8220;zonas marginais&#8221;, o que \u00e9 claramente demonstrado pelos motins alimentares que t\u00eam lugar em v\u00e1rios pa\u00edses \u2013 de forma a poder ultrapassar a dicotomia (postulada) entre a ordem cultural e a ordem natural.<\/p>\n<p>Na sua fase\u00a0<em>ascendente, <\/em>o sistema do capital p\u00f4de basear os seus feitos produtivos num dinamismo expansionista interno \u2013 sem ser ainda imperiosa uma orienta\u00e7\u00e3o monopolista\/imperialista que permita aos pa\u00edses mais avan\u00e7ados garantir militarmente o dom\u00ednio do mundo. No entanto, na senda da circunst\u00e2ncia historicamente irrevers\u00edvel que \u00e9 a sua entrada numa fase\u00a0<em>produtiva descendente, <\/em>o sistema do capital tornou-se insepar\u00e1vel de uma necessidade, cada vez mais intensa, de expans\u00e3o militarista\/monopolista e de uma distens\u00e3o constante da seu quadro estrutural, tendendo, na sua l\u00f3gica produtiva interna, para o estabelecimento criminoso e perdul\u00e1rio de uma &#8220;ind\u00fastria do armamento permanente&#8221;, que vai de par com as guerras que necessariamente se lhe encontram associadas.<\/p>\n<p>Na verdade, ainda antes do despoletar da Primeira Guerra Mundial, Rosa Luxemburgo havia identificado claramente a natureza deste fat\u00eddico desenvolvimento monopolista\/imperialista, rumo a uma orienta\u00e7\u00e3o destrutivamente produtiva, ao escrever no seu livro\u00a0<em>A acumula\u00e7\u00e3o de Capital<\/em>que: &#8220;O Capital em si mesmo controla, em \u00faltima an\u00e1lise, o movimento r\u00edtmico da produ\u00e7\u00e3o militar atrav\u00e9s do poder legislativo e da imprensa, cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 a de moldar a chamada &#8220;opini\u00e3o p\u00fablica&#8221;. \u00c9 por isso que esta regi\u00e3o particular de acumula\u00e7\u00e3o capitalista parece, \u00e0 primeira vista, capaz de uma expans\u00e3o infinita.&#8221;\u00a0<strong>[10]<\/strong><\/p>\n<p>Por outro lado, a utiliza\u00e7\u00e3o cada vez mais perdul\u00e1ria de energia e de recursos materiais vitais e estrat\u00e9gicos, manifesta n\u00e3o apenas a articula\u00e7\u00e3o cada vez mais destrutiva das determina\u00e7\u00f5es estruturais do Capital no plano militar (atrav\u00e9s de uma manipula\u00e7\u00e3o legislativa da &#8220;opini\u00e3o p\u00fablica&#8221; que nunca \u00e9 questionada, e muito menos regulamentada), mas tamb\u00e9m a cada vez maior usurpa\u00e7\u00e3o da natureza. Ironicamente, mas de forma nada surpreendente, este momento do\u00a0<em>desenvolvimento hist\u00f3rico regressivo <\/em>do sistema do Capital trouxe tamb\u00e9m consigo amargas consequ\u00eancias para a organiza\u00e7\u00e3o internacional do trabalho.<\/p>\n<p>Com efeito, esta nova articula\u00e7\u00e3o do sistema do capital, iniciada no \u00faltimo ter\u00e7o do s\u00e9culo XIX, com a sua fase imperialista monopolista intimamente ligada a um dom\u00ednio global total, deu inicio a uma nova modalidade de dinamismo expansionista (ainda mais antagonista e, em \u00faltima an\u00e1lise, insustent\u00e1vel), que d\u00e1 lucros esmagadores a um punhado de pa\u00edses imperialistas privilegiados, e que, assim, adia o &#8220;momento da verdade&#8221;, insepar\u00e1vel da irreprim\u00edvel\u00a0<em>crise estrutural <\/em>vivida pelo sistema nos nossos dias. Este tipo de desenvolvimento imperialista monopolista impulsionou inevitavelmente a possibilidade de uma acumula\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o capitalista militar, independentemente do pre\u00e7o a pagar pela destrutividade cada vez maior deste novo dinamismo, que assumiu j\u00e1 a forma de duas guerras mundiais devastadoras, bem como a da total aniquila\u00e7\u00e3o da humanidade impl\u00edcita numa terceira guerra mundial, isto sem contar com a destrui\u00e7\u00e3o da natureza, que se tornou evidente na segunda metade do s\u00e9c. XX.<\/p>\n<p>Hoje em dia, estamos a assistir ao aprofundamento da crise estrutural do sistema do capital. A sua destrutividade \u00e9 vis\u00edvel em todo o lado, e n\u00e3o d\u00e1 sinais de diminuir. Para o futuro, \u00e9 crucial a forma como conceptualizamos esta crise, no sentido de encontrar uma solu\u00e7\u00e3o. Pelo mesmo motivo, \u00e9 tamb\u00e9m crucial reexaminar algumas das mais significativas solu\u00e7\u00f5es propostas no passado. Aqui n\u00e3o nos ser\u00e1 poss\u00edvel mais do que mencionar, com uma brevidade estenogr\u00e1fica, os pontos de vista contrastantes que foram defendidos no passado e indicar a sorte que conhecem nos dias de hoje.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, h\u00e1 que recordar que \u00e9 m\u00e9rito do fil\u00f3sofo liberal John Stuart Mill ter notado qu\u00e3o problem\u00e1tico poderia ser um crescimento capitalista infinito, considera\u00e7\u00e3o que o levou a propor como solu\u00e7\u00e3o um &#8220;estado estacion\u00e1rio da economia&#8221;. Naturalmente, um tal &#8220;estado estacion\u00e1rio&#8221; no quadro do sistema do capital n\u00e3o \u00e9 mais do que uma ilus\u00e3o, uma vez que \u00e9 totalmente incompat\u00edvel com o imperativo de expans\u00e3o e acumula\u00e7\u00e3o do capital. Mesmo actualmente, quando tanta destrui\u00e7\u00e3o \u00e9 causada por um crescimento inadequado e pelas mais ineficazes utiliza\u00e7\u00f5es dos nossos recursos energ\u00e9ticos e estrat\u00e9gicos vitais, a mitologia do crescimento constante \u00e9 constantemente reafirmada, juntamente com a projec\u00e7\u00e3o ideal de uma &#8220;redu\u00e7\u00e3o da pegada ecol\u00f3gica&#8221; em 2050, quando na realidade se est\u00e1 a seguir uma direc\u00e7\u00e3o completamente contr\u00e1ria a um tal objectivo. Assim, a realidade do liberalismo revelou-se ser a destrutividade agressiva do neoliberalismo.<\/p>\n<p>Um destino semelhante teve a perspectiva social-democrata. Marx formulou claramente os seus receios acerca deste perigo na sua\u00a0<em>Critica do Programa de Gotha, <\/em>mas eles foram totalmente ignorados. Tamb\u00e9m aqui a contradi\u00e7\u00e3o entre a promessa Bernsteiniana de um &#8220;socialismo evolutivo&#8221; e a sua realiza\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica se revelou impressionante. E isto n\u00e3o apenas gra\u00e7as \u00e0 capitula\u00e7\u00e3o dos partidos e governos sociais-democratas face ao engodo das guerras imperialistas, mas tamb\u00e9m atrav\u00e9s da convers\u00e3o da social-democracia em geral \u2013 incluindo o &#8220;New Labour&#8221; brit\u00e2nico \u2013 a vers\u00f5es mais ou menos evidentes de neo-liberalismo, levando ao abandono n\u00e3o apenas do &#8220;caminho do socialismo evolutivo&#8221;, mas de toda e qualquer promessa de reforma social significativa.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m disso, uma solu\u00e7\u00e3o muito propagandeada, ap\u00f3s a II Guerra Mundial, \u00e0s desigualdades crescentes do sistema do capital, foi a difus\u00e3o mundial do Estado Social. No entanto, a realidade prosaica deste alegado feito hist\u00f3rico \u00e9 hoje em dia evidente, n\u00e3o s\u00f3 na total incapacidade para instituir o dito Estado Social onde quer que seja no chamado &#8220;Terceiro Mundo&#8221;, mas atrav\u00e9s da liquida\u00e7\u00e3o, em curso, das conquistas relativas desse Estado Social do p\u00f3s-guerra \u2013 nos campos da seguran\u00e7a social, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o \u2013 at\u00e9 mesmo nos poucos pa\u00edses privilegiados onde ele alguma vez chegou a ser institu\u00eddo.<\/p>\n<p>E, claro, n\u00e3o podemos ignorar a promessa (feita por Estaline e outros) de realizar a fase mais elevada do socialismo atrav\u00e9s da derrube e da aboli\u00e7\u00e3o do capitalismo, pois, tragicamente, sete d\u00e9cadas ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, os pa\u00edses da antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e da Europa de Leste vivem uma restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo na sua forma regressiva neoliberal.<\/p>\n<p>O denominador comum de todas estas tentativas \u2013 apesar das suas diferen\u00e7as fundamentais \u2013 \u00e9 que todas elas tentaram alcan\u00e7ar os seus objectivos do interior do quadro estrutural da ordem metab\u00f3lica social estabelecida. Todavia, como nos ensina a dolorosa experi\u00eancia hist\u00f3rica, o nosso problema n\u00e3o \u00e9 simplesmente &#8220;derrubar o capitalismo&#8221;. Pois, mesmo que um tal objectivo possa ser alcan\u00e7ado numa determinada extens\u00e3o, ele est\u00e1 condenado a ser um feito muito inst\u00e1vel, visto que tudo o que \u00e9 derrubado pode tamb\u00e9m ser restaurado. A verdadeira \u2013 e muito mais dif\u00edcil \u2013 quest\u00e3o, \u00e9 a da necessidade de uma\u00a0<em>mudan\u00e7a estrutural radical. <\/em><\/p>\n<p>O significado tang\u00edvel de uma tal mudan\u00e7a estrutural \u00e9 a\u00a0<em>completa erradica\u00e7\u00e3o do capitalismo do processo social metab\u00f3lico, <\/em>ou, por outras palavras, a erradica\u00e7\u00e3o do capital do processo metab\u00f3lico de reprodu\u00e7\u00e3o societal.<\/p>\n<p>O capital \u00e9 em si mesmo um modo de controlo global; o que significa que ou ele controla tudo ou implode enquanto sistema de controlo societal reprodutivo. Consequentemente, o capital, enquanto tal, n\u00e3o pode ser controlado nalguns dos seus aspectos, enquanto outros s\u00e3o deixados de lado. Todas as medidas e modalidades experimentadas para &#8220;controlar&#8221; as v\u00e1rias fun\u00e7\u00f5es do capital de forma permanente, falharam. De acordo com a sua\u00a0<em>incontrolabilidade estrutural <\/em>\u2013 que significa que n\u00e3o \u00e9 conceb\u00edvel,\u00a0<strong>dentro do quadro estrutural do sistema do capital, <\/strong>uma qualquer alavancagem que permita manter o pr\u00f3prio sistema controlado de forma duradoura \u2013 o capital deve ser completamente\u00a0<em>erradicado. <\/em>Este \u00e9 o sentido central do trabalho de Marx.<\/p>\n<p>Nos nossos dias, a quest\u00e3o do controle \u2013 atrav\u00e9s de uma\u00a0<em>mudan\u00e7a estrutural <\/em>que responda ao aprofundamento da crise estrutural \u2013 tornou-se urgente, n\u00e3o s\u00f3 no sistema financeiro, devido ao desperd\u00edcio de bili\u00f5es de d\u00f3lares, mas em todos os sectores. Os mais importantes jornais financeiros capitalistas queixam-se de que &#8220;a China est\u00e1 sentada sobre tr\u00eas milh\u00f5es de milh\u00f5es de d\u00f3lares em dinheiro&#8221;, alimentando ilus\u00f5es de que, atrav\u00e9s de um &#8220;melhor uso desse dinheiro&#8221;, possa surgir uma solu\u00e7\u00e3o. Mas a dura verdade \u00e9 que o endividamento global crescente do capitalismo eleva-se a um valor dez vezes superior ao dos d\u00f3lares &#8220;n\u00e3o usados&#8221; pela China. Para al\u00e9m disso, mesmo que o enorme montante da d\u00edvida pudesse ser eliminado de alguma forma, ainda que ningu\u00e9m saiba dizer como, a verdadeira quest\u00e3o mant\u00e9m-se: Como \u00e9 que ele foi gerado e como podemos estar seguros que n\u00e3o o voltar\u00e1 a s\u00ea-lo no futuro? \u00c9 por isso que a dimens\u00e3o produtiva do sistema \u2013 nomeadamente a pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o do capital \u2013 deve sofrer uma mudan\u00e7a fundamental no sentido de ultrapassar a crise estrutural atrav\u00e9s de uma mudan\u00e7a estrutural apropriada.<\/p>\n<p>A dram\u00e1tica crise financeira que vivemos durante os \u00faltimos tr\u00eas anos \u00e9 apenas um aspecto das tr\u00eas vertentes da destrutividade do sistema do capital:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: justify;\">1. No campo militar, as intermin\u00e1veis guerras que o capital tem gerado desde que surgiu, nas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9c. XIX, o imperialismo monopolista, e as ainda mais devastadoras armas de destrui\u00e7\u00e3o massiva surgidas nos \u00faltimos sessenta anos.<\/p>\n<p>2. A intensifica\u00e7\u00e3o do impacto destrutivo do capital no dom\u00ednio ecol\u00f3gico, que afecta directamente e p\u00f5e em risco a base mais elementar da pr\u00f3pria exist\u00eancia humana; e<\/p>\n<p>3. No dom\u00ednio da produ\u00e7\u00e3o material, um desperd\u00edcio cada vez maior, resultante do desenvolvimento de uma &#8220;produ\u00e7\u00e3o destrutiva&#8221;, que se substitui \u00e0 anteriormente louvada, &#8220;destrui\u00e7\u00e3o produtiva&#8221; ou &#8220;criativa&#8221;<\/p>\n<p>Estes s\u00e3o os graves problemas sist\u00e9micos da nossa\u00a0<em>crise estrutural, <\/em>que apenas podem ser resolvidos atrav\u00e9s de uma\u00a0<em>mudan\u00e7a estrutural<\/em>abrangente.<\/p>\n<p>Como conclus\u00e3o, gostaria de citar as \u00faltimas cinco linhas de\u00a0<em>Dial\u00e9ctica da Estrutura e da Hist\u00f3ria, <\/em>, onde se l\u00ea:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: justify;\">&#8220;Naturalmente, a dial\u00e9ctica hist\u00f3rica, por si s\u00f3 e em abstracto, n\u00e3o nos pode garantir um desfecho positivo. Esperar tal coisa seria renunciar ao nosso papel no desenvolvimento da consci\u00eancia social, que \u00e9 parte da dial\u00e9ctica hist\u00f3rica. A radicaliza\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia social num sentido emancipat\u00f3rio \u00e9 o que precisamos, mais do que nunca, para o futuro.&#8221;\u00a0<strong>[11]<\/strong><\/p>\n<p><strong>Notas <\/strong><\/p>\n<p>1. &#8220;Breaking the US budget impasse,&#8221;\u00a0<em>The Financial Times, <\/em>June 1, 2011,\u00a0http:\/\/ft.com<\/p>\n<p>2. Ver a minha entrevista de 2009 ao\u00a0<em>Denate Socialista, <\/em>republicada como &#8220;The Tasks Ahead,&#8221; em\u00a0<em>The Structural Crisis of Capital <\/em>(New York: Monthly Review Press, 2010), 173\u2013202.<\/p>\n<p>3. Esta cita\u00e7\u00e3o \u00e9 retirada da sec\u00e7\u00e3o 18.2.1 de\u00a0<em>Beyond Capital <\/em>(New York: Monthly Review Press, 1995), 680\u201382.<\/p>\n<p>4. Entrevista de Sartre ao grupo italiano\u00a0<em>Manifesto <\/em>publicada em: &#8220;Masses, Spontaneity, Party&#8221; in Ralph Milliband and John Saville, eds.,\u00a0<em>The Socialist Register, <\/em>1970 (London: Merlin Press, 1970), 245<\/p>\n<p>5. Ibid., 242<\/p>\n<p>6. Ibid., 238-39<\/p>\n<p>7. A gravidade deste problema n\u00e3o pode continuar a ser ignorada. Para nos apercebermos da sua magnitude, \u00e9 suficiente citar um excerto de um excelente livro que nos d\u00e1 uma vis\u00e3o global do desenvolvimento do processo de destrui\u00e7\u00e3o da natureza, na medida em que ele resulta do ultrapassar de determinadas barreiras proibitivas tra\u00e7adas pelas ci\u00eancias do ambiente: &#8220;estes limiares j\u00e1 foram nalguns casos ultrapassados e, noutros, s\u00ea-lo-\u00e3o se se mantiver o curso actual do desenvolvimento econ\u00f3mico. Para al\u00e9m disso, isto pode ser reconduzido, em todos os casos, a uma causa primeira: o padr\u00e3o recorrente do desenvolvimento s\u00f3cio-econ\u00f3mico global, ou seja, o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista e as suas tend\u00eancias expansionistas. O problema pode ser designado, em termos globais, como &#8220;brecha ecol\u00f3gica global&#8221;, se nos referirmos \u00e0 quebra generalizada da rela\u00e7\u00e3o humana com a natureza que nasce de um sistema alienado de acumula\u00e7\u00e3o capitalista infinita. Tudo isto sugere que o uso do termo Antropoceno para descrever uma nova era geol\u00f3gica, que se substitui ao Holoceno, \u00e9 simultaneamente a descri\u00e7\u00e3o de um novo fardo sobre os ombros da Humanidade e o reconhecimento de uma crise imensa \u2013 um acontecimento potencialmente terminal na ordem da evolu\u00e7\u00e3o geol\u00f3gica, que poder\u00e1 destruir o mundo tal como o conhecemos. Por um lado, tem-se verificado uma grande acelera\u00e7\u00e3o do impacto humano no sistema planet\u00e1rio desde a revolu\u00e7\u00e3o industrial e, mais particularmente, desde 1945 \u2013 ao ponto de os ciclos bio-geo-qu\u00edmicos, a atmosfera, o oceano e o sistema terrestre como um todo j\u00e1 n\u00e3o poderem ser vistos como imperme\u00e1veis \u00e0 actividade econ\u00f3mica humana. Por outro lado, o curso actual dos acontecimentos n\u00e3o poder\u00e1 tanto ser descrito como o aparecimento de uma nova era geol\u00f3gica est\u00e1vel (o Antropoceno), mas mais propriamente como um Holoceno terminal, ou, mais sinistramente, como um fim do Quatern\u00e1rio, o que \u00e9 uma forma de nos referirmos \u00e0s extin\u00e7\u00f5es em massa que geralmente separam as eras geol\u00f3gicas. Os limites e pontos de ruptura planet\u00e1rios, que levam \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida na Terra, podem ser alcan\u00e7ados dentro em breve, diz-nos a ci\u00eancia, se se prosseguir o rumo actual. O Antropoceno pode ser o separador mais breve, um momento rapidamente aniquilado na linha do tempo geol\u00f3gico.&#8221; John Bellamy Foster, Brett Clark and Richard York,\u00a0<em>The Ecological Rift: Capitalism&#8217;s War on the Earth <\/em>(New York:Monthly Review Press, 2010), 18-19.<\/p>\n<p>8. Ver a minha confer\u00eancia em mem\u00f3ria de Isaac Deutscher\u00a0<em>The Necessity of Social Control <\/em>na London School of Economics em 26 de Janeiro de 1971.Reeditada em\u00a0<em>Beyond Capital, <\/em>872-97.<\/p>\n<p>9. Sartre, 239<\/p>\n<p>10. Rosa Luxemburg,\u00a0<em>The Accumulation of Capital <\/em>(London: Routledge, 1963), 466<\/p>\n<p>11. Istv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros,\u00a0<em>Social Structure and Forms of Consciousness, <\/em>vol. 2: The Dialectic of Structure and History (New York: Monthly Review Press, 2011), 483<\/p>\n<p><strong>[*] Professor em\u00e9rito na Universidade de Sussex, onde ocupou durante 50 anos a c\u00e1tedra de Filosofia. \u00a0 O seu livro,\u00a0<em>Marx&#8217;s Theory of Alienation, <\/em>foi galardoado com o Isaac Deutscher Prize em 1970. \u00c9 tamb\u00e9m autor de\u00a0<em>Beyond Capital, Socialism or Barbarism. The Structural Crisis of Capital, The Challenge and the Burden of Historical Time <\/em>(vencedor do Premio Libertador al Pensamiento Cr\u00edtico de 2008) e de\u00a0<em>Social Structure and Forms of Consciousness <\/em>(2 vol.) \u2013 todos eles publicados pela\u00a0<a href=\"http:\/\/monthlyreview.org\/press\/\" target=\"_blank\">Monthly Review Press<\/a> . \u00a0 Esta comunica\u00e7\u00e3o foi apresentada no Brasil em Junho de 2011 e na Confer\u00eancia\u00a0<em>Marxism 2011, <\/em>em Londres, em Julho do mesmo ano. <\/strong><\/p>\n<p><strong>O original encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/monthlyreview.org\/2012\/03\/01\/structural-crisis-needs-structural-change\" target=\"_blank\">http:\/\/monthlyreview.org\/2012\/03\/01\/structural-crisis-needs-structural-change<\/a> . <\/strong><\/p>\n<p><strong>Tradu\u00e7\u00e3o de Miguel Queiroz e In\u00eas F\u00e9lix. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Este artigo encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/resistir.info\/\" target=\"_blank\">http:\/\/resistir.info\/<\/a> .<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Resistir.info\n\n\n\n\n\n\n\n\nIstv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2665\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-2665","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-GZ","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2665","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2665"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2665\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2665"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2665"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2665"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}