{"id":27202,"date":"2021-04-27T22:22:55","date_gmt":"2021-04-28T01:22:55","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27202"},"modified":"2021-04-27T22:22:55","modified_gmt":"2021-04-28T01:22:55","slug":"o-neocolonialismo-pandemico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27202","title":{"rendered":"O (neo)colonialismo pand\u00eamico"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cdn-images.rtp.pt\/icm\/noticias\/images\/ff\/ff52b7494afc4f66df6643ef733d70d7?w%3D860%26q%3D90%26rect%3D0,0,1499,822\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Lojas fechadas na cidade de Bangalore, Karnataka, \u00cdndia, em 22 de Abril de 2021, ap\u00f3s o governo local ter ordenado o confinamento devido ao surto de novas infec\u00e7\u00f5es Covid-19 registrados no pa\u00eds, que ascenderam a mais de 300 mil casos por dia.<br \/>\nCr\u00e9ditosJAGADEESH NV \/ EPA<\/p>\n<p>Raquel Ribeiro<\/p>\n<p>ABRIL ABRIL<\/p>\n<p>As din\u00e2micas de depend\u00eancia neocoloniais continuam absolutamente evidentes. A Covid-19 s\u00f3 as p\u00f4s ainda mais a nu.<\/p>\n<p>O Reino Unido j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 em pandemia, dizem especialistas citados pelo Telegraph. A situa\u00e7\u00e3o evoluiu de tal maneira positivamente, que as infec\u00e7\u00f5es poder\u00e3o reduzir-se em 90% com a vacina\u00e7\u00e3o. E 49,8% da popula\u00e7\u00e3o j\u00e1 recebeu a primeira dose da vacina. Fazendo eco do relat\u00f3rio apresentado pela equipa da COVID-19 Infection Survey, uma parceria entre a Universidade de Oxford, o Instituto de Estat\u00edsticas Nacionais e o Departamento de Sa\u00fade e Ac\u00e7\u00e3o Social, o primeiro-ministro do Pa\u00eds de Gales disse: \u00abNa sua defini\u00e7\u00e3o, neste momento n\u00e3o estamos mais numa pandemia. Continuo a avisar que isto n\u00e3o \u00e9 uma rua de sentido \u00fanico\u00bb. Isto \u00e9, as coisas podem sempre voltar a piorar.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 um fato, como o estudo revela, que a redu\u00e7\u00e3o em infec\u00e7\u00f5es e infec\u00e7\u00f5es sintom\u00e1ticas \u00e9 muito significativa ap\u00f3s a segunda dose da vacina (70% e 90%, respectivamente). Entrando ent\u00e3o no que seria um momento de \u00abendemia\u00bb de Covid-19, os especialistas no Reino Unido explicam que um refor\u00e7o da vacina\u00e7\u00e3o no Outono vai ser certamente necess\u00e1rio para a continua\u00e7\u00e3o do controle das infec\u00e7\u00f5es e redu\u00e7\u00e3o da mortalidade. E, depois disso, talvez anual.<\/p>\n<p>Entretanto, a antiga col\u00f4nia, j\u00f3ia do imp\u00e9rio brit\u00e2nico, a \u00cdndia, que antes produzia os diamantes para a coroa dos reis ingleses e que agora produz uma enorme porcentagem de vacinas para o Ocidente, ironicamente tamb\u00e9m produz muitas das que os brit\u00e2nicos est\u00e3o tomando. O setor farmac\u00eautico da \u00cdndia representa 50% do consumo global de vacinas, 40% do mercado de gen\u00e9ricos dos EUA e 25% de todos os medicamentos do Reino Unido. O pa\u00eds est\u00e1 enfrentando uma escalada de infec\u00e7\u00f5es e mortes brutal e devastadora. S\u00e3o j\u00e1 16 milh\u00f5es de infec\u00e7\u00f5es, 340 mil casos por dia. As not\u00edcias d\u00e3o conta de um inferno, em tudo igual ao que temos assistido no Brasil: novas variantes do v\u00edrus (neste caso \u00abmutante\u00bb), pacientes sem oxig\u00eanio, inc\u00eandios em hospitais, crema\u00e7\u00f5es em massa.<\/p>\n<p>No podcast semanal de coment\u00e1rio anticapitalista, \u00abGive the people what they want\u00bb, Prasanth R dizia, em conversa com o investigador Vijay Prashad (director da Tricontinental) e a jornalista Zoe PC, que \u00abassistimos ao colapso total\u00bb do servi\u00e7o de sa\u00fade na \u00cdndia. \u00abBasicamente, as pessoas est\u00e3o lutando por si mesmas.\u00bb A verdadeira extens\u00e3o da crise \u00e9 \u00abmuito, muito pior\u00bb, diz Prasanth R. E tudo isto \u00e9 \u00abresponsabilidade do governo\u00bb que, no in\u00edcio do ano, anunciou \u00abque o pior j\u00e1 tinha passado\u00bb, n\u00e3o se preparou convenientemente com camas, ventiladores e oxig\u00eanio para uma poss\u00edvel (e prov\u00e1vel) segunda onda e permitiu celebra\u00e7\u00f5es religiosas sem qualquer controle. Vijay Prashad lembra que Kerala foi um dos estados que melhor se preparou e hoje \u00abexporta\u00bb oxig\u00eanio para outros estados da \u00cdndia, sobretudo no norte, onde est\u00e1 o epicentro da crise. \u00abO governo central de Nova Delhi, liderado por Narendra Modi, tem uma atitude completamente negligente em rela\u00e7\u00e3o ao investimento em infraestrutura\u00bb, diz Prashad. \u00abA \u201cvariante indiana\u201d \u00e9 a privatiza\u00e7\u00e3o da economia\u00bb.<\/p>\n<p>\u00abO governo central de Nova Delhi, liderado por Narendra Modi, tem uma atitude completamente negligente em rela\u00e7\u00e3o ao investimento em infraestrutura [\u2026] a \u201cvariante indiana\u201d \u00e9 a privatiza\u00e7\u00e3o da economia\u00bb<\/p>\n<p>Vijay Prashad, director da Tricontinental<\/p>\n<p>Isto \u00e9 em tudo id\u00eantico ao Brasil: a extrema-direita mata, a pol\u00edtica de exterm\u00ednio de Bolsonaro e Modi s\u00e3o irm\u00e3s. As previs\u00f5es no Brasil est\u00e3o j\u00e1 no milh\u00e3o de mortes at\u00e9 outubro. A variante brasileira j\u00e1 se alastrou por toda a Am\u00e9rica Latina e est\u00e1 exponencialmente ceifando vidas no Peru, na Col\u00f4mbia, na Venezuela. A Venezuela tem dinheiro retido no BES, no banco de Londres e nos EUA devido \u00e0s san\u00e7\u00f5es. O pa\u00eds precisa do dinheiro para comprar medicamentos e para entrar com fundos na Covax (iniciativa de partilha de vacinas dos pa\u00edses ricos com pa\u00edses pobres ou menos ricos, apoiada pela OMS). S\u00f3 que a Covax no continente americano \u00e9 gerida pela Organiza\u00e7\u00e3o de Sa\u00fade Pan-Americana, que espera da Venezuela o pagamento de 100 milh\u00f5es de d\u00f3lares para que o pa\u00eds possa receber entre 1,4 e 2,4 milh\u00f5es de doses da AstraZeneca que lhe foram destinadas. Depois h\u00e1 quem se admire da raz\u00e3o pela qual Cuba n\u00e3o participa do Covax e tenha decidido desenvolver, diante de uma grav\u00edssima crise econ\u00f4mica, as suas pr\u00f3prias vacinas.<\/p>\n<p>\u00abEnquanto num lado se preparam cremat\u00f3rios e se abrem valas comuns, noutro um poderoso bloco econ\u00f4mico-financeiro assina um acordo com a vacina mais cara do mercado\u00bb<\/p>\n<p>V\u00e1rios pa\u00edses que deveriam se beneficiar da Covax receberam apenas um quinto das vacinas programadas at\u00e9 maio. Neste caso \u00e9 a AstraZeneca, que curiosamente \u00e9 a vacina da grande maioria da popula\u00e7\u00e3o no Reino Unido. Pa\u00edses grandes como a Indon\u00e9sia e o Brasil receberam, at\u00e9 agora, uma em cada 10 doses da AstraZeneca que esperavam at\u00e9 maio. Enquanto Bangladesh, M\u00e9xico, Myanmar e Paquist\u00e3o n\u00e3o receberam absolutamente nenhuma.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 os brit\u00e2nicos. O headline do Guardian na tarde de sexta-feira era sintom\u00e1tico: \u00ab\u00cdndia v\u00ea n\u00famero global de casos aumentar pelo segundo dia; UE assina maior acordo do mundo em vacinas com a Pfizer.\u00bb Enquanto num lado se preparam cremat\u00f3rios e se abrem valas comuns, noutro um poderoso bloco econ\u00f4mico-financeiro assina um acordo com a vacina mais cara do mercado. Mas at\u00e9 nisso dos contratos entre as vacinas e os Estados h\u00e1 rela\u00e7\u00f5es neocoloniais: diferentes pa\u00edses est\u00e3o pagando diferentes pre\u00e7os por elas. A \u00c1frica do Sul, por exemplo, revelou em janeiro estar pagando 5.25 d\u00f3lares\/dose pela AstraZeneca, mais que o dobro do que a empresa cobrou \u00e0 Uni\u00e3o Europeia (2.15 d\u00f3lares\/dose), segundo a revista semanal do sindicato de M\u00e9dicos no Reino Unido, BMJ.<\/p>\n<p>\u00abO (neo)colonialismo \u00e9 um v\u00edrus, tomou conta do mundo como uma pandemia, e manifesta-se e propaga-se, incessante. Onde houver recursos, a m\u00e3o invis\u00edvel do \u00abprogresso\u00bb est\u00e1 l\u00e1\u00bb<\/p>\n<p>A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio, reunida na semana passada, recebeu um pedido urgente de mais de 100 pa\u00edses (liderados pela \u00cdndia e pela \u00c1frica do Sul) para libertar as patentes das vacinas contra a covid-19. A proposta encontrou forte oposi\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses ricos como EUA, Reino Unido, Canad\u00e1 e UE, que argumentaram que as isen\u00e7\u00f5es desincentivam a \u00abinova\u00e7\u00e3o\u00bb e podem prejudicar os interesses das grandes empresas farmac\u00eauticas envolvidas na produ\u00e7\u00e3o das vacinas. Tamb\u00e9m afirmam que a quebra de patentes ir\u00e1 desencorajar futuros investimentos. A jornalista Valentina Lares explicava, num artigo no portal Persuasion, que enquanto os pa\u00edses ricos continuam acumulando vacinas sem as distribuir, a R\u00fassia prossegue a sua \u00abdiplomacia de Sputnik\u00bb: sem que ningu\u00e9m lesse muito sobre a not\u00edcia, a Argentina tornou-se o primeiro pa\u00eds da Am\u00e9rica do Sul a produzir a vacina russa. A Uni\u00e3o Africana confirma ter recebido a oferta de 300 milh\u00f5es de doses da R\u00fassia, que tamb\u00e9m j\u00e1 assinou acordos para produzir milh\u00f5es de doses da Sputnik na China, no Brasil, Ir\u00e3 e na S\u00e9rvia.<\/p>\n<p>De regresso ao Reino Unido, espera-se que os passaportes Covid estejam prontos a partir de 17 de maio (menos de um m\u00eas), para brit\u00e2nicos com smartphone poderem viajar \u00e0 vontade. Provavelmente para pa\u00edses tropicais em resorts de luxo, onde n\u00e3o ter\u00e3o qualquer contacto com pessoas infectadas ou que ainda n\u00e3o foram vacinadas. O Ocidente soube sempre aproveitar uma crise com oportunidade: o apartheid das vacinas n\u00e3o surgiu no vazio, j\u00e1 antes havia apartheid econ\u00f4mico e social, dos pa\u00edses ricos a norte a viajar para o sul global para curtir praias e caipirinhas ao lado de cidad\u00e3os que vivem abaixo do limiar da pobreza. Tamb\u00e9m era assim no s\u00e9culo XIX: um passaporte brit\u00e2nico era mais valioso do que qualquer outro, e o sol nunca se punha naquele grande imp\u00e9rio que agora foi recuperado com o Brexit.<\/p>\n<p>O (neo)colonialismo \u00e9 um v\u00edrus, tomou conta do mundo como uma pandemia, e manifesta-se e propaga-se, incessante. Onde houver recursos, a m\u00e3o invis\u00edvel do \u00abprogresso\u00bb estar\u00e1 l\u00e1.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27202\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9],"tags":[228],"class_list":["post-27202","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional","tag-5b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-74K","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27202","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27202"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27202\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27202"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27202"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27202"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}