{"id":26826,"date":"2021-02-04T00:25:34","date_gmt":"2021-02-04T03:25:34","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26826"},"modified":"2021-02-04T00:25:50","modified_gmt":"2021-02-04T03:25:50","slug":"ford-setor-automotivo-e-a-industria-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26826","title":{"rendered":"Ford, setor automotivo e a ind\u00fastria no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/contrapoder.net\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/vigilia-ford3-1024x683.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->O impasse burgu\u00eas<\/p>\n<p>Sofia Manzano*<\/p>\n<p>CONTRAPODER<\/p>\n<p>O autom\u00f3vel como s\u00edmbolo da industrializa\u00e7\u00e3o esteve presente por mais de um s\u00e9culo no imagin\u00e1rio geral da popula\u00e7\u00e3o mundial. No Brasil n\u00e3o foi diferente. Mesmo que durante todo o per\u00edodo em que ocorreu o Processo de Industrializa\u00e7\u00e3o por Substitui\u00e7\u00e3o de Importa\u00e7\u00f5es (PSI) houvesse a internaliza\u00e7\u00e3o dos mais variados tipos de ind\u00fastria, iniciando com a ind\u00fastria de bens de consumo n\u00e3o-dur\u00e1veis \u2013 cujo exemplo maior eram as Ind\u00fastrias Matarazzo \u2013 at\u00e9 a ind\u00fastria de base e de bens de capital, a ind\u00fastria automotiva manteve seu imp\u00e9rio simb\u00f3lico. A como\u00e7\u00e3o e o debate gerado pelo encerramento das plantas da Ford e outras montadoras no Brasil atualmente apenas vem a confirmar o simbolismo desse ramo da produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De fato, a op\u00e7\u00e3o por determinado padr\u00e3o de transporte, no caso, o rodovi\u00e1rio, moldou de forma indel\u00e9vel, o car\u00e1ter do pa\u00eds, bem como sua topografia. Desde o presidente Dutra, com seu slogan \u201cGovernar \u00e9 construir estradas\u201d, que os tra\u00e7ados do desenvolvimento econ\u00f4mico seguem esse padr\u00e3o. At\u00e9 mesmo o setor predileto da atualidade, o agroneg\u00f3cio, padece as consequ\u00eancias dessa op\u00e7\u00e3o, uma vez que tem que escoar safras enormes por meio de caminh\u00f5es que deixam pelas estradas, muito mal conservadas, uma quantidade significativa de gr\u00e3os. Tiv\u00e9ssemos algum lampejo de projeto de burguesia nacional, algum n\u00edvel de planejamento estrat\u00e9gico teria ocorrido h\u00e1 um s\u00e9culo. N\u00e3o foi o caso.<\/p>\n<p>Neste momento, a crise do setor no Brasil suscita rea\u00e7\u00f5es d\u00edspares, desde os neo-desenvolvimentistas, at\u00e9 os neoliberais. Os primeiros denunciam a desindustrializa\u00e7\u00e3o e procuram desesperadamente por uma inexistente burguesia nacional que venha nos redimir do atraso. Os segundos, mais em linha com os reais interesses burgueses realmente existentes, pregam a eterna necessidade de reformas que significam, sem mais delongas, precariza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho e fim dos investimentos p\u00fablicos na \u00e1rea social. O fato \u00e9 que nenhuma dessas op\u00e7\u00f5es promover\u00e1 qualquer alternativa saud\u00e1vel ao pa\u00eds.<\/p>\n<p>O que realmente importa para analisar a estrutura setorial de transporte n\u00e3o est\u00e1 nestas alternativas, mas sim em outros padr\u00f5es tecnol\u00f3gicos desenvolvidos nos pa\u00edses asi\u00e1ticos, capitaneados pela China. A ind\u00fastria automotiva continua importante, mas seu peso relativo vai diminuindo na medida em que outras formas de transporte, principalmente ferrovi\u00e1rio, avan\u00e7am. Mesmo no setor de autom\u00f3veis, as mudan\u00e7as operadas com o carro el\u00e9trico \u2013 em que a China, mais uma vez \u00e9 l\u00edder absoluta -, ve\u00edculos aut\u00f4nomos, os mini-carros, etc., deixam aos museus o saudosismo de autom\u00f3veis do tipo que se produz e ainda \u00e9 muito apreciado no Brasil, ou seja, carros com alto consumo de combust\u00edvel, muito poluentes, pesados, enfim, ultrapassados. A Ford \u00e9 o modelo mundial desse tipo de carro. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que est\u00e1 revendo mundialmente suas estrat\u00e9gias.<\/p>\n<p>Ainda assim, muitos argumentar\u00e3o que esse setor representa uma importante parte da produ\u00e7\u00e3o interna e gera empregos. \u00c9 verdade, principalmente no que se refere aos empregos, por mais que tenham se degradado com as contrarreformas que prejudicaram todos os trabalhadores. No entanto, n\u00e3o se pode esquecer, a colabora\u00e7\u00e3o de alguns sindicatos dessa ind\u00fastria com a l\u00f3gica da \u201cparceria-conflitiva\u201d com o patr\u00e3o que contribu\u00edram para a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho. Destarte tudo isso, esse setor ainda oferece bons empregos, em rela\u00e7\u00e3o ao restante do emprego privado. S\u00f3 para se ter uma id\u00e9ia, em 1983 a ind\u00fastria empregava 104 mil e produziu, durante o ano, 830 mil ve\u00edculos; em 2003 o emprego caiu a 79 mil trabalhadores e a produ\u00e7\u00e3o foi de 1 milh\u00e3o e 680 mil ve\u00edculos, atingindo o auge em 2013 com a produ\u00e7\u00e3o de mais de 3,7 milh\u00f5es de ve\u00edculos e empregando mais de 137 mil trabalhadores.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que nessas quase quatro d\u00e9cadas muitas mudan\u00e7as ocorreram, tanto na pol\u00edtica econ\u00f4mica do pa\u00eds quanto no n\u00famero e tipo de empresas automotivas que operaram por aqui. No entanto, uma coisa n\u00e3o mudou significativamente, o padr\u00e3o de neg\u00f3cios que essa ind\u00fastria representa. A ind\u00fastria automotiva, bem como a maioria das multinacionais que se instalou no Brasil, s\u00f3 o fez por conta das vantagens de curto prazo que o pa\u00eds ofereceu: em primeiro lugar, e desde sempre, as mais diversas formas de subs\u00eddio \u2013 desde taxas de c\u00e2mbio privilegiadas, ainda na \u00e9poca da SUMOC, at\u00e9 empr\u00e9stimos e regimes fiscais especiais, nos \u00faltimos tempos; mercado interno robusto e disposto a adquirir, a pre\u00e7os at\u00e9 bem elevados, autom\u00f3veis j\u00e1 bastante depreciados em outras \u00e1reas; sindicalismo \u201ccolaborativo\u201d sempre disposto a participar de diversos formatos de \u201cc\u00e2maras setoriais\u201d para salvar essa ind\u00fastria \u2013 como se ela tivesse que ser resgatada.<\/p>\n<p>At\u00e9 o in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990, a cadeia produtiva do setor automotivo tamb\u00e9m representou o s\u00edmbolo do modelo de desenvolvimento econ\u00f4mico-produtivo do PSI. O chamado trip\u00e9 desse processo de industrializa\u00e7\u00e3o era composto pelo capital estatal, nos setores que demandavam alto investimento e prazos muito elevados de deprecia\u00e7\u00e3o, como na ind\u00fastria de a\u00e7o e petroqu\u00edmica; o capital internacional investiu na produ\u00e7\u00e3o de bens de consumo dur\u00e1veis aproveitando a tecnologia das matrizes e os benef\u00edcios fiscais e legais anteriormente mencionados; e o capital privado nacional foi alocado de forma subsidi\u00e1ria, completando as cadeias produtivas no fornecimento de componentes e servi\u00e7os demandados pelas empresas multinacionais. Assim, surgiram empresas de autope\u00e7as e componentes automotivos nacionais que alcan\u00e7aram relev\u00e2ncia no cen\u00e1rio empresarial brasileiro. No entanto, esse grupo burgu\u00eas n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o procurou dinamizar a pr\u00f3pria atividade industrial com internaliza\u00e7\u00e3o dos demais elos da cadeia produtiva, como, assim que houve mudan\u00e7a nas estrat\u00e9gias internacionais e na pol\u00edtica econ\u00f4mica em geral, desapareceu.<\/p>\n<p>Os brados neodesenvolvimentistas atuais lamentam a perda desse setor da burguesia interna e apontam as medidas macroecon\u00f4micas adotadas pelos governos Collor e Fernando Henrique Cardoso \u2013 seguidos pelos governos petistas \u2013 como respons\u00e1veis pelo desmonte e desaparecimento da ind\u00fastria nacional ligada \u00e0 cadeia produtiva do setor automotivo. No entanto, foram os pr\u00f3prios empres\u00e1rios internos desse setor que apoiaram esses governos e suas medidas. As grandes fam\u00edlias que dominavam a ind\u00fastria de autope\u00e7as (Mindlin, Gerdau, Kasinski \u2013 as mais famosas) n\u00e3o se manifestaram contra as medidas de \u201cdesnacionaliza\u00e7\u00e3o\u201d provocadas pelas pol\u00edticas econ\u00f4micas a partir dos anos 1990, muito ao contr\u00e1rio, encontraram vantagens em se desfazer de seus rent\u00e1veis e bem sucedidos neg\u00f3cios para se alojarem confortavelmente no ganho f\u00e1cil da financeiriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As vantagens oferecidas pelo Regime Automotivo Brasileiro, de 1996, impulsionaram a reestrutura\u00e7\u00e3o do setor com a entrada de novas marcas de montadoras e incrementou desnacionaliza\u00e7\u00e3o do setor de autope\u00e7as. Em 1994, o capital nacional representava 51,9% no setor de autope\u00e7as e caiu para 22,8% em 2001. Enquanto o capital externo passou de 48,1% para 77,2% no mesmo per\u00edodo. O \u00edndice de nacionaliza\u00e7\u00e3o dos ve\u00edculos, que chegou a 95% at\u00e9 os anos 1990, baixou para 55% com o plano Inova-Auto de 2012. Vale lembrar que o \u00edndice de nacionaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o representa capital nacional, mas sim o quanto do ve\u00edculo \u00e9 produzido no pa\u00eds, independente da nacionalidade do capital da empresa.<\/p>\n<p>O programa Inova-Auto, institu\u00eddo em 2012, procurava incentivar, por meio de isen\u00e7\u00e3o fiscal, a internaliza\u00e7\u00e3o da inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. Todavia, de acordo com os resultados apresentados pelo programa, o que ocorreu, na pr\u00e1tica, foi a substitui\u00e7\u00e3o dos investimentos em inova\u00e7\u00e3o feitos pelas empresas automotivas que, antes do programa, utilizavam recursos pr\u00f3prios para os gastos com inova\u00e7\u00e3o e passaram a utilizar recursos p\u00fablicos, chegando at\u00e9 a diminuir o volume. Segundo os dados, em 2011 as empresas investiram cerca de R$ 4,7 bilh\u00f5es em inova\u00e7\u00e3o, caindo para R$ 3,6 bilh\u00f5es em 2014. No mesmo per\u00edodo, o setor p\u00fablico (por meio de incentivos tribut\u00e1rios e barreiras alfandeg\u00e1rias) aumentou sua participa\u00e7\u00e3o, passando de 13,5% para 24,1% dos recursos utilizados pelas empresas para inova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O panorama geral que podemos enxergar diante do itiner\u00e1rio do setor automotivo no pa\u00eds, em compara\u00e7\u00e3o com outros pa\u00edses semelhantes (como a Coreia do Sul, a China e a \u00cdndia), \u00e9 que essa ind\u00fastria, na medida em que representa o s\u00edmbolo da industrializa\u00e7\u00e3o brasileira, demonstra bem o processo geral pelo qual o Brasil atravessa. N\u00e3o internalizou processos produtivos, n\u00e3o contribuiu para a forma\u00e7\u00e3o de um parque industrial-tecnol\u00f3gico nacional, e apenas mant\u00e9m atividades mediante incentivos p\u00fablicos, tanto diretamente, quanto na manuten\u00e7\u00e3o da renda interna que sustente o mercado para seus produtos. Al\u00e9m disso, demonstra tamb\u00e9m o papel desinteressado da burguesia interna no que se refere a qualquer projeto de desenvolvimento.<\/p>\n<p>O fechamento das f\u00e1bricas representa um pesado \u00f4nus sobre os milhares de trabalhadores envolvidos, no entanto, n\u00e3o ser\u00e1 o apelo a alguma burguesia interna que resolver\u00e1 o problema do desenvolvimento e da industrializa\u00e7\u00e3o em nosso pa\u00eds. A \u00fanica alternativa \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de um projeto de autonomia oper\u00e1ria, que tenha sido concebido pelo Poder Popular e que supere o capitalismo realmente existente no Brasil.<\/p>\n<p>No curto prazo, diante desse quadro e para a constru\u00e7\u00e3o do Poder Popular, o caminho \u00e9 a ocupa\u00e7\u00e3o das plantas da Ford pela classe trabalhadora.<\/p>\n<p>*Sofia Manzano<br \/>\nProfessora da Uesb, mestre em economia, doutoranda em Hist\u00f3ria Econ\u00f4mica, autora do livro &#8220;Economia pol\u00edtica para trabalhadores&#8221;, pesquisadora nas \u00e1reas de trabalho, desigualdade, pol\u00edtica econ\u00f4mica e teoria econ\u00f4mica. Integra o Comit\u00ea Central do PCB &#8211; Partido Comunista Brasileiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26826\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[15],"tags":[223],"class_list":["post-26826","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s18-sindical","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6YG","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26826","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26826"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26826\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26826"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26826"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26826"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}