{"id":26675,"date":"2021-01-07T18:18:17","date_gmt":"2021-01-07T21:18:17","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26675"},"modified":"2021-01-07T18:18:17","modified_gmt":"2021-01-07T21:18:17","slug":"a-producao-social-de-doencas-e-crises","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26675","title":{"rendered":"A produ\u00e7\u00e3o social de doen\u00e7as e crises"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Colheita-de-milho_Fazenda-no-municipio-de-Balsas_Balsas_MA_Le-Monde-Diplomatique-Brasil_TBauer-300x169.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->De 2002 a 2010\/2011, os pre\u00e7os internacionais das commodities atingiram altas hist\u00f3ricas.<br \/>\n(Thomas Bauer)<\/p>\n<p>Por C\u00e1ssio Arruda Boechat [*]<\/p>\n<p>At\u00e9 aqui, o agroneg\u00f3cio n\u00e3o parou durante a pandemia de coronav\u00edrus e se vangloria de ser respons\u00e1vel por ter evitado uma crise econ\u00f4mica que chegou a ser anunciada como a pior da hist\u00f3ria, com progn\u00f3sticos que apontavam para uma queda superior a 8% do PIB no Brasil. Com isso, refor\u00e7a-se a ideologia vitoriosa do assim chamado &#8220;agro&#8221;, que se coloca como a cura para os males nacionais. \u00c9 bom lembrar, por\u00e9m, do ph\u00e1rmakon, de onde prov\u00e9m a palavra &#8220;farm\u00e1cia&#8221;, que pode curar ou intoxicar, sendo ao mesmo tempo rem\u00e9dio e veneno. Ou seja, procuramos uma reflex\u00e3o de at\u00e9 que ponto a suposta solu\u00e7\u00e3o \u00e9 parte da causa dos problemas.<\/p>\n<p>Visitando recentemente o interior paulista, em meio a uma seca terr\u00edvel, observei alguns poucos trabalhadores aplicando defensivos num canavial rec\u00e9m-cortado por monstruosas m\u00e1quinas em terras arrendadas por uma grande usina francesa. O cen\u00e1rio era in\u00f3spito, desabitado e soando des\u00e9rtico. Queimadas despontavam no horizonte. Os homens, irreconhec\u00edveis, caminhavam mascarados sob o sol ardente. Alguns com tubos de PVC na m\u00e3o jogavam alguma coisa aqui e ali pelo interior dos tubos at\u00e9 o ch\u00e3o; outros, com um recipiente atado \u00e0s costas, aplicavam um l\u00edquido periodicamente. Faziam a chamada &#8220;cata\u00e7\u00e3o&#8221;: matavam mato e formigas, respectivamente, aplicando produtos qu\u00edmicos na entrada dos formigueiros e nas touceiras de capim\u2013coloni\u00e3o (que tem o hil\u00e1rio nome cient\u00edfico Panicum maximum ). &#8220;Inimigos&#8221; persistentes da produtividade da lavoura.<\/p>\n<p>A cena poderia representar a solu\u00e7\u00e3o para a ang\u00fastia antediluviana do lavrador, expressa pelo viajante Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853), que teria afirmado \u2013 antes, claro, de ser lembrado por Macuna\u00edma \u2013 que &#8220;ou o Brasil acaba com a sa\u00fava, ou a sa\u00fava acaba com o Brasil&#8221;. A bem da verdade, como os pr\u00f3prios mascarados me contaram, n\u00e3o se tratava de acabar com as formigas ou com as ervas daninhas, mas de control\u00e1-las. Independentemente de quanto veneno \u00e9 posto, elas voltam todo ano. Ing\u00eanua pergunta: &#8220;Mas e o veneno, para onde vai?&#8221;. Sil\u00eancio\u2026 A solu\u00e7\u00e3o ali dada, desse modo, n\u00e3o parece ser suficiente ou definitiva para acabar com &#8220;nossos&#8221; problemas, cujas ra\u00edzes est\u00e3o muito al\u00e9m das sa\u00favas e podem estar tamb\u00e9m nas formas de enfrentarmos as doen\u00e7as e as crises.<\/p>\n<p>A mem\u00f3ria e os estudos nos permitem voltar no tempo para comparar aquela cena da profilaxia recente de formigas e mato com algumas outras profilaxias, inclusive de trabalhadores, de um passado n\u00e3o muito distante, e avaliar a produ\u00e7\u00e3o social de doen\u00e7as e de crises no agroneg\u00f3cio.<br \/>\nPr\u00f3ximo de onde se encontra aquele canavial, vi quando crian\u00e7a, assombrado, uma cena semelhante \u00e0quela da chegada dos federais norte-americanos (seriam da Nasa?) para cercar a casa suburbana dos meninos que acolheram o E.T. no filme de Spielberg. Completamente cobertos, t\u00e9cnicos da Funda\u00e7\u00e3o de Defesa da Citricultura (Fundecitrus) vinham isolar um pomar e erradicar laranjeiras num enorme raio para evitar a propaga\u00e7\u00e3o do cancro c\u00edtrico, causado pela bact\u00e9ria Xanthomonas citri.<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca, o noroeste de S\u00e3o Paulo tinha mais laranjais do que canaviais. A paisagem era dominada por laranjeiras enfileiradas at\u00e9 onde a vista alcan\u00e7ava. Uma medida t\u00e3o dura como aquela da erradica\u00e7\u00e3o chamava a aten\u00e7\u00e3o para a ocorr\u00eancia de epidemias que afetavam a &#8220;popula\u00e7\u00e3o&#8221; de \u00e1rvores. Depois de arrancadas as laranjeiras infectadas e suas vizinhas, a pilha de troncos ainda carregados de laranjas era incinerada em altas fogueiras. A \u00e1rea isolada ficava em quarentena, e os t\u00e9cnicos vestidos de branco da cabe\u00e7a aos p\u00e9s rodavam todas as propriedades produtoras em buscas de novos casos. Ao menor ind\u00edcio de c\u00e2ncer, estava dada a senten\u00e7a.<\/p>\n<p>Esse controle epidemiol\u00f3gico era mais aceito nos anos 1980 do que nos dias atuais, em que medidas de quarentena s\u00e3o questionadas, talvez porque ainda estivesse fresca na mem\u00f3ria de muitos citricultores a lembran\u00e7a da praga da tristeza, que dizimou rapidamente os pomares paulistas nos anos 1940. Essa epidemia s\u00f3 chegou a ser &#8220;superada&#8221; gra\u00e7as aos estudos de pesquisadores que descobriram que o enxerto das laranjeiras em ra\u00edzes de lim\u00e3o\u2013cravo as tornava resistentes ao v\u00edrus CTV ( Citrus tristeza virus ). Gra\u00e7as \u00e0 &#8220;vacina&#8221; pelas pr\u00e1ticas de enxertia, descoberta pela pesquisa p\u00fablica, os neg\u00f3cios puderam ser retomados e a citricultura foi restabelecida em &#8220;moldes industriais&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00e3o parece ter sido cogitado efetivamente que as causas da r\u00e1pida prolifera\u00e7\u00e3o e da alta letalidade da tristeza talvez estivessem na forma como a monocultura e a busca pela produtividade agr\u00edcola haviam aglomerado esp\u00e9cimes de umas poucas variedades de citros em vastos pomares quase cont\u00ednuos. At\u00e9 aproximadamente os anos 1930, a produ\u00e7\u00e3o de citros era completamente descentralizada e se dava em pequenos pomares dispersos. O sistema de cultivo havia mudado radicalmente desde ent\u00e3o, incorporando uma busca constante pelo aumento da produtividade dos pomares, e com ele vieram as primeiras epidemias fitossanit\u00e1rias. Como de praxe em nossa sociedade, a busca pela solu\u00e7\u00e3o de um problema \u00e9 procurada num produto m\u00e1gico e raramente \u00e9 apontada uma cr\u00edtica \u00e0 maneira como as mercadorias s\u00e3o produzidas. Reitera-se, na cabe\u00e7a de m\u00e9dicos, agr\u00f4nomos e de quem quer que seja, o fetichismo da forma social, pautada por rela\u00e7\u00f5es entre pessoas sempre mediadas por coisas.<\/p>\n<p>Assim, uma enxurrada de novas pestes se acumularia posteriormente nos pomares, que, desde os anos 1960, j\u00e1 eram regularmente &#8220;tratados&#8221; com pesticidas qu\u00edmicos, apontados corriqueiramente como os &#8220;rem\u00e9dios&#8221; do cotidiano da agricultura. Desse modo, a citricultura moderna paulista convive com epidemias devastadoras desde sua instala\u00e7\u00e3o. As &#8220;vacinas&#8221; cient\u00edficas solucionam temporariamente o problema, que retorna r\u00e1pida e periodicamente, na forma de crises sanit\u00e1rias agravadas, com variedades resistentes de \u00e1caros, insetos (moscas e cigarrinhas sugadoras), v\u00edrus (CVC) e bact\u00e9rias (como a causadora do greening), desafiando as solu\u00e7\u00f5es de agr\u00f4nomos e vendedores de agrot\u00f3xicos, ao mesmo tempo que justificam a pr\u00f3pria exist\u00eancia desses profissionais especializados. No entanto, a gest\u00e3o disso implica custos crescentes que nem sempre podem ser externalizados da contabilidade das firmas, como o s\u00e3o no caso da pesquisa p\u00fablica.<\/p>\n<p>A crise da citricultura tem outra dimens\u00e3o quando observamos a elimina\u00e7\u00e3o recente de mais de 20 mil citricultores (dados da Associtrus), em geral pequenos sitiantes que trabalhavam com suas fam\u00edlias, exclu\u00eddos do setor nos \u00faltimos vinte anos por n\u00e3o darem conta dos custos crescentes de manuten\u00e7\u00e3o dos pomares diante dos pre\u00e7os decadentes da laranja paga pelas ind\u00fastrias de suco, altamente concentradas nas m\u00e3os de dois grupos econ\u00f4micos.<\/p>\n<p>A elimina\u00e7\u00e3o acelerada dos citricultores mais vulner\u00e1veis tamb\u00e9m teve uma conota\u00e7\u00e3o higienista, na alega\u00e7\u00e3o de que eram aqueles agricultores familiares que cuidavam menos de seus pomares e, assim, aceleravam a prolifera\u00e7\u00e3o das pragas. Ao lado da imputa\u00e7\u00e3o de falta de controle sanit\u00e1rio, a citricultura tentava lidar com a superprodu\u00e7\u00e3o n\u00e3o exatamente de pragas, mas tamb\u00e9m de laranjas e do pr\u00f3prio suco de laranja. A disputa com outras mercadorias industrializadas (refrescos, refrigerantes etc.) e a crescente produtividade dos pomares adensados anunciavam certa satura\u00e7\u00e3o do mercado.<\/p>\n<p>Desse modo, foram os pequenos e m\u00e9dios agricultores os escolhidos para ser tratados como sendo a pr\u00f3pria &#8220;praga&#8221; e efetivamente &#8220;erradicados&#8221;, com contratos que pagavam menos que os custos de produ\u00e7\u00e3o mais b\u00e1sicos e com a imputa\u00e7\u00e3o de novos custos, como os da colheita, antes a cargo das ind\u00fastrias. Contraditoriamente, eram eles os que entregavam laranjas a pre\u00e7os mais baixos \u00e0s agroind\u00fastrias e ao mercado em geral, porque se valiam do trabalho familiar e n\u00e3o precisavam remunerar alguns &#8220;fatores de produ\u00e7\u00e3o&#8221;. Com sua elimina\u00e7\u00e3o, as pragas em si n\u00e3o foram eliminadas \u2013 \u00e9, inclusive, question\u00e1vel que a situa\u00e7\u00e3o esteja mais controlada \u2013, mas uma importante fonte de acumula\u00e7\u00e3o das pr\u00f3prias ind\u00fastrias deixou de existir.<\/p>\n<p>O exemplo mostra como os preconceitos e as solu\u00e7\u00f5es fetichistas dos gestores do agroneg\u00f3cio reproduzem \u00e0s suas costas as doen\u00e7as e tamb\u00e9m as crises. Como consequ\u00eancia, tornaram-se frequentes novas fogueiras de laranjeiras, empilhadas nos pomares por todo o noroeste paulista. Dessa vez, a &#8220;epidemia&#8221; n\u00e3o era de cancro, como em minha lembran\u00e7a de inf\u00e2ncia, mas de laranjas e citricultores mesmo. A pr\u00f3pria fruta, que supostamente traz sa\u00fade a quem a consome, se tornara uma praga para quem a produzia. A erradica\u00e7\u00e3o partia agora n\u00e3o mais da Fundecitrus, e sim dos pr\u00f3prios produtores, cansados dos preju\u00edzos \u2013 quantos n\u00e3o ter\u00e3o adoecido com a situa\u00e7\u00e3o? \u2013, e o arrendamento das terras \u00e0s usinas de cana surgia como &#8220;rem\u00e9dio&#8221; para uma sobrevida das fam\u00edlias, ao longo dos anos 2000. O carv\u00e3o de laranjeira ainda \u00e9 vendido em supermercados para fazer churrasco.<br \/>\nA utiliza\u00e7\u00e3o de tratores, arados, adubos e pesticidas qu\u00edmicos, express\u00e3o da ind\u00fastria nacional que se desdobrava sobre o campo, altamente fomentada pelo cr\u00e9dito rural subsidiado pelo Estado, foi uma grande novidade dos anos 1960\/1970. S\u00e3o Paulo assumiu a\u00ed a dianteira na ado\u00e7\u00e3o da chamada Revolu\u00e7\u00e3o Verde. Embora ainda n\u00e3o se autoproclamasse assim, era o surgimento do &#8220;agro&#8221; com as fei\u00e7\u00f5es que hoje s\u00e3o positivadas em propagandas televisivas.<\/p>\n<p>O trabalhador de turma, assalariado precariamente e tornado boia-fria irreconhec\u00edvel perante os pr\u00f3prios patr\u00f5es, tamb\u00e9m foi novidade na \u00e9poca. O adoecimento do b\u00f3ia-fria se dava corriqueiramente na forma de les\u00f5es pelo trabalho repetitivo, embora tamb\u00e9m fossem (e ainda sejam) comuns as intoxica\u00e7\u00f5es por agrot\u00f3xicos. Por\u00e9m, o n\u00e3o pertencimento \u00e0 comunidade local, a press\u00e3o por trazer dinheiro de volta \u00e0 fam\u00edlia e cidade de origem e o ritmo ditado pelas m\u00e1quinas agr\u00edcolas ou pelas esteiras das agroind\u00fastrias tamb\u00e9m compunham um contexto de gradativa internaliza\u00e7\u00e3o da necessidade de trabalhar no limite, muitas vezes at\u00e9 a morte. Um triste exemplo: entre 2004 e 2007, mais de vinte cortadores de cana morreram por exaust\u00e3o em servi\u00e7o!<\/p>\n<p>Afinal, o que as m\u00e1quinas e outros &#8220;avan\u00e7os cient\u00edficos&#8221; representam para o trabalho na agricultura e, assim, para a reprodu\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio agroneg\u00f3cio? Em que situa\u00e7\u00e3o as pessoas s\u00e3o elas mesmas tratadas como ervas daninhas e o que isso ocasiona? At\u00e9 menos de dez anos atr\u00e1s, cortadores manuais eram recrutados aos montes em cidades do norte de Minas e do Nordeste para passar a maior parte do ano em S\u00e3o Paulo. Embora fossem tratados como &#8220;os de fora&#8221;, estigmatizados como &#8220;nortistas arruaceiros&#8221; nas cidades interioranas, engoliam o orgulho ferido e a fuligem da cana queimada e, com fac\u00f5es afiados, batiam anualmente recordes de produtividade. Assim como a formiga e o mato, retornavam todo ano, mas n\u00e3o representavam apenas custos. Tamb\u00e9m produziam a maior parte da &#8220;riqueza&#8221; do setor. Em 2008, eram quase 300 mil; hoje, menos de 30 mil. A r\u00e1pida mecaniza\u00e7\u00e3o do corte, com a introdu\u00e7\u00e3o de gigantescas colhedoras, erradicou seus empregos. No campo desabitado, a cana \u00e9 agora cortada por uns poucos operadores de m\u00e1quinas, que se revezam dia e noite.<\/p>\n<p>De 2002 a 2010\/2011, os pre\u00e7os internacionais das commodities atingiram altas hist\u00f3ricas, num afluxo de escala in\u00e9dita de capital fict\u00edcio para a produ\u00e7\u00e3o de mercadorias agr\u00edcolas e minerais no mundo todo e no Brasil. Essa abund\u00e2ncia monet\u00e1ria percolou o solo da sociedade brasileira. No campo paulista, as usinas de cana se esbaldaram em novos projetos, novas aquisi\u00e7\u00f5es, ampliando os canaviais para os pastos e para o Cerrado de estados vizinhos. Renovaram e aumentaram as d\u00edvidas, abriram capital em Bolsa e emitiram pap\u00e9is para financiar a euforia, que tinha lastro fr\u00e1gil na promessa de que o etanol viria logo a substituir o petr\u00f3leo e nos livrar de seus males.<\/p>\n<p>De modo contradit\u00f3rio, por\u00e9m, a energia supostamente &#8220;limpa&#8221; se valia de produzir sistematicamente queimadas, para abrir caminho para o corte da cana, feito pelos migrantes. Como equacionar essa pr\u00e1tica com o discurso ambiental? &#8220;Pro\u00edbam-se as queimadas\u2026&#8221; Entretanto, como cortar cana crua sem cortar todo o cortador nas finas folhas afiadas da cana? Para acabar com as queimadas e &#8220;limpar&#8221; o agrocombust\u00edvel seria necess\u00e1rio transformar o processo de trabalho. Por\u00e9m, com isso, impunha-se &#8220;varrer&#8221; os pr\u00f3prios cortadores do interior paulista e substitu\u00ed-los por colhedoras mec\u00e2nicas, desde que as m\u00e1quinas se tornassem acess\u00edveis para serem compradas. Assim, a mecaniza\u00e7\u00e3o se apresentava como a &#8220;vacina&#8221; para o problema. No entanto, ela exigia investimentos e adapta\u00e7\u00e3o, que o boom das commodities tornava poss\u00edveis.<\/p>\n<p>Usinas avalizaram empr\u00e9stimos banc\u00e1rios de seus fornecedores e se valeram de linhas especiais de financiamento estatal, como do BNDES e do Moderfrota, para comprar colhedoras. Desse modo, a &#8220;cura&#8221; para o adoecimento dos trabalhadores rurais e para a polui\u00e7\u00e3o das queimadas nos canaviais chegou com a aquisi\u00e7\u00e3o de maquin\u00e1rio pesado para a mecaniza\u00e7\u00e3o do corte. Os trabalhadores haviam se tornado a &#8220;praga&#8221; a ser erradicada, em prol de uma produtividade bancada pelo capital financeiro. Sendo eles, todavia, a verdadeira fonte de valor adicional que pode ampliar o capital, como poder\u00e1 o pr\u00f3prio capitalismo curar a &#8220;praga&#8221; da falta de lucratividade que ele mesmo assim cria?<\/p>\n<p>As respostas para os problemas reiterados no campo t\u00eam sido, assim, dobrar a aposta na produtividade, que vai levando ao extremo a no\u00e7\u00e3o de monocultura, a qual parece querer se produzir por si mesma, sem diversidade ambiental e sem gente. A cr\u00edtica a essa forma de pensar, produzir e consumir reclama as derradeiras quest\u00f5es: de onde pode vir a acumula\u00e7\u00e3o do agroneg\u00f3cio se n\u00e3o pela explora\u00e7\u00e3o do trabalho? Qual m\u00e1gica se espera? Ser\u00e1 que o recurso \u00e0 d\u00edvida p\u00fablica e ao capital financeiro pode sempre e sistematicamente substituir a extra\u00e7\u00e3o da mais-valia? Que custos sociais e ambientais estamos assumindo para reiterar essa fic\u00e7\u00e3o? At\u00e9 quando?<\/p>\n<p>[*] Professor de Geografia Econ\u00f4mica e Rural da Universidade Federal do Esp\u00edrito Santo (Ufes) e pesquisador do Grupo de Estudos sobre Mudan\u00e7a Social, Agroneg\u00f3cio e Pol\u00edticas P\u00fablicas (Gemap) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (Ufrrj) e do Laborat\u00f3rio de Geografia Urbana (Labur) da USP.<\/p>\n<p>O original encontra-se em Le Monde Diplomatique Brasil<\/p>\n<p>Este artigo encontra-se em https:\/\/resistir.info\/ .<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26675\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9],"tags":[225],"class_list":["post-26675","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6Wf","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26675","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26675"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26675\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26675"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26675"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26675"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}