{"id":271,"date":"2010-01-28T04:04:51","date_gmt":"2010-01-28T04:04:51","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=271"},"modified":"2010-01-28T04:04:51","modified_gmt":"2010-01-28T04:04:51","slug":"o-papel-da-esquerda-nessa-eleicao-e-nao-cair-no-jogo-da-engenharia-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/271","title":{"rendered":"\u201cO papel da esquerda nessa elei\u00e7\u00e3o \u00e9 n\u00e3o cair no jogo da engenharia pol\u00edtica\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Caros Amigos<\/strong> \u2013 <strong>O que estar\u00e1 em disputa nas elei\u00e7\u00f5es desse ano?<\/strong><\/p>\n<p>Diretamente, o que acaba sobrando nessa disputa \u00e9 determinado muito pela correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as. Infelizmente, em 2010 o bloco conservador do Brasil est\u00e1 disputando a dire\u00e7\u00e3o de um mesmo projeto, diferente de outros momentos em que havia uma polariza\u00e7\u00e3o mais de fundo em rela\u00e7\u00e3o a projeto. Em 2010 voc\u00ea tem um grande campo de consenso dentro do bloco conservador sobre os rumos imediatos da economia, sobre a imagem de futuro que se quer para o pa\u00eds e que foi se consolidando do mandato do Collor pra c\u00e1. Isso empobrece muito a discuss\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Esse consenso na macropol\u00edtica econ\u00f4mica, nos limites do poss\u00edvel, na ideia central de ajudar a acumula\u00e7\u00e3o capitalista no Brasil e, a partir desse desenvolvimento capitalista muito pontualmente incidir sobre a quest\u00e3o social como uma inten\u00e7\u00e3o de legitimar o desenvolvimento capitalista, empobrece muito, deixa ausente uma postura do campo popular, do campo de resist\u00eancia. O que est\u00e1 em jogo tamb\u00e9m \u00e9 a necessidade dos trabalhadores apresentarem propostas alternativas que consigam apontar os limites desse consenso.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 alguma diferen\u00e7a entre os projetos de PT e PSDB?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que h\u00e1 diferen\u00e7as dentro de um campo em comum. Eles partem dos mesmos pressupostos, comungam da mesma leitura de Brasil, a ideia de que o desenvolvimento do pa\u00eds passa por um desenvolvimento capitalista e que o Estado brasileiro tem que desenvolver um forte apoio ao desenvolvimento do capitalismo monopolista no Brasil sem intervir diretamente no projeto econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>As diferen\u00e7as entre esses dois campos acabam sendo das particularidades das constru\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias de PT e PSDB e por onde eles podem se legitimar. Cada um tem uma ferramenta necess\u00e1ria \u00e0 consolida\u00e7\u00e3o da ordem. Se a gente ler os textos do Banco Mundial a partir de meados da d\u00e9cada de 90, a grande dificuldade de implementa\u00e7\u00e3o do que se chamava de ajuste estrutural era n\u00e3o apenas controlar os organismos de governo, era criar consensos para legitimar de alguma forma o grande impacto negativo dessas reformas chamadas neoliberais. Esse texto afirma que os n\u00facleos de resist\u00eancia s\u00e3o as organiza\u00e7\u00f5es de c\u00fapula dos empres\u00e1rios, dos setores fisiol\u00f3gicos do congresso e de organiza\u00e7\u00f5es dos trabalhadores. De certa maneira h\u00e1 uma divis\u00e3o de trabalho a\u00ed, o PSDB tinha muito mais elementos para costurar essa governan\u00e7a conservadora junto \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es de c\u00fapula do empresariado e dos setores fisiol\u00f3gicos, por conta da alian\u00e7a DEM-PSDB. Faltava exatamente incorporar essas organiza\u00e7\u00f5es de c\u00fapula dos trabalhadores para legitimar essa reforma, e o PT acaba cumprindo isso. Exatamente por essas fun\u00e7\u00f5es diferentes dentro do plano geral do bloco conversador \u00e9 que o PT precisa desenvolver uma estrat\u00e9gia de governo que busque se legitimar diante desses setores. Infelizmente, isso n\u00e3o faz com que se produza a\u00ed uma din\u00e2mica dentro da qual o bloco popular consiga impor conquistas e demandas a esse governo. As diferen\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o suficientes pra retirar o governo Lula e o PT de dentro do bloco conservador.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea acha que existe a possibilidade do PT se posicionar mais \u00e0 esquerda para fazer essa diferencia\u00e7\u00e3o junto aos eleitores?<\/strong><\/p>\n<p>Pela din\u00e2mica que est\u00e1 colocada nas elei\u00e7\u00f5es isso pode acontecer, mas muito pouco. As prioridades e as grandes preocupa\u00e7\u00f5es do PT hoje s\u00e3o muito mais voltadas para atrair setores do PMDB que, ao que me consta, n\u00e3o s\u00e3o mobiliz\u00e1veis por nenhuma inflex\u00e3o mais \u00e0 esquerda. Nos pr\u00f3prios movimentos sociais n\u00f3s estamos pagando o pre\u00e7o dos \u00faltimos oito anos: como foi dado um voto de confian\u00e7a ao governo, ele se sente muito tranq\u00fcilo para manter o pouco que deu at\u00e9 agora como meio de garantir esse apoio. De certa maneira, o governo trabalha com o entendimento de que esses setores est\u00e3o neutralizados por conta da pol\u00edtica desenvolvida, o di\u00e1logo com setores da esquerda \u00e9 muito mais no sentido de amea\u00e7a, de perder o pouqu\u00edssimo que foi conquistado. \u00c9 pouco prov\u00e1vel que nesse momento o governo acene com uma inflex\u00e3o mais \u00e0 esquerda, como o apoio do PMDB \u00e9 priorit\u00e1rio nesse momento a discuss\u00e3o tem sido feita de um ponto de vista muito menos program\u00e1tico.<\/p>\n<p><strong>E qual ser\u00e1 o papel do Lula?<\/strong><\/p>\n<p>O Lula descolou-se da pol\u00edtica brasileira, reproduzindo uma trajet\u00f3ria cl\u00e1ssica na an\u00e1lise pol\u00edtica. Ele vem como express\u00e3o da entrada em cena dos trabalhadores na d\u00e9cada de 80 e faz parte do movimento que levar\u00e1 \u00e0 forma\u00e7\u00e3o do PT e da CUT como express\u00e3o dessa classe, mas pouco a pouco se descola disso, se tornando a figura cl\u00e1ssica de uma lideran\u00e7a carism\u00e1tica que utiliza muito mais de seus atributos pessoais e de identifica\u00e7\u00e3o direta da classe do que a organiza\u00e7\u00e3o com partidos e projetos pol\u00edticos. Ent\u00e3o, a popularidade e a aceita\u00e7\u00e3o do Lula e do seu governo \u00e9 inversamente proporcional \u00e0 pr\u00f3pria for\u00e7a organizativa e program\u00e1tica do PT. Ele n\u00e3o cresce a partir do crescimento da organiza\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria e independente da classe mas pelo contr\u00e1rio, quanto mais ele cresce mais ele enfraquece isso, produzindo uma identidade pessoal com a figura do presidente e n\u00e3o com um projeto pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Basta ver quantas vezes em dois mandatos a classe trabalhadora foi convocada, mobilizada, para tarefas de governo: nenhuma vez sequer. O governo optou por uma forma de constru\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que na ci\u00eancia pol\u00edtica \u00e9 chamada \u201cpresidencialismo de coaliz\u00e3o\u201d, na qual as jogadas pol\u00edticas s\u00e3o jogadas internas a esse crit\u00e9rio palaciano dos bastidores. Os setores sociais raramente, ou nunca, s\u00e3o mobilizados para os enfrentamentos pol\u00edticos. Ent\u00e3o, o Lula acaba saindo do seu segundo mandato com uma popularidade alta, mas que n\u00e3o \u00e9 transfer\u00edvel exatamente por ser colada na personalidade carism\u00e1tica do l\u00edder. O que se est\u00e1 tentando transferir \u00e9 a luta de m\u00e1quinas. O que beneficia o Lula \u00e9 que as pessoas querem ter uma proximidade ao seu governo e isso facilita as alian\u00e7as necess\u00e1rias pra disputar as elei\u00e7\u00f5es, \u00e9 isso que a Dilma leva de heran\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>E como a esquerda deve se posicionar?<\/strong><\/p>\n<p>O papel da esquerda e dos movimentos populares nessa elei\u00e7\u00e3o \u00e9 n\u00e3o cair nesse jogo do mero mecanismo e da engenharia pol\u00edtica que acabou se cristalizando no Brasil. N\u00f3s estamos enfrentando o que poderia ser o final do primeiro governo popular numa total apatia, a discuss\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es e das alternativas \u00e9 meramente de nomes. O que seria fundamental \u00e9 retomar a discuss\u00e3o program\u00e1tica, de que pa\u00eds precisamos, quais os limites desse modelo implementado e qual a perspectiva de futuro. Isso tem pouco espa\u00e7o na engenharia da pol\u00edtica eleitoral para 2010.<\/p>\n<p><strong>Mas voc\u00ea acha que essa retomada da discuss\u00e3o program\u00e1tica deve ser feita necessariamente atrav\u00e9s das elei\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>Infelizmente, parte do bloco de esquerda est\u00e1 capturada por essa forma conservadora das elei\u00e7\u00f5es, o que gera uma necessidade pr\u00f3pria, de eleger deputado, de manter deputado\u2026 Isso necessariamente gera a necessidade de atingir coeficientes eleitorais, o que leva a alian\u00e7as, o que faz com que cada vez o centro, que ao nosso ver seria o ac\u00famulo program\u00e1tico, seja pouco a pouco substitu\u00eddo pela l\u00f3gica das alian\u00e7as meramente conjunturais, pela possibilidade de manter mandatos ou ampliar mandatos. S\u00f3 isso que pode explicar, por exemplo, a aproxima\u00e7\u00e3o, que agora parece pouco prov\u00e1vel, entre o PSOL e a Marina Silva. E enquanto essas tentativas foram feitas, acabou se ocupando espa\u00e7o da constru\u00e7\u00e3o program\u00e1tica, o que faz com que agora a gente tenha pouco tempo, pois perdeu-se um tempo precioso.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel fazer esse ac\u00famulo a partir das elei\u00e7\u00f5es? \u00c9, desde que voc\u00ea n\u00e3o pense as elei\u00e7\u00f5es de forma a cair nessa armadilha. Uma campanha nacional de partidos de esquerda, de movimentos sociais, que apresentasse uma cr\u00edtica contundente e profunda a atual forma conservadora vigente e mobilizasse a popula\u00e7\u00e3o na defesa de seus interesses, cumpriria um papel mobilizador, esclarecedor, que permitiria aos trabalhadores recuperarem pouco a pouco sua independ\u00eancia. Apenas como uma forma de eleger um grupo de deputados para poder manter alguma m\u00e1quina de mobiliza\u00e7\u00e3o para poder mobilizar para uma pr\u00f3xima elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>E tendo isso em vista, ainda h\u00e1 possibilidade da reedi\u00e7\u00e3o da Frente de Esquerda (alian\u00e7a entre PCB, PSOL e PSTU)?<\/strong><\/p>\n<p>A Frente de Esquerda hoje n\u00e3o est\u00e1 descartada, mas ela se atrasou muito por conta dessas indefini\u00e7\u00f5es que fal\u00e1vamos. No primeiro momento, a pr\u00f3pria indefini\u00e7\u00e3o da candidatura da Helo\u00edsa Helena, o que abriu um vazio que deveria ser coberto exatamente por esse esfor\u00e7o de constru\u00e7\u00e3o program\u00e1tica, mais do que a defini\u00e7\u00e3o de um nome. A perspectiva da Frente de Esquerda no momento \u00e9 muito pouca. Diante da indefini\u00e7\u00e3o de candidatura do PSOL, que de certa forma tinha uma boa perspectiva na pr\u00e9-candidatura do Pl\u00ednio Arruda Sampaio, vista com bons olhos na Frente mas que inexplicablemente a dire\u00e7\u00e3o nacional n\u00e3o apostou nisso, deu inicio \u00e0s negocia\u00e7\u00f5es com o PV, e acabou se produzindo a candidatura do Z\u00e9 Maria pelo PSTU. Nesse quadro, o PCB muito provavelmente lan\u00e7ar\u00e1 uma candidatura pr\u00f3pria. Como a maior parte das conven\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias ocorrer\u00e1 em mar\u00e7o, isso pode se alterar se os partidos da Frente tiverem maturidade suficiente pra fazer dessa proposta uma discuss\u00e3o minimamente program\u00e1tica.<\/p>\n<p><strong>O curioso nessa aproxima\u00e7\u00e3o de setores do PSOL com o PV \u00e9 que eles parecem ter se esquecido de que o PV n\u00e3o tinha o menor interesse nessa alian\u00e7a\u2026<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9, esqueceram de combinar com o PV\u2026 Pela l\u00f3gica do PV, ele tem mais a perder do que a ganhar com uma alian\u00e7a com o PSOL. O PV quer algu\u00e9m que financie a sua campanha, o PSOL tamb\u00e9m, ent\u00e3o do ponto de vista de estrutura de campanha a troca n\u00e3o seria ben\u00e9fica para o PV. E eles tem menos problemas que os partidos de esquerda, pois como n\u00e3o partem de princ\u00edpios muito s\u00f3lidos, pode negociar com um campo muito mais amplo. Por ejemplo, no Rio de Janeiro ele vai para candidatura do Gabeira ao lado de PSDB e DEM. Em S\u00e3o Paulo ele se aproxima do PTB. Ent\u00e3o, essas aproxima\u00e7\u00f5es mostraram claramente o desenho pol\u00edtico da candidatura da Marina Silva.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o PSOL fez um movimento dif\u00edcil de compreender. A gente s\u00f3 pode entender essa aproxima\u00e7\u00e3o com a Marina em cima da necessidade de obter uma campanha vi\u00e1vel do ponto de vista do coeficiente eleitoral, para garantir a elei\u00e7\u00e3o de mandatos. \u00c9 um movimento que eu vejo como err\u00f4neo, n\u00e3o s\u00f3 porque descaracteriza \u2013 acaba muito mais rapidamente do que a pr\u00f3pria trajet\u00f3ria do PT mostrando uma adequa\u00e7\u00e3o dos meios que acabam prejudicando os fins \u2013 mas tamb\u00e9m porque acho que do ponto de vista eleitoral \u00e9 um equ\u00edvoco.<\/p>\n<p><strong>Em 2006, o PCB apoiou Lula no 2\u00ba turno contra Alckmin. Na possibilidade muito prov\u00e1vel de um 2\u00ba turno entre Dilma e Serra, qual ser\u00e1 o posicionamento do partido?<\/strong><\/p>\n<p>A gente optou por votar no Lula contra o Alckmin, para depois permanecer na oposi\u00e7\u00e3o a Lula. Essa \u00e9 uma discuss\u00e3o que cada vez mais deve ser feita na pol\u00edtica brasileira. O voto \u00fatil tem sentido diante da amea\u00e7a de um retrocesso, diante de uma luta de classes em que o setor centrista apresenta pelo menos a disponibilidade de uma negocia\u00e7\u00e3o com uma abertura \u00e0 esquerda. N\u00e3o \u00e9 o que n\u00f3s temos visto. A Dilma \u00e9 uma inc\u00f3gnita, ela \u00e9 uma candidata que at\u00e9 agora teve uma trajet\u00f3ria praticamente burocr\u00e1tica, j\u00e1 entra direto no campo de governo, como administradora, e que ocupa um vazio deixado pela sa\u00edda de cena do Z\u00e9 Dirceu. Ent\u00e3o, o grau de possibilidade que ela tem de ser sens\u00edvel a demandas tem se apresentado muito menor do que o pr\u00f3prio Lula. Se h\u00e1 diverg\u00eancias no governo Lula, elas n\u00e3o se expressaram dentro da Casa Civil, que sempre foi um instrumento da pol\u00edtica conservadora.<\/p>\n<p>Num confronto direto entra uma suposta candidatura do Serra e a Dilma, a discuss\u00e3o do movimento socialista no Brasil ser\u00e1 at\u00e9 que ponto as diferen\u00e7as entre eles representariam a necessidade de um apoio, at\u00e9 porque em nenhum momento esse setor demonstrou a necessidade de ampliar suas alian\u00e7as para um leque mais popular. Se for esse cen\u00e1rio, muito provavelmente a disputa eleitoral restrita ao campo conservador far\u00e1 com que a gente se mantenha independente. O que n\u00f3s precisamos fazer \u00e9 superar a armadilha que nos tem levado a esse dilema. A grande quest\u00e3o \u00e9 tornar mais n\u00edtido o campo pol\u00edtico no Brasil. O fato de restar duas candidaturas n\u00e3o significa que a gente tenha que se basear na l\u00f3gica do menos ruim. Na verdade, para a gente, as elei\u00e7\u00f5es de 2010 s\u00e3o parte de um longo processo que come\u00e7ou com a elei\u00e7\u00e3o do Fernando Henrique e que aponta para uma longa hegemonia conservadora. Se isso \u00e9 verdade, uma posi\u00e7\u00e3o agora moment\u00e2nea de apoio n\u00e3o ajuda no ac\u00famulo de for\u00e7as das nossas tarefas mais adiante.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea falou em presidencialismo de coaliz\u00e3o, isso seria uma op\u00e7\u00e3o do governo Lula ou a \u00fanica forma poss\u00edvel de se chegar \u00e0 presid\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p>Uma vez optando por chegar ao poder eleitoralmente, o governo tinha legitimidade suficiente para poder criar rupturas\u2026<\/p>\n<p><strong>Mas ele ia romper com quem financiou sua campanha?<\/strong><\/p>\n<p>Se voc\u00ea pegar a l\u00f3gica eleitoral, ele chega com tal legitimidade ao governo que tinha como fazer, por exemplo, uma reforma pol\u00edtica, um processo constituinte novo. Eu posso chegar ao governo com amarras e criar fatos pol\u00edticos que me d\u00eaem melhores condi\u00e7\u00f5es na disputa. Se a gente pegar os governos de frente popular na Am\u00e9rica Latina, sem entrar na caracteriza\u00e7\u00e3o deles, todos eles produzem reformas pol\u00edticas de fundo e altera\u00e7\u00f5es constitucionais. N\u00e3o \u00e9 por acaso que o Brasil n\u00e3o faz isso. Ent\u00e3o, a op\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas a maneira de chegar ao poder, mas a maneira de manter-se no poder: optou-se pela eficiente m\u00e1quina fisiol\u00f3gica de funcionamento do Estado. \u00c9 eficiente esse m\u00e9todo, s\u00f3 que \u00e9 uma efici\u00eancia que mant\u00e9m os limites da a\u00e7\u00e3o dentro da ordem.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea falou que se perdeu um tempo precioso discutindo nomes ao inv\u00e9s de programa, mas, de forma mais geral, a esquerda n\u00e3o perde muito tempo com as elei\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>Perde. Na verdade, se a gente fizer uma an\u00e1lise dos \u00faltimos anos, a esquerda conseguiu avan\u00e7os interessantes na luta social. Estivemos juntos em todas as lutas de resist\u00eancia, no enfrentamento da crise, das demiss\u00f5es, na previd\u00eancia, os trabalhadores pontualmente entraram em greve na defesa de seus direitos\u2026 Nessas lutas concretas a esquerda esteve junta, o que nos levou de um patamar de defensiva para um patamar de resist\u00eancia, o que j\u00e1 \u00e9 melhor. Agora, a elei\u00e7\u00e3o \u00e9 um buraco negro, ela atrai tudo para a sua l\u00f3gica. Faltou para certas organiza\u00e7\u00f5es da esquerda uma maior maturidade para utilizar esse espa\u00e7o n\u00e3o no sentido de acomoda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pensando na esquerda de forma mais ampla, nessas elei\u00e7\u00f5es voc\u00ea tem duas posi\u00e7\u00f5es: de um lado o movimento social vai manter-se nas suas a\u00e7\u00f5es e vai ignorar o primeiro turno, e de um outro tem gente t\u00e3o preocupada com as elei\u00e7\u00f5es que acaba fragmentando sua estrat\u00e9gia e a conex\u00e3o com a t\u00e1tica imediata. Eu acho que s\u00e3o dois erros. A esquerda teria que ter maturidade para se manter firme em sua linha de resist\u00eancia e ac\u00famulo na constru\u00e7\u00e3o de um p\u00f3lo hegem\u00f4nico e participar das elei\u00e7\u00f5es, transformando esse espa\u00e7o numa possibilidade de apresenta\u00e7\u00e3o dessas demandas, contrapondo o bloco conservador.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: PCB\n\n\n\n\nMembro da Dire\u00e7\u00e3o Nacional do PCB, Mauro Iasi analisa os dilemas da esquerda para 2010 \nPor J\u00falio Delmanto \nDando continuidade \u00e0 s\u00e9rie \u201cElei\u00e7\u00f5es 2010\u201d, a Caros Amigos entrevistou o doutor em Sociologia pela USP e professor da UFRJ Mauro Iasi. Membro da Dire\u00e7\u00e3o Nacional do Partido Comunista Brasileiro (PCB), \u00e9 autor de, entre outros livros, As metamorfoses da consci\u00eancia de classe: o PT entre a nega\u00e7\u00e3o e o consentimento, no qual analisa \u2013 \u00e0 luz de Marx e Freud \u2013o que seria, segundo o autor, o processo de adapta\u00e7\u00e3o do Partido dos Trabalhadores \u00e0 l\u00f3gica capitalista. Iasi esteve em S\u00e3o Paulo participando do Congresso Brasileiro de Estudantes de Comunica\u00e7\u00e3o Social (Cobrecos), onde concedeu entrevista sobre as perspectivas para as elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2010.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/271\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[59],"tags":[],"class_list":["post-271","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c70-eleicoes"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4n","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/271","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=271"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/271\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=271"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=271"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=271"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}