{"id":27047,"date":"2021-03-24T23:45:10","date_gmt":"2021-03-25T02:45:10","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27047"},"modified":"2023-02-26T01:00:15","modified_gmt":"2023-02-26T04:00:15","slug":"o-imperialismo-em-transe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27047","title":{"rendered":"O imperialismo em transe"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/resistir.info\/crise\/imagens\/naufragio_10pc.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Uma tr\u00edplice crise castiga o sistema capitalista<\/p>\n<p>Por Edmilson Costa [*]<\/p>\n<p>Nada ser\u00e1 como antes<br \/>\nAmanh\u00e3 ou depois de amanh\u00e3<br \/>\n(Milton Nascimento e Ronaldo Bastos)<\/p>\n<p>Parodiando o genial cineasta brasileiro, Glauber Rocha, o sistema capitalista mundial est\u00e1 em transe. Ao contr\u00e1rio das crises c\u00edclicas peri\u00f3dicas e das crises sist\u00eamicas anteriores [1] , esta nova crise mundial do capitalismo tem um car\u00e1ter original e devastador porque ocorre num momento em que o sistema est\u00e1 ferido por uma tr\u00edplice crise: a) uma nova onda da crise sist\u00eamica global e suas consequ\u00eancias econ\u00f4micas, sociais e pol\u00edticas; b) uma crise sanit\u00e1ria que envolve todos os pa\u00edses e a grande maioria da humanidade; e c) uma crise de hegemonia imperialista, cuja express\u00e3o se reflete na decad\u00eancia da economia l\u00edder e a ascens\u00e3o de uma nova pot\u00eancia econ\u00f4mica mundial. Esses tr\u00eas fen\u00f4menos combinados t\u00eam a dimens\u00e3o de um tsunami na ordem capitalista mundial: representam o esgotamento de um longo ciclo iniciado ap\u00f3s a segunda guerra mundial; exp\u00f5e de maneira rude as fragilidades dos sistemas sociais e de sa\u00fade dos pa\u00edses capitalistas e a incapacidade dos governos, especialmente nos Estados Unidos, de proteger a popula\u00e7\u00e3o; bem como o decl\u00ednio estrat\u00e9gico da hegemonia dos Estados Unidos. Essa conjuntura afetar\u00e1 de maneira profunda todo o sistema imperialista mundial, tanto do ponto de vista econ\u00f4mico, monet\u00e1rio, social e pol\u00edtico e ter\u00e1 desdobramentos de curto, m\u00e9dio e longo prazos no horizonte do capitalismo.<\/p>\n<p>Para compreendermos a natureza dos problemas atuais do capitalismo, \u00e9 fundamental atentarmos para o conjunto de profundas mudan\u00e7as que ocorreram no interior das for\u00e7as produtivas mundiais, desde o momento em que o sistema teve uma mudan\u00e7a de qualidade, com a internacionaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e das finan\u00e7as, a partir da segunda metade dos anos 50 do s\u00e9culo passado, consolidadas nas d\u00e9cadas de 70 e 80 e, posteriormente, com a incorpora\u00e7\u00e3o de novos e extraordin\u00e1rios setores produtivos. A introdu\u00e7\u00e3o desses novos ramos de produ\u00e7\u00e3o no sistema industrial, como com as tecnologias da informa\u00e7\u00e3o, especialmente a internet e a telem\u00e1tica, a rob\u00f3tica, a microeletr\u00f4nica, a engenharia gen\u00e9tica e biotecnologia, a nanotecnologia e intelig\u00eancia artificial, os novos materiais, entre outras, significou uma nova revolu\u00e7\u00e3o industrial. Com essas inova\u00e7\u00f5es, o sistema capitalista deu um salto de qualidade e transformou a ci\u00eancia e o conhecimento numa das ferramentas decisivas do sistema produtivo mundial. As novas tecnologias repercutiram tamb\u00e9m de maneira exponencial na \u00f3rbita da circula\u00e7\u00e3o, gerando mudan\u00e7as de qualidade tanto no sistema comercial, com o com\u00e9rcio eletr\u00f4nico ( e-commerce ), quanto na esfera financeira e de servi\u00e7os, o que modificou radicalmente a din\u00e2mica dos neg\u00f3cios no capitalismo.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante avaliarmos sinteticamente as mudan\u00e7as que correram no interior do sistema produtivo capitalista para entendermos a natureza da crise e as contradi\u00e7\u00f5es que essas novas for\u00e7as produtivas operaram no interior do sistema tanto do ponto de vista econ\u00f4mico, quanto social e pol\u00edtico. Marx tinha raz\u00e3o quando escreveu no prefacio da Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 Cr\u00edtica da Economia Pol\u00edtica que h\u00e1 um momento em que as for\u00e7as produtivas entram em contradi\u00e7\u00f5es com as velhas rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o e abrem espa\u00e7o para as revolu\u00e7\u00f5es sociais. &#8220;O modo de produ\u00e7\u00e3o da vida material condiciona o processo da vida social, pol\u00edtica e intelectual &#8230; Em certa etapa de seu desenvolvimento, as for\u00e7as produtivas materiais da sociedade entram em contradi\u00e7\u00e3o com as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o existentes, ou, o que n\u00e3o \u00e9 mais que sua express\u00e3o jur\u00eddica, com as rela\u00e7\u00f5es de propriedade no seio das quais elas se haviam desenvolvido at\u00e9 ent\u00e3o &#8230; De formas evolutivas que eram, essas rela\u00e7\u00f5es convertem-se em entraves. Abre-se ent\u00e3o a \u00e9poca da revolu\u00e7\u00e3o social. A transforma\u00e7\u00e3o que se produziu na base econ\u00f4mica transforma mais ou menos, lenta ou rapidamente, toda a colossal superestrutura &#8230; As for\u00e7as produtivas que se desenvolvem no seio da sociedade burguesa criam, ao mesmo tempo, as condi\u00e7\u00f5es materiais para resolver esse antagonismo&#8221;. [2] O que podemos constatar atualmente no sistema capitalista mundial \u00e9 uma rebeli\u00e3o generalizada das sofisticadas for\u00e7as produtivas do capital em contradi\u00e7\u00e3o com as velhas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o social, cuja express\u00e3o \u00e9 a crise mundial, porque estas rela\u00e7\u00f5es j\u00e1 n\u00e3o correspondem mais ao est\u00e1gio de desenvolvimento material e tecnol\u00f3gico do capitalismo.<\/p>\n<p>A partir de meados da d\u00e9cada de 50 o sistema capitalista come\u00e7ou a mudar tanto a forma quanto a estrutura de produ\u00e7\u00e3o e das finan\u00e7as em escala internacional, processo que se consolidou nos anos 70 e 80 do s\u00e9culo passado. As transforma\u00e7\u00f5es ocorridas tanto na \u00f3rbita da produ\u00e7\u00e3o quanto da circula\u00e7\u00e3o, produziram uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o na base material, na esfera das finan\u00e7as, do com\u00e9rcio e dos servi\u00e7os, o que significou um salto de qualidade extraordin\u00e1rio no processo de acumula\u00e7\u00e3o mundial, inclusive resultando num processo de remonopoliza\u00e7\u00e3o global. [3] O sistema capitalista passou a produzir em todas as regi\u00f5es do planeta e internacionalizar o circuito financeiro, comercial e de servi\u00e7os, transformando-se efetivamente num sistema mundial completo. [4] Em todo o processo hist\u00f3rico anterior, o capitalismo s\u00f3 era completo no que se refere a duas vari\u00e1veis da \u00f3rbita da circula\u00e7\u00e3o \u2013 o com\u00e9rcio mundial e a exporta\u00e7\u00e3o de capitais, a partir das quais capturava o mais-valor dos pa\u00edses da periferia. Mantinha o monop\u00f3lio da produ\u00e7\u00e3o nos pa\u00edses centrais e articulava a hegemonia mundial mediante aquilo que Raul Prebisch e Samir Amin denominaram, respectivamente, de deteriora\u00e7\u00e3o dos termos de troca ou trocas desiguais, ou seja, os pa\u00edses centrais exportavam produtos manufaturados, onde a produtividade \u00e9 exponencial, e importavam dos pa\u00edses perif\u00e9ricos produtos minerais e agropecu\u00e1rios, setores em que a produtividade \u00e9 linear.<\/p>\n<p>Com a internacionaliza\u00e7\u00e3o produtiva, o processo manufatureiro foi estendido tamb\u00e9m \u00e0 periferia capitalista, que passou a se integrar \u00e0s cadeias globais de produ\u00e7\u00e3o, particularmente naqueles setores mais intensivos de m\u00e3o de obra. Mediante a rede de milhares de filiais espalhadas por todos os continentes, a internacionaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o \u00e9 hegemonizada pelas corpora\u00e7\u00f5es internacionais, que dominam os setores que agregam mais valor e lideram o processo de pesquisa e desenvolvimento, o que significa o controle hegem\u00f4nico de todo o processo mundial de produ\u00e7\u00e3o. A aventura para o exterior do setor produtivo pode ter ocorrido, entre outros fatores, em fun\u00e7\u00e3o do esgotamento dos seus mercados, bem como pela necessidade de criar novos mercados de apropria\u00e7\u00e3o do mais-valor. Isso foi facilitado pelas imensas vantagens que os novos territ\u00f3rios de produ\u00e7\u00e3o proporcionavam a essas corpora\u00e7\u00f5es como mat\u00e9rias-primas pr\u00f3ximas ao sistema produtivo, m\u00e3o de obra barata e facilidades institucionais criadas pelos governos dos pa\u00edses onde se estabeleciam. J\u00e1 a internacionaliza\u00e7\u00e3o das finan\u00e7as foi articulada pela oligarquia financeira que j\u00e1 dominava historicamente os circuitos na \u00f3rbita das finan\u00e7as nos pa\u00edses centrais, muito embora tenha surgido nessa nova conjuntura novos agentes financeiros que passaram a ter um papel importante na din\u00e2mica especulativa que seria estabelecida a partir dos anos 80.<\/p>\n<p>Apesar das mudan\u00e7as na forma de apropria\u00e7\u00e3o do valor e da acumula\u00e7\u00e3o de capital, o sistema capitalista se tornou ainda mais hegem\u00f4nico n\u00e3o s\u00f3 porque as grandes corpora\u00e7\u00f5es passaram a se apropriar direta e generalizadamente do mais-valor em praticamente todas as partes do mundo, mas tamb\u00e9m porque, em fun\u00e7\u00e3o de sua dimens\u00e3o econ\u00f4mica, ampliaram sua influ\u00eancia sobre a formula\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas dos pa\u00edses da periferia. Vale ressaltar ainda que a nova conjuntura aberta com as mudan\u00e7as realizadas pelos governos Reagan e Tatcher transformaram o polo financeiro do grande capital no setor hegem\u00f4nico da din\u00e2mica capitalista, inclusive subordinando todos os outros setores \u00e0 l\u00f3gica financeira. O frenesi especulativo que emergiu nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas \u00e9 a express\u00e3o das dificuldades do grande capital em realizar o circuito completo da acumula\u00e7\u00e3o a partir da produ\u00e7\u00e3o. Para efeito anal\u00edtico, avaliaremos separadamente a internacionaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e a internacionaliza\u00e7\u00e3o das finan\u00e7as, apenas para compreens\u00e3o mais detalhada desses fen\u00f4menos, uma vez que entendemos a rela\u00e7\u00e3o org\u00e2nica entre os v\u00e1rios setores do capital se aprofundou nesse per\u00edodo.<\/p>\n<p>As transforma\u00e7\u00f5es produtivas e financeiras<\/p>\n<p>Analisando mais especificamente a internacionaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, \u00e9 importante ressaltar que as grandes corpora\u00e7\u00f5es transnacionais produtivas se adaptaram aos novos tempos e articularam uma estrutura integrada mundial em todo o ciclo do capital, como investimento, produ\u00e7\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o e acumula\u00e7\u00e3o. Como Marx j\u00e1 observara no Manifesto, a grande ind\u00fastria transformou a pequena oficina do antigo mestre da corpora\u00e7\u00e3o em grande f\u00e1brica onde concentrou todo o processo de produ\u00e7\u00e3o, [5] tamb\u00e9m na globaliza\u00e7\u00e3o produtiva as antigas divis\u00f5es de trabalho no interior das empresas nacionais se transformaram em Departamentos Internacionais: agora planejamento, gest\u00e3o, investimento, tecnologia, produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o das mercadorias passaram a responder a um centro \u00fanico, a partir do qual essas corpora\u00e7\u00f5es coordenam seus tent\u00e1culos pelo mundo. [6] Em outros termos, todas as regi\u00f5es do planeta se transformaram em esfera \u00fanica direta de acumula\u00e7\u00e3o, processo a partir do qual o grande capital se aproveita das melhores disponibilidades dos pa\u00edses perif\u00e9ricos, tanto em termos de mat\u00e9rias-primas, m\u00e3o de obra barata e facilidades institucionais, para ampliar as taxas de lucro. Organizaram-se combinando a venda de seus produtos finais nos pr\u00f3prios mercados nacionais onde se estabeleceram com a produ\u00e7\u00e3o de pe\u00e7as e equipamentos para as matrizes de acordo com as necessidades do centro hegem\u00f4nico, de onde obt\u00e9m vantajosos pre\u00e7os de transfer\u00eancia, [7] constituindo-se assim em cadeias globais de produ\u00e7\u00e3o tendo como centro os pa\u00edses centrais.<\/p>\n<p>Outro fen\u00f4meno derivado da internacionaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o a ser observado \u00e9 o fato de que, como a produ\u00e7\u00e3o agora \u00e9 internacional, o capitalismo unificou o ciclo mundial de produ\u00e7\u00e3o, uma vez que agora h\u00e1 uma interdepend\u00eancia estrutural entre a grande corpora\u00e7\u00e3o e suas afiliadas pelo mundo a fora. Pode-se derivar desse racioc\u00ednio que agora tamb\u00e9m as crises do capital passam a ser globais, posto que todo processo produtivo est\u00e1 interconectado e interdependente, fechando-se assim as rotas de fuga do passado, nas quais uma na\u00e7\u00e3o em crise poderia escoar seus produtos para regi\u00f5es com estabilidade econ\u00f4mica. Isso significa maiores problemas para o capital, uma vez que torna mais dif\u00edcil a gest\u00e3o das crises. A internacionaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m ganhou uma nova din\u00e2mica com a emerg\u00eancia dos novos ramos de produ\u00e7\u00e3o, cuja implanta\u00e7\u00e3o colocou em segundo plano os setores t\u00edpicos da segunda revolu\u00e7\u00e3o industrial, tais como a metal-mec\u00e2nica, a qu\u00edmica, os pl\u00e1sticos, entre outros. Al\u00e9m disso, essas novas tecnologias contribu\u00edram de forma decisiva para modificar substancialmente o perfil do proletariado, uma vez que as inova\u00e7\u00f5es passaram a exigir uma m\u00e3o de obra mais qualificada que no per\u00edodo anterior. Assim, incorpora-se ao novo proletariado os engenheiros e t\u00e9cnicos produtores de chips, da intelig\u00eancia artificial, da nanotecnologia, os desenvolvedores de softwares, os t\u00e9cnicos e cientistas da engenharia gen\u00e9tica, al\u00e9m dos web designers da internet, entre outros trabalhadores altamente qualificados dos novos ramos industriais.<\/p>\n<p>Em outras palavras, a internacionaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o significou uma mudan\u00e7a profunda na estrutura de produ\u00e7\u00e3o do capitalismo, transformando-o efetivamente num sistema mundial integrado. Lenin dizia que os monop\u00f3lios eram a ante-sala do socialismo. Possivelmente foi um excesso de otimismo, pois no seu per\u00edodo o capitalismo estava apenas iniciando o amadurecimento do seu sistema efetivamente internacional. Agora sim, com a internacionaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, estamos muito mais pr\u00f3ximos do socialismo que no per\u00edodo de Lenin. N\u00e3o se pode esquecer que essa internacionaliza\u00e7\u00e3o, transformou as corpora\u00e7\u00f5es transnacionais em destacamentos avan\u00e7ados do sistema capitalista central nos pa\u00edses perif\u00e9ricos. Em contrapartida, produziu um conjunto de mudan\u00e7as na ordem do capital: do ponto de vista da acumula\u00e7\u00e3o mundial, a extra\u00e7\u00e3o do valor de maneira generalizada fora das fronteiras nacionais tornou a burguesia cosmopolita uma classe exploradora direta dos trabalhadores tanto no centro quanto na periferia [8] e unificou objetivamente os interesses do proletariado mundial. A internacionaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o atualizou de maneira extraordin\u00e1ria a palavra de ordem de Marx &#8220;prolet\u00e1rios do mundo, uni-vos&#8221;. [9] Ou seja, agora essa consigna tem muito mais ader\u00eancia \u00e0 realidade que nos tempos do pr\u00f3prio Marx porque o proletariado na atualidade est\u00e1 muito mais vinculado organicamente a um centro explorador que no s\u00e9culo XIX e, portanto, com mais possibilidades de unidade de a\u00e7\u00e3o internacional. A internacionaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o modificou ainda a din\u00e2mica do com\u00e9rcio internacional, tendo em vista que parcelas cada vez maiores das transa\u00e7\u00f5es internacionais (algo em torno de 40%) passaram a ser realizadas entre as matrizes e filiais das corpora\u00e7\u00f5es transnacionais.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, praticamente todos os articulistas definem essa nova fase do desenvolvimento das for\u00e7as produtivas do capitalismo como a era do imaterial, como se todo o processo de produ\u00e7\u00e3o flutuasse no v\u00e1cuo. A economia atual n\u00e3o tem nada de imaterial: pelo contr\u00e1rio \u00e9 muito mais material que no per\u00edodo do fordismo, porque a produ\u00e7\u00e3o \u00e9 muito maior e mais socializada, envolve um contingente tamb\u00e9m maior do proletariado e s\u00f3 n\u00e3o est\u00e1 \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de toda a humanidade pelas pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo. Esses analistas n\u00e3o compreendem que tudo na vida \u00e9 material e que o pr\u00f3prio conhecimento, como diziam os sovi\u00e9ticos, \u00e9 uma propriedade altamente organizada e sofisticada da mat\u00e9ria. [10] Portanto, o que denominam de economia intang\u00edvel, economia imaterial n\u00e3o tem nada de intang\u00edvel ou imaterial: trata-se apenas de um momento novo da produ\u00e7\u00e3o do capital, com cadeias de produ\u00e7\u00e3o do valor altamente sofisticadas, no qual as for\u00e7as produtivas dependem cada vez mais da ci\u00eancia e do conhecimento humano para a produ\u00e7\u00e3o de bens e servi\u00e7os. Caso a humanidade, num per\u00edodo n\u00e3o muito distante, consiga romper as amarras das leis do capital, j\u00e1 existem for\u00e7as produtivas suficientes para criar uma sociedade da abund\u00e2ncia e da felicidade humana. Nesse sentido, com as novas ferramentas da computa\u00e7\u00e3o, o planejamento se tornaria muito mais efetivo que no per\u00edodo anterior \u00e0s tecnologias da informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo em que se realizavam as modifica\u00e7\u00f5es no interior do sistema produtivo, desenvolvia-se tamb\u00e9m profundas mudan\u00e7as na \u00f3rbita das finan\u00e7as. Os bancos seguiram o caminho das corpora\u00e7\u00f5es produtivas e tamb\u00e9m implementaram a internacionaliza\u00e7\u00e3o das finan\u00e7as, tanto pelas rela\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas que possu\u00edam com esses monop\u00f3lios nos pa\u00edses centrais, como por uma s\u00e9rie de mudan\u00e7as que ocorreram na ordem econ\u00f4mica internacional, como o fim de Bretton Woods, a implanta\u00e7\u00e3o das taxas de c\u00e2mbio flex\u00edveis, a forma\u00e7\u00e3o do mercado de eurod\u00f3lares e as pol\u00edticas de liberaliza\u00e7\u00e3o financeira e mobilidade de capitais realizadas pelos governos Tatcher e Reagan. Da mesma forma que as corpora\u00e7\u00f5es produtivas, o bancos foram criando milhares de filiais ao redor do mundo e ocupando cada vez mais espa\u00e7os na din\u00e2mica da economia capitalista. Um elemento importante desse processo foi o fato de que o mercado de eurod\u00f3lares significou, na pr\u00e1tica, a privatiza\u00e7\u00e3o da liquidez internacional, uma vez que anteriormente a grande maioria do cr\u00e9dito internacional era fornecido pelas ag\u00eancias multilaterais. [11] Esse movimento facilitou o avan\u00e7o das finan\u00e7as, agora internacionalizadas, processo que foi acelerado pelas medidas liberalizantes tomadas pelos governos centrais no final da d\u00e9cada de 70 e no in\u00edcio dos anos 80, fatos que a partir da\u00ed consolidaram o poder dos grandes conglomerados financeiros.<\/p>\n<p>A desregulamenta\u00e7\u00e3o financeira e a livre mobilidade de capitais abriu tamb\u00e9m espa\u00e7o para as chamadas inova\u00e7\u00f5es financeiras, mediante as quais as institui\u00e7\u00f5es banc\u00e1rias desenvolveram em n\u00edvel mundial um frenesi de novos &#8220;produtos financeiros&#8221; nos mercados futuros, mercado de a\u00e7\u00f5es, c\u00e2mbio, t\u00edtulos de d\u00edvida, b\u00f4nus e derivativos em geral, cujo desempenho transformou a especula\u00e7\u00e3o e o rentismo como um instrumento institucionalizado na nova din\u00e2mica da economia capitalista. &#8220;A nova pol\u00edtica monetarista fortaleceu enormemente o polo financeiro do grande capital, que passou a impor ao conjunto da economia as novas regras do mercado, de forma a ampliar sua participa\u00e7\u00e3o na riqueza e subordinar os outros setores \u00e0 l\u00f3gica das finan\u00e7as. Ancorados por tecnologias da informa\u00e7\u00e3o cada vez mais desenvolvidas, pela generaliza\u00e7\u00e3o dos computadores e da internet, novos &#8220;produtos&#8221; financeiros foram criados numa velocidade proporcional \u00e0 criatividade do sistema liberalizado. Especula\u00e7\u00e3o no mercado futuro de c\u00e2mbio, de juros, swaps, b\u00f4nus e derivativos em geral marcaram a t\u00f4nica das finan\u00e7as a partir de ent\u00e3o.&#8221; [12]<\/p>\n<p>Essas inova\u00e7\u00f5es financeiras possibilitaram \u00e0 \u00f3rbita das finan\u00e7as romper as barreiras econ\u00f4micas do espa\u00e7o e do tempo: passaram a auto acrescentar o capital fict\u00edcio, pela primeira vez na hist\u00f3ria, ao longo das 24 horas do dia, bastando para tanto que os escrit\u00f3rios desses conglomerados ajustassem seus neg\u00f3cios aos fusos hor\u00e1rios das diversas pra\u00e7as financeiras mundiais. O passo seguinte da din\u00e2mica especulativa foi a captura de parte dos neg\u00f3cios produtivos e do fundo p\u00fablico. No primeiro caso, fundos financeiros passaram a ter assento em n\u00famero cada vez maior nas diretorias das empresas produtivas e, a partir da\u00ed, passaram a pressionar essas firmas a operar com a mesma din\u00e2mica da \u00f3rbita financeira, ou seja, obter lucros r\u00e1pidos e na mesma propor\u00e7\u00e3o da especula\u00e7\u00e3o financeira. [13] A captura do fundo p\u00fablico foi realizada mediante a d\u00edvida p\u00fablica tanto nos pa\u00edses centrais quanto perif\u00e9ricos: uma pol\u00edtica de juros altos obrigou os Estados a destinarem cada vez mais recursos do or\u00e7amento para o pagamento da d\u00edvida at\u00e9 transform\u00e1-los em prisioneiros da oligarquia financeira. Esse processo seguiu de maneira acelerada at\u00e9 que a \u00f3rbita financeira conseguisse hegemonizar completamente a din\u00e2mica da economia capitalista. Para se ter uma ideia, antes da crise de 2008, os valores financeiros que circulavam na \u00f3rbita das finan\u00e7as eram cerca de 10 vezes maiores que o produto mundial.<\/p>\n<p>Uma revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica<\/p>\n<p>Enquanto se consolidava a internacionaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e das finan\u00e7as, um novo movimento de transforma\u00e7\u00f5es impactou de maneira profunda as for\u00e7as produtivas do capitalismo. Trata-se dos novos ramos de produ\u00e7\u00e3o baseados no mais avan\u00e7ado desenvolvimento cient\u00edfico, tais como as tecnologias da informa\u00e7\u00e3o, especialmente a internet, as telecomunica\u00e7\u00f5es, a telem\u00e1tica, a microeletr\u00f4nica, a rob\u00f3tica, a engenharia gen\u00e9tica e a biotecnologia, a intelig\u00eancia artificial, a nanotecnologia, entre outros. Muitos desses novos setores de produ\u00e7\u00e3o viriam a se consolidar nos anos 90 e, especialmente, no s\u00e9culo XXI, transformando de maneira radical a base produtiva do sistema de produ\u00e7\u00e3o mundial e deixando em um segundo plano os velhos setores industriais t\u00edpicos da segunda revolu\u00e7\u00e3o industrial. Podemos dizer que a consolida\u00e7\u00e3o desses novos meios de produ\u00e7\u00e3o significou uma mudan\u00e7a de qualidade na produ\u00e7\u00e3o industrial no interior do capitalismo, processo que ser\u00e1 acelerado quando a nanotecnologia, a intelig\u00eancia artificial e as tecnologias oriundas da f\u00edsica qu\u00e2ntica estiverem sendo utilizadas em larga escala no interior da produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se avaliarmos a produ\u00e7\u00e3o dos dias atuais pode-se dizer que toda a manufatura mundial, o com\u00e9rcio e os servi\u00e7os est\u00e3o permeados por essas novas tecnologias. Toda produ\u00e7\u00e3o de bens de consumo, equipamentos fabris, opera\u00e7\u00f5es financeiras, comerciais ou de servi\u00e7os est\u00e1 integrada \u00e0s tecnologias da informa\u00e7\u00e3o. A velha f\u00e1brica dos homens pr\u00e1ticos ou dos trabalhadores fordistas foi superada pela intera\u00e7\u00e3o entre o ser humano com alta qualifica\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e a mais avan\u00e7ada tecnologia nas linhas de produ\u00e7\u00e3o. Os computadores e softwares especializados comandam o planejamento, as linhas de produ\u00e7\u00e3o, os setores administrativos, o fluxo dos estoques e a distribui\u00e7\u00e3o dos produtos de acordo com a demanda. A microeletr\u00f4nica e as telecomunica\u00e7\u00f5es contribu\u00edram de maneira fundamental para o desenvolvimento da ind\u00fastria de semicondutores e chips em geral, o que possibilitou a produ\u00e7\u00e3o de novos bens de consumo, menores e mais eficientes, como os smartphones, tablets, notebooks e computadores de mesa, al\u00e9m do fato de que de que as comunica\u00e7\u00f5es por sat\u00e9lites transformaram radicalmente as comunica\u00e7\u00f5es e at\u00e9 mesmo as previs\u00f5es do tempo. A nanotecnologia, a intelig\u00eancia artificial, a computa\u00e7\u00e3o qu\u00e2ntica e os novos materiais em breve contribuir\u00e3o para um novo salto de qualidade nas for\u00e7as produtivas do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p>A internet produziu uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o nas comunica\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00f3 entre as pessoas, governos, entidades, mas tamb\u00e9m nos neg\u00f3cios e na cultura, resultando numa integra\u00e7\u00e3o em rede digital da maioria da popula\u00e7\u00e3o mundial, como diz Castells. [14] Com um simples celular, notebook, ou computador de mesa qualquer pessoa pode ter todo o conhecimento do mundo em suas m\u00e3os, muito embora essa estrutura de informa\u00e7\u00e3o tenha sido capturada pelos monop\u00f3lios. No entanto, ainda existe uma faixa muito grande para a a\u00e7\u00e3o independente e, caso haja uma mudan\u00e7a de fundo nas rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e sociais, a internet poderia se transformar num grande instrumento de democratiza\u00e7\u00e3o do conhecimento para a humanidade. De qualquer forma, os avan\u00e7os nas for\u00e7as produtivas oriundas das tecnologias da informa\u00e7\u00e3o ser\u00e3o ainda mais revolucion\u00e1rios quando estiver implantada a internet 5G e as redes qu\u00e2nticas. Possivelmente, dentro de pouco tempo, teremos transforma\u00e7\u00f5es t\u00e3o revolucion\u00e1rias que os bens e servi\u00e7os atuais parecer\u00e3o obsoletos diante das novas tecnologias da informa\u00e7\u00e3o e da produ\u00e7\u00e3o da pr\u00f3xima d\u00e9cada.<\/p>\n<p>A engenharia gen\u00e9tica, a biotecnologia e a maquinaria agropecu\u00e1ria tamb\u00e9m est\u00e3o profundamente inseridas no sistema de produ\u00e7\u00e3o do capitalismo, tornando o campo um ramo do sistema industrial. O melhoramento gen\u00e9tico das aves possibilitou a produ\u00e7\u00e3o em massa de carnes, reduzindo o tempo de corte de quatro-cinco meses no passado para cerca de 40 dias atualmente, o que ampliou de maneira generalizada o consumo de prote\u00edna e a amplia\u00e7\u00e3o e barateamento do da carne. Da mesma forma, o melhoramento gen\u00e9tico e as modernas t\u00e9cnicas de cria\u00e7\u00e3o do gado reduziram de maneira extraordin\u00e1ria o tempo de abate, ampliando tamb\u00e9m a produ\u00e7\u00e3o de prote\u00edna bovina em v\u00e1rias regi\u00f5es do planeta. Ainda em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 prote\u00edna, a produ\u00e7\u00e3o de peixes em tanques, viveiros ou mesmo em \u00e1reas demarcadas dos litorais mar\u00edtimos foi ampliada extraordinariamente, reduzindo a press\u00e3o da pesca predat\u00f3ria nos mares e rios. A biotecnologia j\u00e1 est\u00e1 plenamente implantada na produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola mundial, tanto na produ\u00e7\u00e3o de sementes quanto na produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola em geral, o que tem possibilitado um aumento da produ\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os e vegetais com maior produtividade e muitos pa\u00edses, como o Brasil, se transformasse num grande exportador de gr\u00e3os. N\u00e3o se pode esquecer, todavia, que todo esse sistema produtivo \u00e9 dominado, tanto do ponto de vista da produ\u00e7\u00e3o quanto da comercializa\u00e7\u00e3o, pelos monop\u00f3lios transnacionais. Como t\u00eam por base o lucro, seus interesses est\u00e3o voltados para os interesses privados, o que tem resultado numa rela\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria com a natureza e na produ\u00e7\u00e3o de alimentos com elevado \u00edndice de contamina\u00e7\u00e3o para as pessoas, especialmente na periferia.<\/p>\n<p>Na \u00f3rbita da circula\u00e7\u00e3o, a automa\u00e7\u00e3o banc\u00e1ria se transformou num instrumento fundamental dos neg\u00f3cios na \u00e1rea financeira. O sistema financeiro est\u00e1 presente em todas as regi\u00f5es do planeta, tanto que hoje, com um simples celular, se pode fazer qualquer opera\u00e7\u00e3o banc\u00e1ria com qualquer banco em qualquer parte do mundo. As bolsas de valores e os mercados financeiros est\u00e3o integrados e interconectados internacionalmente, o que possibilitou que os neg\u00f3cios na \u00e1rea financeira se transformassem numa arena de especula\u00e7\u00e3o internacional ao longo das 24 horas do dia. Os meios de comunica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m evolu\u00edram de maneira extraordin\u00e1ria, tanto que hoje em um aparelho de TV, computador, celular e tablete qualquer pessoa pode ter em tempo real todas as informa\u00e7\u00f5es em qualquer parte do mundo. O com\u00e9rcio se desenvolveu de maneira impressionante, com a emerg\u00eancia do com\u00e9rcio eletr\u00f4nico e os servi\u00e7os de entrega, o que vem deixando cada vez mais em segundo plano as lojas f\u00edsicas e a tend\u00eancia \u00e9 que, em pouco tempo, as compras via on line superem o com\u00e9rcio tradicional. Esse conjunto de inova\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m est\u00e1 sob o comando dos monop\u00f3lios, mas em outro sistema se constituir\u00e1 numa base fundamental para servir toda a humanidade.<\/p>\n<p>As contradi\u00e7\u00f5es do sistema<\/p>\n<p>Dessa forma estamos diante de uma conjuntura inteiramente nova. As for\u00e7as produtivas mundiais, a organiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e a forma de apropria\u00e7\u00e3o mundial do valor mudaram radicalmente desde o final da segunda guerra mundial. A internacionaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o reorganizou o processo de acumula\u00e7\u00e3o mundial, com a burguesia passando a extrair o valor diretamente e de maneira generalizada em praticamente todas as regi\u00f5es do planeta; a introdu\u00e7\u00e3o dos novos ramos produtivos baseados nas mais sofisticadas tecnologias, mudou radicalmente o sistema produtivo do capitalismo mundial, bem como as inova\u00e7\u00f5es em v\u00e1rias \u00e1reas do conhecimento transformaram radicalmente o setor comercial e o setor de servi\u00e7os. O sistema financeiro, baseado no avan\u00e7o das tecnologias, especialmente na automatiza\u00e7\u00e3o banc\u00e1ria e da internet, transformou de maneira radical a \u00f3rbita das finan\u00e7as. A nova conjuntura mudou tamb\u00e9m de maneira profunda o perfil dos trabalhadores, incorporando ao mundo do trabalho um proletariado jovem e altamente qualificado.<\/p>\n<p>Podemos dizer que sobre os escombros da segunda revolu\u00e7\u00e3o industrial foi criado um sistema produtivo, comercial, financeiro e de servi\u00e7os inteiramente diferente da velha estrutura constru\u00edda no p\u00f3s-guerra. Enquanto as profundas modifica\u00e7\u00f5es ocorriam em todo o sistema capitalista, as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o continuaram as mesmas, como se o mundo tivesse parado no tempo e, em muitos casos, as rela\u00e7\u00f5es trabalhistas regrediram para estatutos do s\u00e9culo XIX. Em termos mais pol\u00edticos, a ordem constru\u00edda ap\u00f3s a derrota do nazi-fascismo e em Bretton Woods j\u00e1 n\u00e3o corresponde mais \u00e0 atual \u00e0 realidade mundial, particularmente a partir do surgimento de novos atores globais, como a China. Dessa maneira, a crise que atinge o sistema capitalista hoje \u00e9 a express\u00e3o da necessidade de constru\u00e7\u00e3o de outra ordem econ\u00f4mica e social, cujo pano de fundo, ainda n\u00e3o foi percebido pelos gestores do capital, \u00e9 a rebeli\u00e3o das for\u00e7as produtivas contras as velhas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, que atualmente representam um entrave para seu pr\u00f3prio desenvolvimento.<\/p>\n<p>A exemplo de Marx, Lenin tamb\u00e9m j\u00e1 identificara essa contradi\u00e7\u00e3o fundamental no processo de desenvolvimento do capitalismo: &#8220;&#8230; assim como as causas materiais est\u00e3o por tr\u00e1s de todos os fen\u00f4menos naturais, o desenvolvimento da sociedade humana \u00e9 condicionado pelo desenvolvimento das for\u00e7as materiais, as for\u00e7as produtivas. Do desenvolvimento das for\u00e7as produtivas dependem as rela\u00e7\u00f5es nas quais os homens entram uns com os outros na produ\u00e7\u00e3o das coisas necess\u00e1rias para a satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades humanas. E nessas rela\u00e7\u00f5es est\u00e1 a explica\u00e7\u00e3o de todos os fen\u00f4menos da vida social, aspira\u00e7\u00f5es humanas, ideias e leis. O desenvolvimento das for\u00e7as produtivas cria rela\u00e7\u00f5es sociais baseadas na propriedade privada, mas agora vemos que esse mesmo desenvolvimento das for\u00e7as produtivas priva a maioria de sua propriedade e a concentra nas m\u00e3os de uma minoria insignificante.&#8221; [15] Como se pode observar, a crise sist\u00eamica global atualiza de maneira extraordin\u00e1ria as contradi\u00e7\u00f5es j\u00e1 expressas a mais de um s\u00e9culo pelos fundadores do marxismo e torna-se o exemplo o mais claro dessa contradi\u00e7\u00e3o em car\u00e1ter mundial. A crise vai continuar seu curso apesar de todas as manobras dos gestores do capital e de sua propaganda manipulat\u00f3ria.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode esquecer que em v\u00e1rios momentos recentes do capitalismo os gestores do capital identificaram a necessidade de mudan\u00e7as e procuraram realiz\u00e1-las como forma de se adaptar aos problemas colocados pela nova conjuntura, muito embora essas modifica\u00e7\u00f5es, em vez de resolver os problemas, aprofundaram as contradi\u00e7\u00f5es do capital. Entre essas iniciativas est\u00e1 o processo de reestrutura\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o que, entre outras medidas, inclui mudan\u00e7as profundas na organiza\u00e7\u00e3o do trabalho, mediante a produ\u00e7\u00e3o por demanda, os c\u00edrculos de controle de produ\u00e7\u00e3o, o aperfei\u00e7oamento cont\u00ednuo da produ\u00e7\u00e3o e a administra\u00e7\u00e3o por estresse. Esse novo ordenamento imp\u00f4s o estabelecimento de metas de produ\u00e7\u00e3o, nas quais um menor n\u00famero de trabalhadores \u00e9 obrigado a realizar tarefas anteriormente feitas por uma quantidade maior de assalariados, tudo isso para reorganizar o sistema produtivo e aumentar a produtividade, de forma a que os capitalistas possam escapar dos efeitos da composi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica do capital e da queda na taxa de lucros. As pol\u00edticas neoliberais iniciadas no final dos anos 70 e in\u00edcio dos anos 80 podem tamb\u00e9m ser consideradas como resposta desesperada do capital \u00e0 contradi\u00e7\u00e3o entre as novas for\u00e7as produtivas e as velhas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o. Essas pol\u00edticas romperam o pacto do chamado estado do bem estar social, per\u00edodo em que as burguesias dos pa\u00edses centrais foram obrigadas a aceitar uma s\u00e9rie de reivindica\u00e7\u00f5es dos trabalhadores porque grande parte dela foi derrotada pela guerra junto com o nazi-fascismo.<\/p>\n<p>No entanto, tanto a reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva quanto as pol\u00edticas monetaristas representaram apenas um ataque \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o, aos direitos, garantias e sal\u00e1rios aos trabalhadores e um avan\u00e7o agressivo do capital sobre o fundo p\u00fablico, mas n\u00e3o resolveram o problema central das contradi\u00e7\u00f5es impostas pela nova realidade. Nenhuma dessas medidas foi capaz de resolver as contradi\u00e7\u00f5es impostas pela nova conjuntura e o que estamos vendo agora com a tr\u00edplice crise \u00e9 a express\u00e3o descontrolada desse processo contradit\u00f3rio. Nunca \u00e9 demais relembrar que crises dessa ordem n\u00e3o ocorrem por gera\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea: s\u00e3o resultados de longos processos que se formam e amadurecem nos subterr\u00e2neos do sistema e quando explodem significam que as medidas tomadas anteriormente para tentar reform\u00e1-lo n\u00e3o foram suficientes. Al\u00e9m disso, essas medidas contribu\u00edram para acirrar a luta de classes e tornar mais clara as contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo, uma vez que o pacto social anterior contribuiu para reduzir e amortecer as tens\u00f5es sociais, particularmente nos pa\u00edses centrais. Cada vez vai ficando mais claro e as pessoas come\u00e7am a perceber essas contradi\u00e7\u00f5es, come\u00e7am a entender quem s\u00e3o os seus verdadeiros inimigos, come\u00e7am a verificar que os ricos ficaram mais ricos, que os pobres s\u00e3o as maiores v\u00edtimas da crise e a pr\u00f3pria crise se encarrega de aprofundar essas contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Na verdade, se analisarmos mais detidamente a crise poderemos identificar uma s\u00e9rie de fen\u00f4menos que indicavam faz algum tempo que algo estava apodrecendo no reino do capital, ou dito de forma mais leve, que alguma coisa estava se deteriorando no interior do sistema. Por exemplo, as crises financeiras do M\u00e9xico em 1994, posteriormente a crise asi\u00e1tica em 1997, a crise na R\u00fassia em 1998 e a crise do Plano Real no Brasil em 1999, apesar de emergiram na \u00f3rbita financeira, indicavam j\u00e1 sinais claros de problemas no interior do sistema. Mas os otimistas contumazes argumentavam que essas crises ocorriam na periferia do sistema como muitas crises anteriores. No entanto, no in\u00edcio dos anos 2000, a crise irrompeu no cora\u00e7\u00e3o da principal economia mundial, os Estados Unidos, exatamente no p\u00f3lo mais avan\u00e7ado das for\u00e7as produtivas, as empresas de tecnologia, conhecidas como empresas ponto.com. Dito de outra forma: levando em conta que a maioria dessas crises ocorreu na \u00f3rbita das finan\u00e7as e que atingiu de maneira diferenciada os diversos pa\u00edses onde ocorreram, n\u00e3o podemos deixar de dizer que a \u00f3rbita da circula\u00e7\u00e3o n\u00e3o flutua no v\u00e1cuo. Mesmo que em algum momento tente autonomizar-se, como j\u00e1 ocorreu em v\u00e1rios per\u00edodos da hist\u00f3ria, a \u00f3rbita das finan\u00e7as \u00e9 parte integrante do capital em geral e n\u00e3o pode se distanciar por muito tempo da economia real. Portanto, o fio condutor para explicar essas crises parciais \u00e9 o fato de que todos esses fen\u00f4menos indicavam o pren\u00fancio de que algo grave ocorria no interior do sistema.<\/p>\n<p>Na verdade, esses fen\u00f4menos sinalizavam um problema muito maior, que era a pr\u00f3pria crise geral do capitalismo, que viria a se expressar em sua totalidade em 2007\/2008, com a crise sist\u00eamica global, cuja emerg\u00eancia colocou em xeque todos os fundamentos da velha ordem e atingiu tamb\u00e9m de maneira profunda todos os pa\u00edses ligados \u00e0 economia l\u00edder. Para evitar o colapso, os bancos centrais dos pa\u00edses capitalistas injetaram montanhas de d\u00f3lares nas economias para salvar o sistema financeiro, enquanto os trabalhadores perdiam suas casas, seus empregos e suas vidas, o que mostra mais uma vez o car\u00e1ter de classe do Estado. Conseguiram adiar por alguns anos um desfecho da crise. Essa fuga para frente possibilitou uma sobrevida a um sistema doente e muitos chegaram mesmo a imaginar que a crise tinha acabado, mesmo que o sistema n\u00e3o tenha alcan\u00e7ado os patamares anteriores \u00e0 crise. Mas a m\u00e1quina de propaganda conseguiu construir um ambiente artificial de &#8220;crescimento econ\u00f4mico&#8221;, baseado em dinheiro criado a partir do nada, o que serviu apenas para enriquecer a oligarquia financeira. Agora, com a nova onda da crise, o governo dos Estados Unidos vem utilizando o mesmo m\u00e9todo da crise anterior e j\u00e1 colocou, desde mar\u00e7o, in\u00edcio da nova onda da crise, U$ 5,4 trilh\u00f5es na economia, ressaltando-se que a d\u00edvida p\u00fablica do Pa\u00eds em 2020 alcan\u00e7ou US$27 trilh\u00f5es.<br \/>\nComo afirmamos em trabalhos anteriores, a crise que emergiu em 2008 n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno corriqueiro, mas uma crise sist\u00eamica, um acontecimento muito diferente das crises c\u00edclicas comuns no ciclo econ\u00f4mico capitalista. Por se tratar de uma crise sist\u00eamica, um fen\u00f4meno novo pelo menos nos \u00faltimos 70 anos, os gestores do capital t\u00eam imensa dificuldade para compreender toda a dimens\u00e3o da conjuntura e, por isso, n\u00e3o conseguem encontrar nenhuma f\u00f3rmula para retomar o crescimento mundial e a estabiliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Repetem as velhas receitas das crises c\u00edclicas sem alcan\u00e7ar nenhum resultado palp\u00e1vel. Agora, est\u00e3o diante de uma nova ilus\u00e3o: como conseguiram dar sobrevida ao sistema emitindo dinheiro sem v\u00ednculo com a produ\u00e7\u00e3o do valor, imaginam que encontraram a receita milagrosa para salvar o sistema, mas esquecem de que a impress\u00e3o pura e simples de moeda n\u00e3o cria riqueza nova. Se a impress\u00e3o de dinheiro pudesse salvar o capitalismo, este seria um sistema eterno \u2013 era s\u00f3 colocar as impressoras para funcionar ou acionar as teclas dos computadores dos bancos centrais. Em algum momento a festa dever\u00e1 acabar e o pre\u00e7o a ser cobrado ser\u00e1 muito alto, como a emerg\u00eancia da infla\u00e7\u00e3o, da crise financeira ou mesmo a desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 moeda de reserva mundial.<\/p>\n<p>A tripla crise e os novos problemas<\/p>\n<p>A nova onda da crise sist\u00eamica global, agora impulsionado pela crise sanit\u00e1ria mundial, veio atualizar o que j\u00e1 afirm\u00e1vamos em 2009 de que a crise era profunda e devastadora e que s\u00f3 terminaria quando todos os problemas colocados pela pr\u00f3pria crise fossem resolvidos. [16] Afinal, as crises sist\u00eamicas s\u00e3o muito diferentes das crises c\u00edclicas que ocorrem no capitalismo desde seus prim\u00f3rdios. Como ocorre com frequ\u00eancia na din\u00e2mica da economia, os capitalistas j\u00e1 desenvolveram mecanismos para administr\u00e1-las, como ocorreu especialmente ap\u00f3s a segunda guerra mundial com as pol\u00edticas keynesianas de interven\u00e7\u00e3o do Estado no ciclo econ\u00f4mico mediante o gasto p\u00fablico. No entanto, as crises sist\u00eamicas t\u00eam um car\u00e1ter inteiramente diferente, porque representam o esgotamento de um longo ciclo de acumula\u00e7\u00e3o, a emerg\u00eancia de contradi\u00e7\u00f5es antag\u00f4nicas que se acumularam no interior do sistema entre as for\u00e7as produtivas e as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e necessitam de mudan\u00e7as quantitativas e qualitativas, al\u00e9m de uma reorganiza\u00e7\u00e3o profunda do sistema econ\u00f4mico ou de sua supera\u00e7\u00e3o. Por isso, as receitas corriqueiras que antes reverteram \u00e0s crises c\u00edclicas, n\u00e3o funcionam para as crises sist\u00eamicas. Isso explica o embara\u00e7o e a perplexidade dos gestores do capital diante dos novos fen\u00f4menos. Vejamos os principais problemas que ocorrem no cora\u00e7\u00e3o do sistema, que \u00e9 a express\u00e3o do que acontecer\u00e1 nos pa\u00edses ligados \u00e0 economia l\u00edder.<\/p>\n<p>A crise econ\u00f4mica atual nos Estados Unidos e, por extens\u00e3o, nos outros pa\u00edses capitalistas, \u00e9 muito maior do que a erup\u00e7\u00e3o em 2007\/2008, afinal quando o centro desmorona a tend\u00eancia \u00e9 o desmoronamento de todos que estejam a ele ligados. O Produto Interno Bruto dos Estados Unidos registrou uma retra\u00e7\u00e3o negativa de -3,5%, uma das maiores da hist\u00f3ria econ\u00f4mica do Pa\u00eds desde a segunda guerra mundial, e as perspectivas para 2021, mesmo com a vacina\u00e7\u00e3o da maioria da popula\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m n\u00e3o podem ser consideradas animadoras, em fun\u00e7\u00e3o do elevado desemprego, da retra\u00e7\u00e3o no consumo das fam\u00edlias e da decad\u00eancia da infraestrutura, especialmente energia e transporte. Em 2020 milhares de pequenas e m\u00e9dias empresas, especialmente nas \u00e1reas comercial e de servi\u00e7os, foram \u00e0 fal\u00eancia e o investimento privado, que j\u00e1 vinha estagnado muito antes da crise, dever\u00e1 ser reduzido em consequ\u00eancia da redu\u00e7\u00e3o da demanda dos consumidores. Nos per\u00edodos de crise c\u00edclica o investimento p\u00fablico funcionava como alavanca para a retomada do crescimento econ\u00f4mico. No entanto, a maioria absoluta dos recursos colocados pelo governo na economia n\u00e3o foi destinada a irrigar o investimento produtivo. Pelo contr\u00e1rio, a montanha de d\u00f3lares liberados pelo FED foi apropriada pela din\u00e2mica especulativa: isso explica a infla\u00e7\u00e3o de ativos financeiros, os recordes de alta na Bolsa de Valores, o crescimento impressionante dos mercados futuros e de derivativos, a aquisi\u00e7\u00e3o de t\u00edtulos t\u00f3xicos e a recompra de a\u00e7\u00f5es das grandes empresas.<\/p>\n<p>A crise econ\u00f4mica colocou na ordem do dia a crise social, a mis\u00e9ria e a pobreza na maior economia do mundo, problema escondido durante v\u00e1rias d\u00e9cadas pelos meios de comunica\u00e7\u00f5es como forma de preservar o mito do sonho americano e da sociedade de oportunidade para todos. Em termos concretos, o desemprego real est\u00e1 por volta de 20% dos trabalhadores. Como a economia n\u00e3o tem possibilidades de recuperar, no curto prazo, os n\u00edveis anteriores \u00e0 crise, o emprego continuar\u00e1 por um longo per\u00edodo muito deprimido, o que se refletir\u00e1 na demanda dos trabalhadores. A situa\u00e7\u00e3o dos desempregados, bem como das fam\u00edlias em geral, s\u00f3 n\u00e3o est\u00e1 pior porque o governo tem proporcionado um aux\u00edlio emergencial que tem impedido a fome generalizada. Mesmo assim, n\u00e3o se pode esquecer que a maior economia do mundo tem atualmente mais de 40 milh\u00f5es de pessoas abaixo da linha da pobreza, total que se elevar\u00e1 \u00e0 medida do agravamento da crise. Al\u00e9m disso, possui ainda mais de 550 mil sem teto, dos quais 358 mil morando em abrigos prec\u00e1rios e 198 mil vivendo nas ruas. [17] Enquanto isso, os bilion\u00e1rios aumentaram sua fortuna em US$ 540 bilh\u00f5es durante a pandemia. [18] Em outras palavras, aquela miragem da sociedade pr\u00f3spera, pa\u00eds das oportunidades, padr\u00e3o da democracia e dos direitos humanos, constru\u00edda ao longo dos anos pela m\u00eddia corporativa, foi inteiramente desmascarada pela crise. Ou seja, a crise revelou a desigualdade, a pobreza, a mis\u00e9ria e um sistema apodrecido com todos os problemas das economias da periferia.<\/p>\n<p>A crise sanit\u00e1ria tamb\u00e9m revelou as dram\u00e1ticas condi\u00e7\u00f5es do sistema de sa\u00fade dos Estados Unidos e as debilidades das pol\u00edticas p\u00fablicas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, especialmente a mais pobre. Ao longo das d\u00e9cadas venderam a imagem de um sistema de sa\u00fade sofisticado, com a mais avan\u00e7ada medicina mundial, mas o que se observou na pr\u00e1tica \u00e9 que o sistema de sa\u00fade, praticamente todo privatizado, foi estruturado para atender apenas uma pequena parte da popula\u00e7\u00e3o, os mais ricos. A maioria da popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tem dinheiro para pagar um plano de sa\u00fade, pode morrer na porta dos hospitais privados. Nesta pandemia o que se pode verificar \u00e9 que os mais pobres, os negros e outras minorias s\u00e3o os mais atingidos e mortos pela doen\u00e7a. Para ampliar o drama, Trump cortou os gastos nas \u00e1reas sociais, o que se refletiu na maior fragiliza\u00e7\u00e3o do sistema hospitalar. Quando veio a pandemia, o sistema entrou em colapso, tanto porque o governo n\u00e3o se estruturou para cuidar da sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o quanto porque o negacionismo do ent\u00e3o presidente contribuiu para ampliar o n\u00famero de enfermos. S\u00f3 a mercantiliza\u00e7\u00e3o da sa\u00fade explica porque a maior economia do planeta \u00e9 a campe\u00e3 mundial de mortos pela pandemia \u2013 com mais de 500 mil mortos e 30 milh\u00f5es de contaminados. Com a posse de Biden, o governo ampliou a vacina\u00e7\u00e3o e espera imunizar 100 milh\u00f5es de pessoas nos cem dias de governo. Isso significa que, se continuar nesse ritmo, at\u00e9 o final do ano toda a popula\u00e7\u00e3o estar\u00e1 vacinada. Mas a vacina\u00e7\u00e3o de todos n\u00e3o ser\u00e1 suficiente para esconder as mazelas sociais do Pa\u00eds, a desigualdade e a iniquidade de um sistema de sa\u00fade feito para os ricos.<\/p>\n<p>Do ponto de vista geopol\u00edtico, a situa\u00e7\u00e3o do imperialismo \u00e9, estrategicamente, dram\u00e1tica em rela\u00e7\u00e3o ao sistema de poder dos Estados Unidos, em fun\u00e7\u00e3o do decl\u00ednio econ\u00f4mico, da competitividade comercial, tecnol\u00f3gica, al\u00e9m da incerteza na \u00e1rea monet\u00e1ria. Aquele mundo em que os Estados Unidos impunham seus interesses e os pa\u00edses obedeciam em ordem unida, especialmente ap\u00f3s a queda da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, j\u00e1 n\u00e3o existe mais. Particularmente na \u00faltima d\u00e9cada emergiu uma nova pot\u00eancia econ\u00f4mica mundial, tanto em termos de produ\u00e7\u00e3o quanto tecnol\u00f3gico, que se transformou na oficina do mundo, para usar o termo que os ingleses utilizavam quando eram hegem\u00f4nicos na geopol\u00edtica mundial. Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o militar, os Estados Unidos continuam sendo a maior pot\u00eancia, mas como h\u00e1 uma paridade nuclear com a R\u00fassia e a China j\u00e1 reuniu condi\u00e7\u00f5es de se defender e atacar ao mesmo tempo qualquer regi\u00e3o do mundo, al\u00e9m de outros pa\u00edses terem tamb\u00e9m armas nucleares capazes de atingir o continente americano, dificilmente a luta pela hegemonia dever\u00e1 ser decidida por uma guerra nuclear, a n\u00e3o ser que os capitalistas em desespero resolvam extinguir a esp\u00e9cie humana com eles pr\u00f3prios juntos. Em poucos anos a China se transformar\u00e1 na principal economia do mundo, com uma s\u00e9rie de vantagens em v\u00e1rias \u00e1reas de ponta como o 5G e computa\u00e7\u00e3o qu\u00e2ntica. Al\u00e9m desses fatores, possui ainda uma m\u00e3o de obra qualificada e uma escala extraordin\u00e1ria em termos de forma\u00e7\u00e3o de engenheiros, t\u00e9cnicos e trabalhadores altamente qualificados, maior que todos os outros pa\u00edses. Todo esse conjunto de quest\u00f5es dever\u00e1 aprofundar ainda mais o decl\u00ednio do imperialismo: viveremos um per\u00edodo muito tenso nas rela\u00e7\u00f5es internacionais; pode ser que haja guerras localizadas, provoca\u00e7\u00f5es, sabotagens e san\u00e7\u00f5es, mas a l\u00f3gica do poder econ\u00f4mico e da escala produtiva e tecnol\u00f3gica chinesas terminar\u00e3o por se impor na economia mundial.<\/p>\n<p>Mas a crise do imperialismo se tornar\u00e1 mais grave quando atingir a hegemonia monet\u00e1ria. Ao longo de v\u00e1rias d\u00e9cadas o d\u00f3lar reinou como a moeda mundial no sistema financeiro internacional, baseado no poder econ\u00f4mico, pol\u00edtico, diplom\u00e1tico e militar dos Estados Unidos. Vale lembrar que desde a guerra do Vietn\u00e3 os Estados Unidos v\u00eam imprimindo d\u00f3lar sem v\u00ednculo com a produ\u00e7\u00e3o do valor e acumulando grandes d\u00e9ficits. Isso foi tolerado em fun\u00e7\u00e3o do seu poder real, mesmo levando em conta que em 1971 Nixon tenha dado o maior calote financeiro da hist\u00f3ria moderna, e tamb\u00e9m porque n\u00e3o havia nenhuma na\u00e7\u00e3o com capacidade econ\u00f4mica e pol\u00edtica para enfrentar esse privil\u00e9gio senhorial. No entanto, h\u00e1 pelo menos duas d\u00e9cadas o poder do d\u00f3lar vem sendo questionado, tanto em fun\u00e7\u00e3o do decl\u00ednio produtivo dos Estados Unidos quanto pela op\u00e7\u00e3o de articular a din\u00e2mica da economia a partir da \u00f3rbita da circula\u00e7\u00e3o. Nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas, alguns fen\u00f4menos monet\u00e1rios j\u00e1 indicavam a necessidade de mudan\u00e7as na ordem econ\u00f4mica e monet\u00e1ria internacional. No final da d\u00e9cada de 90 surgiu a zona do euro, com moeda pr\u00f3pria, e nos \u00faltimos 20 anos a China se transformou no principal Pa\u00eds produtor e exportador mundial. Mas a nova conjuntura da crise de hegemonia se tornou mais clara para parceiros e concorrentes a partir da crise sist\u00eamica de 2008 e, particularmente, com a tripla crise atual, que demonstrou de forma expl\u00edcita as fragilidades da economia, de sua competitividade internacional e do decl\u00ednio geopol\u00edtico.<\/p>\n<p>Como a hist\u00f3ria nos ensina, a hegemonia monet\u00e1ria internacional de um Pa\u00eds est\u00e1 ligada ao seu poder econ\u00f4mico, pol\u00edtico e militar. Isso ocorreu pelo menos desde o imp\u00e9rio romano e particularmente ap\u00f3s os descobrimentos: &#8220;N\u00e3o h\u00e1 nada de novo no fato de a moeda hegem\u00f4nica ser a moeda de reserva global. Foi assim com a Espanha no s\u00e9culo 16, com os holandeses no s\u00e9culo 17, a Fran\u00e7a no s\u00e9culo 18 e a Gr\u00e3-Bretanha no s\u00e9culo 19. Se as pr\u00f3ximas d\u00e9cadas confirmarem o que muitos j\u00e1 chamam de &#8220;s\u00e9culo chin\u00eas&#8221;, o d\u00f3lar pode muito bem empalidecer enquanto o renminbi sobe&#8221;. [19] Mesmo levando em conta que estamos diante de um processo de transi\u00e7\u00e3o, cujo desfecho depender\u00e1 da gravidade da crise econ\u00f4mica mundial, j\u00e1 se pode perceber que algo est\u00e1 se movendo no sistema monet\u00e1rio internacional. Hoje se observa claramente um movimento no sentido de criar outras op\u00e7\u00f5es monet\u00e1rias para as transa\u00e7\u00f5es internacionais, at\u00e9 porque nenhuma economia mant\u00e9m a hegemonia monet\u00e1ria se n\u00e3o tem fundamentos econ\u00f4micos s\u00f3lidos internos, o que n\u00e3o ocorre atualmente na principal economia do mundo. Como diz Cohen: &#8220;&#8230; o mundo est\u00e1 tendo s\u00e9rias d\u00favidas sobre a suposi\u00e7\u00e3o outrora amplamente aceita do excepcionalismo americano. As moedas estabelecem o equil\u00edbrio entre essas duas for\u00e7as \u2013 fundamentos econ\u00f4micos dom\u00e9sticos e percep\u00e7\u00f5es estrangeiras da for\u00e7a ou fraqueza de uma na\u00e7\u00e3o. O saldo est\u00e1 mudando, e uma queda do d\u00f3lar pode estar prestes a acontecer&#8221;. [20]<\/p>\n<p>Sen\u00e3o vejamos: a quantidade d\u00f3lar nas reservas internacionais dos bancos centrais e a imensa riqueza expressa em t\u00edtulos p\u00fablicos do Tesouro dos Estados Unidos n\u00e3o \u00e9 nada mais nada menos que montanhas de papel pintado porque n\u00e3o representa a riqueza real do Pa\u00eds emissor. Transformou-se apenas em s\u00edmbolos de riqueza que n\u00e3o pode ser transformada em ativos reais, um conto de fadas que s\u00f3 \u00e9 cr\u00edvel enquanto os agentes econ\u00f4micos continuarem acreditando que possa ter valor real em algum momento do futuro. Nas duas \u00faltimas d\u00e9cadas, os Estados Unidos constru\u00edram enormes d\u00e9ficits comerciais, que na pr\u00e1tica significaram uma enorme transfer\u00eancia de valor de todos os pa\u00edses exportadores em troca de uma moeda sem v\u00ednculo na produ\u00e7\u00e3o real. Uma apropria\u00e7\u00e3o legalizada, expressa num verdadeiro &#8220;neg\u00f3cio da China&#8221;, em troca de uma promessa que n\u00e3o poder\u00e1 ser efetivada no futuro, como diz Eichengreen: &#8220;O Bureau of Engraving and Printing (a casa da moeda dos Estados Unidos) gasta apenas alguns cents para produzir uma nota de US$100, mas os outros pa\u00edses precisam fornecer US$100 em bens e servi\u00e7os para obter a mesma nota de US$100. [21]<\/p>\n<p>Mas esse literal castelo de cartas pode come\u00e7ar a desabar com o aprofundamento a crise sist\u00eamica capitalista e a desconfian\u00e7a dos detentores de d\u00f3lar quando estiver claro para todos que esta moeda n\u00e3o corresponde o seu valor de face e nem os Estados Unidos t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de honrar a montanha de d\u00f3lares espalhada pelo mundo. Isso j\u00e1 vem sendo percebido por alguns detentores desses ativos financeiros: como n\u00e3o podem exigir uma troca abrupta da moeda e dos t\u00edtulos por riqueza real porque isso levaria a uma crise desagregadora em que todos perderiam, muitos pa\u00edses, especialmente a China, est\u00e3o trocando pacientemente esses d\u00f3lares e t\u00edtulos por ativos reais em v\u00e1rias partes do mundo, em forma de investimentos, compras de ouro, mat\u00e9rias-primas, a\u00e7\u00f5es e propriedades de empresas. Mas em algum momento essa crise se agravar\u00e1 e a moeda hegem\u00f4nica poder\u00e1 ser substitu\u00edda por uma cesta de moedas das principais economias ou por outra moeda que represente o novo poder econ\u00f4mico global.<\/p>\n<p>Para onde vai o capitalismo?<\/p>\n<p>Essas quest\u00f5es colocam um problema crucial: qual ser\u00e1 o desfecho dessa crise e o futuro do capitalismo? Nem mesmo os defensores mais intransigentes do capitalismo podem negar que o sistema est\u00e1 em crise profunda. A tripla crise que estamos observando agora (crise econ\u00f4mica-social, crise sanit\u00e1ria e crise geopol\u00edtica) veio apenas intensificar em bases ampliadas um problema que j\u00e1 estava colocado na crise sist\u00eamica iniciada em 2008. Apesar da profundidade da crise, a constru\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica do sistema capitalista \u00e9 t\u00e3o forte que seus gestores t\u00eam enormes dificuldades para reconhecer os dados novos da realidade, uma vez que suas mentes est\u00e3o moldadas pelas f\u00f3rmulas dos velhos tempos. Em consequ\u00eancia, n\u00e3o conseguem perceber os novos fen\u00f4menos e n\u00e3o encontram sa\u00eddas para as crises sist\u00eamicas porque essas crises n\u00e3o podem ser resolvidas com as mesmas medidas operadas nas crises c\u00edclicas. Isso explica o desespero do grande capital, a agressividade contra os direitos e sal\u00e1rios dos trabalhadores e pensionistas e as restri\u00e7\u00f5es \u00e0s liberdades democr\u00e1ticas. Mas nada disso resolve o problema, pois as crises sist\u00eamicas requerem mudan\u00e7as de fundo em todo o sistema e n\u00e3o apenas medidas paliativas como vem sendo realizadas pelos v\u00e1rios governos.<\/p>\n<p>A crise tamb\u00e9m serviu para revelar os graves problemas sociais que atingem o sistema capitalista e, principalmente, sua principal economia. Aquilo que por muito tempo se suspeitava, agora veio \u00e0 tona com rudeza expl\u00edcita: a maior economia do mundo est\u00e1 doente, com uma sociedade cada vez mais empobrecida onde os sal\u00e1rios dos trabalhadores est\u00e3o estagnados h\u00e1 v\u00e1rias d\u00e9cadas, enquanto um punhado de milion\u00e1rios se apropria da maior parte da riqueza produzida no Pa\u00eds. Essa conjuntura gera enormes tens\u00f5es sociais: as manifesta\u00e7\u00f5es recentes contra o racismo, as maiores desde a guerra do Vietn\u00e3, representam apenas a ponta do iceberg do iceberg do acirramento da luta de classes que est\u00e1 se gestando nos Estados Unidos e de levantes sociais que poder\u00e3o ocorrer no p\u00f3s-pandemia tanto nos Estados Unidos quanto em v\u00e1rias regi\u00f5es do planeta. Tudo indica que nos Estados Unidos essa ser\u00e1 uma luta muito dura e violenta, n\u00e3o s\u00f3 porque ocorrer\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o do imperialismo, mas porque a extrema-direita conta com expressiva base popular, negacionista, al\u00e9m da exist\u00eancia de grupos reacion\u00e1rios armados cada vez mais agressivos. Em outros termos, o conjunto desses problemas s\u00e3o apenas os epifen\u00f4menos de um problema maior: a crise profunda do sistema e o agu\u00e7amento das contradi\u00e7\u00f5es entre as avan\u00e7adas e sofisticadas for\u00e7as produtivas e as velhas e caducas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O n\u00edvel de degenera\u00e7\u00e3o do capitalismo \u00e9 t\u00e3o grande que este sistema, nesta sua fase neoliberal e, principalmente, ap\u00f3s a crise sist\u00eamica que emergiu em 2008, n\u00e3o consegue mais conviver com os estatutos institucionais criados pelo pr\u00f3prio capital, como as liberdades formais da democracia burguesa, os direitos conquistados pelos trabalhadores no p\u00f3s-guerra e as pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es multilaterais (OMC, OMS, ONU) que regulavam o sistema pol\u00edtico e econ\u00f4mico no per\u00edodo anterior \u00e0 crise. Ao contr\u00e1rio do que muitos possam pensar, a agressividade do capital neste momento da hist\u00f3ria n\u00e3o significa que esteja mais forte: pelo contr\u00e1rio, representa um processo de decad\u00eancia cada vez mais dif\u00edcil de reverter. Por isso, a luta de classes vai se intensificar porque as massas n\u00e3o se deixar\u00e3o abater como moscas, conforme a pr\u00f3pria hist\u00f3ria tem demonstrado em todas as \u00e9pocas. H\u00e1 um clima de revolta latente entre as massas empobrecidas em v\u00e1rias partes do mundo, que n\u00e3o est\u00e1 se revelando plenamente nas ruas em fun\u00e7\u00e3o da pandemia e do instinto de preserva\u00e7\u00e3o da humanidade. Mas essa aparente calmaria poder\u00e1 ser rompida em fun\u00e7\u00e3o do desastre provocado pela crise e pela pandemia, como j\u00e1 ocorreu em alguns pa\u00edses, como as lutas sociais contra o golpe na Bol\u00edvia, as manifesta\u00e7\u00f5es populares pela Constituinte no Chile, as lutas sociais dos camponeses na \u00cdndia, as manifesta\u00e7\u00f5es de rua no Haiti, Equador, \u00cdndia, Paraguai e a pr\u00f3pria luta contra o racismo nos Estados Unidos. Todas essas lutas, por mais diferentes que sejam, significam uma esp\u00e9cie de ensaio geral da tormenta que se aproxima no p\u00f3s-pandemia.<\/p>\n<p>A crise tamb\u00e9m foi pedag\u00f3gica ao revelar uma verdade conhecida desde os cl\u00e1ssicos da economia pol\u00edtica: s\u00f3 os trabalhadores criam a riqueza do mundo. Com a pandemia, grande parte dos trabalhadores foi obrigada pela crise a ficar em casa e a economia entrou em bancarrota. Al\u00e9m disso, a crise tamb\u00e9m provou a inutilidade das classes parasit\u00e1rias. Em plena crise, a grande maioria da humanidade empobreceu e s\u00f3 um punhado de milion\u00e1rios ficou mais rico. O planeta poderia muito bem viver sem eles. A humanidade n\u00e3o sofreria grandes perdas. Marx deve estar com um largo sorriso tumular ao verificar que a implac\u00e1vel lei do valor continua com uma atualidade extraordin\u00e1ria. Mas o elemento pol\u00edtico da luta de classes nessa crise ainda n\u00e3o chegou \u00e0 superf\u00edcie: essa \u00e9 uma crise sanit\u00e1ria de dimens\u00f5es nunca registrada na hist\u00f3ria da humanidade, com a particularidade de que, ao contr\u00e1rio das crises anteriores, esta pandemia atingiu todos os pa\u00edses. Como se trata de um problema que ocorre num per\u00edodo em que a informa\u00e7\u00e3o \u00e9 transmitida em tempo real para todos, em que as pessoas diariamente tomam conhecimento dos dramas e trag\u00e9dias que ocorrem em cada regi\u00e3o do mundo, essa crise vai ter um impacto profundo na psicologia das massas. O trauma psicol\u00f3gico, social e consequentemente pol\u00edtico do p\u00f3s-pandemia ainda \u00e9 dif\u00edcil de prognosticar corretamente, mas com certeza a humanidade vai presenciar, num prazo n\u00e3o muito distante, um conjunto de fen\u00f4menos novos que ir\u00e3o mudar profundamente as rela\u00e7\u00f5es sociais, econ\u00f4micas, pol\u00edticas e culturais do planeta.<\/p>\n<p>Do ponto de vista da luta de classes, o sistema capitalista intensificou o processo de explora\u00e7\u00e3o em car\u00e1ter mundial, n\u00e3o apenas reduzindo direitos, sal\u00e1rios dos trabalhadores e proventos dos aposentados, mas praticando a mais-valia absoluta potencializada, uma forma de extors\u00e3o especial, que combina redu\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios, a extens\u00e3o da jornada de trabalho como nos prim\u00f3rdios do capitalismo, bem com a intensifica\u00e7\u00e3o do trabalho nos novos e sofisticados ramos industriais, o que aumenta de maneira extraordin\u00e1ria a produtividade do trabalho e as taxas de lucro do capital. Se por um lado as dificuldades de mobiliza\u00e7\u00f5es em fun\u00e7\u00e3o da pandemia ainda est\u00e3o reduzindo as lutas dos trabalhadores, por outro, as novas condi\u00e7\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o, a exemplo do passado, levar\u00e1 o proletariado a protagonizar novamente intensas lutas sociais t\u00e3o logo as condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias possibilitem a emerg\u00eancia plena de todo o potencial de revolta contra a explora\u00e7\u00e3o e as condi\u00e7\u00f5es de vida da popula\u00e7\u00e3o. Aqueles que pensam uma retomada da economia dentro de um ambiente de normalidade institucional, podem estar profundamente equivocados, pois tudo indica que o futuro pr\u00f3ximo ser\u00e1 permeado por uma conjuntura muito dif\u00edcil para o capital. As tens\u00f5es que est\u00e3o se acumulando na sociedade representam um caldo de cultura que emergir\u00e1 com f\u00faria no p\u00f3s-pandemia.<\/p>\n<p>Outro indicador de relev\u00e2ncia \u00e9 o fato de que a ordem econ\u00f4mica internacional no p\u00f3s-guerra foi estruturada a partir de dois pilares fundamentais: a) a apropria\u00e7\u00e3o do mais-valor por parte da economia l\u00edder, os Estados Unidos, em consequ\u00eancia de sua vantagem econ\u00f4mica e industrial; b) a imposi\u00e7\u00e3o de d\u00f3lar como moeda mundial e o controle do sistema financeiro internacional. Esses dois processos est\u00e3o em desagrega\u00e7\u00e3o acentuada: a op\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos em se tornar uma economia de servi\u00e7os, a partir da qual expropriaria o valor mediante a exporta\u00e7\u00e3o de capitais e o controle do sistema financeiro internacional, est\u00e1 em pleno decl\u00ednio. Essa op\u00e7\u00e3o foi um erro estrat\u00e9gico porque, do ponto de vista da produ\u00e7\u00e3o, que \u00e9 efetivamente o que conta para a acumula\u00e7\u00e3o do capital, os Estados Unidos se enfraqueceram estruturalmente, o que se reflete tanto na participa\u00e7\u00e3o relativa na produ\u00e7\u00e3o mundial, quanto no com\u00e9rcio internacional. Ora, um l\u00edder imperialista que n\u00e3o lidera a produ\u00e7\u00e3o de valor nem o com\u00e9rcio mundial tamb\u00e9m n\u00e3o se apropria do valor na mesma escala que se apropriava quanto estava na lideran\u00e7a produtiva e, consequentemente, reduz o valor real de sua riqueza. Portanto, est\u00e1 condenado a perder a lideran\u00e7a.<\/p>\n<p>Quem imagina que a \u00f3rbita da circula\u00e7\u00e3o poder\u00e1 compensar os preju\u00edzos no setor produtivo, mais uma vez n\u00e3o compreendeu a l\u00f3gica da lei do valor e seu funcionamento do ponto de vista internacional. Essa conjuntura poder\u00e1 se refletir tamb\u00e9m na posi\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar como moeda mundial. Nenhum Pa\u00eds pode manter sua moeda como dinheiro mundial por muito tempo com uma economia que n\u00e3o corresponda a essa hegemonia, mesmo que seu poder militar continue sendo o maior do mundo. Como a moeda deve ter, em \u00faltima inst\u00e2ncia, um v\u00ednculo com o trabalho social, algum parceiro dos Estados Unidos pode, em algum momento n\u00e3o muito distante, chegar \u00e0 conclus\u00e3o de n\u00e3o vale a pena aceitar nem comercializar com o d\u00f3lar porque essa moeda n\u00e3o corresponde \u00e0 riqueza criada no Pa\u00eds de origem ou porque outras moedas se tornaram mais fortes em fun\u00e7\u00e3o das economias que representam. A\u00ed ent\u00e3o ter\u00edamos a desarticula\u00e7\u00e3o da ordem econ\u00f4mica internacional estruturada em torno do d\u00f3lar.<\/p>\n<p>Economicamente, a China vem apresentando um desempenho muito superior aos Estados Unidos, tanto em fun\u00e7\u00e3o da escala industrial quanto tecnol\u00f3gica. Pelas \u00faltimas proje\u00e7\u00f5es, em breve a economia chinesa alcan\u00e7ar\u00e1 a dos Estados Unidos em termos de PIB \u2013 j\u00e1 alcan\u00e7ou na Paridade do Poder de Compra e, do ponto industrial e tecnol\u00f3gico, a China se transformou numa esp\u00e9cie de oficina do mundo em praticamente todas as \u00e1reas da produ\u00e7\u00e3o enquanto a economia dos Estados Unidos cambaleia em meio \u00e0 crise econ\u00f4mica e sanit\u00e1ria. Isso explica o desespero das autoridades ianques em impor san\u00e7\u00f5es contra empresas de ponta chinesa, promover junto a parceiros boicotes \u00e0s suas exporta\u00e7\u00f5es e um conjunto de medidas de sabotagens e provoca\u00e7\u00f5es aos chineses. Grande parte dessas medidas representam apenas os sintomas da impot\u00eancia do imperialismo diante da nova conjuntura e da disputa hegem\u00f4nica, mas dificilmente impedir\u00e1 a marcha objetiva da economia chinesa para se transformar na principal economia do mundo. Esse tempo poder\u00e1 se tornar maior ou menor dependendo do alcance dessas manobras protelat\u00f3rias.<\/p>\n<p>Como se pode verificar historicamente, as crises imperiais s\u00e3o longas e dolorosas: foi assim ao longo da hist\u00f3ria. Geralmente s\u00e3o resolvidas com guerras, reformas profundas ou revolu\u00e7\u00f5es. Porque as crises imperiais representam um mosaico de contradi\u00e7\u00f5es que se acumularam ao longo de um per\u00edodo hist\u00f3rico e emergem no interior do sistema, muitas vezes fragmentariamente, de forma quase impercept\u00edvel. Como essas mudan\u00e7as v\u00e3o aflorando de maneira lenta e gradual, geralmente n\u00e3o s\u00e3o detectadas nem mesmo pelos observadores mais atentos. Por isso, as pessoas se surpreendem quando as crises chegam a um ponto de ebuli\u00e7\u00e3o e explodem abruptamente. Mas se observarmos atentamente podemos ver que, igual a um vulc\u00e3o, v\u00e1rios sinais foram emitidos no per\u00edodo anterior \u00e0 atual crise. Desde 1994, com a crise da d\u00edvida mexicana, esses sinais emitidos revelavam evidente desgaste do sistema. Posteriormente, ocorreu a crise da \u00c1sia em 1997, da R\u00fassia em 1998, do Brasil em 1999 e das empresas de tecnologia nos Estados Unidos. As crises anteriores ocorreram naquilo que poder\u00edamos denominar a periferia do sistema, mas a bancarrota das empresas ponto.com j\u00e1 atingiu o cora\u00e7\u00e3o do sistema. Portanto, a crise sist\u00eamica de 2008 e a crise atual significam a manifesta\u00e7\u00e3o explosiva de um sistema que j\u00e1 estava enfermo e que agora est\u00e1 na unidade de terapia intensiva.<\/p>\n<p>Podemos sugerir que o capitalismo n\u00e3o ser\u00e1 mais o mesmo no p\u00f3s-pandemia e que h\u00e1 a possibilidade de se gestar uma situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria de car\u00e1ter global em v\u00e1rias regi\u00f5es do planeta no p\u00f3s-pandemia, o que abrir\u00e1 novas janelas de oportunidades para a humanidade. Uma situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria n\u00e3o significa que haver\u00e1 revolu\u00e7\u00e3o. Como dizia Lenin, a situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria expressa o momento de crise aguda da sociedade burguesa, enorme pauperiza\u00e7\u00e3o das massas e impossibilidade dos de cima governar como no per\u00edodo anterior \u00e0 crise, conjuntura na qual emerge o descontentamento e indigna\u00e7\u00e3o das massas. Ou seja, em fun\u00e7\u00e3o da crise as classes dominantes n\u00e3o podem mais governar como outrora e os de baixo (o proletariado e seus aliados) n\u00e3o suportam mais ser governados como antes. [22] A partir da\u00ed abre-se um per\u00edodo de intensa disputa entre as classes, que pode tanto significar uma vit\u00f3ria dos trabalhadores atrav\u00e9s das janelas de oportunidades que se abrem nesses per\u00edodos, ou uma derrota dos de baixo e a retomada do poder da burguesia. Portanto, as situa\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias representam uma esp\u00e9cie de livro aberto onde tudo pode acontecer para as duas classes fundamentais do planeta. Essa \u00e9 a conjuntura na qual se dar\u00e1 a disputa entre o proletariado e seus aliados e a burguesia cosmopolita no p\u00f3s-pandemia. Como sou um otimista hist\u00f3rico, espero que as janelas de oportunidades que se abrir\u00e3o com a crise sejam favor\u00e1veis \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de um futuro que abra espa\u00e7o para a constru\u00e7\u00e3o de uma nova sociedade da abund\u00e2ncia e da felicidade humana, a sociedade socialista.<br \/>\n23\/Mar\u00e7o\/2021<\/p>\n<p>[1] Conforme definimos em trabalho anterior (A crise econ\u00f4mica mundial, a globaliza\u00e7\u00e3o e o Brasil, Edi\u00e7\u00f5es ICP, 2013), o sistema capitalista viveu apenas tr\u00eas grandes crises sist\u00eamicas: 1873 a 1896; 1929 a 1945; e 2008 a &#8230;? Todas essas crises provocaram grandes mudan\u00e7as quantitativas e qualitativas no sistema capitalista, mas em nenhuma delas combinou tantos fen\u00f4menos globais em cadeia como atualmente. Por isso, essa crise \u00e9 mais grave que as crises sist\u00eamicas anteriores.<br \/>\n[2] Marx, Karl. Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 Cr\u00edtica da Economia Pol\u00edtica. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular, 2008.<br \/>\n[3] Os velhos monop\u00f3lios da segunda revolu\u00e7\u00e3o industrial est\u00e3o sendo substitu\u00eddos pelos monop\u00f3lios dos novos ramos da produ\u00e7\u00e3o, especialmente aqueles ligados \u00e0s tecnologias da informa\u00e7\u00e3o e ao com\u00e9rcio eletr\u00f4nico.<br \/>\n[4] A internacionaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o completou efetivamente o processo de mundializa\u00e7\u00e3o do capital e a burguesia cosmopolita passou a extrair o mais-valor, direta e generalizadamente, em todas as regi\u00f5es do planeta, fen\u00f4meno que n\u00e3o ocorria no per\u00edodo anterior.<br \/>\n[5] Marx, K. Manifesto Comunista. S\u00e3o Paulo: Edipro (Edi\u00e7\u00e3o comemorativa dos 150 anos do Capital), 1998.<br \/>\n[6] Michalet, C. A. Capitalismo mundial. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1984<br \/>\n[7] Pre\u00e7os de transfer\u00eancia \u00e9 o nome fantasia dos valores praticados na compra e venda de bens e servi\u00e7os do exterior. No caso das corpora\u00e7\u00f5es transnacionais, os pre\u00e7os de transfer\u00eancia significam a rela\u00e7\u00e3o entre matriz e filial no com\u00e9rcio intrafirma. Como esses pre\u00e7os s\u00e3o estabelecidos privadamente, \u00e9 comum a manipula\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os: as filiais vendem \u00e0s matrizes produtos (pe\u00e7as e equipamentos) a um pre\u00e7o abaixo do pre\u00e7o de mercado e compram tecnologia das matrizes a um pre\u00e7o acima do mercado, o que resulta na transfer\u00eancia clandestina de valor da periferia para o centro. A Receita Federal tenta regulamentar essas transa\u00e7\u00f5es, mas os monop\u00f3lios sempre encontram uma brecha para manipul\u00e1-las.<br \/>\n[8] Charles Albert Michalet foi o primeiro a identificar o processo de cria\u00e7\u00e3o generalizada do valor foram das fronteiras nacionais, com de seu livro Capitalismo Mundial. S\u00e3o Paulo: Paz e Terra 1984. Muito embora o autor n\u00e3o se referisse ao processo de globaliza\u00e7\u00e3o.<br \/>\n[9] Prolet\u00e1rios de todo o mundo uni-vos \u00e9 a palavra final do Manifesto Comunista, op. cit.<br \/>\n[10] Korshunova, L; Kirilenko, G. Que \u00e9 filosofia. Moscou: Edi\u00e7\u00f5es Progresso, 1986.<br \/>\n[11] O mercado de eurod\u00f3lares era uma articula\u00e7\u00e3o financeira que operava com d\u00f3lar fora do territ\u00f3rio dos Estados Unidos, basicamente em Londres. Cresceu de maneira acentuada ap\u00f3s a crise do petr\u00f3leo. Como os sistemas financeiros dos pa\u00edses \u00e1rabes, os maiores produtores, eram relativamente fr\u00e1geis para reciclar os d\u00f3lares obtidos com o novo pre\u00e7o do petr\u00f3leo, passaram a aplicar seus recursos no mercado europeu, o que aumentou a disponibilidade d\u00f3lar no mercado internacional. Muitos pa\u00edses da periferia se endividaram nesse per\u00edodo e essa foi uma das causas da crise da d\u00edvida na d\u00e9cada de 80.<br \/>\n[12] Costa, E. A globaliza\u00e7\u00e3o e o capitalismo contempor\u00e2neo. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular, 2008.<br \/>\n[13] Para maior compreens\u00e3o do avan\u00e7o do Sistema financeiro em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s empresas e ao or\u00e7amento dos Estados, ver Costa. E. A globaliza\u00e7\u00e3o e o capitalismo contempor\u00e2neo, op. cit.<br \/>\n[14] Castels, M. A sociedade em rede. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1999.<br \/>\n[15] Lenine, Friedrich Engels , por Vladimir Lenine. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es Avante, 1977. Acesso em 3\/Jan\/2021.<br \/>\n[16] Para maior informa\u00e7\u00e3o, consultar A crise mundial do capitalismo e as perspectivas dos trabalhadores , acessado em 08\/02\/2021<br \/>\n[17] THE COUNCIL OF ECONOMICS ADVISERS. The State of Homelessness in America. 2019. Dispon\u00edvel em: www.whitehouse.gov\/&#8230; . Acesso em 10\/02\/2021.<br \/>\n[18] Oxfam. O v\u00edrus da desigualdade . Janeiro de 2021. Acesso em 15\/02\/2021.<br \/>\n[19] Roubini, N. O decl\u00ednio do d\u00f3lar se aproxima? Acesso em 24 \/O2\/2021.<br \/>\n[20] Roach, S. Est\u00e1 chegando uma queda do d\u00f3lar . Blomberg Opinion. Acesso em 22\/02 2021.<br \/>\n[21] EICHENGREENN, B. Privil\u00e9gio exorbitante: ascens\u00e3o e queda do d\u00f3lar e o futuro do sistema monet\u00e1rio internacional. Rio de Janeiro: Campus, 2010.<br \/>\n[22] Lenin, W. A fal\u00eancia da II Internacional. S\u00e3o Paulo: Kair\u00f3s, 1979. A cita\u00e7\u00e3o literal de Lenin \u00e9 a seguinte: &#8220;Quais s\u00e3o, de maneira geral, os ind\u00edcios de uma situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria? Estamos certos de n\u00e3o nos enganarmos se indicarmos os tr\u00eas principais pontos que seguem: 1) impossibilidade para as classes dominantes manterem a sua domina\u00e7\u00e3o de forma inalterada; crise da c\u00fapula e crise da pol\u00edtica da classe dominante, o que cria fissura atrav\u00e9s da qual o descontentamento e a indigna\u00e7\u00e3o abre caminho. Para que uma revolu\u00e7\u00e3o estoure n\u00e3o basta, normalmente, que &#8220;a base n\u00e3o queira mais&#8221; viver como outrora, mas \u00e9 necess\u00e1rio que &#8220;a c\u00fapula n\u00e3o o possa mais&#8221;; 2) agravamento, al\u00e9m do comum, da mis\u00e9ria e da ang\u00fastia das classes oprimidas; 3)desenvolvimento acentuado, em virtude das raz\u00f5es indicadas acima, da atividade das massas, que se deixam saquear tranquilamente nos per\u00edodos &#8220;pac\u00edficos&#8221;, mas que nos per\u00edodos agitados s\u00e3o empurradas, tanto pela crise no seu conjunto quanto pela &#8220;c\u00fapula&#8221;, para uma a\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica independente&#8221;.<\/p>\n<p>[*] Doutor em Economia pela Unicamp, com p\u00f3s-doutorado na mesma institui\u00e7\u00e3o. \u00c9 autor, entre outros, de Reflex\u00f5es sobre a crise brasileira (edi\u00e7\u00f5es ICP, 2020), A crise econ\u00f4mica mundial, a globaliza\u00e7\u00e3o e o Brasil (Edi\u00e7\u00f5es ICP, 2013) e A globaliza\u00e7\u00e3o e o capitalismo contempor\u00e2neo (Express\u00e3o Popular, 2008), al\u00e9m de ensaios e artigos economia e pol\u00edtica. \u00c9 secret\u00e1rio-geral do Partido Comunista Brasileiro (PCB).<\/p>\n<p>Este artigo encontra-se em https:\/\/resistir.info\/ .<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27047\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38,383],"tags":[233],"class_list":["post-27047","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo","category-pronunciamentos-da-secretaria-geral","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-72f","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27047","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27047"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27047\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27047"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27047"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27047"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}