{"id":27206,"date":"2021-04-29T23:54:13","date_gmt":"2021-04-30T02:54:13","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27206"},"modified":"2021-05-05T23:07:10","modified_gmt":"2021-05-06T02:07:10","slug":"mpf-denuncia-assassinos-de-elson-costa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27206","title":{"rendered":"MPF denuncia assassinos de Elson Costa"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/comissaodaverdade.al.sp.gov.br\/upload\/elson-costa.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Jornal O Poder Popular<\/p>\n<p>Conforme divulgado pela grande imprensa, o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal em S\u00e3o Paulo apresentou nova den\u00fancia contra os ex-agentes da ditadura Audir Santos Maciel e Carlos Setembrino da Silveira pelo assassinato de Elson Costa, membro do Comit\u00ea Central do PCB (Partido Comunista Brasileiro), em 1975, na chamada Casa de Itapevi, localizada na regi\u00e3o metropolitana do Estado, onde funcionava um dos centros clandestinos da repress\u00e3o, para onde foram encaminhados, torturados e mortos diversos militantes presos na Opera\u00e7\u00e3o Radar, a ofensiva contra o PCB desencadeada pelo DOI-Codi do II Ex\u00e9rcito e ao CIE (Centro de Informa\u00e7\u00f5es do Ex\u00e9rcito).<\/p>\n<p>Al\u00e9m de Elson Costa, ali foram assassinados, entre os anos de 1974 e 1975, os membros do Comit\u00ea Central Lu\u00eds In\u00e1cio Maranh\u00e3o Filho, Jo\u00e3o Massena Melo, Hiram de Lima Pereira, Jayme Amorim de Miranda, Itair Jos\u00e9 Veloso, Orlando da Silva Rosa Bonfim J\u00fanior, assim como Jos\u00e9 Montenegro de Lima, respons\u00e1vel pela organiza\u00e7\u00e3o da Juventude Comunista. Os corpos de todos eles est\u00e3o at\u00e9 hoje desaparecidos. Segundo reportagem de Carta Capital de 08\/04\/2014, dentre os militares respons\u00e1veis pelo funcionamento da Casa de Itapevi estavam o tenente-coronel de artilharia Audir Santos Maciel (o Dr. Silva, um dos acusados pelo MPF), o major Andr\u00e9 Pereira Leite Filho (Dr. Edgar) e o cabo F\u00e9lix Freire Dias (conhecido como Dr. Magno ou Dr. Magro) *.<\/p>\n<p>Os ex-agentes Audir Maciel e Carlos Setembrino s\u00e3o acusados de homic\u00eddio duplamente qualificado e oculta\u00e7\u00e3o do cad\u00e1ver de \u00c9lson Costa. O MPF denuncia ainda o uso de tortura, persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, abuso de poder e viola\u00e7\u00e3o do dever inerente aos cargos que ocupavam, fatores agravantes para a condena\u00e7\u00e3o dos acusados. H\u00e1 ainda o pedido de cancelamento das aposentadorias recebidas atualmente, assim como de condecora\u00e7\u00f5es com que foram agraciados por sua atua\u00e7\u00e3o durante a ditadura. Os agentes da repress\u00e3o mantiveram Elson Costa &#8220;sob intensa tortura&#8221; ao longo de 20 dias no centro clandestino de Itapevi. O corpo de \u00c9lson, a exemplo do que ocorreu tamb\u00e9m com os demais dirigentes do PCB assassinados pela repress\u00e3o, foi incinerado, esquartejado e lan\u00e7ado no Rio Novo, no munic\u00edpio de Avar\u00e9.<\/p>\n<p>Maciel comandava o DOI-Codi (Destacamento de Opera\u00e7\u00f5es de Informa\u00e7\u00e3o &#8211; Centro de Opera\u00e7\u00f5es de Defesa Interna) do II Ex\u00e9rcito, uma das unidades que coordenavam a persegui\u00e7\u00e3o aos comunistas. Carlos Setembrino, por sua vez, integrava a equipe de buscas do DOI-Codi sob a chefia do capit\u00e3o Dalmo Cirillo e era um dos respons\u00e1veis pelo funcionamento da Casa de Itapevi. O im\u00f3vel pertencia a seu irm\u00e3o e estava localizado numa \u00e1rea afastada, sem vizinhos que pudessem testemunhar as atrocidades cometidas pelos agentes da repress\u00e3o.<\/p>\n<p>As circunst\u00e2ncias da morte de Elson s\u00e3o comprovadas por documentos do Ex\u00e9rcito e pelo depoimento do ex-analista de informa\u00e7\u00f5es do DOI-Codi Marival Dias Chaves do Canto, o qual, em 1992, revelou detalhes sobre os crimes cometidos em Itapevi. O desaparecimento de dirigentes do PCB, por meio de sequestros, tortura e assassinato, foi a t\u00e1tica utilizada pelos militares para atacar o PCB, que n\u00e3o aderiu \u00e0 luta armada e buscava organizar a resist\u00eancia ao regime ditatorial atuando por dentro dos movimentos sociais e influindo na pol\u00edtica institucional, principalmente junto ao MDB, que acabou se tornando o partido de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura. N\u00e3o havendo possibilidade de forjar vers\u00f5es oficiais envolvendo &#8220;confrontos&#8221; e &#8220;trocas de tiros&#8221; com os comunistas, a exemplo do que foi feito para massacrar os militantes das organiza\u00e7\u00f5es de luta armada, os \u00f3rg\u00e3os da repress\u00e3o adotaram as a\u00e7\u00f5es clandestinas para prender e assassinar os dirigentes do PCB.<\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal destaca que a morte de Elson Costa constitui crime de lesa humanidade, portanto, n\u00e3o prescreve e \u00e9 impass\u00edvel de anistia, uma vez que foi resultante de um ataque sistem\u00e1tico e generalizado do Estado brasileiro contra a popula\u00e7\u00e3o brasileira. O massacre promovido pelo DOI-Codi e demais \u00f3rg\u00e3os repressores teve o aval do ditador Ernesto Geisel, o que ficou comprovado por relat\u00f3rio assinado pelo ent\u00e3o diretor da CIA William Colby, dirigido ao Secret\u00e1rio de Estado Henry Kissinger, documento desclassificado que relata de maneira cristalina como a c\u00fapula militar brasileira n\u00e3o s\u00f3 tinha conhecimento da barb\u00e1rie que ocorria nos por\u00f5es da ditadura, como tamb\u00e9m autorizava o assassinato dos militantes que consideravam perigosos para a ordem ditatorial.<\/p>\n<p>Camarada Elson Costa, presente!<br \/>\nElson Costa nasceu em 26 de agosto de 1913, na cidade de Prata, Minas Gerais. Foi militante do Partido Comunista (PCB) desde os 17 anos at\u00e9 completar 61 anos, idade que tinha quando foi sequestrado por agentes da ditadura. Iniciou sua milit\u00e2ncia em Uberl\u00e2ndia, onde liderou uma greve de caminhoneiros. Trabalhou na divulga\u00e7\u00e3o do jornal A Classe Oper\u00e1ria, integrou o Comit\u00ea Central e era o respons\u00e1vel pelo setor de Agita\u00e7\u00e3o e Propaganda quando foi preso em 1975. Como indicou o seu sobrinho Jos\u00e9 Miguel em depoimento \u00e0 Comiss\u00e3o da Verdade do Estado de S\u00e3o Paulo, desde os anos do Estado Novo, Elson j\u00e1 atravessara per\u00edodos de pris\u00f5es e torturas pelo aparato repressivo do Estado.<\/p>\n<p>Com o golpe de 1964, teve seus direitos pol\u00edticos cassados e passou a atuar na clandestinidade com outro nome. Em 1966, foi condenado a dois anos de reclus\u00e3o pela Justi\u00e7a Militar. Cumpriu a pena em Curitiba e, ap\u00f3s ser solto, voltou \u00e0 clandestinidade. Na manh\u00e3 do dia 15 de janeiro de 1975, foi preso no bar ao lado de sua casa, onde tinha ido tomar caf\u00e9. Alguns vizinhos tentaram protestar contra a ordem de pris\u00e3o dada por seis homens que chegaram numa veraneio, pois, para eles, quem estava sendo preso era o aposentado Manoel de Souza Gomes, que vivia na Rua Timbiras, 199, bairro de Santo Amaro, em S\u00e3o Paulo. O crime foi noticiado como tendo sido o sequestro de um rico comerciante da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Elson foi levado para o centro clandestino da repress\u00e3o ligado ao DOI-Codi\/SP, onde foi submetido a todo tipo de tortura. Seu corpo foi banhado em \u00e1lcool, queimado e afogado no rio Avar\u00e9, segundo os depoimentos prestados \u00e0 revista VEJA, em 18\/11\/1992, por Marival Dias Chaves do Canto, ex-sargento e agente dos \u00f3rg\u00e3os de informa\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito, que relatou terr\u00edveis e esclarecedores fatos sobre a barb\u00e1rie cometida nos por\u00f5es da ditadura. Segundo ele, um dos centros clandestinos usados para execu\u00e7\u00f5es foi uma casa onde funcionava antes a boate Querosene, alugada pelo Ex\u00e9rcito durante dois anos na cidade de Itapevi, munic\u00edpio da Grande S\u00e3o Paulo. A boate foi transformada em centro de torturas e assassinatos, por onde passaram militantes do PCB cujos corpos foram depois jogados num rio, sob a ponte localizada na estrada que liga Avar\u00e9, no interior de S\u00e3o Paulo, \u00e0 Rodovia Castelo Branco. Nas palavras do ex-agente, \u201cexiste ali um cemit\u00e9rio debaixo d\u2019\u00e1gua\u201d.<\/p>\n<p>O camarada Dinarco Reis Filho lembra quando conheceu Elson Costa:<\/p>\n<p>\u201cMeu pai, Dinarco Reis, tinha recebido a tarefa do Partido para, junto com Elson Costa e Orlando Bonfim, organizar o jornal Tribuna do Povo em Belo Horizonte. Elson me chamou a aten\u00e7\u00e3o pelo modo de vestir, com o palet\u00f3 pendurado no dedo da m\u00e3o esquerda e jogado por cima do ombro, de camisa social de punho duplo, sem abotoadura. Na sua casa fomos apresentados a uma das figuras mais meigas que conheci, que falava baixo e manso, sua esposa Agla\u00e9. Ela o chamava pelo apelido carinhoso de Man\u00e9, com o qual passamos tamb\u00e9m a cham\u00e1-lo. A \u00faltima vez que o vi foi quando eu tinha marcado um encontro com um membro do Partido na Petrobras. O Elson apareceu e me disse que tinha um encontro com um camarada, que estava com pouco dinheiro e n\u00e3o tinha lugar para dormir. Depois de encontrar o petroleiro, dei ao \u2018Man\u00e9\u2019 parte da grana e a chave do meu apartamento em Niter\u00f3i. Depois fiquei sabendo de sua pris\u00e3o atrav\u00e9s do meu pai. Sabia que iriam desaparecer com ele, como j\u00e1 tinham feito com outros presos da ditadura.\u201d<\/p>\n<p>* Leia mais sobre a Casa de Itapevi, centro clandestino de tortura e morte da ditadura, em https:\/\/www.cartacapital.com.br\/sociedade\/antigo-centro-de-tortura-clandestino-casa-de-itapevi-abriga-duas-familias-3043\/.<\/p>\n<p>Sobre a nova den\u00fancia do MPF de S\u00e3o Paulo, conferir: https:\/\/noticias.uol.com.br\/politica\/ultimas-noticias\/2021\/04\/26\/mpf-pcb-acusacao-ditadura.htm<\/p>\n<p>Sobre a pol\u00edtica de exterm\u00ednio da ditadura contra o PCB, saiba mais em https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25225\/a-politica-de-exterminio-da-ditadura\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27206\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[365,53],"tags":[223],"class_list":["post-27206","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-centenario-do-pcb","category-c64-ditadura","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-74O","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27206","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27206"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27206\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27206"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27206"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27206"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}