{"id":2693,"date":"2012-04-18T01:36:10","date_gmt":"2012-04-18T01:36:10","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2693"},"modified":"2012-04-18T01:36:10","modified_gmt":"2012-04-18T01:36:10","slug":"brasil-redescoberto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2693","title":{"rendered":"Brasil redescoberto"},"content":{"rendered":"\n<p>No novelo de contradi\u00e7\u00f5es que \u00e9 o Brasil neste in\u00edcio do s\u00e9culo XXI as assimetrias sociais s\u00e3o um obst\u00e1culo ao avan\u00e7o da luta de massas. Existem condi\u00e7\u00f5es objectivas muito favor\u00e1veis para a condena\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica actual. Mas faltam as subjectivas.<\/p>\n<p>Esforcei-me, sobretudo no di\u00e1logo fraterno com camaradas do PCB no qual militei nos anos da ditadura para acompanhar o movimento da Hist\u00f3ria e da vida no Brasil contempor\u00e2neo, em vertiginoso, permanente, quase alucinante processo de transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A reflex\u00e3o sobre o que vi, ouvi, estudei nestas semanas refor\u00e7ou paradoxalmente o meu optimismo.<\/p>\n<p>No in\u00edcio dos anos 30 do s\u00e9culo passado, o escritor austr\u00edaco Stefan Zweig escreveu um livro pol\u00e9mico, \u00abBrasil, pa\u00eds do futuro\u00bb. Deixara a Europa enojado com a ascens\u00e3o do nazismo na Alemanha. Ao desembarcar no Rio e viajar pelo interior, a paisagem humana e f\u00edsica que o envolveu produziu nele um efeito estranho. N\u00e3o imaginava que pudesse existir uma sociedade como aquela no quadro tropical que o fascinou.<\/p>\n<p>No Brasil em acelerado processo de miscigena\u00e7\u00e3o anteviu uma humanidade distante, fraterna, sem guerras, na qual o racismo teria desaparecido.<\/p>\n<p>Essa vis\u00e3o rom\u00e2ntica, retomada pelo historiador S\u00e9rgio Buarque da Holanda com o mito do \u00abhomem cordial brasileiro\u00bb, foi rapidamente desmentida. Em plena fase da industrializa\u00e7\u00e3o, uma cruel ditadura militar de duas d\u00e9cadas mergulhou o Brasil numa atmosfera de viol\u00eancia. Ali, como em qualquer outro pa\u00eds, no homo sapiens o apelo da barb\u00e1rie coexistia com a capacidade de realizar prodigiosas conquistas civilizacionais.<\/p>\n<p>A previs\u00e3o de Zweig foi desacreditada pelo andamento da Hist\u00f3ria. Os crimes da ditadura coincidiram com um aprofundamento da domina\u00e7\u00e3o imperialista e da desigualdade social. O fosso entre a mis\u00e9ria e a riqueza ampliou-se al\u00e9m do imagin\u00e1vel. O Brasil tornou-se um pa\u00eds de p\u00e1rias e milion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Em 1957, quando desembarquei em S\u00e3o Paulo, a cidade tinha 2,3 milh\u00f5es de habitantes e uma \u00fanica favela; ao regressar a Portugal em 1974, ap\u00f3s um ex\u00edlio de 17 anos, a \u00e1rea metropolitana da gigantesca megalopolis ultrapassara j\u00e1 os 10 milh\u00f5es e um gigantesco cintur\u00e3o de mis\u00e9ria alastrava pela periferia. Hoje s\u00e3o 18 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Finda a ditadura, ao revisitar S\u00e3o Paulo em 88, n\u00e3o foi f\u00e1cil ambientar-me. O conflito entre a modernidade e o arca\u00edsmo ampliara-se extraordinariamente. Recordei que Levy Strauss definira o Brasil como a terra da \u00abdecad\u00eancia do inacabado\u00bb, impressionado pelo ritmo das transforma\u00e7\u00f5es capitalistas marcadas pela dicotomia constru\u00e7ao-desconstru\u00e7ao.O novo ali envelhece vertiginosamente sem estar terminado.<\/p>\n<p>A vida ofereceu-me a possibilidade de voltar ao Brasil com muita frequ\u00eancia no \u00faltimo quarto de s\u00e9culo. Ali sinto-me brasileiro, ali deixei filhos e netos, na tradi\u00e7\u00e3o da di\u00e1spora portuguesa.<\/p>\n<p>Foi no Brasil, participando nas lutas do seu povo, que me descobri como revolucion\u00e1rio e me tornei comunista, me transformei, na aprendizagem da breve aventura da vida, no homem que sou.<\/p>\n<p>O distanciamento f\u00edsico, a partir do 25 de Abril, n\u00e3o afectou o amor pela terra e aqueles que a povoam.<\/p>\n<p>Mas a muta\u00e7\u00e3o da vida nas grandes cidades brasileiras, nas selvas, sert\u00f5es e cerrados do pa\u00eds \u00e9 t\u00e3o profunda e vertiginosa que em cada regresso sinto com for\u00e7a o choque do novo, do inesperado.<\/p>\n<p>Voltei agora. A convic\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o atravessarei mais o Atl\u00e2ntico ter\u00e1 contribu\u00eddo para que sensa\u00e7\u00f5es, imagens e ideias entrassem em mim ora em desarrumada invas\u00e3o, ora reabrindo na mem\u00f3ria alamedas que a poeira do tempo fechara. Joyce e Proust foram meus companheiros em tr\u00eas semanas de um reencontro com amigos e camaradas que se movem em cidades que, revisitadas, me tocam como seres vivos em di\u00e1logos imagin\u00e1rios.<\/p>\n<p>Uma aus\u00eancia, para mim longa, de quatro anos, imprimiu a estes dias brasileiros a marca de um tempo de revela\u00e7\u00f5es, porque o contacto com o real tido por \u00edntimo era recebido e arquivado como novo.<\/p>\n<p>Caminhando por S\u00e3o Paulo, ao levar a minha companheira a bairros e lugares que eu n\u00e3o via h\u00e1 d\u00e9cadas, senti-me muitas vezes numa cidade desconhecida. Aquilo era simultaneamente, repito, \u00edntimo e novo.<\/p>\n<p><strong>MEGAL\u00d3POLIS ALUCINAT\u00d3RIA<\/strong><\/p>\n<p>Por S\u00e3o Paulo circulam hoje 7 milh\u00f5es de carros e cami\u00f5es. A cada semana milhares de ve\u00edculos novos aparecem nas ruas sa\u00eddos das f\u00e1bricas das grandes transnacionais do autom\u00f3vel instaladas no pa\u00eds. O Brasil \u00e9 actualmente o quinto produtor mundial de carros, com tr\u00eas milh\u00f5es de unidades por ano.<\/p>\n<p>Os t\u00e1xis s\u00e3o car\u00edssimos, os restaurantes tamb\u00e9m. O pre\u00e7o dos apartamentos de qualidade \u00e9 tr\u00eas a quatro vezes superior ao de Portugal.<\/p>\n<p>Um abismo separa na pir\u00e2mide salarial os de cima dos de baixo. O sal\u00e1rio m\u00ednimo \u00e9 inferior ao portugu\u00eas, mas os parlamentares e os professores universit\u00e1rios de topo- dois exemplos &#8211; t\u00eam vencimentos muit\u00edssimo superiores. Os banqueiros e gestores das grandes empresas tamb\u00e9m ganham muito mais.<\/p>\n<p>O tr\u00e1fego em S\u00e3o Paulo envolve a cidade numa atmosfera angustiante. O quotidiano \u00e9 marcado pela imprevisibilidade de engarrafamentos monstruosos. Em algumas avenidas, os corredores reservados aos transportes p\u00fablicos geraram esperan\u00e7as ilus\u00f3rias. Os rod\u00edzios tamb\u00e9m n\u00e3o resolveram os problemas de um tr\u00e2nsito infernal at\u00e9 porque muitas fam\u00edlias t\u00eam tr\u00eas e quatro carros para fintar a proibi\u00e7\u00e3o de circular em determinados dias. A dificuldade para estacionar, inclusive nos parques, \u00e9 inimagin\u00e1vel para os estrangeiros, porque a dimens\u00e3o do desafio supera muito a das grandes cidades europeias e norte-americanas.<\/p>\n<p>O gigantesco caos de S\u00e3o Paulo, diferente do que modela o quotidiano das megal\u00f3polis africanas e asi\u00e1ticas, assusta o forasteiro. A sensa\u00e7\u00e3o de quem chega \u00e9 a de que aquilo n\u00e3o pode continuar como est\u00e1 e que viver ali \u00e9 um pesadelo.<\/p>\n<p>Mas os bairros ricos de S\u00e3o Paulo superam pela modernidade e luxo, no Jardim Europa, no Jardim Am\u00e9rica, no Pacaembu, no Morumbi, o que no g\u00e9nero conhe\u00e7o de Caracas, do M\u00e9xico, de Nova Iorque e Paris. Porque a grande burguesia paulista, ao inv\u00e9s das europeias, gosta de exibir ostensivamente a sua prosperidade insolente, ao lado da mis\u00e9ria degradante que a envolve.<\/p>\n<p>Mas, passados dias, o forasteiro repensa, medita nas contradi\u00e7\u00f5es, hesita, tenta compreender e principia a assimilar o lado invis\u00edvel da vida. \u00c9 tocado pelo feiti\u00e7o brasileiro.<\/p>\n<p>Os absurdos perturbam. Na grande cidade, nos espa\u00e7os verdes, h\u00e1 mais aves do que nas europeias. A viol\u00eancia, filha da desigualdade, indigna e intimida, mas as pessoas, nas ruas, nas lojas, nos transportes, s\u00e3o am\u00e1veis, cordiais. O desconhecido, ao contr\u00e1rio do habitual na Europa, surge, logo no primeiro contacto, com o perfil de um amigo potencial.<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo como no Rio, a alegria de viver, mesmo nos bairros degradados, em favelas imundas, paira na atmosfera, brota dos sorrisos, dos gestos. Por mais sombrias que sejam as perspectivas do amanh\u00e3, o paulista, como o carioca, enxerga luz no fundo do t\u00fanel, cultiva o humor, o futuro pr\u00f3ximo \u00e9 para ele marcado pela esperan\u00e7a e n\u00e3o pelo medo.<\/p>\n<p>O debate de ideias \u00e9 n\u00e3o apenas efervescente, mas criador. Isso acontece no Teatro, no Cinema, na Pintura, na Arquitectura, na Literatura, nas Ci\u00eancias Sociais.<\/p>\n<p><strong>CONTRADI\u00c7\u00d5ES<\/strong><\/p>\n<p>No Rio, a cintura de praias, num cen\u00e1rio paradis\u00edaco, deslumbra, \u00e9 uma festa para os sentidos.<\/p>\n<p>Mas \u00e0 beira do Atl\u00e2ntico, quase subindo das areias, encastoadas em morros verdes, crescem como cogumelos gigantescas favelas mis\u00e9rrimas que exibem o rosto de uma desigualdade social afrontosa da condi\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Os media internacionais dedicaram milhares de palavras \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o pelo ex\u00e9rcito e pela pol\u00edcia militar de algumas das favelas mais famosas para erradicar o crime organizado e o tr\u00e1fico de droga. Houve quem acreditasse que essas opera\u00e7\u00f5es tinham assinalado o fim de uma era. Engano. Muitos bandidos regressaram, o tr\u00e1fico persiste com a cumplicidade dos militares.<\/p>\n<p>O crime est\u00e1 enraizado no submundo das favelas, povoadas de gente boa, a dois passos dos esplendores de Copacabana e da Tijuca.<\/p>\n<p>O governo de Dilma Roussef repete incans\u00e1vel, que a desigualdade social est\u00e1 a diminuir rapidamente no Brasil. Mente. Na estratifica\u00e7\u00e3o de classes as clivagens s\u00e3o muito mais acentuadas do que na Europa. E aprofundaram-se nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>O estamento superior da classe m\u00e9dia toma como modelo os EUA. Na sede de modernidade, na maneira de vestir, no estilo de vida, nos lazeres.<\/p>\n<p>Na juventude com acesso ao ensino superior a obten\u00e7\u00e3o de um diploma confere status, mas a maioria da classe m\u00e9dia alta manifesta um interesse m\u00ednimo pela compreens\u00e3o dos grandes problemas do pa\u00eds e da humanidade. Julga-se culta, mas est\u00e1 distanciada da cultura nas suas m\u00faltiplas vertentes.<\/p>\n<p>Numa ronda pela noite paulista impressionou-me na Vila Madalena a transforma\u00e7\u00e3o da \u00e1rea que eu conhecera h\u00e1 um quarto de s\u00e9culo como bairro em que predominavam modestas casas de uma pequena burguesia an\u00e9mica.<\/p>\n<p>Agora exibe o rosto de um Soho brasileiro, um Greenwich Village paulista. Em bares, caf\u00e9s e restaurantes, em galerias de arte onde transparece o bom gosto, desde a fachada \u00e0 decora\u00e7\u00e3o, convive alegremente uma juventude para mim desconhecida.<\/p>\n<p>Certamente \u00e9 heterog\u00e9nea. Mas, a avaliar pelo bairro e o que sobre ele li, o interesse da brilhante Vila Madalena pela transforma\u00e7\u00e3o humanizada da sociedade brasileira ser\u00e1 escasso, para n\u00e3o dizer nulo.<\/p>\n<p>N\u00e3o era poss\u00edvel, com o ru\u00eddo do ambiente, formar sequer uma ideia do rumo das conversas. Porventura a crise de civiliza\u00e7\u00e3o que a humanidade enfrenta seria assunto em algumas mesas?<\/p>\n<p>Consciente de que perten\u00e7o a outro mundo, senti que Marx, redivivo, se por ali passasse, concluiria que o conceito de aliena\u00e7\u00e3o, por ele definido, mant\u00e9m plena actualidade.<\/p>\n<p><strong>A LUTA DO MST<\/strong><\/p>\n<p>Tive a oportunidade retomar contacto com o Movimento dos Sem Terra.<\/p>\n<p>Falei durante horas, num conv\u00edvio familiar, com Jo\u00e3o Pedro Stedile e outros dirigentes do MST. Duas palestras sobre a conjuntura internacional, uma na Escola Florestan Fernandes, em Guararema, S\u00e3o Paulo, outra em Santa Tereza, no Rio de Janeiro, permitiram-me durante os debates avaliar a qualidade de quadros de diferentes Estados que demonstraram um n\u00edvel de informa\u00e7\u00e3o elevado sobre a crise global do capitalismo e disponibilidade para lutar contra o sistema de opress\u00e3o imperial.<\/p>\n<p>A consci\u00eancia de classe nos militantes do MST \u00e9 uma exig\u00eancia das duras condi\u00e7\u00f5es em que o Movimento luta pela Reforma Agr\u00e1ria. Sem ela n\u00e3o teria sobrevivido.<\/p>\n<p>Mais de quatro milh\u00f5es de camponeses t\u00eam fome de terra num pa\u00eds onde o latif\u00fandio \u00e9 respons\u00e1vel pela exist\u00eancia de dezenas de milh\u00f5es de hectares de terras improdutivas.<\/p>\n<p>Lula comprometeu-se no programa da campanha que o levou \u00e0 Presid\u00eancia em 2002 a levar adiante a Reforma Agr\u00e1ria. Mas logo esqueceu a promessa.<\/p>\n<p>O latif\u00fandio mais insolente e desumano do mundo permanece no Brasil como ofensa aos exclu\u00eddos do campo. No Norte h\u00e1 empresas cujas fazendas t\u00eam a dimens\u00e3o da B\u00e9lgica.<\/p>\n<p>A destrui\u00e7\u00e3o da floresta amaz\u00f3nica, pulm\u00e3o da humanidade, prossegue com a cumplicidade dos governos do PT. No Estado de Rand\u00f3nia a mata virgem quase desapareceu, devastada pelos plantadores de soja e os criadores de gado. No Mato Grosso, em munic\u00edpios com o de Barra do Gra\u00e7as \u2013 duas vezes maior do que Portugal &#8211; a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 similar. H\u00e1 meio s\u00e9culo, quando ali estive, era um para\u00edso verde; hoje a desertifica\u00e7\u00e3o avan\u00e7a em amplas \u00e1reas da bacia do Rio das Mortes e do Araguaia.<\/p>\n<p>O MST cresceu amparado pelas comunidades de base ideadas pela Teologia da Liberta\u00e7ao.<\/p>\n<p>A confian\u00e7a que os seus l\u00edderes depositavam nos sentimentos crist\u00e3os de Lula era ilus\u00f3ria. Em 2011,apenas 22.021 fam\u00edlias obtiveram lotes em assentamentos, o que representou 51% dos conquistados em 1995 no governo de Fernando Henrique Cardoso. O recuo acentuou-se com a chegada de Dilma Roussef \u00e0 Presid\u00eancia (menos 61% do que os lotes atribu\u00eddos em 2003, na \u00e9poca de Lula).<\/p>\n<p>Diferentemente de Fernando Henrique, Lula e Dilma n\u00e3o desencadearam a repress\u00e3o contra o MST. Mas ela prossegue atrav\u00e9s dos governos estaduais, de ju\u00edzes e autarcas corruptos, aliados aos terratenentes.<\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o dos assentamentos assumiu facetas de epopeia nas vertentes social, econ\u00f3mica e politica. O MST criou um movimento de massas com bases sociais em todo o pa\u00eds, instalou escolas, forma quadros, criou inclusive uma universidade popular.<\/p>\n<p>Mas o avan\u00e7o torrencial do agro-neg\u00f3cio, da agro-industria, estimulado pelos governos do PT, paralisou &#8211; \u00e9 a palavra &#8211; a Reforma Agr\u00e1ria. O n\u00famero de assentamentos caiu muito nos \u00faltimos anos. Sem ajuda oficial, hostilizado pelo grande capital e pela maioria dos partidos do sistema, o MST bate-se com a tenacidade dos gregos antigos cantados por Homero.<\/p>\n<p>Uma das suas frentes de batalha \u00e9 agora a luta contra o C\u00f3digo Florestal, aprovado pelo Congresso sob press\u00e3o dos grandes senhores do latif\u00fandio. O MSP, como milhoes de brasileiros, exige que a Presidente Dilma Roussef vete esse diploma monstruoso que, a ser promulgado, refor\u00e7aria privil\u00e9gios do latif\u00fandio e deixaria as portas abertas para a destrui\u00e7\u00e3o do que resta da mata amaz\u00f3nica.<\/p>\n<p><strong>O OUTRO BRASIL<\/strong><\/p>\n<p>Uma imagem distorcida da pol\u00edtica de Lula corre mundo.<\/p>\n<p>Com um estilo e um discurso diferentes, ele deu continuidade \u00e0 pol\u00edtica neoliberal de Fernando Henrique. \u00c9 uma inverdade &#8211; repito- que a desigualdade social tenha diminu\u00eddo durante os seus dois mandatos. Com as suas medidas assistencialistas reduziu a pobreza e a mis\u00e9ria, o que lhe garantiu uma enorme popularidade entre os exclu\u00eddos. Mas o fosso entre os de cima e dos de baixo n\u00e3o diminuiu, \u00e9 hoje mais profundo. A estrat\u00e9gia neodesenvolvimentista de Lula e da sua sucessora, ao engavetar o programa social-democrata, favoreceu o grande capital e as transnacionais. Contou e conta com o apoio do imperialismo, n\u00e3o obstante alguns aspectos positivos da politica exterior.<\/p>\n<p>O prest\u00edgio de Lula entre aquilo a que Marx chamou o lupemproletariado tem funcionado internamente como um anest\u00e9sico. Dificulta extraordinariamente a luta contra a explora\u00e7\u00e3o de que os trabalhadores s\u00e3o v\u00edtimas. Lula foi um sindicalista corajoso que desafiou a ditadura, contribuindo para lhe apressar o fim. No poder neutralizou a combatividade do movimento sindical e passou a utiliz\u00e1-lo como instrumento passivo da sua pol\u00edtica. O controlo da principal Central Sindical, a CUT, \u00e9 hoje uma arma que o PT utiliza bem, favorecido pelo baixo n\u00edvel de consci\u00eancia social da maioria dos trabalhadores, sobretudo no Nordeste e no Norte.<\/p>\n<p>No novelo de contradi\u00e7\u00f5es que \u00e9 o Brasil neste in\u00edcio do s\u00e9culo XXI as assimetrias sociais s\u00e3o um obst\u00e1culo ao avan\u00e7o da luta de massas. Existem condi\u00e7\u00f5es objectivas muito favor\u00e1veis para a condena\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica actual. Mas faltam as subjectivas.<\/p>\n<p>\u00c0 passividade dos exclu\u00eddos soma-se a aliena\u00e7\u00e3o da esmagadora maioria da pequena burguesia, sobretudo dos estamentos preocupados apenas a com a sua ascens\u00e3o social.<\/p>\n<p>Neste panorama confuso, os desafios enfrentados pelas for\u00e7as revolucion\u00e1rios assumem extrema complexidade.<\/p>\n<p>No Brasil surgiu uma intelligentsia brilhante. Das suas grandes universidades \u2013 a de S\u00e3o Paulo e a Unicamp, de Campinas figuram na lista das melhores do mundo \u2013 sa\u00edram nas \u00faltimas d\u00e9cadas soci\u00f3logos, economistas, historiadores e cientistas pol\u00edticos que pelo valor e criatividade das suas obras conquistaram prest\u00edgio mundial.<\/p>\n<p>No campo espec\u00edfico da pol\u00edtica, a diversidade de forma\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas traduziu-se em discursos por vezes antag\u00f3nicos e de assimila\u00e7\u00e3o dif\u00edcil o que, semeando a confus\u00e3o, sobretudo ap\u00f3s o tsunami que implantou o capitalismo na R\u00fassia, n\u00e3o contribuiu para a mobiliza\u00e7\u00e3o das massas contra o sistema.<\/p>\n<p>Comunista, foi sobretudo no di\u00e1logo fraterno com camaradas do PCB no qual militei nos anos da ditadura que me esforcei para acompanhar o movimento da Hist\u00f3ria e da vida no Brasil contempor\u00e2neo, em vertiginoso, permanente, quase alucinante processo de transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A reflex\u00e3o sobre o que vi, ouvi, estudei nestas semanas refor\u00e7ou paradoxalmente o meu optimismo.<\/p>\n<p>Aproveitei um fim-de-semana para rever Paraty, uma cidade colonial, no litoral fluminense, que n\u00e3o lembra qualquer outra por mim conhecida.<\/p>\n<p>Ali era embarcado para Lisboa o ouro que descia em tropas de muares das serranias das Minas Gerais.<\/p>\n<p>Caminhando sobre lajes musgosas em ruelas bel\u00edssimas entre casar\u00f5es do s\u00e9culo XVIII, com o pensamento navegando do passado ao presente e no sentido inverso, a medita\u00e7\u00e3o sobre as pontes que ligam o tempo morto ao tempo vivo fez-me subir \u00e0 mem\u00f3ria o pol\u00e9mico livro de Stefan Zweig. A Historia, creio, vai transformar em realidade a previs\u00e3o que lhe valeu uma chuva de cr\u00edticas. Antevejo o Brasil como um pa\u00eds que anuncia dramaticamente a humanidade futura.<\/p>\n<p><em>Vila Nova de Gaia, Abril de 2012<\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.odiario.info\/?p=2447\" target=\"_blank\">http:\/\/www.odiario.info\/?p=2447<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: ODiario.info\n\n\n\n\n\n\n\n\nMiguel Urbano Rodrigues\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2693\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[54],"tags":[],"class_list":["post-2693","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c65-lulismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Hr","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2693","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2693"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2693\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2693"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2693"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2693"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}