{"id":27156,"date":"2021-04-14T21:02:59","date_gmt":"2021-04-15T00:02:59","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27156"},"modified":"2021-04-16T06:19:12","modified_gmt":"2021-04-16T09:19:12","slug":"esquerda-e-comunicacao-digital-na-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27156","title":{"rendered":"Esquerda e comunica\u00e7\u00e3o digital na pandemia"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/pw\/ACtC-3dU7kxotSMa-FI87-lf5XKlpqYXwWH2ac5teHzza4X5K9CeXnZycJTr-vSVRj5MZTqrjm0_HjkYAQ0KG_tJq420FaZpuSJfbwx81W87r3VvdUjPy82dBNUEM121iMKs7UH_DaoKfJP8P7TxWTXk07AY=w875-h619-no\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Cartaz de Alexander Rodchenko (1925)<\/p>\n<p>Por Golbery Lessa<\/p>\n<p>O isolamento social vivido durante a pandemia da Covid 19 intensificou alguns desafios comunicacionais contempor\u00e2neos para os indiv\u00edduos refrat\u00e1rios ao mundo digital. Pela falta de alternativas, muitas pessoas se impuseram a tarefa de superar a falta de conhecimento t\u00e9cnico em comunica\u00e7\u00e3o digital no trabalho, na fam\u00edlia e em outras institui\u00e7\u00f5es. Descobriram amplas possibilidades e as vivenciaram com um misto de rejei\u00e7\u00e3o e ades\u00e3o. Os desafios pegaram parte da esquerda desprevenida e deixaram mais claro seu atraso t\u00e9cnico nessa \u00e1rea. Diante da import\u00e2ncia social e pol\u00edtica do fen\u00f4meno, \u00e9 relevante fazer um balan\u00e7o dessa defasagem tecnol\u00f3gica e das respostas pr\u00e1ticas oferecidas, principalmente para que os erros n\u00e3o sejam repetidos e as oportunidades de difus\u00e3o de ideias possam ser mais bem aproveitadas.<\/p>\n<p>A conhecida abordagem de Michel L\u00f6wy sobre o romantismo revolucion\u00e1rio \u00e9 f\u00e9rtil para tematizarmos a rela\u00e7\u00e3o da esquerda com o desenvolvimento tecnol\u00f3gico (ver, por exemplo, a obra Revolta e Melancolia: o romantismo na contracorrente da modernidade, de Michael L\u00f6wy e Robert Sayre). Algumas correntes anticapitalistas rejeitam aspectos da modernidade, inclusive o avan\u00e7o tecnol\u00f3gico. Existem dimens\u00f5es libert\u00e1rias importantes nessa perspectiva te\u00f3rica, principalmente no que se refere \u00e0 decidida rejei\u00e7\u00e3o ao evolucionismo, ao cientificismo e ao etnocentrismo. Entretanto, e Michel L\u00f6wy n\u00e3o aborda esse aspecto da quest\u00e3o, o romantismo anticapitalista tende ao erro de identificar modernidade e capitalismo e, em consequ\u00eancia, rejeitar ou menosprezar dimens\u00f5es da liberdade humana presentes em elementos da civiliza\u00e7\u00e3o moderna, como a escola formal, a centralidade da ci\u00eancia e as liberdades democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>O romantismo, apesar de suas dimens\u00f5es cr\u00edticas, nos atrapalha no entendimento da rela\u00e7\u00e3o entre capitalismo e tecnologia, na medida em que considera a valoriza\u00e7\u00e3o do avan\u00e7o t\u00e9cnico como necessariamente legitimadora do positivismo e da acumula\u00e7\u00e3o de capital (ver, por exemplo, o livro Dial\u00e9tica do Esclarecimento, de Adorno e Horkheimer, no qual a abordagem rom\u00e2ntica adquire sofisticada justificativa filos\u00f3fica). Essa via leva \u00e0 rejei\u00e7\u00e3o de qualquer desenvolvimento tecnol\u00f3gico ou ao apego \u00e0 tecnologia do passado, que presumivelmente seria menos cruel e menos subordinada \u00e0 l\u00f3gica mercantil porque expressaria um momento menos avan\u00e7ado do capitalismo. Nesse ponto incide, contraditoriamente, um tipo particular de evolucionismo, que considera todo desenvolvimento como decad\u00eancia.<\/p>\n<p>Essas media\u00e7\u00f5es possibilitam maior aproxima\u00e7\u00e3o do nosso foco: o apego ao anal\u00f3gico e a rejei\u00e7\u00e3o ao digital presentes em alguns setores da esquerda contempor\u00e2nea expressam a busca de resgatar um passado supostamente menos mercantil, que \u00e9 identificado de modo fetichista a um momento anterior da tecnologia, como se esta determinasse as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e n\u00e3o o contr\u00e1rio. Para complicar mais a quest\u00e3o, o passadismo n\u00e3o parte de um pressuposto emp\u00edrico totalmente equivocado, o que lhe empresta mais plausibilidade. Como o desenvolvimento do capitalismo \u00e9 desigual e combinado em todos os aspectos, de fato, alguns complexos sociais no seu passado eram menos alienados do que posteriormente. Basta lembrar o aumento da manipula\u00e7\u00e3o na ind\u00fastria cultural a partir da segunda metade do s\u00e9culo XX. Evidentemente, o equ\u00edvoco n\u00e3o reside na valoriza\u00e7\u00e3o de dimens\u00f5es \u201cartesanais\u201d e \u201cmenos capitalistas\u201d do passado, mas na fixa\u00e7\u00e3o idealista neste momento pret\u00e9rito, que leva \u00e0 rejei\u00e7\u00e3o de possibilidades concretas do presente e, entre outras coisas, ao anacronismo tecnol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Antes do surgimento das redes digitais, o passadismo tecnol\u00f3gico n\u00e3o gerava um problema comunicacional particular, pois a difus\u00e3o das ideias era feita por uma t\u00e9cnica anal\u00f3gica vigente h\u00e1 s\u00e9culos, a imprensa, ou via radiodifus\u00e3o e televis\u00e3o, meios monopolizados pela burguesia. O surgimento da internet e, particularmente, das redes sociais digitais, mudou radicalmente a situa\u00e7\u00e3o, transformando a rejei\u00e7\u00e3o desse meios de comunica\u00e7\u00e3o numa bandeira conservadora do setor rom\u00e2ntico da esquerda (que existente em todos os partidos, sindicatos, movimentos sociais e outros coletivos) e isso abriu enorme flanco desguarnecido para o avan\u00e7o da direita na web e, em consequ\u00eancia, na disputa por hegemonia. Assim, por exemplo, enquanto a extrema direita brasileira vem usando exitosamente as redes sociais digitais desde 2013, dando saltos de engajamentos durante o golpe de 2016 e a elei\u00e7\u00e3o de 2018, a parte tecnologicamente passadista da esquerda s\u00f3 aprendeu a fazer lives e teleconfer\u00eancias em 2020, obrigada pelo isolamento social. Contraditoriamente, sem a pandemia a resolu\u00e7\u00e3o dessa defasagem tecnol\u00f3gica teria levado muito mais tempo, pois seria atrapalhada pelos pressupostos filos\u00f3ficos referidos.<\/p>\n<p>Como sabemos, existe tamb\u00e9m o erro oposto, igualmente fetichista, de considerar o espa\u00e7o digital como potencialmente superador das rela\u00e7\u00f5es sociais capitalistas. Essa postura tomou parte da esquerda nos anos 1990. O avan\u00e7o implac\u00e1vel de empresas monopolistas como a Microsoft e o Google e a mercantiliza\u00e7\u00e3o da internet se juntaram \u00e0 explos\u00e3o do racismo e da xenofobia na internet, j\u00e1 no s\u00e9culo XXI, para dinamitar mais esse sonho ut\u00f3pico do cientificismo.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio acompanhar a postura dial\u00e9tica de Marx para tentarmos superar a antinomia. S\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es sociais que determinam a exist\u00eancia, a natureza, a difus\u00e3o e a fun\u00e7\u00e3o de cada tecnologia; nenhum padr\u00e3o tecnol\u00f3gico em particular determinar\u00e1 por si o equil\u00edbrio de for\u00e7as entre as classe sociais, a exist\u00eancia de mais ou de menos aliena\u00e7\u00e3o, o alcance ou n\u00e3o do equil\u00edbrio ecol\u00f3gico, o crescimento ou o recuo da economia, a perman\u00eancia de um modo de produzir ou sua supera\u00e7\u00e3o. N\u00e3o faz sentido apegar-se a tecnologias anacr\u00f4nicas para combater o capitalismo e nem perceber as novas como atalhos para o socialismo e a sustentabilidade ecol\u00f3gica. A conviv\u00eancia pol\u00edtica com o padr\u00e3o tecnol\u00f3gico de cada presente \u00e9 um imposi\u00e7\u00e3o objetiva da hist\u00f3ria da qual as for\u00e7as pol\u00edticas populares n\u00e3o podem se esquivar sem se descolarem de suas principais tarefas; ele pode e deve ser questionado e rejeitado em quaisquer de suas dimens\u00f5es, mas \u00e9 equivocado abstrair suas condicionantes sociais e dimens\u00f5es socialmente incontorn\u00e1veis sob o capitalismo, como \u00e9 o caso da comunica\u00e7\u00e3o digital na contemporaneidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27156\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[218],"tags":[223],"class_list":["post-27156","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-comunicacao","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-740","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27156","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27156"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27156\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27156"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27156"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27156"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}