{"id":2678,"date":"2012-04-13T16:26:26","date_gmt":"2012-04-13T16:26:26","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2678"},"modified":"2012-04-13T16:26:26","modified_gmt":"2012-04-13T16:26:26","slug":"a-privatizacao-do-futebol-e-o-fim-do-futebol-arte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2678","title":{"rendered":"A PRIVATIZA\u00c7\u00c3O DO FUTEBOL E O FIM DO FUTEBOL ARTE"},"content":{"rendered":"\n<p>N\u00e3o se sabe ao certo qual a verdadeira origem do futebol. Comenta-se que na China antiga, na antiguidade Greco-Romana, entre os povos pr\u00e9-colombianos, j\u00e1 se jogava um antecessor do futebol moderno, que alguns historiadores afirmam ter se originado na Inglaterra.<\/p>\n<p>Entre n\u00f3s, o futebol chegou atrav\u00e9s da influ\u00eancia inglesa no s\u00e9culo XIX. Inicialmente, era um esporte de elite, e se comentava que o brasileiro, por conta de sua miscigena\u00e7\u00e3o,n\u00e3o poderia se adaptar ao esporte bret\u00e3o. O que n\u00f3s vimos foi o contr\u00e1rio: diversos mesti\u00e7os e negros se tornaram estrelas do futebol que se popularizou no Brasil e em todo o mundo, e hoje \u00e9 o esporte conAXtempor\u00e2neo que movimenta bilh\u00f5es de d\u00f3lares, sendo alvo de diversos esc\u00e2ndalos.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o vivi o futebol-arte, anterior \u00e0 d\u00e9cada de 1970. Cresci ouvindo meu pai, meus tios e as pessoas mais idosas falarem do futebol do passado, de uma \u00e9poca em que ofutebol era considerado arte, e n\u00e3o era ainda o grande entretenimento de hoje. Eu n\u00e3o tive oportunidade de conhecer craques do quilate de Zizinho, Le\u00f4nidas, Pel\u00e9, Euz\u00e9bio, Puskas, Yachin, Tost\u00e3o, Garrincha, Dida, Ademir, Gerson, Jairzinho, Rivelino, Beckenbauer e outros. Por ter nascido ap\u00f3s 1970, sou de uma gera\u00e7\u00e3o que aprendeu a admirar o futebol quando ainda existia o futebol \u201crom\u00e2ntico\u201d, onde os jogadores se identificavam com as torcidas, os est\u00e1dios eram lotados e as camisas dos clubes n\u00e3o eram iguais a uma \u00e1rvore de natal totalmente descaracterizada, cheia de patroc\u00ednios. Os jogadores davam entrevistas no campo de futebol, nos vesti\u00e1rios. As entrevistas eram espont\u00e2neas e, \u00e0s vezes, ing\u00eanuas. Hoje, \u00e9 obrigat\u00f3rio dar entrevista com os patrocinadores ao fundo ou na mesa, com orienta\u00e7\u00e3o de empres\u00e1rios.<\/p>\n<p>Craque era uma coisa que surgia de forma espont\u00e2nea nos sub\u00farbios das grandes cidades. O crescimento desordenado sob a l\u00f3gica do capital gerou as desigualdades sociais, retirou \u00e1reas de lazer, acabando com os campos de futebol em muitos bairros prolet\u00e1rios. Com isso, muitos jovens dos bairros prolet\u00e1rios n\u00e3o t\u00eam mais essa op\u00e7\u00e3o de lazer (sem o campinho de futebol), outros, se quiserem se tornar jogadores de futebol, t\u00eam que se inscrever numa escolinha, onde ficam moldados num futebol r\u00edgido, sem inspira\u00e7\u00e3o, dominadopor empres\u00e1rios gananciosos.<\/p>\n<p>Hoje, o perfil de quem sonha em ser um jogador de futebol, aqui na Am\u00e9rica do Sul (Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai&#8230;), n\u00e3o \u00e9 jogar no Flamengo, Vasco, Botafogo, Atl\u00e9tico Mineiro, Cruzeiro, Corinthians, Palmeiras, Gr\u00eamio, Internacional, Sport, Santa Cruz, Bahia, Vit\u00f3ria e outros. No caso da Argentina, nos clubes River Plate e Boca Juniors, Independiente; no Uruguai, o Penarol e o Nacional de Montevid\u00e9u, no Paraguai, o Ol\u00edmpia e outros. Em todos esses clubes, o sonho do atleta \u00e9 jogar no exterior. No futebol europeu, o caso que melhor representa isto \u00e9 o de Messi, do Barcelona, onde ele \u201cd\u00e1 o sangue\u201d, e na sele\u00e7\u00e3o Argentina ainda n\u00e3o rendeu e nem se esfor\u00e7a para tal (na Copa de 2010 foi um fiasco). Hoje, os jogadores estrangeiros que jogam na Europa e na \u00c1sia n\u00e3o t\u00eam nenhuma identidade com as sele\u00e7\u00f5es dos seus pa\u00edses. Em f\u00e9rias, dispensam as convoca\u00e7\u00f5es, como foi o caso do lateral brasileiro Marcelo, que se recusou jogar a Copa Am\u00e9rica pela sele\u00e7\u00e3o brasileira. Na maioria das sele\u00e7\u00f5es os jogadores que disputaram a \u00faltima Copa Am\u00e9rica jogavam no futebol europeu e n\u00e3o no continente americano; \u00e9 o interesse do capital avan\u00e7ado sobre todos os setores da sociedade. Esta \u00faltima Copa Am\u00e9rica foi horr\u00edvel do ponto de vista t\u00e9cnico. N\u00e3o foi a Venezuela que melhorou seu futebol, foram as sele\u00e7\u00f5es tradicionais como o Brasil, Argentina e Uruguai que demonstraram a queda do n\u00edvel do futebol-arte em nome do futebol de resultados. Se a pr\u00f3xima copa for de baixo n\u00edvel, n\u00e3o podemos nos surpreender. Vejam o n\u00edvel dos jogadores que disputaram a \u00faltima Copa Am\u00e9rica em 2011, sem grandes jogadas e jogos sem grande inspira\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de jogadores sem criatividade.<\/p>\n<p>Para quem nasceu depois de 1970, e come\u00e7ava acompanhar o futebol, havia ainda \u00eddolos nos clubes e uma constela\u00e7\u00e3o de craques. S\u00f3 para citar alguns: Zico, no Flamengo, Roberto Dinamite, no Vasco, Reinaldo, no Atl\u00e9tico Mineiro, Falc\u00e3o, no Internacional, S\u00f3crates, no Corinthians, e tantos outros. Quando come\u00e7ou a transfer\u00eancia dos jogadores para o exterior, eles jogavam dos 20 aos 30 anos aqui, o que enriquecia os campeonatos locais, e depois faziam o p\u00e9 de meia em outro pa\u00eds. Foi o caso de Pel\u00e9, Zico, Beckenbauer, Platini, S\u00f3crates, Falc\u00e3o, Cerezzo, Junior, Maradona e outros. Depois, retornavam e encerravam suas carreiras e tinham v\u00ednculos com as torcidas de seus pa\u00edses e seus clubes.<\/p>\n<p>Antes, o que era um grande espet\u00e1culo tornou-se apenas um entretenimento para as grandes massas, cada vez mais afastadas dos est\u00e1dios de futebol. Os ingressos v\u00e3o ficar cada vez mais caros, gerando um esporte elitizado. \u00c9 o que vamos assistir daqui pra frente, est\u00e1dios sendo remontados s\u00f3 para atenderem a este processo de elitiza\u00e7\u00e3o com aelimina\u00e7\u00e3o das gerais. Isto vai ocorrer durante os pr\u00f3ximos campeonatos nacionais, Olimp\u00edadas, Copa do Mundo. Aqui no Brasil e em todo mundo \u00e9 um processo irrevers\u00edvel, sendo guiado pela l\u00f3gica do grande capital. Os mais pobres ter\u00e3o que acompanhar pela televis\u00e3o aberta ou por assinatura, j\u00e1 ocorreram estes fatos em outras copas. Quem n\u00e3o lembra o processo vergonhoso da policia isolando os mais pobres na \u00faltima copa em 2010, na \u00c1frica do Sul?<\/p>\n<p>N\u00e3o adianta reclamar, falar na volta do futebol-arte. Enquanto n\u00e3o acabar o capitalismo, a tend\u00eancia \u00e9 o interesse financeiro predominar, o que afeta o futebol desde a base. O caminho \u00e9 o futebol de resultados med\u00edocres predominar, a exemplo da Copa de 1994: quem viu cabe\u00e7as de \u00e1rea como Falc\u00e3o, Andrade, Carpegiani, Vitor, Dudu, Rocha e tantos outros, hoje \u00e9 obrigado a ver Dunga, Ramires ou Felipe Mello. Isso demonstra o quanto o futebol-arte vem morrendo. At\u00e9 hoje a sele\u00e7\u00e3o brasileira campe\u00e3 de 1994 n\u00e3o \u00e9 lembrada,no entanto, a sele\u00e7\u00e3o brasileira de 1982, mesmo n\u00e3o sendo campe\u00e3, \u00e9 lembrada at\u00e9 no exterior. Por isso ficamos com saudades de uma \u00e9poca que n\u00e3o volta mais, a do futebol-arte que vem morrendo n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, como em todo mundo.<\/p>\n<p>O que era aut\u00eantico, improvisado nas artes, acabou. O futebol brasileiro e mundial se encontram totalmente privatizados pelas grandes corpora\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, utilizados por empres\u00e1rios gananciosos que se aproveitam da ingenuidade de jovens e de suas fam\u00edlias de baixa renda (quem n\u00e3o se lembra dos casos de jovens abandonados na Europa?). Estes empres\u00e1rios n\u00e3o est\u00e3o nem a\u00ed para o fanatismo do torcedor pelo clube, e hoje as torcidas organizadas s\u00e3o utilizadas nas grandes manipula\u00e7\u00f5es dos cartolas e nas arma\u00e7\u00f5es dentro dos clubes, comercializando, comprando, vendendo jogadores; fazendo com que os torcedores se afastem de seus times do cora\u00e7\u00e3o. Hoje, por conta da comercializa\u00e7\u00e3o do futebol, n\u00e3odecoramos a escala\u00e7\u00e3o dos times, n\u00e3o se criam \u00eddolos, mas sim jogadores para serem vendidos. Al\u00e9m desses fatores, outro fator que compromete o comparecimento das pessoas aos est\u00e1dios de futebol \u00e9 a viol\u00eancia e a aliena\u00e7\u00e3o, acompanhada de fanatismo das torcidas organizadas.<\/p>\n<p>S\u00f3 para citar alguns nomes em nosso continente, vimos grandes jogadores como os uruguaios Hugo de Leon, Daniel Gonzales, Rubens Paz, Frantchescolli, D\u00e1rio Pereira, Pedro Rocha. Ficamos assustados quando surgia um Furlan, por exemplo. Como os argentinos Maradona, Ardiles, Tarantini, Ramon Diaz, M\u00e1rio Kempes&#8230; Ou os brasileiros Leandro, J\u00fanior, Falc\u00e3o, S\u00f3crates, Zico, M\u00e1rio S\u00e9rgio, J\u00falio C\u00e9sar, Adil\u00edo, Pita, Palhinha, Roberto Dinamite, Reinaldo e tantos outros. Hoje, somos obrigados a ver os craques artificiais, como Kak\u00e1, Messi, Cristiano Ronaldo, Ronaldinho Ga\u00facho, Daniel Alves, Neymar e tantos outros.<\/p>\n<p>D\u00e1 nojo de ver a quantidades de passes errados em uma partida de futebol. Assistir uma Copa do Mundo era uma oportunidade para ver uma constela\u00e7\u00e3o de craques, e muitos ficaram marcados em nossa mem\u00f3ria: Cruyff, da Holanda; Platini, Giresse e Tigana, da Fran\u00e7a; Rummenigge e Breitner, da Alemanha; Belanov, Blonin e Darsaiev, da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica; Lato e Boniek, da Pol\u00f4nia; Baresi, da Italia; Eus\u00e9bio, de Portugal; Bobby Charlton, da Inglaterra; Hugo Sanches, do M\u00e9xico; Michael Laudrup, da Dinamarca, e tantos outros.<\/p>\n<p>A l\u00f3gica capitalista afeta a rela\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos com as artes. Sob isso, o futebol \u00e9 apenas um puro neg\u00f3cio fabricado pela ind\u00fastria cultural, como qualquer objeto que temum \u00fanico prop\u00f3sito: obter lucros apenas para entreter o p\u00fablico, desviando-os dos reais problemas do mundo.<\/p>\n<p>O que dava gra\u00e7a nos est\u00e1dios era o torcedor de baixa renda. Esses est\u00e3o cada vez mais afastados dos est\u00e1dios, seja pelo aumento dos ingressos e diminui\u00e7\u00e3o das \u00e1reas voltadaspara eles, seja pela imposi\u00e7\u00e3o das emissoras de televis\u00e3o em alian\u00e7a s\u00f3rdida com os cartolas e as m\u00e1fias que controlam o futebol mundial, que imp\u00f5em hor\u00e1rios absurdos e pre\u00e7os abusivos de ingressos, o que dificulta o acesso dos torcedores aos est\u00e1dios de futebol.<\/p>\n<p>O futebol de hoje \u00e9 dominado por cartolas e uma m\u00eddia que procura esconder os fatos da realidade, como ocorreu no jogo Flamengo x Santos, em 2010, quando todos ficaram assustados com o resultado de 5 x 3 para o Flamengo. Feliz foi o coment\u00e1rio de Coutinho, ex-jogador do Santos da era Pel\u00e9. Palavra de Coutinho: \u201cHoje, todos ficam assustados e alegres quando assistem uma grande partida de futebol\u201d.<\/p>\n<p>O n\u00edvel do futebol atual se encontra baix\u00edssimo. \u00c9 prefer\u00edvel assistir os jogos do passado no youtube. A Sele\u00e7\u00e3o Brasileira n\u00e3o \u00e9 a do povo (ela \u00e9 do Ita\u00fa, da Coca Cola, do Saara e de outros patrocinadores). As sele\u00e7\u00f5es do Brasil, da Argentina, do Uruguai e outras sele\u00e7\u00f5es com tradi\u00e7\u00e3o no futebol t\u00eam a obriga\u00e7\u00e3o de jogar um bom futebol, pois elas trazem no hist\u00f3rico os nomes dos craques do passado. Hoje, o futebol atual, com raras exce\u00e7\u00f5es, resume-se aos cartolas, torcidas organizadas mafiosas e jogadores med\u00edocres, onde poucos jogam alguma bolinha e a grande m\u00eddia trata de transformar em craques de vitrine, iludindo as novas gera\u00e7\u00f5es que n\u00e3o tiveram o privil\u00e9gio de ver os craques do passado.<\/p>\n<p>O futebol atual est\u00e1 privatizado pela l\u00f3gica do capital, que se apropriou desta importante arte popular, que invadiu todos os grandes clubes em todo o mundo.<\/p>\n<p>A era dos grandes craques acabou.<\/p>\n<p>*Jos\u00e9 Renato Andr\u00e9 Rodrigues \u2013 Professor de Filosofia<\/p>\n<p>Comit\u00ea Central do PCB<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: PCB\n\n\n\n\n\n\n\n\nJos\u00e9 Renato Andr\u00e9 Rodrigues*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2678\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[105],"tags":[],"class_list":["post-2678","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c118-privatizacao"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Hc","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2678","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2678"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2678\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2678"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2678"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2678"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}