{"id":2677,"date":"2012-04-13T16:21:46","date_gmt":"2012-04-13T16:21:46","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2677"},"modified":"2012-04-13T16:21:46","modified_gmt":"2012-04-13T16:21:46","slug":"jirau-e-a-revolucao-dos-orelhas-secas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2677","title":{"rendered":"Jirau e a Revolu\u00e7\u00e3o dos Orelhas-Secas"},"content":{"rendered":"\n<p>O movimento grevista explodiu no canteiro de obras da usina hidrel\u00e9trica de Jirau \u2013 distante cerca de 100 quil\u00f4metros da capital do Estado de Rond\u00f4nia. Os oper\u00e1rios gritavam por justi\u00e7a e dignidade. Os patr\u00f5es vociferavam por efici\u00eancia e produtividade. De um lado o Capital. Do outro, o Trabalho. Aproximadamente 20 mil homens estavam paralisados. Apenas os servi\u00e7os essenciais foram mantidos em funcionamento \u2013 informava a empresa Camargo Correia. O aparelho policial atacou os grevistas. A trag\u00e9dia era anunciada a cada momento. Todos temiam um quebra-quebra generalizado, a exemplo do que ocorreu no ano passado, atraindo as lentes e rep\u00f3rteres da imprensa nacional e internacional.<\/p>\n<p>A maldi\u00e7\u00e3o de Esp\u00e1rtaco ronda o canteiro de obras. Diz a lenda, e o professor Dante Fonseca, que Esp\u00e1rtaco era um escravo filho de outro escravo e que era um homem castigado pelos capatazes, pelo chicote e pelo trabalho \u00e1rduo na minas de ouro do Imp\u00e9rio Romano. Um dia ele liderou uma hist\u00f3rica revolta contra o poderio de C\u00e9sar. Que os homens trabalhadores de Jirau trabalham como escravos, aqui em Rond\u00f4nia todos sabem, e uma boa parte finge que n\u00e3o sabe. Parece que s\u00f3 o Everton Leoni \u00e9 que n\u00e3o sabe, por isso vive a defender com unhas e dentes as empresas construtoras das usinas, como se fosse um benefici\u00e1rio direto do l\u00edquido leitoso que flui de uma das tetas profanas desse grupo empresarial.<\/p>\n<p>Mas a miopia e o conservadorismo servil n\u00e3o \u00e9 privil\u00e9gio de Everton Leoni; os senhores ju\u00edzes da justi\u00e7a do trabalho parecem ser caolhos tamb\u00e9m. Acompanham a prociss\u00e3o dos cegos outros setores da sociedade organizada como a Assembl\u00e9ia Legislativa do Estado e o pr\u00f3prio Governo do senhor Conf\u00facio Moura \u2013 que teve a infeliz id\u00e9ia de doar, a t\u00edtulo de isen\u00e7\u00e3o, a soma de quase um milh\u00e3o de reais a essas paup\u00e9rrimas empresas, que fecharam com o governo federal um neg\u00f3cio de 25 bilh\u00f5es de reais para fazer essas malditas usinas. O Partido dos Trabalhadores fez ouvido de mercador ao clamor e \u00e0 insurrei\u00e7\u00e3o dos obreiros por quem deveria lutar.<\/p>\n<p>Segundo fontes fidedignas, existem informa\u00e7\u00f5es de que os 20 mil oper\u00e1rios da obra est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de superexplora\u00e7\u00e3o, com sal\u00e1rios extremamente baixos, longas e desumanas jornadas de trabalho e p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de trabalho. H\u00e1 den\u00fancia de que existe epidemia de doen\u00e7a dentro da usina e n\u00e3o h\u00e1 atendimento adequado de sa\u00fade, que o transporte dos oper\u00e1rios \u00e9 de p\u00e9ssima qualidade, sofrem com a falta de seguran\u00e7a e que mais de 4.500 oper\u00e1rios est\u00e3o amea\u00e7ados de demiss\u00e3o. Essa \u00e9 a realidade da vida que aqueles homens levam no canteiro de obra de Jirau.<\/p>\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o tem como principal respons\u00e1vel os donos da usina de Jirau, o Cons\u00f3rcio formado pela transnacional francesa Suez, pela Camargo Corr\u00eaa e pela Eletrosul. As revoltas dos oper\u00e1rios dentro das usinas tem sido cada vez mais frequentes e isso \u00e9 fruto da brutal explora\u00e7\u00e3o que estas empresas transnacionais imp\u00f5em sobre seus trabalhadores.<\/p>\n<p>H\u00e1 pouco tempo houve revolta na usina de Foz do Chapec\u00f3, tamb\u00e9m de propriedade da Camargo Corr\u00eaa, em 2010 houve a revolta dos oper\u00e1rios da usina de Santo Antonio e agora temos acompanhado a revolta dos oper\u00e1rios da usina de Jirau.<\/p>\n<p>As empresas construtoras de Jirau s\u00e3o as mesmas que foram denunciadas em recente relat\u00f3rio de viola\u00e7\u00e3o de Direitos Humanos, aprovado pelo Governo Federal, que constatou que existe um padr\u00e3o de viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos em barragens e de criminaliza\u00e7\u00e3o, sendo que 16 direitos t\u00eam sido sistematicamente violados na constru\u00e7\u00e3o de barragens. Os atingidos por barragens e os oper\u00e1rios tem sido as principais v\u00edtimas.<\/p>\n<p>A empresa Suez, principal acionista de Jirau, \u00e9 dona da Barragem de Cana Brava, em Goi\u00e1s, e Camargo Corr\u00eaa \u00e9 dona da usina de Foz do Chapec\u00f3, em Santa Catarina. Essas duas hidrel\u00e9tricas tamb\u00e9m foram investigadas pela Comiss\u00e3o Especial de Direitos Humanos em que foi comprovada a viola\u00e7\u00e3o. Estas empresas tem uma das piores pr\u00e1ticas de tratamento com os atingidos e com seus oper\u00e1rios.<\/p>\n<p>Em junho de 2010, o MAB j\u00e1 havia alertado a sociedade que em Jirau havia ind\u00edcios e den\u00fancias, que circularam na imprensa local, de que as empresas donas da Usina de Jirau haviam contratado ex-coron\u00e9is do ex\u00e9rcito para fazer uma esp\u00e9cie de trabalho para os donos da usina de Jirau e n\u00e3o seria surpresa se estes indiv\u00edduos contratados pelas empresas promovessem ataques ou sabotagens contra os oper\u00e1rios e atingidos, para jogar uns contra os outros e\/ou criminalizar nossas organiza\u00e7\u00f5es e sindicatos.<\/p>\n<p>No canteiro de obras os oper\u00e1rios s\u00e3o chamados de \u201corelhas-secas\u201d. Pois bem, a revolta dos Orelhas-Secas \u00e9 reflexo desse autoritarismo e da gan\u00e2ncia pela acumula\u00e7\u00e3o de riqueza atrav\u00e9s da explora\u00e7\u00e3o da natureza e dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Prova desse autoritarismo e intransig\u00eancia \u00e9 que estas empresas se negam a dialogar com os atingidos pela usina e centenas de fam\u00edlias ter\u00e3o seus direitos negados. As consequ\u00eancias v\u00e3o muito al\u00e9m disso, pois nesta regi\u00e3o se instalou os maiores \u00edndices de prostitui\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Em 2011, O Movimento dos Atingidos por Barragens\/MAB completa 20 anos de luta e os atingidos comemoram a resist\u00eancia nacional, mas tamb\u00e9m denunciam que essas empresas n\u00e3o tem compromisso com a popula\u00e7\u00e3o atingida e nem com seus oper\u00e1rios. Recebem altas taxas de lucro que levam para seus pa\u00edses e o povo da regi\u00e3o fica com os problemas sociais e ambientais.<\/p>\n<p>O MAB uma vez j\u00e1 veio a p\u00fablico exigir o fim da viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos em barragens. O que todo esperam \u00e9 que as reivindica\u00e7\u00f5es por melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho e vida dos oper\u00e1rios sejam atendidas.<\/p>\n<p>Os grevistas de Jirau n\u00e3o s\u00e3o orelhas-secas, s\u00e3o trabalhadores brasileiros lutando desesperadamente com o grande capital por um naco do p\u00e3o da dignidade. N\u00e3o s\u00e3o v\u00e2ndalos, s\u00e3o escravos do capitalismo financeiro que, inspirados talvez na insurrei\u00e7\u00e3o de Esp\u00e1rtacus, como nos ensina o professor Dante Ribeiro Fonseca, declaram guerra \u00e0 opress\u00e3o, \u00e0 escravid\u00e3o, \u00e0 explora\u00e7\u00e3o e \u00e0 humilha\u00e7\u00e3o a que cotidianamente s\u00e3o submetidos. N\u00e3o s\u00e3o animais, homens \u00e9 que s\u00e3o, pensantes, amantes, crentes, viventes e esperan\u00e7osos &#8211; como todos n\u00f3s. Toquem o meu cora\u00e7\u00e3o. Fa\u00e7am a revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>*Ant\u00f4nio Serpa do Amaral Filho \u00e9 jornalista de Rond\u00f4nia<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Cicaf\n\n\n\n\n\n\n\n\nPor Ant\u00f4nio Serpa do Amaral Filho\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2677\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[56],"tags":[],"class_list":["post-2677","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c67-greve"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Hb","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2677","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2677"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2677\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2677"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2677"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2677"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}