{"id":27011,"date":"2021-03-16T21:19:49","date_gmt":"2021-03-17T00:19:49","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27011"},"modified":"2021-03-22T18:50:49","modified_gmt":"2021-03-22T21:50:49","slug":"alienacao-e-pandemia-genocidio-e-perversidade-no-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27011","title":{"rendered":"Aliena\u00e7\u00e3o e pandemia: genoc\u00eddio e perversidade no trabalho"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/s2.glbimg.com\/0HtVEOxK-7Fvf0rOdprPddqw1k0%3D\/512x320\/smart\/e.glbimg.com\/og\/ed\/f\/original\/2020\/10\/16\/yan_carpenter_rodo_cotidiano_9.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Foto de Yan Marcelo<\/p>\n<p>Arthur Machado &#8211; mestrando em Filosofia pela UFSM e militante no Rio Grande do Sul<\/p>\n<p>1) DOS PRESSUPOSTOS<\/p>\n<p>Dentre algumas descobertas importantes do pensamento de Lenin, como bem indica Istv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros em \u201cA teoria da aliena\u00e7\u00e3o em Marx\u201d, encontra-se a dedu\u00e7\u00e3o do que seria \u201ca ideia b\u00e1sica de todo sistema de Marx\u201d. E isto, o revolucion\u00e1rio russo o faz somente a partir das leituras dispon\u00edveis em sua \u00e9poca sobre os pressupostos do pensamento marxiano; no caso, a cr\u00edtica a Bruno Bauer em \u201cA sagrada Fam\u00edlia\u201d. \u00c9, portanto, em uma sinopse a este texto que ficar\u00e1 registrada a interpreta\u00e7\u00e3o leninista do que seria o conceito central da teoria de Marx e Engels, a saber: \u201co conceito das rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o\u201d enquanto uma \u201crela\u00e7\u00e3o praticamente alienada entre o homem e sua ess\u00eancia objetiva\u201d. Lenin n\u00e3o somente assim confere a import\u00e2ncia deste trabalho, como exalta sua caracter\u00edstica filosoficamente mais inovadora e radical: \u201cpor ter sido escrito em nome do indiv\u00edduo real, humano\u201d. Quer dizer, Lenin reconhece o m\u00e9rito de \u201cA Sagrada Fam\u00edlia\u201d justamente quando este texto aborda as tem\u00e1ticas desenvolvidas em manuscritos que o revolucion\u00e1rio russo n\u00e3o teve tempo de ler, isto \u00e9, os temas relacionados \u00e0 condi\u00e7\u00e3o da \u2018aliena\u00e7\u00e3o humana pelo trabalho\u2019 e do pressuposto investigativo de Marx enquanto a \u2018vida material dos indiv\u00edduos\u2019. Sobre o primeiro tema, sabemos que Marx o desenvolve nos Manuscritos de Paris, denominados tamb\u00e9m por \u201cManuscritos Econ\u00f4mico-Filos\u00f3ficos de 1844\u201d (publicado somente 1932, oito anos depois da morte de Lenin), cujas p\u00e1ginas \u2013 ou algumas delas \u2013 s\u00e3o realocadas para o texto publicado no mesmo ano (\u201cA Sagrada Fam\u00edlia&#8221;). Acerca do segundo tema, Marx e Engels, somente tomar\u00e3o o trabalho de esclarecer ap\u00f3s o artigo de Bauer publicado no \u201cVierteljahrsschrift de Wigand\u201d, que reagia \u00e0 publica\u00e7\u00e3o da \u2018A Sagrada Fam\u00edlia\u2019. Este texto demolidor da filosofia baueriana, sob as m\u00e3os dos revolucion\u00e1rios alem\u00e3es, \u00e9 reunido no que ficou conhecido como \u201cIdeologia Alem\u00e3\u201d que, no entanto, s\u00f3 viu a luz quase dez anos ap\u00f3s a morte de Lenin. Apesar do desconhecimento, surpreendentemente \u00e9 em algo tal como o \u201cindiv\u00edduo real em sua vida material sob um tipo de estranhamento nas rela\u00e7\u00f5es humanas e com sua pr\u00f3pria atividade\u201d que Lenin aposta os pressupostos do chamado \u201csocialismo materialista revolucion\u00e1rio\u201d.<\/p>\n<p>O m\u00e9rito de \u201cEscrever em nome de um indiv\u00edduo real\u201d n\u00e3o significa outra coisa sen\u00e3o de reconhecer na an\u00e1lise o ponto de vista \u201cmaterial\u201d, isto \u00e9, do trabalho, do trabalhador, da classe prolet\u00e1ria que se sente aniquilada em sua pr\u00f3pria auto-aliena\u00e7\u00e3o \u2013 ou melhor e mais claro: auto-estranhamento [selbstentfremdung]. Lenin, com isso, percebeu de modo brilhante que a ideia central de Marx \u00e9 sua cr\u00edtica da reifica\u00e7\u00e3o capitalista, e de sua economia pol\u00edtica, das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o da vida humana. Em outras palavras, da vida humana reificada no trabalho assalariado, no interc\u00e2mbio dos trabalhos atrav\u00e9s de um suposto pre\u00e7o da for\u00e7a de trabalho equivalente em dinheiro e, por fim, da propriedade privada que n\u00e3o \u00e9 nada sen\u00e3o a materializa\u00e7\u00e3o f\u00edsica [materiatur] do trabalho n\u00e3o pago (como Marx identifica ao fim do cap\u00edtulo 16 d\u2019O Capital). E, de fato, se conseguirmos reduzir a pesquisa cr\u00edtica de Marx em uma pequena frase, seria: at\u00e9 o momento presente a vida da gente coincide com a produ\u00e7\u00e3o, ou seja, coincide com o esfor\u00e7o para nos alimentarmos, nos vestirmos e nos aquecermos. Ora, esta vida que \u201ctotalmente coincide com sua produ\u00e7\u00e3o\u201d significa simplesmente a condi\u00e7\u00e3o de viver para trabalhar e trabalhar para n\u00e3o morrer. Mas e quando trabalhar para viver mata?<\/p>\n<p>O sistema capitalista \u00e9 em sua natureza potencialmente contradit\u00f3rio. Em sua express\u00e3o normal, o seu fortalecimento, sua complexifica\u00e7\u00e3o, j\u00e1 necessariamente conduz ao horizonte de crise dele mesmo \u2013 neste sentido Marx afirma que o \u201cque a burguesia produz s\u00e3o seus pr\u00f3prios coveiros\u201d. Afinal, aprendemos que sua ess\u00eancia \u00e9, antes de tudo, a gera\u00e7\u00e3o de valor, em especial, de sua valoriza\u00e7\u00e3o excedente. Ou seja, em uma jornada de trabalho que quanto menor for o tempo de trabalho necess\u00e1rio para o trabalhador gerar o valor do seu pr\u00f3prio sal\u00e1rio, maior ser\u00e1 o restante dessa jornada em que o valor produzido ser\u00e1 excedente, n\u00e3o refletir\u00e1 em seu sal\u00e1rio. Da\u00ed a f\u00f3rmula mercantilista que Marx cita em O Capital (L.I; Se\u00e7\u00e3o II; Cap\u00edtulo 4; subcap\u00edtulo 1, p., 231), \u201cdinheiro que cria dinheiro\u201d. A quest\u00e3o \u00e9 que esta f\u00f3rmula s\u00f3 se assenta e se justifica na esfera da produ\u00e7\u00e3o. Quer dizer, uma determinada quantidade de dinheiro investido na produ\u00e7\u00e3o de alguma mercadoria (processo de dar ou transferir valor de troca a ela ao mesmo tempo que produz sua utilidade f\u00edsica) que, gra\u00e7as ao trabalho efetivamente n\u00e3o pago do indiv\u00edduos trabalhadores, dever\u00e1 ao capitalista gerar mais valor em rela\u00e7\u00e3o ao que ele primeiramente investiu. O processo produtivo do capital, quer dizer, o processo que gera valoriza\u00e7\u00e3o, \u00e9, como sabemos, o processo de produ\u00e7\u00e3o que necessita de \u201ctrabalho vivo\u201d para ger\u00e1-lo, trabalho humano, trabalho que n\u00e3o \u00e9 instrumento ou maquinaria (que n\u00e3o existe no espa\u00e7o, como m\u00e1quinas da ind\u00fastria, mas no tempo, como atividade de trabalho em exerc\u00edcio, como Marx afirma nos \u2018Manuscritos econ\u00f4micos de 1861-63\u2019). Ao mesmo tempo que o processo produtivo necessita do trabalho humano para gerar valor, a necessidade de aumentar do tempo de trabalho excedente (tempo do trabalho n\u00e3o pago no valor do sal\u00e1rio) cada vez mais elimina, atrav\u00e9s da automatiza\u00e7\u00e3o do trabalho, seu elemento criador de valor. Quando a maquinaria substitui o elemento criador de valor e mais-valor, com isso a explora\u00e7\u00e3o do trabalho humano, at\u00e9 pode-se criar valores de uso, mas o \u201cdinheiro\u201d n\u00e3o se transforma em mais \u201cdinheiro\u201d e o capitalismo entra em crise. Este movimento \u00e9 imanente ao capital que busca converter-se em mais capital. Quer dizer, \u00e9 uma tend\u00eancia natural e c\u00edclica em que as rela\u00e7\u00f5es humanas, baseadas no capital, tendem. \u00c9 sua express\u00e3o comum.<\/p>\n<p>Outro aspecto, por\u00e9m, que pertence \u00e0 express\u00e3o comum do movimento do capital no mundo contempor\u00e2neo, como indica Marx desde o livro I e trabalhar\u00e1 de modo mais espec\u00edfico no Livro II, \u00e9 que a esfera da circula\u00e7\u00e3o do capital tende a ser improdutiva. O que significa que ela n\u00e3o gera mais-valor mesmo que tenha valor de uso, que seja \u00fatil. Por\u00e9m, ela s\u00f3 se mant\u00e9m porque constitui parte do processo de rota\u00e7\u00e3o do capital, que nada mais \u00e9 al\u00e9m de um processo peri\u00f3dico do capital que se repete para produzir mais-valia e se auto-renovar. O processo de circula\u00e7\u00e3o \u00e9, portanto, parasit\u00e1rio dos valores excedentes gerados no processo produ\u00e7\u00e3o e ambos constituem o ciclo de rota\u00e7\u00e3o do capital. Por\u00e9m, sua lei \u00e9 a seguinte:<\/p>\n<p>\u201c[\u2026] a expans\u00e3o e a contra\u00e7\u00e3o do tempo de curso agem como limite negativo \u00e0 contra\u00e7\u00e3o e \u00e0 expans\u00e3o do tempo de produ\u00e7\u00e3o, ou da extens\u00e3o na qual um capital de dada grandeza pode funcionar como capital produtivo. Quanto mais as metamorfoses da circula\u00e7\u00e3o do capital s\u00e3o apenas ideais, isto \u00e9, quanto mais o tempo de curso \u00e9 = 0 ou pr\u00f3ximo de zero, tanto mais atua o capital e tanto maior se torna sua produtividade e autovaloriza\u00e7\u00e3o\u201d (MARX. O Capital, L.II; Se\u00e7\u00e3o I; cap\u00edtulo 5; p., 228).<\/p>\n<p>Em outras palavras, quanto menos tempo o valor fica detido no seu processo de circula\u00e7\u00e3o, menor \u00e9 a produtividade do capital. Quanto maior for o n\u00famero de rota\u00e7\u00e3o, maior a produtividade que exerce em si o capital, ou seja, obviamente o n\u00famero de rota\u00e7\u00f5es anuais \u00e9 inverso ao tempo de rota\u00e7\u00e3o. O tempo de rota\u00e7\u00e3o \u00e9 a soma entre o tempo de curso e de produ\u00e7\u00e3o, mas se a esfera de circula\u00e7\u00e3o normalmente n\u00e3o exerce cria\u00e7\u00e3o de valor (com a exce\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria de transporte que quanto mais r\u00e1pida menor o tempo de circula\u00e7\u00e3o, como aponta Marx no cap\u00edtulo seguinte), ent\u00e3o quanto menor for o tempo de curso do capital, menor ser\u00e1 a demora para sua cria\u00e7\u00e3o de mais-valor. O que nos leva a uma dedu\u00e7\u00e3o muito simples: quanto mais tempo ficam fechadas as lojas, impedidas de efetuar a rota\u00e7\u00e3o do capital, maior \u00e9 o limite de reprodu\u00e7\u00e3o deste mesmo capital, ou seja, seu processo de valoriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se, por um lado, na efetiva\u00e7\u00e3o deficiente do processo de rota\u00e7\u00e3o do capital, se sua produ\u00e7\u00e3o de mais-valor diminui, ele tender\u00e1, como mostrou Marx, a eliminar o investimento em capital vari\u00e1vel, dispensar a for\u00e7a de trabalho. Ou seja, na inefici\u00eancia do processo de rota\u00e7\u00e3o \u00e9 sobre os ombros do trabalhador, que apenas tem sua for\u00e7a de trabalho \u00e0 venda, que o capital descansa, do preju\u00edzo, seu peso esmagador. Assim ficou nestes tempos de pandemia. O fechamento do com\u00e9rcio inviabiliza o processo de rota\u00e7\u00e3o do capital e coloca o trabalhador na linha de fogo para defender a valoriza\u00e7\u00e3o e o lucro que nem \u00e9 dele. Mas, afinal de contas, essa \u00e9 a ess\u00eancia do capital, apesar de n\u00e3o costumar ficar revelada para fora das cortinas da esfera de produ\u00e7\u00e3o. \u00c9 esta ess\u00eancia que, a cada dia se revelando um pouco mais, reconhece o trabalhador como \u201c[\u2026] algu\u00e9m que trouxe sua pr\u00f3pria pele ao mercado e, agora, n\u00e3o tem mais nada a esperar al\u00e9m da despela\u201d.<\/p>\n<p>2) DA IDEOLOGIA FASCISTA<\/p>\n<p>O fascismo tem como uma de suas caracter\u00edsticas o apelo \u00e0 supera\u00e7\u00e3o de luta de classes, \u00e9 bastante comum que um dos seus estandartes seja o anticomunismo, como manifesta sua propaganda. Na tentativa de supera\u00e7\u00e3o da suposta luta entre os interesses das classes com o fortalecimento do car\u00e1ter nacional, mas que encontra nisso justamente a radicaliza\u00e7\u00e3o dela, ou mais especificamente, a manuten\u00e7\u00e3o de sua explora\u00e7\u00e3o, \u00e9 que se desenvolve o bra\u00e7o econ\u00f4mico do fascismo. O fascismo se d\u00e1 por uma s\u00e9rie de comportamentos e condutas psicol\u00f3gicas e pseudo-filos\u00f3ficas, como j\u00e1 apontamos no texto \u201co bolsonarismo e a banaliza\u00e7\u00e3o do fascismo\u201di. Contudo, sua base discursiva central levanta a bandeira da alternativa, uma terceira via, que ao mesmo tempo consegue condenar a pol\u00edtica socialista em detrimento de um liberalismo econ\u00f4mico, mas n\u00e3o deixa de aparelhar as empresas, secretarias e minist\u00e9rios com ide\u00f3logos (do \u201cpartido fardado\u201d, ou de sua mil\u00edcia, quase sempre); diz defender algo tal como um estado democr\u00e1tico \u201crealmente verdadeiro\u201d, mas seu movimento contraria a independ\u00eancia dos poderes do estado, questionando, em geral, a c\u00fapula do poder judici\u00e1rio; e que, por \u00faltimo, tende a criminalizar qualquer manifesta\u00e7\u00e3o oposicionista. Por\u00e9m, como sabemos, as experi\u00eancias fascistas inicialmente se lan\u00e7aram como a tal terceira via entre o socialismo e o capitalismo na busca de supera\u00e7\u00e3o de ambos, mas todas, em seu fim, demonstraram assumir a ideologia da fal\u00eancia: que realiza-se na preserva\u00e7\u00e3o de um Estado assegurador da luta de classes em sua forma original. Por isso a afirma\u00e7\u00e3o de que o socialismo e, antes de tudo, a obra de Marx foram respons\u00e1veis por criar uma cis\u00e3o na sociedade, criando duas classes, pode at\u00e9 parecer bastante engra\u00e7ada \u2013 e, na hist\u00f3ria pura das ideias, seria considerada uma miser\u00e1vel estupidez intelectual \u2013, mas n\u00e3o deve ser subestimada. Ela s\u00f3 \u00e9 um sintoma da frente mais poderosa do fascismo, a sua frente econ\u00f4mico-ideol\u00f3gica combatendo qualquer tipo de organiza\u00e7\u00e3o classista. Seu primeiro momento \u00e9 fraseol\u00f3gico, opera com medo, expectativas e amea\u00e7as, em seguida, a racionalidade instrumental da sociedade capitalista contempor\u00e2nea opta, na hip\u00f3tese mais branda, pela a\u00e7\u00e3o de pris\u00f5es e impedimentos burocr\u00e1ticos aos seus advers\u00e1rios.<\/p>\n<p>As nossas experi\u00eancias recentes, desde o \u00faltimo s\u00e9culo, apontam que a psicologia de poder do fascismo, seus pensamentos e atitudes, s\u00e3o sempre consideravelmente imprevis\u00edveis, neste caso e esfera a hist\u00f3ria n\u00e3o se acidenta em repetir-se, por outro lado, a psicologia das massas do fascismo sempre nos surpreende com velhas novidades que, quando muito, mudam apenas a cor das bandeiras. N\u00e3o ter\u00edamos, por\u00e9m, espa\u00e7o para desenvolver as principais concep\u00e7\u00f5es da ordem ps\u00edquica das massas, sen\u00e3o alguns poucos tra\u00e7os dela. No entanto, em uma sociedade onde o trabalho \u00e9 reconhecido como gerador de riqueza e necessidade primeira, praticamente natural e de sobreviv\u00eancia, nos per\u00edodos de crise \u2013 desemprego, sal\u00e1rio real que oferece baixo acesso aos bens de subsist\u00eancia em uma sociedade que cada vez cria mais necessidade \u2013 a culpabiliza\u00e7\u00e3o a um tipo de \u201csistema pol\u00edtico falido\u201d costuma ser a bandeira para incentivar as massas, descontentes com caracter\u00edsticas materiais de produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria vida, a demandar por medidas \u201cantissist\u00eamicas\u201d que d\u00e3o entrada a pol\u00edticas de vi\u00e9s fascista.<\/p>\n<p>O que ocorre, ent\u00e3o, n\u00e3o passa de um deslocamento de interesses sociais que, no movimento fascista, \u00e9 executado em sua radicalidade. Este deslocamento de interesses, na literatura marxista, chamou-se \u201cIdeologia\u201d. Esta categoria, ao menos no pensamento de Luk\u00e1cs tardio, consiste em um complexo de determina\u00e7\u00f5es teleol\u00f3gicas de segunda ordem. Luk\u00e1cs chama de a\u00e7\u00f5es teleol\u00f3gicas de segunda ordem, ou extra-laborativa, pois elas s\u00f3 existem como desdobramento das primeiras a\u00e7\u00f5es teleol\u00f3gicas: da simples atividade livre do trabalho pessoal. Sobre a esfera da a\u00e7\u00e3o teleol\u00f3gica de primeira ordem (a cren\u00e7a de poder atuar sobre a natureza que \u00e9 compreendida e interpretada), desdobra-se a segunda (de poder atuar de acordo com o complexo social existente compreendido e interpretado). Esse deslocamento entre as interpreta\u00e7\u00f5es de primeira e segunda ordem, em que assumimos \u201cinterpreta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas das coisas do mundo\u201d ocorre somente quando a nossa vida mesma coincide, como \u00e9 at\u00e9 o momento, com a sua produ\u00e7\u00e3o; ao ponto do interc\u00e2mbio, entre trabalho e \u201cforma-sal\u00e1rio\u201d, naturalizar-se. Quer dizer, n\u00e3o dispomos da vida como um objeto nosso que ela de fato \u00e9, como diz Marx nos \u201cManuscritos de 1844\u201d; o trabalho estranhado faz da pr\u00f3pria vida alheia, da pr\u00f3pria liberdade, imanente da atividade da consci\u00eancia, um instrumento de sobreviv\u00eancia. Esse movimento radical de estranhamento, de entregar a pr\u00f3pria \u201cexist\u00eancia\u201d, \u00e9 o que justifica as reivindica\u00e7\u00f5es de trabalhadores que, necessitando profundamente da pr\u00f3pria for\u00e7a de trabalho para alcan\u00e7ar as primeiras necessidades fisiol\u00f3gicas e b\u00e1sicas da vida (comer, se aquecer, estudar&#8230;), apoiam o que lhes parece impedir de desempenhar a pr\u00f3pria vida, quando na verdade afeta efetivamente a produ\u00e7\u00e3o, no caso, reprodu\u00e7\u00e3o do capital. E porque este trabalho pessoal coincide, como j\u00e1 dissemos, com a vida, \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 a ideologia das massas uma simples falsa consci\u00eancia superficial, mas o pr\u00f3prio diagn\u00f3stico interpretativo da realidade social. De uma realidade social cuja ess\u00eancia \u00e9 constitu\u00edda por um n\u00facleo p\u00fatrido, como dizia Marx no New York Tribune em 1859: pois, \u201c[&#8230;] Deve haver algo de podre na ess\u00eancia mesma de um sistema social que eleva sua riqueza sem diminuir sua mis\u00e9ria\u201d.<\/p>\n<p>Esse deslocamento, no entanto, \u00e9 assentado sobre um fen\u00f4meno subjetivo muito simples, que \u00e9 de ordem psicol\u00f3gica, e que cumpre papel important\u00edssimo nos indiv\u00edduos, e \u00e9 potencializado entre grupos. Conhecido como \u201cdisson\u00e2ncia cognitiva\u201d, a teoria desenvolvida pelo psic\u00f3logo americano Leo Festinger trata de conceitualizar o comportamento psicol\u00f3gico que visa dar conta das consequ\u00eancias cognitivas de uma expectativa n\u00e3o confirmada pela realidade, em que o sujeito, tendo frustrado seu conjunto de cren\u00e7as sobre o mundo, procura mesmo assim encontrar coer\u00eancia entre suas antigas opini\u00f5es e os novos fatos. Ora, mesmo que a pandemia da COVID-19 tenha chegado abertamente ao auge, o trabalho assalariado ainda tem papel fundamental na ideologia da sociedade capitalista, constituindo assim um conjunto de cren\u00e7as que, mesmo incoerente com os fatos lastim\u00e1veis da realidade, seus defensores ainda buscar\u00e3o fundamentar superficialmente a coer\u00eancia que falta atrav\u00e9s de novas justificativas entre a pr\u00e1tica, o mundo factual, e o conjunto de opini\u00f5es consolidadas.<\/p>\n<p>3) UM GENOC\u00cdDIO DE CLASSE<\/p>\n<p>Se o fen\u00f4meno da ideologia, com todas suas particularidades sociais e psicol\u00f3gicas, acolhe as pol\u00edticas fascistas, n\u00e3o significa que elas estejam isentas e inocentes de suas pr\u00e1ticas. Ao contr\u00e1rio, quanto mais se permitir que elas avancem, mais estruturada e edificada se dar\u00e1 sua racionalidade t\u00e9cnica. Acreditar que Bolsonaro seja tolo, que sua pol\u00edtica siga por sorte e acaso caminhos bem-sucedidos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 perversidade, \u00e9 como correr com os olhos vendados: \u00e9 poss\u00edvel, mas perigoso. \u00c9 mais importante, a qualquer pensamento cr\u00edtico, identificar o n\u00facleo racional do movimento real, que a hist\u00f3ria do mundo n\u00e3o cansa de demonstrar como ele se desdobra. Ali\u00e1s, a pr\u00f3pria hist\u00f3ria recente demonstra que a perversidade tem uma sofisticada organiza\u00e7\u00e3o. O Nacional-Socialismo alem\u00e3o \u00e9 a extrema prova que a perversidade n\u00e3o \u00e9 burra (embora possa ter suas extravag\u00e2ncias e vis\u00f5es de mundo um tanto idiossincr\u00e1ticas), na verdade, quanto mais perverso \u00e9 o movimento, mais inteligente ele \u00e9.<\/p>\n<p>O governo brasileiro nas m\u00e3os de Bolsonaro \u2013 como aponta o professor Rodrigo Nunes da PUC-Rio \u2013, que essencialmente j\u00e1 possu\u00eda como caracter\u00edstica de seu projeto ultraliberal, mas armado, a radicaliza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es, para o empresariado brasileiro e internacional, de um novo processo de rota\u00e7\u00e3o mais produtivo da acumula\u00e7\u00e3o capitalista no Brasil, n\u00e3o esperava enfrentar medidas de isolamento social e fechamentos como obst\u00e1culo econ\u00f4mico. Mesmo assim, foi t\u00e3o fiel quanto o aguardado em seu projeto: ou seja, muito mais danoso \u00e0 classe trabalhadora em compara\u00e7\u00e3o ao neoliberalismo dos governos anteriores. Uma demonstra\u00e7\u00e3o dos interesses que operam e exigem postura do governo resume-se na alega\u00e7\u00e3o, ao fim do ano passado, do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, contr\u00e1rio a um segundo Lockdown: \u201cSe tiver um Lockdown maior, pode gerar um primeiro semestre pior\u201d. Ou ainda, feita h\u00e1 poucos dias, de Michael Klein, o maior acionista da Via Varejo: \u201cBolsonaro est\u00e1 fazendo um bom trabalho; eu manteria ele\u201d. H\u00e1 tamb\u00e9m a manifesta\u00e7\u00e3o do Fecom\u00e9rcio-BA que estima, durante o fechamento, um preju\u00edzo di\u00e1rio de R$70 milh\u00f5es. Bolsonaro, ao menos por enquanto, tem apoio e comando de colocar como frente de seu discurso, mesmo durante o momento mais cr\u00edtico da pandemia no Brasil, os seguintes lemas: \u201cAt\u00e9 quando podemos aguentar esta irresponsabilidade do lockdown?\u201d; \u201c\u2018Ao fecharem o com\u00e9rcio, vem o desemprego em massa\u201d; e, o mais significativo, \u201cEconomia tamb\u00e9m \u00e9 vida!\u201d.<\/p>\n<p>4) A VIDA DA ECONOMIA<\/p>\n<p>O interesse de que as leis econ\u00f4micas sejam naturalizadas, imanentes \u00e0 vida, \u00e9 somente daqueles que se beneficiam com elas. Em outras palavras, a economia s\u00f3 \u00e9 vida aos que n\u00e3o conhecem o significado dela. Economia s\u00f3 pode ser equivalente \u00e0 vida, sobretudo, para quem despreza seu valor. Embora Marx tenha morrido antes que seus olhos observassem essa realidade, herdamos sua lucidez que nos permitiu compreend\u00ea-la um pouco melhor. E o que resta como grande ensinamento de Marx \u00e9 o de que a economia n\u00e3o tem vida, \u00e9, inclusive, tudo o que h\u00e1 de morto; e se ela coincide com a nossa pr\u00f3pria vida, com o trabalho, o esfor\u00e7o e o sofrimento subjetivo, n\u00e3o \u00e9 uma coincid\u00eancia natural, mas sim porque foi conduzida a coincidir no que identificamos com a chamada vida alienada: a tautologia da vida que vive para evitar morrer, n\u00e3o experimenta os potenciais de si mesmo (em sua met\u00e1fora localizada em Ideologia Alem\u00e3: ca\u00e7ar de manh\u00e3, pescar \u00e0 tarde, pastorear \u00e0 noite e fazer cr\u00edtica depois da refei\u00e7\u00e3o\u201d). \u00c0 vida que trabalha para viver e vive para trabalhar, que j\u00e1 compreende esta realidade como sua pr\u00f3pria natureza, n\u00e3o parece haver alternativa sen\u00e3o de assumir o que lhe foi imposto.<\/p>\n<p>Se a classe trabalhadora opera segundo interesses alheios, o fascismo, por outro lado, opera na garantia de seus pr\u00f3prios, isto \u00e9, do cumprimento do ciclo do capital. Quando ele dispersa o papel individual no ideal de uma totalidade de na\u00e7\u00e3o, concretizando nada al\u00e9m do desprezo ao sujeito que sofre e entrega sua pr\u00f3pria vida ao tentar sobreviver, ele conduz o papel de protagonismo \u00e0 classe dominante. Sendo mais claro, \u00e9 na valoriza\u00e7\u00e3o do mundo das coisas, que desvaloriza-se o mundo humano, como diz Marx nos \u2018Manuscritos de 1844\u2019. Pois \u00e9 no per\u00edodo em que perdemos mais de 279 mil vidas, mais de mil vidas por dia (sem contar as subnotifica\u00e7\u00f5es), um l\u00edder de estado reproduz como frente do pr\u00f3prio discurso e pr\u00e1tica pol\u00edtica o que Jair Bolsonaro reproduz, n\u00e3o est\u00e1 apenas lan\u00e7ando \u00e0 pr\u00f3pria sorte cada um dos trabalhadores, mas garantindo o risco real da morte destes. Essa pol\u00edtica \u2013 sob a contagem atual e di\u00e1ria de baixas registradas no Brasil; sob a condi\u00e7\u00e3o das UTI\u2019s, sanit\u00e1rias e de vacina\u00e7\u00e3o da realidade brasileira hoje \u2013 n\u00e3o possui outro nome sen\u00e3o o seu pr\u00f3prio: genoc\u00eddio. Determinado por interesses radicalmente distintos dos trabalhadores, da manuten\u00e7\u00e3o de suas pr\u00f3prias vidas, no Brasil h\u00e1 um genoc\u00eddio em curso. Um genoc\u00eddio que, nas m\u00e3os do governo Bolsonaro e seus consortes de poder, n\u00e3o \u00e9 baseado no biologismo social: hoje o genoc\u00eddio brasileiro \u00e9 de classe!<\/p>\n<p>&#8211; NOTAS.<\/p>\n<p>iMACHADO, Arthur de O. Bolsonarismo e a Banaliza\u00e7\u00e3o do Fascismo. Dispon\u00edvel em: https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25675\/o-bolsonarismo-e-a-banalizacao-do-fascismo\/?fbclid=IwAR08czWKXFUZkIZQ_M6eweBc9jrFemDw7kFYUOoWvbXtDMOLOHhWNR97X5k<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27011\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[20,197],"tags":[221],"class_list":["post-27011","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c1-popular","category-saude","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-71F","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27011","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27011"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27011\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27011"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27011"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27011"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}