{"id":26666,"date":"2021-01-05T23:27:02","date_gmt":"2021-01-06T02:27:02","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26666"},"modified":"2021-01-06T10:12:33","modified_gmt":"2021-01-06T13:12:33","slug":"colocar-tambem-na-secao-100-anos-do-pcb","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26666","title":{"rendered":"Zuleide Faria de Melo, uma Revolucion\u00e1ria!"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/pw\/ACtC-3exyDO3anae1xxjmZTIg0uEkCuOvki9_Rzv3VC5DePVZVSVONRgb5W6576Ha6_ICwLIRIFJa7JoG6gLPAXpZeLuj0gqHa9nCwnarjDOntwkXfoebkMNAoWVsgsrQMMznuWA6TZKv3sYTCfpZYO7FuEW=w722-h979-no\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Zuleide Faria de Melo, uma Revolucion\u00e1ria!<\/p>\n<p>(Ivan Pinheiro)<\/p>\n<p>A querida amiga e camarada Zuleide completa, em 6 de janeiro de 2021, 89 anos de uma vida digna e generosa, tendo dedicado \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Socialista seus melhores e mais intensos esfor\u00e7os.<\/p>\n<p>Zuleide re\u00fane as principais qualidades que distinguem a milit\u00e2ncia comunista: firmeza ideol\u00f3gica, refer\u00eancia nos fundamentos do marxismo-leninismo, exerc\u00edcio do internacionalismo prolet\u00e1rio, respeito ao centralismo democr\u00e1tico, nenhuma ilus\u00e3o na possibilidade de humanizar e democratizar o capitalismo ou de super\u00e1-lo gradualmente pelas vias institucionais.<\/p>\n<p>Zuleide tem outras qualidades que valorizo: nunca deixou de expor francamente suas opini\u00f5es nas inst\u00e2ncias partid\u00e1rias, mesmo quando as sabia minorit\u00e1rias. Nunca desqualificou nem desrespeitou qualquer camarada, mesmo nos debates mais duros e dif\u00edceis. Como militante e dirigente comunista e professora do Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Sociais da UFRJ, nunca fez qualquer concess\u00e3o \u00e0s muitas facetas do reformismo, do oportunismo e do academicismo. Zuleide \u00e9 a melhor defini\u00e7\u00e3o de intelectual org\u00e2nico comunista.<\/p>\n<p>Em termos de contribui\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e pr\u00e1tica, de exemplo, coragem e doa\u00e7\u00e3o pessoal, Zuleide foi a principal refer\u00eancia do Movimento Nacional em Defesa do PCB que, em 25 de janeiro de 1992, derrotou os que queriam acabar com o Partido, dando in\u00edcio \u00e0 sua reconstru\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria. Durante quase quatro anos &#8211; antes, durante e depois dessa vit\u00f3ria &#8211; sua resid\u00eancia foi na pr\u00e1tica a sede nacional, primeiro do Movimento de Defesa do PCB e depois do pr\u00f3prio Partido, at\u00e9 superarmos as dificuldades materiais para termos nossa primeira e modesta sede p\u00fablica, depois da cis\u00e3o que chamamos de \u201cracha\u201d, em que fomos o lado que saiu com a roupa do corpo, mas com muita firmeza ideol\u00f3gica, garra e determina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, apesar dos escombros da contrarrevolu\u00e7\u00e3o na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, que s\u00f3 ca\u00edam sobre nossas cabe\u00e7as.<\/p>\n<p>Com a contribui\u00e7\u00e3o decisiva e generosa da sua querida m\u00e3e, Dona Dolores, quase camarada, ali se davam as articula\u00e7\u00f5es e reuni\u00f5es do n\u00facleo duro da resist\u00eancia ao reformismo e ao liquidacionismo: receb\u00edamos camaradas e amigos, entre os quais \u00c1lvaro Cunhal, Miguel Urbano Rodrigues, dirigentes do PC cubano e de outros partidos irm\u00e3os, muitas vezes com a presen\u00e7a querida e inestim\u00e1vel do saudoso Hor\u00e1cio Macedo. Para quem n\u00e3o sabe, Zuleide \u00e9 uma verdadeira dama, uma elegante anfitri\u00e3 que se preocupa com os m\u00ednimos detalhes.<\/p>\n<p>O escrit\u00f3rio da sua ainda atual resid\u00eancia funcionou como a sede do secretariado pol\u00edtico e de organiza\u00e7\u00e3o da resist\u00eancia e, depois do \u201cracha\u201d, da dire\u00e7\u00e3o do PCB que comandou a reconstru\u00e7\u00e3o. O escrit\u00f3rio ainda \u00e9 o mesmo, como uma esp\u00e9cie de museu de parte da hist\u00f3ria do PCB. Est\u00e3o l\u00e1, quase intactos, sua mesa de trabalho, o fax, o telefone, os s\u00edmbolos sovi\u00e9ticos, as imagens de Lenin, a biblioteca, os arquivos e uma hist\u00f3rica m\u00e1quina de escrever IBM 82, em que, al\u00e9m de redigir fluentemente, ela datilografava com maestria panfletos, atas, correspond\u00eancias, circulares, o que fosse necess\u00e1rio. E ainda ia para as ruas agitar e panfletar. Zuleide carregava e tocava o piano!<\/p>\n<p>N\u00e3o era s\u00f3 no trabalho intelectual e de organiza\u00e7\u00e3o que ela se superava. Na luta em defesa do PCB e em sua reconstru\u00e7\u00e3o, foi a mais eficiente na capta\u00e7\u00e3o de finan\u00e7as, agita\u00e7\u00e3o e propaganda, no contato com simpatizantes, nas rela\u00e7\u00f5es internacionais, na forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e ideol\u00f3gica da milit\u00e2ncia, sobretudo da juventude. Foi Presidente Nacional (\u00b9) do PCB por mais de dez anos, a partir de 1985, sucedendo o camarada Hor\u00e1cio Macedo, por raz\u00f5es de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Embora sempre muito afinados nas quest\u00f5es estrat\u00e9gicas e ideol\u00f3gicas, eu e Zuleide tivemos algumas diverg\u00eancias na t\u00e1tica, em discuss\u00f5es reservadas ou no \u00e2mbito do Comit\u00ea Central e de Congressos partid\u00e1rios. Nenhuma delas afetou o carinho, o respeito e a confian\u00e7a que sempre marcaram nossa rela\u00e7\u00e3o. Na forma\u00e7\u00e3o de minha consci\u00eancia pol\u00edtica e ideol\u00f3gica, a revolucion\u00e1ria Zuleide Faria de Melo foi uma das principais refer\u00eancias.<\/p>\n<p>Zuleide cumpriu, durante a clandestinidade absoluta dos anos 1970, tarefas perigosas que salvaram vidas de camaradas perseguidos pela ditadura e documentos do Partido que foram mandados para um arquivo da Universidade de Mil\u00e3o. A partir de 1979, durante a chamada abertura pol\u00edtica que a ditadura definia como \u201clenta, segura e gradual\u201d, o PCB criou ou reanimou v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter legal, que contaram com o trabalho an\u00f4nimo e decisivo da camarada Zuleide. Refiro-me ao Instituto Brasil-Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, ao CEBRAD (Centro Brasil Democr\u00e1tico), ao CONDEPAZ (Conselho de Defesa da Paz Mundial) e \u00e0 ACJM (Associa\u00e7\u00e3o Cultural Jos\u00e9 Marti, de Solidariedade a Cuba).<\/p>\n<p>Durante muitos anos ela presidiu a Associa\u00e7\u00e3o Cultural Jos\u00e9 Marti, de solidariedade ao povo, ao governo e ao partido cubanos. Seu amor, fidelidade e dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Cubana sempre foram incontestes e incondicionais. Brinquei muitas vezes com ela, \u201cacusando-a\u201d de dupla milit\u00e2ncia, no Partido Comunista Brasileiro e no Partido Comunista de Cuba. Ela apenas sorria, com ar orgulhoso!<\/p>\n<p>Em plena ditadura, Zuleide disponibilizou a mesma resid\u00eancia de que falamos nestas linhas para funcionar como uma esp\u00e9cie de embaixada clandestina de Cuba no Brasil. Sua casa era a principal base a partir da qual aqui se movimentavam discretamente os queridos camaradas cubanos, primeiro o Cervantes, depois o Ferreira, por delega\u00e7\u00e3o do governo e do partido cubanos.<\/p>\n<p>Em 1984, j\u00e1 membro do CC, fui convocado pelo ent\u00e3o Secret\u00e1rio Geral, Giocondo Dias, para uma reuni\u00e3o com ele e H\u00e9rcules Correia, Secret\u00e1rio Sindical, em um escrit\u00f3rio reservado na Rua Pedro Lessa, no centro do Rio de Janeiro. O objetivo, alcan\u00e7ado a meu contragosto, era me \u201cenquadrar\u201d em uma quest\u00e3o sobre articula\u00e7\u00f5es intersindicais.<\/p>\n<p>Tocando a campainha, atende-me uma discreta senhora que n\u00e3o se apresentou, mas gentilmente me introduziu na sala de reuni\u00e3o. Alguns anos depois, com a volta da legalidade do Partido, encontrei-a num evento pol\u00edtico e descobri que se tratava de uma camarada, chamada Zuleide Faria de Melo, cuja tarefa militante era auxiliar a Secretaria Geral do partido durante a clandestinidade, a partir da volta dos dirigentes comunistas exilados com a anistia, em 1979. Primeiro, por um breve per\u00edodo, junto ao camarada Luiz Carlos Prestes e, depois, ao camarada Giocondo Dias.<\/p>\n<p>Era preciso muita confian\u00e7a para escolher a quem atribuir esta tarefa. E muita coragem e responsabilidade para aceit\u00e1-la!<\/p>\n<p>Longa vida \u00e0 camarada Zuleide!<\/p>\n<p>6 de janeiro de 2020<\/p>\n<p>P.S. \u2013 A foto que ilustra este texto foi tirada na casa da Zuleide, no in\u00edcio de mar\u00e7o de 2020, portanto, antes da pandemia. Foi a \u00faltima vez que a visitei. Em contato recente, sua filha me informou que Zuleide continua fisicamente com sa\u00fade, mas que segue a perda da audi\u00e7\u00e3o e da mem\u00f3ria. Percebendo que ela infelizmente n\u00e3o poderia mais registrar suas mem\u00f3rias, mesmo atrav\u00e9s de entrevistas ou grava\u00e7\u00f5es, naquele dia decidi come\u00e7ar a escrever sobre epis\u00f3dios ligados \u00e0 minha milit\u00e2ncia, uma modesta contribui\u00e7\u00e3o para as novas e futuras gera\u00e7\u00f5es de revolucion\u00e1rios valorizarem nossos acertos e n\u00e3o repetirem nossos erros.<\/p>\n<p>O PCB deve assumir o desafio de criar as condi\u00e7\u00f5es para a edi\u00e7\u00e3o de uma biografia da camarada Zuleide. N\u00e3o faltar\u00e1 documenta\u00e7\u00e3o, registros nem depoimentos dos que tiveram a honra de conhecer essa grande revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>(\u00b9) \u2013 Presid\u00eancia Nacional era a nomenclatura estabelecida no ent\u00e3o Estatuto do PCB, alterada para Secretaria Geral, em 2008, pela Confer\u00eancia Nacional de Organiza\u00e7\u00e3o do Partido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26666\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[365],"tags":[219],"class_list":["post-26666","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-centenario-do-pcb","tag-manchete"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6W6","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26666","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26666"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26666\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26666"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26666"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26666"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}