{"id":26904,"date":"2021-02-21T13:57:43","date_gmt":"2021-02-21T16:57:43","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26904"},"modified":"2021-02-21T13:57:43","modified_gmt":"2021-02-21T16:57:43","slug":"senso-comum-e-consciencia-de-classe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26904","title":{"rendered":"Senso comum e consci\u00eancia de classe"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/gramsci.cat\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Gramsci-i-Luckacs.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Senso comum e consci\u00eancia de classe em an\u00e1lises de conjuntura<\/p>\n<p>Por G. Lessa<\/p>\n<p>A desconsidera\u00e7\u00e3o da natureza espec\u00edfica do senso comum na reflex\u00e3o sobre consci\u00eancia de classe e posicionamentos pol\u00edticos empobrece as an\u00e1lises de conjuntura. A atitude leva, entre outros problemas, a oscila\u00e7\u00f5es abruptas entre cren\u00e7a e descren\u00e7a nas possibilidade de a\u00e7\u00e3o consciente dos sujeitos sociais. Assim, por exemplo, o crescimento da influ\u00eancia de massa da extrema direita \u00e9 frequentemente percebido com surpresa, como se os indiv\u00edduos estivessem necessariamente protegidos do obscurantismo pelo avan\u00e7o geral da ci\u00eancia. No caso brasileiro, a abordagem assistem\u00e1tica do pensamento cotidiano tem levado a dificuldades na an\u00e1lise da ades\u00e3o dos trabalhadores ao bolsonarismo.<\/p>\n<p>Entre os autores marxistas mais conhecidos, Luk\u00e1cs e Gramsci foram aqueles que trataram o pensamento cotidiano de maneira mais sistem\u00e1tica. Para o fil\u00f3sofo h\u00fangaro, no livro Est\u00e9tica, publicado em 1963, o senso comum se caracterizaria pelos seguintes tra\u00e7os: 1) materialismo espont\u00e2neo, isto \u00e9, convic\u00e7\u00e3o intuitiva do car\u00e1ter objetivo da realidade imposta pelas necessidades da vida cotidiana, como a necessidade de o pedestre evitar ser atropelado ao atravessar uma avenida ou de alimentar-se todos os dias, que convive com as supersti\u00e7\u00f5es e fantasias mais implaus\u00edveis relativas a v\u00e1rios nexos causais do real; 2) uso da analogia como principal forma de generaliza\u00e7\u00e3o, que abre espa\u00e7o tanto para a flexibilidade na apreens\u00e3o dos fen\u00f4menos como para o esquematismo e o enrijecimento epistemol\u00f3gico; 3) car\u00e1ter hist\u00f3rico e capacidade\/necessidade de absor\u00e7\u00e3o dos resultados da ci\u00eancia, da arte e da filosofia sem abandonar a pr\u00f3pria estrutura.<\/p>\n<p>A abordagem de Gramsci sobre o tema, escrita principalmente nos Cadernos do C\u00e1rcere tr\u00eas d\u00e9cadas antes da publicada por Luk\u00e1cs, tem identidades com aquela do autor de A Destrui\u00e7\u00e3o da Raz\u00e3o e algumas relevantes singularidades. O tratamento gramsciano preocupa-se em rejeitar de pronto qualquer condescend\u00eancia com o senso comum e destacar sua incoer\u00eancia intr\u00ednseca, al\u00e9m do seu conservadorismo. Considera-o o folclore da filosofia, um caldo de afirma\u00e7\u00f5es incongruentes advindas do contato com v\u00e1rias ideologias; defende a necessidade de super\u00e1-lo via a organiza\u00e7\u00e3o de nova hegemonia cultural e pol\u00edtica, que elevaria as massas para al\u00e9m do pensamento cotidiano via a constitui\u00e7\u00e3o de uma rede hierarquizada de intelectuais revolucion\u00e1rios; super\u00e1-lo na medida do poss\u00edvel, pois Gramsci considera que o senso comum seria parte constitutiva da vida.<\/p>\n<p>A perspectiva lukacsiana \u00e9 muito mais otimista do que a gramsciana, pois o marxista h\u00fangaro acredita que o materialismo espont\u00e2neo do senso comum tem raz\u00f5es objetivas, n\u00e3o deriva do contato com outras formas de abstra\u00e7\u00f5es, e cumpriria as fun\u00e7\u00f5es decisivas de tornar a as decis\u00f5es cotidianas poss\u00edveis e de enfraquecer as teorias e atitudes subjetivistas, contribuindo para manter as institui\u00e7\u00f5es e os pensamentos cient\u00edfico e filos\u00f3fico com os p\u00e9s no ch\u00e3o. Gramsci considera o senso comum como um problema e v\u00ea seu materialismo espont\u00e2neo como resultado da absor\u00e7\u00e3o de tra\u00e7os de v\u00e1rios sistemas filos\u00f3ficos\/ideol\u00f3gicos e n\u00e3o como express\u00e3o de circunst\u00e2ncias objetivas perenes (as necessidades pr\u00e1ticas da vida). Marx e Lenin s\u00e3o, evidentemente, as principais inspira\u00e7\u00f5es de ambos, mas se percebe que os dois autores agregam media\u00e7\u00f5es e desenvolvimentos que n\u00e3o estavam expl\u00edcitos nas abordagens do fundador do marxismo e no l\u00edder bolchevique.<\/p>\n<p>Apesar de n\u00e3o ter escrito uma teoria do senso comum, Lenin o compreendeu profundamente, como fica evidente na sua acurada compreens\u00e3o do pensamento dos oper\u00e1rios, camponeses e soldados russos. No cl\u00e1ssico \u201cO que fazer?\u201d, de 1902, no qual apresenta, entre outras coisas, uma teoria da consci\u00eancia de classe e da organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, exp\u00f5e a conhecida tese de que sem contato com uma a cultura marxista erudita, sistem\u00e1tica, n\u00e3o existente no pensamento cotidiano ou nas tradi\u00e7\u00f5es prolet\u00e1rias, os trabalhadores n\u00e3o conseguiriam ir al\u00e9m de uma consci\u00eancia sindical, corporativista, nunca chegariam a uma consci\u00eancia socialista consequente. J\u00e1 no texto \u201cCarta a um camarada\u201d, tamb\u00e9m publicada em 1902, procura demonstrar, em meio a v\u00e1rias outras quest\u00f5es, a necessidade da produ\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria de literatura em v\u00e1rios n\u00edveis de abstra\u00e7\u00e3o, para que cada trabalhador\/a pudesse encontrar leituras de acordo com o seu n\u00edvel de desenvolvimento. Em s\u00edntese, Lenin compreendia o senso comum como elemento intr\u00ednseco ao ser social, determinado por raz\u00f5es objetivas, e positivo na afirma\u00e7\u00e3o de um materialismo espont\u00e2neo (opini\u00e3o expressa no livro sobre o empiriocriticismo); mas tamb\u00e9m acreditava que o pensamento cotidiano era perme\u00e1vel aos resultados da ci\u00eancia e da filosofia, de acordo com o ritmos de cada trabalhador\/a e das circunst\u00e2ncias sociais e pol\u00edticas, mesmo que n\u00e3o pudesse se transformar em ci\u00eancia, modificando a pr\u00f3pria natureza. Esses pressupostos te\u00f3ricos explicam uma das famosas frases de Lenin: \u201cEm determinadas conjunturas, as massas prolet\u00e1rias aprendem em semanas o que duraria anos para aprender em outras circunst\u00e2ncias\u201d.<\/p>\n<p>As li\u00e7\u00f5es desses cl\u00e1ssicos do marxismo (e de v\u00e1rias outros, como Rosa de Luxemburgo, Trotsky, Mari\u00e1tegui e Mao Ts\u00e9-Tung; seria importante estudos sistem\u00e1ticos sobre o tema na tradi\u00e7\u00e3o marxista) nos ajudam a avaliar melhor a subjetividade das classes sociais nas conjunturas pol\u00edticas. Exemplifiquemos com o caso brasileiro.<\/p>\n<p>1) Vejamos um exemplo de como o senso comum absorve determinados resultados da ci\u00eancia (ou de outro discurso explicativo da realidade que seja socialmente aceito como bem elaborado e cr\u00edvel), mas n\u00e3o o faz de maneira definitiva. Parte significativa e crescente da classe trabalhadora brasileira assimilou, pelo menos at\u00e9 2013, teses sobre as principais quest\u00f5es sociais, morais, econ\u00f4micas e pol\u00edticas sustentadas por um discurso cient\u00edfico difundido pela esquerda e a centro-esquerda desde a luta contra a ditadura burgo-militar. Constituiu-se paulatinamente um senso comum progressista em um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o e, depois, atingiu dois ter\u00e7os. Existiram, no entanto, v\u00e1rias concess\u00f5es para o alcance deste resultado, como as presentes na \u201cCartas aos Brasileiros\u201d, publicada pela candidatura Lula em 2002 com o objetivo de angariar o apoio dos eleitores de centro. Como ficou evidente no peso adquirido pela direita nas manifesta\u00e7\u00f5es de 2013, a assimila\u00e7\u00e3o do progressismo\/reformismo socialdemocrata dilu\u00eddo, pela pr\u00f3pria natureza do pensamento cotidiano, foi revertida pela experi\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o com algumas dimens\u00f5es dos governos considerados de esquerda\/progressistas unida \u00e0 onipresente propaganda da extrema direita, que ofereceu outras explica\u00e7\u00f5es, apresentadas como \u201ccientificamente embasadas ou derivadas da b\u00edblia\u201d e difundidas por meio de igrejas neopentecostais, editoras reacion\u00e1rias, gabinetes parlamentares, associa\u00e7\u00f5es empresariais, faculdades privadas, sites, perfis em m\u00eddias sociais, programas de TV e R\u00e1dio. Por mais que a esquerda tenha lutado para apresentar uma alternativa discursiva e disputar o movimento, as Jornadas de Junho de 2013 acabaram expressando o \u00e1pice de uma modifica\u00e7\u00e3o no senso comum que vinha sendo gestada. Mudan\u00e7a de tal ordem que afetou at\u00e9 o entendimento popular de muitas evid\u00eancias emp\u00edricas, como a esfericidade da Terra e a efic\u00e1cia das vacinas. Constituiu-se um novo senso comum, agora de extrema direita, mudou-se o conte\u00fado das ideias-for\u00e7a das grandes narrativas assimiladas pelo pensamento cotidiano.<\/p>\n<p>2) Agreguemos exemplo, tamb\u00e9m da realidade nacional, do materialismo espont\u00e2neo do senso comum reagindo contra explica\u00e7\u00f5es e justificativas conceituais sem base emp\u00edrica suficiente. A partir do auge de popularidade do segundo governo Lula, a secretaria de comunica\u00e7\u00e3o da presid\u00eancia e o PT difundiram discurso que se apresentava como cient\u00edfico, embasado em estat\u00edsticas e conceitos econ\u00f4micos e sociol\u00f3gicos, de que o Brasil, repetindo fen\u00f4meno ocorrido em pa\u00edses centrais, teria se transformado em na\u00e7\u00e3o de classe m\u00e9dia e superado a hist\u00f3rica exclus\u00e3o socioecon\u00f4mica e pol\u00edtica da maioria dos trabalhadores. A recomposi\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo e o aumento de 30% na renda m\u00e9dia geral, puxados pelo aquecimento econ\u00f4mico determinado pelo boom das commodities, unidos ao Bolsa Fam\u00edlia e aos programas de expans\u00e3o educacional, como o FIES, pareciam corroborar a exist\u00eancia do mundo r\u00f3seo criado pela propaganda governamental. No cotidiano, a popula\u00e7\u00e3o trabalhadora e a classe m\u00e9dia dos grandes centros urbanos viviam e constatavam empiricamente outras circunst\u00e2ncias objetivas e n\u00e3o aceitaram o discurso governamental indefinidamente. Deparavam-se com graves problemas provocados pela radicaliza\u00e7\u00e3o do dom\u00ednio do grande capital sobre as cidades e o setor de servi\u00e7os, tais como, o crescimento da criminalidade e do n\u00famero de dependentes qu\u00edmicos, a diminui\u00e7\u00e3o das \u00e1reas de lazer e frui\u00e7\u00e3o cultural, o aumento do pre\u00e7o de passagens e da dura\u00e7\u00e3o m\u00e9dia das viagens no transporte p\u00fablico, a substancial amplia\u00e7\u00e3o dos gastos familiares com telefonia, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o privadas, entre v\u00e1rios outros. Houve, ent\u00e3o, um conflito entre as constata\u00e7\u00f5es emp\u00edricas do senso comum da popula\u00e7\u00e3o urbana e o r\u00f3seo discurso governamental, o que criou a sensa\u00e7\u00e3o generalizada de que o governo e o sistema pol\u00edtico n\u00e3o representavam a maioria dos indiv\u00edduos. Esse conflito entre pensamento cotidiano e discurso petista foi menor no Nordeste, principalmente nas sub-regi\u00f5es nordestinas mais rurais, porque a popula\u00e7\u00e3o partira de um patamar comparativamente inferior de qualidade de vida, e o fato determinou que os programas sociais e a monetariza\u00e7\u00e3o da economia local corroborassem melhor o discurso governamental de que o pa\u00eds estava abandonando a estrutural exclus\u00e3o socioecon\u00f4mica dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Ao concluirmos, desejamos destacar que \u00e9 imperioso articular as teorias do senso comum presentes nos cl\u00e1ssicos do marxismo com a reflex\u00e3o marxiana relativa ao fetichismo das rela\u00e7\u00f5es capitalistas\/coisifica\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia. Do contr\u00e1rio, a pesquisa sobre a trajet\u00f3ria e a configura\u00e7\u00e3o conjuntural do pensamento cotidiano permanece tautol\u00f3gica, pois considera apenas aquilo que est\u00e1 no interior das inst\u00e2ncias subjetivas, na chamada superestrutura. N\u00e3o \u00e9 suficiente falar em interesses materiais que se expressariam na esfera ideol\u00f3gica, \u00e9 necess\u00e1rio explicar as origens e a persist\u00eancia desses interesses na cabe\u00e7a e no cora\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos. A teoria do fetichismo de Marx articula dialeticamente rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e subjetividade, demonstra como a pr\u00f3pria pr\u00e1tica de comprar e vender, seja for\u00e7a de trabalho ou qualquer outra mercadoria, tende a ser interpretada nos momentos em que n\u00e3o h\u00e1 crise econ\u00f4mica de maneira fetichista pelo senso comum. Nesse fen\u00f4meno do encontro entre o senso comum e a apar\u00eancia das rela\u00e7\u00f5es capitalistas se encontra a base de todas as possibilidades da subjetividade na sociedade regida pela l\u00f3gica do capital, tanto as possibilidades de sua justifica\u00e7\u00e3o quanto de sua nega\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria. Ambas implicam em dadas rela\u00e7\u00f5es particulares entre o pensamento cotidiano e as formas mais elaboradas de abstra\u00e7\u00e3o, como a ci\u00eancia, a arte e a filosofia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26904\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[33],"tags":[224],"class_list":["post-26904","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c34-marxismo","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6ZW","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26904","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26904"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26904\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26904"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26904"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26904"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}