{"id":2679,"date":"2012-04-13T16:49:29","date_gmt":"2012-04-13T16:49:29","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2679"},"modified":"2012-04-13T16:49:29","modified_gmt":"2012-04-13T16:49:29","slug":"as-revolucoes-arabes-um-ano-mais-tarde-as-vitorias-eleitorais-do-isla-politico-no-egito-e-em-tunis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2679","title":{"rendered":"As revolu\u00e7\u00f5es \u00e1rabes um ano mais tarde \u2013 As vit\u00f3rias eleitorais do Isl\u00e3 pol\u00edtico no Egito e em T\u00fanis"},"content":{"rendered":"\n<p>Argenpress<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria eleitoral dos Irm\u00e3os Mu\u00e7ulmanos\u00a0 e dos Salafistas no Egito (janeiro de 2012) n\u00e3o \u00e9 surpreendente. A degrada\u00e7\u00e3o produzida pela mundializa\u00e7\u00e3o capitalista contempor\u00e2nea tem provocado um aumento prodigioso das atividades chamadas \u201cinformais\u201d, que, no Egito, fornecem os meios de sobreviv\u00eancia de mais da metade da popula\u00e7\u00e3o (60% segundo as estat\u00edsticas). Os Irm\u00e3os Mu\u00e7ulmanos est\u00e3o em uma posi\u00e7\u00e3o muito boa para tirar proveito dessa degrada\u00e7\u00e3o e perpetuar sua reprodu\u00e7\u00e3o. Sua ideologia simples proporciona legitimidade a essa economia primitiva de mercado\/bazar. Os meios financeiros fabulosos postos a sua disposi\u00e7\u00e3o pelos governos do\u00a0 Golfo [as monarquias petroleiras, nota do primeiro tradutor] permitem traduzi-la em meios de a\u00e7\u00e3o eficazes: adiantamentos financeiros \u00e0 economia informal, a\u00e7\u00f5es caritativas e de acompanhamento (centros de sa\u00fade e outros).<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s desses meios, os Irm\u00e3os Mu\u00e7ulmanos se implantam na sociedade real e a colocam sob sua depend\u00eancia. Contudo, seu \u00eaxito teria sido dif\u00edcil se n\u00e3o houvesse correspondido perfeitamente aos objetivos dos governos do Golfo, de Washington e de Israel. Esses tr\u00eas \u00edntimos aliados dividem a mesma preocupa\u00e7\u00e3o: fazer fracassar a recupera\u00e7\u00e3o do Egito. Porque um Egito forte, de p\u00e9, significa o fim da tripla hegemonia: do Golfo (a submiss\u00e3o ao discurso de islamiza\u00e7\u00e3o da sociedade); dos Estados Unidos (um Egito comprador e miser\u00e1vel fica submetido ao seu dom\u00ednio) e de Israel (um Egito impotente n\u00e3o interfere na Palestina).<\/p>\n<p>O aborto planejado da \u201crevolu\u00e7\u00e3o eg\u00edpcia\u201d\u00a0 garantir\u00e1\u00a0ent\u00e3o a continuidade do sistema estabelecido desde Sadat, fundado na alian\u00e7a dos chefes do Ex\u00e9rcito e do Isl\u00e3\u00a0Pol\u00edtico. Uma revis\u00e3o da \u201cdose\u201d na partilha dos benef\u00edcios dessa alian\u00e7a em benef\u00edcio dos Irm\u00e3os Mu\u00e7ulmanos pode, por\u00e9m, ser dif\u00edcil.<\/p>\n<p>A Assembleia Constituinte surgida das elei\u00e7\u00f5es de outubro de 2011, em T\u00fanis, estar\u00e1 dominada por um bloco de direita que reunir\u00e1 o partido isl\u00e2mico Ennahda e muitos quadros reacion\u00e1rios at\u00e9 pouco tempo associados ao regime de Ben Ali, sempre em seus postos e infiltrados em \u201cnovos partidos\u201d sob o nome de \u201cbourguibistas\u201d [de Habib Bourguiba, ex-presidente da Tun\u00edsia \u2013 nota do tradutor]. Uns e outros compartilham a mesma ades\u00e3o incondicional \u00e0 \u201ceconomia de mercado\u201d tal como existe, ou seja, um sistema capitalista dependente e subalterno. A Fran\u00e7a e os Estados Unidos s\u00f3 pedem isto: \u201cmudar algo para que nada mude\u201d.<\/p>\n<p>Todavia, as mudan\u00e7as est\u00e3o na ordem do dia. Positiva: uma democracia pol\u00edtica, mas n\u00e3o social (quer dizer, uma \u201cdemocracia de baixa intensidade\u201d) que tolerar\u00e1\u00a0a diversidade de opini\u00f5es, respeitar\u00e1\u00a0mais os \u201cdireitos humanos\u201d\u00a0e botar\u00e1\u00a0 fim aos horrores policiais do regime anterior. Negativa: uma prov\u00e1vel regress\u00e3o dos direitos das mulheres. Dito de outra maneira, um retorno a um \u201cbourguibismo\u201d pluripartid\u00e1rio tingido de islamismo. O plano das pot\u00eancias ocidentais, baseado no poder do bloco reacion\u00e1rio comprador, colocar\u00e1 fim a essa transi\u00e7\u00e3o que se queria \u201ccurta\u201d (o que o movimento aceitou sem medir consequ\u00eancias), n\u00e3o deixando tempo \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o das lutas sociais e permitindo a instala\u00e7\u00e3o da \u201clegitimidade\u201d exclusiva do bloco reacion\u00e1rio comprador mediante elei\u00e7\u00f5es \u201ccorretas\u201d. O movimento tunisiano praticamente se desinteressou pela pol\u00edtica econ\u00f4mica do regime destitu\u00eddo, concentrando suas cr\u00edticas a respeito da \u201ccorrup\u00e7\u00e3o\u201d do presidente e sua fam\u00edlia. Muitos contestadores, inclusive os \u201cde esquerda\u201d, n\u00e3o questionavam as orienta\u00e7\u00f5es fundamentais do modelo de desenvolvimento implementado por Bourguiba e Ben Ali. O resultado era ent\u00e3o previs\u00edvel.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que as mesmas causas produzem \u00e0s vezes os mesmos efeitos. O que pensar\u00e3o e far\u00e3o as classes populares no Egito e em T\u00fanis quando virem que continua a degrada\u00e7\u00e3o inexor\u00e1vel de suas condi\u00e7\u00f5es sociais, com sua escalada de desemprego e precariza\u00e7\u00e3o, provavelmente agravada com as degrada\u00e7\u00f5es suplementares intensificadas pela crise geral da mundializa\u00e7\u00e3o capitalista? \u00c9 muito cedo para diz\u00ea-lo, por\u00e9m n\u00e3o cabe persistir e ignorar que somente a r\u00e1pida constitui\u00e7\u00e3o de uma esquerda radical, que v\u00e1 muito mais al\u00e9m da reivindica\u00e7\u00e3o de elei\u00e7\u00f5es corretas, pode permitir a retomada das lutas por uma mudan\u00e7a digna desse nome. Corresponde a essa esquerda radical saber formular uma estrat\u00e9gia de democratiza\u00e7\u00e3o da sociedade que\u00a0 v\u00e1 muito mais al\u00e9m da simples realiza\u00e7\u00e3o de elei\u00e7\u00f5es corretas, que associe a democratiza\u00e7\u00e3o ao progresso social, o que implica no abandono do modelo de desenvolvimento existente, e que reforce as iniciativas por uma posi\u00e7\u00e3o internacional independente e francamente anti-imperialista. N\u00e3o s\u00e3o os monop\u00f3lios imperialistas e seus servidores internacionais (o Banco Mundial, o FMI e a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio) que ajudar\u00e3o os pa\u00edses do Sul a sair do atoleiro: a tarefa ser\u00e1 menos dif\u00edcil se for orientada na dire\u00e7\u00e3o dos novos interlocutores do Sul.<\/p>\n<p>Nenhuma dessas quest\u00f5es pol\u00edticas fundamentais parecem preocupar os maiores atores pol\u00edticos. Tudo transcorre como se o objetivo final da \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d fosse conseguir rapidamente que se realizassem elei\u00e7\u00f5es. Como se a fonte exclusiva de legitimidade do poder residisse nas urnas. H\u00e1, contudo, uma legitimidade superior: a das lutas. Essas duas legitimidades est\u00e3o destinadas a um s\u00e9rio enfrentamento no futuro.<\/p>\n<p>Ser\u00e3o poss\u00edveis, na Arg\u00e9lia, reformas dirigidas a partir do interior?<\/p>\n<p>Arg\u00e9lia e Egito t\u00eam\u00a0sido, no mundo \u00e1rabe, os dois pa\u00edses de vanguarda no primeiro \u201cdespertar do Sul\u201d na \u00e9poca de Bandung, do n\u00e3o alinhamento e da vitoriosa afirma\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o nacional p\u00f3s-colonial, associados a aut\u00eanticas realiza\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e sociais importantes e progressistas, que prometiam belas possibilidades para o futuro. Por\u00e9m, os dois pa\u00edses chegaram a um ponto morto quando aceitaram a \u201cvolta ao lar\u201d dos Estados e sociedades dominados pelo imperialismo.<\/p>\n<p>O modelo argelino deu sinais evidentes de ter uma consist\u00eancia mais forte, o que explica que tenha resistido melhor a sua degrada\u00e7\u00e3o posterior. Por essa raz\u00e3o, a classe dirigente argelina \u00e9 heterog\u00eanea e est\u00e1 dividida entre os que mant\u00eam aspira\u00e7\u00f5es nacionais e os que t\u00eam aderido \u00e0 \u201ccompradoriza\u00e7\u00e3o\u201d [compradorizaci\u00f3n, no original em espanhol &#8211; neologismo do autor] (\u00e0s vezes os dois componentes conflitivos se combinam nas mesmas pessoas). No Egito, ao contr\u00e1rio, a classe dominante se converteu integralmente, com Sadat e Mubarak, em burguesia compradora, carente de toda aspira\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>Duas raz\u00f5es principais explicam essa diferen\u00e7a. A guerra de liberta\u00e7\u00e3o na Arg\u00e9lia produziu, naturalmente, uma radicaliza\u00e7\u00e3o social e ideol\u00f3gica. Em contrapartida, no Egito, o nasserismo surge ao final do per\u00edodo de expans\u00e3o do movimento iniciado pela revolu\u00e7\u00e3o de 1919, que se radicaliza em 1946. O golpe de Estado \u2013 amb\u00edguo \u2013 de 1952 \u00e9 uma resposta ao beco sem sa\u00edda em que se encontrava o movimento. Por outro lado, a sociedade argelina sofreu, com a coloniza\u00e7\u00e3o, enormes assaltos destruidores. A nova sociedade argelina, surgida da reconquista da independ\u00eancia, n\u00e3o tinha nada em comum com a da \u00e9poca pr\u00e9-colonial. Havia se convertido em uma sociedade popular, marcada por uma forte aspira\u00e7\u00e3o \u00e0 igualdade.<\/p>\n<p>Essa aspira\u00e7\u00e3o n\u00e3o se encontra com a mesma for\u00e7a em nenhuma outra parte do mundo \u00e1rabe, nem no Magreb, nem no Mashrek. Ao contr\u00e1rio, o Egito moderno se constituiu desde o in\u00edcio (a partir de Mohammed Ali) pela sua aristocracia progressivamente convertida em \u201cburguesia aristocr\u00e1tica\u201d (ou \u201caristocracia capitalista\u201d). Essas diferen\u00e7as geram outras, de evidente import\u00e2ncia, que se referem ao futuro do Isl\u00e3 pol\u00edtico. Como indica Hocine Bela\u00a0Lloufi (&#8220;A democracia na Arg\u00e9lia: reforma ou revolu\u00e7\u00e3o?&#8221;; em curso de publica\u00e7\u00e3o) o Isl\u00e3 pol\u00edtico argelino (o FIS), que mostrou sua face terr\u00edvel, foi derrotado. Isso n\u00e3o significa que o problema esteja definitivamente resolvido. Por\u00e9m, a diferen\u00e7a \u00e9 grande com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 situa\u00e7\u00e3o no Egito, caracterizada por uma s\u00f3lida converg\u00eancia entre o poder da burguesia compradora e o Isl\u00e3 pol\u00edtico dos Irm\u00e3os Mu\u00e7ulmanos.<\/p>\n<p>De todas essas diferen\u00e7as entre os dois pa\u00edses derivam possibilidades diferentes de resposta aos desafios atuais. A Arg\u00e9lia me parece em melhor posi\u00e7\u00e3o (ou em posi\u00e7\u00e3o menos pior) para responder aos referidos desafios, pelo menos em curto prazo. Parece-me que, na Arg\u00e9lia, existe ainda a possibilidade de reformas econ\u00f4micas, pol\u00edticas e sociais controladas do interior. Em troca, no Egito, o confronto entre o \u201cmovimento\u201d e o bloco reacion\u00e1rio \u201ccontrarrevolucion\u00e1rio\u201d parece tender a se agravar inexoravelmente.<\/p>\n<p>Arg\u00e9lia e Egito constituem dois exemplos paradigm\u00e1ticos da impot\u00eancia, at\u00e9\u00a0o momento, das sociedades envolvidas no enfrentamento do desafio. Arg\u00e9lia e Egito s\u00e3o dois pa\u00edses do mundo \u00e1rabe candidatos poss\u00edveis a se tornarem \u201cemergentes\u201d. \u00c9 evidente a responsabilidade principal das classes dirigentes e dos sistemas de poder atuais pelo n\u00e3o cumprimento de tal \u201cemerg\u00eancia\u201d. Por\u00e9m, a responsabilidade das sociedades, dos intelectuais, dos militantes dos movimentos em luta deve ser seriamente considerada.<\/p>\n<p>Cabe esperar uma evolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica pac\u00edfica no Marrocos? Tenho d\u00favidas, na medida em que o povo marroquino continuar preso ao dogma arcaico que n\u00e3o dissocia a monarquia (de direito divino: \u201camir el mouminine\u201d) da Na\u00e7\u00e3o. Essa \u00e9 sem d\u00favida a raz\u00e3o pela qual os marroquinos n\u00e3o compreendem a quest\u00e3o saariana: os n\u00f4mades orgulhosos do Saara t\u00eam outra concep\u00e7\u00e3o de Isl\u00e3, que n\u00e3o permite que se ajoelhem diante de outro que n\u00e3o seja Al\u00e1, nem mesmo do Rei.<\/p>\n<p>O drama da S\u00edria<\/p>\n<p>O regime de Bashar el Assad \u00e9 apenas e t\u00e3o somente um regime policial que se submete \u00e0s exig\u00eancias do \u201cliberalismo\u201d mundializado. A legitimidade da rebeli\u00e3o do povo s\u00edrio \u00e9 indiscut\u00edvel. Por\u00e9m, a destrui\u00e7\u00e3o da S\u00edria constitui o objetivo dos tr\u00eas associados \u2013 Estados Unidos, Israel e Ar\u00e1bia Saudita \u2013, que mobilizam com essa finalidade os Irm\u00e3os Mu\u00e7ulmanos e lhes fornecem armas. Sua eventual vit\u00f3ria \u2013 com ou sem interven\u00e7\u00e3o estrangeira \u2013 ter\u00e1 como resultado o desmembramento do pa\u00eds, o massacre dos alau\u00edtas, dos drusos e dos crist\u00e3os. Mas n\u00e3o importa. O objetivo de Washington e seus aliados n\u00e3o \u00e9 libertar a S\u00edria de seu ditador, mas de destruir o pa\u00eds, como tamb\u00e9m n\u00e3o era livrar o Iraque de Saddam Hussein, mas destru\u00ed-lo.<\/p>\n<p>A \u00fanica solu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica seria realizar reformas substanciais em benef\u00edcio das for\u00e7as populares e democr\u00e1ticas existentes e que se recusam a se deixar enredar pelos Irm\u00e3os Mu\u00e7ulmanos. Se o regime se mostra incapaz de compreend\u00ea-lo, nada impedir\u00e1 que o drama continue at\u00e9 o fim. \u00c9 ir\u00f4nico ver que agora o Sult\u00e3o do Qatar e o Rei da Ar\u00e1bia Saudita sejam os campe\u00f5es da promo\u00e7\u00e3o da democracia (em outros pa\u00edses). Mas \u00e9 dif\u00edcil que a farsa v\u00e1 mais longe!<\/p>\n<p>A geoestrat\u00e9gia do imperialismo e a quest\u00e3o democr\u00e1tica<\/p>\n<p>Tenho tentado demonstrar neste livro que a despolitiza\u00e7\u00e3o tem sido decisiva na ascens\u00e3o do Isl\u00e3 pol\u00edtico. Essa despolitiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9, certamente, espec\u00edfica do Egito nasserista. Ela tem sido a pr\u00e1tica dominante em todas as experi\u00eancias nacionais populares do primeiro despertar do Sul e inclusive na dos socialismos hist\u00f3ricos, uma vez terminada a primeira fase do fervor revolucion\u00e1rio. O denominador comum tem sido a supress\u00e3o da pr\u00e1tica democr\u00e1tica (que eu n\u00e3o reduzo \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o de elei\u00e7\u00f5es pluripartid\u00e1rias), ou seja, o respeito \u00e0 diversidade de opini\u00f5es, de propostas pol\u00edticas e de sua eventual organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A politiza\u00e7\u00e3o exige a democracia. E a democracia somente existe quando os \u201cadvers\u00e1rios\u201d\u00a0gozam de liberdade. Em todos os casos, sua supress\u00e3o, que origina a despolitiza\u00e7\u00e3o, \u00e9 respons\u00e1vel pelo desastre posterior. Este acaba por adotar a forma de anacronismos (religiosos ou outros) ou de ades\u00e3o ao consumismo e ao falso individualismo promovido pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o ocidentais \u2013 como foi o caso dos povos da Europa Oriental e da ex-URSS e como \u00e9 o caso em outras partes, n\u00e3o apenas nas classes m\u00e9dias (eventuais benefici\u00e1rias do desenvolvimento), mas tamb\u00e9m no seio das classes populares que, na falta de outra alternativa, aspiram tamb\u00e9m ao benef\u00edcio, ainda que seja em escala muito pequena (o que \u00e9 perfeitamente compreens\u00edvel e leg\u00edtimo).<\/p>\n<p>No caso das sociedades mu\u00e7ulmanas, essa despolitiza\u00e7\u00e3o se reveste da forma principal de retorno (aparente) ao islamismo. A articula\u00e7\u00e3o que agrega o poder do Isl\u00e3 pol\u00edtico reacion\u00e1rio, a submiss\u00e3o \u201ccompradora\u201d e a pauperiza\u00e7\u00e3o pela informatiza\u00e7\u00e3o da economia de bazar n\u00e3o s\u00e3o espec\u00edficas do Egito. Elas caracterizam a maior parte das sociedades \u00e1rabes e mu\u00e7ulmanas at\u00e9 o Paquist\u00e3o e mais al\u00e9m. Essa mesma articula\u00e7\u00e3o existe no Ir\u00e3: o triunfo da economia de bazar havia sido sinalizado desde o come\u00e7o como o principal resultado da \u201crevolu\u00e7\u00e3o khomeinista\u201d. A mesma articula\u00e7\u00e3o entre poder isl\u00e2mico e economia de mercado de bazar devastou a Som\u00e1lia, agora apagada do mapa das na\u00e7\u00f5es existentes (ver meu artigo sobre a quest\u00e3o no s\u00edtio Pambazuka 1\/2\/2011).<\/p>\n<p>O que se pode ent\u00e3o imaginar se esse Isl\u00e3 pol\u00edtico assumir o poder no Egito ou em outra parte?<\/p>\n<p>Somos invadidos por discursos tranquilizadores, de uma incr\u00edvel ingenuidade, sincera ou falsa. Alguns dizem: \u201cera fatal, nossas sociedades est\u00e3o impregnadas pelo Isl\u00e3: tentou-se ignor\u00e1-lo, mas ele se imp\u00f4s&#8221;. Como se o \u00eaxito do Isl\u00e3 pol\u00edtico n\u00e3o se devesse \u00e0 despolitiza\u00e7\u00e3o e \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o social que se quer ignorar. \u201cIsso n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o perigoso, o \u00eaxito \u00e9 passageiro e o fracasso do poder exercido pelo Isl\u00e3 pol\u00edtico far\u00e1 com que a opini\u00e3o [p\u00fablica] se afaste dele&#8221; \u2013 como se os Irm\u00e3os Mu\u00e7ulmanos tivessem se rendido ao respeito dos princ\u00edpios democr\u00e1ticos! Como as &#8220;opini\u00f5es&#8221; fabricadas pelos meios dominantes e pela corte de &#8220;intelectuais&#8221; \u00e1rabes, por oportunismo ou falta de lucidez, aparentam acreditar em Washington.<\/p>\n<p>N\u00e3o. O exerc\u00edcio do poder pelo Isl\u00e3\u00a0pol\u00edtico reacion\u00e1rio estar\u00e1\u00a0destinado a durar&#8230; 50 anos? E enquanto [o Isl\u00e3 pol\u00edtico] contribuir para afundar as sociedades por ele submetidas na insignific\u00e2ncia do tabuleiro mundial, os \u201coutros\u201d continuar\u00e3o avan\u00e7ando. Ao final dessa triste \u201ctransi\u00e7\u00e3o\u201d, os pa\u00edses envolvidos se encontrar\u00e3o no mais baixo n\u00edvel da classifica\u00e7\u00e3o mundial.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o da politiza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica constitui, no mundo \u00e1rabe como no resto do mundo, o eixo central do desafio. Nossa \u00e9poca n\u00e3o\u00a0\u00e9\u00a0de avan\u00e7os democr\u00e1ticos, mas de retrocessos. A centraliza\u00e7\u00e3o extrema do capital dos monop\u00f3lios permite e exige a submiss\u00e3o incondicional e total do poder pol\u00edtico \u00e0s ordens desse setor. O refor\u00e7o dos poderes presidenciais, aparentemente individualizados ao extremo, por\u00e9m de fato totalmente submetidos \u00e0 plutocracia financeira, constitui a forma dessa conex\u00e3o, que aniquila o alcance da finada democracia burguesa (ela mesma refor\u00e7ada em seu tempo pelas conquistas dos trabalhadores), substitu\u00edda agora pela farsa democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Nas periferias, os embri\u00f5es de democracia, quando existem, associados a regress\u00f5es sociais ainda mais violentas que nos centros do sistema, perdem toda a credibilidade. O retrocesso da democracia \u00e9\u00a0sin\u00f4nimo de despolitiza\u00e7\u00e3o. Isso porque a democracia implica a afirma\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3os capazes de, na cena pol\u00edtica, formular projetos sociais alternativos, e n\u00e3o apenas a perspectiva de &#8220;altern\u00e2ncia (sem mudan\u00e7as) atrav\u00e9s de elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Com o desaparecimento do cidad\u00e3o sem imagina\u00e7\u00e3o criadora, sucede-o aquele indiv\u00edduo despolitizado, que \u00e9 um espectador passivo da cena pol\u00edtica, um consumidor modelado pelo sistema, que acredita ser (equivocadamente) um indiv\u00edduo livre. [Portanto], avan\u00e7ar pelos caminhos da democratiza\u00e7\u00e3o das sociedades e da repolitiza\u00e7\u00e3o dos povos s\u00e3o tarefas indissoci\u00e1veis.<\/p>\n<p>Mas, por onde come\u00e7ar? O movimento pode se iniciar a partir de um ou outro desses dois polos. Mas nada pode substituir \u00e0 an\u00e1lise concreta das situa\u00e7\u00f5es concretas, [tanto] na Arg\u00e9lia, no Egito, quanto na Gr\u00e9cia, na China, no Congo, na Bol\u00edvia, na Fran\u00e7a, na Alemanha.<\/p>\n<p>Com a falta de progressos vis\u00edveis nessa dire\u00e7\u00e3o, o mundo entrar\u00e1, como de fato j\u00e1 entrou, em uma tormenta ca\u00f3tica associada \u00e0 implos\u00e3o do sistema. Por isso, \u00e9 de se temer pelo pior.<\/p>\n<p>Samir Amin \u00e9\u00a0diretor do F\u00f3rum do Terceiro Mundo.<\/p>\n<p>Fonte original: <a href=\"http:\/\/www.argenpress.info\/\" target=\"_blank\">http:\/\/www.argenpress.info<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: wikimedia\n\n\n\n\n\n\n\n\nSamir Amin\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2679\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-2679","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Hd","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2679","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2679"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2679\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2679"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2679"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2679"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}