{"id":27134,"date":"2021-04-09T23:57:11","date_gmt":"2021-04-10T02:57:11","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27134"},"modified":"2021-05-31T14:12:34","modified_gmt":"2021-05-31T17:12:34","slug":"os-fantasmas-de-paris","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27134","title":{"rendered":"Os fantasmas de Paris"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2021\/04\/imagempost-19.png\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Mauro Iasi nos leva em uma viagem no tempo na qual os fantasmas da Comuna se transformam em rel\u00edquias da classe oper\u00e1ria e continuam a rondar a Europa e o mundo.<\/p>\n<p>BLOG DA BOITEMPO<\/p>\n<p>Por Mauro Luis Iasi<\/p>\n<p>\u201cOs m\u00e1rtires [da Comuna] est\u00e3o guardados<br \/>\ncomo rel\u00edquias no grande cora\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria\u201d\u2013 Karl Marx [A guerra civil na Fran\u00e7a]<\/p>\n<p>\u2013 Quem \u00e9 o chefe aqui?<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o tem chefe, somos uma Comuna.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o sei o que \u00e9 isso, mas preciso falar com algu\u00e9m para que me explique essa algazarra.<\/p>\n<p>Eles se amontoavam ao lado da parede do P\u00e8re-Lachaise e n\u00e3o paravam de chegar. Eram muito diferentes dos mortos comuns que chegavam todos os dias. Falavam muito, riam e se abra\u00e7avam. Faziam discursos acalorados, discordavam uns dos outros, por vezes descambando para a for\u00e7a f\u00edsica, mesmo agora sem o f\u00edsico, na imaterialidade et\u00e9rea de seus esp\u00edritos.<\/p>\n<p>\u2013 Fiquem calmos\u2026 mantenham-se em fila\u2026 pelo amor de deus, largue essa arma\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea est\u00e1 ao lado de Versalhes, canalha, capacho de Thiers!<\/p>\n<p>\u2013 Quem? N\u00e3o, n\u00e3o\u2026 represento o Reino de Deus\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Capacho de Napole\u00e3o III\u2026<\/p>\n<p>Paris ardia em chamas, os cad\u00e1veres lotavam os campos e jardins, transformados em uma enorme sopa de lama e corpos em decomposi\u00e7\u00e3o. O cheiro era insuport\u00e1vel. Um jornal conservador proclamava: \u201cestes miser\u00e1veis que nos fizeram tanto mal em vida n\u00e3o podem continuar a faz\u00ea-lo depois da morte\u201d.<\/p>\n<p>Os mortos reagiam como podiam. Cheiravam, apodreciam, permaneciam inc\u00f4modos como testemunhas do massacre. Mostravam seus cr\u00e2nios amassados pelas coronhadas, os tiros na nuca, os membros decepados. Mulheres tombadas ao lado de seus baldes de petr\u00f3leo ou simplesmente por trazer um len\u00e7o vermelho preso ao bra\u00e7o ou ao pesco\u00e7o.<\/p>\n<p>Ao lado do muro do cemit\u00e9rio forma-se um enorme com\u00edcio de almas desgarradas de seus corpos. O anjo, bastante assustado voltou com algu\u00e9m que parecia ser seu superior, o guardi\u00e3o do port\u00e3o, que com uma voz poderosa dirigiu-se a turba:<\/p>\n<p>\u2013 O neg\u00f3cio \u00e9 o seguinte. Voc\u00eas est\u00e3o mortos, precisam ficar calmos para a pr\u00f3xima etapa. Sigam a luz e\u2026<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 Como n\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2013 Decidimos em assembleia que vamos ficar aqui.<\/p>\n<p>\u2013 Veja, n\u00e3o cabe a voc\u00eas decidirem\u2026<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 o que sempre nos disseram, mas\u2026<\/p>\n<p>\u2013 As coisas do mundo ficaram para tr\u00e1s meu irm\u00e3o, seus corpos se foram, tem que pensar em suas almas.<\/p>\n<p>\u2013 Pois \u00e9, mas est\u00e1vamos nessa de corpo e alma seu padre.<\/p>\n<p>\u2013 Eu n\u00e3o sou padre.<\/p>\n<p>\u2013 Cansamos de chefes, prefeitos, generais e esta gente que faz guerra para que os pobres morram. Voc\u00ea entende, emin\u00eancia?<\/p>\n<p>\u2013 Eu n\u00e3o sou\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Certo, certo. Pessoal, o barba aqui quer falar com a gente, vamos ouvi-lo.<\/p>\n<p>\u2013 Sou contra! Este cara veio com aquele guarda de Versalhes\u2026<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o sou guarda\u2026 eu\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Certo, certo. A gente escuta ele e depois vota.<\/p>\n<p>\u2013 Obrigado irm\u00e3o. Eu entendo a revolta de voc\u00eas, mais ou menos, vem de um mundo de injusti\u00e7as e viol\u00eancia, de priva\u00e7\u00f5es da carne e desesperan\u00e7a. A morte \u00e9 a passagem para uma outra dimens\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Que dimens\u00e3o, o que tem l\u00e1?<\/p>\n<p>\u2013 Ele disse que \u00e9 um reino\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Reino\u2026 monarquia?<\/p>\n<p>\u2013 Capacho de Bismark!<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o\u2026 n\u00e3o\u2026 essas s\u00e3o coisas do mundo dos homens\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Por que? N\u00f3s mulheres n\u00e3o podemos entender de pol\u00edtica. Sei muito bem a diferen\u00e7a entre Monarquia e Rep\u00fablica, meu senhor\u2026<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o, n\u00e3o\u2026 falei \u201chomens\u201d no sentido geral do termo\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Vou te dar um tiro\u2026 bem no sentido geral do termo\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Calma gente, deixa o barba concluir. Fala barba, voc\u00ea dizia de outra dimens\u00e3o que \u00e9 diferente desta merda de mundo. Como \u00e9 l\u00e1?<\/p>\n<p>\u2013 Como \u00e9 l\u00e1? Veja bem\u2026 n\u00e3o sei\u2026 voc\u00ea tem que acreditar sem ver\u2026 a f\u00e9\u2026<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 tramoia, o cara \u00e9 padre\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Eu n\u00e3o sou padre\u2026<\/p>\n<p>\u2013 O cara \u00e9 protestante\u2026 t\u00e1 do lado dos prussianos\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Deus est\u00e1 acima destas pequenas disputas terrenas\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Deus eu n\u00e3o sei, mas os caras dele ficaram ao lado de Versalhes\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Pera\u00ed, sou crist\u00e3o e comunardo, est\u00e1 duvidando da minha lealdade, cidad\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea eu conhe\u00e7o\u2026 deus eu nunca vi\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Vamos votar\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Como? Eu n\u00e3o acabei de falar\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea enrola muito, o neg\u00f3cio \u00e9 o seguinte: quem quer morrer e seguir o barba para luz, proposta um; quem que continuar lutando proposta dois\u2026<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o, n\u00e3o\u2026 n\u00e3o tem como seguir\u2026 voc\u00eas est\u00e3o todos mortos.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 um argumento forte\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Como a gente segue nesta luta, sem os corpos?<\/p>\n<p>\u2013 Estou tentando apodrecer devagar e cheirar bastante\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Eu tamb\u00e9m, mas at\u00e9 quando\u2026 ?<\/p>\n<p>\u2013 Cidad\u00e3os. N\u00e3o se trata de nossos corpos ou nossas almas. N\u00e3o desisto, nem morta! Estamos aqui pela humanidade\u2026<\/p>\n<p>Os mortos explodiram em gritos de guerra e uma salva muda de palmas com m\u00e3os ausentes. Atravessaram o muro e se postaram entre o pelot\u00e3o de fuzilamento e seus companheiros. Abra\u00e7avam os que chegavam e os ajudavam a se levantar.<\/p>\n<p>\u2013 O que a gente faz? Perguntou o anjo ao seu superior.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o sei, nunca entendi os franceses\u2026 Quer saber, foda-se, deixa eles a\u00ed\u2026<\/p>\n<p>A multid\u00e3o de fantasmas foi tomando as ruas de Paris entre os pr\u00e9dios incendiados, foram para os bairros pobres abra\u00e7ar vi\u00favas e filhos, at\u00e9 as cadeias confortar os prisioneiros, seguiram, tempos depois, com os desterrados e condenados aos trabalhos for\u00e7ados. Alguns seguiam seus algozes, esfriavam sua sopa, abriam as janelas para que entrasse o vento e a chuva fria, ou apenas os olhavam nos olhos congelando seus cora\u00e7\u00f5es de pedra.<\/p>\n<p>Todas as noites, um pouco antes do amanhecer, se reuniam no Hotel de Ville para fazer um balan\u00e7o e tomar decis\u00f5es. N\u00e3o se sabe quanto tempo passou, fantasmas n\u00e3o ligam para o tempo, os dias e noites se alternavam, o sol e a neve, as flores e as folhas secas, barricadas erguidas e destru\u00eddas, canh\u00f5es enferrujavam enquanto as sobras se alongavam nas cal\u00e7adas de pedras projetando edif\u00edcios majestosos.<\/p>\n<p>Todos estavam ali, em sil\u00eancio com suas roupas e armas espectrais, inclusive o guardi\u00e3o do port\u00e3o, que havia aderido \u00e0 causa.<\/p>\n<p>\u2013 E agora\u2026 o que a gente faz?<\/p>\n<p>\u2013 Chegam not\u00edcias do Oriente de que o tsarismo est\u00e1 em crise l\u00e1 na R\u00fassia\u2026 pensei que\u2026<\/p>\n<p>Um enorme cortejo de fantasmas marchou para o Oriente, com suas armas e estandartes, seus cantos e palavras de ordem, ganhando adeptos em cada parte, barricada, cemit\u00e9rio, campo de batalha, f\u00e1bricas e fazendas. Davam as m\u00e3os aos esquecidos e humilhados, retiravam suas almas da lama e marchavam para o leste. Um enorme sol nascia no horizonte, tingindo de vermelho as nuvens e expulsando a escurid\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 E a\u00ed padre\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Eu n\u00e3o sou padre\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Sei, sei\u2026 t\u00e1 contente? Finalmente estamos fazendo sua vontade.<\/p>\n<p>\u2013 Qual?<\/p>\n<p>\u2013 Estamos indo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 luz.<\/p>\n<p>Mauro Iasi \u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil e Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, \u00e0s quartas. Na TV Boitempo, apresenta o Caf\u00e9 Bolchevique, um encontro mensal para discutir conceitos-chave da tradi\u00e7\u00e3o marxista a partir de reflex\u00f5es sobre a conjuntura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27134\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[367,9],"tags":[225],"class_list":["post-27134","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-comuna-de-paris","category-s10-internacional","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-73E","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27134","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27134"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27134\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27134"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27134"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27134"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}