{"id":26987,"date":"2021-03-10T19:46:31","date_gmt":"2021-03-10T22:46:31","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26987"},"modified":"2021-03-10T19:46:31","modified_gmt":"2021-03-10T22:46:31","slug":"a-transformacao-de-valores-em-precos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26987","title":{"rendered":"A transforma\u00e7\u00e3o de valores em pre\u00e7os"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/media.sacbee.com\/static\/weblogs\/photos\/images\/2011\/feb11\/endless_fires_sm\/endless_fires_02.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><br \/>\nLavraPalavra<br \/>\nPor Tokil Lauesen e Zak Cope, via Monthly Review, traduzido por Ricardo Almeida Campos<\/p>\n<p>\u201cEm um mundo onde pre\u00e7os de mercado de bens tendem a ser globais enquanto o pre\u00e7o de mercado da capacidade laboral varia em fun\u00e7\u00e3o da luta de classes \u2013 tanto hist\u00f3rica quanto contempor\u00e2nea \u2013 o resultado \u00e9 a redistribui\u00e7\u00e3o de valor, de pa\u00edses com baixo pre\u00e7o de mercado da capacidade laboral para pa\u00edses com pre\u00e7o de mercado maior dessa capacidade. Portanto, imperialismo deve ser explicado no contexto de transforma\u00e7\u00e3o de valor em pre\u00e7o. Sugerir que isso muda o conceito de explora\u00e7\u00e3o da esfera de produ\u00e7\u00e3o para a da circula\u00e7\u00e3o, no entanto, \u00e9 falso\u201d.<\/p>\n<p>Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Neste artigo, pretendemos demonstrar que os pre\u00e7os baixos de bens produzidos no Sul global e a contribui\u00e7\u00e3o de suas exporta\u00e7\u00f5es ao Produto Interno Bruto (PIB) do Norte oculta a verdadeira depend\u00eancia deste em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e3o de obra barateada no Sul. Argumentamos que a realoca\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria para o Sul global nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas resultou em um aumento massivo na transfer\u00eancia de valor para o Norte. Os principais mecanismos para essa transfer\u00eancia s\u00e3o a repatria\u00e7\u00e3o de mais-valia atrav\u00e9s de investimento estrangeiro direto, a troca desigual de produtos que incorporam diferentes quantidades de valor, e extors\u00e3o por encargo de d\u00edvidas.<\/p>\n<p>A incorpora\u00e7\u00e3o de grandes economias do Sul global em uma sistema mundial capitalista dominado por corpora\u00e7\u00f5es transnacionais e institui\u00e7\u00f5es financeiras baseadas no Norte global estabeleceu essas economias como dependentes de exporta\u00e7\u00e3o e socialmente desarticuladas. As taxas de remunera\u00e7\u00e3o miseravelmente baixas nessas economias se baseiam em (1) press\u00e3o imposta por suas importa\u00e7\u00f5es terem que competir por parcelas limitadas do amplo mercado consumidor metropolitano; (2) drenagem de valor e recursos naturais que poderiam muito bem ser usados para reorganizar as for\u00e7as produtivas da economia nacional; (3) a quest\u00e3o agr\u00e1ria n\u00e3o resolvida dilatando a oferta de m\u00e3o de obra; (4) regimes entreguistas repressivos, que aceitam e se beneficiam diretamente da ordem neoliberal e s\u00e3o portanto incapazes ou indispostos a garantir aumentos salariais \u00e0 sombra do temor de agitar as demandas da classe trabalhadora por mais poder pol\u00edtico; e (5) fronteiras militarizadas que previnem a locomo\u00e7\u00e3o de trabalhadores ao Norte global e, consequentemente, uma equaliza\u00e7\u00e3o de retornos ao trabalho.<\/p>\n<p>A Globaliza\u00e7\u00e3o Imperialista da Produ\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>O debate sobre transfer\u00eancia de valor e trocas desiguais n\u00e3o \u00e9 novidade. Hoje em dia, por\u00e9m, h\u00e1 uma propor\u00e7\u00e3o crescentemente grande de bens consumidos mundialmente que s\u00e3o produzidos no Sul global. Produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9, como nos anos 1970, mais limitada a bens prim\u00e1rios ou industriais simples, como petr\u00f3leo, minerais, caf\u00e9 e brinquedos. Ao inv\u00e9s disso, apesar do relativamente baixo acr\u00e9scimo ao valor de produ\u00e7\u00e3o (mais disso abaixo), virtualmente todos tipos de insumo e produ\u00e7\u00e3o industriais s\u00e3o produzidos no Sul global: de produtos qu\u00edmicos, a bens de metal fabricado, maquin\u00e1rio el\u00e9trico e n\u00e3o el\u00e9trico, eletr\u00f4nicos, mob\u00edlia e equipamento de transporte, a bens t\u00eaxteis, sapatos, roupas, tabaco e combust\u00edveis. [1] Mas por que, e como, essa \u201ctranslada\u00e7\u00e3o\u201d do local de produ\u00e7\u00e3o ocorreu?<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a na divis\u00e3o internacional do trabalho \u00e9 um produto da eterna busca do capital por maiores lucros e \u00e9 baseada, primeiramente, em um enorme crescimento do n\u00famero de prolet\u00e1rios integrados ao sistema mundial capitalista e, em segundo, na industrializa\u00e7\u00e3o substancial do Sul durante as \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas. Isso se fez poss\u00edvel com a dissolu\u00e7\u00e3o das economias Sovi\u00e9tica e de outras na\u00e7\u00f5es socialistas no Leste Europeu, a abertura da economia chinesa ao capitalismo global, e a terceiriza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o para \u00cdndia, Indon\u00e9sia, Vietn\u00e3, Brasil, M\u00e9xico, entre outras na\u00e7\u00f5es mais rec\u00e9m-industrializadas. O resultado foi um crescimento de ao menos um bilh\u00e3o de prolet\u00e1rios mal remunerados dentro do capitalismo global. Hoje, mais de 80% dos trabalhadores industriais est\u00e3o localizados no Sul global, enquanto essa propor\u00e7\u00e3o diminui consistentemente no Norte. Podemos estar vivendo em sociedades p\u00f3s-industriais no Norte, mas o mundo como um todo est\u00e1 mais industrializado que nunca.<\/p>\n<p>A industrializa\u00e7\u00e3o do Sul global n\u00e3o foi antecipada pela teoria da depend\u00eancia dos anos 1960 e 1970. Esta argumentava que o centro do capitalismo deve bloquear qualquer desenvolvimento industrial avan\u00e7ado na assim chamada periferia, para que essa permane\u00e7a como fornecedora de mat\u00e9rias-primas, produtos agr\u00edcolas tropicais, e produ\u00e7\u00e3o industrial simples que usa m\u00e3o de obra intensiva, que, porventura, deve ser trocada por produtos industriais avan\u00e7ados do centro. Poucos analistas haviam previsto a industrializa\u00e7\u00e3o do Sul global enquanto orientada por com\u00e9rcio e investimento do capital metropolitano.<\/p>\n<p>No entanto, a industrializa\u00e7\u00e3o do Sul global acabou por providenciar uma solu\u00e7\u00e3o (tempor\u00e1ria) ao mal estar pol\u00edtico e econ\u00f4mico do capitalismo nos anos 1970, manifestando-se por um lado pelo decl\u00ednio das taxas de lucro, a crise do petr\u00f3leo, e press\u00e3o de movimentos trabalhistas no Norte por sal\u00e1rios ainda maiores por um lado, e por outro, lutas de liberta\u00e7\u00e3o nacional no Sul global. Ainda assim, a industrializa\u00e7\u00e3o do Sul n\u00e3o foi uma concess\u00e3o \u00e0s suas demandas pol\u00edticas; bem pelo contr\u00e1rio. Ao inv\u00e9s de um passo em dire\u00e7\u00e3o a um mundo mais igual, caminhou-se a um aprofundamento das rela\u00e7\u00f5es imperialistas em escala global.<\/p>\n<p>Esta nova pol\u00edtica econ\u00f4mica imperialista repousa sob duas funda\u00e7\u00f5es. Primeiro, o desenvolvimento de novas for\u00e7as produtivas em eletr\u00f4nicos, comunica\u00e7\u00e3o, transporte, log\u00edstica, e gerenciamento: computa\u00e7\u00e3o, a Internet, celulares, transporte de carga, e desenvolvimento de cadeias produtivas globalizadas com regimes administrativos rec\u00e9m-formados. Segundo, o desenvolvimento do neoliberalismo atrav\u00e9s da remo\u00e7\u00e3o de barreiras nacionais ao fluxo de capitais e bens, a privatiza\u00e7\u00e3o de esferas p\u00fablicas e comuns, o estabelecimento de novas institui\u00e7\u00f5es globais como a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio (OMC), encontros mundiais de l\u00edderes (G7, G20, e assim por diante), entre outras formas de administra\u00e7\u00e3o pol\u00edtica global, e novas estrat\u00e9gias militares destinadas a conter e acuar a expans\u00e3o do desenvolvimentismo nacional e socialista.<\/p>\n<p>Neste novo regime de acumula\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 apenas capital e com\u00e9rcio de bens acabados que tornaram-se transnacionais; a pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o foi globalizada em cadeias de valor. Os sub-processos na cadeia produtiva est\u00e3o localizados nos lugares onde o custo de produ\u00e7\u00e3o, infraestrutura, e leis de taxa\u00e7\u00e3o s\u00e3o \u00f3timas ao capital. Um carro ou um computador \u00e9 produzido usando insumos e componentes de centenas de firmas, situadas em v\u00e1rios pa\u00edses, e o produto pode ser montado em diferentes partes do mundo.<\/p>\n<p>O neoliberalismo gestou uma nova divis\u00e3o internacional do trabalho na qual o Sul global se tornou \u201ca f\u00e1brica do mundo.\u201d O capitalismo global cada vez mais polariza o mundo em \u201ceconomias de produ\u00e7\u00e3o\u201d no Sul e \u201ceconomias de consumo\u201d no Norte. A principal for\u00e7a motriz por detr\u00e1s desse processo \u00e9 inquestionavelmente o baixo n\u00edvel salarial no Sul. Como tal, a estrutura da economia global contempor\u00e2nea foi profundamente moldada pela aloca\u00e7\u00e3o do trabalho a setores industriais conforme taxas diferenciais de explora\u00e7\u00e3o no n\u00edvel internacional.<\/p>\n<p>A tenta\u00e7\u00e3o do grande capital em terceirizar a produ\u00e7\u00e3o ou investir em projetos Greenfield no Sul \u00e9 consider\u00e1vel. Nos pa\u00edses ali localizados, a diferen\u00e7a em n\u00edveis salariais n\u00e3o \u00e9 apenas um fator de um contra dois, mas muitas vezes de um contra dez ou at\u00e9 quinze. [2] Em 2010, da for\u00e7a de trabalho mundial de tr\u00eas bilh\u00f5es de pessoas, aproximadamente 942 milh\u00f5es foram classificadas pela Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT) como \u201ctrabalhadores pobres\u201d (cerca de um em tr\u00eas trabalhadores no mundo vivem por menos de $2 ao dia). [3]<\/p>\n<p>De acordo com o economista do Banco Mundial, Branko Milanovi\u0107 (ver Gr\u00e1fico 2), em 1870 a desigualdade global entre cidad\u00e3os do mundo era consideravelmente menor do que \u00e9 hoje. Mais impressionante ainda \u00e9 como que, de predominantemente orientada por classe (isto \u00e9, na concep\u00e7\u00e3o n\u00e3o-marxista de Milanovi\u0107, a parcela da receita nacional), a desigualdade passou a ser orientada quase inteiramente pela localiza\u00e7\u00e3o, esse fator apenas contribuindo para quase 80% da desigualdade global. Assim, escreve ele, \u201c\u00e9 muito mais importante, no sentido global, se voc\u00ea tem sorte de nascer em um pa\u00eds rico do que se a classe \u00e0 qual voc\u00ea pertence em um pa\u00eds rico \u00e9 alta, m\u00e9dia ou baixa.\u201d [4] A coisa n\u00e3o dita \u00e9 que a geografia da desigualdade \u00e9 produto das pol\u00edticas econ\u00f4micas, legais, militares, al\u00e9m das estruturas pol\u00edticas colonialistas e neocolonialistas de outrora. Esses fatores hist\u00f3ricos formam a base para a luta de classes que determina aquilo a que Marx se referia como o aspecto \u201chist\u00f3rico e moral\u201d dos n\u00edveis salariais.<\/p>\n<p>O baixo n\u00edvel dos sal\u00e1rios no Sul cria n\u00e3o apenas uma taxa global de lucro maior que se poderia obter caso assim n\u00e3o o fosse, como tamb\u00e9m afeta o pre\u00e7o de bens produzidos no Sul. Na economia dominante, a forma\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os de mercado para um computador pessoal atrav\u00e9s da cadeia de produ\u00e7\u00e3o poderia ser descrita como uma \u201ccurva sorridente\u201d para \u201cvalor\u201d (sic) adicionado (ver Gr\u00e1fico 3). [5] \u201cValor adicionado\u201d \u2013 que na teoria dominante \u00e9 simplesmente o equivalente \u00e0 nova receita adicionada medida em termos convencionais de pre\u00e7o \u2013 \u00e9 elevado na primeira parte da cadeia, em pesquisa e desenvolvimento, design, e gest\u00e3o financeira volumosamente financiados, situados no Norte, enquanto a curva decresce no meio, com baixa remunera\u00e7\u00e3o durante a constru\u00e7\u00e3o do produto f\u00edsico. O valor adicionado\/pre\u00e7o cresce novamente ao fim da curva com gest\u00e3o de marca, marketing, e vendas ocorrendo no Norte global, apesar de os sal\u00e1rios para trabalhadores de varejo estarem entre os menores nesses pa\u00edses.<\/p>\n<p>Na l\u00f3gica da \u201ccurva sorridente\u201d, a maior parte do valor do produto \u00e9 adicionada no Norte, enquanto o trabalho no Sul, que fabrica os bens, contribui apenas com uma por\u00e7\u00e3o m\u00ednima disso. Seguindo esse racioc\u00ednio, corpora\u00e7\u00f5es multinacionais realizam um servi\u00e7o p\u00fablico ao reduzir o pre\u00e7o de bens de consumo. Em verdade, no entanto, os pre\u00e7os de mercado baixos desses bens oculta o fato de que trabalhadores t\u00eam de viver em condi\u00e7\u00f5es miser\u00e1veis devido \u00e0 baixa remunera\u00e7\u00e3o e condi\u00e7\u00f5es de trabalho extenuantes na parte Sul das cadeias de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em termos marxistas, em contraste, o valor \u00e9 a soma do trabalho socialmente necess\u00e1rio direto e indireto que foi gasto na produ\u00e7\u00e3o de uma mercadoria (na forma de trabalho atualmente realizado ou \u201ctrabalho vivo\u201d e capital ou \u201ctrabalho morto,\u201d respectivamente). Embora que, como veremos, o pre\u00e7o de uma mercadoria regularmente diverge de seu valor, ele \u00e9, em \u00faltima an\u00e1lise, determinado pelo valor. Assim, se algu\u00e9m desenhasse a curva seguindo o conceito marxista de valor adicionado, em uma cadeia de produ\u00e7\u00e3o de computadores, ela assumiria uma forma um tanto oposta \u00e0 curva sorridente \u2013 um certo \u201csorrisinho triste\u201d (ver Gr\u00e1fico 3). Mas se h\u00e1 uma correla\u00e7\u00e3o entre valor no sentido marxista e o pre\u00e7o de mercado, como acontece essa transforma\u00e7\u00e3o de um sorrisinho triste do valor em uma curva sorridente feliz do pre\u00e7o de mercado?<\/p>\n<p>A Transforma\u00e7\u00e3o Valor-Pre\u00e7o<\/p>\n<p>Independentemente das diferen\u00e7as entre teorias econ\u00f4micas, ambas tendem a concordar que o pre\u00e7o da produ\u00e7\u00e3o de uma mercadoria \u00e9 igual ao pre\u00e7o dos insumos materiais mais a remunera\u00e7\u00e3o daqueles a que s\u00e3o concedidas reivindica\u00e7\u00f5es na parte do valor de dita produ\u00e7\u00e3o. Esta segunda parte subdivide-se na parte pertinente a sal\u00e1rios e na parte pertinente \u00e0s demais reivindica\u00e7\u00f5es: lucro, renda, juros, etc.<\/p>\n<p>Mas qual \u00e9 a vari\u00e1vel independente da economia que determina pre\u00e7os? Na economia neocl\u00e1ssica, o determinante \u00faltimo \u00e9 \u201co mercado,\u201d isto \u00e9, as necessidades e prefer\u00eancias subjetivas do consumidor. Essas necessidades e prefer\u00eancias determinam os pre\u00e7os dos bens finalizados e esses, em contrapartida, determinam custos salariais e margens de lucro. Portanto, pre\u00e7os servem ao prop\u00f3sito de medir demandas no mercado e ascender atrav\u00e9s do com\u00e9rcio entre partes concorrentes.<\/p>\n<p>Em contraste, a teoria de valor marxista coloca a determina\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os no lado da economia que diz respeito \u00e0 produ\u00e7\u00e3o. O custo de produ\u00e7\u00e3o, ou pre\u00e7o de custo, \u00e9 a pedra basilar na transi\u00e7\u00e3o de valor a pre\u00e7o de mercado. O pre\u00e7o de custo de um produto consiste dos custos de capital \u201cconstante\u201d (mat\u00e9rias-primas, maquinaria, invent\u00e1rio, etc) e capital \u201cvari\u00e1vel\u201d (ou seja, sal\u00e1rios). Juntamente ao pre\u00e7o de custo, o pre\u00e7o de mercado deve cobrir ao menos a taxa m\u00e9dia de lucro. Isso se deve ao fato de mercadorias necessitarem produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o cont\u00ednuas, e que se capitalistas n\u00e3o recuperam os custos de produ\u00e7\u00e3o mais algum lucro quando vendem, a (re)produ\u00e7\u00e3o p\u00e1ra. Portanto, na economia marxista, o pre\u00e7o de mercado reflete os custos de reprodu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como mensuramos o custo de produ\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, os insumos necess\u00e1rios \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de uma mercadoria? N\u00e3o podemos utilizar pre\u00e7o em geral para medir insumos, j\u00e1 que pre\u00e7os s\u00e3o o que estamos tentando explicar em primeiro lugar. Todos os pre\u00e7os de mercado em uma economia capitalista s\u00e3o em \u00faltima inst\u00e2ncia ligados \u00e0 extens\u00e3o do consumo de m\u00e3o de obra. Seu pre\u00e7o \u2013 o sal\u00e1rio \u2013 \u00e9 determinado n\u00e3o apenas pelos custos de reprodu\u00e7\u00e3o (seus pr\u00f3prios custos de produ\u00e7\u00e3o: alimento, moradia, educa\u00e7\u00e3o, e assim por diante), mas tamb\u00e9m pela luta pol\u00edtica \u2013 luta de classes \u2013 refletindo rela\u00e7\u00f5es de poder entre classes e grupos na sociedade. Assim, enquanto oferta e demanda podem dar uns toques finais, o fator b\u00e1sico ao pre\u00e7o de mercado \u00e9 o custo de produ\u00e7\u00e3o, e com isso o pre\u00e7o da for\u00e7a de trabalho.<\/p>\n<p>Para Marx, os pre\u00e7os de mercadorias convencionais s\u00e3o determinados pelo seu valor. Ao competir com suas rivais pela participa\u00e7\u00e3o nos lucros, as empresas devem reduzir o tempo de trabalho requerido para produzir mercadorias introduzindo novas tecnologias. Concorr\u00eancia dentro de um setor leva \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os padr\u00e3o para commodities padr\u00e3o, enquanto a competi\u00e7\u00e3o entre setores industriais resulta na apropria\u00e7\u00e3o de uma taxa m\u00e9dia de lucro por produtores comuns dentro de cada setor. Acrescentados ao custo de produ\u00e7\u00e3o, essa taxa m\u00e9dia de lucro gera os pre\u00e7os de produ\u00e7\u00e3o como valores de mercado \u201cmodificados.\u201d [6]<\/p>\n<p>O pre\u00e7o de produ\u00e7\u00e3o de um commodity espec\u00edfico, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 o mesmo que o seu valor, ainda que o pre\u00e7o agregado de todas mercadorias seja o mesmo que o valor agregado. Trabalhadores de diferentes firmas que recebem as mesmas m\u00e9dias salariais e trabalham as mesmas horas por dia criam as mesmas somas de mais-valia, isto \u00e9, a diferen\u00e7a entre o tempo que o trabalhador passa reproduzindo sua pr\u00f3pria for\u00e7a de trabalho e o total de tempo em que ele \u00e9 empregado. Assim, pode-se esperar que empresas que usam mais m\u00e3o de obra intensiva gerem taxas maiores de mais-valia e, portanto, comandem as maiores taxas de lucro. A movimenta\u00e7\u00e3o de capital entre firmas e setores industriais, e as altera\u00e7\u00f5es resultantes nas oferta e demanda, no entanto, garante que n\u00edveis de pre\u00e7o ultimamente se acomodem no ponto em que a taxa de lucro \u00e9 a mesma em todas as ind\u00fastrias.<\/p>\n<p>Enquanto capital \u00e9 retirado de ind\u00fastrias com taxas de lucro baixas e investido nas com taxas maiores, a produ\u00e7\u00e3o (oferta) nas primeiras declina e os pre\u00e7os crescem acima das reais somas de valor com mais-valia que essa ind\u00fastria particular gera, e tamb\u00e9m inversamente. Ent\u00e3o capitais com diferentes composi\u00e7\u00f5es org\u00e2nicas (a propor\u00e7\u00e3o entre capital constante e vari\u00e1vel) acabam por vender mercadorias a pre\u00e7os medianos e a mais-valia \u00e9 distribu\u00edda mais ou menos uniformemente por todos os ramos de produ\u00e7\u00e3o conforme o total de capital \u2013 constante e vari\u00e1vel \u2013 avan\u00e7ado. [7] Uma taxa m\u00e9dia de lucro \u00e9 formada pela busca cont\u00ednua de capitais concorrentes por lucros maiores e a fuga de capitais de e para os setores industriais que produzem commodities em alta ou baixa demanda. No geral, a venda de uma mercadoria por menos que seu valor corresponde \u00e0 venda de outra mercadoria por mais que seu valor.<\/p>\n<p>\u00c9 atrav\u00e9s da transforma\u00e7\u00e3o em pre\u00e7os de mercado que valor e mais-valia s\u00e3o distribu\u00eddos entre capitalista dentre e entre setores. A distribui\u00e7\u00e3o desigual de valor ocorre em fun\u00e7\u00e3o de composi\u00e7\u00f5es mais ou menos org\u00e2nicas e de valor do capital, renda extra\u00edda por monop\u00f3lio e monops\u00f4nio, produtividade relativa, e a tend\u00eancia \u00e0 equaliza\u00e7\u00e3o das margens de lucro. Isso ocorre entre capital e m\u00e3o de obra atrav\u00e9s dos ganhos das respectivas partes \u2013 lucros e sal\u00e1rios \u2013 resultantes das rela\u00e7\u00f5es de classe prevalentes. Crucialmente, isso tamb\u00e9m ocorre entre na\u00e7\u00f5es por causa de diferen\u00e7as entre o pre\u00e7o de mercado nacional da for\u00e7a de trabalho (o sal\u00e1rio) e o pre\u00e7o de mercado desse bens que a m\u00e3o de obra consome (o pacote salarial).<\/p>\n<p>A Estrutura Global<\/p>\n<p>Hoje, os pre\u00e7os de produ\u00e7\u00e3o s\u00e3o determinados em uma escala global na medida que o capital possui a habilidade de circular transnacionalmente com fim de garantir o maior lucro poss\u00edvel por seus investimentos. A mobilidade do capital para al\u00e9m de fronteiras nacionais e a tend\u00eancia a uma equaliza\u00e7\u00e3o da taxa de lucro, apesar de taxas de explora\u00e7\u00e3o massivamente divergentes (a propor\u00e7\u00e3o entre o tempo de trabalho necess\u00e1rio \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de capacidade laboral e o trabalho concreto gasto), \u00e9 a pr\u00e9-condi\u00e7\u00e3o para a forma\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os globais de produ\u00e7\u00e3o. Como o economista marxista Henryk Grossman notou:<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, a forma\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os no mercado mundial \u00e9 governado pelos mesmos princ\u00edpios que se aplicam sob um capitalismo conceitualmente isolado. Esse \u00faltimo, de qualquer forma, \u00e9 meramente um modelo te\u00f3rico; o mercado mundial, enquanto uma unidade de economias nacionais espec\u00edficas, \u00e9 algo real e concreto. Hoje os pre\u00e7os das mat\u00e9rias-primas e produtos finalizados mais importantes s\u00e3o determinados internacionalmente, no mercado mundial. N\u00e3o somos mais confrontados por um n\u00edvel nacional de pre\u00e7os mas por um n\u00edvel determinado no mercado mundial. [8]<\/p>\n<p>O ac\u00famulo de capital ocorre em uma escala mundial ao ponto de n\u00e3o existirem impedimentos legais ou pol\u00edticos aos livres com\u00e9rcio e investimento. \u00c0 medida que as rela\u00e7\u00f5es capitalistas de produ\u00e7\u00e3o avan\u00e7am, o valor gerado pelo trabalho no n\u00edvel mundial est\u00e1 ligado \u00e0 \u201cm\u00e9dia\u201d mundial de desenvolvimento das for\u00e7as produtivas. De acordo com Nicholas:<\/p>\n<p>Para Marx, assim que um bem se torna integral \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o de um sistema econ\u00f4mico baseado na troca, o trabalho gasto na sua produ\u00e7\u00e3o se torna parte do trabalho necess\u00e1rio para a reprodu\u00e7\u00e3o de todo o sistema e qualitativamente equivalente a todas outras formas de trabalho utilizadas na produ\u00e7\u00e3o de todos outros bens que sejam similarmente integrais \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o do sistema econ\u00f4mico. [9]<\/p>\n<p>Isso diz respeito tanto a economias nacionais como internacionais. No entanto, o pre\u00e7o da for\u00e7a de trabalho \u2013 o sal\u00e1rio \u2013 se difere enormemente no n\u00edvel global entre Norte e Sul.<\/p>\n<p>Em um mundo onde pre\u00e7os de mercado de bens tendem a ser globais enquanto o pre\u00e7o de mercado da capacidade laboral varia em fun\u00e7\u00e3o da luta de classes \u2013 tanto hist\u00f3rica quanto contempor\u00e2nea \u2013 o resultado \u00e9 a redistribui\u00e7\u00e3o de valor, de pa\u00edses com baixo pre\u00e7o de mercado da capacidade laboral para pa\u00edses com pre\u00e7o de mercado maior dessa capacidade. Portanto, o imperialismo deve ser explicado no contexto de transforma\u00e7\u00e3o de valor em pre\u00e7o. Sugerir que isso muda o conceito de explora\u00e7\u00e3o da esfera de produ\u00e7\u00e3o para a da circula\u00e7\u00e3o, no entanto, \u00e9 falso.<\/p>\n<p>\u00c9 o trabalho humano que cria valor e a oferta de trabalho que cria mais-valia. Por\u00e9m, (mais-valia) valor n\u00e3o \u00e9 uma propriedade f\u00edsica que o trabalho acrescenta aos bens como uma mol\u00e9cula incorporada e armazenada no produto. Na verdade, o valor e a transforma\u00e7\u00e3o do valor em pre\u00e7o de mercado \u00e9 resultado das rela\u00e7\u00f5es sociais entre trabalho e capital e entre diferentes capitais. \u00c9 a transforma\u00e7\u00e3o de valor em pre\u00e7o de mercado que garante a continuidade do processo de acumula\u00e7\u00e3o em uma escala expandida. Este circuito expandido de capital envolve a transforma\u00e7\u00e3o de valor e mais-valia em lucro, e a transfer\u00eancia de valor do Sul ao Norte conforme os pre\u00e7os baixos pagos por bens produzidos no Sul pelo Norte. A explora\u00e7\u00e3o n\u00e3o ocorre, portanto, em um setor particular de produ\u00e7\u00e3o ou economia nacional; \u00e9 o resultado do processo de acumula\u00e7\u00e3o capitalista global total.<\/p>\n<p>Podemos agora deixar essas considera\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas e seguir a um exemplo mais espec\u00edfico dessa din\u00e2mica, nominalmente, a produ\u00e7\u00e3o globalizada do onipresente Apple iPad.<\/p>\n<p>O Miolo da Ma\u00e7\u00e3<\/p>\n<p>Baseado em pesquisa detalhada feita por Kraemer, Linden e Dedrich [10] sobre as linhas de produ\u00e7\u00e3o da Apple, Donald A. Clelland analisou o tamanho e transfer\u00eancia de valor no sistema mundial atrav\u00e9s do mecanismo de pre\u00e7o de mercado. [11]<\/p>\n<p>O iPad \u00e9 produzido pela Apple, uma companhia situada nos EUA. Entre meados de 2010 e de 2011, a Apple vendeu pouco mais de 100 milh\u00f5es de iPads. \u00c9 a inst\u00e2ncia exemplar de uma empresa \u201csem f\u00e1bricas&#8221; \u2013 sem fabrica\u00e7\u00e3o. A Apple desenvolve, projeta, patenteia e vende computadores e equipamentos de comunica\u00e7\u00e3o enquanto terceiriza o verdadeiro processo de fabrica\u00e7\u00e3o dos bens que vende. Todos iPads s\u00e3o montados na China. A Apple integrou 748 fornecedores de materiais e componentes na sua cadeia de produ\u00e7\u00e3o, 82% deles situados na \u00c1sia \u2013 351 dos quais se encontram na China. [12]<\/p>\n<p>A cada etapa na cadeia de produ\u00e7\u00e3o, existem entradas de materiais \u00e0s quais s\u00e3o adicionados sal\u00e1rios, gerenciamento, custos fixos, e lucros. O pre\u00e7o monetizado total destes fatores, em todas as etapas da cadeia, se iguala ao pre\u00e7o de venda. Isso \u00e9 o que Cleveland chama de \u201cvalor brilhante\u201d em uma cadeia de commodities. [13]<\/p>\n<p>O pre\u00e7o de mercado de um iPad em 2010-2011 era $499, com o pre\u00e7o de f\u00e1brica estipulado em $275. Do pre\u00e7o de f\u00e1brica, apenas cerca de $33 destinavam-se aos custos de produ\u00e7\u00e3o no Sul global, enquanto bons $150 da margem de lucro bruta da Apple foram destinados ao design de ponta, marketing, e sal\u00e1rios administrativos, assim como pesquisa e desenvolvimento e custos operacionais mantidos principalmente no Norte global. [14] A distribui\u00e7\u00e3o desse \u201cvalor\u201d em sal\u00e1rio e lucros \u00e9 bem representada pela \u201ccurva sorridente.\u201d<\/p>\n<p>No entanto, a economia mundial capitalista assume a forma de um iceberg. A parte mais estudada \u2013 o \u201cvalor brilhante\u201d acima da superf\u00edcie \u2013 \u00e9 apoiada por uma imensa estrutura subjacente, fora de vista. Ao contr\u00e1rio do iceberg, a economia mundial \u00e9 um sistema din\u00e2mico baseado em fluxos de valor da parte debaixo \u00e0 de cima \u2013 do Sul ao Norte. Esses fluxos incluem drenos que assumem duas formas: fluxos monetizados de valor brilhante vis\u00edveis e fluxos ocultos que carregam \u201cvalor escuro\u201d gerado por um n\u00famero incalculado de m\u00e3o de obra barata e reprodu\u00e7\u00e3o do trabalho pelo setor informal \u2013 n\u00e3o assalariado \u2013 e externalidades ecol\u00f3gicas n\u00e3o pagas. O termo \u201cvalor escuro\u201d \u00e9 inspirado no reconhecimento cient\u00edfico de que mat\u00e9ria e energia comp\u00f5em apenas 5% do universo como o conhecemos, e \u201cmat\u00e9ria escura\u201d e \u201cenergia escura\u201d comp\u00f5em o restante. Assim como energia escura n\u00e3o contabilizada dirige a expans\u00e3o do universo, o \u201cvalor escuro\u201d \u00e9 o trabalho ocultado e precarizado que dirige a expans\u00e3o do sistema mundial capitalista. [15]<\/p>\n<p>Se o iPad passasse a ser fabricado nos Estados Unidos, o custo salarial de produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o seria de $45 mas sim $442. E se dermos um passo adiante na estrutura de produ\u00e7\u00e3o do iPad, at\u00e9 os subcomponentes e entrada de mat\u00e9rias-primas, aprendemos que a maioria desses insumos materiais s\u00e3o tamb\u00e9m produzidos no Sul com um custo-sal\u00e1rio aproximado de $35 por iPad. Se essa produ\u00e7\u00e3o se desse tamb\u00e9m nos Estados Unidos, o custo salarial seria de aproximadamente $210.<\/p>\n<p>Os trabalhadores (do Sul) na linha de produ\u00e7\u00e3o dos iPads da Apple n\u00e3o recebem menos porque sua produtividade \u00e9 menor que a dos trabalhadores do Norte. Na verdade, eles s\u00e3o provavelmente mais produtivos. Os fornecedores da Apple s\u00e3o l\u00edderes mundiais na aplica\u00e7\u00e3o de tecnologia de ponta. Seu pessoal administrativo dirige trabalhadores utilizando m\u00e9todos tayloristas e semanas de trabalho mais longas que n\u00e3o s\u00e3o toleradas legalmente no Norte. Fornecedores organizam cronogramas que intensificam a produtividade de seus trabalhadores, com turnos di\u00e1rios de 12 horas e intensa supervis\u00e3o sendo rotineiros. Semanas de trabalho ultrapassam 60 horas porque trabalhadores s\u00e3o obrigados a cumprir tempo extra, excedendo regulamenta\u00e7\u00f5es legais. [16] Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 surpreendente que em 2011 quando Steve Jobs, ent\u00e3o CEO da Apple, foi questionado pelo Presidente Obama em um jantar na Casa Branca sobre \u201cO que seria necess\u00e1rio para trazer a produ\u00e7\u00e3o da Apple de volta para casa?\u201d e respondeu: \u201cEstes empregos n\u00e3o v\u00e3o voltar.\u201d [17]<\/p>\n<p>No momento em que uma mercadoria passou por numerosas etapas de uma cadeia global e chegou \u00e0 porta do consumidor, ela incorporou n\u00e3o apenas os insumos da for\u00e7a de trabalho mal remunerada como tamb\u00e9m as quantidades imensas de trabalho precarizado e n\u00e3o remunerado, al\u00e9m dos insumos ecol\u00f3gicos. Capitalistas drenam excedentes ocultos de atividades caseiras e do setor informal. Uma longa cadeia de valor escuro de produtores de alimentos e atividades informais \u00e9 necess\u00e1ria para gerar a capacidade produtiva e a sobreviv\u00eancia de cada prolet\u00e1rio remunerado. Esse fluxo de valor escuro diminui os custos de reprodu\u00e7\u00e3o do trabalho perif\u00e9rico e, assim, o n\u00edvel de sal\u00e1rio que os capitalistas pagam. Esses setores dom\u00e9sticos e informais n\u00e3o est\u00e3o fora do capitalismo, s\u00e3o de fato componentes intr\u00ednsecos das cadeias globais de commodities.<\/p>\n<p>Degrada\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica, polui\u00e7\u00e3o, e esgotamento dos recursos naturais comp\u00f5em toda uma gama de externalidades pelas quais fornecedores da Apple extraem valor escuro. Cada iPad utiliza 33 quilos de minerais (alguns dos quais s\u00e3o raros e limitados em oferta), 79 gal\u00f5es de \u00e1gua, e energia movida a combust\u00edveis f\u00f3sseis suficiente para gerar quase 30 quilos de di\u00f3xido de carbono. No fim das contas, a produ\u00e7\u00e3o de um iPad gera 105 kg de gases de efeito estufa. [18] Todos esses fardos ecol\u00f3gicos s\u00e3o colocados nos ombros de China e outros pa\u00edses asi\u00e1ticos, enquanto o produto \u00e9 consumido no Norte global. Degrada\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica \u00e9 uma externalidade que est\u00e1 embutida no iPad como valor escuro. Observando apenas os custos de polui\u00e7\u00e3o, Clelland estima que a Apple dribla o custo de $190 por unidade que teria que pagar nos EUA por externalidades ecol\u00f3gicas. [19] O capitalismo \u00e9 dependente de, e dirigido por, todas essas formas de valor escuro. Esses fatores nunca aparecem na contagem dos custos de produ\u00e7\u00e3o; s\u00e3o \u201cpresentes\u201d invis\u00edveis para os capitalistas e para os compradores.<\/p>\n<p>Marx acreditava que o valor da for\u00e7a de trabalho declinaria com a produtividade elevada da m\u00e3o de obra, e onde isso n\u00e3o ocorresse, a queda tendencial da taxa geral de lucro assim ocasionada deveria se intensificar. Sob o imperialismo e o sistema global de opress\u00e3o nacional agora estabelecido, no entanto, o capital monopolista \u00e9 capaz de garantir custos baixos pelos bens de consumo dos trabalhadores produzidos por m\u00e3o de obra superexplorada no Sul. Junto ao paralelo barateamento do capital constante atrav\u00e9s de importa\u00e7\u00e3o de materiais intermedi\u00e1rios e mat\u00e9rias-primas de baixo custo, a venda de bens de consumo a pre\u00e7os baixos para trabalhadores (super assalariados) dos pa\u00edses imperialistas barateia o valor da m\u00e3o de obra, assim aumentando o n\u00edvel de \u201cmais-valia\u201d produzida localmente. Assim, trabalhadores do Norte podem parecer mais produtivos em termos dos lucros que eles geram. Em termos de \u201cprodutividade,\u201d no entanto, a principal forma de medir \u201cprodutividade\u201d n\u00e3o \u00e9 \u201cvalor adicionado\u201d por hora de trabalho \u2013 isso depende dos pre\u00e7os de venda inflados por monop\u00f3lio, pre\u00e7os de transfer\u00eancia, trocas desiguais, e interven\u00e7\u00e3o estatal, militar, e policial para reprimir custos de trabalho no exterior \u2013 mas por custos de m\u00e3o de obra hor\u00e1rios relativos ao lucro gerado em n\u00edvel global.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que creem muitos ativistas trabalhistas metropolitanos, assim, n\u00e3o s\u00e3o apenas capitalistas ao Norte que se beneficiam materialmente da superexplora\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra mal remunerada no Sul. \u201cNo caso do iPad, a maior parte do valor escuro extra\u00eddo \u00e9 realizado, n\u00e3o como lucro corporativo, mas como excedente do consumidor na forma de bens mais baratos. Consequentemente, o cidad\u00e3o central se torna um benefici\u00e1rio inconsciente desse sistema explorat\u00f3rio quando ele(a) utiliza o correspondente uma hora de seu sal\u00e1rio para comprar um produto que incorpora muitas mais horas mal remuneradas, quando remuneradas, e muitos outros materiais subvalorizados e insumos ecol\u00f3gicos.\u201d [20]<\/p>\n<p>A Perspectiva Pol\u00edtica<\/p>\n<p>A perspectiva pol\u00edtica estabelecida pela an\u00e1lise presente \u00e9 que o potencial para mudan\u00e7a revolucion\u00e1ria no s\u00e9culo 21 surge do Sul. Ali centenas de milh\u00f5es de novos prolet\u00e1rios industriais concentrados em f\u00e1bricas sob severas condi\u00e7\u00f5es de trabalho est\u00e3o recebendo sal\u00e1rios incrivelmente baixos, a privatiza\u00e7\u00e3o de terras no atacado est\u00e1 destituindo milh\u00f5es de fazendeiros pobres de terra e renda (eles s\u00e3o ent\u00e3o obrigados a buscar trabalhos extremamente \u00e1rduos pela mais m\u00edsera remunera\u00e7\u00e3o), e a diferen\u00e7a de condi\u00e7\u00f5es de vida que existem entre Norte e Sul est\u00e3o a olhos vistos, gra\u00e7as \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o da m\u00eddia e \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es. [21]<\/p>\n<p>Esta contradi\u00e7\u00e3o deve eventualmente manifestar-se em movimentos anti-capitalistas no caminho do socialismo (e al\u00e9m). No Sul global residem essas classes com ambos o interesse objetivo e a capacidade de resistir ao neoliberalismo global. Similar \u00e0 onda de movimentos de liberta\u00e7\u00e3o nacional anti-coloniais que irromperam pelo Terceiro Mundo de 1945 a 1975, prevemos a possibilidade de uma nova onda de movimentos anti-capitalistas nos anos por vir.<\/p>\n<p>Devido \u00e0 posi\u00e7\u00e3o central do novo proletariado do Sul, sua for\u00e7a na economia global \u00e9 muito maior do que era quando estava sob a onda de movimentos de liberta\u00e7\u00e3o que varreram o mundo nos anos 1960 e 1970. No entanto, a realiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dessa for\u00e7a n\u00e3o \u00e9 dada. As for\u00e7as subjetivas n\u00e3o est\u00e3o presentes no Sul ou no Norte. Portanto, a tarefa da esquerda global \u00e9 enorme. Nos anos 1970, milh\u00f5es lutaram e morreram pelo socialismo. Aqueles que lutam pelo comunismo hoje s\u00e3o poucos, se compararmos. Socialismo n\u00e3o \u00e9 exatamente uma \u201cmarca\u201d forte. A divis\u00e3o do globo em Sul e Norte se reflete em uma divis\u00e3o da classe trabalhadora global, para que uma parte dessa receba benef\u00edcios econ\u00f4micos e pol\u00edticos bastante consider\u00e1veis que auxiliem na estabilidade de sua alian\u00e7a com o status quo imperialista. Essa alian\u00e7a \u00e9, claramente, impulsionada pela aceita\u00e7\u00e3o dos consumidores para com a propaganda estatal e de grandes monop\u00f3lios de m\u00eddia. \u00c9 um dos problemas mais profundos a serem enfrentados pelos socialistas da atualidade, globalmente.<\/p>\n<p>Para encarar esses problemas devemos primeiramente assumir uma perspectiva global na luta no interesse de a igualar \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o do capital. Apenas a partir dessa perspectiva global poderemos elaborar t\u00e1ticas e estrat\u00e9gias locais efetivas. Tentar encontrar solu\u00e7\u00f5es lucrativas para a crise presente por meio de protecionismo nacional (seja ele social-democr\u00e1tico, \u201cverde,\u201d ou fascista) n\u00e3o \u00e9 apenas anti-solid\u00e1rio, \u00e9 tamb\u00e9m uma estrat\u00e9gia de perdedores \u2013 uma corrida inevit\u00e1vel ao fundo do po\u00e7o.<\/p>\n<p>Torkil Lauesen \u00e9 um ativista e escritor anti-imperialista desde o final dos anos 1960. Suas publica\u00e7\u00f5es em ingl\u00eas incluem \u201cIt\u2019s All About Politics\u201d, bem como uma entrevista \u2013 ambos podem ser encontrados em Turning Money into Rebellion, editado por Gabriel Kuhn (PM Press, 2014). Zak Cope \u00e9 autor de \u201cDivided World Divided Class: Global Political Economy and the Stratification of Labor under Capitalism\u201d (Montreal, Canad\u00e1: Kersplebedeb, 2012 e 2015) e co-editor, junto a Immanuel Ness, da Palgrave Encyclopedia of Imperialism and Anti-Imperialism.<\/p>\n<p>Ricardo Almeida Campos \u00e9 historiador.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias:<\/p>\n<p>[1] Organiza\u00e7\u00e3o de Desenvolvimento Industrial das Na\u00e7\u00f5es Unidas (UNIDO), \u201cTable 8.4. Developing and Developed Countries\u2019 Share of Global Manufacturing Value Added by Industry Sector, Selected Years, 1995\u20132009 (percent),\u201d Industrial Development Report 2011 (New York: ONU, 2011), http:\/\/unido.org, 146; ver tamb\u00e9m \u201cTable 8.7. Share of Manufacturing Employment for Developing and Developed Countries, by Industry Sector, Selected Periods Over 1993\u20132008 (percent),\u201d 151.<br \/>\n[2] Zak Cope, Divided World Divided Class: Global Political Economy and the Stratification of Labor under Capitalism, segunda edi\u00e7\u00e3o (Montr\u00e9al, Quebec: Kersplebedeb, 2015), 378\u201382.<br \/>\n[3] Benjamin Selwyn, \u201cTwenty-First-Century International Political Economy: A Class-Relational Perspective,\u201d European Journal of International Relations (December 3, 2014): 1\u201325, http:\/\/academia.edu.<br \/>\n[4] Branko Milanovi\u0107, The Haves and Have-Nots: A Brief and Idiosyncratic History of Global Inequality (New York: Basic Books, 2011), 113.<br \/>\n[5] A curva sorridente foi proposta por Stan Shih, fundador da Acer, em 1992.De acordo com a observa\u00e7\u00e3o de Shih, na ind\u00fastria de computadores pessoais, os dois fins da cadeia de valor comandam as maiores quantidades de valor adicional ao produto que o meio dela. Se esse fen\u00f4meno \u00e9 apresentado em um gr\u00e1fico com um eixo-Y como valor adicionado e um eixo-X como cadeia valor (est\u00e1gio de produ\u00e7\u00e3o), a curva resultante esbo\u00e7a um sorriso.<br \/>\n[6] Howard Nicholas, Marx\u2019s Theory of Price and Its Modern Rivals (New York: Palgrave Macmillan, 2011), 30, 39\u201340.<br \/>\n[7] Marx se refere diversas vezes \u00e0 composi\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica do capital, o valor, ou pre\u00e7o, composi\u00e7\u00e3o de capital, e a composi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica do capital. Ele escreve: \u201cChamo de composi\u00e7\u00e3o de valor, na medida em que [grifo nosso] \u00e9 determinado por sua composi\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e espelha as mudan\u00e7as dessa \u00faltima, a composi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica do capital.\u201d Como escreveu Paul Zarembka, no entanto, o qualificador \u00e9 significativo j\u00e1 que o valor da for\u00e7a de trabalho (capital vari\u00e1vel) \u201cpode mudar sem qualquer altera\u00e7\u00e3o na composi\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica em circunst\u00e2ncias nas quais os pr\u00f3prios trabalhadores podem receber mais ou menos, enquanto produzem a mesma tecnologia.\u201d Ver Paul Zarembka, \u201cMaterialized Composition of Capital and its Stability in the United States: Findings Stimulated by Paitaridis and Tsoulfidis (2012),\u201d Review of Radical Political Economics 47, no. 1 (2015): 106\u201311. Para Marx, enquanto o capital (trabalho morto) se acumula e \u00e9 cada vez mais empregado em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho vivo, cresce a composi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica do capital e a taxa de lucro tende a cair.<br \/>\n[8]Henryk Grossman, The Law of Accumulation and Breakdown of the Capitalist System (London: Pluto Press, 1992; originalmente 1929), 170.<br \/>\n[9]Howard Nicholas, \u201cMarx\u2019s Theory of International Price and Money; An Interpretation,\u201d em Immanuel Ness e Zak Cope, eds., Palgrave Encyclopaedia of Imperialism and Anti-Imperialism (New York: Palgrave Macmillan, 2015).<br \/>\n[10]Kenneth L. Kraemer, Greg Linden, e Jason Dedrick, \u201cCapturing Value in the Global Networks: Apple&#8217;s iPad and Phone,\u201d Universidade da Calif\u00f3rnia, jul. 2011, http:\/\/pcic.merage.uci.edu.<br \/>\n[11]Donald A. Clelland, \u201cThe Core of the Apple: Dark Value and Degrees of Monopoly in the Commodity Chains,\u201d Journal of World-Systems Research 20, no. 1 (2014): 82\u2013111.<br \/>\n[12]Ibid, 83.<br \/>\n[13]Ibid, 86.<br \/>\n[14]Ibid, 88, com n\u00fameros extra\u00eddos de an\u00e1lise de dados feita por Kenneth Kraemer, Greg Linden, e Jason Dedrick, em \u201cCapturing Value in Global Networks,\u201d Centro Industrial de Computa\u00e7\u00e3o Pessoal, Universidade da Calif\u00f3rnia \u2013 Irvine, 2011, http:\/\/pcic.merage.uci.edu.<br \/>\n[15]Clelland, \u201cThe Core of the Apple,\u201d 85.<br \/>\n[16]Ibid, 97.<br \/>\n[17]Ibid, 98.<br \/>\n[18]Ibid, 102.<br \/>\n[19]Ibid, 103.<br \/>\n[20]Ibid, 105.<br \/>\n[21]Em discuss\u00e3o acerca das descobertas no Relat\u00f3rio Global dos Sal\u00e1rios 2014\/2015 pela Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho, Patrick Belser nota: &#8220;o aumento salarial em economias desenvolvidas se mant\u00e9m em quase zero, e sal\u00e1rios globais est\u00e3o crescendo cerca 2%. Se voc\u00ea tira a China da equa\u00e7\u00e3o, o aumento salarial global \u00e9 basicamente cortado pela metade.\u201d Ver Patrick Belser, \u201cFiscal Redistribution: Yes, but Inequality Starts in the Labor Market: Findings from the ILO Global Wage Report 2014\/2015,\u201d Global Labor Column, 2014, http:\/\/column.global-labor-university.org. Com esta taxa de crescimento, podemos generosamente assumir que n\u00edveis salariais no Sul global v\u00e3o alcan\u00e7ar os mesmos n\u00edveis do Norte global, onde eles s\u00e3o em m\u00e9dia dez vezes maiores, em cerca de 500 anos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26987\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[33],"tags":[226],"class_list":["post-26987","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c34-marxismo","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-71h","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26987","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26987"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26987\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26987"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26987"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26987"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}