{"id":27430,"date":"2021-06-18T01:04:08","date_gmt":"2021-06-18T04:04:08","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27430"},"modified":"2021-06-18T01:04:08","modified_gmt":"2021-06-18T04:04:08","slug":"o-messias-negro-o-legado-de-fred-hampton","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27430","title":{"rendered":"O Messias Negro: o legado de Fred Hampton"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ujc.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Hollywood_e_O_Messias_Negro_Black_Messiah.png\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->por Andrey Santiago e Geovane Rocha<\/p>\n<p>O longo processo de cria\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Mesmo tendo um longo romance com o g\u00eanero das biografias, Hollywood historicamente n\u00e3o d\u00e1 aten\u00e7\u00e3o ou prioridade para biografia de pessoas negras. S\u00e3o poucos os casos de obras com protagonismo e produ\u00e7\u00e3o negra em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s in\u00fameras outras biografias realizadas. A ind\u00fastria sempre opta por hist\u00f3rias de \u201csupera\u00e7\u00e3o\u201d com um \u201cfinal feliz\u201d que reafirme a sociedade de classes e menospreza produ\u00e7\u00f5es biogr\u00e1ficas de figuras anticapitalistas que contestam radicalmente a ordem vigente.<\/p>\n<p>No ano de 2014, a dupla de comediantes Keith e Kenneth Lucas, conhecidos como os Irm\u00e3os Lucas, lan\u00e7aram a proposta de fazer um filme biogr\u00e1fico sobre Fred Hampton para v\u00e1rias empresas com o t\u00edtulo \u201cO Inconformista de Bernardo Bertolucci encontra Os Infiltrados de Martin Scorsese\u201d, mas encontraram apenas respostas negativas ou condescend\u00eancia de executivos. Mesmo empresas como A24 (Moonlight e Minari) e Netflix (13\u00aa Emenda e Destacamento Blood), que poderiam dar passos mais ousados, n\u00e3o financiaram esta obra. Cresciam os relatos de executivos declarando que a obra n\u00e3o faria sucesso, que caso houvesse um filme sobre Hampton, ele teria que ser voltado ao seu per\u00edodo escolar, com \u201cuma cena dele falando pela primeira vez para uma plateia, nervoso e gaguejando\u201d. Hampton, que sempre se destacou por sua orat\u00f3ria, pela sua capacidade de inspirar e mobilizar o povo, se tornando l\u00edder de um associa\u00e7\u00e3o estudantil para lidar com conflitos inter-raciais em sua escola, n\u00e3o seria rebaixado a um \u201cDiscurso do Rei\u201d.<\/p>\n<p>Dois anos depois, em 2016, os irm\u00e3os Lucas apresentaram a ideia para Shaka King (um dos alunos do cineasta Spike Lee), com a proposta do filme ser \u201cOs Infiltrados no mundo do COINTELPRO\u201d. Seria a maneira, com uma hist\u00f3ria de impacto para audi\u00eancia de massa, de explorar como o FBI fomentou a desestabiliza\u00e7\u00e3o dos Panteras tendo Fred Hampton como figura hist\u00f3rica central. Ap\u00f3s tr\u00eas anos de pesquisa e contatos com produtoras de cinema, o filme encontrou grande apoio do diretor e produtor Ryan Coogler, que estava sendo aclamado na ind\u00fastria por conta de seu filme Pantera Negra, produzido pela Marvel. Atrav\u00e9s de sua rec\u00e9m-criada produtora Proximity, Coogler levou a proposta para Charles D. King e sua produtora Macro que ent\u00e3o financiou 50% do or\u00e7amento de 26 milh\u00f5es de d\u00f3lares. Por fim, gra\u00e7as ao aux\u00edlio de Niija Kuykendall, uma executiva negra dentro da Warner Bros que reivindicava um filme sobre os Panteras Negras desde o in\u00edcio da \u00faltima d\u00e9cada, a parte final da produ\u00e7\u00e3o e or\u00e7amento foi conclu\u00edda.<\/p>\n<p>Ainda que a obra dirigida por Shaka King, que tamb\u00e9m co-escreveu o longa-metragem, n\u00e3o tenha sido negada por Hollywood (caso contr\u00e1rio nem teria sido feita), ela recebeu pouco suporte, a onda da representatividade negra nas telas de cinema veio sem uma representa\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias negras e incentivo para suas produ\u00e7\u00f5es. Como disse King em uma entrevista cedida a Variety, \u201cN\u00e3o vejo uma tremenda diferen\u00e7a sobre como Hollywood interage com os narradores negros e com a arte negra como um mercado.\u201d [1]<\/p>\n<p>Judas e o Messias Negro comprova que a produ\u00e7\u00e3o de narrativas com mensagens que n\u00e3o alimentam a ideologia dominante sempre trilhar\u00e1 um doloroso caminho. \u00c9 not\u00e1vel que esse filme tenha metade de seu or\u00e7amento financiado por uma pessoa negra, que executivos de Hollywood em maioria n\u00e3o apostavam em seu sucesso \u2014 a comprova\u00e7\u00e3o de que a ind\u00fastria do cinema ainda tem muito o que avan\u00e7ar. Contudo, somente outra l\u00f3gica de produ\u00e7\u00e3o poderia dar sustenta\u00e7\u00e3o e o devido apoio para a realiza\u00e7\u00e3o de registros cinematogr\u00e1ficos revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo que a l\u00f3gica do cinema atual deve ser denunciada, o caminho trilhado pelas produtoras independentes do circuito dominante deve ser destacado. A frase \u201cquem paga a banda, escolhe a m\u00fasica\u201d tamb\u00e9m se aplica ao meio da ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica, nos EUA principalmente, filmes que retratam as for\u00e7as armadas normalmente tem que passar por uma consulta com membros da CIA ou FBI [2]. Atualmente existem poucas ferramentas para a realiza\u00e7\u00e3o de obras revolucion\u00e1rias de modo profissional no mundo do cinema, por\u00e9m, assim que houver uma inser\u00e7\u00e3o qualificada nesta categoria, que demande mudan\u00e7as estruturais e se alie a movimentos populares na constru\u00e7\u00e3o de outra sociedade, in\u00fameras obras com enorme capacidade de ressoar nas mentes e cora\u00e7\u00f5es do povo deixar\u00e3o de ficar engavetadas por decis\u00f5es de engravatados que buscam apenas o lucro.<\/p>\n<p>Judas e o Messias Negro conta a hist\u00f3ria dos \u00faltimos anos de vida de Fred Hampton, Presidente do Partido dos Panteras Negras em Chicago e a trai\u00e7\u00e3o de William O\u2019Neal, um informante do FBI que se infiltrou no Partido para desestabilizar e neutralizar as suas a\u00e7\u00f5es. A trama perpassa o recrutamento de O\u2019Neal, sua inser\u00e7\u00e3o na organiza\u00e7\u00e3o e encontros com o agente Roy Mitchell, seu respons\u00e1vel.<\/p>\n<p>O filme conta com um talentoso elenco premiado: Daniel Kaluuya (Fred Hampton), LaKeith Stanfield (William \u201cBill\u201d O\u2019Neal), Jesse Plemons (Roy Mitchell), Dominique Fishback (Deborah Johnson), Martin Sheen (J. Edgar Hoover), Darrell Britt-Gibson (Bobby Rush) e outros. A dire\u00e7\u00e3o \u00e9 de Shaka King, sendo este seu primeiro longa-metragem, com roteiro de King e Will Berson, produ\u00e7\u00e3o de King, Charles D. King e Ryan Coogler, fotografia de Sean Bobbitt, trilha sonora dos m\u00fasicos de jazz Mark Isham e Craig Harris e distribui\u00e7\u00e3o pela Warner Bros.<\/p>\n<p>Por que Fred Hampton?<\/p>\n<p>O nacionalismo cultural exercia uma gigantesca influ\u00eancia nas diversas organiza\u00e7\u00f5es negras dos EUA nos anos 60 e 70. Organiza\u00e7\u00f5es como a Student Nonviolent Coodinating Comite (SNCC) e a Us Organization (US) eram algumas das mais expressivas e tamb\u00e9m defensoras dessa linha. Al\u00e9m de se colocarem como grandes opositores do marxismo, por o considerarem uma teoria branca, defendiam a necessidade de uma nova cultura, novos valores e um estilo de vida diferente para as pessoas negras. Haviam ainda fac\u00e7\u00f5es com posi\u00e7\u00f5es mais radicais que falavam em elimina\u00e7\u00e3o de pessoas brancas para que o povo negro pudesse viver livre do racismo, construir uma na\u00e7\u00e3o negra independente nos Estados Unidos ou um retorno a terra ancestral.<\/p>\n<p>Ostentando seus bubas e dashiki, n\u00e3o permitiam que as mulheres fizessem trabalhos que, segundo eles, eram destinados aos homens. Dentro dessa escancarada defesa de um patriarcalismo tosco, as mulheres tinham um papel secund\u00e1rio, sua principal fun\u00e7\u00e3o era a do cuidado com o homem negro. Linda Harrison, membro do Partido dos panteras negras, diz que \u201cO nacionalismo Cultural se manifesta em v\u00e1rias formas, mas todas as manifesta\u00e7\u00f5es s\u00e3o essencialmente fundamentadas em um fato: uma nega\u00e7\u00e3o universal e uma ignor\u00e2ncia das atuais realidades pol\u00edticas, sociais, econ\u00f4micas e uma concentra\u00e7\u00e3o no passado como refer\u00eancia (\u2026) Em outras palavras, o nacionalismo cultural ignora as quest\u00f5es pol\u00edticas concretas, e se concentra em um mito e em uma fantasia\u201d. [3]<\/p>\n<p>Enquanto figuras como Ron Karenga, principal dirigente da Us organization (US), defendia a n\u00e3o uni\u00e3o entre brancos e negros, estimulava o conflito entre organiza\u00e7\u00f5es negras [4] e transformava sua organiza\u00e7\u00e3o em uma seita. Fred Hampton, dirigente dos panteras em Illinois, negociou a tr\u00e9gua entre as gangues mais violentas e not\u00f3rias de Chicago e foi o principal respons\u00e1vel pela organiza\u00e7\u00e3o da Rainbow Coalition (Coaliz\u00e3o Arco-\u00edris).<\/p>\n<p>Fundada nos finais de 1968 por Fred Hampton e Bobby Rush, a se\u00e7\u00e3o dos Panteras Negras no estado de Illinois rapidamente se tornou uma das mais organizadas, produtivas e ativas no pa\u00eds. A se\u00e7\u00e3o iniciou o programa de caf\u00e9 da manh\u00e3 gratuito para crian\u00e7as e operou uma cl\u00ednica de atendimento m\u00e9dico gratuito. Ainda em 68, Bob Lee, membro do Panteras, foi convidado por uma igreja metodista para falar, junto com os Jovens Patriotas, sobre o trabalho de organiza\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s alguns desentendimentos do p\u00fablico com um representante dos Jovens Patriotas, Lee parte na defesa do companheiro e logo em seguida prop\u00f5e uma alian\u00e7a entre as organiza\u00e7\u00f5es [5]. Ao apresentar a ideia ao Fred Hampton, o mesmo se empolga com a proposta e come\u00e7a a trabalhar para organizar uma coaliz\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 4 de abril de 1969, na cidade de Chicago, Illinois, \u00e9 criada a Coaliz\u00e3o Arco-\u00cdris. Uma frente multirracial revolucion\u00e1ria articulada principalmente pelo Partido dos Panteras Negras na figura de um jovem militante Fred Hampton, junto de William \u201cPreacherman\u201d Fesperman dos Jovens Patriotas, representando a popula\u00e7\u00e3o branca pobre de Chicago e Jos\u00e9 \u201cCha Cha\u201d Jim\u00e9nez dos Jovens Lordes, representando a comunidade latina de Porto Rico. A Coaliz\u00e3o Arco-\u00cdris cresceu englobando v\u00e1rias outras organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas da cidade com respaldo at\u00e9 de v\u00e1rias gangues de rua que atuavam naquele per\u00edodo, promovendo ent\u00e3o atividades de apoio nas suas comunidades.<\/p>\n<p>Em 4 de dezembro de 1969, Hampton teve sua casa invadida de madrugada e foi executado ao lado de sua esposa gr\u00e1vida de oito meses, Deborah Johnson. Durante a incurs\u00e3o organizada pelo FBI e efetuada pela pol\u00edcia da cidade, 99 tiros foram disparados na resid\u00eancia, ferindo v\u00e1rios militantes que estavam no local, entre eles Mark Clark, um dirigente nacional dos Panteras que estava acompanhando a situa\u00e7\u00e3o e que deu o \u00fanico tiro em contraposi\u00e7\u00e3o aos policiais: um tiro de escopeta lan\u00e7ado ao teto por movimentos reflexivos inconscientes ap\u00f3s ele ter sido atingido no peito e morrido.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o incidente, a imprensa declarou que houve uma troca de tiros entre os Panteras e a pol\u00edcia, havendo justificativa para a invas\u00e3o, pois os policiais estariam \u201catr\u00e1s de armas escondidas\u201d. Com o passar dos anos, a hist\u00f3ria de Hampton e dos Panteras Negras foi sendo mistificada principalmente pelas acusa\u00e7\u00f5es infundadas de terrorismo e \u00f3dio racial. Foi tamb\u00e9m, em certa medida, enublada pela recente revitaliza\u00e7\u00e3o liberal da organiza\u00e7\u00e3o enquanto uma est\u00e9tica radical desprovida de conte\u00fado revolucion\u00e1rio. Dentro da comunidade negra norte-americana, muitos crescem sabendo mais sobre a morte de Fred Hampton do que sobre sua vida, suas a\u00e7\u00f5es, seu prop\u00f3sito, sua pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Como vimos, o jovem pantera dedicou os seus \u00faltimos 3 anos de vida \u00e0 milit\u00e2ncia organizada. Demonstrou, por meio de sua pr\u00e1tica militante e em seus discursos, que havia uma alternativa para os trabalhadores norte-americanos e que a sa\u00edda para resolver seus males era a revolu\u00e7\u00e3o socialista. As mudan\u00e7as concretas s\u00f3 viriam quando o povo tomasse o poder para si. Em um discurso feito em fevereiro de 1969, na Igreja de Olivet, Hampton faz uma cr\u00edtica voraz as alternativas individualistas pautadas na ideia do capitalismo negro ou no racialismo, afirma que \u201ctemos que entender alto e claro que tem um homem em nossa comunidade chamado capitalista. Algumas vezes ele \u00e9 negro e algumas vezes ele \u00e9 branco. Mas este homem tem que ser expulso de nossa comunidade, porque qualquer um que venha para a comunidade lucrar com o povo, explorando-o, pode ser definido como capitalista. E n\u00e3o ligamos para quantos programas ele tenha, qu\u00e3o longa sua dashiki seja; o poder pol\u00edtico n\u00e3o nasce das mangas de um dashiki (\u2026)\u201d [6].<\/p>\n<p>Em outro discurso esclarecendo o conte\u00fado do poder defendido pelos Panteras, Fred Hampton diz \u201c(\u2026) N\u00e3o falamos mais Poder Pantera porque n\u00e3o acreditamos que os Panteras deveriam ter todo o poder. N\u00e3o defendemos a ditadura dos panteras. N\u00e3o defendemos a ditadura do povo negro. Defendemos a ditadura do povo [trabalhadores negros, brancos etc.]\u201d.<\/p>\n<p>Muitas das quest\u00f5es apontadas a cima s\u00e3o apresentadas rapidamente e as vezes de forma sutil no filme \u201cJudas e o Messias Negro\u201d. N\u00e3o se trata de por m\u00e1-f\u00e9, n\u00e3o haveria como desenvolver tudo isso em um longa-metragem que est\u00e1 contando a hist\u00f3ria de dois personagens. Aqueles que estiverem familiarizados com os discursos do Fred Hampton, v\u00e3o perceber que o roteiro muitas vezes se desenvolve a partir deles dando o tom \u00e0 narrativa em determinados momentos.<\/p>\n<p>No filme, quando Fred Hampton (Daniel Kaluuya) nos \u00e9 apresentado, \u00e9 por meio de J. Edigar Hoover (Martin Sheen) discursando para um conjunto de agentes federais que participam de uma reuni\u00e3o do programa de contraintelig\u00eancia do FBI conhecido como COINTELPRO. Hoover afirma que os Panteras Negras devem ser considerados inimigos n\u00famero 1 dos Estados Unidos, pois eles possuem algu\u00e9m com capacidade de unificar a Nova Esquerda (New Left), o movimento anti-guerra e os comunistas. \u00c9 necess\u00e1rio \u201cevitar a ascens\u00e3o de um Messias Negro\u201d. Ao fundo, em um grande tel\u00e3o, aparece Fred Hampton que afirma o seguinte \u201c(\u2026) Temos que encarar o fato que algumas pessoas dizem que se combate fogo contra fogo, mas dizemos que se combate fogo melhor com \u00e1gua. Dizemos que n\u00e3o se combate racismo com racismo. Iremos combater o racismo com solidariedade. Dizemos que n\u00e3o se combate capitalismo com capitalismo negro; se combate capitalismo com socialismo\u201d [7].<\/p>\n<p>O programa de contraintelig\u00eancia do FBI, COINTELPRO, criado em 1967, direcionou suas aten\u00e7\u00f5es para os Panteras Negras sabotando, provocando, atacando e se infiltrando na organiza\u00e7\u00e3o para assim causar a sua desestabiliza\u00e7\u00e3o. A incurs\u00e3o realizada na casa de Hampton com todos os detalhes sobre a localiza\u00e7\u00e3o dos c\u00f4modos, s\u00f3 foi exitosa por conta da participa\u00e7\u00e3o de um jovem membro do Partido que tamb\u00e9m era informante do FBI: William O\u2019Neal.<\/p>\n<p>COINTELPRO e o papel de William O\u2019 Neal<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o s\u00e3o motins, s\u00e3o rebeli\u00f5es. As pessoas est\u00e3o se rebelando por causa das condi\u00e7\u00f5es e n\u00e3o por causa de indiv\u00edduos. Nenhum indiv\u00edduo cria uma rebeli\u00e3o. \u00c9 criada a partir das condi\u00e7\u00f5es.\u201d diz um militante do Partido dos Panteras Negras logo no in\u00edcio do filme. A montagem inicial feita com imagens reais dos Panteras estabelece um dos principais pontos pol\u00edticos da organiza\u00e7\u00e3o, se trata da contrariedade ao sistema capitalista e a afirma\u00e7\u00e3o do socialismo. Antes dessa montagem, entretanto, temos LaKeith Stanfiled interpretando William O\u2019Neal em sua \u00fanica entrevista p\u00fablica sobre o seu papel de aux\u00edlio ao FBI.<\/p>\n<p>Ao fim da montagem inicial com arquivos reais, o filme inicia sua trama em 1968 com O\u2019Neal (LaKeith Stanfiled) tentando se passar por um agente do FBI para roubar um ve\u00edculo. Ap\u00f3s o roubo, ele \u00e9 preso, espancado e interrogado por Roy Mitchell (Jesse Plemons), um agente do FBI. Quando questionado sobre o por qu\u00ea roubar usando um distintivo e n\u00e3o uma arma como um \u201cladr\u00e3o de carro normal\u201d, O\u2019Neal responde que \u201cum distintivo \u00e9 mais assustador que uma arma (\u2026) Um distintivo \u00e9 como se voc\u00ea tivesse todo o maldito ex\u00e9rcito atr\u00e1s de voc\u00ea\u201d. Por fim, quando perguntado sobre o que pensava a respeito do assassinato de Martin Luther King e Malcolm X demonstra apatia e certa indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Esta primeira cena intensa do filme d\u00e1 algumas pistas sobre a consci\u00eancia do diretor em rela\u00e7\u00e3o a obra que estava realizando. N\u00e3o se trata de transformar o informante do FBI em um her\u00f3i, nem de tornar Fred Hampton um vil\u00e3o, se trata de uma tentativa de encontrar as motiva\u00e7\u00f5es pelas quais tais pessoas viveram suas vidas. De um lado um corajoso militante que buscava viver pelo coletivo, de outro lado um covarde ego\u00edsta buscando apenas alcan\u00e7ar o seu pr\u00f3prio interesse.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria prossegue de maneira linear, desenvolvendo Hampton atrav\u00e9s da atua\u00e7\u00e3o marcante de Kaluuya que transporta o espectador para aquela \u00e9poca, inclusive conseguindo v\u00e1rios elogios da cr\u00edtica especializada pela maneira que o ator lidou com o modo de falar do jovem l\u00edder revolucion\u00e1rio. A perspectiva que olha de modo mais humano para Fred, n\u00e3o vem por O\u2019Neal, mas sim por Deborah Johnson, a militante do Partido que se tornaria tamb\u00e9m companheira de Hampton e m\u00e3e de seu \u00fanico filho.<\/p>\n<p>\u00c9 ineg\u00e1vel que O\u2019Neal n\u00e3o \u00e9 retratado como um vil\u00e3o caricato na hist\u00f3ria de Hampton, sua escalada dentro do Partido acontece em meio a uma complexidade de sentimentos que ele sente ao realizar a\u00e7\u00f5es de sabotagem. Na vida real, O\u2019Neal realmente se tornou pr\u00f3ximo de Hampton, sendo seguran\u00e7a pessoal do dirigente e acabou tendo uma tortuosa rela\u00e7\u00e3o com peso das decis\u00f5es que tomou quando atuou neste per\u00edodo, ent\u00e3o com 17 anos de idade. Ao fim de sua vida deu a sua \u00fanica entrevista p\u00fablica sobre o acontecimento. No mesmo dia em que a reportagem foi exibida, com 40 anos de idade, O\u2019Neal andou em uma rodovia movimentada e faleceu atingido por um carro. Sua morte foi declarada enquanto suic\u00eddio.<\/p>\n<p>A busca de valida\u00e7\u00e3o e prop\u00f3sito de O\u2019Neal encontrados em um agente do FBI s\u00e3o o am\u00e1lgama dos perigos da apatia pol\u00edtica, da aliena\u00e7\u00e3o e do individualismo. Aliados \u00e0 promessa de ascens\u00e3o social r\u00e1pida ou encurralados pela falta de condi\u00e7\u00f5es cotidianas, muitas pessoas s\u00e3o cooptadas para servir interesses contr\u00e1rios ao do povo. N\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia que o FBI recrutou mais de 7 mil informantes negros para se infiltrarem nos movimentos negros do EUA e neutralizarem suas a\u00e7\u00f5es at\u00e9 o fim do COINTELPRO em 1971 [8]. Mesmo antes, o primeiro agente negro do FBI, James Wormley Jones, foi recrutado para espionar e garantir a deporta\u00e7\u00e3o de Marcus Garvey, j\u00e1 hoje em dia existem documentos evidenciando a atua\u00e7\u00e3o do FBI na preven\u00e7\u00e3o de \u201cExtremistas da Identidade Negra\u201d com relatos de monitoramento constante a militantes negros e comunistas [9], \u00e9 flagrante como essa movimenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o existe em rela\u00e7\u00e3o aos supremacistas brancos que atuam organizadamente nos EUA h\u00e1 d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>No filme uma das t\u00e1ticas de sabotagem do per\u00edodo \u00e9 demonstrada visivelmente: a constru\u00e7\u00e3o de declara\u00e7\u00f5es em nome dos Panteras atacando outras organiza\u00e7\u00f5es para que suas rela\u00e7\u00f5es fossem estremecidas e rompidas, a desinforma\u00e7\u00e3o era uma t\u00e1tica recorrente. Por\u00e9m, a pr\u00e1tica dita o crit\u00e9rio da verdade e a atua\u00e7\u00e3o dos Panteras com Fred Hampton conseguia superar em v\u00e1rios momentos essa disc\u00f3rdia causada pelo FBI. Suas atitudes buscavam dialogar com o avan\u00e7o de suas comunidades, construindo o poder popular, formando politicamente os militantes para que atuassem com seriedade e disciplina no cotidiano.<\/p>\n<p>Enquanto Fred Hampton estava preso, houve um confronto com a pol\u00edcia que cercava a sede dos Panteras, v\u00e1rios importantes militantes continuaram ativos e foram alvos dessa persegui\u00e7\u00e3o e da destrui\u00e7\u00e3o da sede. Pouco tempo depois a comunidade estava prestes a auxili\u00e1-los na reconstru\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o, outras organiza\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m vieram em apoio, o respeito que os Panteras tinham era enorme e isso n\u00e3o \u00e9 de modo algum escondido no filme.<\/p>\n<p>Em paralelo a hist\u00f3ria de Fred Hampton tamb\u00e9m s\u00e3o mostradas as discuss\u00f5es que o FBI tinha sobre o Partido, aqui reside o cavalo de Tr\u00f3ia que o Shaka King mencionou em entrevistas ap\u00f3s o lan\u00e7amento da obra, o filme tamb\u00e9m \u00e9 uma maneira de evidenciar o programa governamental dos EUA feito para destruir movimentos radicais. Dentre as organiza\u00e7\u00f5es que ficaram na mira da contra intelig\u00eancia, destacam-se a Southern Christian Leadership conference (SCLC), Revolutionary Action Movement (RAM) e a Nation of Islam (NOI). Os Panteras Negras foram v\u00edtimas de 80% das 295 a\u00e7\u00f5es do FBI contra organiza\u00e7\u00f5es identificadas como \u201cBlack Nationalist Hate Groups&#8221; [10].<\/p>\n<p>Um filme anticomunista?<\/p>\n<p>Judas e o Messias Negro n\u00e3o se trata de uma expl\u00edcita propaganda comunista, apesar das breves cita\u00e7\u00f5es de nomes de autores revolucion\u00e1rios, como Mao, Ho Chi Minh e Fanon. Pouco \u00e9 mostrado sobre os ac\u00famulos te\u00f3ricos do Partido, v\u00e1rios detalhes importantes, figuras e acontecimentos hist\u00f3ricos tiveram sua apresenta\u00e7\u00e3o diminu\u00edda ou n\u00e3o foram exibidas. Contudo, o diretor tem consci\u00eancia plena sobre essas limita\u00e7\u00f5es, seu prop\u00f3sito maior \u00e9 fazer o espectador compreender os p\u00f3los opostos expressos em Hampton e O\u2019Neal. Shaka King consultou a fam\u00edlia do Pantera para conquistar a sua ben\u00e7\u00e3o para o projeto, visitou a casa que o revolucion\u00e1rio cresceu e conversou com ex-membros do Partido. Todo esse processo foi fundamental para a constru\u00e7\u00e3o da obra e determinou a forma sens\u00edvel que o filme trata a trajet\u00f3ria de Hampton.<\/p>\n<p>Nas cenas em que o dirigente dialoga e convive com a sua companheira h\u00e1 uma compreens\u00e3o da figura humana que estava por tr\u00e1s daqueles grandiosas e inspiradoras falas. \u00c9 destac\u00e1vel como a morte do revolucion\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 exibida de forma gr\u00e1fica e glorificada como geralmente acontece em Hollywood, s\u00e3o tiros que p\u00f5em fim a uma vida muito curta, tiros que silenciaram um comunista, mas que como diz o pr\u00f3prio Presidente em um de seus discursos: \u201cVoc\u00ea pode matar um revolucion\u00e1rio, mas nunca poder\u00e1 matar a revolu\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>No come\u00e7o de novembro de 1969 Hampton foi convidado para falar em um evento realizado na Calif\u00f3rnia, durante sua estadia ele conheceu pessoalmente as lideran\u00e7as nacionais dos Panteras e se tornaria o Ministro-Chefe e o Porta-Voz Nacional da organiza\u00e7\u00e3o. Possivelmente, pela sua capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o e articula\u00e7\u00e3o, Hampton poderia ter lidado de melhor forma com as disputas intra-organizacionais dos Panteras que come\u00e7avam a se evidenciar nacionalmente, entre as tend\u00eancias que buscavam focar na guerrilha armada e outras que seguiam a linha nacional aumentando a inser\u00e7\u00e3o nas comunidades.<\/p>\n<p>Judas e o Messias Negro n\u00e3o \u00e9 um filme anticomunista. \u00c9 o resultado de uma dire\u00e7\u00e3o consciente, de uma produ\u00e7\u00e3o negra, de um contato que buscou respeitar os antigos membros dos Panteras e suas fam\u00edlias (Fred Hampton Jr. acompanhou todos os dias de filmagens), \u00e9 o resultado daqueles que lutaram fora das telas para a concretiza\u00e7\u00e3o de uma narrativa que mostrasse para o mundo um pouco de quem realmente foi Fred Hampton e o que o movia, a luta do povo pelo povo, a luta pelo fim do racismo, do machismo, do imperialismo, a luta pelo socialismo e pela revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sabendo de suas limita\u00e7\u00f5es, a escolha pelo foco dado tamb\u00e9m a O\u2019Neal serve para fazer o espectador se engajar ainda mais com a obra e questionar qual a sua posi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao que acontece na tela, acompanhar um informante do FBI \u00e9 inc\u00f4modo, assim como \u00e9 a pol\u00edtica e seus conflitos.<\/p>\n<p>\u00c9 um filme que te faz perguntar de que lado voc\u00ea est\u00e1?<\/p>\n<p>E conhecendo a hist\u00f3ria e o legado de Fred Hampton, devemos saber a resposta correta.<\/p>\n<p>NOTAS:<\/p>\n<p>1. Cita\u00e7\u00e3o retirada da entrevista de Shaka King para a Variety, dispon\u00edvel em: https:\/\/variety.com\/2020\/film\/features\/judas-and-the-black-messiah-shaka-king-1234871984\/<\/p>\n<p>2. https:\/\/theconversation.com\/washington-dcs-role-behind-the-scenes-in-hollywood-goes-deeper-than-you-think-80587<\/p>\n<p>3. Ra\u00e7a, classe e revolu\u00e7\u00e3o: a luta pelo poder popular nos Estados Unidos \/ Partido dos Panteras Negras [et al]; organizadores Jones Manoel, Gabriel Landi \u2013 S\u00e3o Paulo, SP; Autonomia Liter\u00e1ria, 2020.<\/p>\n<p>4. Na sua autobiografia, Angela Davis relata que, em Novembro de 1967, na a Black Youth Conference (Confer\u00eancia da Juventude Negra), as organiza\u00e7\u00f5es United Front (Frente unificada) e a Us Organization (do Ron Karenga) protagonizam uma troca de tiros por motivos desconhecidos. O mesmo Ron Karenga respons\u00e1vel pelo assassinato de Alprentice \u201cBunchy\u201d Carter, membro do BPP.<\/p>\n<p>5. MCANNE, Michael. Os Panteras Negras, os Jovens Patriotas e a Coaliz\u00e3o Arco-\u00edris. Tradu\u00e7\u00e3o: Victor Marques. Jacobin Brasil, 2019. Dispon\u00edvel em: https:\/\/jacobin.com.br\/2019\/12\/os-panteras-negras-os-jovens-patriotas-e-a-coalizao-arco-iris\/<\/p>\n<p>6. Todo poder ao Povo! Artigos, discursos e documentos do Partido dos Panteras Negras. Poder onde quer que esteja o povo. Tradu\u00e7\u00e3o: Gabriel Duccini. 1\u00aa edi\u00e7\u00e3o, 2017. p. 75.<\/p>\n<p>7. No filme, esse trecho do discurso \u201cPoder onde quer que esteja o povo\u201d aparece recortado. Colocamos na cita\u00e7\u00e3o o trecho completo.<\/p>\n<p>8. Informa\u00e7\u00e3o retirada dos arquivos p\u00fablicos sobre o COINTELPRO, dispon\u00edveis em: https:\/\/sites.google.com\/site\/cointelprodocs\/the-use-of-informants-in-fbi-intelligence-investigations<\/p>\n<p>9. Informa\u00e7\u00e3o retirada da reportagem da The Atlantic, dispon\u00edvel em: https:\/\/www.theatlantic.com\/culture\/archive\/2021\/02\/what-judas-and-the-black-messiah-reveals-about-black-lives-matter\/618024\/<\/p>\n<p>10. Caderno CRH n. 1 (1987); JOHNSON, Ollie A. Explicando a extin\u00e7\u00e3o do Partido dos Panteras Negras: o papel dos fatores internos; Tradu\u00e7\u00e3o: Elizabeth S. Ramos. Salvador, Centro de Recursos Humanos\/UFBa, 2001. p. 102.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27430\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[165],"tags":[228],"class_list":["post-27430","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-eua","tag-5b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-78q","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27430","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27430"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27430\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27430"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27430"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27430"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}