{"id":27242,"date":"2021-05-06T21:52:54","date_gmt":"2021-05-07T00:52:54","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27242"},"modified":"2021-05-06T21:52:54","modified_gmt":"2021-05-07T00:52:54","slug":"o-apartheid-israelense-e-a-negacao-do-povo-palestino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27242","title":{"rendered":"O apartheid israelense e a nega\u00e7\u00e3o do povo palestino"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cdn.elwatannews.com\/watan\/543x295\/17193967551441131081.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->FEMCAI<\/p>\n<p>Alan Marques e Juliana S.<br \/>\nComiss\u00e3o de Assuntos e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da Uni\u00e3o da Juventude Comunista (UJC)<\/p>\n<p>No dia 15 de setembro de 2020, os tabloides internacionais voltaram-se para assinatura de um acordo, colocado como \u201chist\u00f3rico\u201d, de normaliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es dos Emirados \u00c1rabes Unidos (EAU) e Bahrein com o Estado de Israel. Mais tarde, no mesmo ano, o Sud\u00e3o e o Marrocos seguiram o mesmo caminho. Esses acordos de normaliza\u00e7\u00e3o, oficialmente conhecidos como Acordos de Abra\u00e3o 1, integram uma empreitada internacional do governo Trump em \u201cconstruir a paz no Oriente M\u00e9dio\u201d, por meio do denominado \u201cAcordo do S\u00e9culo\u201d, mesmo projeto que visa estender os assentamentos ilegais nos Territ\u00f3rios Palestinos Ocupados, propondo, na pr\u00e1tica, um plano de Anexa\u00e7\u00e3o de jure \u00e0 Cisjord\u00e2nia.<\/p>\n<p>A escolha do nome do acordo como \u201cAcordos de Abra\u00e3o\u201d remonta a uma figura prof\u00e9tica do juda\u00edsmo, do islamismo e do cristianismo, em uma tentativa imperialista de enquadrar o \u201cconflito\u201d entre Israel e os pa\u00edses \u00e1rabes como um conflito religioso e o acordo diplom\u00e1tico como uma declara\u00e7\u00e3o de paz e concilia\u00e7\u00e3o entre mu\u00e7ulmanos e judeus:<\/p>\n<p>Reconhecendo que os povos \u00e1rabe e judeu s\u00e3o descendentes de um ancestral comum, Abr\u00e3ao, e inspirados, neste esp\u00edrito, a promover no Oriente M\u00e9dio uma realidade na qual mu\u00e7ulmanos, judeus, crist\u00e3os e povos de todas as f\u00e9s, denomina\u00e7\u00f5es, cren\u00e7as e nacionalidades vivam e estejam comprometidos com um esp\u00edrito de coexist\u00eancia, compreens\u00e3o m\u00fatua e respeito m\u00fatuo.2<\/p>\n<p>Entretanto, \u00e9 preciso rememorar que tais pa\u00edses n\u00e3o se encontravam em guerra para necessitar de um acordo de paz. O que era preciso, no entanto, era tornar p\u00fablico aquilo que j\u00e1 acontecia por baixo dos panos: a inger\u00eancia estadunidense na perpetua\u00e7\u00e3o dos crimes contra a humanidade cometidos pelo Estado de Israel e no controle pol\u00edtico, econ\u00f4mico e militar de ambos no Oriente M\u00e9dio, seja pela via de acordos diplom\u00e1ticos, seja pelas invas\u00f5es e ocupa\u00e7\u00f5es militares.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio da novidade que esses acordos aparentam, o plano de isolamento dopovo palestino das possibilidades diplom\u00e1ticas de constru\u00e7\u00e3o de seu pr\u00f3prio Estado, assimcomo o isolamento de outros pa\u00edses \u00e1rabes e aliados \u00e0 causa palestina, \u00e9 colocado em pr\u00e1tica por Israel e seu aliado imperialista, os Estados Unidos, h\u00e1 muito tempo. Subsiste um passado de normaliza\u00e7\u00e3o do apartheid israelense e do processo de limpeza \u00e9tnica da Palestina que remonta, em termos legais, \u00e0 normaliza\u00e7\u00e3o do regime isralense com o Egito, em 1979, e com a Jord\u00e2nia, em 1994.<\/p>\n<p>\u00c9 de se notar que, num per\u00edodo de 72 anos (desde a cria\u00e7\u00e3o do Estado de Israel, em 1948, at\u00e9 2020, quando foram assinados os Acordos de Abra\u00e3o), somente dois pa\u00edses haviam normalizado suas rela\u00e7\u00f5es com Israel. Essa observa\u00e7\u00e3o pontual torna ainda mais not\u00e1vel que, em pouco mais de tr\u00eas meses (entre setembro e dezembro de 2020), mais quatro pa\u00edses entraram para essa lista, que deu um salto para um total de seis pa\u00edses. Mas, feitas as observa\u00e7\u00f5es pontuais, algumas quest\u00f5es permanecem e \u00e9 necess\u00e1rio que sejam apreciadas: qual o interesse dos Estados Unidos com sua pol\u00edtica de inger\u00eancia na regi\u00e3o do Oriente M\u00e9dio, de uma maneira geral, e na quest\u00e3o da Palestina, mais especificamente? Quais s\u00e3o os ganhos providenciados pelos Acordos de Abra\u00e3o, tanto para Israel como para os pa\u00edses \u00e1rabes em quest\u00e3o (EAU, Bahrein, Sud\u00e3o e Marrocos)? Em que a assinatura desses acordos impactam, direta e indiretamente, a luta do povo palestino, sua resist\u00eancia contra a ocupa\u00e7\u00e3o sionista e o exerc\u00edcio de seu direito de autodetermina\u00e7\u00e3o, com a cria\u00e7\u00e3o de um Estado palestino soberano e independente?<\/p>\n<p>O imperialismo estadunidense e sua inger\u00eancia no Oriente M\u00e9dio<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que, desde sua cria\u00e7\u00e3o, em 1948, o Estado de Israel tem se firmado como grande aliado econ\u00f4mico, militar e estrat\u00e9gico dos Estados Unidos &#8211; em alguns momentos mais, noutros menos, mas sempre aliados. N\u00e3o \u00e0 toa, em momentos-chave da hist\u00f3ria de Israel houve tamb\u00e9m a participa\u00e7\u00e3o e o apoio decisivo dos Estados Unidos: seja na assinatura dos acordos de paz com pa\u00edses \u00e1rabes, como j\u00e1 mencionamos, ou em ofensivas armadas, como as guerras de junho de 1967 e de outubro de 1973. Nos Estados Unidos, o lobby pr\u00f3-israelense \u00e9 intenso nos meios de comunica\u00e7\u00e3o e institui\u00e7\u00f5es de pesquisa e exerce influ\u00eancia sobre as disputas eleitorais no pa\u00eds. A quest\u00e3o \u00e9 que, durante a gest\u00e3o de Trump, houve um aprofundamento do apoio estadunidense \u00e0s causas sionistas de Israel: 1) a transfer\u00eancia da embaixada estadunidense a Jerusal\u00e9m (3), aprofundando o controle israelense sobre os palestinos que vivem dentro das fronteiras; 2) a apresenta\u00e7\u00e3o do plano denominado de \u201cAcordo do S\u00e9culo\u201d, supostamente um caminho para a paz no Oriente M\u00e9dio, que nunca foi dialogado com o povo palestino (4); 3) a anexa\u00e7\u00e3o de jure da Cisjord\u00e2nia, cerca de 30% dos Territ\u00f3rios Palestinos Ocupados, como parte deste Acordo, um projeto claramente ilegal (5); 4) a visita do Secret\u00e1rio de Estado, Mike Pompeo, \u00e0 Cisjord\u00e2nia, como maneira de legitima\u00e7\u00e3o dos assentamentos ilegais em territ\u00f3rio palestino (6); entre outras atitudes. Portanto, os Acordos de Abra\u00e3o e os esfor\u00e7os estadunidenses de normaliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es bilaterais entre Israel e os pa\u00edses \u00e1rabes s\u00e3o parte deste conjunto de pol\u00edticas externas do governo Trump, que tamb\u00e9m podem ser entendidas como parte da campanha eleitoral de Trump para o pleito de 2020.<\/p>\n<p>Anteriormente, buscava-se, ainda que de maneira extremamente question\u00e1vel, uma certa parcela de igualdade de condi\u00e7\u00f5es na condu\u00e7\u00e3o e delibera\u00e7\u00e3o dos acordos em torno da quest\u00e3o palestina, como nos Acordos de Oslo, uma s\u00e9rie de decis\u00f5es duplamente acordadas pelo Estado de Israel e pela Organiza\u00e7\u00e3o pela Liberta\u00e7\u00e3o Palestina (OLP) (7). O que observamos, no Acordo do S\u00e9culo, \u00e9 uma imposi\u00e7\u00e3o unilateral dos Estados Unidos, sem di\u00e1logo com a Autoridade Palestina ou qualquer outra organiza\u00e7\u00e3o palestina, sendo apresentada com a presen\u00e7a do primeiro-ministro israelense e de figuras centrais para o Estado de Israel.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o legado da administra\u00e7\u00e3o Trump: o aprofundamento da hist\u00f3ria de trai\u00e7\u00e3o da causa palestina por parte das lideran\u00e7as de alguns pa\u00edses \u00e1rabes. As burguesias e lideran\u00e7as pol\u00edticas no comando destes pa\u00edses colocam os seus interesses econ\u00f4micos e pol\u00edticos acima dos interesses palestinos e dos interesses de classe do seu pr\u00f3prio pa\u00eds. E, junto a isto, os Estados Unidos seguem sendo os grandes advogados de Israel, com Trump elevando tal t\u00edtulo a novos n\u00edveis. Mas n\u00e3o podemos nos iludir com Joe Biden, Kamala Harris ou Antony Blinken, afinal, a nova gest\u00e3o j\u00e1 declarou que manter\u00e1 o reconhecimento de Jerusal\u00e9m como capital de Israel (8) e se colocar\u00e1 em defesa de Israel frente \u00e0 possibilidade de investiga\u00e7\u00e3o de crimes de guerra nos Territ\u00f3rios Palestinos Ocupados, pelo Tribunal Penal Internacional (9) . Sobre os Acordos, o pronunciamento de Biden foi de apoio:<\/p>\n<p>\u00c9 bom ver outros do Oriente M\u00e9dio reconhecendo Israel e mesmo acolhendo-o como seu parceiro.[&#8230;] Uma administra\u00e7\u00e3o Biden-Harris ir\u00e1 construir nestes passos, desafiar outras na\u00e7\u00f5es a manter o ritmo e trabalhar para alavancar esses la\u00e7os crescentes no progresso rumo a uma solu\u00e7\u00e3o de dois Estados e uma regi\u00e3o mais est\u00e1vel e pac\u00edfica. (10)<\/p>\n<p>N\u00e3o seria pretensioso, muito menos errado afirmar que esses acordos de normaliza\u00e7\u00e3o reiteram uma posi\u00e7\u00e3o de controle estrat\u00e9gico dos Estados Unidos sobre o Oriente M\u00e9dio. Para al\u00e9m da quest\u00e3o palestina, os Acordos de Abra\u00e3o significam tamb\u00e9m a unidade e o fortalecimento dos EUA, de Israel e dos pa\u00edses \u00e1rabes alinhados ao imperialismo estadunidense frente a um inimigo comum: o Ir\u00e3. Tanto Trump como seus aliados, a exemplo de Netanyahu, se sentiam amea\u00e7ados pela posi\u00e7\u00e3o do pa\u00eds persa na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, Trump, em decis\u00e3o unilateral, retirou os Estados Unidos do Plano de A\u00e7\u00e3o Conjunto Global (JCPOA, na sigla em ingl\u00eas) (11), em 2018, retomando as san\u00e7\u00f5es contra o pa\u00eds persa. A esta movimenta\u00e7\u00e3o o Ir\u00e3 respondeu abandonando gradualmente seus compromissos com o Acordo. Por outro lado, apesar das indefini\u00e7\u00f5es neste in\u00edcio de mandato, Biden tem sinalizado algum interesse em retomar o JCPOA, embora n\u00e3o tenha ainda levantado as san\u00e7\u00f5es reimpostas ao Ir\u00e3 desde 2018. Autoridades israelenses como Netanyahu e Benny Gantz, por sua vez, t\u00eam se mostrado incomodadas com a possibilidade de retorno dos EUA ao JCPOA, declarando que, neste caso, Israel dever\u00e1 dar fim ao programa nuclear do Ir\u00e3. Por fim, Ar\u00e1bia Saudita e Bahrein romperam suas rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas com o Ir\u00e3 desde janeiro de 2016, ap\u00f3s incidentes entre o reino saudita e o pa\u00eds persa. Quanto aos Emirados \u00c1rabes Unidos, estes \u201canunciaram o rebaixamento de suas rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas com o Ir\u00e3 para o n\u00edvel de encarregado de neg\u00f3cios, al\u00e9m da redu\u00e7\u00e3o do n\u00famero de diplomatas iranianos no pa\u00eds\u201d (12). Vale lembrar que o Ir\u00e3 repudiou a assinatura dos Acordos de Abra\u00e3o.<\/p>\n<p>Por parte das autoridades estadunidenses, h\u00e1 expectativas sobre a possibilidade de expans\u00e3o desses acordos para mais pa\u00edses \u00e1rabes. Por exemplo, o Qatar (13), que j\u00e1 tem diversas bases militares estadunidenses (14), pode ser um desses pa\u00edses; como tamb\u00e9m a Ar\u00e1bia Saudita, que j\u00e1 possui um hist\u00f3rico de colabora\u00e7\u00f5es com os Estados Unidos (a exemplo do fornecimento de material b\u00e9lico \u00e0 coaliz\u00e3o liderada pelo reino saudita contra os houthis no I\u00eamen) e cujo pr\u00edncipe, Mohammed bin Salman, encontrou-se secretamente com Netanyahu em novembro de 2020 (15) e ter-se-ia encontrado tamb\u00e9m em mar\u00e7o deste ano (16). Os Emirados \u00c1rabes Unidos, al\u00e9m disso, j\u00e1 mantinham rela\u00e7\u00f5es comerciais com o Egito, pa\u00eds com rela\u00e7\u00f5es normalizadas com Israel e territ\u00f3rio de diversas bases dos EUA, al\u00e9m de terem declarado apoio a ataques imperialistas (17) na regi\u00e3o. O mesmo se d\u00e1 no Bahrein que, j\u00e1 em 2019, mesmo antes da normaliza\u00e7\u00e3o, j\u00e1 declarava apoio ao suposto direito de defesa israelense.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio acordo disp\u00f5e em seus termos uma agenda estrat\u00e9gica para o Oriente M\u00e9dio, a qual ser\u00e1 desenvolvida e lan\u00e7ada em conjunto com os Estados Unidos, e n\u00e3o somente entre os pa\u00edses do Oriente M\u00e9dio, para expandir \u201crela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas, com\u00e9rcio, estabilidade e outras cooperac\u00f5es\u201d. Na m\u00eddia hegem\u00f4nica, assim, os acordos de \u201cpaz e estabilidade\u201d do Oriente M\u00e9dio s\u00e3o narrados como frutos do sucesso da perseveran\u00e7a dos Estados Unidos. Desenvolvem-se como a grande pot\u00eancia que n\u00e3o pretende nada al\u00e9m da paz mundial. Entretanto, observando os termos desse acordo, quais s\u00e3o os reais interesses em jogo?<\/p>\n<p>Termos dos Acordos de Abra\u00e3o<\/p>\n<p>No dia 13 de agosto de 2020, Trump anunciava em sua conta oficial no Twitter o \u201cacordo de paz\u201d entre seus \u201cdois grandes amigos, Israel e Emirados \u00c1rabes Unidos\u201d. Dez dias depois, o ent\u00e3o secret\u00e1rio de Estado dos EUA, Mike Pompeo, iniciaria uma s\u00e9rie de visitas a pa\u00edses da \u00c1frica e do Oriente M\u00e9dio, cujos resultados seriam conhecidos em breve. No dia 11 de setembro, Trump anunciava, mais uma vez em sua conta oficial no Twitter, desta vez o acordo de paz entre seus \u201cdois grandes amigos, Israel e o Reino de Bahrein\u201d. Finalmente, em 15 de setembro, Israel, Emirados \u00c1rabes Unidos e Bahrein assinaram oficialmente os Acordos de Abra\u00e3o nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Considerando as amea\u00e7as feitas por Netanyahu de que a partir de julho de 2020 se daria a anexa\u00e7\u00e3o de jure dos territ\u00f3rios palestinos ocupados ilegalmente, uma das principais \u201cconcess\u00f5es\u201d de Israel foi a promessa, \u201cgarantida\u201d aos EAU pelos Estados Unidos (mesmo n\u00e3o havendo a certeza de que Trump se manteria na presid\u00eancia, como de fato n\u00e3o se manteve) de que os planos anexionistas seriam interrompidos pelo menos at\u00e9 2024 (18) &#8211; n\u00e3o obstante os apelos da Autoridade Palestina contra a assinatura do acordo.<\/p>\n<p>Apesar das obje\u00e7\u00f5es iniciais de Israel, os Estados Unidos assinaram ainda o contrato de venda de ca\u00e7as F-35 aos Emirados \u00c1rabes Unidos, no final de 2020, ainda sob a administra\u00e7\u00e3o Trump (19). Por fim, no mesmo per\u00edodo em que era anunciada a normaliza\u00e7\u00e3o entre Israel e Emirados \u00c1rabes Unidos, tamb\u00e9m se noticiava que os dois pa\u00edses planejavam instalar bases de espionagem juntos no I\u00eamen (20). Ao mesmo tempo, a condi\u00e7\u00e3o que o Bahrein exigia, num primeiro momento, para normalizar as rela\u00e7\u00f5es com Israel era o cumprimento da solu\u00e7\u00e3o de dois Estados, mas os pa\u00edses assinaram o acordo sem que a solu\u00e7\u00e3o tenha sido contemplada. Mas de que tratam, especificamente, os termos dos acordos?<\/p>\n<p>Consta na declara\u00e7\u00e3o de 15 de setembro: &#8220;N\u00f3s encorajamos os esfor\u00e7os para promover um di\u00e1logo inter-religioso e intercultural para fazer avan\u00e7ar uma cultura de paz entre as tr\u00eas religi\u00f5es abra\u00e2micas e toda a humanidade&#8221;. Com isso, observamos a justificativa mais evidente e recorrentemente presente nos discursos e pronunciamentos: o esfor\u00e7o dos Estados Unidos, em conjunto com Israel, para promover, de uma vez por todas, a paz na humanidade e, principalmente, com os povos da regi\u00e3o. Assim, a narrativa ideol\u00f3gica presente nos Acordos evidencia esse esfor\u00e7o em colocar essas movimenta\u00e7\u00f5es como a paz entre os povos e as religi\u00f5es e os conflitos existentes at\u00e9 ent\u00e3o como frutos de uma intoler\u00e2ncia e falta de di\u00e1logo, e n\u00e3o como um projeto imperialista e colonialista para a regi\u00e3o. Esse discurso de di\u00e1logo camufla os discursos colonialistas em rela\u00e7\u00e3o ao povo \u00e1rabe, colocado como atrasado e preso ao passado, colocando o acordo como uma \u201cvis\u00e3o para o futuro\u201d (21). Mas que futuro seria esse?<\/p>\n<p>A partir dessa justificativa ideol\u00f3gica, percebe-se que os termos do acordo levam a diversas consequ\u00eancias de ordem material, econ\u00f4mica e pol\u00edtica. A coopera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica crescente entre estes pa\u00edses \u00e9 a consequ\u00eancia mais imediata deste Acordo, que mant\u00e9m e estreita tais rela\u00e7\u00f5es comerciais, deixando claro quem s\u00e3o os reais benefici\u00e1rios desses acordos: os interesses econ\u00f4micos das burguesias locais e internacionais, sendo as primeiras insepar\u00e1veis da segunda. As partes envolvidas no Acordo se comprometeram a aprofundar e expandir as suas rela\u00e7\u00f5es bilaterais, com prioridade na esfera financeira e de investimentos, com a justificativa de desenvolvimento econ\u00f4mico dos pa\u00edses e do Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n<p>Assim, vemos o capital financeiro agindo, por meio das representa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas destes Estados e, obviamente, com o grande protocolador desse Acordo, os Estados Unidos para expandir os seus monop\u00f3lios e controle financeiro em uma maior gama de pa\u00edses, agora do Oriente M\u00e9dio. Os pa\u00edses signat\u00e1rios ter\u00e3o que se comprometer com a prote\u00e7\u00e3o dos investidores externos em sua economia nacional, al\u00e9m da estabilidade financeira e integridade do mercado, por meio da manuten\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es de regula\u00e7\u00e3o. Como forma de garantir esses acordos comerciais, \u00e9 necess\u00e1rio, ent\u00e3o, estabelecer a \u201cpaz no Oriente M\u00e9dio\u201d. Logo, os Acordos de Abra\u00e3o prev\u00eaem as contrapartidas diplom\u00e1ticas, como o estabelecimento das embaixadas e a normaliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es bilaterais.<\/p>\n<p>As consequ\u00eancias para o Povo Palestino<\/p>\n<p>J\u00e1 pontuamos como a justificativa ideol\u00f3gica desses acordos como uma declara\u00e7\u00e3o de paz parte de uma tentativa de enquadrar a quest\u00e3o Palestina como um \u201cconflito \u00e1rabe-judeu\u201d. Em contrapartida, apesar das promessas dos representantes dos pa\u00edses \u00e1rabes dos Acordos de Abra\u00e3o n\u00e3o serem um indicativo de abandono da luta pela constru\u00e7\u00e3o de um Estado Palestino, o povo palestino n\u00e3o \u00e9 sequer mencionado pelas lideran\u00e7as israelenses e estadunidenses nos pronunciamentos oficiais e muito menos nos documentos oficiais assinados por ambas as partes (22). A pr\u00f3pria Autoridade Palestina e outras organiza\u00e7\u00f5es palestinas condenaram veementemente os acordos, por serem a materializa\u00e7\u00e3o do abandono da causa palestina (23).<\/p>\n<p>Reitera-se, portanto, Israel como uma grande m\u00e1quina de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas que, a cada dia, faz crescer sua influ\u00eancia e dom\u00ednio sobre os pa\u00edses \u00e1rabes da regi\u00e3o, com os interesses palestinos sendo sacrificados por aqueles que no discurso se dizem aliados, mas, na pr\u00e1tica, d\u00e3o a \u201cautonomia\u201d para o povo palestino viver num suposto Estado que n\u00e3o \u00e9 nada mais do que uma jun\u00e7\u00e3o de ilhas espalhadas sob seu pr\u00f3prio territ\u00f3rio sob comando e vigili\u00e2ncia militar israelense.<\/p>\n<p>Sabemos que o que ocorre n\u00e3o \u00e9 um conflito entre os judeus e os palestinos, muito menos uma guerra de Israel com o Bahrein, os EAU, o Sud\u00e3o e o Marrocos. O que se normaliza, neste caso, \u00e9 um projeto de ocupa\u00e7\u00e3o, coloniza\u00e7\u00e3o e apartheid (24). Normaliza-se a pris\u00e3o de crian\u00e7as, a ocupa\u00e7\u00e3o ilegal dos territ\u00f3rios palestinos ocupados, o cerco desumano \u00e0 Gaza e todas as outras viola\u00e7\u00f5es di\u00e1rias dos direitos fundamentais do palestino e de qualquer povo. Israel, para al\u00e9m de todos os interesses pol\u00edticos, econ\u00f4micos e militares com esses acordos, busca a aceita\u00e7\u00e3o desses pa\u00edses, como forma de ampliar a sua narrativa, j\u00e1 hegem\u00f4nica no mundo Ocidental, de grande pa\u00eds democr\u00e1tico, conciliador, preocupado com a paz entre os povos. A paz que o povo palestino e todos os povos oprimidos pelos interesses imperialistas na regi\u00e3o precisam \u00e9 a responsabiliza\u00e7\u00e3o de Israel por seus crimes e a constru\u00e7\u00e3o de uma Palestina livre, soberana e emancipada.<\/p>\n<p>A tarefa da Juventude Comunista para a Causa Palestina<\/p>\n<p>O futuro da quest\u00e3o palestina n\u00e3o depender\u00e1, portanto, das a\u00e7\u00f5es das classes dominantes dos pa\u00edses \u00e1rabes ou das movimenta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas das representa\u00e7\u00f5es nacionais e internacionais. A causa palestina continuar\u00e1 viva, como permanece h\u00e1 mais de 100 anos, por meio da internacionaliza\u00e7\u00e3o de nossas lutas e o apoio dos mais diversos povos e lutadores sociais ao povo palestino.<\/p>\n<p>Parte essencial de ser um militante comunista \u00e9 entender-se n\u00e3o como um militante isolado de uma causa particular, mas como um militante internacionalista, comprometido com as lutas populares de todo o mundo e as suas express\u00f5es particulares em seu pa\u00eds e em seu cotidiano. N\u00e3o conseguimos nos dizer comunistas se somos insens\u00edveis \u00e0 luta de outros povos ao redor do mundo. N\u00e3o conseguimos, portanto, nos dizer comunistas se somos insens\u00edveis a luta do povo palestino ou se n\u00e3o nos debru\u00e7amos na tarefa hist\u00f3rica de uma Juventude Comunista em se solidarizar com os trabalhadores e as trabalhadoras palestinas que lutam pelo fim do colonialismo e do imperialismo em suas terras.<\/p>\n<p>Em 2021, completa-se 73 anos da Nakba, a cat\u00e1strofe palestina, que continua se perpetuando no cotidiano dos palestinos e palestinas, dentro e fora da Cisjord\u00e2nia, de Gaza e da Palestina Ocupada. Desde ent\u00e3o, movimentos sociais, pol\u00edticos, organiza\u00e7\u00f5es e partidos de esquerda debru\u00e7aram seus olhos para a quest\u00e3o palestina. E por que essa quest\u00e3o \u00e9 t\u00e3o cara, especialmente, para n\u00f3s, comunistas?<\/p>\n<p>A causa Palestina, para al\u00e9m de uma luta justa por autodetermina\u00e7\u00e3o, por liberta\u00e7\u00e3o nacional, retorno e independ\u00eancia, \u00e9 tamb\u00e9m uma luta internacional e uma luta essencialmente humana. O colonialismo ocidental e os interesses imperialistas na regi\u00e3o escancaram a necessidade dos comunistas, de todo os continentes, a combater o inimigo imperialista e colonizador, apoiando e se solidarizando ao povo palestino e sua luta. \u00c9 nossa tarefa preservar a vers\u00e3o hist\u00f3rica palestina e injusti\u00e7a que perdura h\u00e1 mais de um s\u00e9culo contra esse povo, que caracteriza-se, tamb\u00e9m, no terreno ideol\u00f3gico, de falsifica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, de falseamento da consci\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c9 nossa tarefa denunciar a normaliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es dos pa\u00edses \u00e1rabes com o regime de apartheid israelense, assim como os pr\u00f3prios povos desses pa\u00edses j\u00e1 est\u00e3o fazendo (25). Pela constru\u00e7\u00e3o de uma Palestina livre, emancipada e soberana!<\/p>\n<p>1https:\/\/www.state.gov\/the-abraham-accords\/<\/p>\n<p>2https:\/\/www.haaretz.com\/middle-east-news\/.premium-full-text-the-israel-uae-bahrain-abraham-accords-declaration-1.9159509<\/p>\n<p>3 https:\/\/g1.globo.com\/mundo\/noticia\/tres-questoes-chave-para-entender-a-polemica-transferencia-da-embaixada-dos-eua-em-israel.ghtml<\/p>\n<p>4 https:\/\/brasil.elpais.com\/internacional\/2020-01-29\/trump-apresenta-plano-de-paz-que-respalda-os-interesses-chave-de-israel.html<\/p>\n<p>5 https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2020\/07\/04\/por-que-a-anexacao-de-territorios-da-cisjordania-por-israel-e-ilegal<\/p>\n<p>6 https:\/\/www.monitordooriente.com\/20201114-visita-de-pompeo-a-assentamento-ilegal-e-precedente-perigoso-diz-ap\/<\/p>\n<p>7 Sabemos que a condu\u00e7\u00e3o deste processo pelos l\u00edderes palestinos na \u00e9poca \u00e9 alvo de diversas cr\u00edticas, inclusive do pr\u00f3prio povo palestino e organiza\u00e7\u00f5es populares locais. Pontuam-se, por exemplo, os Acordos de Oslo como uma derrota e concess\u00e3o para a Palestina. Apesar disso, o foco deste artigo \u00e9 a gest\u00e3o de pol\u00edtica externa do Governo Trump em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Palestina.<\/p>\n<p>8 https:\/\/g1.globo.com\/mundo\/noticia\/2021\/01\/19\/eua-manterao-reconhecimento-de-jerusalem-como-capital-de-israel-durante-governo-biden-diz-indicado-a-chefe-da-diplomacia.ghtml<\/p>\n<p>9 https:\/\/www.theguardian.com\/us-news\/2021\/feb\/26\/biden-trump-sanctions-icc-prosecutors-israel<\/p>\n<p>10 https:\/\/apnews.com\/article\/7544b322a254ebea1693e387d83d9d8b<\/p>\n<p>11 Com o objetivo de reduzir as atividades nucleares do Ir\u00e3, o JCPOA foi assinado em 2015, por Alemanha, China, EUA, Fran\u00e7a, Ir\u00e3, Uni\u00e3o Europeia, Reino Unido e R\u00fassia. O acordo estipulava o enriquecimento m\u00e1ximo de ur\u00e2nio a um n\u00edvel de 3,67%, muito abaixo do necess\u00e1rio para produ\u00e7\u00e3o de armamento nuclear. Por sua vez, ao Ir\u00e3 seria concedido o levantamento de san\u00e7\u00f5es impostas pelos EUA, pela Uni\u00e3o Europeia e pela ONU<\/p>\n<p>12 https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/bahrein-corta-rela%C3%A7%C3%B5es-diplom%C3%A1ticas-com-ir%C3%A3\/a-1895<\/p>\n<p>13 https:\/\/www.middleeastmonitor.com\/20210109-qatar-we-will-normalise-relations-with-israel-after-it-commits-to-arab-peace-initiative\/<\/p>\n<p>14 https:\/\/www.rtp.pt\/noticias\/mundo\/qatar-a-casa-da-maior-base-militar-norte-americana-no-medio-oriente_n1006223<\/p>\n<p>15 https:\/\/www.theguardian.com\/world\/2020\/nov\/23\/benjamin-netanyahu-secret-meeting-saudi-crown-prince-mohammed-bin-salman<\/p>\n<p>16 https:\/\/www.timesofisrael.com\/netanyahu-may-meet-saudi-crown-prince-during-uae-visit\/<\/p>\n<p>17 https:\/\/www.jornaldocomercio.com\/_conteudo\/2017\/04\/economia\/556318-emirados-arabes-e-bahrein-oferecem-total-apoio-aos-ataques-dos-eua-na-siria.html<\/p>\n<p>18 https:\/\/br.sputniknews.com\/oriente_medio_africa\/2020091316069948-eua-dizem-aos-emirados-arabes-que-nao-apoiarao-anexacoes-por-israel-ate-2024\/<\/p>\n<p>19 https:\/\/br.sputniknews.com\/defesa\/2020082015970367-trump-afirma-que-emirados-arabes-unidos-desejam-comprar-cacas-norte-americanos-f-35\/<\/p>\n<p>https:\/\/br.sputniknews.com\/defesa\/2020090416030478-netanyahu-aceita-venda-de-cacas-f-35-dos-estados-unidos-aos-emirados-arabes\/<\/p>\n<p>20 https:\/\/br.sputniknews.com\/oriente_medio_africa\/2020082816001606-israel-e-emirados-arabes-planejam-construir-bases-de-espionagem-no-iemen-diz-midia\/<\/p>\n<p>21 https:\/\/www.timesofisrael.com\/at-warsaw-conference-pence-hails-netanyahu-breaking-bread-with-arab-leaders\/<\/p>\n<p>22 https:\/\/apnews.com\/article\/7544b322a254ebea1693e387d83d9d8b<\/p>\n<p>23 https:\/\/www.thehindu.com\/news\/international\/israel-uae-and-bahrain-sign-abraham-accord-trump-says-dawn-of-new-middle-east\/article32616867.ece<\/p>\n<p>24 http:\/\/www.guerraeterna.com\/israel-un-modelo-de-apartheid-para-el-siglo-xxi-segun-un-exembajador-en-surafrica\/<\/p>\n<p>25 https:\/\/www.aljazeera.com\/news\/2020\/12\/11\/world-reacts-to-israeli-moroccan-deal-to-normalise-ties<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27242\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[78],"tags":[227],"class_list":["post-27242","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c91-solidariedade-a-palestina","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-75o","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27242","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27242"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27242\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27242"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27242"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27242"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}