{"id":27169,"date":"2021-04-16T20:04:01","date_gmt":"2021-04-16T23:04:01","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27169"},"modified":"2021-04-16T20:04:01","modified_gmt":"2021-04-16T23:04:01","slug":"negacionismo-de-esquerda-militares-e-genocidio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27169","title":{"rendered":"\u201cNegacionismo\u201d de esquerda, militares e genoc\u00eddio"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2021\/04\/imagempost-20-1.png\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Seguindo a tradi\u00e7\u00e3o brasileira, vemos agora a costura de um novo pacto. De olho em 2022, babando para se aliar com quem at\u00e9 outro dia desses era chamado de &#8216;golpista&#8217;, v\u00e1rios nomes e setores da esquerda brasileira preparam terreno para o grande pacto de esquecimento do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>Por Jones Manoel<\/p>\n<p>BLOG DA BOITEMPO<\/p>\n<p>Enquanto escrevo estas linhas, o Brasil j\u00e1 ultrapassou, em n\u00fameros oficiais, mais de 300 mil mortes. Em n\u00fameros reais, podemos j\u00e1 estar perto de 500 mil mortes. N\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia que o governo liberal-fascista de Bolsonaro tenha cortado em 90% o or\u00e7amento do IBGE, inviabilizando na pr\u00e1tica o pr\u00f3ximo censo nacional. Nada melhor para esconder um genoc\u00eddio do que ocultar os dados e desmontar o principal \u00f3rg\u00e3o de pesquisa demogr\u00e1fica do pa\u00eds.<\/p>\n<p>A matan\u00e7a n\u00e3o terminou no Brasil e j\u00e1 se articula um grande pacto pelo \u201cesquecimento nacional\u201d. O Brasil, como diria Carlos Nelson Coutinho, \u00e9 o pa\u00eds por excel\u00eancia das transi\u00e7\u00f5es pactuadas pelo alto. Ao proclamar o fim da escravid\u00e3o, a elite dirigente decretou que n\u00e3o existia mais um problema racial no Brasil e que n\u00e3o t\u00ednhamos que remoer a hist\u00f3ria do escravismo, mas andar para frente \u2013 para materializar o esquecimento, uma moquantidade infind\u00e1vel de documentos referentes \u00e0 escravid\u00e3o foi queimada.<\/p>\n<p>O fim da ditadura do Estado Novo tamb\u00e9m expressou um grande pacto de concilia\u00e7\u00e3o e esquecimento nacional. Filinto M\u00fcller e companhia limitada nunca foram punidos pelas atrocidades cometidas contra comunistas, anarquistas, sindicalistas e outros tantos que, por um motivo ou outro, entraram em contradi\u00e7\u00e3o com o varguismo.<\/p>\n<p>Sobre a ditadura empresarial-militar de 1964 n\u00e3o preciso escrever. \u00c9 fato conhecido que a \u201canistia ampla, geral e irrestrita\u201d deixou intocados os torturadores, assassinos e criminosos da ditadura, assim como seus patrocinadores e patr\u00f5es: nenhuma entidade patronal, burgu\u00eas, monop\u00f3lio de m\u00eddia, clero da alta burocracia da Igreja Cat\u00f3lica ou conspirador dos Estados Unidos fantasiado de diplomata foi punido ou responsabilizado politicamente. Os militares n\u00e3o s\u00f3 sa\u00edram da ditadura pela porta da frente, como o Estado montado durante 1964-1985, ao menos nos seus \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o, vigil\u00e2ncia e controle, foi, no essencial, mantido. No lugar da ca\u00e7a aos comunistas, entrou a guerra ao crime, aos traficantes, \u00e0s drogas etc. A m\u00e1quina de moer gente e a guerra ao inimigo interno prosseguem.<\/p>\n<p>Os militares n\u00e3o s\u00f3 seguiram tranquilos, dormindo o sono dos canalhas que n\u00e3o ter\u00e3o o mesmo destino de Mussolini, como passaram a confraternizar com amplos setores das esquerdas brasileiras. N\u00e3o faltaram \u201cfilhotes da ditadura\u201d passeando de m\u00e3os dadas com seus antigos inimigos \u2013 os que eles n\u00e3o conseguiram matar no passado, \u00e9 claro. Delfim Netto, tzar econ\u00f4mico dos milicos, at\u00e9 hoje um orgulhoso de ter sua assinatura no AI-5, passou a circular serelepe nos espa\u00e7os de esquerda como se nada tivesse acontecido. Paulo Maluf e semelhantes, como Jos\u00e9 Sarney e Ant\u00f4nio Carlos Magalh\u00e3es, viraram \u201ccompanheiros\u201d e assim seguiu o grande pacto de esquecimento.<\/p>\n<p>Agora, seguindo a tradi\u00e7\u00e3o brasileira, vemos a costura de um novo pacto. De olho em 2022, babando para se aliar com quem at\u00e9 outro dia desses era chamado de \u201cgolpista\u201d, v\u00e1rios nomes e setores da esquerda brasileira preparam terreno para o grande pacto de esquecimento do s\u00e9culo XXI. A opera\u00e7\u00e3o \u00e9 simples no seu cinismo: transformar Bolsonaro numa entidade m\u00edtica, et\u00e9rea, pairando sobre o ar. O fascista na presid\u00eancia \u00e9 o \u00fanico, junto com sua fam\u00edlia, respons\u00e1vel pelo genoc\u00eddio em curso. Todo processo que levou \u00e0 forma\u00e7\u00e3o do governo liberal-fascista deve ser esquecido. Todos os atores pol\u00edticos que se lambuzaram no governo \u2013 e n\u00e3o falo de leite condensado \u2013 devem ser acolhidos, e n\u00e3o pense em falar da responsabilidade da burguesia e da Embaixada de Washington na trag\u00e9dia que abate nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>A blindagem dos atores pol\u00edticos respons\u00e1veis pelo genoc\u00eddio guarda um lugar especial para o Partido Fardado: os militares, com mais se 7 mil cargos no governo, formando o governo mais militarizado da hist\u00f3ria brasileira, devem ser poupados de toda e qualquer responsabilidade pela matan\u00e7a em marcha. Como faz\u00ea-lo? \u00c9 simples, operar abertamente um discurso \u201cnegacionista\u201d. Nenhuma prova, mas muitas convic\u00e7\u00f5es \u2013 \u00e9 a f\u00f3rmula nacional do sucesso.<\/p>\n<p>Vejamos alguns exemplos. Tarso Genro, ex-prefeito, governador, ministro e destacado quadro do PT, publicou em janeiro deste ano um artigo no Sul21 chamado \u201cO culpado da mortandade n\u00e3o \u00e9 o Ex\u00e9rcito. \u00c9 Bolsonaro e seus pol\u00edticos liberais e fascistas\u201d. A l\u00f3gica de argumento de Genro \u00e9 curiosa. Deixando de lado as reflex\u00f5es sobre cultura nacional, Trump, hist\u00f3ria dos EUA e afins, ele come\u00e7a a debater a quest\u00e3o militar dizendo: \u201cpenso que os militares do pa\u00eds \u2013 na sua ampla maioria \u2013 n\u00e3o querem que o pa\u00eds seja \u2013 no futuro \u2013 o que \u00e9 o Rio de Janeiro hoje. Este \u00e9 o meu ponto de partida\u201d. Tarso se refere aos grupos milicianos do Rio de Janeiro. Que os militares, ciosos da hierarquia, n\u00e3o queiram uma estrutura miliciana nas For\u00e7as Armadas \u00e9 um tru\u00edsmo. Agora, que eles tenham alguma oposi\u00e7\u00e3o ao projeto pol\u00edtico expresso no Rio de Janeiro, l\u00f3gica impl\u00edcita no racioc\u00ednio de Tarso, n\u00e3o \u00e9 demonstrado. Tarso apenas \u201cpensa\u201d.<\/p>\n<p>Em seguida, comenta do golpe de 2016. Afirma que \u201cpode ter tido a simpatia de uma parte das for\u00e7as militares do pa\u00eds\u201d, mas \u201cn\u00e3o foi promovido por nenhuma delas\u201d. Qual \u00e9 o argumento para sustentar essa afirma\u00e7\u00e3o? N\u00e3o temos. O argumento \u00e9 uma proje\u00e7\u00e3o t\u00e1tico-estrat\u00e9gica que substitui a an\u00e1lise \u201cmas n\u00e3o \u00e9 correto colocar todas as institui\u00e7\u00f5es no mesmo saco\u201d. Note o elemento ret\u00f3rico: o debate n\u00e3o \u00e9 equalizar o papel de todas as institui\u00e7\u00f5es no impedimento, mas debater o papel dos militares. Seguimos.<\/p>\n<p>Para Tarso Genro, responsabilizar em alguma medida os militares pelo genoc\u00eddio em curso seria igual a obscurecer o conjunto de for\u00e7as e atores pol\u00edticos que deu vida ao bolsonarismo e n\u00e3o responder a essa pergunta central: \u201cconseguiu sobreviver como governante de uma na\u00e7\u00e3o, sem qualquer respeito \u00e0 moralidade republicana e se fez o projeto das suas classes dominantes, emprestando a sua face ao corpo pol\u00edtico neoliberal do pa\u00eds?\u201d. Tarso n\u00e3o se pergunta se a presen\u00e7a de mais de 7 mil militares no Governo, contando at\u00e9 pouco tempo com um general da ativa no minist\u00e9rio da Sa\u00fade (General Pazuello), tem rela\u00e7\u00e3o com essa sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Tarso tamb\u00e9m n\u00e3o pergunta se cumpriram algum papel, na rela\u00e7\u00e3o Governo-Congresso-STF, as amea\u00e7as abertas de militares, como as do General Heleno e do ex-ministro da Defesa Fernando Azevedo e Silva (que alguns querem esquecer, mas que sobrevoou com helic\u00f3ptero da FAB a pra\u00e7a dos tr\u00eas poderes durante atos da extrema-direita pedindo fechamento do Congresso e STF). O fato de o novo ministro da Defesa, General Braga Netto, ter sido ministro da Casa Civil \u2013 portanto, articulador pol\u00edtico do governo \u2013 tamb\u00e9m n\u00e3o faz Genro questionar a rela\u00e7\u00e3o dos militares com a \u201csobreviv\u00eancia\u201d de Bolsonaro (Braga Netto que, no Governo Temer, foi interventor no Rio de Janeiro durante o assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes).<\/p>\n<p>O ex-governador chega ao ponto de dizer que \u201ccom isso quero dizer que \u00e9 errado, do ponto de vista pol\u00edtico, e injusto, do ponto de vista hist\u00f3rico, identificar o Ex\u00e9rcito Brasileiro com a chacina sanit\u00e1ria\u201d. Quais os argumentos para afirmar isso? N\u00e3o h\u00e1 argumentos, mas considera\u00e7\u00f5es t\u00e1tico-estrat\u00e9gicas para o futuro. N\u00e3o se trata de analisar as coisas como elas s\u00e3o, mas falar o que supostamente \u00e9 necess\u00e1rio para a\u00e7\u00f5es futuras. O argumento todo de Tarso \u00e9 esse:<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 errado, porque ajuda a extrema direita militar a se reorganizar na ativa e \u00e9 errado porque Bolsonaro n\u00e3o representa nem de longe a moralidade m\u00e9dia das FFAA \u2013 nem sua voca\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que \u00e9 positivista conservadora, mas n\u00e3o fascista \u2013; e \u00e9 errado, porque reduz a responsabilidade objetiva e subjetiva dos militares da reserva, dos pol\u00edticos do entorno de Bolsonaro, das religi\u00f5es do dinheiro que lhe d\u00e3o sustenta\u00e7\u00e3o e do cons\u00f3rcio midi\u00e1tico-empresarial que o elegeu presidente e ainda lhe mant\u00e9m no poder.\u201d<\/p>\n<p>Destaco duas coisas. Genro pega o lugar batido do car\u00e1ter positivista das For\u00e7as Armadas brasileiras, dado real, e disso nega automaticamente, sem argumentar, qualquer processo de fascistiza\u00e7\u00e3o em curso. Em segundo lugar, novamente, diz que olhar para o Partido Fardado seria igual a desresponsabilizar os monop\u00f3lios de m\u00eddia, o fundamentalismo religioso etc. Mas onde est\u00e1 a demonstra\u00e7\u00e3o disso? Tamb\u00e9m n\u00e3o temos.<\/p>\n<p>Por fim, Tarso conclui seu artigo com esse argumento. Pe\u00e7o uma leitura atenta:<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 errado, finalmente, porque \u00e9 imposs\u00edvel construir Rep\u00fablica e Democracia no Brasil, sem que a maioria das For\u00e7as Armadas seja conquistada para um projeto de na\u00e7\u00e3o, cuja soberania estar\u00e1 depositada \u2013 em grande parte \u2013 nas m\u00e3os destas institui\u00e7\u00f5es, por dentro do Estado Democr\u00e1tico de Direito, tenha ele caracter\u00edsticas de um Estado Social, seja ele um Estado de Direito meramente liberal-democr\u00e1tico. Estas considera\u00e7\u00f5es est\u00e3o em polo totalmente oposto aos \u2018pux\u00f5es de orelhas\u2019, que alguns militares da ativa e da reserva querem dar em jornalistas que denunciam os seus desmandos e a total falta de integridade deste governo, atacando diretamente a liberdade de cr\u00edtica e de opini\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>O \u201cx\u201d da quest\u00e3o \u00e9 revelado. Tarso considera que o \u00fanico meio de \u201cconstruir\u201d a \u201cRep\u00fablica e Democracia\u201d (n\u00e3o est\u00e3o constru\u00eddas? Foram destru\u00eddas quando? Os mais de 7 mil militares no governo t\u00eam responsabilidade nessa destrui\u00e7\u00e3o?) \u00e9 conquistar a \u201cmaioria das For\u00e7as Armadas\u201d. Esse imperativo t\u00e1tico e estrat\u00e9gico impele a negar a realidade e retirar deles qualquer responsabilidade. A compreens\u00e3o do hoje \u00e9 subordinada a um futuro poss\u00edvel.<\/p>\n<p>O ex-governador da Bahia e senador Jacques Wagner, em artigo recente na revista Carta Capital, apresenta uma leitura parecida com seu colega de partido. No artigo de Wagner, intitulado \u201cA orienta\u00e7\u00e3o maior dos militares, creio eu, segue os princ\u00edpios constitucionais\u201d , ele diz \u201ca recente demiss\u00e3o do ministro da Defesa, seguida de in\u00e9dita troca dos comandantes do Ex\u00e9rcito, da Marinha e da Aeron\u00e1utica, por n\u00e3o compactuarem com a sanha golpista do Planalto, diz muita coisa. Refor\u00e7a o car\u00e1ter de Estado que caracteriza essa institui\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Existe uma argumenta\u00e7\u00e3o para mostrar que a troca de comandantes das For\u00e7as Armadas foi apenas ou principalmente por n\u00e3o compactuarem com a \u201csanha golpista\u201d do presidente? N\u00e3o. Wagner, seguindo um padr\u00e3o de amplos setores das esquerdas, apenas repete a narrativa divulgada pelos monop\u00f3lios de m\u00eddia. No dia da \u201cmaior crise militar da hist\u00f3ria\u201d, fontes an\u00f4nimas, segundo os monop\u00f3lios de m\u00eddia, sopraram nos seus ouvidos que os militares s\u00e3o democratas, legalistas, constitucionalistas, moderados e que Bolsonaro \u00e9 a \u00fanica besta-fera do governo.<\/p>\n<p>O ex-governador ainda tranquiliza os que est\u00e3o apreensivos e garante que prevalece a orienta\u00e7\u00e3o constitucional entre os militares: \u201c\u00e9 natural que o clima permanente de instabilidade do atual governo provoque muitas d\u00favidas sobre o engajamento dos militares. Por isso, tenho repetido, e os epis\u00f3dios recentes fortalecem, minha cren\u00e7a de que a orienta\u00e7\u00e3o maior \u00e9 com os princ\u00edpios constitucionais\u201d. O tamb\u00e9m ex-governador, ministro e presidenci\u00e1vel pelo PDT, Ciro Gomes, seguiu a mesma linha do petista na leitura da demiss\u00e3o de Azevedo e Silva.<\/p>\n<p>A fala de Ciro cobre os militares de elogios e chama sua participa\u00e7\u00e3o recorde na hist\u00f3ria no governo de \u201cequ\u00edvoco\u201d (equ\u00edvoco por qu\u00ea? O que levou ao erro?),<\/p>\n<p>\u201cE para o povo brasileiro: n\u00f3s devemos receber essa mensagem com prud\u00eancia e, acima de tudo, com muito respeito. \u00c9 um primeiro grande sinal de que as For\u00e7as Armadas est\u00e3o se desencantando com as loucuras que Bolsonaro tem praticado no Brasil. Tamb\u00e9m \u00e9 sinal que eles querem retornar o melhor respeito que sempre deveriam ter merecido se n\u00e3o fora a aventura, o equ\u00edvoco, de terem hoje quase 4 mil militares da ativa dentro do governo.\u201d<\/p>\n<p>Com um tom muito mais comedido e ponderado, Guilherme Boulos, no seu programa no YouTube (Caf\u00e9 com Boulos), lan\u00e7ou um v\u00eddeo chamado \u201cVai ter golpe?\u201d, em que analisa os intentos golpistas de Bolsonaro. Segundo Boulos, os militares, como Edson Pujol, deixaram Bolsonaro irritado com a defesa da Constitui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pegando carona em intentos golpistas. Para Boulos, \u201caparentemente\u201d, os militares n\u00e3o v\u00e3o embarcar por agora nas a\u00e7\u00f5es de fechamento de regime desejadas pelo fascista na presid\u00eancia. Como eu disse, mesmo com um tom mais ponderado e cuidadoso, Boulos segue a tend\u00eancia de Ciro Gomes e Jacques Wagner de ver na demiss\u00e3o de Azevedo e Silva uma resist\u00eancia ou nega\u00e7\u00e3o ao golpismo de Bolsonaro em prol da legalidade.<\/p>\n<p>Por fim, Aldo Rebelo, ex-deputado, ministro e por d\u00e9cadas um dos principais quadros do PCdoB e hoje no Solidariedade, deu uma entrevista para o canal no YouTube da revista Carta Capital. O t\u00edtulo do v\u00eddeo \u00e9 ilustrativo: \u201cEx\u00e9rcito resiste ao \u2018regime\u2019 Bolsonaro. Por que?.\u201d Na entrevista, Aldo cobre os militares de elogios: democr\u00e1ticos, legalistas, profissionais, dedicados e afins. O n\u00edvel de elogios \u00e9 t\u00e3o grande que, em v\u00e1rios momentos, Aldo mobiliza a imagem do militar na selvagem amaz\u00f4nica, \u201ccuidando dos \u00edndios\u201d, atendendo ribeirinhos, ganhando um sal\u00e1rio baix\u00edssimo.<\/p>\n<p>O quadro de exemplos est\u00e1 completo. A partir disso, podemos fazer dois apontamentos fundamentais. Pedro Marin, editor da Revista Opera e um dos autores do livro Carta no Coturno, vem chamando aten\u00e7\u00e3o para o novo protagonismo pol\u00edtico dos militares e a\u00e7\u00f5es que precedem a ascens\u00e3o de Bolsonaro \u00e0 presid\u00eancia. A tese que Pedro Marin sustenta, e que concordamos e seguimos, \u00e9 que os militares se utilizaram de Bolsonaro no seu projeto de poder, e o l\u00edder neofascista fez o mesmo, numa comunh\u00e3o de interesses. Mas, o Partido Fardado \u00e9 cuidadoso com sua autonomia pol\u00edtica e com o andamento do projeto pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>Quando Bolsonaro diz que pode usar o \u201cseu ex\u00e9rcito\u201d \u2013 e vamos supor que a narrativa dos monop\u00f3lios de m\u00eddia esteja correta, e a crise militar tenha ocorrido devido a uma tentativa de decretar estado de s\u00edtio ou at\u00e9 mesmo um fechamento total do regime \u2013, por qual motivo os militares diriam am\u00e9m para o presidente? Uma resposta positiva iria ferir a autonomia pol\u00edtica do projeto pr\u00f3prio dos militares, colocando-os na pr\u00e1tica e publicamente como \u201co Ex\u00e9rcito de Bolsonaro\u201d e em uma posi\u00e7\u00e3o complicada: o meio fechamento de regime, com as rea\u00e7\u00f5es, tende a caminhar para um fechamento progressivo maior \u2013 mas hoje essa remodela\u00e7\u00e3o do sistema pol\u00edtico n\u00e3o encontra apoio na burguesia e na Embaixada de Washington \u2013 ou para um recuo e a volta da \u201cnormalidade\u201d.<\/p>\n<p>No segundo caso, um ato com tend\u00eancia a desmoralizar politicamente o Partido Fardado; no primeiro, uma aventura sem s\u00f3lido apoio na classe dominante e no cen\u00e1rio internacional, comprometendo as op\u00e7\u00f5es de jogo pol\u00edtico do Partido Fardado. Aliado a isso, se \u00e9 verdade o discurso dos monop\u00f3lios de m\u00eddia de que Bolsonaro queria operar um golpe de estado ou um semi fechamento de regime, a perman\u00eancia dos milhares de militares no governo poderia ser observada como cumplicidade e aus\u00eancia de antagonismo irreconcili\u00e1vel com um projeto golpista, mas \u00e9 mostrada como compromisso democr\u00e1tico, legalista, constitucional. Ent\u00e3o o mesmo militar que no jogo do dia a dia amea\u00e7ava o Congresso e o STF torna-se um democrata ao cobrir com um manto de discurso legalista o ato pol\u00edtico de preservar sua autonomia.<\/p>\n<p>\u00c9 como se dois filhos roubassem dinheiro da carteira do pai, sempre em pequenas quantidades para ele n\u00e3o perceber e o roubo ser permanente. Um belo dia, um dos irm\u00e3os decide roubar o cofre do pai e o outro irm\u00e3o recusa participar da empreitada, dada a situa\u00e7\u00e3o atual de roubos pequenos, mas constantes, ser confort\u00e1vel. Com essa recusa, s\u00f3 o irm\u00e3o mais ambicioso \u00e9 apresentado como ladr\u00e3o, enquanto o segundo \u00e9 visto como o baluarte da honestidade.<\/p>\n<p>Cabe tamb\u00e9m dizer como a quarteliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica \u2013 termo emprestado de Pedro Marin \u2013 foi naturalizada, e a massiva participa\u00e7\u00e3o dos militares no governo \u00e9 tratada como erro, engano, equ\u00edvoco e nunca como projeto. N\u00e3o \u00e9 preciso ser um grande especialista em quest\u00f5es militares para saber que os militares, da ativa ou reserva, mant\u00eam unidade de a\u00e7\u00e3o e comando a partir da farda, que sua participa\u00e7\u00e3o no governo n\u00e3o \u00e9 a mesma que a participa\u00e7\u00e3o de civis. Por que tantos militares entraram e por que, mesmo com a trag\u00e9dia da pandemia, permanecem? \u00c9 incr\u00edvel como essas perguntas n\u00e3o s\u00e3o feitas.<\/p>\n<p>Para concluir esse texto, terei que recorrer a uma longa cita\u00e7\u00e3o. Pedro Marin, em artigo de 26 de fevereiro de 2021, chamado \u201cA \u2018descoberta\u2019 do Partido Fardado e as perguntas que n\u00e3o querem calar\u201d, apresenta as perguntas fundamentais, mas evitadas por aqueles que querem negar a centralidade dos coturnos e fuzis na pol\u00edtica brasileira. Evitar fazer as perguntas corretas, ocultando a exist\u00eancia do Partido Fardado, pode ser o primeiro grande sinal do pr\u00f3ximo pacto de esquecimento nacional. Pessoalmente, n\u00e3o acho que Guilherme Boulos participaria desse pacto e tenho d\u00favidas quanto a Ciro Gomes, mas desde j\u00e1 afirmo que todo discurso dos militares como democratas, constitucionalistas ou sem responsabilidade central no genoc\u00eddio que vivemos contribui para a pr\u00f3xima \u201canistia ampla, geral e irrestrita\u201d.<\/p>\n<p>Seguem as perguntas formuladas por Pedro Marin:<\/p>\n<p>Primeiro. Em agosto de 2019 o ministro Dias Toffoli, ent\u00e3o presidente do STF, declarou em entrevista \u00e0 Veja que, durante uma \u201ccrise institucional\u201d ocorrida em abril daquele ano, \u201cum dos generais pr\u00f3ximos do presidente\u201d consultou um ministro do Supremo Tribunal, \u201cpara saber se estaria correta a sua interpreta\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o segundo a qual o Ex\u00e9rcito, em caso de necessidade, poderia lan\u00e7ar m\u00e3o das tropas para garantir \u2018a lei e a ordem\u2019\u201d. Isto \u00e9, consultou um ministro do STF sobre a constitucionalidade de um golpe. N\u00e3o cala a pergunta: quem foi o \u201cgeneral pr\u00f3ximo do presidente\u201d, e com qual ministro ele falou? O senhor Toffoli certamente pode responder.<\/p>\n<p>Segundo. H\u00e1 algumas semanas, dias antes das elei\u00e7\u00f5es para a presid\u00eancia da C\u00e2mara e Senado, um assessor do vice-presidente-general, Hamilton Mour\u00e3o, teria trocado mensagens com deputados no sentido de articular uma poss\u00edvel sucess\u00e3o de Mour\u00e3o \u00e0 presid\u00eancia. O assessor declarou que fora hackeado; a vice-presid\u00eancia declarou que o vazamento era inver\u00eddico e, ao fim, o vice-presidente-general disse que o assessor agira sem seu consentimento, demitindo-o. Afinal, o assessor foi hackeado? Se sim, por quem? O vazamento era falso? O assessor do vice-presidente de fato agiu por suas costas? De certo o assessor Ricardo Roesch pode nos esclarecer.<\/p>\n<p>Terceiro. Em 30 de abril, o decreto que instituiu a Opera\u00e7\u00e3o Verde Brasil na Amaz\u00f4nia se extinguir\u00e1. Os militares deixar\u00e3o a regi\u00e3o, restringindo sua presen\u00e7a a 11 munic\u00edpios. A pergunta: o que os militares fizeram na Amaz\u00f4nia nestes \u00faltimos anos, a t\u00e3o elevados custos? Se houve aumento nos \u00edndices criminais na regi\u00e3o, nas queimadas, nas invas\u00f5es, na minera\u00e7\u00e3o ilegal, eles n\u00e3o devem ser responsabilizados? N\u00e3o s\u00e3o os generais \u2013 dentre eles, Mour\u00e3o, presidente do Conselho da Amaz\u00f4nia \u2013 t\u00e3o respons\u00e1veis quanto o inepto ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, contra o qual todas as bocas falaram em meio ao sil\u00eancio sobre os fardados?<\/p>\n<p>Quarto. Os militares continuamente apontam poss\u00edveis cen\u00e1rios ca\u00f3ticos no horizonte. Como os militares se comportariam em um cen\u00e1rio de ampla revolta popular? O que fariam se algo similar a junho de 2013 ocorresse hoje? Se tiv\u00e9ssemos manifesta\u00e7\u00f5es massivas, como no Chile, ou se grupos civis efetuassem bloqueios e atos de rua pedindo a cabe\u00e7a de algum governador, como ocorreu na Bol\u00edvia com o presidente Evo Morales?<\/p>\n<p>Quinto. O filho do presidente, Eduardo Bolsonaro, certa feita, disse que para fechar o STF bastavam \u201cum cabo e um soldado\u201d. O atual vice-presidente-general, Hamilton Mour\u00e3o, falou no passado, respondendo a uma pergunta sobre um golpe, em \u201caproxima\u00e7\u00f5es sucessivas\u201d caso o \u201cproblema pol\u00edtico\u201d n\u00e3o fosse resolvido. Em entrevista \u00e0 DW, perguntado sobre declara\u00e7\u00f5es protogolpistas de Bolsonaro, disse que n\u00e3o se trata de \u201cconversa perigosa\u201d; \u201c\u00e9 perigoso quando voc\u00ea tem poder de fazer o que quer, mas ningu\u00e9m tem poder de fazer o que quer aqui no Brasil.\u201d Pergunta: os militares, que fundaram a Rep\u00fablica \u00e0s espadadas, participaram do Golpe de Tr\u00eas de Novembro, fizeram a Revolu\u00e7\u00e3o de 30 e participaram do governo Get\u00falio, fizeram o Estado Novo para depois golpear o presidente, e por fim estabeleceram a larga noite, em um abril de 1964, n\u00e3o podem fazer o que quiserem? Se sim, o que querem?<\/p>\n<p>Sexto. O presidente Jair Bolsonaro agradeceu ao general Villas B\u00f4as, um dia depois de sua posse, dizendo que o general era o respons\u00e1vel por ele conquistar o cargo e que o que conversaram \u201cmorreria com ele\u201d. J\u00e1 que o presidente fez esse irrevers\u00edvel pacto de morte, por que Villas B\u00f4as n\u00e3o detalha ao p\u00fablico ao que ele se referia?<\/p>\n<p>S\u00e9timo. Se o Brasil vivesse algo similar \u00e0 invas\u00e3o ao Capit\u00f3lio norte-americano pelos apoiadores de Trump, os militares defenderiam o pr\u00e9dio ou o atacariam? Comprometeriam-se com a legalidade ou com os invasores? E se vencesse em 2022 um candidato que n\u00e3o os agradasse, comprometido com uma reforma para levar os coturnos de volta \u00e0 caserna, mexendo no artigo 142 da Constitui\u00e7\u00e3o, como reagiriam?<\/p>\n<p>Oitavo. Em uma entrevista de junho de 2020, em meio a mais uma \u201ccrise institucional\u201d, o ministro-chefe-general da Secretaria do Governo, Luiz Eduardo Ramos, deu a seguinte declara\u00e7\u00e3o: \u201cFui instrutor da academia por v\u00e1rios anos e vi v\u00e1rias turmas se formarem l\u00e1, que me conhecem e eu os conhe\u00e7o at\u00e9 hoje. Esses ex-cadetes atualmente est\u00e3o comandando unidades do Ex\u00e9rcito. Ou seja, eles t\u00eam tropas nas m\u00e3os. Para eles, \u00e9 ultrajante e ofensivo dizer que as For\u00e7as Armadas, em particular o Ex\u00e9rcito, v\u00e3o dar golpe, que as For\u00e7as Armadas v\u00e3o quebrar o regime democr\u00e1tico. O pr\u00f3prio presidente nunca pregou o golpe. Agora o outro lado tem de entender tamb\u00e9m o seguinte: n\u00e3o estica a corda.\u201d Pergunta: esses ex-cadetes, hoje com tropas nas m\u00e3os \u2013 fato que o general aponta t\u00e3o proficuamente -, tamb\u00e9m n\u00e3o consideram \u201cultrajante e ofensivo\u201d dizer que a ditadura militar foi\u2026 uma ditadura militar? O que \u00e9 \u201cesticar a corda\u201d? E, se esticar, arrebenta?<\/p>\n<p>Nono. Recentemente um minotauro descerebrado com cargo parlamentar foi preso, ap\u00f3s proferir, de seu labirinto, alguns improp\u00e9rios contra integrantes do STF, em defesa do general Villas B\u00f4as. O general, por sua vez, confessou o que era \u00f3bvio \u2013 que a mensagem que disparara pelo Twitter \u00e0s v\u00e9speras do julgamento sobre o habeas corpus do ex-presidente Lula era um \u201calerta\u201d. Pergunta: \u00e9 constitucional que o comandante do Ex\u00e9rcito \u201calerte\u201d o Supremo Tribunal? N\u00e3o cabe, no m\u00ednimo, que ele seja convocado a prestar esclarecimentos? Se o ministro Edson Fachin considera o epis\u00f3dio \u201cintoler\u00e1vel e inaceit\u00e1vel\u201d, por que o STF o tolera e o aceita?<\/p>\n<p>D\u00e9cimo. Por fim, prevendo que para tais perguntas n\u00e3o haver\u00e1 respostas, proponho uma \u00e0 qual n\u00e3o se deve nunca responder, mas \u00e0 qual \u00e9 necess\u00e1rio sempre remeter o pensamento: se os militares se comportarem hoje como se comportaram ao longo de toda a Rep\u00fablica, o que far\u00e3o as organiza\u00e7\u00f5es de esquerda? O que far\u00e1 o Congresso? O que far\u00e1 o Supremo? Estamos prontos para reagir, ou repetiremos o deprimente espet\u00e1culo do 1\u00ba de abril de 1964? Acima de tudo: o que podemos fazer hoje para, adiantando-se ao tempo, estarmos preparados para a tempestade?<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>\u00c1rea de anexos<br \/>\nVisualizar o v\u00eddeo #Caf\u00e9ComBoulos\u200b\u200b\u200b | VAI TER GOLPE? do YouTube<\/p>\n<p>Visualizar o v\u00eddeo EX\u00c9RCITO RESISTE AO \u201cREGIME\u201d BOLSONARO. POR QU\u00ca? | Poder em Pauta com ALDO REBELO do YouTube<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27169\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[225],"class_list":["post-27169","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-74d","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27169","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27169"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27169\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27169"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27169"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27169"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}