{"id":27428,"date":"2021-06-17T00:10:22","date_gmt":"2021-06-17T03:10:22","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27428"},"modified":"2021-06-17T00:10:22","modified_gmt":"2021-06-17T03:10:22","slug":"jones-manoel-entrevista-para-abrilabril","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27428","title":{"rendered":"Jones Manoel: entrevista para AbrilAbril"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.abrilabril.pt\/sites\/default\/files\/styles\/6c-275x175\/public\/assets\/img\/14285.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Por Nuno Ramos de Almeida<\/p>\n<p>ABRIL ABRIL<\/p>\n<p>Tem 31 anos, \u00e9 historiador, marxista, youtuber, professor de Hist\u00f3ria, comunicador popular, escritor, militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e conhecido pelo seu canal no YouTube denominado Jones Manoel. Nascido numa favela do Recife, chegou ao marxismo-leninismo a partir da vida e do rap. A conversa com o AbrilAbril come\u00e7a com a quest\u00e3o do Estado e acaba nas redes sociais.<\/p>\n<p>AA: Faz 150 anos que a Comuna de Paris foi derrotada depois da Semana Sangrenta. H\u00e1 alguma raz\u00e3o comum que justifique esta derrota e todos os outros insucessos nas revolu\u00e7\u00f5es feitas pelos explorados?<\/p>\n<p>JM: A Comuna Paris surge numa situa\u00e7\u00e3o muito adversa, num contexto da guerra Franco-Prussiana em que o governo da Fran\u00e7a assumiu uma postura de trai\u00e7\u00e3o nacional, entregou o pa\u00eds \u00e0 Pr\u00fassia e os oper\u00e1rios de Paris resolveram tomar o poder. Marx tinha alertado, antes da Comuna, que seria um suic\u00eddio os oper\u00e1rios tentarem tomar o poder. Quando eles o fizeram, Marx analisou objetivamente as raz\u00f5es que levaram \u00e0 sua derrota. A esquerda ocidental tem um fetiche pela derrota e pelo mart\u00edrio. Ela adora quem perdeu.<\/p>\n<p>AA: Talvez porque nunca ganharam<\/p>\n<p>JM: A ideologia dominante permite que a gente tenha refer\u00eancias, mas desde que elas sejam refer\u00eancias de mart\u00edrio e n\u00e3o de exerc\u00edcio de poder. Para setores da burguesia e dos intelectuais democr\u00e1ticos, uma figura como Che Guevara \u00e9 muito mais saborosa que uma figura como Fidel Castro. Che Guevara morreu enquanto exemplo de mart\u00edrio, e Fidel Castro permaneceu enquanto l\u00edder e estadista do processo revolucion\u00e1rio. H\u00e1 gente que gosta muito de assassinados, como Che Guevara, Rosa Luxemburgo e Gramsci, esvaziando-os da perspectiva comunista e apagando o que defendiam. Paralelamente, dirigentes revolucion\u00e1rios como Fidel Castro, Ho Chi Minh, Mao Ze Dong e Kim Il-Sung s\u00e3o quase sempre odiados, ostracizados e chamados de ditadores que tra\u00edram a revolu\u00e7\u00e3o em algum lugar da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Mas voltando \u00e0 Comuna, acho muito importante vermos o que s\u00e3o os ensinamentos da derrota. Marx e Engels apontam duas coisas: primeiro, os communards n\u00e3o tomaram o Banco da Fran\u00e7a, elemento fundamental que os colocaria numa situa\u00e7\u00e3o de maior poder para pressionar e negociar com a burguesia francesa; segundo, usaram muito pouco a capacidade de repress\u00e3o e de elimina\u00e7\u00e3o do inimigo de classe. Isso est\u00e1 muito bem documentado num texto de Engels sobre a autoridade. O ensinamento importante que a Comuna deixa \u00e9 que a burguesia n\u00e3o tem \u00e9tica, n\u00e3o tem pudor, e trata a luta de classes como uma guerra de classes, o que significa que elimina fisicamente o inimigo. Na esquerda, a gente pensa muito pouco em termos estrat\u00e9gicos e subordinamos a estrat\u00e9gia \u00e0 \u00e9tica. N\u00e3o se devem perder as oportunidades de golpear o inimigo de classe o mais profundamente poss\u00edvel, para melhorar as nossas condi\u00e7\u00f5es no enfrentamento. Caso contr\u00e1rio, vamos ficar chorando derrotas e a orgulhar-nos da pureza. Lembro quando aconteceu o golpe de Estado na Bol\u00edvia, em 2019, e o fil\u00f3sofo Slavoj Zizek lan\u00e7ou um texto em que se dizia orgulhoso pelo governo boliviano n\u00e3o ter sido um governo autorit\u00e1rio, e que mesmo quando veio o golpe de Estado n\u00e3o reprimiu os golpistas. Esse tipo de pensamento \u00e9 tudo, menos marxista.<\/p>\n<p>AA: N\u00e3o pode haver a acusa\u00e7\u00e3o inversa? No sentido de que a necessidade de defender a revolu\u00e7\u00e3o exige muitas vezes uma permanente militariza\u00e7\u00e3o dos regimes socialistas e a necessidade de usar meios policiais, deixando a certa altura de existir o socialismo, dado que se esvazia a participa\u00e7\u00e3o popular e dos trabalhadores?<\/p>\n<p>JM: Para mim, o maior problema das experi\u00eancias socialistas no s\u00e9culo XX foi n\u00e3o conseguir uma dial\u00e9tica que permitisse a defesa interna do processo revolucion\u00e1rio contra a press\u00e3o imperialista e, ao mesmo tempo, conseguir ampliar e fortalecer a democracia socialista. A Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica \u00e9 um belo exemplo de que a defesa dos ataques do imperialismo acabou por conduzir \u00e0 legitima\u00e7\u00e3o de um processo progressivo de esvaziamento da democracia socialista, levando ao enfraquecimento da base de consenso do projeto socialista ao ponto de ser destru\u00eddo. J\u00e1 no caso de Cuba, vai-se conseguindo defender do imperialismo, ao mesmo tempo em que conserva uma vitalidade e um n\u00edvel de democracia socialista muito interessante. Isto \u00e9 um problema real, considerando que os EUA t\u00eam mais de 800 bases espalhadas pelo mundo, o maior or\u00e7amento militar, o maior aparelho de espionagem, sabotagem e guerra suja do mundo, que \u00e9 a CIA. Isso sem contar que estamos na era das redes sociais, o que permite um n\u00edvel de vigil\u00e2ncia e controle nunca antes poss\u00edvel.<\/p>\n<p>A defesa da revolu\u00e7\u00e3o pode acabar por criar processos de burocratiza\u00e7\u00e3o, mas isso n\u00e3o nos deve levar a subestimar a necessidade das revolu\u00e7\u00f5es se defenderem. A vis\u00e3o de L\u00eanin da necessidade do povo em armas continua atual. \u00c9 importante socializar ao m\u00e1ximo a defesa. Mas a quest\u00e3o \u00e9 que, na era dos m\u00edsseis intercontinentais, o povo em armas n\u00e3o garante a defesa de qualquer pa\u00eds. Sem estrutura militar n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel manter o segredo militar. A necessidade de defesa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 maior pot\u00eancia imperialista do mundo imp\u00f5e restri\u00e7\u00f5es ao processo de democratiza\u00e7\u00e3o socialista. Enquanto n\u00e3o se fizer uma revolu\u00e7\u00e3o no centro do imp\u00e9rio \u00e9 um problema que vamos ter de enfrentar.<\/p>\n<p>AA: Em Marx, a ditadura do proletariado era uma fase curta para cimentar o poder do proletariado. Em O Estado e a Revolu\u00e7\u00e3o, L\u00eanin defende que o Estado deveria imediatamente ir desaparecendo, que s\u00f3 ser\u00e1 democr\u00e1tico quando puder ser dirigido pela empregada dom\u00e9stica. Como \u00e9 poss\u00edvel num contexto em que as revolu\u00e7\u00f5es s\u00e3o nacionais, defender o novo poder e democratizar ao mesmo tempo?<\/p>\n<p>JM: L\u00eanin alterou parcialmente a sua posi\u00e7\u00e3o depois de O Estado e a Revolu\u00e7\u00e3o. Muda de perspectiva com a experi\u00eancia da revolu\u00e7\u00e3o russa e compreende, a partir de 1920, que a temporalidade da transi\u00e7\u00e3o socialista \u00e9 muito maior do que a imaginava. Altera a sua posi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao fenecimento do Estado, para fazer deste um aparelho alicer\u00e7ado nos sovietes e que d\u00ea efetividade \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es das massas. L\u00eanin falava at\u00e9 em aprender com as melhores pr\u00e1ticas de administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica dos capitalistas. Cuba, Vietn\u00e3, Laos, China e Coreia do Norte n\u00e3o ca\u00edram, conseguiram sobreviver, uns com formas mais qualificadas do que outros, mas existe um hist\u00f3rico de experi\u00eancias socialistas que n\u00e3o sucumbiram ao ponto de perderem o apoio da base da classe trabalhadora a esses regimes de transi\u00e7\u00e3o. A primeira coisa \u00e9 fazer um balan\u00e7o sistem\u00e1tico, real e nosso de todas as experi\u00eancias.<\/p>\n<p>AA: Coloca a Coreia do Norte e Cuba no mesmo campo? N\u00e3o lhe parece que existem aspectos da Coreia que t\u00eam muito pouco a ver com o socialismo, a sucess\u00e3o quase din\u00e1stica, o culto exacerbado da personalidade, por exemplo?<\/p>\n<p>JM: A ideia do culto \u00e0 personalidade \u00e9 um termo ocidental muito ligado \u00e0 pr\u00f3pria realidade da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica que, a meu ver, n\u00e3o se encaixa na explica\u00e7\u00e3o da Coreia. Tamb\u00e9m n\u00e3o acho que haja passagem de poder de pai para filho, porque os cargos que exerciam Kim Il-Sung, Kim Jong-il, Kim Jong-un s\u00e3o diferentes. Eles s\u00e3o evidentemente um elemento de simbologia da revolu\u00e7\u00e3o nacional, mas exerceram e exercem cargos diferentes. A representa\u00e7\u00e3o da m\u00eddia de que Kim Jong-un \u00e9 um ditador todo-poderoso, que controla tudo, \u00e9 totalmente falsa. Existe pouca literatura e pouco estudo sistem\u00e1tico sobre a Coreia [do Norte] e h\u00e1 uma desconsidera\u00e7\u00e3o sobre o estado permanente de agress\u00e3o militar em que o pa\u00eds vive. Recorde-se que foi um pa\u00eds destru\u00eddo pela guerra com os EUA, em que as for\u00e7as norte-americanas destru\u00edram todas as cidades da Coreia do Norte e mataram 30% da popula\u00e7\u00e3o. Os EUA mant\u00eam, at\u00e9 hoje, mais de 50 mil soldados a cercar o pa\u00eds. E t\u00eam armas at\u00f4micas apontadas \u00e0 Coreia [do Norte].<\/p>\n<p>Vamos lembrar que o principal palco militar dos EUA, na segunda metade do s\u00e9culo XX, foi a \u00c1sia. Atacaram o Vietn\u00e3, atacaram o Laos, atacaram o Camboja, para al\u00e9m da Coreia [do Norte]. Usaram na guerra da Coreia mais bombas do que todas as que foram usadas na II Guerra Mundial. E at\u00e9 hoje, formalmente, a guerra da Coreia n\u00e3o acabou, foi apenas assinado um armist\u00edcio, que significa, do ponto de vista do direito internacional, apenas uma pausa numa guerra.<\/p>\n<p>A Coreia [do Norte] \u00e9 uma experi\u00eancia socialista que \u00e9 olhada de uma forma muito preconceituosa e pregui\u00e7osa pela esquerda ocidental, que n\u00e3o estuda o pa\u00eds e tem aquela coisa com que come\u00e7amos a conversa que \u00e9 o fetiche da derrota. Veja, a Coreia [do Norte] foi invadida para ser liquidada, conseguiram resistir, consolidar um Estado, formar uma economia nacional. T\u00eam um n\u00edvel de industrializa\u00e7\u00e3o consider\u00e1vel, constitu\u00edram um complexo industrial militar importante e, ao contr\u00e1rio do povo palestino, t\u00eam a capacidade de se defender. Um povo que consegue se defender j\u00e1 \u00e9 olhado de lado pela esquerda ocidental. Para essa gente, uma crian\u00e7a com uma pedra contra um tanque israelense \u00e9 her\u00f3ico, quando para mim \u00e9 uma coisa brutal e quase pornogr\u00e1fica. Mas essa esquerda gosta disso e de sofrimento, mas n\u00e3o gosta de pa\u00edses como a Coreia [do Norte] que t\u00eam m\u00edsseis intercontinentais com armas at\u00f4micas e que podem atingir os EUA.<\/p>\n<p>Eu dou um outro exemplo: a L\u00edbia de Muammar al-Gaddafi n\u00e3o era uma experi\u00eancia socialista, mas algo que surgiu no contexto das lutas anticoloniais, que tinha uma certa pol\u00edtica anti-imperialista e nacionalista de apropria\u00e7\u00e3o dos recursos naturais do pa\u00eds.<\/p>\n<p>AA: Na senda de Nasser e do socialismo pan-arabista<\/p>\n<p>JM: A L\u00edbia tinha um programa nuclear, mas Gaddafi, tentando aproximar-se da Uni\u00e3o Europeia, desistiu do seu programa nuclear. Quatro anos depois de ter desistido desse programa, a OTAN interv\u00e9m na L\u00edbia, derruba Gaddafi e destr\u00f3i o pa\u00eds. Hoje temos um local que at\u00e9 tr\u00e1fico de pessoas escravizadas tem. Em Tr\u00edpoli, est\u00e3o vendendo escravos como no s\u00e9culo XVI. A L\u00edbia foi destru\u00edda, era um dos pa\u00edses mais ricos de \u00c1frica e agora est\u00e1 nesta situa\u00e7\u00e3o. Tenho v\u00e1rias diverg\u00eancias com o modelo socialista coreano, est\u00e1 bem longe daquilo que quero para o socialismo, mas eu apoio qualquer experi\u00eancia socialista. O que aconteceu na L\u00edbia, e quem acompanha o sofrimento do povo palestino, sabe, como dizia o velho Luck\u00e1cs, que \u00abo pior socialismo \u00e9 melhor que o melhor capitalismo\u00bb. E o melhor capitalismo na periferia do sistema n\u00e3o existe. Basta ver a desgra\u00e7a que aconteceu com a L\u00edbia.<\/p>\n<p>A Coreia [do Norte] \u00e9 um Estado muito militarizado, cercado, que tenta manter a coes\u00e3o nacional m\u00e1xima frente \u00e0s amea\u00e7as militares, que se expressa por exemplo na continuidade de s\u00edmbolos de unidade nacional, como a continuidade da fam\u00edlia de Kim Il Sung. Tem v\u00e1rias coisas que eu acho problem\u00e1ticas, mas que n\u00e3o estou preocupado em criticar: para mim, o essencial \u00e9 a a\u00e7\u00e3o do imperialismo e o cerco feito a esse pa\u00eds. Quando acabar esse cerco militar, a\u00ed a gente pode debater livremente os problemas do regime, agora n\u00e3o d\u00e1 para brincar, porque o imperialismo n\u00e3o brinca em servi\u00e7o.<\/p>\n<p>AA: A quest\u00e3o que coloco \u00e9 que em que medida a necessidade de militariza\u00e7\u00e3o e defesa de um regime n\u00e3o torna esse poder a certa altura pouco socialista. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel uma estrat\u00e9gia de resist\u00eancia que passe pelo aumento do poder do povo e da democracia socialista?<\/p>\n<p>JM: Temos que considerar v\u00e1rias coisas. O Brasil \u00e9 mais militarizado que a Coreia [do Norte] em termos de viol\u00eancia contra a popula\u00e7\u00e3o. A Rep\u00fablica Democr\u00e1tica da Coreia n\u00e3o sabe o que \u00e9 ter, todos os anos, 62 mil pessoas assassinadas. O cidad\u00e3o norte-coreano n\u00e3o sabe o que \u00e9 ter, nas favelas, a pol\u00edcia todos os dias agredindo e xingando as pessoas, entrando nas casas sem mandado e por vezes matando. Essa pr\u00f3pria ideia de militariza\u00e7\u00e3o tem que ser muito bem contextualizada. Em termos de seguran\u00e7a do indiv\u00edduo em rela\u00e7\u00e3o ao Estado, a Coreia [do Norte] desfruta de infinitamente mais democracia que o Brasil.<\/p>\n<p>Segundo ponto, se n\u00e3o existisse legitimidade, e um certo consenso e apoio na sociedade coreana, nenhum governo ficaria de p\u00e9. Durante os anos 90, o pa\u00eds perdeu o seu principal parceiro econ\u00f4mico, que era a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, sofreu uma s\u00e9rie de inunda\u00e7\u00f5es e cat\u00e1strofes, teve um problema s\u00e9rio de desnutri\u00e7\u00e3o, e o regime continuou de p\u00e9 com um alto n\u00edvel de consenso e apoio. Nos \u00faltimos dez anos, a qualidade de vida da popula\u00e7\u00e3o tem melhorado muito. Houve uma mudan\u00e7a relativa da orienta\u00e7\u00e3o que colocava as For\u00e7as Armadas em primeiro lugar. A partir do momento em que o pa\u00eds alcan\u00e7ou o dom\u00ednio do armamento at\u00f4mico e m\u00edsseis intercontinentais, a necessidade de ter for\u00e7as terrestres diminuiu.<\/p>\n<p>A guerra moderna \u00e9 muito mais definida pelos m\u00edsseis, ca\u00e7as e submarinos do que pelo n\u00famero de soldados. H\u00e1 uma redu\u00e7\u00e3o do peso na economia do ex\u00e9rcito e uma passagem maior de recursos para habita\u00e7\u00e3o e para melhorar as infraestruturas sociais. A Coreia [do Norte] vive um boom da constru\u00e7\u00e3o civil. A melhoria da qualidade da habita\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, o aumento de constru\u00e7\u00e3o de equipamentos coletivos \u2013 bibliotecas, parques, gin\u00e1sios e equipamentos desportivos \u2013, \u00e9 vis\u00edvel e significativa. H\u00e1 um debate no partido, respondendo aos pedidos das bases, que reivindicavam melhores condi\u00e7\u00f5es de vida e de consumo. Assim como existe um debate sobre o pa\u00eds se tornar um centro mundial de criptomoedas e a partir da\u00ed quebrar o bloqueio econ\u00f4mico dos EUA, para conseguir recursos para adquirir a moderniza\u00e7\u00e3o das infraestruturas e melhorar mais a vida das popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A Coreia [do Norte] tem v\u00e1rios problemas, mas est\u00e1 longe de ser um pa\u00eds sem uma base social de consenso e legitimidade. Eu dou sempre este exemplo: os meios de comunica\u00e7\u00e3o liberais e certa esquerda representam o governo de Nicolas Maduro como ultra-militarizado e que s\u00f3 se mant\u00e9m por causa do apoio do ex\u00e9rcito. Veja, eu tenho v\u00e1rias cr\u00edticas ao governo Maduro, que nos \u00faltimos tempos resolveu lan\u00e7ar uma ofensiva contra o Partido Comunista Venezuelano, mas \u00e9 uma ilus\u00e3o maluca achar que um governo atacado pela maior pot\u00eancia do mundo, os Estados Unidos, vai conseguir manter-se no poder s\u00f3 pela for\u00e7a, se n\u00e3o tiver apoio popular. Isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Todo o projeto anti-imperialista s\u00f3 se mant\u00e9m se tiver uma forte base de apoio, de outra maneira n\u00e3o se aguentaria um minuto. N\u00e3o apenas uma base passiva, mas uma base ativa. E isso diferencia a esquerda da Venezuela em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 do Brasil. A Dilma [Rousseff] foi retirada do poder muito facilmente, em 2016, sem nenhuma revolta das massas. S\u00f3 tinha uma base de apoio passiva.<\/p>\n<p>AA: Como \u00e9 que foi o seu trajeto pol\u00edtico do rap para o comunismo?<\/p>\n<p>JM: O Brasil tem uma tradi\u00e7\u00e3o de uma cultura de rap que nasceu em S\u00e3o Paulo e que \u00e9 muito politizada. Nos anos 90, Racionais Mcs, RZO, GOG, Sabotage falavam de viol\u00eancia policial, racismo e de desigualdades. Falavam inclusive de l\u00edderes revolucion\u00e1rios. O GOG tem uma m\u00fasica em que diz: \u00abMalcolm X foi a Meca e o GOG ao nordeste\u00bb, ele conta a hist\u00f3ria de Malcolm X, a primeira vez que ouvi falar dele foi nessa m\u00fasica. Os Racionais MCs t\u00eam uma m\u00fasica chamada \u00abJesus chorou\u00bb em que se fala: \u00abMalcom X, Ghandi, Lennon, Marvin Gaye, Che Guevara, 2Pac, Bob Marley e o evang\u00e9lico Martin Luther King\u00bb. O rap historicamente no Brasil, embora hoje menos, \u00e9 muito politizado e serve como voz das comunidades perif\u00e9ricas. N\u00e3o s\u00f3 para denunciar as mazelas da sociedade, mas como mem\u00f3ria de uma identidade e de luta contra o racismo. Em forma\u00e7\u00f5es que eu dava, antes da pandemia, usava muito o rap.<\/p>\n<p>AA: Mas nem toda a gente que ouve o rap vira marxista-leninista<\/p>\n<p>JM: H\u00e1 tr\u00eas elementos que contribu\u00edram para isso. Primeiro elemento central, a produ\u00e7\u00e3o marxista no Brasil ficou muito centralizada na universidade. E estas, at\u00e9 aos governos do PT, eram universidades da classe m\u00e9dia e da burguesia, o que tem impacto no tipo de produ\u00e7\u00e3o marxista. No meu primeiro contato com os marxistas na faculdade, vi que eles n\u00e3o correspondiam \u00e0 minha realidade. S\u00f3 para ter uma ideia, a influ\u00eancia no Brasil era sobretudo uma leitura eurocomunista de Gramsci, de que d\u00e1 para construir o socialismo ampliando a democracia, e que a domina\u00e7\u00e3o burguesa hoje se faz mais pelo consenso do que pela coer\u00e7\u00e3o. S\u00f3 acredita nisso quem \u00e9 de classe m\u00e9dia. Quem, como eu, nasceu numa favela de Recife, n\u00e3o consegue levar isso a s\u00e9rio. O meu afastamento desse marxismo hegem\u00f4nico na universidade e a ades\u00e3o ao marxismo-leninismo para mim foi natural na minha pr\u00f3pria experi\u00eancia emp\u00edrica. Eu li estas coisas e pensei: \u00abQue pa\u00eds \u00e9 esse? O Brasil n\u00e3o \u00e9\u00bb.<\/p>\n<p>O segundo elemento, \u00e9 quando eu criei o h\u00e1bito de leitura e decidi organizar-me politicamente. Parei para ler os programas dos partidos pol\u00edticos do Brasil. Li os programas do PT, PC do B, PSOL, PSTU, PCR e da Consulta Popular e por a\u00ed vai. Entrei no PCB, na sua organiza\u00e7\u00e3o da juventude, a UJC, porque era o que deixava mais claro uma estrat\u00e9gia socialista para a revolu\u00e7\u00e3o brasileira. Quem conhece a burguesia brasileira n\u00e3o consegue propor nenhuma alian\u00e7a, mesmo que seja t\u00e1tica, com essa classe.<\/p>\n<p>Um terceiro elemento, chamou-me muita aten\u00e7\u00e3o a hist\u00f3ria do PCB, quando voc\u00ea estuda no vestibular, para a entrada da universidade, ouve muito falar do PCB, de Luiz Carlos Prestes, Olga Ben\u00e1rio e Ana Montenegro. E a hist\u00f3ria do Partid\u00e3o sempre me encantou muito, principalmente via Prestes. Quando entrei no PCB, deu-me muito orgulho: \u00abvou militar no mesmo partido que Luiz Carlos Prestes\u00bb. Foi tamb\u00e9m isso que me levou a concordar com o marxismo-leninismo do PCB.<\/p>\n<p>AA: Em Recife, h\u00e1 uns anos, tentou candidatar-se na sua comunidade. N\u00e3o o fez porque foi amea\u00e7ado. Atualmente, com o dom\u00ednio do tr\u00e1fico de droga e a repress\u00e3o do Estado, h\u00e1 espa\u00e7o nas comunidades para a luta revolucion\u00e1ria?<\/p>\n<p>JM: H\u00e1 espa\u00e7o. Mas \u00e9 muito perigosa e dif\u00edcil. Na favela, onde nasci e fui criado, mantive um cursinho popular, chamado \u00abNovo Caminho\u00bb, para ajudar jovens a conseguir entrar na universidade. Consegui manter essa atividade durante dois anos, recrutei gente para a juventude do partido, houve um reconhecimento social da comunidade para com o nosso trabalho, mas quando foi a hora de disputar a associa\u00e7\u00e3o de moradores o meu caminho foi barrado. E repare que eu sou prata da casa, sou nascido e crescido na favela do Borborema. N\u00e3o consegui avan\u00e7ar nesse neg\u00f3cio. Claro que na \u00e9poca eu n\u00e3o era ainda organizado no PCB. Tentei concorrer \u00e0 associa\u00e7\u00e3o de moradores sozinho, sem um partido por tr\u00e1s, o que muda bastante o cen\u00e1rio.<\/p>\n<p>Agora \u00e9 preciso dizer que todo o trabalho de base \u00e9 perigoso. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds muito perigoso para se militar. \u00c9 perigoso, trabalhoso, exige muita estrutura e planejamento. Exige muita paci\u00eancia revolucion\u00e1ria. O PCB tem v\u00e1rios trabalhos em comunidades, menos do que \u00e9 necess\u00e1rio para a revolu\u00e7\u00e3o brasileira. Militar no Brasil n\u00e3o \u00e9 como militar em Paris ou em Londres. O n\u00edvel de viol\u00eancia a que estamos submetidos, no continente, s\u00f3 se compara com a Col\u00f4mbia em que h\u00e1 um narco-Estado que mata a todos. Brasil e Col\u00f4mbia s\u00e3o os pa\u00edses mais perigosos na regi\u00e3o para se militar.<\/p>\n<p>AA: Pode-se dizer que a luta de classes no Brasil tem uma carga de \u00f3dio muito maior devido ao peso da escravatura? H\u00e1 um \u00f3dio da burguesia ao proletariado aditivado pelo racismo?<\/p>\n<p>JM: Com certeza. Jos\u00e9 Carlos Mari\u00e1tegui, o famoso comunista peruano, matou a charada nos anos 20 do s\u00e9culo passado. Tem um texto que mostra que a burguesia crioula se formou n\u00e3o s\u00f3 a partir de uma identidade classista burguesa, mas tamb\u00e9m de uma identidade racial. Fazendo com que a oposi\u00e7\u00e3o de classe tamb\u00e9m assumisse uma forma de oposi\u00e7\u00e3o racial, inclusive eug\u00eanica, e que essa burguesia se achasse superior aos caboclos, negros, mulatos e ind\u00edgenas. Come\u00e7amos a conversa pela liquida\u00e7\u00e3o da Comuna de Paris, em que a burguesia matou 20 mil pessoas. Aqui morre muito mais gente. O \u00f3dio de classe, quando se soma com o \u00f3dio racial, toma tra\u00e7os neofascistas. \u00c9 o que acontece com a burguesia boliviana em Santa Cruz de la Sierra, a burguesia peruana em Lima. No Brasil eles se autorrepresentam como brancos, descendentes diretos dos europeus, e a massa trabalhadora como uma esp\u00e9cie de ral\u00e9 racialmente inferior. E trabalham a partir de discursos de exterm\u00ednio camuflados em ideologia da seguran\u00e7a p\u00fablica, em que \u00abbandido bom \u00e9 bandido morto\u00bb, \u00abtem que matar o traficante\u00bb. A grande diferen\u00e7a daqui e do discurso do Hitler \u00e9 que este afirmava claramente que odiava judeus, enquanto no Brasil e em outros pa\u00edses mascaram-se os genoc\u00eddios com pol\u00edticas de seguran\u00e7a p\u00fablica, mas no final o resultado \u00e9 o mesmo.<\/p>\n<p>AA: Concorda que as categorias de capitalismo, racismo e patriarcado fazem parte do mesmo quadro da luta de classes?<\/p>\n<p>JM: Totalmente, desde a obra de Marx e Engels que j\u00e1 est\u00e1 colocada a multiplicidade de formas de express\u00e3o da luta de classes. Essa luta nunca foi s\u00f3 o conflito capital e trabalho no \u00e2mbito da f\u00e1brica. Estou me lembrando, por exemplo, que no Manifesto Comunista, Marx e Engels colocavam na luta de classes a luta pela liberta\u00e7\u00e3o da Pol\u00f4nia, que era uma luta de emancipa\u00e7\u00e3o nacional. Assim como p\u00f5em, no mesmo texto, a import\u00e2ncia da luta contra a opress\u00e3o da mulher. Engels no seu famoso Anti-Duhring, e no seu mais c\u00e9lebre cap\u00edtulo intitulado do Socialismo Ut\u00f3pico ao Socialismo Ci\u00eant\u00edfico, repete a c\u00e9lebre frase de Charles Fourier, em que o grau de emancipa\u00e7\u00e3o de uma sociedade \u00e9 medido pelo grau de emancipa\u00e7\u00e3o da mulher nessa sociedade. Assim como na Origem da Fam\u00edlia, da Propriedade Privada e do Estado, Engels defende que a mulher \u00e9 o proletariado do homem. E que o aparecimento da propriedade privada significou a derrota mundial do sexo feminino, por ter provocado um processo de explora\u00e7\u00e3o, no \u00e2mbito dom\u00e9stico, do homem sobre a mulher, numa estrutura patriarcal.<\/p>\n<p>Diria mais, Domenico Losurdo, no seu livro A Luta de Classes, uma Hist\u00f3ria Filos\u00f3fica e Pol\u00edtica, demonstra que desde a obra de Marx e Engels h\u00e1 uma compreens\u00e3o sobre tr\u00eas n\u00edveis interligados de explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o: o \u00e2mbito da vida dom\u00e9stica, com o patriarcado e a explora\u00e7\u00e3o da mulher; o \u00e2mbito nacional, com a retirada de mais-valia a partir da explora\u00e7\u00e3o do proletariado; e o \u00e2mbito internacional, a partir da explora\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses e povos colonizados. Esses tr\u00eas n\u00edveis articulam-se diretamente e fazem com que a luta de classes passe tamb\u00e9m por lutas contra a explora\u00e7\u00e3o, o imperialismo, o machismo e o racismo. Algo que foi materializado muito bem na hist\u00f3ria do movimento comunista.<\/p>\n<p>H\u00e1 um exemplo que eu gosto muito de dar: hoje todo o mundo gosta de Nelson Mandela, que virou um \u00edcone mundial, mas quando ele estava preso, os Estados Unidos chamavam-no de \u00abterrorista\u00bb, e eram os comunistas que apoiavam a luta contra o apartheid. E Cuba mandou milhares de soldados para lutar, ao lado dos revolucion\u00e1rios africanos, contra o apartheid e pela independ\u00eancia das ex-col\u00f4nias portuguesas na \u00c1frica. Os comunistas lutaram contra o apartheid. Isso faz parte tamb\u00e9m da luta de classes. N\u00e3o se pode ter uma vis\u00e3o redutora e economicista da luta de classes.<\/p>\n<p>AA: Contesta algumas acusa\u00e7\u00f5es de correntes da esquerda, e at\u00e9 de alguns ativistas antirracistas, de que o marxismo \u00e9 eurocentrista, em que as quest\u00f5es raciais n\u00e3o est\u00e3o devidamente espelhadas na teoria comunista?<\/p>\n<p>JM: Estas cr\u00edticas s\u00f3 se sustentam na base da falsifica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. O marxismo \u00e9 a tend\u00eancia te\u00f3rica pol\u00edtica que, depois do liberalismo, teve mais alcance mundial. O que significa que \u00e9 poss\u00edvel encontrar de tudo no marxismo: h\u00e1 marxismo estruturalista, marxismo humanista, marxismo anal\u00edtico, marxismo existencialista, marxismo weberiano, marxismo p\u00f3s-moderno. O que voc\u00ea procurar vai achar em algum canto do mundo. Existiram e existem marxistas euroc\u00eantricos, marxistas que n\u00e3o d\u00e3o aten\u00e7\u00e3o \u00e0s lutas anticoloniais e antirracistas. Agora existe tamb\u00e9m toda uma larga tradi\u00e7\u00e3o do marxismo que deu um papel fundamental, no s\u00e9culo XX, \u00e0s lutas antirracistas e anticoloniais.<\/p>\n<p>Tr\u00eas exemplos b\u00e1sicos: os principais l\u00edderes das lutas de liberta\u00e7\u00e3o nacional na \u00c1frica negra ou eram marxistas ou tinham rela\u00e7\u00f5es com o marxismo. Am\u00edlcar Cabral, Samora Machel, Agostinho Neto e Thomas Sankara eram marxistas. E os que n\u00e3o eram marxistas, como Lumumba, tinham \u00f3timas rela\u00e7\u00f5es com os marxistas e contavam com o movimento comunista como aliado das suas lutas de liberta\u00e7\u00e3o. Segundo exemplo importante, nos EUA s\u00f3 houve o sufr\u00e1gio universal \u2013 uma cabe\u00e7a, um voto \u2013 em 1965, quando acabou a segrega\u00e7\u00e3o racial. A principal organiza\u00e7\u00e3o de luta contra a segrega\u00e7\u00e3o racial \u00e9 o partido das Panteras Negras, uma organiza\u00e7\u00e3o marxista-leninista que o FBI considerou a maior amea\u00e7a ao capitalismo estadunidense. O terceiro exemplo, muito significativo, \u00e9 que o processo de descoloniza\u00e7\u00e3o da \u00c1sia passou pela lideran\u00e7a dos partidos comunistas: o chin\u00eas, o vietnamita, o coreano, o do Laos. Mesmo na \u00cdndia, os partidos comunistas t\u00eam um papel importante, e at\u00e9 hoje na regi\u00e3o de Kerala h\u00e1 uma grande tradi\u00e7\u00e3o comunista enraizada nas massas.<\/p>\n<p>O marxismo ser um neg\u00f3cio de brancos e que n\u00e3o deu aten\u00e7\u00e3o \u00e0s lutas anticoloniais e antirracistas \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se sustenta sob nenhum prisma, a n\u00e3o ser que se reduza o marxismo \u00e0s suas express\u00f5es euroc\u00eantricas, a figuras como Kautsky ou, atualmente, a Zizek. E queria acrescentar mais um elemento: o Portugal fascista, dominado pelo salazarismo, foi aceito pelo Ocidente, entrou na OTAN, e a nossa amiga Hannah Arendt, famosa pela sua teoria sobre o totalitarismo, que tentava igualar a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica ao nazismo, n\u00e3o colocou o fascismo salazarista como totalit\u00e1rio, dizia que era apenas autorit\u00e1rio. Esse discurso acaba por fazer o jogo do liberalismo que se relacionou muito bem com o fascismo salazarista. Escondendo, por exemplo, que os comunistas organizados no PCP, que eram a principal for\u00e7a de resist\u00eancia contra o fascismo, apoiaram as lutas anticoloniais de \u00c1frica, enquanto os EUA apoiavam o regime colonialista e fascista. Quando se diz que o marxismo \u00e9 euroc\u00eantrico, n\u00e3o s\u00f3 se est\u00e1 a falsificar a hist\u00f3ria como se est\u00e1 apoiar os liberais que foram aliados hist\u00f3ricos do salazarismo.<\/p>\n<p>AA: Um autor dos EUA, Asad Haider, afirma que o racismo n\u00e3o \u00e9 produto das ra\u00e7as, mas as ra\u00e7as \u00e9 que s\u00e3o produto do racismo. E que a luta antirracista tem como objetivo a liquida\u00e7\u00e3o da ideia de ra\u00e7as e as desigualdades que por ela s\u00e3o sustentadas e n\u00e3o a cria\u00e7\u00e3o de qualquer \u00abnegritude\u00bb. Concorda?<\/p>\n<p>JM: Concordo plenamente, inclusive li a entrevista do Asad Haider no AbrilAbril, uma entrevista muito boa, como sempre. \u00c9 um autor muito qualificado e o que ele fala n\u00e3o \u00e9 uma ideia nova, baseia-se muito nas ideias do Frantz Fanon. Defende uma perspectiva que eu gosto de chamar de humanismo radical. Compreende que a divis\u00e3o do mundo em ra\u00e7as \u00e9 um produto da modernidade, a partir da acumula\u00e7\u00e3o primitiva de capital que se consolida no capitalismo, e que a quest\u00e3o, em \u00faltima inst\u00e2ncia, n\u00e3o \u00e9 uma sociedade de igualdade racial, mas \u00e9 uma sociedade desracializada. Evidentemente, que enquanto elemento t\u00e1tico n\u00f3s vamos reivindicar elementos da positividade do negro na luta antirracista. S\u00f3 que isso n\u00e3o significa que a gente abra m\u00e3o do horizonte \u00faltimo de desracializa\u00e7\u00e3o; da mesma forma que o objetivo de acabar com a classe trabalhadora enquanto classe, no socialismo, em que todos ser\u00e3o trabalhadores, n\u00e3o implica que, nas lutas imediatas, no capitalismo, a gente n\u00e3o organize sindicatos para melhorar os sal\u00e1rios, apesar de isso reproduzir o assalariamento. Como na luta de classes, no caso do racismo acontece o mesmo. Usamos os elementos de positiva\u00e7\u00e3o de ser negro, frente \u00e0 inferioriza\u00e7\u00e3o do ser negro, que s\u00e3o intr\u00ednsecos \u00e0 ideologia racista. Mas o horizonte \u00faltimo \u00e9 a desracializa\u00e7\u00e3o da sociedade. Frantz Fanon estava corret\u00edssimo: fazer com que o signo ra\u00e7a deixe de ser um marcador e um estruturador de rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>AA: O capitalismo vive em permanente crise e ela parece cada vez mais aguda. Mas por que \u00e9 que parece mais poss\u00edvel uma cat\u00e1strofe natural ou a invas\u00e3o de extraterrestres, para usar uma imagem de Fredric Jamenson, do que a simples supera\u00e7\u00e3o do capitalismo?<\/p>\n<p>JM: Vivemos uma \u00e9poca contrarrevolucion\u00e1ria da qual n\u00e3o nos libertamos totalmente. A queda da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e a derrota do socialismo foi muito grande. E h\u00e1 um processo de reconstru\u00e7\u00e3o do movimento revolucion\u00e1rio. Essa reconstru\u00e7\u00e3o \u00e9 muito t\u00edmida, est\u00e1 mais avan\u00e7ada em alguns pa\u00edses do que em outros. H\u00e1 ainda uma busca de horizontes revolucion\u00e1rios que n\u00e3o est\u00e3o claros. H\u00e1 muitos debates sobre p\u00f3s-marxismo, sobre socialismo revolucion\u00e1rio no s\u00e9culo XXI, sobre populismo de esquerda, debates que n\u00e3o t\u00eam consequ\u00eancias pr\u00e1ticas, mas ainda vamos ter um caminho muito longo para que o marxismo-leninismo renovado, com todos os novos problemas do s\u00e9culo XXI, consiga dar respostas aos desejos das massas. Ainda vai demorar muito a construir um movimento revolucion\u00e1rio mundial e conseguir colocar na ordem do dia, como j\u00e1 esteve, o fim do capitalismo.<\/p>\n<p>AA: N\u00e3o pode haver necessidade de uma adequa\u00e7\u00e3o te\u00f3rica aos novos tempos e uma necessidade de identificar o que ser\u00e1 hoje um sujeito revolucion\u00e1rio para a transforma\u00e7\u00e3o, e o que \u00e9 hoje essa \u00abclasse oper\u00e1ria\u00bb revolucion\u00e1ria e ainda como criar um movimento revolucion\u00e1rio a partir desse sujeito?<\/p>\n<p>JM: Acho que sim, mas a resposta para isso n\u00e3o est\u00e1 em abandonar o marxismo-leninismo, mas em renovar a teoria assimilando novos problemas, acompanhando as transforma\u00e7\u00f5es do sistema capitalista. Vou dar um exemplo, h\u00e1 um processo claro no Ocidente de desindustrializa\u00e7\u00e3o com a desloca\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias ind\u00fastrias para a \u00c1sia, com a recomposi\u00e7\u00e3o da economia do mundo em que a China \u00e9 a f\u00e1brica do planeta. Isso faz com que cres\u00e7a, no chamado Ocidente, o trabalho informal e o assalariamento nos setores do com\u00e9rcio e servi\u00e7os, uma mudan\u00e7a no perfil da classe trabalhadora. Hoje faz muito mais sentido falar de assalariados urbanos do que falar em classe oper\u00e1ria, no sentido fordista. Isso \u00e9 um problema do ponto de vista organizativo e em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s novas reivindica\u00e7\u00f5es. A classe trabalhadora brasileira \u00e9 majoritariamente feminina, mesmo a que tem emprego formal; a classe trabalhadora informal, para al\u00e9m de ser majoritariamente feminina, \u00e9 muito negra. Ent\u00e3o, a figura da mulher negra e m\u00e3e solteira \u00e9 muito presente no ex\u00e9rcito industrial de reserva.<\/p>\n<p>AA: A ideia de classe oper\u00e1ria estava ligada \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de mais-valia, isso s\u00f3 era poss\u00edvel em trabalhos que criassem valor. O marxismo exclu\u00eda desse quadro a distribui\u00e7\u00e3o, os servi\u00e7os e o com\u00e9rcio. Hoje, ao considerar-se que na nova classe trabalhadora est\u00e3o, por exemplo, os distribuidores da Uber Eats, n\u00e3o h\u00e1 uma mudan\u00e7a na teoria valor-trabalho?<\/p>\n<p>JM: N\u00e3o creio que haja uma mudan\u00e7a te\u00f3rica, mas uma mudan\u00e7a nas formas de explora\u00e7\u00e3o. Quando Marx escreveu o livro I de O Capital, a maioria da popula\u00e7\u00e3o era explorada via colonialismo; o trabalho assalariado, como forma dominante de explora\u00e7\u00e3o, \u00e9 da segunda metade do s\u00e9culo XX. Quando a Internacional Comunista \u00e9 criada, a maioria da popula\u00e7\u00e3o era colonizada e vivia em formas de semiescravid\u00e3o. A teoria do valor-trabalho e do fulcro do capitalismo com a explora\u00e7\u00e3o estava valendo, agora n\u00f3s temos outras transforma\u00e7\u00f5es, s\u00f3 que o essencial da coisa continua: a propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o, a exist\u00eancia de um contingente gigantesco da popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tem mais do que a sua for\u00e7a de trabalho para vender e a apropria\u00e7\u00e3o privada da riqueza socialmente criada. A partir daqui vamos pensar em novas t\u00e1ticas e formas de organiza\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o para organizar os explorados e oprimidos, mas eles continuam explorados e oprimidos. O n\u00facleo da quest\u00e3o continua a ser explicado pela teoria marxista.<\/p>\n<p>AA: Num filme muito conhecido, Matrix, a humanidade estava presa numa ilus\u00e3o gerada por um programa computorizado e s\u00f3 era poss\u00edvel combater essa ilus\u00e3o desconectando-se dele. \u00c9 poss\u00edvel fazer a luta revolucion\u00e1ria no quadro do capitalismo de vigil\u00e2ncia e das tecnologias de comunica\u00e7\u00e3o e redes sociais?<\/p>\n<p>JM: Totalmente, mas \u00e9 preciso uma pol\u00edtica leninista s\u00e9ria. Hoje, no Brasil, \u00e9 mais f\u00e1cil arrecadar dinheiro, do que era no tempo da ditadura militar. Tamb\u00e9m \u00e9 muito mais f\u00e1cil a vigil\u00e2ncia, mas escapar dela exige um n\u00edvel de planejamento e de organiza\u00e7\u00e3o e estrutura&#8230; Inclusive uma organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria que se preze tem de ter um departamento interno de hackers e seguran\u00e7a da informa\u00e7\u00e3o. Tem de aprender a atuar, fazer guerrilha virtual, uma \u00e1rea que \u00e9 muito dominada pelos anarquistas, os cyberpunks, e os marxistas-leninistas est\u00e3o dormindo nessa \u00e1rea. H\u00e1 algumas experi\u00eancias existentes interessantes, mas \u00e9 necess\u00e1rio voltar a ter a ideia leninista de uma pol\u00edtica planejada e organizada. O espontane\u00edsmo, numa altura em que se tem as maiores capacidades de vigil\u00e2ncia, \u00e9 facilmente derrotado, ali\u00e1s sempre o foi.<\/p>\n<p>AA: Usa as redes para fazer pol\u00edtica, mas foi uma a\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea. O PCB nada teve a ver com isso.<\/p>\n<p>JM: (Risos) Eu acho errado, isso devia ter sido discutido pol\u00edtica e internamente. Acho que at\u00e9 partidos leninistas precisam de mais leninismo. H\u00e1 um conservadorismo muito grande. \u00c9 muito dif\u00edcil debater uma pol\u00edtica hacker com qualquer comunista. Usou o termo de \u00abcapitalismo de vigil\u00e2ncia\u00bb. Conhe\u00e7o v\u00e1rias pessoas que o usam, acho interessante o debate, mas colocando a pergunta de L\u00eanin, eu quero saber \u00e9 \u00abo que fazer?\u00bb E a\u00ed n\u00e3o se v\u00ea uma rea\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica concreta. Pode-se dizer que o capitalismo tem a maior capacidade de vigil\u00e2ncia da hist\u00f3ria, \u00e9 verdade. Mas cad\u00ea o nosso sistema de comunica\u00e7\u00e3o criptografado que n\u00e3o passe pelo Google? Qual \u00e9 o nosso recrutamento direcionado para pessoas das Tecnologias de Informa\u00e7\u00e3o para que possamos fazer uma guerrilha que impe\u00e7a essa vigil\u00e2ncia? Isso \u00e9 um problema, h\u00e1 um certo tradicionalismo, muito forte, que n\u00e3o percebe que a mudan\u00e7a das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o capitalistas e nas formas de domina\u00e7\u00e3o exigem altera\u00e7\u00f5es t\u00e1ticas, de organiza\u00e7\u00e3o e comunicativa. Do mesmo jeito que Engels, no famoso pref\u00e1cio a As Lutas de Classes em Fran\u00e7a, defendeu que a t\u00e1tica de barricadas j\u00e1 n\u00e3o era eficaz com o desenvolvimento da ci\u00eancia militar, e que era preciso outras formas de a\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso hoje encontrar essas novas formas. \u00c9 dif\u00edcil? \u00c9. Temos de ter uma criatividade pol\u00edtica sem sair do marxismo-leninismo, \u00e9 esse o &#8216;x&#8217; da quest\u00e3o, sem andar com teorias ecl\u00e9ticas da moda.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27428\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[5],"tags":[224],"class_list":["post-27428","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s4-pcb","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-78o","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27428","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27428"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27428\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27428"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27428"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27428"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}