{"id":26748,"date":"2021-01-18T21:30:18","date_gmt":"2021-01-19T00:30:18","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26748"},"modified":"2021-01-18T21:30:18","modified_gmt":"2021-01-19T00:30:18","slug":"a-teoria-da-dependencia-50-anos-depois","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26748","title":{"rendered":"A teoria da depend\u00eancia 50 anos depois"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/secureservercdn.net\/198.71.233.138\/dpp.cce.myftpupload.com\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/ater-1801-678x381.png\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->El Lissitzky, Merz-Matin\u00e9en, 1923<\/p>\n<p>Por LU\u00cdS EDUARDO FERNANDES*<\/p>\n<p>https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-teoria-da-dependencia-50-anos-depois\/<\/p>\n<p>Coment\u00e1rio sobre o livro rec\u00e9m-editado de Cl\u00e1udio Katz<\/p>\n<p>Cl\u00e1udio Katz \u00e9 um prestigiado economista marxista argentino. Possui uma vasta obra, com livros e artigos publicados em diversos idiomas. El porvernir del socialismo (2004), Las disyuntivas de La izquierda en Am\u00e9rica Latina (2008), Bajo El Imperio del Capital (2011) e Neoliberalismo, neodesenvolvimentismo, socialismo (Express\u00e3o Popular, 2016), s\u00e3o alguns bons exemplos de sua produ\u00e7\u00e3o sempre identificada com os ide\u00e1rios da \u201cP\u00e1tria Grande\u201d e a perspectiva socialista.<\/p>\n<p>Livro vencedor do pr\u00eamio Libertador de Pensamento Cr\u00edtico, A teoria da depend\u00eancia: 50 anos depois re\u00fane uma s\u00e9rie de artigos e ensaios a fim de apresentar uma interpreta\u00e7\u00e3o original da depend\u00eancia no bojo da tradi\u00e7\u00e3o marxista. No Brasil, em especial em alguns c\u00edrculos acad\u00eamicos e pol\u00edticos, a teoria marxista da depend\u00eancia (TMD) e a divulga\u00e7\u00e3o da obra de Ruy Mauro Marini, V\u00e2nia Bambirra e Theot\u00f4nio dos Santos, com justeza, v\u00eam adquirindo mais audi\u00eancia e adeptos na \u00faltima d\u00e9cada. Para al\u00e9m de realizar um mero balan\u00e7o epistemol\u00f3gico do tema, o economista argentino consegue produzir uma interpreta\u00e7\u00e3o original da depend\u00eancia a fim de atualiz\u00e1-la diante dos novos desafios contempor\u00e2neos impostos pelo capitalismo e pelo imperialismo.<\/p>\n<p>O livro possui uma estrutura sugestiva, provocante e bem elaborada. Apesar de ser acess\u00edvel, deve ser lido com calma e aten\u00e7\u00e3o, pois em cada cap\u00edtulo Katz enfrenta alguma importante pol\u00eamica pret\u00e9rita ou presente. Ao enfrentar as pol\u00eamicas, sem tergiversar, o autor produz um caminho pr\u00f3prio para as suas investiga\u00e7\u00f5es e interpreta\u00e7\u00f5es dos fen\u00f4menos. Sem d\u00favida, ser\u00e1 muito dif\u00edcil para o leitor atento n\u00e3o questionar parte das cr\u00edticas ou conclus\u00f5es de Katz. No entanto, seu m\u00e9rito reside justamente nessa caracter\u00edstica rebelde e questionadora, sem abrir m\u00e3o do rigor te\u00f3rico e da consequ\u00eancia pol\u00edtica na luta de classes.<\/p>\n<p>A primeira parte do livro \u00e9 destinada ao debate sobre a rela\u00e7\u00e3o centro-periferia na tradi\u00e7\u00e3o marxista anterior \u00e0 teoria marxista da depend\u00eancia. A come\u00e7ar pelo pensamento marxiano, Katz segue a interpreta\u00e7\u00e3o de Kevin Anderson e Nestor Kohan com rela\u00e7\u00e3o ao amadurecimento do revolucion\u00e1rio alem\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 periferia capitalista e a supera\u00e7\u00e3o de vis\u00f5es equivocadas e euroc\u00eantricas que Marx tinha no passado.<\/p>\n<p>Embora a den\u00fancia do colonialismo e uma concep\u00e7\u00e3o multilinear da hist\u00f3ria esteja presente desde a juventude de Marx, este supunha que a periferia repetiria a industrializa\u00e7\u00e3o do centro, assim como o capitalismo se expandiria em escala mundial, criando um sistema interdependente que facilitaria a transi\u00e7\u00e3o acelerada ao socialismo. Ele acreditava que a expropria\u00e7\u00e3o dos artes\u00e3os e dos camponeses levaria a uma expropria\u00e7\u00e3o posterior dos seus exploradores. A China era retratada como uma sociedade b\u00e1rbara, a \u00cdndia descrita como um pa\u00eds estagnado pela predomin\u00e2ncia de comunidades rurais, a Am\u00e9rica Latina quase n\u00e3o despertava maiores interesses dos fundadores do marxismo.<\/p>\n<p>Foi a \u201cdescoberta\u201d da lei do valor, o car\u00e1ter desigual do desenvolvimento capitalista (a quest\u00e3o da classicidade) e o estudo mais sintom\u00e1tico de pa\u00edses perif\u00e9ricos e coloniais como a pr\u00f3pria \u00cdndia, Irlanda, R\u00fassia, M\u00e9xico e outros que possibilitou uma perspectiva mais apurada de Marx com rela\u00e7\u00e3o ao desenvolvimento capitalista na periferia. Katz, citando Nestor Kohan, afirma que a revis\u00e3o sobre a quest\u00e3o nacional-colonial por parte de Marx precipitou uma virada para a constru\u00e7\u00e3o de uma perspectiva multilinear que ressaltava o papel transformador dos sujeitos na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Segundo Katz, a retomada de Marx \u00e9 importante porque seu pensamento lan\u00e7ou as bases para explicar como o capitalismo gera o subdesenvolvimento. Apesar de n\u00e3o ter formulado uma teoria do colonialismo nem exposto uma tese da rela\u00e7\u00e3o centro-periferia, as observa\u00e7\u00f5es de Marx sobre o impacto positivo das lutas nacionais na consci\u00eancia dos oper\u00e1rios do centro forneceram bases para o anti-imperialismo contempor\u00e2neo. Apesar de Katz enfatizar essa virada metodol\u00f3gica e o amadurecimento pol\u00edtico de Marx, vale tamb\u00e9m destacar a import\u00e2ncia do desenvolvimento de sua cr\u00edtica da economia pol\u00edtica: isto \u00e9, a descoberta da lei do valor e a an\u00e1lise da concorr\u00eancia intercapitalista como elementos dorsais para identificarmos a tend\u00eancia ao desenvolvimento desigual do capitalismo.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente essas quest\u00f5es vinculadas ao campo da cr\u00edtica da economia pol\u00edtica que o autor argentino melhor enfatiza ao analisar as contribui\u00e7\u00f5es de outros tr\u00eas cl\u00e1ssicos do marxismo: L\u00eanin, Rosa Luxemburgo e Trotsky. Katz incorpora elementos e categorias sobre o imperialismo e a depend\u00eancia advindos desses tr\u00eas te\u00f3ricos revolucion\u00e1rios. De L\u00eanin, o economista argentino reivindica a no\u00e7\u00e3o de desenvolvimento desigual e a riqueza de suas an\u00e1lises sobre as vias n\u00e3o cl\u00e1ssicas de desenvolvimento do capitalismo. A obstru\u00e7\u00e3o \u00e0 industrializa\u00e7\u00e3o da periferia, para o autor russo, seria uma asfixia econ\u00f4mica por fatores end\u00f3genos e ex\u00f3genos das forma\u00e7\u00f5es sociais perif\u00e9ricas. Sobre a quest\u00e3o do imperialismo leninista, Katz pondera uma leitura n\u00e3o dogm\u00e1tica, em especial sobre o apontamento de \u201c\u00faltima etapa capitalista\u201d. J\u00e1 de Rosa Luxemburgo, o autor argentino enfatiza o pioneirismo da te\u00f3rica polonesa em interpretar a rela\u00e7\u00e3o centro-periferia como uma necessidade do capitalismo mundial em expans\u00e3o.<\/p>\n<p>Para Katz, o germe da proposi\u00e7\u00e3o de \u201cdesenvolvimento do subdesenvolvimento\u201d estaria nos estudos de Luxemburgo sobre a acumula\u00e7\u00e3o capitalista e o moderno imperialismo. A dificuldade de realiza\u00e7\u00e3o dos capitais somente atrav\u00e9s dos mercados internos dos pa\u00edses imperialistas impunha a necessidade de se extrair lucros das col\u00f4nias e semicol\u00f4nias, atrav\u00e9s do controle de tais mercados, da pilhagem colonial ou de maiores taxas de explora\u00e7\u00e3o do trabalho nessas regi\u00f5es. Apesar de n\u00e3o concordar com o diagn\u00f3stico subconsumista de Luxemburgo, Katz valoriza suas contribui\u00e7\u00f5es, em especial a no\u00e7\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o por espolia\u00e7\u00e3o ou despossess\u00e3o t\u00e3o reivindicada por diversos economistas e ge\u00f3grafos contempor\u00e2neos, como David Harvey.<\/p>\n<p>J\u00e1 de Trotski, o economista argentino incorpora a no\u00e7\u00e3o de desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo. Segundo o autor, Tr\u00f3tski n\u00e3o s\u00f3 registrou as assimetrias, mas tamb\u00e9m as misturas de formas avan\u00e7adas e atrasadas nas forma\u00e7\u00f5es incorporadas ao mercado mundial. Ou seja, ao acrescer o princ\u00edpio da combina\u00e7\u00e3o ao desenvolvimento desigual, Tr\u00f3tski ilustrou bem a diversidade de ritmos de desenvolvimento e a mistura entre o arcaico e moderno.<\/p>\n<p>Num raro esfor\u00e7o contempor\u00e2neo, Katz tamb\u00e9m revisita os debates socioecon\u00f4micos sobre o capitalismo e imperialismo no p\u00f3s-Segunda Guerra. Nesse sentido, o economista argentino tentou fazer uma s\u00edntese dial\u00f3gica entre tr\u00eas grandes \u201cescolas\u201d de interpreta\u00e7\u00e3o do fen\u00f4meno do imperialismo contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>A primeira seria a do grupo da Monthly Review; liderado por Paul Baran, Paul Sweezy e Harry Magdoff, a tradicional revista marxista estadunidense tem o capitalismo monopolista e o imperialismo contempor\u00e2neo como uns dos principais objetos de estudo. Desdobrando o argumento de L\u00eanin de que o capitalismo monopolista desenvolvera uma nova tend\u00eancia, a da estagna\u00e7\u00e3o, a \u201cEscola da Monthly Review\u201d localiza o imperialismo como uma esp\u00e9cie de contratend\u00eancia \u00e0 estagna\u00e7\u00e3o ao lado dos gastos improdutivos, consumo de luxo, militares, etc. Baran e Sweezy enfatizam a teoria do \u201cdreno imperialista\u201d, ou seja, como grande parte do excedente econ\u00f4mico das periferias \u00e9 transferido para os pa\u00edses imperialistas. Magdoff materializa esse argumento atrav\u00e9s dos seus estudos emp\u00edricos sobre a pol\u00edtica externa norte-americana e os seus novos mecanismos de extra\u00e7\u00e3o de excedentes.<\/p>\n<p>A segunda escola revisitada por Katz \u00e9 vinculada ao pensador eg\u00edpcio Samir Amin. Amin, infelizmente, \u00e9 pouco conhecido e difundido no Brasil, mas possui uma expressiva e extensa obra econ\u00f4mica, pol\u00edtica e filos\u00f3fica. Foi um dos mais not\u00e1veis marxistas terceiro-mundistas, atento analista das transforma\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, sociais e geopol\u00edticas do capitalismo e imperialismo. Nesse sentido, Katz reivindica, em especial, dois argumentos-s\u00edntese de Amin. O primeiro \u00e9 de que, principalmente ap\u00f3s a d\u00e9cada de 1970, o sistema imperialista teria adaptado as rivalidades econ\u00f4micas a uma gest\u00e3o pol\u00edtico-militar compartilhada pelas grandes pot\u00eancias: o imperialismo coletivo.<\/p>\n<p>Com essa tese, \u00e0 \u00e9poca, Amin se diferenciava \u00e0 tese das sucess\u00f5es hegem\u00f4nicas que postulavam a necess\u00e1ria substitui\u00e7\u00e3o da supremacia estadunidense por outra pot\u00eancia dominante. O outro argumento central de Amin, destacado por Katz, \u00e9 a atualiza\u00e7\u00e3o da lei do valor de Marx, isto \u00e9, a sua \u201cmundializa\u00e7\u00e3o\u201d. O famigerado processo de \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o produtiva e financeira\u201d rompeu com os limites nacionais da lei do valor. A base econ\u00f4mica do imperialismo contempor\u00e2neo, para Amin, seria a vig\u00eancia de diferentes taxas no grau de explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho e a expropria\u00e7\u00e3o de riquezas naturais e sociais da periferia.<\/p>\n<p>O \u00faltimo autor revistado foi o economista franco-belga Ernest Mandel. Para Katz, a interpreta\u00e7\u00e3o mandeliana sobre o \u201ccapitalismo tardio\u201d tamb\u00e9m trouxe importantes contribui\u00e7\u00f5es para a reflex\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o centro-periferia. Ao contr\u00e1rio de Baran e Sweezy onde a teoria do dreno enfatiza mais os elementos ex\u00f3genos da domina\u00e7\u00e3o imperialista, em Mandel o desenvolvimento desigual e combinado se atualizou. Para o economista franco-belga, o p\u00f3s-Guerra foi marcado por um per\u00edodo contradit\u00f3rio de obstru\u00e7\u00e3o do desenvolvimento na periferia. Se, por um lado, um grupo de pa\u00edses perif\u00e9ricos perpetuou a primariza\u00e7\u00e3o agromineira para atender \u00e0 nova demanda de insumo, por outro, alguns pa\u00edses perif\u00e9ricos alcan\u00e7aram algum desenvolvimento industrial com o processo de substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Sendo assim, ampliar-se-ia a transfer\u00eancia de mais valia e lucros para os pa\u00edses imperialistas atrav\u00e9s de diversos mecanismos end\u00f3genos e ex\u00f3genos \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o capitalista nos pa\u00edses dependentes ou perif\u00e9ricos. Para Mandel, para al\u00e9m da deteriora\u00e7\u00e3o dos termos de troca, a depend\u00eancia se expressa tamb\u00e9m nos diferentes graus de explora\u00e7\u00e3o e produtividade do trabalho, inclusive, em regi\u00f5es perif\u00e9ricas no interior dos pa\u00edses imperialistas, algo que Mandel chamou de \u201ccol\u00f4nias internas\u201d.<\/p>\n<p>A segunda parte do livro \u00e9 destinada a apresentar, em linhas gerais, as formula\u00e7\u00f5es da teoria marxista da depend\u00eancia, seus cr\u00edticos, diferen\u00e7as e proximidades com a teoria do sistema-mundo de Immanuel Wallerstein e um breve balan\u00e7o cr\u00edtico da obra do alem\u00e3o Andr\u00e9 Gunder Frank. Katz d\u00e1 um destaque especial \u00e0s proposi\u00e7\u00f5es de Ruy Mauro Marini com rela\u00e7\u00e3o a uma legalidade espec\u00edfica do capitalismo dependente latino-americano.<\/p>\n<p>Marini conceitua o capitalismo dependente a partir de suas observa\u00e7\u00f5es sobre o ciclo de financiamento, produ\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o dessas economias em compara\u00e7\u00e3o com os pa\u00edses centrais e o menor investimento privado nas ex col\u00f4nias. Constatou tamb\u00e9m que o capital estrangeiro drenava recursos por meio de royalties, excedentes ou compra de maquinaria. No entanto, o cerne para compreender a extra\u00e7\u00e3o dos lucros extraordin\u00e1rios dos grandes monop\u00f3lios estaria na superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho, em especial por conta da popula\u00e7\u00e3o excedente de trabalhadores em diversas regi\u00f5es latino americanas.<\/p>\n<p>De certa forma, Marini prop\u00f5e desdobramentos da lei do valor de Marx a partir das especificidades latino-americanas. Superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho e subimperialismo, devido \u00e0s atrofias do mercado interno e o \u201cdesenvolvimento do capitalismo dependente\u201d, fazem parte de um arsenal de categorias desenvolvido n\u00e3o s\u00f3 por Marini, mas tamb\u00e9m por Vania Bambirra, Theot\u00f4nio dos Santos e outros intelectuais. No entanto, talvez o ponto alto dessa segunda parte seja a tentativa de s\u00edntese e aproxima\u00e7\u00e3o entre dois autores marxistas latino-americanos divergentes: Agust\u00edn Cueva e Marini.<\/p>\n<p>Cueva, entre os anos 1960 e 1980, foi um dos grandes cr\u00edticos da teoria marxista da depend\u00eancia, em especial sua vers\u00e3o preliminar cristalizada em Andr\u00e9 Gunder Frank. Para Cueva, numa leitura mais pr\u00f3xima \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o dos partidos comunistas, embora existissem particularidades hist\u00f3ricas no capitalismo latino-americano, n\u00e3o existiria uma legalidade pr\u00f3pria desse capitalismo. O equatoriano contestou te\u00f3rica e empiricamente as no\u00e7\u00f5es de superexplora\u00e7\u00e3o, como pauperismo absoluto dos trabalhadores, e subimperialismo a partir de an\u00e1lises emp\u00edricas da economia argentina e brasileira, por exemplo. Suas proposi\u00e7\u00f5es ficaram conhecidas como marxismo endogenista.<\/p>\n<p>Contudo, em especial, na fase de redemocratiza\u00e7\u00e3o dos sistemas pol\u00edticos latino-americanos, crise da d\u00edvida externa e ascens\u00e3o neoliberal, Katz destaca uma maior proximidade nas posi\u00e7\u00f5es entre Marini e Agust\u00edn Cueva. Apesar de manterem diferen\u00e7as importantes, para Katz, o encontro entre Marini e Cueva fornece importantes s\u00ednteses para desvendarmos a depend\u00eancia latinoamericana, sem d\u00favida um caminho n\u00e3o sect\u00e1rio e dial\u00f3gico fundamental para o marxismo latinoamericano neste s\u00e9culo: \u201cNo plano econ\u00f4mico, a regi\u00e3o \u00e9 subdesenvolvida em compara\u00e7\u00e3o com os pa\u00edses avan\u00e7ados. Na divis\u00e3o internacional do trabalho, a Am\u00e9rica Latina ocupa um lugar perif\u00e9rico, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 inser\u00e7\u00e3o privilegiada das pot\u00eancias centrais. No aspecto pol\u00edtico, sofre depend\u00eancia, ou seja, margens estreitas de autonomia e contrapostas ao papel dominante exercido pelo imp\u00e9rio\u201d. [KATZ, 2020, p. 137]<\/p>\n<p>A terceira e \u00faltima parte do livro re\u00fane artigos de Katz sobre a sua proposi\u00e7\u00e3o de atualiza\u00e7\u00e3o da depend\u00eancia no s\u00e9culo XXI \u2013 por isso, tamb\u00e9m, \u00e9 a parte mais pol\u00eamica e instigante de sua obra. Esses artigos animaram o debate marxista dentro e fora da Am\u00e9rica Latina. Sumariamente, Katz concorda que a problem\u00e1tica das \u201cduas crises\u201d da periferia industrializada investigadas por Marini intensificar-se-ia nesse s\u00e9culo, isto \u00e9, por um lado haveria uma sangria de divisas provocada pelo pagamento de juros, patentes e royalties aos grandes monop\u00f3lios internacionais e, por outro, haveria uma crise de realiza\u00e7\u00e3o devido \u00e0 atrofia dos mercados internos. Outro legado oriundo dos fundadores da TMD que Katz reivindica \u00e9 a atualidade das transfer\u00eancias de valor e mais-valor por meio das cadeias globais produtivas lideradas por grandes corpora\u00e7\u00f5es sediadas em pa\u00edses imperialistas.<\/p>\n<p>No entanto, o economista argentino questiona a validade da categoria de superexplora\u00e7\u00e3o como base socioecon\u00f4mica da depend\u00eancia e do imperialismo contempor\u00e2neo. Para ele a internacionaliza\u00e7\u00e3o da lei do valor devido ao processo de \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d notabilizou-se por uma hierarquiza\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os do valor da for\u00e7a de trabalho a partir de elementos hist\u00f3ricos, como a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as na luta de classes, e estruturais, como a inser\u00e7\u00e3o de cada pa\u00eds nas cadeias de valor globais. Segundo Katz, a depend\u00eancia n\u00e3o se baseia na viola\u00e7\u00e3o, mas no cumprimento da lei do valor. Esse crit\u00e9rio seria decisivo na caracteriza\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho e, tamb\u00e9m, forneceria um guia para resolver velhos enigmas da teoria marxista, como a transforma\u00e7\u00e3o de valores em pre\u00e7os (KATZ, 2020, p. 280).<\/p>\n<p>Sobre o \u201csubimperialismo\u201d, Katz afirma que as bases econ\u00f4micas desse fen\u00f4meno descritas por Marini, em especial as restri\u00e7\u00f5es de mercado interno, n\u00e3o se sustentam. Al\u00e9m disso, entre os \u201cpa\u00edses intermedi\u00e1rios\u201d tamb\u00e9m h\u00e1 importantes diferen\u00e7as: o ponto central para o intelectual argentino seria o papel de cada pa\u00eds nas cadeias globais de valor e o respectivo poder militar. Al\u00e9m disso, o autor tamb\u00e9m aponta importantes diferen\u00e7as no ciclo da depend\u00eancia contempor\u00e2nea e o redesenho da divis\u00e3o internacional do trabalho ap\u00f3s a emerg\u00eancia do neoliberalismo.<\/p>\n<p>O predom\u00ednio extrativista na Am\u00e9rica Latina, a desindustrializa\u00e7\u00e3o de pa\u00edses como Brasil e Argentina, o crescimento industrial asi\u00e1tico e os novos mecanismos de domin\u00e2ncia financeira e tecnol\u00f3gica dos pa\u00edses imperialistas, em especial os EUA, s\u00e3o algumas transforma\u00e7\u00f5es apontadas. Para ele, a teoria marxista da depend\u00eancia cl\u00e1ssica n\u00e3o daria conta de interpretar, por si s\u00f3, esses novos fen\u00f4menos, embora o autor n\u00e3o ofere\u00e7a grandes alternativas, por exemplo, numa interpreta\u00e7\u00e3o ainda vaga sobre o desenvolvimento chin\u00eas. O economista argentino chega a reivindicar a contemporaneidade de uma renda imperialista, isto \u00e9, a apropria\u00e7\u00e3o de riquezas naturais e sociais por parte de grandes empresas imperialistas protegidas por seus Estados.<\/p>\n<p>Por fim, diante das proposi\u00e7\u00f5es de Katz, cabe salientar o debate de alto n\u00edvel entre marxistas. Refer\u00eancias da teoria marxista da depend\u00eancia como Jamie Os\u00f3rio (2018), Adri\u00e1n Sotelo Valencia (2018) e Carlos Eduardo Martins (2018) produziram interessantes respostas defendendo a atualidade da categoria de superexplora\u00e7\u00e3o para definir a particularidade da depend\u00eancia latinoamericana. Os\u00f3rio e Valencia, em especial, sugerem que a superexplora\u00e7\u00e3o seria uma terceira forma de explora\u00e7\u00e3o dentro da teoria do valor expandida no mercado mundial. Martins analisa as transforma\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas do capitalismo e uma poss\u00edvel renova\u00e7\u00e3o da TMD sem abrir m\u00e3o das principais categorias dos seus fundadores.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 um debate que, inclusive, tem transcendido as fronteiras latino-americanas. Pesquisadores ingleses do imperialismo contempor\u00e2neo, como John Smith (2015) e Andy Higginbottom (2009), a partir de investiga\u00e7\u00f5es das cadeias de valor globais, sustentam que a superexplora\u00e7\u00e3o \u00e9 a base econ\u00f4mico-social do imperialismo no s\u00e9culo XXI. Inclusive, caminham para uma defini\u00e7\u00e3o dessa categoria tendo como ponto de partida o c\u00e1lculo das diferentes taxas de explora\u00e7\u00e3o nas cadeias produtivas. O Instituto Tricontinental, recentemente, apresentou um estudo interessante com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s taxas de explora\u00e7\u00e3o nos pa\u00edses perif\u00e9ricos a partir da cadeia de produ\u00e7\u00e3o do iPhone. Portanto, mais que uma defini\u00e7\u00e3o vinculada ao pauperismo, a superexplora\u00e7\u00e3o, no capitalismo contempor\u00e2neo, seria algo mais \u201crelativo\u201d diante das diferentes condi\u00e7\u00f5es sociais, econ\u00f4micas e culturais das classes trabalhadoras.<\/p>\n<p>Nesse sentido, sem d\u00favida, a obra de Cl\u00e1udio Katz merece ser lida por todos os intelectuais e militantes comprometidos com transforma\u00e7\u00f5es estruturais nas sociedades. O esfor\u00e7o de atualiza\u00e7\u00e3o das teorias da depend\u00eancia e do imperialismo tamb\u00e9m \u00e9 um esfor\u00e7o de revigorar o pensamento marxista como a teoria revolucion\u00e1ria para o s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>*Lu\u00eds Eduardo Fernandes \u00e9 professor de Hist\u00f3ria, doutorando no programa de p\u00f3s gradua\u00e7\u00e3o em Servi\u00e7o Social da UFRJ e membro do comit\u00ea central do PCB.<\/p>\n<p>Refer\u00eancia<\/p>\n<p>Cl\u00e1udio Katz. A Teoria da Depend\u00eancia: 50 anos depois. Tradu\u00e7\u00e3o: Maria Almeida. S\u00e3o Paulo, Express\u00e3o Popular, 2020.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26748\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[50],"tags":[233],"class_list":["post-26748","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6Xq","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26748","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26748"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26748\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26748"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26748"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26748"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}