{"id":27415,"date":"2021-06-13T17:00:36","date_gmt":"2021-06-13T20:00:36","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27415"},"modified":"2021-06-24T13:25:25","modified_gmt":"2021-06-24T16:25:25","slug":"capitalismo-racismo-e-violencia-policial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27415","title":{"rendered":"Capitalismo, Racismo e Viol\u00eancia Policial"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/pw\/ACtC-3eVQhAbT_VGs9QXmhRci7cJerFrdwKwSXGvJyjWSVpdQJvKnYvoChVOYvUkOMlpFucOL1FMicLYk2aGqMaroi6Yg8S9AKnSOGEdlyHJWWNjVY6rwtYDQcGv1zeqhA9x92erP9WFaID9_OIwpkSwyOtg=w750-h375-no\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Por Victor Ferreira Dias Santos e Pedro Magalh\u00e3es<\/p>\n<p>JORNAL O MOMENTO &#8211; PCB da Bahia<\/p>\n<p>\u201cMeu filho foi morto com fome\u201d: Capitalismo, Racismo e Viol\u00eancia Policial no Cen\u00e1rio Baiano<\/p>\n<p>Desde a d\u00e9cada de 1980, o conjunto dos movimentos negros organizados v\u00eam denunciando e mostrando a condi\u00e7\u00e3o do Brasil, pautando a supera\u00e7\u00e3o do mito de democracia racial, essa cortina de fuma\u00e7a criada pelas elites brancas para que n\u00e3o enxerguemos a dimens\u00e3o racial dos conflitos interclasses. E foram muitas vit\u00f3rias, como aponta Sueli Carneiro, principalmente nas pautas voltadas para a educa\u00e7\u00e3o. Contudo, essa mesma militante hist\u00f3rica destaca que cada vez mais surgem mecanismos subjetivos da burguesia para minar alguns avan\u00e7os e creditar outros a essa pr\u00f3pria classe e n\u00e3o \u00e0s den\u00fancias e \u00e0s constru\u00e7\u00f5es do movimento negro.<\/p>\n<p>Outro intelectual negro que aponta para esses novos mecanismos sobre a quest\u00e3o racial \u00e9 Silvio Almeida, sinalizando principalmente para a forma como a negritude de nosso pa\u00eds foi sendo \u201cinserida\u201d na atual forma organizativa do sistema capitalista. Tanto Sueli Carneiro e Silvio Almeida apontam para as armadilhas do consumo, normalmente caracterizadas como Black Money, e uma representatividade vazia. Sueli inclusive ousa em apontar para um momento de uma esp\u00e9cie de tentativa de uma neodemocracia racial, indicando a tend\u00eancia de retomada desse mito na forma de conter os movimentos negros organizados, eliminando a possibilidade de esses militantes atuarem politicamente em prol de seus interesses enquanto classe trabalhadora negra.<\/p>\n<p>Essa tentativa vem causando diversos impactos em nossas pr\u00f3prias mobiliza\u00e7\u00f5es e projetos de uma nova sociedade. Principalmente pela falsa sensa\u00e7\u00e3o de que agora estamos aparecendo, que uma est\u00e9tica (que busca o n\u00edvel da padroniza\u00e7\u00e3o) agora existe e que nesse momento deixamos de ser invis\u00edveis e passamos a ter destaque. Ser\u00e1 mesmo que a Rede Globo colocar um ou outro ator ou atriz negra resolve a repress\u00e3o em torno de n\u00f3s? O mesmo para os comerciais de TV, como no caso da Natura, que cada vez mais vem utilizando desses mecanismos, mas, ao mesmo tempo, continua explorando de forma hegem\u00f4nica a for\u00e7a de trabalhadora da popula\u00e7\u00e3o preta (em sua maioria, feminina) em seus trabalhos mais precarizados?<\/p>\n<p>Esses s\u00e3o questionamentos importantes para refletirmos no conjunto do movimento pol\u00edtico negro e no seio da classe trabalhadora, pois cada vez mais vamos nos afastando do entendimento das estruturas e composi\u00e7\u00e3o dessa sociedade e caindo em uma armadilha que nos prende, sujeitos pol\u00edticos, \u00e0 apar\u00eancia imediata de uma situa\u00e7\u00e3o que aflige de forma direta nossa condi\u00e7\u00e3o enquanto pr\u00f3prios seres humanos.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o enfrentada pela popula\u00e7\u00e3o negra e pobre \u00e9 alarmante. Segundo dados do IBGE, em 2018, 75,7% das mortes por homic\u00eddio foram de pessoas negras. Esse dado apresenta apenas um reflexo da forma como o nosso pa\u00eds foi moldado: nas bases de um sistema \u2013 capitalista e escravista \u2013 que tem as pessoas pretas \u00e0 mira para defender a sua propriedade. Dessa forma, o racismo, na particularidade brasileira, n\u00e3o se resume apenas a formas de comportamento ou atitudes individuais. Para a estrutura capitalista sobreviver, \u00e9 necess\u00e1rio que se mantenha o racismo, super-explorando a fra\u00e7\u00e3o negra da classe trabalhadora, sendo mais uma raz\u00e3o para explorar o conjunto da classe trabalhadora, condenando-a \u00e0s piores mazelas.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio, o Estado segue perpetuando \u00edndices alt\u00edssimos de assassinato da popula\u00e7\u00e3o preta com os objetivos de defesa da propriedade privada e concilia\u00e7\u00e3o dos conflitos entre trabalhadores e patr\u00f5es. Contudo, dentro dessa fun\u00e7\u00e3o, a burguesia e as elites assumem o poder e ditam as regras e mecanismos objetivos-subjetivos para que se mantenham no poder e conservem a sociabilidade capitalista na sua ess\u00eancia.<\/p>\n<p>L\u00eanin e Engels j\u00e1 apontavam para a necessidade dessa supera\u00e7\u00e3o do Estado, no horizonte de supera\u00e7\u00e3o das pr\u00f3prias classes antag\u00f4nicas e rumando para a \u00fanica classe ao lado da verdade, os trabalhadores e as trabalhadoras. Essa necessidade hist\u00f3rica torna-se mais pulsante para a popula\u00e7\u00e3o preta do Brasil e da cidade de Salvador, que continuamente sofre com a morte, a repress\u00e3o e as condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de sobreviv\u00eancia. As diversas opera\u00e7\u00f5es que ocorrem nas favelas e periferia s\u00e3o recorrentes, tornando-se cotidianas na vida desses trabalhadores e trabalhadoras.<\/p>\n<p>Esta mesma popula\u00e7\u00e3o tem sofrido com a guerra \u00e0s drogas, que n\u00e3o tem como objetivo acabar com o consumo, mas sim avan\u00e7ar no exterm\u00ednio da popula\u00e7\u00e3o negra e perif\u00e9rica, especialmente jovens. Sabemos que os principais comandantes e articuladores do tr\u00e1fico encontram-se principalmente em locais de luxo, sendo muitos pol\u00edticos, como foi o caso inc\u00f3gnito do senador A\u00e9cio Neves e seus cem quilos de pasta base para coca\u00edna que at\u00e9 hoje n\u00e3o houve um culpado sequer.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia policial n\u00e3o ocorre de vez ou outra. O Atlas da Viol\u00eancia do ano passado revela que o homic\u00eddio de pessoas negras cresceu cerca de 34% na d\u00e9cada de 2008-2018, com n\u00fameros assustadores no Acre (373%), Roraima (316%) e no Cear\u00e1 (225%). Na Bahia e no Rio de Janeiro, essas porcentagens tamb\u00e9m s\u00e3o maiores que a m\u00e9dia nacional, al\u00e9m de representarem quantidades numericamente maiores que no Acre, Roraima e no Cear\u00e1.<\/p>\n<p>Muitos e muitas jovens negro-brasileiros\/as tombaram pela m\u00e3o do Estado nesses lugares. No Rio, o Estado capitalista-racista ceifou a vida da sorridente menina-maravilha \u00c1gatha Vit\u00f3ria Sales F\u00e9lix (8 anos). Um ano depois, mais de 28 crian\u00e7as foram baleadas na Grande Rio, dentre elas, o Jo\u00e3o Pedro Mattos Pinto (14 anos), que brincava com amigos antes de receber uma bala na barriga e n\u00e3o resistiu. Mais recentemente, uma opera\u00e7\u00e3o policial durante a pandemia da COVID-19 tirou a vida de 29 trabalhadores negros, alvejados muitas vezes na frente de seus familiares durante um massacre na comunidade do Jacarezinho no in\u00edcio desse m\u00eas.<\/p>\n<p>Na Bahia, a realidade n\u00e3o \u00e9 muito diferente. Uma realidade que foi moldada pelas teorias racistas, colocando o negro como essencialmente marginal, criadas pelo m\u00e9dico negro Nina Rodrigues e postas em pr\u00e1tica pela pol\u00edtica matadora do carlismo. Essa pol\u00edtica de morte levou a vida de muitas crian\u00e7as e jovens negros e negras baianas, sendo cr\u00edticos e extremamente cru\u00e9is casos como a chacina do Cabula, na qual, a mando de Rui Costa, a Pol\u00edcia Militar da Bahia (PM-BA) executou doze jovens negros em nome da guerra \u00e0s drogas. Um outro caso problem\u00e1tico foi o dos jovens Bruno Barros (29 anos) e Yan Barros (19 anos), torturados e mortos nas depend\u00eancias do Atakarejo Salvador por tentarem furtar quatro pacotes de carne para saciar a fome enfrentada. Os movimentos n\u00e3o deixaram de se articular ante esses casos n\u00e3o pontuais de viol\u00eancia. Muitos atos, especialmente motivados pela chacina do Jacarezinho, ocorreram em todo o pa\u00eds. Todos eles ocorreram no dia 13 de maio de 2021, denunciando a fal\u00e1cia que foi a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura e a necessidade constante do movimento negro de se massificar para fazer esse embate com a classe dominante branca com mais for\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00c9 ineg\u00e1vel que, ao vermos nossa juventude sendo massacrada, busquemos solu\u00e7\u00f5es e respostas para essa situa\u00e7\u00e3o, mas essas n\u00e3o podem ser ditadas pela pr\u00f3pria burguesia e seu aparato midi\u00e1tico. Devemos buscar na coletividade e com as experi\u00eancias de nossos irm\u00e3os, irm\u00e3s e camaradas, que resistiram e ousaram mudar em outros per\u00edodos hist\u00f3ricos, como Angela Davis, Samora Machel, Assata Shakur, Carlos Marighela, Pedro Domiense, Minervino de Oliveira, L\u00e9lia Gonzalez, Astrojildo Pereira e outros que n\u00e3o esmoreceram em momentos semelhantes ao que vivemos atualmente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27415\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[20,244],"tags":[223],"class_list":["post-27415","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c1-popular","category-violencia","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-78b","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27415","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27415"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27415\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27415"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27415"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27415"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}