{"id":27346,"date":"2021-05-31T14:08:36","date_gmt":"2021-05-31T17:08:36","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27346"},"modified":"2021-05-31T14:08:36","modified_gmt":"2021-05-31T17:08:36","slug":"as-licoes-da-comuna-de-paris","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27346","title":{"rendered":"As li\u00e7\u00f5es da Comuna de Paris"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.abrilabril.pt\/sites\/default\/files\/styles\/node_aberto_vp768\/public\/assets\/img\/14199.png\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Ilusta\u00e7\u00e3o: Gon\u00e7alo Duarte<\/p>\n<p>AbrilAbril<\/p>\n<p>H\u00e1 150 anos, o dia 28 de maio de 1871 foi um domingo, o Domingo de Pentecostes. Enquanto em outros lugares era festejada a descida do Esp\u00edrito Santo, em Paris, depois de os trabalhadores tentarem tomar os c\u00e9us de assalto, o inferno chegava.<\/p>\n<p>Bairro a bairro, as tropas francesas avan\u00e7avam enquanto os revoltosos ateavam fogo aos edif\u00edcios na tentativa desesperada de parar o avan\u00e7o dos soldados. Muitos communards morriam nos combates ou nos pelot\u00f5es de fuzilamento. Ao longo da sua curta dura\u00e7\u00e3o, a Comuna condenou 500 inimigos \u00e0 morte, ao passo que o ex\u00e9rcito executou mais de 25 mil pessoas em poucos dias, depois de derrotar os revoltosos.<\/p>\n<p>Os combates duraram de 21 at\u00e9 28 de maio, quando o ex\u00e9rcito tomou o \u00faltimo basti\u00e3o da resist\u00eancia. Com isto, a guerra acabou \u2013 mas n\u00e3o a carnificina.<\/p>\n<p>Uma testemunha ocular narrou: \u00abEug\u00e8ne Varlin, que tinha lutado at\u00e9 o \u00faltimo instante, chegou a alcan\u00e7ar a Rue Lafayette, quando foi reconhecido por um oficial de Versalhes. Com as m\u00e3os amarradas nas costas, foi levado a Montmartre; durante todo o caminho para l\u00e1, foi golpeado com coronhas de fuzil e quase linchado por uma entusi\u00e1stica multid\u00e3o de abastados parisienses. Quando chegou \u00e0 tenebrosa Rue des Rosiers, o seu rosto estava massacrado e um olho pendia da cavidade ocular. N\u00e3o conseguia mais ficar de p\u00e9, por isso foi arrastado para o jardim e fuzilado, sentado numa cadeira\u00bb.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que eram capturados, os combatentes communards eram fuzilados. As ruas ficaram vermelhas de sangue ao redor dos locais usados para assassinatos em massa, incluindo conhecidos destinos tur\u00edsticos como Parque Monceau, o Jardim do Luxemburgo, a Pra\u00e7a de It\u00e1lia, a Escola Militar e o cemit\u00e9rio P\u00e8re Lachaise. Pelot\u00f5es de fuzilamento ou metralhadoras trabalhavam 24 horas por dia. Alguns prisioneiros foram for\u00e7ados a cavar suas pr\u00f3prias covas antes de serem fuzilados. Outros, homens e mulheres, mortos a tiro ou a golpes de baionetas, foram despidos e abandonados nas ruas para aterrorizar a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio chefe do Governo, Adolphe Thiers, n\u00e3o deixou d\u00favidas sobre a pol\u00edtica da Terceira Rep\u00fablica para com os trabalhadores revoltados, declarando publicamente, num discurso em 24 de maio, na Assembleia Nacional: \u00abEu derramarei torrentes de sangue\u00bb.<\/p>\n<p>Um frenesi sanguin\u00e1rio apoderou-se dos ricos. O jornal Le Figaro escreveu: \u00abNunca haver\u00e1 uma oportunidade como esta para curar Paris da gangrena moral que a atormenta h\u00e1 20 anos. (\u2026) Vamos, homens de bem! Ajudem-nos a acabar com os vermes democratas e socialistas, devemos ca\u00e7ar como animais os que est\u00e3o escondidos\u00bb.<\/p>\n<p>Para a aristocracia financeira, estava aberta a temporada de ca\u00e7a aos trabalhadores. Circularam na imprensa boatos delirantes de que mulheres communards estavam incendiando casas com gasolina, e qualquer mulher da classe trabalhadora que fosse encontrada com \u00f3leo corria perigo. As mulheres que tentassem cremar os corpos de seus maridos assassinados, ou que comprassem azeite para cozinhar, eram executadas. Multid\u00f5es abastadas espancavam os communards detidos pelo ex\u00e9rcito, antes de eles serem fuzilados, ou davam dinheiro aos soldados que se vangloriavam de matar mulheres e crian\u00e7as. No seu livro, publicado em 2014, Comuna de Paris, Massacre, o historiador John Merriman escreveu:<\/p>\n<p>\u00abAs pessoas eram despidas e os seus ombros examinados \u00e0 procura de marcas deixadas pelo coice das espingardas. Caso tivessem esses vest\u00edgios, eram imediatamente mortas. Homens que estavam mal vestidos, que n\u00e3o podiam justificar imediatamente o que faziam ou que n\u00e3o exerciam um of\u00edcio &#8216;apropriado&#8217; tinham poucas hip\u00f3teses de sobreviver ao expedito julgamento diante de um tribunal marcial\u00bb.<\/p>\n<p>Depois de mais de 25 mil parisienses terem sido fuzilados e abatidos pelo ex\u00e9rcito franc\u00eas, outros 40 mil foram levados em marcha at\u00e9 Versalhes, sem comida ou \u00e1gua, para serem julgados. No caminho, oficiais e guardas atiravam arbitrariamente em retardat\u00e1rios e em outros prisioneiros. Cerca de 11 mil foram deportados para campos de trabalho for\u00e7ado.<\/p>\n<p>\u00abSegundo in\u00fameros testemunhos, a pris\u00e3o mais cruel foi a de Saint-Marcouf. Os prisioneiros ficaram ali mais de seis meses privados de ar, de luz, sem poderem conversar, sem tabaco e alimentando-se apenas de migalhas de biscoitos escuros e toucinho ran\u00e7oso. Todos tiveram escorbuto\u00bb, relata Prosper-Olivier Lissagaray, um dos sobreviventes da Comuna.1<\/p>\n<p>Ao relembrar no seu di\u00e1rio a Semana Sangrenta, o conhecido cr\u00edtico liter\u00e1rio Edmond de Goncourt mostrou os c\u00e1lculos assassinos da elite governante. Em 31 de maio de 1871, escreveu:<\/p>\n<p>\u00ab\u00c9 bom que n\u00e3o tenha havido nem concilia\u00e7\u00e3o nem barganha. A solu\u00e7\u00e3o foi brutal. Foi por pura for\u00e7a. (\u2026) A solu\u00e7\u00e3o restaurou a confian\u00e7a do ex\u00e9rcito, que descobriu com o sangue dos communards que ainda era capaz de lutar. No fim, a sangria foi uma drenagem de recursos; um expurgo como este, exterminando a parte mais combativa da popula\u00e7\u00e3o, adia a pr\u00f3xima revolu\u00e7\u00e3o por uma gera\u00e7\u00e3o inteira. A velha sociedade tem 20 anos de descanso pela frente, se as autoridades ousarem fazer tudo o que podem neste momento\u00bb.<\/p>\n<p>Milhares de pessoas tiveram que se esconder na Fran\u00e7a ou no estrangeiro para escapar \u00e0 repress\u00e3o. Segundo Lissagaray, \u00abpode calcular-se o conjunto das perdas com este fato: nas elei\u00e7\u00f5es complementares de julho, houve 100 mil eleitores a menos que nas de fevereiro. O Jornal des D\u00e9bats calculava que &#8216;as perdas ocasionadas pelo partido da insurrei\u00e7\u00e3o, tanto em mortos como em presos, atingiam o n\u00famero de 100 mil indiv\u00edduos&#8217;. A ind\u00fastria parisiense foi-se muito abaixo. Os chefes, os contramestres, os trabalhadores especializados das oficinas foram mortos, presos ou exilados. O cal\u00e7ado perdeu metade dos seus trabalhadores, a marcenaria mais de um ter\u00e7o, 10 mil trabalhadores alfaiates, a maior parte dos pintores, dos canalizadores, dos zincadores desapareceram\u00bb.<\/p>\n<p>Um morto cujas ideias sobrevivem<\/p>\n<p>\u00abO cad\u00e1ver est\u00e1 ca\u00eddo, mas a ideia continua de p\u00e9\u00bb, escrevia Lissagaray sobre as d\u00e9cadas que se seguiram \u00e0 queda da Comuna. Os protestos e as revoltas n\u00e3o pararam, mas a repress\u00e3o e a derrota deixaram a sua marca.<\/p>\n<p>Os pensadores marxistas que analisaram essa experi\u00eancia devastadora consideram que foi uma li\u00e7\u00e3o sobre as consequ\u00eancias da derrota nas revolu\u00e7\u00f5es. A burguesia est\u00e1 disposta a destruir cidades, pa\u00edses inteiros ou mesmo o mundo para esmagar uma amea\u00e7a ao seu dom\u00ednio de classe. A necessidade de os trabalhadores suprimirem a viol\u00eancia contrarrevolucion\u00e1ria da minoria privilegiada exige uma a\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel para tomar e conseguir manter o poder.<\/p>\n<p>A forma como Marx viveu os acontecimentos da Comuna foram resumidos por L\u00eanin num pref\u00e1cio \u00e0s Cartas a Kugelman, em 1907. \u00abMarx dizia, em setembro de 1870, que uma insurrei\u00e7\u00e3o seria loucura. Em abril de 1871, quando assiste a um movimento popular de massas, segue-o com a aten\u00e7\u00e3o extrema de um homem que participa num grande acontecimento marcando um progresso do movimento revolucion\u00e1rio hist\u00f3rico mundial\u00bb.<\/p>\n<p>Sobre a Comuna, Marx e Engels colocaram em evid\u00eancia tr\u00eas tarefas que uma revolu\u00e7\u00e3o deve cumprir para ser vitoriosa.<\/p>\n<p>A primeira tarefa \u00e9 expressa por Marx no pref\u00e1cio do Manifesto Comunista: \u00abA Comuna demonstrou que a classe oper\u00e1ria n\u00e3o pode contentar-se com apoderar-se, tal como est\u00e1, da m\u00e1quina do Estado e de a fazer funcionar por sua conta\u00bb. N\u00e3o era suficiente fazer mudar de m\u00e3o o aparelho de Estado, era preciso \u00abdestru\u00ed-lo\u00bb.<\/p>\n<p>A segunda tarefa \u00e9 construir um novo Estado que seja \u00abessencialmente um governo da classe oper\u00e1ria\u00bb, e que seja definido por uma limita\u00e7\u00e3o da democracia representativa em rela\u00e7\u00e3o ao controle oper\u00e1rio.<\/p>\n<p>A terceira tarefa \u00e9 erigir um Estado que seja capaz, como qualquer Estado, de exercer fun\u00e7\u00f5es repressivas. O grande fracasso da Comuna de Paris foi n\u00e3o ter sido capaz de ter essa capacidade. Marx escreveu em abril de 1871: \u00abSe fracassarem, ser\u00e1 unicamente por terem sido demasiado gentis\u00bb.<\/p>\n<p>Na senda de Marx e Engels, L\u00eanin, \u00e0s v\u00e9speras da tomada do poder pelos bolcheviques, em Outubro de 1917, refletiu, em O Estado e a Revolu\u00e7\u00e3o, sobre a quest\u00e3o do Estado e a breve experi\u00eancia do poder oper\u00e1rio da Comuna.<\/p>\n<p>Marx e Engels, explicou L\u00eanin, conclu\u00edram que o Estado n\u00e3o era um instrumento para a concilia\u00e7\u00e3o das classes, mas um produto da irreconciliabilidade dos antagonismos de classe. Examinaram tanto os dados antropol\u00f3gicos de sociedades primitivas, em que n\u00e3o existia Estado, como tamb\u00e9m o conflito entre o Estado capitalista e a popula\u00e7\u00e3o armada de Paris, em 1871. O Estado, escreveu Engels, estabelece \u00abuma for\u00e7a p\u00fablica que n\u00e3o coincide diretamente com a popula\u00e7\u00e3o, organizando-se como uma for\u00e7a armada\u00bb.<\/p>\n<p>E acrescentou: \u00abEssa for\u00e7a p\u00fablica particular \u00e9 necess\u00e1ria porque uma organiza\u00e7\u00e3o armada aut\u00f4noma da popula\u00e7\u00e3o se tornou imposs\u00edvel desde a divis\u00e3o em classes. (&#8230;) Essa for\u00e7a p\u00fablica existe em cada Estado; n\u00e3o se comp\u00f5e apenas de homens armados, mas tamb\u00e9m de anexos materiais, pris\u00f5es e institui\u00e7\u00f5es de coer\u00e7\u00e3o de todo o tipo (\u2026) e fica mais forte, \u00e0 medida que se acentuam as contradi\u00e7\u00f5es de classe\u00bb.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia da Comuna de Paris, e essa an\u00e1lise do Estado feita pelos marxistas, teve implica\u00e7\u00f5es profundas. Ao contr\u00e1rio do que os reformistas defendiam, os marxistas garantiam que utilizar o Estado capitalista para diminuir os antagonismos de classe e fornecer paz e prosperidade duradouras era totalmente ut\u00f3pico. Assim como estava errada, segundo eles, a perspectiva anarquista, que clamava pela dissolu\u00e7\u00e3o imediata de todas as formas de poder estatal \u2013 opondo-se, portanto, \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de um Estado oper\u00e1rio que combatesse a viol\u00eancia contrarrevolucion\u00e1ria da classe dominante.<\/p>\n<p>L\u00eanin enfatizou a conclus\u00e3o de Marx de que \u00aba classe trabalhadora n\u00e3o pode simplesmente apoderar-se do aparelho do Estado tal como ele est\u00e1 \u00e9 e manej\u00e1-lo para seus pr\u00f3prios fins\u00bb. Em vez disso, a classe trabalhadora precisava construir o seu pr\u00f3prio Estado, como os trabalhadores parisienses fizeram em 1871. Isso significava, antes de tudo, construir um partido para introduzir na classe trabalhadora a consci\u00eancia pol\u00edtica e hist\u00f3rica e a necessidade de uma pol\u00edtica revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Essa perspectiva foi a base da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro de 1917 e da transfer\u00eancia do poder do Estado, dirigida pelo Partido Bolchevique, defendendo que deviam ser os sovietes, \u00f3rg\u00e3os eleitos pelos oper\u00e1rios e camponeses, a tomar o lugar da autocracia czarista.<\/p>\n<p>\u00abAo for\u00e7ar a quest\u00e3o da forma pol\u00edtica do povo, a Comuna de Paris serve como ponto de refer\u00eancia fundamental nas discuss\u00f5es marxistas do Estado. Que forma assume o autogoverno do povo? Na medida em que o povo precede o Estado, a an\u00e1lise do acontecimento da Comuna abre-se necessariamente \u00e0 subjetiva\u00e7\u00e3o do povo e ao processo pol\u00edtico do qual o povo \u00e9 o sujeito. E na medida em que o povo politizado \u00e9 um povo dividido, uma parte de um conjunto constituidamente aberto e incompleto, o lugar de onde o povo \u00e9 compreendido \u00e9 necessariamente partid\u00e1rio. A quest\u00e3o do partido precede a quest\u00e3o do Estado. At\u00e9 colocarmos o partido como uma possibilidade, as discuss\u00f5es sobre o Estado \u2013 se devemos ou n\u00e3o visar ou capturar o Estado \u2013 n\u00e3o s\u00e3o mais do que fantasias que encobrem o fracasso como uma escolha. N\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o pud\u00e9ssemos tomar o poder; simplesmente n\u00e3o quer\u00edamos faz\u00ea-lo\u00bb, defende Jodi Dean, no artigo Commune, Party, State.<\/p>\n<p>Multid\u00e3o, povo e classe<\/p>\n<p>Uma caracter\u00edstica da discuss\u00e3o sobre a Comuna de Paris \u00e9 a multid\u00e3o, o povo, a classe trabalhadora, a presen\u00e7a chocante daqueles que foram exclu\u00eddos da pol\u00edtica, agora a impor a sua presen\u00e7a nesse lugar.<\/p>\n<p>A Comuna poderia nomear uma divis\u00e3o, \u00aba ant\u00edtese direta ao imp\u00e9rio\u00bb, nas palavras de Marx.<\/p>\n<p>Contudo, at\u00e9 que a multid\u00e3o criasse abertura para ela, foi apenas uma \u00abvaga aspira\u00e7\u00e3o\u00bb, denotando uma oposi\u00e7\u00e3o fundamental.<\/p>\n<p>A luta pela Comuna foi tamb\u00e9m uma luta pelo seu significado. Tem sido oferecida como figura do republicanismo, nacionalismo patri\u00f3tico, federalismo, centralismo, comunismo, socialismo, anarquismo, at\u00e9 mesmo secessionismo. Marx v\u00ea a multiplicidade das suas significa\u00e7\u00f5es, \u00abe a multiplicidade de interesses que a interpretaram a seu favor\u00bb, como indicativo da profunda expansividade da forma Comuna. Este mesmo excesso pode tamb\u00e9m ser lido como uma falta, como a lacuna do pol\u00edtico. Por exemplo, embora o discurso de abertura de Charles Beslay descrevesse a Comuna como um governo municipal concentrado em assuntos locais, os seus decretos rapidamente abrangeram assuntos nacionais. Como observa Prosper Olivier Lissagaray no seu relato definitivo, foi \u00abComunh\u00e3o de manh\u00e3, Assembleia Constituinte \u00e0 noite\u00bb.<\/p>\n<p>Marx sugere que a Comuna de Paris deu um vislumbre de uma solu\u00e7\u00e3o para o problema da forma pol\u00edtica do povo. Embora todas as formas anteriores de governo tivessem sido repressivas, a Comuna era uma \u00abforma pol\u00edtica completamente expansiva\u00bb. A &#8216;Comuna&#8217; foi denominada uma aspira\u00e7\u00e3o e antagonismo; designava a alternativa ao imp\u00e9rio. Dentro da luta em curso sobre a realiza\u00e7\u00e3o positiva dessa alternativa, Marx d\u00e1 prioridade a um entre os m\u00faltiplos interesses que se poderiam ver na forma da Comuna, apresentando a Comuna &#8216;essencialmente&#8217; como a forma pol\u00edtica \u00absob a qual se realiza a emancipa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do trabalho\u00bb.<\/p>\n<p>Marx trata a coer\u00eancia que inscreveu como uma subjetiviza\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria, um acontecimento na express\u00e3o pol\u00edtica da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>Em vez de resolver um problema pol\u00edtico, a Comuna coloca um: a soberania do povo. Ser\u00e1 poss\u00edvel e que formas pode assumir? O car\u00e1ter n\u00e3o-total do povo tem sido um ponto de colagem consistente na teoria democr\u00e1tica. Se o povo n\u00e3o \u00e9 uma unidade, como pode ele pr\u00f3prio governar? Como pode falar ou legislar? Marx explica: \u00abA classe revolucion\u00e1ria emerge no in\u00edcio simplesmente porque se op\u00f5e a uma classe n\u00e3o como uma classe, mas como representante de toda a sociedade\u00bb. Este \u00e9 o sentido em que a luta de classes \u00e9 uma luta pol\u00edtica. Em vez de determinada dentro das condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas em que a classe confronta a classe, como duas for\u00e7as distintas com interesses particulares, a classe que faz a revolu\u00e7\u00e3o representa os seus interesses gerais sobre e contra a vontade particular da classe opressora. Mais precisamente, os partid\u00e1rios e aliados de classe lutam para apresentar o real da interrup\u00e7\u00e3o destrutiva da multid\u00e3o como express\u00e3o do desejo do povo\u00bb.<\/p>\n<p>Subjetiviza\u00e7\u00e3o e Processo Subjectivo<\/p>\n<p>Em Theory of the Subject, um livro que surgiu de um semin\u00e1rio dado entre 1975 e 1979, Alain Badiou diz que a tradi\u00e7\u00e3o marxista nos deu duas avalia\u00e7\u00f5es da Comuna de Paris. A primeira, de Marx, considera concretamente a Comuna em termos dos objetivos pol\u00edticos da classe trabalhadora no que diz respeito ao Estado. O proletariado tem de esmagar a velha maquinaria estatal e construir novos \u00f3rg\u00e3os de poder pol\u00edtico. Tem de tomar esse lugar e exercer for\u00e7a. A segunda avalia\u00e7\u00e3o da Comuna, de L\u00eanin, retoma esta concep\u00e7\u00e3o e traz \u00e0 tona o aspecto subjetivo da for\u00e7a. Pela sua \u00abavalia\u00e7\u00e3o silenciosa\u00bb da Comuna, Badiou diz-nos que L\u00eanin tira quatro consequ\u00eancias da derrota da Comuna: \u00ab\u00c9 necess\u00e1rio praticar uma pol\u00edtica marxista, e n\u00e3o alguma revolta rom\u00e2ntica local\u00bb; \u00ab\u00e9 necess\u00e1rio ter alguma vis\u00e3o global das coisas [&#8230;] e n\u00e3o ser fragmentado no federalismo das lutas\u00bb; \u00ab\u00e9 necess\u00e1rio forjar uma alian\u00e7a com as massas rurais\u00bb; e \u00ab\u00e9 necess\u00e1rio quebrar a contrarrevolu\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de um processo ininterrupto, militarmente ofensivo e centralizado\u00bb. L\u00eanin concebe o partido, inferindo um certo tipo de for\u00e7a subjetiva da Comuna. Por outras palavras, ele l\u00ea a Comuna como um efeito ou consequ\u00eancia de um sujeito pol\u00edtico e constr\u00f3i a sua ideia do partido a partir desta leitura.<\/p>\n<p>A ruptura da multid\u00e3o tem de ser politizada, ligada a um sujeito pol\u00edtico. A multid\u00e3o proporciona uma oportunidade material para a express\u00e3o de um sujeito pol\u00edtico, um momento que aconteceu e cujo acontecimento pode ser atribu\u00eddo ao funcionamento deste sujeito pol\u00edtico.<\/p>\n<p>O povo como sujeito coletivo surgiu atrav\u00e9s da perturba\u00e7\u00e3o da multid\u00e3o, na medida em que havia algo sobre a insurrei\u00e7\u00e3o que era inimagin\u00e1vel antes da sua erup\u00e7\u00e3o. O imposs\u00edvel aconteceu, obrigando Marx a tomar uma posi\u00e7\u00e3o: de que lado estava ele? Aqui estava a imprevisibilidade de um povo for\u00e7ando uma mudan\u00e7a de teoria e de pr\u00e1tica. Multid\u00e3o revoltada, forma pol\u00edtica dispon\u00edvel e for\u00e7a do imposs\u00edvel. Marx responde a esta apari\u00e7\u00e3o do povo com fidelidade. Como diz em carta a Kugelmann, independentemente dos m\u00faltiplos erros t\u00e1ticos e pol\u00edticos da Comuna, \u00aba atual ascens\u00e3o em Paris \u2013 mesmo que seja esmagada pelos lobos, porcos e a maldi\u00e7\u00e3o vil da velha sociedade \u2013 \u00e9 o ato mais glorioso do nosso Partido desde a insurrei\u00e7\u00e3o de Junho em Paris\u00bb.<\/p>\n<p>1. Escreveu dois importantes livros sobre a Comuna de Paris: Les huit journ\u00e9es de mai derri\u00e8re les barricades (1871), no calor dos acontecimentos; e L&#8217;Histoire de la Commune de 1871 (1876), depois de aturadas pesquisas, que n\u00e3o impediram a proibi\u00e7\u00e3o do livro em Fran\u00e7a, onde apenas circulou clandestinamente at\u00e9 1896.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27346\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[367],"tags":[234],"class_list":["post-27346","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-comuna-de-paris","tag-6b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-774","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27346","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27346"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27346\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27346"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27346"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27346"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}