{"id":26729,"date":"2021-01-15T13:27:59","date_gmt":"2021-01-15T16:27:59","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26729"},"modified":"2021-01-15T13:27:59","modified_gmt":"2021-01-15T16:27:59","slug":"o-impasse-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26729","title":{"rendered":"O impasse Brasil"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2021\/01\/encruzilhada-milton-pinheiro.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->O Estado autocr\u00e1tico brasileiro, remodelado pela transi\u00e7\u00e3o pelo alto ap\u00f3s 1985, reafirma sua perene exist\u00eancia e deliberadamente confronta-se com o conjunto dos interesses do proletariado e do povo pobre das mais diversas periferias.<\/p>\n<p>Por Milton Pinheiro<\/p>\n<p>BLOG DA BOITEMPO<\/p>\n<p>O Brasil operou um gigante processo eleitoral nas condi\u00e7\u00f5es de impasse que tem marcado o cen\u00e1rio de crise. Essa conjuntura configura-se a partir das opera\u00e7\u00f5es que foram constru\u00eddas para movimentar o caos controlado e que d\u00e3o sentido ao conjunto da ordem pol\u00edtica; estabelecendo rela\u00e7\u00f5es que s\u00e3o ricas em contradi\u00e7\u00f5es e retroalimentam a grave situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica; desenvolvendo a\u00e7\u00f5es que perenizam os interesses da pequena pol\u00edtica no balc\u00e3o dos neg\u00f3cios e que reafirmam um modelo institucional controladamente an\u00f4mico, ordenado pelo papel nefasto do governo federal, parlamento, minist\u00e9rio p\u00fablico, judici\u00e1rio e a m\u00eddia corporativa.<\/p>\n<p>Esse impasse, para al\u00e9m dos conflitos entre as diversas fra\u00e7\u00f5es de classe do campo burgu\u00eas, \u00e9 arquitetado pelo modus operandi do agitador fascista, Jair Bolsonaro, na forma de exercitar a pol\u00edtica e a a\u00e7\u00e3o do governo. A din\u00e2mica das institui\u00e7\u00f5es, nessa l\u00f3gica, avan\u00e7a sem encontrar na ordem republicana a resist\u00eancia e o devido freio. A crise, portanto, tamb\u00e9m se reafirma nas suas variantes pol\u00edtica, econ\u00f4mica, ideol\u00f3gica e social.<\/p>\n<p>Todo esse arcabou\u00e7o da forma pol\u00edtica burguesa tem papel determinante nas contradi\u00e7\u00f5es da conjuntura brasileira. Paulatinamente, essa opera\u00e7\u00e3o vem se fortalecendo atrav\u00e9s do aparato golpista que opera por dentro das institui\u00e7\u00f5es basilares da rep\u00fablica, consolidando os impasses que servem, ao arrepio dos interesses p\u00fablicos, para confeccionar novas interpreta\u00e7\u00f5es do mercado sobre as normas constitucionais; tendo for\u00e7a de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para ungir o governo federal como instrumento central na fomenta\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica que estimula a crise pol\u00edtica e tenta construir um novo sentido para o Estado. Esses procedimentos ajudam a colocar em d\u00favida, na vida social, o arcabou\u00e7o institucional do Brasil e servem para viabilizar o crescimento do espa\u00e7o antidemocr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Vivemos na sociabilidade do obscurantismo pol\u00edtico e social; o fundamentalismo \u00e9 apresentado como se fosse rigoroso produto do conhecimento cient\u00edfico; ampliou-se a divulga\u00e7\u00e3o de ideias reacion\u00e1rias, assim como a opera\u00e7\u00e3o do neofascismo construiu bases estruturais a partir das a\u00e7\u00f5es ideo-pol\u00edticas das hordas bolsonaristas, que alimentam os cercadinhos da pol\u00edtica e que geram o espet\u00e1culo do \u00f3dio.<\/p>\n<p>Essa l\u00f3gica, do difuso arcabou\u00e7o ideol\u00f3gico, tentou aprisionar as elei\u00e7\u00f5es e n\u00e3o permitiu que as mesmas tivessem maior impacto nos embates que possibilitassem, ao trabalhador\/eleitor, o discernimento necess\u00e1rio para colocar em risco a hegemonia burguesa, ou, ao menos o questionamento dos aparelhos ideol\u00f3gicos de domina\u00e7\u00e3o que constroem a hegemonia conservadora. Portanto, saiu-se vencedor um conjunto vazio que estimula altera\u00e7\u00f5es significativas na ordem pol\u00edtica e que \u00e9 aliado do obscurantismo, do fundamentalismo, que opera na amplia\u00e7\u00e3o do desenvolvimento da crise ideol\u00f3gica e que reafirma o estado de natureza na pauta econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>O quadro pol\u00edtico que as elei\u00e7\u00f5es desvelaram confirma a vit\u00f3ria da direita. Venceu o voto do campo da seguran\u00e7a como uma quest\u00e3o de eugenia social e exterm\u00ednio do pobre, preto e perif\u00e9rico; continua forte o voto no ecl\u00e9tico fundamentalismo religioso; ainda permanece o voto do obscurantismo anticient\u00edfico; tornou-se difuso o voto das hordas milicianas, mas a arquitetura do voto conservador ampliou-se. Confirma-se o postulado de que as elei\u00e7\u00f5es n\u00e3o produziram maior repercuss\u00e3o ou mudan\u00e7a na ordem da forma pol\u00edtica atual, pois, se o cercadinho do presidente neofascista n\u00e3o teve maior representa\u00e7\u00e3o eleitoral, ele continua com densa avalia\u00e7\u00e3o positiva e, afinal, na ordem dos impasses da conjuntura, a direita que venceu articula-se com o campo do governo federal.<\/p>\n<p>Mesmo com o adiantado est\u00e1gio do impasse Brasil, uma parte importante da esquerda socialista teve repercuss\u00e3o eleitoral positiva nas capitais. Ainda nesse campo, o voto identit\u00e1rio com sinaliza\u00e7\u00e3o para as quest\u00f5es de pol\u00edticas p\u00fablicas teve importante presen\u00e7a nas C\u00e2maras Municipais de grandes cidades. Por\u00e9m, o voto mais centrado no debate classista e na possibilidade de rupturas foi subjugado na luta de classes, como podemos perceber e caracterizar o processo eleitoral.<\/p>\n<p>Algumas batalhas ampliaram as balizas da luta pol\u00edtica no Brasil, s\u00e3o alguns fatores que podem contribuir para que a esquerda socialista possa avan\u00e7ar na mudan\u00e7a da rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as. O voto cr\u00edtico que conseguiu apoios massivos no sentido de combater as opress\u00f5es basilares da sociabilidade capitalista; a chegada da candidatura de Boulos no segundo turno, em S\u00e3o Paulo, com uma inovadora forma de se disputar a narrativa da conjuntura, abriu trilhas importantes para a possiblidade de apresenta\u00e7\u00e3o de um projeto t\u00e1tico que consiga impactar o sentido da pol\u00edtica e qualificar a esquerda para enfrentar o governo federal, suas representa\u00e7\u00f5es locais e mobilizar milh\u00f5es de trabalhadores. Est\u00e1 na ordem do dia a disputa pelo desvelamento da cena pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Mas, para al\u00e9m das li\u00e7\u00f5es do segundo turno, a esquerda n\u00e3o conformada na l\u00f3gica da parceria conflitiva com o capital tem que encontrar a centralidade da luta e avan\u00e7ar no projeto de reorganiza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora e da afirma\u00e7\u00e3o do seu trabalho de base. A palavra de ordem que pode movimentar a classe trabalhadora e o povo pobre das periferias, ter\u00e1 que sair daquilo que for mais sentido no contexto das necessidades populares que giram em torno do combate ao desemprego e pelo trabalho, moradia, terra e firme combate classista as opress\u00f5es produzidas pela sociabilidade capitalista.<\/p>\n<p>Se esse quadro de crise social j\u00e1 n\u00e3o fosse o suficiente para alavancar acirradas batalhas na luta de classes, as fra\u00e7\u00f5es da burguesia querem finalizar a batalha em curso, onde est\u00e3o um passo \u00e0 frente, destruindo os servi\u00e7os p\u00fablicos em nosso pa\u00eds. O consenso do Impasse Brasil quer destruir o servi\u00e7o p\u00fablico e desmantelar o atendimento desses servi\u00e7os ao conjunto da popula\u00e7\u00e3o para operar uma nova carteira de neg\u00f3cios. Nessa l\u00f3gica ultra neoliberal saem o Estado e o atendimento prestado pelos servi\u00e7os p\u00fablicos e entra a opera\u00e7\u00e3o do mercado para vender servi\u00e7os como resposta para essas demandas, este \u00e9 o sentido central da reforma administrativa.<\/p>\n<p>O Estado autocr\u00e1tico brasileiro, remodelado pela transi\u00e7\u00e3o pelo alto ap\u00f3s 1985, reafirma sua perene exist\u00eancia e deliberadamente confronta-se com o conjunto dos interesses do proletariado e do povo pobre das mais diversas periferias. A rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7a n\u00e3o tem permitido ao conjunto da classe trabalhadora um enfrentamento que desvele a cena pol\u00edtica e permita a amplia\u00e7\u00e3o das lutas oper\u00e1rias, sindicais e populares. Talvez, embates circunstanciados no campo do enfrentamento \u00e0s opress\u00f5es tenham tido uma maior visibilidade p\u00fablica, mesmo que o recorte dessas situa\u00e7\u00f5es se apresente, ainda, no campo do roteiro liberal\/criminal. No entanto, trata-se de um campo importante de lutas.<\/p>\n<p>Na rela\u00e7\u00e3o com a geopol\u00edtica internacional, o Brasil do nosso processo eleitoral oficial, conformado no sentido do impasse constru\u00eddo, olha para os EUA e localiza apenas as contradi\u00e7\u00f5es das elei\u00e7\u00f5es estadunidenses, sem perceber a grave crise societ\u00e1ria, a complexa conjuntura econ\u00f4mica e o obscurantismo oficial diante da covid-19 que perpassam o governo de direita do presidente Trump.<\/p>\n<p>Esse Brasil, aderente ao modelo dos EUA, circunscrito \u00e0 dimens\u00e3o ideol\u00f3gica, ter\u00e1 que ser impactado pela movimenta\u00e7\u00e3o dos de baixo como ponto de muta\u00e7\u00e3o para a sua redefini\u00e7\u00e3o. No entanto, foi importante a derrota do Trump, mas, ser\u00e1 muito mais importante a movimenta\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora nos EUA na defesa dos seus direitos e na constru\u00e7\u00e3o do seu projeto de auto emancipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estamos numa cena pol\u00edtica de grande tens\u00e3o, ampliada pelo robusto avan\u00e7o da covid 19 e pela deliberada incapacidade do agitador fascista, Jair Bolsonaro, de liderar uma resposta a essa situa\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria. O quadro de tens\u00e3o que temos amplia-se com a elei\u00e7\u00e3o para a dire\u00e7\u00e3o das casas legislativas da rep\u00fablica, marcada pela grave concilia\u00e7\u00e3o de setores da socialdemocracia que n\u00e3o conseguiram avan\u00e7ar na autocr\u00edtica do golpe de 2016. Al\u00e9m desses movimentos do jogo pol\u00edtico, o tecido social avan\u00e7a para um forte esgar\u00e7amento diante da fome, dos impactos produzidos pela lei do teto de gastos, pelo aumento do desemprego (mais de 14% na informa\u00e7\u00e3o oficial e em torno de 22% por outros indicadores), carestia e infla\u00e7\u00e3o dos alimentos, fim do aux\u00edlio emergencial, mis\u00e9ria e caos social. Portanto, diante desse quadro, \u00e9 urgente uma nova recomposi\u00e7\u00e3o do campo prolet\u00e1rio e popular para desenvolver o enfrentamento na luta de classes.<\/p>\n<p>A esquerda social-democrata e o pragmatismo nacional-libertador perderam espa\u00e7o de representa\u00e7\u00e3o institucional (n\u00famero de prefeituras e vereadores), contudo, abre-se um cen\u00e1rio onde \u00e9 imperativo a unidade de for\u00e7as para a constru\u00e7\u00e3o da frente \u00fanica das organiza\u00e7\u00f5es populares, prolet\u00e1rias e dos partidos de esquerda para lutar por bandeiras que respondam \u00e0s necessidades urgentes da classe trabalhadora e que lute pela continuidade do aux\u00edlio emergencial, revisto e ampliado, que combata a postura oficial diante da pandemia, que exija a vacina\u00e7\u00e3o em massa, que lute contra o desemprego, contra a fome e a mis\u00e9ria social, pelo fim da lei do teto de gastos, pela taxa\u00e7\u00e3o das grandes fortunas e pelas liberdades democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Esse instrumento de frente \u00fanica pode avan\u00e7ar, em outro patamar, para a efetiva\u00e7\u00e3o de um bloco popular e prolet\u00e1rio que tenha a tarefa de construir a greve geral de massas como for\u00e7a antag\u00f4nica ao bloco burgu\u00eas e que funcione como operador pol\u00edtico coletivo, organizador das nossas bandeiras t\u00e1ticas, que no acirramento da luta de classes possa abrir trilhas para a perspectiva do projeto estrat\u00e9gico da revolu\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>O impasse Brasil s\u00f3 ser\u00e1 derrotado pela movimenta\u00e7\u00e3o da frente \u00fanica prolet\u00e1ria e popular\u2026<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Milton Pinheiro \u00e9 Cientista Pol\u00edtico e professor titular de hist\u00f3ria pol\u00edtica da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Pesquisador na USP, editor-geral da revista Novos Temas e autor\/organizador de oito livros, entres eles, Ditadura: o que resta da transi\u00e7\u00e3o (Boitempo, S\u00e3o Paulo, 2014). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente. \u00c9 membro do Comit\u00ea Central do PCB.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26729\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[7],"tags":[219],"class_list":["post-26729","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-manchete"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6X7","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26729","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26729"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26729\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26729"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26729"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26729"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}