{"id":26768,"date":"2021-01-24T21:21:54","date_gmt":"2021-01-25T00:21:54","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26768"},"modified":"2021-01-24T21:21:54","modified_gmt":"2021-01-25T00:21:54","slug":"o-liberalismo-choca-o-ovo-da-serpente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26768","title":{"rendered":"O liberalismo choca o ovo da serpente"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.abrilabril.pt\/sites\/default\/files\/styles\/node_aberto_vp768\/public\/assets\/img\/13345.jpg?itok=DLYTcWd8\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->\u00abMeeting\u00bb (2004), gravura de Bartolomeu Cid dos Santos<\/p>\n<p>Manuel Augusto Ara\u00fajo<\/p>\n<p>ABRIL ABRIL &#8211; Portugal<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos dec\u00eanios a extrema-direita real, a de um neofascismo que tenta mascarar o fascismo cl\u00e1ssico que est\u00e1 nos seus alicerces, vem aumentando a sua implanta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica tanto nos EUA como na Europa, o que se acelerou com as pol\u00edticas Thatcher e Reagan, em linha com os Chicago Boys de m\u00e1 mem\u00f3ria no Chile de Pinochet que, com pertinazes falsifica\u00e7\u00f5es, at\u00e9 \u00e9 elogiado pelos pr\u00f3ceres da Iniciativa Liberal. A engrenagem mais useira e vezeira dessa direita mais extrema e seus pares pr\u00f3ximos \u00e9 aproveitarem-se do descontentamento provocado pelas derivas do neoliberalismo mais radical e pelas indecisas e oportunistas pol\u00edticas econ\u00f4micas dos partidos socialistas mais \u00e0 esquerda, como as do Partido Socialista Franc\u00eas com Miterrand, ou dos que se alinharam claramente com o neoliberalismo, de que o exemplo mais acabado \u00e9 o trabalhismo thatcherista de Blair. Pol\u00edticas que abriram as portas para o capitalismo selvagem, em que as desigualdades aumentaram com a brutal explora\u00e7\u00e3o do trabalho, o emprego prec\u00e1rio, o desemprego de longa dura\u00e7\u00e3o, a especula\u00e7\u00e3o bolsista e imobili\u00e1ria, a concentra\u00e7\u00e3o da riqueza numa elite cosmopolita de algumas centenas de indiv\u00edduos que se aproveitam as crises para um vertiginoso crescimento das suas fortunas, como se tem assistido com a crise provocada pela pandemia, um catalisador dos lances das anteriores crises. N\u00e3o perdem tempo, j\u00e1 est\u00e3o preparando novos assaltos.<\/p>\n<p>A extrema-direita, muitas vezes acobertada pelas vestes neoliberais herdeiras dos primitivos liberais, tem capitalizado as insatisfa\u00e7\u00f5es, as ang\u00fastias provocadas por essas pol\u00edticas, mentindo com grande descaramento para travestirem os seus intentos, como se tem assistido por todo o mundo e por c\u00e1, com um partido assumidamente fascista e com uns autoproclamados liberais que s\u00f3 aparentemente s\u00e3o concorrentes, que tem aumentado a implanta\u00e7\u00e3o social e o peso pol\u00edtico, mascarando os seus des\u00edgnios com o populismo mais desbragado, mentindo descaradamente, sabendo at\u00e9 bem demais que imposturas repetidas com contum\u00e1cia podem ser ou acabam por ser assumidas como verdades, por mais que sejam denunciadas. Sabem de ci\u00eancia certa que uma mentira, por mais inaudita que seja, por mais que seja comprovada a sua falsidade, deixa um lastro inapag\u00e1vel. \u00c9 a li\u00e7\u00e3o de Goebbels que aprenderam e usam per fas et nefas.<\/p>\n<p>Tal como aprenderam com Hitler que, apoiado pelo grande capital dos dois lados do Atl\u00e2ntico, explorou a incapacidade da esquerda se unir em momentos cruciais e o descr\u00e9dito das pol\u00edticas dos sociais-democratas da Rep\u00fablica de Weimar, as altas taxas de desemprego e a infla\u00e7\u00e3o galopante. Com ret\u00f3ricas populistas chega ao poder para assim que o alcan\u00e7ou privatizar todas as empresas estrat\u00e9gicas, sider\u00fargicas, minas, bancos, estaleiros, transportes mar\u00edtimos, ferrovias, servi\u00e7os p\u00fablicos. Um filme pronto a ser vertido em v\u00e1rias vers\u00f5es pelos mais diversos realizadores e com os mais variados actores, mas sempre com o mesmo gui\u00e3o: o da barb\u00e1rie capitalista de uma sociedade fundada na viol\u00eancia de classe.<\/p>\n<p>Ao que hoje se assiste \u00e9 ao ressuscitar do velho caceteirismo dos arruaceiros e \u00e0 nova e velha hipocrisia dos sicofantas, com cenas grotescas, somando falsidades, encenando provoca\u00e7\u00f5es, numa deriva perigosa, com o uso de uma linguagem subcultural que caracteriza o discurso de direita que se aproveita de um generalizado provincianismo adubado pelo esclerosamento mental veiculado pelas grosseiras mentiras que se alastram pelo \u00e9ter como um v\u00edrus para o qual n\u00e3o h\u00e1 vacinas, aproveitado de forma oportunista e h\u00e1bil para no fim da linha imporem a sua visceral antidemocraticidade.<\/p>\n<p>\u00ab\u00c9 uma evid\u00eancia que o neofascismo por ora executa linchamentos morais por ainda n\u00e3o ter possibilidade de fazer outros. O ovo da serpente est\u00e1 quebrando a casca, em alguns lugares at\u00e9 j\u00e1 a quebrou. Tem que ser combatido antes que as cascav\u00e9is que, por enquanto, sobretudo chocalham, comecem a espalhar muito mais veneno\u00bb<\/p>\n<p>Por c\u00e1 a contum\u00e1cia das aldrabices, das mentiras, dos insultos, das amea\u00e7as do trapaceiro Ventura encontram albergue nos meios de comunica\u00e7\u00e3o que os repercutem como se fossem declara\u00e7\u00f5es de algu\u00e9m com alguma fiabilidade pol\u00edtica. N\u00e3o s\u00f3 nos \u00f3rg\u00e3os de comunica\u00e7\u00e3o social que o promovem, agora mais assanhados com a viuvez a que Trump os relegou, nos que encobrem o seu fervor neoliberal em independ\u00eancia informativa, mas tamb\u00e9m naqueles que deveriam ser de servi\u00e7o p\u00fablico e que s\u00e3o diretamente dependentes do governo, que se remete a um sil\u00eancio conden\u00e1vel. Se uns abrem os arm\u00e1rios para reciclar os esqueletos do fascismo-salazarista onde os tinham guardado depois do 25 de Abril, outros obscurantistas arregimentam-se com essa tropa de arruaceiros fandangos para recuperar fal\u00e1cias, das mais antigas \u00e0s mais moderna\u00e7as, em que se amalgamam dos paneg\u00edricos fascistas e p\u00f3s-fascistas mais elaborados aos mais rid\u00edculos, todos n\u00e3o inocentes, para estercar um culto de direita e extrema-direita que se beneficia do clima instalado na m\u00eddia pelos plutocratas seus detentores, com os seus fi\u00e9is servidores, diretores, editores, comentadores, na sua esmagadora maioria de direita e centro-direita, para que as den\u00fancias a esse estado de sitio sejam d\u00e9beis. O que est\u00e1 em curso \u00e9 a direita e a extrema-direita, com o benepl\u00e1cito da centro-direita, a ocuparem lugar no espa\u00e7o democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>\u00c9 uma evid\u00eancia que o neofascismo por ora executa linchamentos morais por ainda n\u00e3o ter possibilidade de fazer outros. O ovo da serpente est\u00e1 quebrando a casca, em alguns lugares at\u00e9 j\u00e1 a quebrou. Tem que ser combatido antes que as cascav\u00e9is que, por enquanto, sobretudo chocalham, comecem a espalhar muito mais veneno.<\/p>\n<p>Chocalhos e veneno das cascav\u00e9is que procuram desacreditar a pol\u00edtica, a classe pol\u00edtica e a sociedade aos olhos do homem comum normalizado por uma cultura conformista e por um jornalismo, com destaque para o televisivo, que balan\u00e7a entre o conservadorismo e a imbecilidade. O ciberespa\u00e7o, as not\u00edcias falsas, a multiplica\u00e7\u00e3o de falsos perfis deu-lhes um novo impulso bem vis\u00edvel nos trumps, trumpinhos e trump\u00f5es que por a\u00ed se reproduzem como cogumelos. A bula \u00e9 a mesma e n\u00e3o hesita em usar todos os truques que decalcam e copiam com detalhe o que \u00e9 nuclear a que agregam variantes regionais. Aqui com Ventura, na Fran\u00e7a com Le Pen, na It\u00e1lia com Salvini, no Brasil com Bolsonaro, nos EUA com Trump, por esse mundo adentro com outros monstros que v\u00e3o, com maior ou menor \u00eaxito, emergindo dos p\u00e2ntanos. Atualizam, com as modernidades do s\u00e9culo XXI, os hitleres, mussolinis, salazares e francos e, como eles, n\u00e3o se eximem \u00e0s demagogias mais descaradas, sem peias, com uma desfa\u00e7atez que at\u00e9 deixa at\u00f4nitos os mais desprevenidos, bem ilustrada pela capa de jornal AIZ com uma, como sempre excelente, fotomontagem de John Heartfield, que j\u00e1 nos anos 30 do s\u00e9culo XX os desmascarava.<\/p>\n<p>O neoliberalismo e a ascens\u00e3o da extrema-direita<\/p>\n<p>Tem o caminho facilitado pela degrada\u00e7\u00e3o social e cultural que fraturou as nossas sociedades. A doxa neoliberal do capitalismo liderado pela finan\u00e7a corroeu e destruiu conquistas dos trabalhadores alcan\u00e7adas em s\u00e9culos de \u00e1rduas lutas, enriquecendo obscenamente com a explora\u00e7\u00e3o do trabalho e dos recursos naturais. Degradou a cultura com o consumo espetacular de uma sucess\u00e3o de entretenimentos, na l\u00f3gica perversa das modas das ind\u00fastrias culturais e criativas da gest\u00e3o das artes, de pouca mem\u00f3ria cultural e pol\u00edtica, em que n\u00e3o se promove ou s\u00f3 se promove muito residualmente a humaniza\u00e7\u00e3o e a socializa\u00e7\u00e3o dos sentidos. A esquerda, as esquerdas, muitas delas contaminadas por um hedonismo consumista infiltrado pelo pensamento dominante, fragmentaram as lutas, o que as fragilizou e as fez se ausentar de muitas frentes de combate, abandonando as lutas de classe em favor das lutas fracionistas e identit\u00e1rias, reduzindo-se \u00e0 den\u00fancia do capitalismo selvagem que, bem financiado, aproveitando essas brechas, manipula a opini\u00e3o p\u00fablica atrav\u00e9s dos meios tradicionais de comunica\u00e7\u00e3o, imprensa, r\u00e1dio e televis\u00e3o e dos novos meios do universo digital, blogues, redes sociais, videojogos, enquanto se vai infiltrando nos aparelhos de Estado, consolidando oligop\u00f3lios que adquirem um tal poder que atuam como novos senhores feudais, impondo os seus diktats sem lei nem debate p\u00fablico.<\/p>\n<p>H\u00e1 que mudar de pol\u00edticas para travar decididamente a propaga\u00e7\u00e3o do fascismo, que \u00e9 bem vis\u00edvel depois de anos em que foi abrindo caminho pelas brechas de um liberalismo que objetivamente \u00e9 seu aliado. \u00c0 esquerda, \u00e0s esquerdas, h\u00e1 que exigir que, com um grande debate sobre o que as separa, combatam o que est\u00e1 na raiz da efic\u00e1cia do argument\u00e1rio da direita e da extrema-direita, com pol\u00edticas econ\u00f4micas que tirem do fosso onde sobrevivem os \u00abperdedores\u00bb, para usar um adjetivo t\u00e3o caro aos liberais de qualquer jaez, mesmo sabendo que n\u00e3o h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o de causa e efeito imediata entre a melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida de milh\u00f5es de pessoas e a aquisi\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia do que as atirou para esse fosso. \u00c0 esquerda, \u00e0s esquerdas, h\u00e1 que exigir pol\u00edticas sociais para que os direitos dos trabalhadores sejam repostos, os perdidos e os degradados, revigorando-os com a sua amplia\u00e7\u00e3o. H\u00e1 que exigir pol\u00edticas econ\u00f4micas em que os setores estrat\u00e9gicos que, em nome de uma falsa racionalidade gestion\u00e1ria, t\u00eam sido privatizados, retornem \u00e0 esfera p\u00fablica para se acabar de vez com as pol\u00edticas econ\u00f4micas neoliberais ou polu\u00eddas pela ideologia neoliberal, em que a cria\u00e7\u00e3o de riqueza \u00e9 entregue ao capital, a riqueza p\u00fablica se desgasta e \u00e9 insuficiente, a capacidade produtiva degenera, os baixos sal\u00e1rios persistem. Repor e recompor a democracia que \u00e9 imposs\u00edvel com tamanha desigualdade entre ricos e pobres. Nada \u00e9 mais desigual que a igualdade entre desiguais.<\/p>\n<p>Os c\u00e2nceres n\u00e3o se combatem com aspirinas. Fascismo nunca mais, n\u00e3o \u00e9 palavra de ordem para conforto de um dia, \u00e9 um combate de todos os dias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26768\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[13],"tags":[223],"class_list":["post-26768","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s14-cultura","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6XK","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26768","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26768"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26768\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26768"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26768"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26768"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}