{"id":26662,"date":"2021-01-05T23:20:22","date_gmt":"2021-01-06T02:20:22","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26662"},"modified":"2021-01-05T23:20:22","modified_gmt":"2021-01-06T02:20:22","slug":"geopolitica-e-direitos-humanos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26662","title":{"rendered":"Geopol\u00edtica e direitos humanos"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/pw\/ACtC-3fOwPjwETF6uxY7pvJO-HhUqvN1VU9-VvoHBZ7KDjbHjhU2ZLGBE49_-o2PN2am4hPOANye48KfFN_uFuak4yWVttrw0fZ3h8fM9VRDyRMuAVcB-qjMS4XwYwbAxGt1zGwzx1HSK1__ylHhGXb6ELJY=s979-no\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Do revisionismo hist\u00f3rico liberal ao universalismo imperial<\/p>\n<p>Caio Andrade [1]<\/p>\n<p>Funda\u00e7\u00e3o Dinarco Reis<\/p>\n<p>\u201cOs povos modernos conseguiram apenas disfar\u00e7ar a escravid\u00e3o em seus pr\u00f3prios pa\u00edses, impondo-a sem v\u00e9us no novo mundo\u201d Karl Marx [2]<\/p>\n<p>Falsa simetria e mem\u00f3ria seletiva<\/p>\n<p>Hoje \u00e9 quase um lugar-comum reconhecer que os rumos tomados pela hist\u00f3ria nas tr\u00eas \u00faltimas d\u00e9cadas foram fortemente influenciados pela derrota da experi\u00eancia sovi\u00e9tica entre 1989 e 1991, quando se estabeleceram a economia de mercado e a vis\u00e3o ocidental de democracia como valores quase inquestion\u00e1veis. O que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o discutido \u00e9 o quanto esse processo criou as condi\u00e7\u00f5es para que o capital n\u00e3o apenas regesse o presente, mas tamb\u00e9m dominasse as interpreta\u00e7\u00f5es do passado com vistas ao bloqueio do futuro.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria oficial que tem sido insistentemente contada pelos vencedores da chamada guerra fria informa que, no s\u00e9culo XX, a democracia marchava triunfante, semeando a paz e o progresso por onde passava, at\u00e9 ser brutalmente agredida por movimentos totalit\u00e1rios completamente alheios \u00e0 sua tradi\u00e7\u00e3o: o comunismo e o nazismo. Todavia, com muito hero\u00edsmo e abnega\u00e7\u00e3o, os soldados da liberdade conseguiram derrotar a amea\u00e7a nazifascista em 1945.<\/p>\n<p>Restava, no entanto, o inimigo vermelho. Seriam necess\u00e1rias mais quatro d\u00e9cadas e meia para que, ap\u00f3s uma longa e perseverante campanha, os arautos do capitalismo livrassem a humanidade do terr\u00edvel monstro bolchevique. Com o arriamento da bandeira sovi\u00e9tica na R\u00fassia de Boris Yeltsin, foi enfim aberto o caminho para a retomada triunfal da marcha democr\u00e1tica, a eterna prosperidade liberal, a economia de mercado e os demais des\u00edgnios da natureza humana.<\/p>\n<p>A f\u00e1bula acima, al\u00e9m de ironizar o revisionismo hist\u00f3rico liberal, serve de ponto de partida para uma reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre o tema dos direitos humanos. Pintado pela ideologia dominante como irm\u00e3o g\u00eameo do nazismo, o comunismo representa para essa vis\u00e3o de mundo um terr\u00edvel obst\u00e1culo diante de uma trajet\u00f3ria id\u00edlica que combina a evolu\u00e7\u00e3o do capitalismo com o aprofundamento da democracia e a amplia\u00e7\u00e3o dos direitos humanos no mundo.<\/p>\n<p>Nesse sentido, lamenta o professor Pereira dos Santos, \u201cparece que os dogmatismos e os pensamentos autorit\u00e1rios de Lenin e Hitler ainda t\u00eam seus seguidores no Brasil e no mundo\u201d.[3] Expressando uma confusa vis\u00e3o de mundo, o referido autor reproduz pelo menos dois graves equ\u00edvocos. O primeiro erro \u00e9 o mais expl\u00edcito. Trata-se da falsa simetria entre personagens que, com efeito, cumpriram pap\u00e9is antag\u00f4nicos na hist\u00f3ria: L\u00eanin e Hitler.[4] O segundo \u00e9 o pressuposto adotado, que consiste no recalque da barb\u00e1rie colonial levada a cabo pelo Ocidente imperialista.<\/p>\n<p>Enquanto Adolf Hitler liderou a tentativa de construir um imp\u00e9rio colonial e escravocrata fundamentado na supremacia racial germ\u00e2nica, Vladimir Ilyich Ulianov destacou-se na luta contra o racismo, a explora\u00e7\u00e3o e o colonialismo.[5] De acordo com Domenico Losurdo, a pr\u00f3pria compreens\u00e3o contempor\u00e2nea de democracia est\u00e1 fundamentada \u201cno princ\u00edpio da atribui\u00e7\u00e3o de direitos inalien\u00e1veis a todos os indiv\u00edduos, independentemente da ra\u00e7a, da renda e do g\u00eanero\u201d, de modo que a sua constru\u00e7\u00e3o \u201cpressup\u00f5e a supera\u00e7\u00e3o das tr\u00eas grandes discrimina\u00e7\u00f5es (racial, censit\u00e1ria e sexual), ainda vivas e exuberantes \u00e0s v\u00e9speras de outubro de 1917\u201d.[6] Ou seja, os avan\u00e7os democr\u00e1ticos obtidos no s\u00e9culo XX s\u00e3o impens\u00e1veis sem a contribui\u00e7\u00e3o do movimento deflagrado com a Revolu\u00e7\u00e3o Bolchevique.<\/p>\n<p>Mas quais s\u00e3o ent\u00e3o as raz\u00f5es pelas quais tantos professores, acad\u00eamicos, jornalistas e respeit\u00e1veis personalidades, com as mais distintas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, concordam em equiparar o f\u00fchrer ao dirigente revolucion\u00e1rio russo sem constrangimento algum? Como compreender que at\u00e9 mesmo indiv\u00edduos identificados com o socialismo e o marxismo fa\u00e7am parte desse amplo consenso? H\u00e1 in\u00fameros debates importantes nesse sentido, dentre os quais se destaca o recalque da rela\u00e7\u00e3o colonialismo-nazismo.<\/p>\n<p>Para autores imersos na realidade e nas lutas do Terceiro Mundo como Frantz Omar Fanon, era imposs\u00edvel ignorar os v\u00ednculos entre o colonialismo e o nazifascismo. Sua pergunta era compartilhada por muitos outros intelectuais e militantes que sentiam na pele as viol\u00eancias do liberalismo real e seus m\u00e9todos de domina\u00e7\u00e3o nas periferias do sistema: \u201cque \u00e9 o fascismo sen\u00e3o o colonialismo no seio de pa\u00edses tradicionalmente colonialistas?\u201d.[7]<\/p>\n<p>Com a persegui\u00e7\u00e3o aos cidad\u00e3os de origem judaica na Alemanha a partir de 1933, Hannah Arendt n\u00e3o apenas viu de perto esse fen\u00f4meno, como chegou a ser presa pela Gestapo e dedicou uma parte importante dos seus estudos \u00e0 cr\u00edtica do antissemitismo e do imperialismo. Como demonstra Losurdo, \u201cna primeira Arendt percebia-se a tend\u00eancia a empregar a categoria de totalitarismo para definir a rela\u00e7\u00e3o entre nazismo e colonialismo\u201d.[8]<\/p>\n<p>Entretanto, entre o final da d\u00e9cada de 1940 e o in\u00edcio dos anos 1950, per\u00edodo de eclos\u00e3o da doutrina Truman, a pensadora alem\u00e3 altera sua abordagem e passa a privilegiar supostas semelhan\u00e7as entre o marxismo e o nazifascismo. Tal mudan\u00e7a fica patente em As Origens do Totalitarismo, publicado pela primeira vez em 1951 \u2013 mesmo ano em que a autora obteve sua cidadania estadunidense.[9] Al\u00e9m de destoar de suas publica\u00e7\u00f5es anteriores, a Parte III do livro, intitulada \u201cTotalitarismo\u201d, parece uma nova obra quando cotejada com as partes precedentes do mesmo volume, intituladas \u201cAntissemitismo\u201d e \u201cImperialismo\u201d, respectivamente.<\/p>\n<p>O impacto dessa tese repercute nas ci\u00eancias humanas at\u00e9 os dias atuais. E com a derrota da experi\u00eancia sovi\u00e9tica, aprofundaram-se tanto a mem\u00f3ria seletiva dos liberais quanto o revisionismo hist\u00f3rico conservador, reescrevendo o passado \u00e0 luz de poderosos interesses no presente. Como aponta o historiador Jones Manoel,<\/p>\n<p>Hoje foi quase banido da hist\u00f3ria um dado b\u00e1sico da cultura ocidental hegem\u00f4nica at\u00e9 a primeira metade do s\u00e9culo XX. A leitura racial da sociedade n\u00e3o era um privil\u00e9gio da Alemanha Nazista. Era um consenso dominante no Ocidente, servindo de espelho para as classes dominantes locais de toda periferia, existindo regimes de supremacia racial ou estados com pol\u00edticas eugenistas nos quatro cantos do mundo. A pr\u00f3pria palavra \u201cracismo\u201d n\u00e3o tinha uma conota\u00e7\u00e3o negativa: significava a justa e necess\u00e1ria separa\u00e7\u00e3o entre as ra\u00e7as para evitar a degrada\u00e7\u00e3o da ra\u00e7a branca, ariana ou n\u00f3rdico-germ\u00e2nica. Quando a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (URSS), em 1936, criminalizou o racimo e refor\u00e7ou ainda mais a pol\u00edtica cultural, educacional e cient\u00edfica de igualdade racial, ela estava isolada. Nadava contra a corrente.[10]<\/p>\n<p>Por que n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o comuns as compara\u00e7\u00f5es entre Hitler e Churchill, governante brit\u00e2nico que considerava os asi\u00e1ticos uma ra\u00e7a inferior, exterminou milh\u00f5es de indianos e, pouco antes da expans\u00e3o alem\u00e3, via com simpatia o crescimento do fascismo? Ou entre Hitler e Theodore Roosevelt, presidente estadunidense que difundiu o alerta sobre o \u201csuic\u00eddio racial\u201d, encorajando a procria\u00e7\u00e3o dos \u201cmelhores\u201d e inibindo a das \u201cra\u00e7as inferiores\u201d? Porque os ide\u00f3logos da ordem estabelecida ocultam os crimes das pot\u00eancias capitalistas ocidentais contra a humanidade, tornando aceit\u00e1veis as \u201cteorias\u201d que absolvem o Ocidente liberal dos seus horrores entre os s\u00e9culos XIX e XX para atribu\u00ed-los justamente aos que viveram e morreram para combat\u00ea-los.<\/p>\n<p>\u00c9tica neocolonial e guerras humanit\u00e1rias<\/p>\n<p>\u00c9 nesse contexto que parte consider\u00e1vel do mundo acad\u00eamico concebe o avan\u00e7o dos direitos humanos como um processo derivado unicamente das revolu\u00e7\u00f5es burguesas e internacionalizado no s\u00e9culo XX com a Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos, promulgada pela Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas em dezembro de 1948. N\u00e3o chega a ser surpreendente que, de acordo com essa perspectiva, a difus\u00e3o de valores \u00e9ticos seja evidenciada no mesmo per\u00edodo da globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal.<\/p>\n<p>Conforme argumenta Pereira dos Santos,<\/p>\n<p>Na atualidade, pelo menos desde o fim da velha ordem mundial, da bipolaridade de poder, da Guerra Fria (1989\/92), cada vez mais fica evidente a quest\u00e3o dos direitos humanos como norteador de princ\u00edpios e valores \u00e9ticos universais, n\u00e3o somente v\u00e1lidos para o Ocidente.[11]<\/p>\n<p>Ignorando aspectos b\u00e1sicos da realidade econ\u00f4mica e geopol\u00edtica, o estimado docente est\u00e1, mais uma vez, profundamente enganado. A menos que se considerem \u00e9ticos e humanit\u00e1rios eventos como a avalanche neoliberal que caracterizou a ordem mundial p\u00f3s-1989; os genoc\u00eddios em Ruanda; os conflitos em Angola; a guerra civil no Congo; a guerra do Golfo; a interven\u00e7\u00e3o da OTAN na Iugosl\u00e1via; os conflitos na Chech\u00eania; os confrontos militares no Afeganist\u00e3o; os atentados de 11 de setembro de 2001 e seus desdobramentos para o Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n<p>Essa n\u00e3o \u00e9 a opini\u00e3o de David Harvey que, avaliando as contradi\u00e7\u00f5es entre os direitos econ\u00f4micos e sociais inscritos nos Artigos 22 a 25 da Declara\u00e7\u00e3o de 1948 e as pr\u00e1ticas pol\u00edticas de quase todos os seus signat\u00e1rios, assevera que \u201cseria bem f\u00e1cil caracterizar o neoliberalismo como destacada viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos\u201d e pondera que fazer valer de fato os Artigos aludidos \u201cimplicaria amplas e em alguns casos revolucion\u00e1rias transforma\u00e7\u00f5es da economia pol\u00edtica do capitalismo\u201d.[12]<\/p>\n<p>Paulo Fagundes Visentini, por sua vez, analisando as consequ\u00eancias geopol\u00edticas das derrotas socialistas no leste europeu, explica que \u201co fim da Guerra Fria e a implos\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, em lugar de paz, abriram espa\u00e7o para a eclos\u00e3o de novos tipos de conflitos, que se generalizaram\u201d.[13] Esses conflitos, que marcaram a \u00faltima d\u00e9cada do s\u00e9culo anterior, adentraram o s\u00e9culo XXI e continuam levando o caos e a morte a diversas regi\u00f5es do planeta. [14] Aparentemente, as motiva\u00e7\u00f5es s\u00e3o as mais diferentes poss\u00edveis, abarcando quest\u00f5es religiosas, culturais, \u00e9tnicas, pol\u00edticas, disputas por recursos naturais, territ\u00f3rios etc. Por\u00e9m, observando mais de perto, verifica-se que h\u00e1 caracter\u00edsticas comuns, entre elas, a inger\u00eancia de grandes pot\u00eancias ocidentais, sempre em nome da liberdade, da democracia e dos direitos humanos.<\/p>\n<p>Luiz Alberto Moniz Bandeira foi um dos mais importantes cr\u00edticos do papel de pol\u00edcia que a Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (OTAN) atribui a si mesma. Sob a batuta do Pent\u00e1gono, tal alian\u00e7a militar imp\u00f5e uma esp\u00e9cie de ditadura global que agride preventivamente qualquer amea\u00e7a \u00e0 ordem internacional constitu\u00edda e tutela os povos supostamente incapazes de resolverem seus pr\u00f3prios problemas e decidirem sobre seus rumos de forma aut\u00f4noma.<\/p>\n<p>Ainda segundo esse autor,<\/p>\n<p>Desde a dissolu\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, todos os presidentes dos Estados Unidos, George H. W. Bush, Bill Clinton, George W. Bush e Barack Obama, promoveram guerras convencionais e n\u00e3o convencionais nos B\u00e1lc\u00e3s e no Oriente M\u00e9dio, fomentaram a subvers\u00e3o nos pa\u00edses do C\u00e1ucaso, sempre sob o pretexto de tornar o mundo \u201csafe for democracy\u201d. Que democracia? Onde quer que os Estados Unidos intervieram, com o \u201cespecific goal of bringing democracy\u201d, a democracia constitui-se de bombardeios, destrui\u00e7\u00e3o, terror, massacres, caos e cat\u00e1strofes humanit\u00e1rias.[15]<\/p>\n<p>Foi o que se viu recentemente na L\u00edbia, na S\u00edria e na Ucr\u00e2nia, entre outros. De 2011 A 2014, as opera\u00e7\u00f5es \u201chumanit\u00e1rias\u201d realizadas direta ou indiretamente pelos Estados Unidos e seus aliados para levar a \u201cdemocracia\u201d ao norte da \u00c1frica, ao Oriente M\u00e9dio e ao Leste Europeu resultaram em centenas de milhares de cad\u00e1veres, al\u00e9m de uma profunda desorganiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, social e econ\u00f4mica de na\u00e7\u00f5es inteiras.<\/p>\n<p>A L\u00edbia tinha o segundo melhor \u00cdndice de Desenvolvimento Humano (IDH) do continente africano em 2011, quando a OTAN decidiu intervir de forma direta na guerra civil desencadeada na esteira da chamada Primavera \u00c1rabe e bombardear o pa\u00eds para aniquilar o governo do coronel Muammar al-Gaddafi. Depois de mais de sete meses de interven\u00e7\u00e3o estrangeira, Gaddafi foi capturado pela oposi\u00e7\u00e3o, que torturou e executou o l\u00edder pol\u00edtico. Esse processo resultou n\u00e3o apenas na destrui\u00e7\u00e3o de um governo, mas no desmoronamento do pr\u00f3prio Estado nacional l\u00edbio. Pelo menos 30.000 pessoas foram dizimadas nesse per\u00edodo e grande parte das armas mantidas at\u00e9 ent\u00e3o pelo regime derrubado foi parar nas m\u00e3os de fundamentalistas.[16]<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m em 2011 a S\u00edria se tornou palco de uma violenta guerra civil. Na sequ\u00eancia de um conjunto de protestos contra o governo, o Ex\u00e9rcito S\u00edrio Livre deflagrou uma campanha armada, com o apoio do Ocidente, para depor o presidente Bashar al-Assad. Dois anos antes, Assad recusara a assinatura do acordo para a constru\u00e7\u00e3o do gasoduto South Pars\/North Dome, privilegiando as rela\u00e7\u00f5es com a R\u00fassia e o Ir\u00e3, contrariando os interesses das tiranias sunitas do Golfo P\u00e9rsico e, via de consequ\u00eancia, da OTAN. Favorecido pelo jogo geopol\u00edtico em curso, o Estado Isl\u00e2mico experimentou um crescimento consider\u00e1vel nessa ocasi\u00e3o. O n\u00famero de refugiados de guerra no mundo saltou de 42,5 milh\u00f5es em 2011 para 59,5 milh\u00f5es em 2014, batendo um novo recorde.[17]<\/p>\n<p>A Ucr\u00e2nia, por sua vez, pagou alto pre\u00e7o por ter abdicado de uma maior aproxima\u00e7\u00e3o com o Ocidente em 2013. Depois que o presidente Viktor Yanukovych rejeitou o acordo de associa\u00e7\u00e3o com a Uni\u00e3o Europeia, a Maidan Nezalezhnost foi convertida em arena de uma \u201cguerra n\u00e3o convencional\u201d contra o governo.[18] Os manifestantes menos equipados do Euromaidan portavam bordunas; o uso de coquet\u00e9is molotov tamb\u00e9m era muito comum desde os primeiros protestos. A isso se somaram grupos neonazistas e paramilitares como o Pravy Sektor. Consumado em 2014, o golpe em Kiev provocou centenas de mortes dezenas de milhares de refugiados e contou com a participa\u00e7\u00e3o expl\u00edcita dos Estados Unidos \u2013 tanto por meio de ONGs e Institutos norte-americanos quanto pela presen\u00e7a de senadores estadunidenses nos atos contra Yanukovych, por exemplo.[19]<\/p>\n<p>Soberania como direito universal<\/p>\n<p>A quem cabe decidir quais pa\u00edses s\u00e3o democr\u00e1ticos e respeitam os direitos humanos? Quase um sexto da popula\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos est\u00e1 sofrendo inseguran\u00e7a alimentar. 50 milh\u00f5es de norte-americanos, entre os quais 17 milh\u00f5es de crian\u00e7as, est\u00e3o nessa condi\u00e7\u00e3o.[20] O pa\u00eds, que n\u00e3o oferece um sistema p\u00fablico e universal de sa\u00fade \u00e0 sua popula\u00e7\u00e3o, est\u00e1 no topo do ranking global de v\u00edtimas por Covid-19 com mais de 350 mil mortos.[21] Os EUA possuem a maior popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria do mundo, cerca de 2,1 milh\u00f5es de presos. N\u00e3o h\u00e1 elei\u00e7\u00f5es diretas para presidente naquele pa\u00eds e o n\u00edvel de competitividade dos candidatos \u00e9 diretamente subordinado ao poder econ\u00f4mico. Por que essa na\u00e7\u00e3o teria condi\u00e7\u00f5es de definir unilateralmente quando uma interven\u00e7\u00e3o contra outro pa\u00eds \u00e9 leg\u00edtima?<\/p>\n<p>\u00c9 comum entre as ditas democracias liberais a exist\u00eancia de normas legais que permitem a suspens\u00e3o de determinadas liberdades individuais em situa\u00e7\u00f5es de exce\u00e7\u00e3o como, por exemplo, amea\u00e7as externas. Por\u00e9m, h\u00e1 in\u00fameros exemplos hist\u00f3ricos de como as manobras geopol\u00edticas destas mesmas democracias liberais muitas vezes representam amea\u00e7as externas para os povos dos pa\u00edses perif\u00e9ricos que, em alguns casos, s\u00e3o obrigados a viver sob estado de exce\u00e7\u00e3o permanente. \u00c9 quando os tribunais internacionais da liberdade proferem seus vereditos e preparam o terreno para as miss\u00f5es civilizat\u00f3rias contra as terr\u00edveis ditaduras. \u00c9 importante notar como os imp\u00e9rios neocoloniais julgam os regimes pol\u00edticos de outras na\u00e7\u00f5es valendo-se de crit\u00e9rios que n\u00e3o aplicam a si pr\u00f3prios.<\/p>\n<p>Em 1991, ocorreu um golpe militar na Arg\u00e9lia. Os generais que tomaram o poder justificaram o feito alegando que a frente isl\u00e2mica vitoriosa no processo eleitoral colocava em perigo o processo de moderniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. O Ocidente saudou os militares com o argumento de que a opera\u00e7\u00e3o evitou a instaura\u00e7\u00e3o de um regime isl\u00e2mico obscurantista que implicaria em enormes retrocessos, principalmente para as mulheres.<\/p>\n<p>A Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica valera-se de pressupostos semelhantes para justificar sua interven\u00e7\u00e3o no Afeganist\u00e3o poucos anos antes, apoiando a luta contra o fundamentalismo. Naquela ocasi\u00e3o, todavia, o Ocidente avaliou que a bandeira da liberdade estava com os mujahidins, que receberam um arsenal extraordin\u00e1rio para enfrentar o Ex\u00e9rcito Vermelho e, ao final da d\u00e9cada de 1980, criaram a Al-Qaeda.[22]<\/p>\n<p>Apontar a subordina\u00e7\u00e3o de certos valores a interesses econ\u00f4micos e geopol\u00edticos e criticar a instrumentaliza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica dos direitos humanos por parte do Ocidente n\u00e3o necessariamente significa negar a dimens\u00e3o universal do tema ou adotar uma postura relativista a seu respeito. A nega\u00e7\u00e3o da universalidade dos direitos humanos reside justamente na l\u00f3gica neocolonial e racista que divide a humanidade entre povos avan\u00e7ados e povos inferiores, sendo exclusiva dos primeiros a plena aplicabilidade da no\u00e7\u00e3o de direitos. A estigmatiza\u00e7\u00e3o dos povos da periferia \u00e9 a ideologia do imperialismo por excel\u00eancia.<\/p>\n<p>As intromiss\u00f5es de grandes pot\u00eancias capitalistas em assuntos internos de pa\u00edses perif\u00e9ricos est\u00e3o muito longe da busca pela universaliza\u00e7\u00e3o dos direitos humanos e da democracia. Ao contr\u00e1rio, tais inger\u00eancias partem da nega\u00e7\u00e3o da universalidade de direitos fundamentais como a soberania e a autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos. Ou seja, do ponto de vista do Ocidente, a soberania n\u00e3o \u00e9 uma prerrogativa de toda e qualquer comunidade nacional, mas apenas das autoproclamadas na\u00e7\u00f5es eleitas \u2013 povos superiores cuja miss\u00e3o \u00e9 guiar o resto da humanidade e defend\u00ea-la dos b\u00e1rbaros.<\/p>\n<p>Quanto mais as pot\u00eancias ocidentais relativizam a soberania das demais na\u00e7\u00f5es, mais elas dilatam a pr\u00f3pria soberania.[23] Desde a d\u00e9cada de 1990, o que se tem visto \u00e9 uma \u201csoberania universal\u201d exercida a partir de Washington, tendo a Uni\u00e3o Europeia como coadjuvante que, entre altos e baixos, nunca rompeu de fato o alinhamento geopol\u00edtico Norte-Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que o resultado das \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es para a Casa Branca implique em algumas mudan\u00e7as internas nos Estados Unidos. Contudo, n\u00e3o h\u00e1 perspectivas de transforma\u00e7\u00f5es estruturais no plano dom\u00e9stico dos EUA com Joe Biden, muito menos na sua pol\u00edtica externa. Desnecess\u00e1rio recordar que foi durante seu mandato como vice-presidente, entre 2009 e 2017, que os EUA realizaram as interven\u00e7\u00f5es militares na L\u00edbia e na S\u00edria, bem como fomentaram golpes, por exemplo, em Honduras, no Paraguai, na Ucr\u00e2nia e no Brasil.<\/p>\n<p>Em seu primeiro discurso como presidente eleito dos EUA, Biden afirmou: \u201cEu acredito que, nosso melhor, a Am\u00e9rica \u00e9 um farol para o mundo. E n\u00f3s lideramos n\u00e3o pelo exemplo do nosso poder, mas pelo poder do nosso exemplo\u201d.[24] A realidade \u00e9 que, tanto o exemplo quanto o poder dos Estados Unidos continuam monumentais, mas a um custo cada vez maior para o restante humanidade e para grande parte da pr\u00f3pria classe trabalhadora que vive ao norte do rio Bravo.<\/p>\n<p>[1] Docente da Secretaria de Estado de Educa\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro (SEEDUC-RJ), doutorando do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Geografia da UERJ e membro do Comit\u00ea Central do PCB.<\/p>\n<p>[2] Karl Marx. Mis\u00e9ria da Filosofia: resposta \u00e0 Filosofia da mis\u00e9ria, do Sr. Proudhon. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular, 2009. P. 128.<\/p>\n<p>[3] Alberto Pereira dos Santos. Geografia e Direitos Humanos: uma reflex\u00e3o em tempo de pandemia Covid-19. RIDH. Bauru, v. 8, n. 2, p. 189-202, jul.\/dez., 2020. P. 199-200.<\/p>\n<p>[4] N\u00e3o \u00e9 demais lembrar que a falsa simetria entre o comunismo e o nazismo \u00e9 uma tese compartilhada pela extrema-direita, sendo inclusive utilizada pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL\/SP) para tentar justificar a criminaliza\u00e7\u00e3o do comunismo atrav\u00e9s do Projeto de Lei 4425\/2020.<\/p>\n<p>[5] Prashad \u00e9 enf\u00e1tico em rela\u00e7\u00e3o ao papel desempenhado pelos comunistas no combate ao Terceiro Reich: \u201cFoi a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica que salvou o mundo do nazismo. Foram os ex\u00e9rcitos sovi\u00e9ticos que libertaram a maioria dos campos de concentra\u00e7\u00e3o nazistas, e foram os sovi\u00e9ticos que entraram em Berlim e acabaram com a guerra\u201d. Vijay Prashad. Estrela Vermelha sobre o Terceiro Mundo. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular, 2019. P. 124.<\/p>\n<p>[6] Domenico Losurdo. Guerra e Revolu\u00e7\u00e3o: o mundo um s\u00e9culo ap\u00f3s outubro de 1917. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2017. P. 336.<\/p>\n<p>[7] Frantz Fanon. OS Condenados da Terra. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1968. P. 71.<\/p>\n<p>[8] Domenico Losurdo. O Marxismo Ocidental: como nasceu, como morreu, como pode renascer. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2018. P. 127.<\/p>\n<p>[9] Hannah Arendt. Origens do Totalitarismo: antissemitismo, imperialismo, totalitarismo. S\u00e3o Paulo: Companhia de Bolso, 2013.<\/p>\n<p>[10] Jones Manoel. A luta de classes pela mem\u00f3ria: ra\u00e7a, classe e Revolu\u00e7\u00e3o Africana. IN: MANOEL, J. e LANDI, G. (Org.). Revolu\u00e7\u00e3o Africana: uma antologia do pensamento marxista. S\u00e3o Paulo: Autonomia Liter\u00e1ria, 2019. P. 24.<\/p>\n<p>[11] Alberto Pereira dos Santos. Geografia e educa\u00e7\u00e3o em direitos humanos na cidade de S\u00e3o Paulo. Geo UERJ, Rio de Janeiro, n. 33, 2018.P. 4.<\/p>\n<p>[12] David Harvey. Espa\u00e7os de Esperan\u00e7a. 3\u00aa ed. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2009. P. 126.<\/p>\n<p>[13] Paulo F. Visentini. S\u00e9culo XXI: impasses e conflitos. Porto Alegre: Leitura XXI, 2017. P. 13.<\/p>\n<p>[14] O balan\u00e7o de Visentini corrobora a avalia\u00e7\u00e3o de Domenico Losurdo, que caracterizou o per\u00edodo entre 1989 e 1999 como \u201cuma d\u00e9cada tr\u00e1gica\u201d, refutando os discursos entusiasmados com a queda do Muro de Berlim. Naquela ocasi\u00e3o, \u201cDissipavam-se as ang\u00fastias da Guerra Fria junto com o s\u00e9culo XX, s\u00e9culo horr\u00edvel iniciado com a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro e por ela marcado. Teria acabado de vez a hist\u00f3ria com suas contradi\u00e7\u00f5es e seus conflitos. Poucos meses depois, teve lugar a invas\u00e3o do Panam\u00e1, precedida de intenso bombardeio, desencadeada sem declara\u00e7\u00e3o de guerra e sem aviso pr\u00e9vio: bairros intensamente povoados surpreendidos durante a noite pelas bombas e pelas chamas\u201d. Domenico Losurdo. Colonialismo e Luta Anticolonial: desafios da revolu\u00e7\u00e3o no s\u00e9culo XXI. Organiza\u00e7\u00e3o: Jones Manoel. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2020. P. 21.<\/p>\n<p>[15] Luiz Alberto Moniz Bandeira. A Desordem Mundial: o espectro da total domina\u00e7\u00e3o \u2013 guerras por procura\u00e7\u00e3o, terror, caos e cat\u00e1strofes humanit\u00e1rias. 5\u00aa ed. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2018. P. 513.<\/p>\n<p>[16] Informa\u00e7\u00f5es e dados extra\u00eddos de Luiz Alberto Moniz Bandeira. Op. Cit., 2018.<\/p>\n<p>[17] Idem.<\/p>\n<p>[18] Andrew Korybko. Guerras H\u00edbridas: das revolu\u00e7\u00f5es coloridas aos golpes. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular, 2018.<\/p>\n<p>[19] Luiz Alberto Moniz Bandeira. Op. Cit., 2018.<\/p>\n<p>[20] Conferir Kennedy Alencar, \u201cPandemia aumenta fome nos EUA, problema que atinge 50 milh\u00f5es de pessoas\u201d. Dispon\u00edvel em https:\/\/noticias.uol.com.br\/colunas\/kennedy-alencar\/2020\/11\/23\/covid-e-boicote-de-trump-a-pacote-de-ajuda-aumentam-inseguranca-alimentar.htm. 23 de nov.\/ 2020.<\/p>\n<p>[21] Conferir El Pa\u00eds, \u201cO mapa do coronav\u00edrus: como aumentam os casos dia a dia no Brasil e no mundo\u201d. Dispon\u00edvel em https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020\/03\/12\/ciencia\/1584026924_318538.html?rel=friso-portada. Acesso em dez.\/ 2020.<\/p>\n<p>[22] Analisando a contradi\u00e7\u00e3o em tela, Losurdo lembra que \u201cquem decide sobre o estado de exce\u00e7\u00e3o suscet\u00edvel de justificar a suspens\u00e3o das regras do jogo, \u00e9 sempre o Ocidente liberal, capitalista e imperialista.\u201d Domenico Losurdo. Fuga da Hist\u00f3ria? A revolu\u00e7\u00e3o russa e a revolu\u00e7\u00e3o chinesa vistas de hoje. Rio de Janeiro: Revan, 2004. P. 36.<\/p>\n<p>[23] Segundo Losurdo, \u201cO universalismo imperial da \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d que deve ser expandida em todo o mundo assumiu hoje a fei\u00e7\u00e3o de universalismo imperial dos direitos humanos, os quais devem ser respeitados em todo canto do planeta; arrogar-se o direito de definir o confim entre civiliza\u00e7\u00e3o e barb\u00e1rie, isto \u00e9, entre respeito e viola\u00e7\u00e3o de normas universais significa atribuir-se de fato uma soberania universal.\u201d Domenico Losurdo. A Luta de Classes: uma hist\u00f3ria pol\u00edtica e filos\u00f3fica. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2015. P. 196-197.<\/p>\n<p>[24] Conferir BBC News Brasil, \u201cNa \u00edntegra, o 1\u00ba discurso de Biden como presidente eleito dos EUA\u201d. Dispon\u00edvel em https:\/\/youtu.be\/fYYOEMeOxaE.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"hbSRauvRtt\"><p><a href=\"https:\/\/fdinarcoreis.org.br\/fdr\/2021\/01\/05\/geopolitica-e-direitos-humanos-do-revisionismo-historico-liberal-ao-universalismo-imperial\/\">Geopol\u00edtica e direitos humanos: do revisionismo hist\u00f3rico liberal ao universalismo imperial<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Geopol\u00edtica e direitos humanos: do revisionismo hist\u00f3rico liberal ao universalismo imperial&#8221; &#8212; Funda\u00e7\u00e3o Dinarco Reis\" src=\"https:\/\/fdinarcoreis.org.br\/fdr\/2021\/01\/05\/geopolitica-e-direitos-humanos-do-revisionismo-historico-liberal-ao-universalismo-imperial\/embed\/#?secret=hbSRauvRtt\" data-secret=\"hbSRauvRtt\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26662\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[222],"class_list":["post-26662","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6W2","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26662","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26662"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26662\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26662"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26662"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26662"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}