{"id":27028,"date":"2021-03-19T22:38:23","date_gmt":"2021-03-20T01:38:23","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27028"},"modified":"2021-05-31T14:10:09","modified_gmt":"2021-05-31T17:10:09","slug":"a-comuna-de-paris-o-assalto-aos-ceus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27028","title":{"rendered":"A Comuna de Paris: o assalto aos c\u00e9us"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/vietluanvanthue.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/hinh-thuc-nha-nuoc.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->\u00abA barricada da Pra\u00e7a Branca, defendida por mulheres\u00bb (Maio de 1871). Litografia de Hector Colomb, dito Moloch (1849-1909), Museu Carnavalet, Paris, Fran\u00e7a.Cr\u00e9ditos: blog de Mich\u00e8le Audin<\/p>\n<p>Manuel Augusto Ara\u00fajo<\/p>\n<p>ABRIL ABRIL<\/p>\n<p>A revolta estalou apoiada na Guarda Nacional, maioritariamente formada por oper\u00e1rios, a que se juntaram mil\u00edcias populares de cidad\u00e3os e soldados que se amotinaram.<\/p>\n<p>\u00c9 estranho ou mesmo paradoxal que a can\u00e7\u00e3o emblem\u00e1tica da Comuna de Paris (18 de mar\u00e7o a 28 de maio de 1871), a primeira revolu\u00e7\u00e3o em que a classe oper\u00e1ria partiu \u00abao assalto dos c\u00e9us por reconhecidamente ser a \u00fanica que era capaz de iniciativa social e pol\u00edtica\u00bb1, seja uma can\u00e7oneta de amor \u2013 escrita em 1866 por Jean-Baptist Cl\u00e9ment (letra) e Antoine Renard (m\u00fasica) \u2013 sem o \u00edmpeto das outras que desde as primeiras revoltas camponesas e oper\u00e1rias at\u00e9 aos dias de hoje cintilam no vasto cancioneiro revolucion\u00e1rio que continua inacabado. No contexto hist\u00f3rico daquela epopeia que explodiu os dias calendarizados num tempo sem tempo, concentraram-se todas as imensas esperan\u00e7as do proletariado, da classe oper\u00e1ria. Le Temps des Cerises ouve-se com a emo\u00e7\u00e3o de se saber que os amanh\u00e3s s\u00e3o sempre poss\u00edveis, mesmo quando derrotados circunstancialmente.<\/p>\n<p>O Assalto aos C\u00e9us<br \/>\nA historiografia contempor\u00e2nea reacion\u00e1ria procura fazer uma revis\u00e3o de todos os sucessos hist\u00f3ricos das lutas oper\u00e1rias, das lutas de classes, diminuindo-os como singularidades de circunst\u00e2ncias \u00fanicas, contingentes, para que a sua coer\u00eancia se dilua em micro subjetividades, negando todas as evid\u00eancias. A Comuna de Paris, a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro e muitos outros sucessos hist\u00f3ricos, por c\u00e1 e noutra escala, o fascismo-salazarista ou o 25 de Abril, s\u00e3o objeto de domestica\u00e7\u00e3o e limpeza que desvirtuam o que lhes \u00e9 nuclear e essencial. Deve-se estar atento \u00e0 calhordice c\u00ednica desses acad\u00eamicos alinhados na direita mais enquistada que, disfar\u00e7ada de uma mais que falsa seriedade cient\u00edfica, promove nos meios universit\u00e1rios, em revistas com auras de seriedade, na m\u00eddia corporativa, teorias falazes com urdidoras embustices que fazem caminho sem medir os meios para atingir os seus fins. A comemora\u00e7\u00e3o dos 150 anos da Comuna de Paris, como seria de esperar, n\u00e3o escapa a essas gralhas reacion\u00e1rias. H\u00e1 que repor a verdade hist\u00f3rica. A import\u00e2ncia que teve e tem na hist\u00f3ria de todas as lutas pela liberta\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o burguesa do trabalho humano.<\/p>\n<p>A Comuna de Paris n\u00e3o aparece por gera\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea. As suas ra\u00edzes hist\u00f3ricas mais pr\u00f3ximas encontram-se na Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, nos seus epis\u00f3dios mais decisivos, como a Tomada das Tulherias, o fim da monarquia, a Declara\u00e7\u00e3o dos Direitos do Homem e do Cidad\u00e3o, o pre\u00e2mbulo da nova Constitui\u00e7\u00e3o. \u00c9 a herdeira pol\u00edtica da ala mais radical dirigida por Robespierre, que acaba guilhotinado pelos conjurados corruptos do Thermidor, inspira-se na Conspira\u00e7\u00e3o para a Igualdade de Babeuf2. A herdeira das revolu\u00e7\u00f5es europeias que incendiaram a Europa em 1848, no que foi considerada a Primavera dos Povos, foi afogada num banho de sangue de brutalidade inomin\u00e1vel. \u00c9 um marco na longa linha de lutas e insurrei\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias e camponesas do s\u00e9c. XIX, num mundo de mudan\u00e7as econ\u00f4micas e moderniza\u00e7\u00e3o capitalista. Ser\u00e1 a \u00faltima desse s\u00e9culo, a primeira a triunfar, mesmo que por um pequeno lapso de tempo, em que se ergueram em simult\u00e2neo as bandeiras do patriotismo e do internacionalismo. Um marco hist\u00f3rico para as revolu\u00e7\u00f5es que lhe sucederam, nomeadamente a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro.<\/p>\n<p>Foi a primeira revolu\u00e7\u00e3o socialista da hist\u00f3ria da humanidade, numa Paris que vivia situa\u00e7\u00e3o turbulenta depois de Napole\u00e3o III ter assinado a rendi\u00e7\u00e3o na guerra entre a Fran\u00e7a e a Pr\u00fassia, num contexto de agita\u00e7\u00e3o insurrecional generalizada. Os oper\u00e1rios franceses, que viviam sob duras condi\u00e7\u00f5es de trabalho e n\u00e3o concordavam com a rendi\u00e7\u00e3o da Fran\u00e7a, mais revoltados ficaram quando o governo, para resolver os custos da guerra, lan\u00e7ou novos impostos sobre os trabalhadores para solucionar os problemas das d\u00edvidas contra\u00eddas.<\/p>\n<p>A revolta estalou apoiada na Guarda Nacional, majoritariamente formada por oper\u00e1rios, a que se juntaram mil\u00edcias populares de cidad\u00e3os e soldados que se amotinaram. Um governo revolucion\u00e1rio foi organizado na base de comit\u00eas de bairro que elegeram um Comit\u00ea Central, onde figuravam representantes da Federa\u00e7\u00e3o dos Bairros, blanquistas, proudhonistas, membros da Associa\u00e7\u00e3o Internacional dos Trabalhadores, fundada em 1864 por impulso de Karl Marx. Conflu\u00edram v\u00e1rias tend\u00eancias pol\u00edticas, dos socialistas aos anarquistas, proletariado e pequena burguesia, artistas e escritores. O v\u00e1cuo pol\u00edtico deixado pelo governo \u2013 o qual, impotente para conter a revolta, tinha fugido para Versalhes \u2013 foi ocupado pelos revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>A Comuna foi proclamada. O seu primeiro \u00e9dito \u00e9 esclarecedor: \u00ababoli\u00e7\u00e3o do sistema de escravid\u00e3o do sal\u00e1rio de uma vez por todas\u00bb. O sistema eleitoral sofreu uma mudan\u00e7a integral. A democracia direta foi institu\u00edda em todos os n\u00edveis da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica. A pol\u00edcia foi abolida e substitu\u00edda pela Guarda Nacional. A educa\u00e7\u00e3o foi secularizada. A previd\u00eancia social foi institu\u00edda. O poder da burguesia foi pela primeira vez posto radicalmente em causa. O alarme na Europa se alastrou com viol\u00eancia.<\/p>\n<p>O governo de Thiers, depois de humilhado pela Pr\u00fassia, com a coroa\u00e7\u00e3o do imperador Guilherme II no pal\u00e1cio de Versalhes, negociou com o Imp\u00e9rio Alem\u00e3o a liberta\u00e7\u00e3o dos soldados franceses, para recompor o ex\u00e9rcito e atacar Paris. A despropor\u00e7\u00e3o de for\u00e7as n\u00e3o podia ser maior. Cem mil soldados a mando de Versalhes contra 18 mil milicianos da Comuna. A cidade, apesar de heroicamente defendida, foi tomada de assalto. A repress\u00e3o que se seguiu foi de uma imensa brutalidade, como tem sido sempre, ontem e hoje, contra quem ousa afrontar o institu\u00eddo poder da burguesia mesmo pelo uso do voto, como se assistiu no Chile ou quando, na Indon\u00e9sia, Suharto massacrou um milh\u00e3o de militantes comunistas que amea\u00e7avam vencer as elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Vinte mil communards foram imediatamente executados. 40 mil foram presos, torturados e executados. Esses eram os considerados \u00abcontumazes\u00bb pelos Conselhos de Guerra de Versalhes, que julgaram e condenaram 13.450 cidad\u00e3os. Contam-se nos autos 80 crian\u00e7as, 1.320 mulheres e 12.050 homens. O n\u00famero de mortos pelas m\u00e3os do governo de Thiers \u00e9 calculado em 80 mil.<\/p>\n<p>A Comuna de Paris acabou por ser uma causa desesperada. Uma causa indispens\u00e1vel na luta de massas, pelo que se aprendeu para lutas futuras. Como escreve Marx a Ludwig Kugelman3:<\/p>\n<p>\u00aba hist\u00f3ria mundial seria, ali\u00e1s, muito f\u00e1cil de fazer se a luta fosse empreendida apenas sob a condi\u00e7\u00e3o de probabilidades infalivelmente favor\u00e1veis. Ela seria, por outro lado, de natureza muito m\u00edstica se as \u201ccasualidades\u201d n\u00e3o desempenhassem nenhum papel. Estas casualidades ocorrem elas pr\u00f3prias naturalmente no campo geral do desenvolvimento e s\u00e3o de novo compensadas por outras casualidades. Mas a acelera\u00e7\u00e3o e o retardamento est\u00e3o muito dependentes de tais \u201ccasualidades\u201d, entre as quais figura tamb\u00e9m o \u201cacaso\u201d do car\u00e1ter das pessoas que no in\u00edcio est\u00e3o \u00e0 frente do movimento.<\/p>\n<p>Desta vez, o \u201cacaso\u201d decisivamente desfavor\u00e1vel n\u00e3o deve de modo algum procurar-se nas condi\u00e7\u00f5es gerais da sociedade francesa, mas na presen\u00e7a dos prussianos na Fran\u00e7a e na sua posi\u00e7\u00e3o mesmo \u00e0s portas de Paris. Isto sabiam-no os parisienses muito bem. Mas sabiam-no tamb\u00e9m os canalhas burgueses de Versalhes. Precisamente por isso colocaram os parisienses perante a alternativa de aceitarem a luta ou de ca\u00edrem sem lutar. A desmoraliza\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria neste \u00faltimo caso teria sido uma desgra\u00e7a muito maior do que a morte de qualquer n\u00famero de \u201cchefes\u201d. Com a luta de Paris, a luta da classe oper\u00e1ria com os capitalistas e o seu Estado entraram numa nova fase. Corra a coisa como correr no imediato, est\u00e1 ganho um novo ponto de partida de import\u00e2ncia hist\u00f3rico-mundial.\u00bb<\/p>\n<p>Apontar para o Futuro<br \/>\nPela primeira vez na Hist\u00f3ria da Humanidade, simples oper\u00e1rios ousaram tomar nas suas m\u00e3os os privil\u00e9gios dos que se julgam seus \u00absuperiores naturais\u00bb. Ousaram formar, com os seus iguais, o seu pr\u00f3prio governo.<\/p>\n<p>\u00c9 admir\u00e1vel a atividade legislativa da Comuna. Em semanas introduziu mais reformas que os governos nos dois s\u00e9culos anteriores. Era o \u00edmpeto revolucion\u00e1rio de corte integral com o passado, o triunfo dos sans-culottes sobre aqueles que os tinham tra\u00eddo na Revolu\u00e7\u00e3o Francesa.<\/p>\n<p>Os principais decretos da Comuna de Paris s\u00e3o refer\u00eancias que apontam para o futuro. O trabalho noturno foi abolido; oficinas que estavam fechadas foram reabertas para que cooperativas fossem instaladas; resid\u00eancias vazias foram desapropriadas e ocupadas; todos os descontos em sal\u00e1rio foram revogados; a jornada de trabalho foi reduzida, prop\u00f5e-se a jornada de oito horas; os sindicatos foram legalizados; instituiu-se a igualdade entre os sexos; projetou-se a autogest\u00e3o das f\u00e1bricas; o monop\u00f3lio da lei pelos advogados, o juramento judicial e os honor\u00e1rios foram anulados; testamentos, ado\u00e7\u00f5es e a contrata\u00e7\u00e3o de advogados tornaram-se gratuitos; o casamento foi simplificado, tornou-se gratuito; a pena de morte foi eliminada; o cargo de juiz tornou-se eletivo; o Estado e a Igreja foram separados, a Igreja deixou de ser subvencionada pelo Estado; os esp\u00f3lios sem herdeiros passaram a ser propriedade do Estado; a educa\u00e7\u00e3o tornou-se gratuita, laica e obrigat\u00f3ria; escolas noturnas foram criadas e todas as escolas passaram a ser de frequ\u00eancia mista; a Bandeira Vermelha foi adotada como s\u00edmbolo da Unidade Federal da Humanidade; instituiu-se um escrit\u00f3rio central de imprensa; o servi\u00e7o militar obrigat\u00f3rio e o ex\u00e9rcito regular foram banidos; todas as finan\u00e7as foram reorganizadas, incluindo os correios, a assist\u00eancia p\u00fablica e os tel\u00e9grafos; tra\u00e7ou-se um plano para a rota\u00e7\u00e3o de trabalhadores; organizou-se uma Escola Nacional de Servi\u00e7o P\u00fablico; os artistas e os escritores passaram a autogestionar os teatros e editoras; o sal\u00e1rio dos professores foi duplicado; o internacionalismo foi posto em pr\u00e1tica, o fato de ser estrangeiro foi considerado irrelevante. Os integrantes da Comuna inclu\u00edam revolucion\u00e1rios de praticamente todos os pa\u00edses da Europa, em especial belgas, italianos, polacos, h\u00fangaros, que defenderam mais patrioticamente a Fran\u00e7a que os vendidos aos interesses privados na esteira do bispo Cauchon, que entregou Joana D\u2019Arc aos ingleses, ou dos que atualmente rastejam \u00e0s ordens do grande capital sem p\u00e1tria.<\/p>\n<p>Uma li\u00e7\u00e3o de hist\u00f3ria<br \/>\nA insurrei\u00e7\u00e3o do 18 de mar\u00e7o de 1871 \u00e9 singular, at\u00e9 contingente e inesperada, mas tem consequ\u00eancias imediatas sobre o movimento oper\u00e1rio e revolucion\u00e1rio. As novas e inovadoras rela\u00e7\u00f5es entre o Estado o Poder e a propriedade privada, as estrat\u00e9gias revolucion\u00e1rias incidindo nas cooperativas, as rela\u00e7\u00f5es entre o movimento oper\u00e1rio e a quest\u00e3o camponesa, o papel das mulheres influenciaram textos maiores do marxismo-leninismo como a Origem da Fam\u00edlia, da Propriedade Privada e do Estado de Engels4, em 1884, obra fulcral para se compreender a origem do patriarcado e da opress\u00e3o das mulheres. Marx, com a grande clareza e lucidez que o caracterizam, percebe melhor a import\u00e2ncia da participa\u00e7\u00e3o das mulheres durante a Comuna e prop\u00f5e a cria\u00e7\u00e3o de se\u00e7\u00f5es femininas na Internacional. Aprofunda os estudos sobre a urg\u00eancia e necessidade de alian\u00e7as entre oper\u00e1rios e camponeses, o que a Comuna no seu breve tempo de exist\u00eancia n\u00e3o teve tempo de realizar. Nas v\u00e1rias reflex\u00f5es sobre esse acontecimento hist\u00f3rico, nas j\u00e1 referidas cartas a Ludwig Kugelmann e ao dirigente socialista alem\u00e3o Wilhelm Liebknecht, sublinha a indecis\u00e3o dos communards de marcharem imediatamente sobre Versalhes e os seus escr\u00fapulos em se apoderar das reservas do Banco da Fran\u00e7a, que poderiam ter dado outro curso \u00e0 hist\u00f3ria da Comuna. Marx sabe bem que o curso de uma revolu\u00e7\u00e3o nunca \u00e9 linear e que a realidade vivida est\u00e1 sempre sujeita a avan\u00e7os e recuos, a contratempos: \u00abnas revolu\u00e7\u00f5es o amanh\u00e3 \u00e9 sempre desconhecido\u00bb5.<\/p>\n<p>A Comuna tem um papel de relevo na elabora\u00e7\u00e3o da teoria revolucion\u00e1ria em Marx, Engels e L\u00eanin. O ensaio de Marx, A Guerra Civil na Fran\u00e7a6, tem a particularidade de, depois de ter feito v\u00e1rios avisos \u00e0 classe oper\u00e1ria sobre os perigos de a\u00e7\u00f5es prematuras em 1870, evidenciar um enorme entusiasmo com a Comuna sem deixar de criticar os seus erros e as suas fragilidades. Ao analisar as debilidades pol\u00edticas da dire\u00e7\u00e3o communard n\u00e3o coloca em causa a Comuna. O seu objetivo \u00e9 retirar li\u00e7\u00f5es da derrota para robustecer a resist\u00eancia, as futuras revolu\u00e7\u00f5es. Via nessa experi\u00eancia hist\u00f3rica um alcance imenso.<\/p>\n<p>Em 1917, nas v\u00e9speras da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, L\u00eanin escreve O Estado e a Revolu\u00e7\u00e3o7, ensaio central na sua vasta obra pol\u00edtica. A Comuna de Paris, os textos de Marx s\u00e3o o ponto de partida para as suas teses sobre a natureza do Estado. A Comuna de Paris \u00e9:<\/p>\n<p>\u00abum passo em frente da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria universal, um passo real, bem mais importante que centenas de programas e de racioc\u00ednios (&#8230;) na mais democr\u00e1tica das rep\u00fablicas, a mais ampla democracia representativa, nunca conseguir\u00e1 eximir-se \u00e0s consequ\u00eancias devastadoras que \u00e9 a separa\u00e7\u00e3o entre representantes e representados. Separados desde logo econ\u00f4mica e socialmente, permite que os representantes manipulem os representados de acordo com os seus pr\u00f3prios interesses (\u2026) n\u00e3o basta apoderar-se do Estado e faz\u00ea-lo funcionar para os seus pr\u00f3prios fins. Exige-se a sua transforma\u00e7\u00e3o impondo a democracia prolet\u00e1ria (ditadura do proletariado) contra a democracia formal burguesa (ditadura da burguesia)\u00bb8.<\/p>\n<p>Democracia burguesa que n\u00e3o hesita em recorrer \u00e0 mais feroz repress\u00e3o, quando a sente necess\u00e1ria para a sua sobreviv\u00eancia. Na realidade, ontem como hoje, a liberdade n\u00e3o \u00e9 igual entre todos. A liberdade nas democracias burguesas \u00e9 instrumental. Nada \u00e9 mais desigual que a igualdade formal entre desiguais. A liberdade de um trabalhador, por raz\u00f5es sociais e econ\u00f4micas, nunca \u00e9 igual \u00e0 de um capitalista, o que levou Orwell a considerar, mesmo quando se op\u00f5e ao totalitarismo, que \u00abpara sermos corrompidos pelo totalitarismo n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio viver num pa\u00eds totalit\u00e1rio\u00bb.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a grande li\u00e7\u00e3o da Comuna de Paris. Uma experi\u00eancia revolucion\u00e1ria \u00edmpar na luta milenar das lutas do proletariado e dos povos oprimidos. Uma chama de esperan\u00e7a revolucion\u00e1ria na longa hist\u00f3ria, feita de \u00eaxitos e fracassos, da luta pela transforma\u00e7\u00e3o do mundo e da vida, evidenciando que o que foi poss\u00edvel um dia o ser\u00e1 de novo, ainda que noutro contexto sujeito \u00e0s condi\u00e7\u00f5es objetivas e subjetivas do momento e das circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas em que eclodir\u00e1.<\/p>\n<p>1. A Guerra Civil em Fran\u00e7a, Karl Marx, Edi\u00e7\u00f5es Avante!, 1984.<br \/>\n2. Histoire De La Conspiration Pour L&#8217;\u00c9galite (dite de Babeuf); de Philippe Buonarroti, edi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica estabelecida por Jean-Numa Ducange, Alain Maillard, St\u00e9phanie Roza, Jean-Marc Schiappa; La Ville Brule, reimpress\u00e3o (2014).<br \/>\n3. Carta de Karl Marx a Ludwig Kugelman, in Obras Escolhidas de Marx\/Engels, em tr\u00eas tomos, Edi\u00e7\u00f5es Avante! 2008-2018.<br \/>\n4. A Origem da Fam\u00edlia, da Propriedade Privada e do Estado, Friedrich Engels; Edi\u00e7\u00f5es Avante!, 1986.<br \/>\n5. Marx (1984).<br \/>\n6. Em 30 de Maio de 1871, apenas dois dias depois do fim da Semana Sangrenta, Marx apresenta ao Conselho da Internacional, em Londres, o texto The civil war in France, que foi rapidamente traduzido para o alem\u00e3o e outras l\u00ednguas.<br \/>\n7. O Estado e a Revolu\u00e7\u00e3o, L\u00eanin, Edi\u00e7\u00f5es Avante!, reimpress\u00e3o (2011).<br \/>\n8. Ditadura do Proletariado tem dado origem \u00e0s mais diversas interpreta\u00e7\u00f5es centradas na etimologia da palavra ditadura, sobretudo por parte dos militantes do chamado socialismo democr\u00e1tico, a forma mais aberta e liberal da ditadura da burguesia, da concep\u00e7\u00e3o burguesa do mundo, que n\u00e3o suprime o processo de acumula\u00e7\u00e3o capitalista e cuja hegemonia ideol\u00f3gica continuar\u00e1 a dominar as massas populares se a concep\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia de classe prolet\u00e1ria n\u00e3o se consubstanciar em conte\u00fados precisos, sem degeneresc\u00eancias positivistas nem fatalismos mecanicistas que assumem como absolutamente certo e pr\u00e9-estabelecido o devir hist\u00f3rico. O exemplo mais acabado de Ditadura da Burguesia \u00e9 o dos EUA, em que dois partidos se alternam continuando pol\u00edticas que, no essencial, s\u00e3o id\u00eanticas. A Ditadura do Proletariado, desde a sua formula\u00e7\u00e3o por L\u00eanin, tem sido motivo de amplo e fundo debate ideol\u00f3gico entre os revolucion\u00e1rios, desde logo entre L\u00eanin e Rosa Luxemburgo, nas hip\u00f3teses da Ditadura do Proletariado ser de partido \u00fanico ou multipartid\u00e1rio. O que \u00e9 central na tese de L\u00eanin \u00e9 a hegemonia de uma classe e n\u00e3o qualquer outro conceito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27028\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[367,109],"tags":[227],"class_list":["post-27028","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-comuna-de-paris","category-c122-franca","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-71W","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27028","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27028"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27028\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27028"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27028"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27028"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}