{"id":27319,"date":"2021-05-24T00:56:19","date_gmt":"2021-05-24T03:56:19","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27319"},"modified":"2021-05-29T18:51:19","modified_gmt":"2021-05-29T21:51:19","slug":"a-memoria-de-arcelina-mochel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27319","title":{"rendered":"\u00c0 mem\u00f3ria de Arcelina Mochel"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/pw\/ACtC-3dijjIDzJmP0VXOkeMYmBSO_mf9ybLeRoguuZUYlJ4wuPHdAZwL7ODwejJswb4isruAoPxEySUiDhjzTTLZ4waPQCb4b8GCj89J2tVqRSdEau4NoZKsjgT-Q7UaSB4xsKjRJZU96fkptsMv32QI8Aiz=w1140-h570-no\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Por Rafaela Fraga<\/p>\n<p>Fundadora do Jornal Momento Feminino, primeira mulher a se tornar procuradora p\u00fablica no Brasil, vereadora no ent\u00e3o Distrito Federal, o Rio de Janeiro\u2026 foi rica e multifacetada a trajet\u00f3ria da maranhense Arcelina Rodrigues Mochel, uma dentre os nove filhos do casal Erc\u00edlia Rodrigues Mochel e Jos\u00e9 Augusto da Silva Mochel.<\/p>\n<p>Arcelina deu in\u00edcio aos estudos superiores ingressando no curso de Direito, ainda antes dos 20 anos, incentivada por seus humildes pais. Ela foi uma mulher muito ativa, dando os primeiros sinais na vida p\u00fablica ao fundar uma revista jur\u00eddica aos 19 anos, enquanto j\u00e1 cumpria a fun\u00e7\u00e3o interina de promotora em duas comarcas do Maranh\u00e3o, sua terra natal, onde nasceu em 1918. As contradi\u00e7\u00f5es consequentes das desigualdades de g\u00eanero em nossa sociedade patriarcal se revelavam a Arcelina para muito al\u00e9m dos seus estudos sobre o assunto: ao ser aprovada em 1\u00ba lugar no concurso para o cargo efetivo de promotora p\u00fablica, foi substitu\u00edda em sua posi\u00e7\u00e3o pelo segundo colocado, um homem. Como j\u00e1 mencionado, Arcelina foi a primeira mulher a ocupar tal categoria, fato que, certamente, causou inc\u00f4modo ao funcionalismo local, capaz de cometer tamanha arbitrariedade.<\/p>\n<p>Tal acontecimento mudou a vida desta mulher, que se tornou figura hist\u00f3rica na luta pol\u00edtica brasileira: diante do ocorrido, resolveu mudar-se do Maranh\u00e3o para o Rio de Janeiro, chegando \u00e0 capital do pa\u00eds em 1943. L\u00e1, ela se envolveu com maior profundidade na luta organizada atrav\u00e9s do Partido Comunista Brasileiro (PCB).<\/p>\n<p>Com sua vigorosa atua\u00e7\u00e3o, alicer\u00e7ada em uma inarred\u00e1vel convic\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, Arcelina Mochel ainda hoje \u00e9 reconhecida pelo PCB como \u201cum dos mais destacados quadros pol\u00edticos femininos entre 1940 e 1950\u201d, declara\u00e7\u00e3o feita numa nota do Partido em 2016. E claro que n\u00e3o \u00e0 toa: ela desenvolveu profundo trabalho de base no movimento de mulheres, nas lutas populares e na imprensa de esquerda por quase duas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da revista que fundou aos 19 anos, tamb\u00e9m dirigiu a Revista Continental, j\u00e1 no Rio de Janeiro, e foi uma das criadoras do Jornal Momento Feminino, instrumento robusto que, mantido tamb\u00e9m por outras mulheres comunistas como ela, circulou nacionalmente pelo excepcional per\u00edodo de 10 anos, num Brasil politicamente inseguro e j\u00e1 perigoso para os comunistas.<\/p>\n<p>Como vereadora no Rio de Janeiro \u2013 ent\u00e3o Distrito Federal, Arcelina ampliou sua capacidade de aglutina\u00e7\u00e3o das massas e sua orat\u00f3ria ao se tornar l\u00edder da bancada comunista e presidente da Comiss\u00e3o de Administra\u00e7\u00e3o e Assist\u00eancia Social da C\u00e2mara dos Vereadores. Ela foi eleita em 1947 com 3.704 votos, numa \u00e9poca em que, ainda mais que na atualidade, o parlamento era considerado um lugar exclusivo aos homens.<\/p>\n<p>Seu mandato deveria durar at\u00e9 1951; todavia, em 1948, o PCB foi posto em ilegalidade, e com isso, todos os seus parlamentares foram cassados. Mesmo com seu Partido em tais condi\u00e7\u00f5es, Arcelina seguiu firme e convicta em sua disciplina militante, construindo o movimento de mulheres pelos bairros do Rio de Janeiro. A esta altura, j\u00e1 era evidente sua lideran\u00e7a feminista no RJ: al\u00e9m de estar envolvida na constru\u00e7\u00e3o de comit\u00eas populares a partir do seu trabalho de base \u2013 comit\u00eas estes que se espalhavam pelo Brasil, chegando a somar 43 pa\u00eds afora -, Arcelina foi pe\u00e7a fundamental na articula\u00e7\u00e3o do que se tornou a Funda\u00e7\u00e3o de Mulheres do Brasil, em 1949.<\/p>\n<p>A Funda\u00e7\u00e3o teve expressivo valor na organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de mulheres trabalhadoras, estando presente em cerca de 11 estados brasileiros e se constituindo, ent\u00e3o, como uma entidade nacional. Indissociavelmente do seu trabalho de base, Arcelina foi eleita Secret\u00e1ria-Geral da Funda\u00e7\u00e3o de Mulheres do Brasil, e como sua representante, viajou n\u00e3o apenas o Brasil, como tamb\u00e9m pa\u00edses da Europa, levando para o mundo o exemplo do trabalho das mulheres comunistas desse pa\u00eds. \u201cO caminho que temos que percorrer \u00e9 ainda muito dif\u00edcil, e a nossa luta s\u00f3 cessar\u00e1 quando conquistamos a nossa liberdade\u201d \u2013 essa \u00e9 uma das mais famosas frases desta intensa e comprometida militante, dita em um dos v\u00e1rios Congressos dos quais participou. Arcelina foi uma excepcional oradora e aglutinadora de multid\u00f5es.<\/p>\n<p>Causou impacto em governos da ordem;,apoiou movimentos cruciais como a campanha pela anistia aos presos pol\u00edticos de 1945, o movimento contra a Lei de Seguran\u00e7a Nacional e a For\u00e7a Expedicion\u00e1ria Brasileira, que foi \u00e0 It\u00e1lia lutar contra o nazifascismo, integrou o Comit\u00ea Central do PCB e ainda deu \u00e0 luz a 6 crian\u00e7as. Foi m\u00e3e, esposa, amiga, mulher.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1960, Arcelina passa a enfrentar quest\u00f5es pessoais e de sa\u00fade, que a levam a se resguardar da en\u00e9rgica vida pol\u00edtica. Ainda nessas condi\u00e7\u00f5es, n\u00e3o parou de contribuir para a causa, de um modo ou de outro: abrigou militantes em sua casa, que tentavam se proteger da devastadora repress\u00e3o que se instaurou no Brasil ap\u00f3s o golpe de 1964. Aos 56 anos, em 1974, Arcelina faleceu, deixando para o Brasil um extenso e inspirador legado, que germinou em sua gera\u00e7\u00e3o e ainda hoje germina para as mulheres de luta, como ela, e para todos que buscam os meios de construir o novo mundo. \u00c0 mem\u00f3ria da gloriosa Arcelina Mochel! Que as sementes que plantou em nossa terra f\u00e9rtil sigam gerando cada vez mais frutos pelo Brasil afora.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27319\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[365,180],"tags":[225],"class_list":["post-27319","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-centenario-do-pcb","category-feminista","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-76D","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27319","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27319"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27319\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27319"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27319"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27319"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}