{"id":27275,"date":"2021-05-12T14:01:53","date_gmt":"2021-05-12T17:01:53","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27275"},"modified":"2021-05-12T14:01:53","modified_gmt":"2021-05-12T17:01:53","slug":"entrevista-do-momento-jose-paulo-netto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27275","title":{"rendered":"Entrevista do Momento: Jos\u00e9 Paulo Netto"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/pw\/ACtC-3e-gzbYVZc8onM8UHWxpeQczLoIuyb9gFwFsgioO2I-IDQWOfWXe2IMkenIR_vUaBzaVrAbrB7whAELQlhYw-27cXehbwrN6QDcHZ-smQICJIVFIki5qL8zAjVEuf7U3-xprQ9Y21NOCwXh60jKGQLd=w640-h375-no\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Por Milton Pinheiro &#8211; membro do Comit\u00ea Central do PCB<\/p>\n<p>Entrevista do Jornal O Momento (PCB da Bahia) com Jos\u00e9 Paulo Netto<\/p>\n<p>O MOMENTO \u2013 A conjuntura brasileira, diante da sua complexidade, torna-se cada vez mais dif\u00edcil de ser desvelada. Como voc\u00ea examina a cena pol\u00edtica atual?<\/p>\n<p>JOS\u00c9 PAULO NETTO \u2013 N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que a conjuntura \u00e9 extremamente complexa, mas j\u00e1 possu\u00edmos elementos que nos permitem compreender muito da sua pluricausalidade, das suas particularidades e das tend\u00eancias que nela se cont\u00eam \u2013 elementos analisados por in\u00fameros estudiosos, ali\u00e1s situados em posi\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas e pol\u00edticas muito diversas. Num espa\u00e7o necessariamente restrito como este, e levando em conta as minhas limita\u00e7\u00f5es, \u00e9 evidente que s\u00f3 posso sintetizar umas poucas reflex\u00f5es a t\u00edtulo de hip\u00f3teses que devem ser testadas e aprofundadas. Come\u00e7o por assinalar que a atual conjuntura deve ser pensada considerando que ela n\u00e3o pode ser desvinculada do quadro da crise geral e sist\u00eamica que afeta o capitalismo em escala mundial. Esta crise, que j\u00e1 se desdobra e cronifica pelo menos desde a \u00faltima d\u00e9cada do s\u00e9culo passado, ganhou explicita\u00e7\u00e3o mais agudizada com a emerg\u00eancia da pandemia provocada pelo novo coronav\u00edrus \u2013 pandemia que desnudou muito da roupagem mistificadora do tardo capitalismo. Esta nota\u00e7\u00e3o \u00e9 indispens\u00e1vel, mas julgo que a conjuntura brasileira deve ser analisada especialmente a partir dos seus condicionantes end\u00f3genos, internos \u2013 para a sua compreens\u00e3o, decisiva \u00e9 a din\u00e2mica da sociedade brasileira (e tamb\u00e9m para isto j\u00e1 contamos com aportes te\u00f3ricos relevantes).<\/p>\n<p>Penso que, antes de tudo, \u00e9 preciso ressaltar que, na conjuntura, n\u00e3o \u00e9 a pandemia (e a crise sanit\u00e1ria que ela evidenciou) que responde pelo cen\u00e1rio pol\u00edtico desolador em que estamos atolados \u2013 a pandemia, sem qualquer d\u00favida, foi um detonador do paroxismo deste cen\u00e1rio, mas nem de longe \u00e9 uma das suas causas. Os mais de 400.000 mortos que temos nas costas (no momento em que decorre esta entrevista) s\u00e3o, em largu\u00edssima medida, o resultado da necropol\u00edtica pr\u00f3pria do governo cujo Executivo \u00e9 comandado por um mentecapto. As ra\u00edzes mais pr\u00f3ximas da nossa conjuntura pol\u00edtica est\u00e3o no golpe parlamentar de 2016, que efetivou o impeachment de Dilma Rousseff. As v\u00e9speras do golpe de agosto de 2016 \u2013 que n\u00e3o cabe discutir aqui e que j\u00e1 conta com an\u00e1lises substantivas \u2013 trouxeram \u00e0 tona uma forma de interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos grupos mais reacion\u00e1rios da sociedade que n\u00e3o se via h\u00e1 mais de meio s\u00e9culo no pa\u00eds: a direita foi para as ruas e se imp\u00f4s provisoriamente, sem o concurso do Ex\u00e9rcito, da Marinha e da Aeron\u00e1utica. Ela ganhou as ruas num crescendo in\u00e9dito, fomentado por um monumental aparato privado de ag\u00eancias que, mobilizando as infovias e a grande imprensa estabelecida, desatou uma guerra ideol\u00f3gica que rapidamente viu-se assumida (e, bem provavelmente, financiada) pelo segmento mais retr\u00f3grado da historicamente covarde burguesia nativa, j\u00e1 amedrontada pelas jornadas de junho de 2013. Foi quando os rebatimentos da crise econ\u00f4mica do capitalismo come\u00e7aram realmente a se fazer sentir no pa\u00eds, indicando o esgotamento da margem de manobra da pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o de classes e de coopta\u00e7\u00e3o de setores de camadas trabalhadoras que marcou o per\u00edodo dos governos Lula e Dilma, com a neutraliza\u00e7\u00e3o de for\u00e7as populares ent\u00e3o promovida, que a ofensiva desestabilizadora da direita subversiva avan\u00e7ou mais e acabou derivando no resultado de 2018. A inviabilidade eleitoral dos representantes diretos do grande capital na campanha para a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica abriu o caminho para que um med\u00edocre e desqualificado do corporativismo da pol\u00edtica empreendesse \u2013 com a anu\u00eancia \u00f3bvia do mesmo grande capital \u2013 a sua aventura bonapartista. E deu no que estamos suportando: degrada\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, destrui\u00e7\u00e3o de conquistas sociais hist\u00f3ricas, eros\u00e3o das estruturas econ\u00f4micas, in\u00e9pcia administrativa, atentados \u00e0s institui\u00e7\u00f5es republicanas, desprezo e arrog\u00e2ncia frente \u00e0s recomenda\u00e7\u00f5es cient\u00edficas na irrup\u00e7\u00e3o da pandemia, genuflex\u00e3o diante do trumpismo, isolamento e ridiculariza\u00e7\u00e3o internacionais e por a\u00ed vai \u2013 com todas as concretas amea\u00e7as ao ordenamento constitucional e democr\u00e1tico. No primeiro quadrimestre do presente ano, as funestas consequ\u00eancias dessa intentona bonapartista tornaram-se j\u00e1 t\u00e3o patentes que o pr\u00f3prio grande capital procura desvincular-se dela, todavia sem questionar o cerne do que \u00e9 apresentado como o seu projeto econ\u00f4mico (as \u201creformas\u201d neoliberais) \u2013 basta ver a posi\u00e7\u00e3o da chamada grande imprensa que o representa, clamando reiteradamente por um \u201ccandidato de centro\u201d para se contrapor, em 2022, \u00e0 agenda s\u00f3cio-cultural e ambiental destrutiva do capit\u00e3o, \u00edcone de todas as mil\u00edcias (digitais ou n\u00e3o). Neste momento, parece que as for\u00e7as democr\u00e1ticas saem da defensiva e buscam algum protagonismo; mesmo no marco do movimento sindical dos trabalhadores, bastante disciplinado nos \u00faltimos anos, verificam-se sinais de revitaliza\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o h\u00e1 que se fazer ilus\u00f5es: qualquer alternativa democr\u00e1tica s\u00e9ria, consequente, implicar\u00e1 uma profunda reativa\u00e7\u00e3o dos movimentos populares e a reinser\u00e7\u00e3o do n\u00facleo duro das classes trabalhadoras organizadas \u2013 o proletariado \u2013 na cena pol\u00edtica. Sem esta reinser\u00e7\u00e3o, n\u00e3o teremos solu\u00e7\u00f5es: teremos arranjos e arreglos, de pouca dura e incapazes para realizar a tarefa da necess\u00e1ria reconstru\u00e7\u00e3o nacional no mundo p\u00f3s-pand\u00eamico.<\/p>\n<p>O.M. \u2013 Voc\u00ea escreveu um ensaio hist\u00f3rico sobre a ditadura militar de 1964. Existem resqu\u00edcios desse per\u00edodo no atual arcabou\u00e7o institucional brasileiro?<\/p>\n<p>J.P.N. \u2013 Quero lembrar que, no livro que voc\u00ea gentilmente recorda, n\u00e3o me refiro ao regime instaurado em abril de 1964 como simples \u201cditadura militar\u201d \u2013 procurei caracteriz\u00e1-lo como resultante de um golpe civil-militar. A caracteriza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas um detalhe, porquanto permite definir com rigor a natureza do regime que dele acabou por emergir, que o querido e saudoso Florestan Fernandes sintetizou como uma forma espec\u00edfica de \u201cautocracia burguesa\u201d. Daquele regime \u2013 at\u00e9 pelo tipo de ultrapassagem (a \u201ctransi\u00e7\u00e3o pelo alto\u201d) que propiciou a retomada democr\u00e1tica \u2013 ainda restam fortes tra\u00e7os; pense-se, por exemplo, na legisla\u00e7\u00e3o sobre a seguran\u00e7a nacional, a que os serventu\u00e1rios do atual ocupante da chefia do Executivo t\u00eam recorrido para intimidar os seus cr\u00edticos. Contudo, n\u00e3o me parece correto aproximar a conjuntura atual aos idos de 1964. O golpe de 1964 resultou de um processo de contrarrevolu\u00e7\u00e3o preventiva, pr\u00f3prio do per\u00edodo da Guerra Fria, e que levou ao poder um bloco de for\u00e7as que conspiraram e se organizaram por pelo menos uma d\u00e9cada \u2013 e que, quando chegaram ao poder, tinham um programa para o pa\u00eds. \u00c9 indiscut\u00edvel que tal programa supunha vigorosas restri\u00e7\u00f5es \u00e0 democracia (como se constatou quando, para implement\u00e1-lo, o terrorismo de Estado via AI-5 demonstrou-se indispens\u00e1vel). Mas aquele bloco de for\u00e7as contava com recursos humanos cuja qualifica\u00e7\u00e3o te\u00f3rico-pol\u00edtica n\u00e3o pode ser, nem de longe, comparada com a gente que hoje instrumentaliza o Executivo federal. Lembre-se que, na orienta\u00e7\u00e3o macroecon\u00f4mica, havia figuras como Roberto Campos e Ot\u00e1vio Gouveia de Bulh\u00f5es \u2013 diante dos quais o nanismo de Paulo Guedes mede-se milimetricamente. Pode-se comparar um ministro da Justi\u00e7a como Milton Campos a um S\u00e9rgio Moro e sucessores? O primeiro ditador que chegou ao Planalto escolheu para a sua Casa Civil um intelectual, o baiano Lu\u00eds Viana Filho. Diz-se que Castelo Branco lia autores franceses no original e, ao que se saiba, n\u00e3o era do g\u00eanero de colecionar malta de milicianos a seu redor. Est\u00e1 a\u00ed uma pequena amostra da degrada\u00e7\u00e3o pol\u00edtica a que estamos submetidos hoje. O grupo que chegou ao Planalto, na sequ\u00eancia do processo eleitoral de 2018, s\u00f3 tem a ver com o que ascendeu ao poder em 1964, por via de um golpe civil-militar, na decis\u00e3o de romper com a legalidade democr\u00e1tica e na alergia \u00e0 democracia \u2013 todavia, no grupo atual, a alergia foi convertida em aut\u00eantico \u00f3dio \u00e0 democracia, qualquer democracia, ainda que restrita. Ademais, este grupo carecia e carece de qualquer programa para o pa\u00eds, exceto a liquida\u00e7\u00e3o de tudo aquilo que cheire a conquistas civilizat\u00f3rias da Modernidade. No atacado, \u00e9 gente despreparada, inculta, ignorante, tosca mesmo.<\/p>\n<p>O.M. \u2013 Como voc\u00ea examina a rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as na luta de classes em curso, em nosso pa\u00eds?<\/p>\n<p>J.P.N \u2013 Ao contr\u00e1rio do que algu\u00e9m j\u00e1 disse, nas sociedades capitalistas, as lutas de classes n\u00e3o tiram f\u00e9rias. Desenvolvem-se muito irregularmente e nunca de forma linear \u2013 \u00e0s vezes aberta e espetacularmente, outras vezes subterr\u00e2nea e discretamente. E, com frequ\u00eancia, sem se expressar no n\u00edvel especificamente pol\u00edtico. Mas est\u00e3o sempre \u2013 insista-se: sempre \u2013 operantes. S\u00e3o vetores reais e objetivos nas organiza\u00e7\u00f5es societ\u00e1rias regidas pelo capital \u2013 a sua efetividade n\u00e3o depende da vontade dos sujeitos pol\u00edticos, ainda que deles dependa a sua dire\u00e7\u00e3o e, em boa medida, o seu desenlace.<\/p>\n<p>Por raz\u00f5es j\u00e1 suficientemente esclarecidas por estudiosos da forma\u00e7\u00e3o social brasileira, neste pa\u00eds violento em demasia contra a \u201carraia-mi\u00fada\u201d, o \u201cpov\u00e3o\u201d, mas preferencialmente contra os n\u00e3o-brancos pobres (e aqui, sabe-se, a pobreza est\u00e1 muito associada \u00e0 cor da pele, numa popula\u00e7\u00e3o com fort\u00edssima composi\u00e7\u00e3o afro-descendente, oprimida ademais por um racismo estrutural), as lutas de classes tomaram historicamente formas pr\u00e9-pol\u00edticas. S\u00f3 puderam emergir como lutas explicitamente pol\u00edticas nos poucos lapsos democr\u00e1ticos que o nosso povo teve oportunidade de experimentar. Na conjuntura atual, registrando-se o agravamento da crise econ\u00f4mico-social, com um desemprego acentuado e uma veloz pauperiza\u00e7\u00e3o das massas trabalhadoras \u2013 e isto na sequ\u00eancia da desmobiliza\u00e7\u00e3o popular j\u00e1 aludida e no quadro da pandemia \u2013, compreende-se que na superf\u00edcie da vida social as lutas de classes, na sua express\u00e3o pol\u00edtica, n\u00e3o sejam imediatamente vis\u00edveis. Mas me parece indubit\u00e1vel que elas est\u00e3o se potencializando e, como na imagem da velha toupeira que repentinamente p\u00f5e a cabe\u00e7a de fora, logo voltar\u00e3o a tirar o sono dos rica\u00e7os e seus representantes e apaniguados. A meu ver, a quest\u00e3o essencial posta por esta potencializa\u00e7\u00e3o \u00e9 a da dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que pode dar sentido \u00e0 sua emerg\u00eancia e \u00e0 sua concre\u00e7\u00e3o. Sem organiza\u00e7\u00e3o, sem orienta\u00e7\u00e3o consciente e mobiliza\u00e7\u00e3o articulada, jogando apenas com o seu espontane\u00edsmo, as resultantes podem ser extremamente problem\u00e1ticas. Este \u00e9, parece-me, o problema central que se coloca para as for\u00e7as democr\u00e1ticas e, especialmente, para as for\u00e7as democr\u00e1ticas da esquerda.<\/p>\n<p>O.M \u2013 Podemos estabelecer uma conex\u00e3o entre a mortandade estabelecida pela Covid-19 e o governo do agitador fascista Jair Bolsonaro?<\/p>\n<p>J.P.N. \u2013 \u00c9 ululantemente \u00f3bvio que sim. A pandemia n\u00e3o foi criada por Bolsonaro \u2013 o mentecapto n\u00e3o \u00e9 o respons\u00e1vel por ela; mesmo sem a sua figura, decerto muitos brasileiros e brasileiras inevitavelmente morreriam. Mas ele \u00e9, indiscutivelmente, o respons\u00e1vel maior, embora n\u00e3o o \u00fanico, pela dimens\u00e3o catastr\u00f3fica que a pandemia adquiriu no pa\u00eds \u2013 n\u00e3o por acaso, h\u00e1 pouco me referi \u00e0 necropol\u00edtica. Ele, com o seu despreparo para exercer o poder que lhe foi episodicamente conferido, com a sua falta de educa\u00e7\u00e3o e de compostura, com a sua ignor\u00e2ncia, o seu negacionismo, as suas atitudes levianas e as suas a\u00e7\u00f5es e omiss\u00f5es \u2013 em suma, com todos os tra\u00e7os que o tornam essa caricatura presidencial lament\u00e1vel sob todos os aspectos, ele j\u00e1 est\u00e1 estigmatizado e condenado \u00e0 vala comum pela hist\u00f3ria. Por\u00e9m, isto n\u00e3o pode servir como consolo para a mem\u00f3ria dos familiares e amigos de, at\u00e9 agora, 400.000 mortos, nem como suced\u00e2neo da puni\u00e7\u00e3o que a ele cabe pelas afrontas \u00e0 vida republicana e democr\u00e1tica: \u00e9 absolutamente necess\u00e1rio que seja julgado no plano pol\u00edtico (para isto, deve ter alguma valia a CPI em andamento, se n\u00e3o acabar em mais outra pizza) e devidamente processado nas inst\u00e2ncias pertinentes da justi\u00e7a.<\/p>\n<p>O.M \u2013 Gostar\u00edamos que voc\u00ea avaliasse a presen\u00e7a fascista na atual quadra pol\u00edtica brasileira.<\/p>\n<p>J.P.N \u2013 Sabemos que o fascismo n\u00e3o foi liquidado quando o soldado sovi\u00e9tico fincou a bandeira vermelha da ex-Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica no que restou do Reichstag em ru\u00ednas, em maio de 1945. O fascismo, nas suas distintas e v\u00e1rias formas, \u00e9 uma possibilidade contida no desenvolvimento monopolista do capitalismo: onde h\u00e1 capitalismo assentado em organiza\u00e7\u00f5es monopolistas, o fascismo \u00e9 sempre uma alternativa que, frequentemente valendo-se at\u00e9 de uma ret\u00f3rica anticapitalista, serve ao segmento mais reacion\u00e1rio do grande capital. Prova-o a sua revivesc\u00eancia na contemporaneidade, inclusive no Brasil. N\u00e3o se deve e n\u00e3o se pode subestimar o fascismo entre n\u00f3s. O ovo da serpente ganhou visibilidade com a ofensiva da direita na sequ\u00eancia das jornadas de junho de 2013 \u2013 e o fascismo \u00e9, hoje, j\u00e1 chocado o ovo, a ponta da lan\u00e7a mais ofensiva e mais amea\u00e7adora \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o de m\u00ednimos estatutos democr\u00e1ticos no Brasil. O combate a ele, sistem\u00e1tico, diuturno, \u00e9 dever inadi\u00e1vel de todos os que prezam, em qualquer escala, os valores civilizat\u00f3rios e as garantias deles decorrentes, os \u00fanicos capazes para fundar a resist\u00eancia, a travagem e a revers\u00e3o das tend\u00eancias conducentes a tornar a vida social o territ\u00f3rio privilegiado da barb\u00e1rie. \u00c9 evidente que o bonapartismo bolsonarista favorece, estimula e fomenta a divulga\u00e7\u00e3o de formas ideol\u00f3gicas nitidamente fascistas. Todo fascista brasileiro \u00e9, hoje, suporte do bolsonarismo. Mas n\u00e3o se pense que a massa dos votos que propiciaram a chegada de Bolsonaro ao Pal\u00e1cio do Planalto sejam fascistas \u2013 antes, pense-se que a maioria dos seus eleitores foram motivados mais pelas ignor\u00e2ncia e a desinforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, pelo caldo de cultura que deu um sentido antipopular \u00e0 recusa do hegemonismo processado naqueles fen\u00f4menos que a grande m\u00eddia burguesa designou por \u201clulo-petismo\u201d e que, particularmente em rela\u00e7\u00e3o a camadas m\u00e9dias urbanas, estimulou o florescer de um ressentimento de classe que leva \u00e1gua polu\u00edda ao moinho inescrupuloso do fascismo. (Este ressentimento \u00e9 flagrante no \u00f3dio que estratos das camadas m\u00e9dias urbanas e do pequeno e m\u00e9dio empresariado destilam em face de Lula.) Ouso mesmo dizer \u2013 e decerto posso estar lavrando em erro \u2013 que, se chegarmos a ter um processo eleitoral sem coa\u00e7\u00f5es em 2022, depois das cat\u00e1strofes sanit\u00e1ria e econ\u00f4mico-social que continuaremos a experimentar nos pr\u00f3ximos vinte e poucos meses, o bolsonarismo perder\u00e1 o falso brilho que ainda exibe por agora. As pr\u00f3prias dissens\u00f5es que a movimenta\u00e7\u00e3o burguesa revela nos \u00faltimos meses (n\u00e3o se esque\u00e7a que a burguesia nativa est\u00e1 longe de constituir um bloco homog\u00eaneo) s\u00e3o indicadoras de uma vis\u00edvel redu\u00e7\u00e3o da base social do bolsonarismo \u2013 se elas prosseguirem, como acredito que prosseguir\u00e3o, ser\u00e1 inevit\u00e1vel o seu rebatimento na base eleitoral do mentecapto.<\/p>\n<p>O.M. \u2013 A partir de quais balizas voc\u00ea analisa o atual momento de a\u00e7\u00e3o\/reflex\u00e3o da esquerda brasileira na luta pela democracia e por um projeto estrat\u00e9gico?<\/p>\n<p>J.P.N \u2013 A no\u00e7\u00e3o de esquerda, tamb\u00e9m no Brasil de hoje, \u00e9 um problema a comportar muita pol\u00eamica e n\u00e3o vou entrar nela, levianamente, numa entrevista. Falando de um ponto de vista estritamente pessoal, embora eu seja um simples acad\u00eamico aposentado \u2013 mas que n\u00e3o vive solto no espa\u00e7o, posto que vinculado ao PCB, partido que tem conhecidas formula\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas j\u00e1 dadas \u00e0 luz p\u00fablica \u2013, prefiro ater-me a dois pontos principais: I) o campo de uma esquerda socialista (que n\u00e3o pode ser sumariamente conotada como uma esquerda que recusa reformas econ\u00f4mico-sociais abertas a transforma\u00e7\u00f5es substantivas da sociedade brasileira, uma esquerda \u00e0 moda passadista, que imagina a revolu\u00e7\u00e3o enquanto disrup\u00e7\u00e3o armada, como guerra civil) \u2013 este campo n\u00e3o est\u00e1 limitado a siglas partid\u00e1rias e, na realidade, transcende em muito os partidos atualmente existentes; \u00e9 um espa\u00e7o amplo, plural e diversificado campo social; II) o acervo j\u00e1 existente para a formula\u00e7\u00e3o de um projeto estrat\u00e9gico fact\u00edvel para a transforma\u00e7\u00e3o profunda da sociedade brasileira, direcionada para o socialismo, \u00e9 apreci\u00e1vel, mas demanda ainda um esfor\u00e7o coletivo de partidos, de institui\u00e7\u00f5es da sociedade civil, de sujeitos (coletivos e individuais) do mundo do trabalho e do mundo da cultura para a sua objetiva\u00e7\u00e3o. A formula\u00e7\u00e3o de um tal projeto \u00e9 um processo dif\u00edcil e complexo, at\u00e9 mesmo na medida em que deve excluir posturas hegemonistas e incluir componentes autocr\u00edticos. E as exig\u00eancias e urg\u00eancias postas pela conjuntura reclamam para o seu equacionamento imediato e progressista um programa comum da esquerda capaz de aglutinar, na luta contra as amea\u00e7as \u00e0 democracia, for\u00e7as que n\u00e3o s\u00e3o de esquerda. Isto significa que, a meu ju\u00edzo, a esquerda socialista tem que se dispor a promover e a participar de uma frente democr\u00e1tica simultaneamente \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o de um s\u00f3lido e aut\u00f4nomo bloco das suas pr\u00f3prias e distintas for\u00e7as. E tem de faz\u00ea-lo sem perder de vista e sem ocultar que, na sua perspectiva, a luta pela democracia, uma democracia de participa\u00e7\u00e3o ampliada e progressiva, \u00e9 insepar\u00e1vel da luta pelo socialismo. A tarefa demanda not\u00e1veis esfor\u00e7os coletivos, mas tenho a firme convic\u00e7\u00e3o de que as li\u00e7\u00f5es que a hist\u00f3ria j\u00e1 nos legou, e n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, demonstra que ela pode ser levada a cabo com \u00eaxito. Sabemos h\u00e1 muito, ao menos no n\u00edvel te\u00f3rico, que unidade n\u00e3o \u00e9 o mesmo que identidade \u2013 somente se une o que \u00e9 diverso.<\/p>\n<p>O.M \u2013 Recentemente voc\u00ea lan\u00e7ou uma obra seminal sobre a vida e a obra de Marx. Podemos contar com Marx para enfrentar a eros\u00e3o do sistema capitalista e para o que fazer?<\/p>\n<p>J.P.N \u2013 Agrade\u00e7o a qualifica\u00e7\u00e3o de seminal para a minha biografia de Marx \u2013 penso que se trata de um trabalho s\u00e9rio e \u00fatil, por\u00e9m t\u00e3o s\u00f3 uma simples contribui\u00e7\u00e3o ao estudo do mais importante te\u00f3rico social da modernidade. Contudo, a resposta \u00e0 sua pergunta talvez v\u00e1 decepcion\u00e1-lo e aos seus leitores. Estou absolutamente convencido de que, sem Marx, nada compreenderemos de essencial da eros\u00e3o mencionada e, ainda, da conjuntura brasileira. \u00c9 a partir de Marx que a dupla Esfinge que temos pela frente \u2013 o tardo capitalismo e a particularidade brasileira \u2013 poder\u00e1 ser decifrada; se n\u00e3o o fizermos, seremos por ela devorados. No entanto, a decifra\u00e7\u00e3o exige mais do que o conhecimento da vida de Marx e da sua teoria: exige que, a partir do m\u00e9todo que ele descobriu, com o contributo de marxistas que o sucederam e tamb\u00e9m de cientistas sociais que se situam fora da tradi\u00e7\u00e3o marxista, mas sem concess\u00f5es ao ecletismo, sejamos capazes de desenvolver a an\u00e1lise concreta da nossa situa\u00e7\u00e3o concreta. \u00c9 somente \u00e0 base desta an\u00e1lise que poderemos nos orientar quanto ao que fazer. Aqui, L\u00eanin \u2013 autor da determina\u00e7\u00e3o da \u201can\u00e1lise concreta da situa\u00e7\u00e3o concreta\u201d \u2013 continua Marx e \u00e9 mais que li\u00e7\u00e3o: \u00e9 exemplo. Ele s\u00f3 se habilitou a responder praticamente \u00e0 pergunta, ali\u00e1s t\u00edtulo do romance de Tchernychevski, quando, partindo d\u2019O capital, pesquisou suficientemente a sua R\u00fassia. A b\u00fassola estava em Marx, mas foi L\u00eanin quem realizou a viagem da descoberta.<\/p>\n<p>Imagem: Funda\u00e7\u00e3o Dinarco Reis<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27275\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[221],"class_list":["post-27275","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-75V","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27275","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27275"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27275\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27275"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27275"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27275"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}