{"id":27442,"date":"2021-06-23T11:19:18","date_gmt":"2021-06-23T14:19:18","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27442"},"modified":"2021-06-25T00:18:10","modified_gmt":"2021-06-25T03:18:10","slug":"a-inflacao-brasileira-e-a-luta-de-classes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27442","title":{"rendered":"A infla\u00e7\u00e3o brasileira e a luta de classes"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-content\/uploads\/sites\/183\/2021\/01\/20140530por-ramiro-furquim-_oaf1186-326x245.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Foto: Ramiro Furquim\/Sul21<\/p>\n<p>A infla\u00e7\u00e3o brasileira e o conflito distributivo<\/p>\n<p>A infla\u00e7\u00e3o atual e seu combate, mediante altas na taxa b\u00e1sica de juros, transfere renda dos trabalhadores para os capitalistas, e n\u00e3o \u00e9 portanto um fen\u00f4meno puramente &#8220;t\u00e9cnico&#8221;.<\/p>\n<p>Por Juliane Furno | Revista Opera<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos meses o tema da infla\u00e7\u00e3o voltou com for\u00e7a tanto no notici\u00e1rio econ\u00f4mico quanto no bolso da classe trabalhadora. Como infla\u00e7\u00e3o \u00e9 um tema complexo, que relaciona-se intrinsecamente \u00e0 luta de classes via conflito distributivo, aprofundar nossa compreens\u00e3o sobre ela \u00e9 uma tarefa importante.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, a l\u00f3gica pouco dial\u00e9tica e extremamente formal com que a economia \u00e9 tratada em manuais tende a nos apresentar alguns conceitos como \u201cbons\u201d e \u201cruins\u201d. Na esteira disso, \u201cd\u00e9ficit p\u00fablico = ruim\u201d; \u201csuper\u00e1vit na conta financeira = bom\u201d; \u201cinfla\u00e7\u00e3o = ruim\u201d e por a\u00ed vai. Esquecem-se os economistas que vivemos em uma sociedade capitalista, portanto, cindida em classes sociais. Dessa feita, nada \u00e9 \u201cbom\u201d ou \u201cruim\u201d descolado da avalia\u00e7\u00e3o de como distintos indicadores impactam classes sociais distintas. No mesmo exemplo proposto, a l\u00f3gica formal impede de perceber que pelo pr\u00f3prio princ\u00edpio das partidas dobradas, que rege a contabilidade social, se o Estado tem \u201cd\u00e9ficit\u201d, o setor privado tem \u201csuper\u00e1vit\u201d. Assim, em per\u00edodos de crise, \u00e9 desej\u00e1vel que o Estado incorra em d\u00e9ficit para que fam\u00edlias e empresas possam estar em uma situa\u00e7\u00e3o superavit\u00e1ria. Por exemplo.<\/p>\n<p>Infla\u00e7\u00e3o \u00e9 outro desses termos. Trata-se de um processo de aumento cont\u00ednuo e generalizado no n\u00edvel de pre\u00e7os. N\u00e3o \u00e9 nem essencialmente bom nem ruim; \u00e9 necess\u00e1rio investigar as causas e quem se apropria do excedente gerado. Um exemplo significativo foi a \u201cinfla\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os\u201d ensejadas nos governos Lula e Dilma I. Esse n\u00edvel baixo de infla\u00e7\u00e3o tinha uma caracter\u00edstica redistributiva e estava imerso na luta de classes. O pre\u00e7o mais elevado dos servi\u00e7os, especialmente dos servi\u00e7os prestados \u00e0s fam\u00edlias, como os feitos pela empregada dom\u00e9stica, pelo pedreiro, pelo encanador, pela manicure, etc., contribuiu na transfer\u00eancia de parte da renda das fam\u00edlias mais ricas \u2013 que comumente adquirem esses servi\u00e7os \u2013 para as fam\u00edlias mais pobres \u2013 que costumam prest\u00e1-los.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, na periferia do sistema capitalista, carente de uma robusta estrutura de oferta, todo o processo de crescimento econ\u00f4mico acelerado vai gerar, no curto prazo, algum n\u00edvel de infla\u00e7\u00e3o, at\u00e9 que oferta e demanda tenham uma trajet\u00f3ria um pouco mais equilibrada. O neoliberalismo, no seu regime de \u201ctrip\u00e9 macroecon\u00f4mico\u201d, constituiu um arcabou\u00e7o institucional \u2013 o regime de metas de infla\u00e7\u00e3o \u2013 que impede qualquer tipo de infla\u00e7\u00e3o mais elevada, independentemente das suas causas e de quem se beneficia com ela. A pol\u00edtica econ\u00f4mica, desde os anos 1990, est\u00e1 centrada na garantia de \u201cestabilidade de pre\u00e7os\u201d a despeito de outros indicadores t\u00e3o ou mais relevantes, tais como pleno emprego, crescimento econ\u00f4mico ou mesmo estabilidade macro.<\/p>\n<p>Ocorre que a infla\u00e7\u00e3o atual, pela sua caracter\u00edstica de estar ligada \u00e0 press\u00e3o de custos sobre mercadorias, concorre como um dos principais elementos de concentra\u00e7\u00e3o de renda. Isso porque, no momento atual, s\u00e3o os servi\u00e7os que est\u00e3o deflacionados e as mercadorias e os pre\u00e7os administrados que tiveram seus valores acrescidos. Assim, as fam\u00edlias mais ricas, que consomem proporcionalmente mais servi\u00e7os do que bens em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua renda, est\u00e3o concentrando renda, enquanto as fam\u00edlias mais pobres est\u00e3o ficando mais pobres, n\u00e3o s\u00f3 porque s\u00e3o as que em geral prestam esses servi\u00e7os mas, sobretudo, porque despendem um maior montante da sua renda, justamente, em mercadorias.<\/p>\n<p>O componente que mais pressionou a infla\u00e7\u00e3o no m\u00eas de maio de 2021 foram os pre\u00e7os administrados, especialmente a energia el\u00e9trica, o g\u00e1s de cozinha e as tarifas p\u00fablicas de esgoto. Se somarmos ao patamar elevado de relativa estabilidade do pre\u00e7o dos alimentos e a queda expressiva da renda dos trabalhadores, o resultado \u00e9 que os mais pobres est\u00e3o sem luz, sem g\u00e1s e sem comida. E quanto mais os pobres ingressam numa situa\u00e7\u00e3o delet\u00e9ria, mais eles enfraquecem sua possibilidade de impor barganhas ao mercado de trabalho. Assim, mais se contrai a renda m\u00e9dia e mais cai o pre\u00e7o da for\u00e7a de trabalho. Quanto mais cai o pre\u00e7o da for\u00e7a de trabalho, menor \u00e9 o disp\u00eandio em capital vari\u00e1vel e maior \u00e9 a parcela de mais valor apropriada no processo produtivo.<\/p>\n<p>Para piorar o conflito distributivo, a forma com que a equipe econ\u00f4mica tem enfrentado o tema da infla\u00e7\u00e3o atual \u00e9 ainda mais prejudicial aos trabalhadores. Partindo de uma leitura extremamente dogm\u00e1tica e manualesca da infla\u00e7\u00e3o como um problema apenas monet\u00e1rio e ligado a press\u00f5es de demanda, o Banco Central do Brasil tem subido, sistematicamente, a taxa b\u00e1sica de juros como forma de conter a press\u00e3o inflacion\u00e1ria. O aumento na taxa de juros, por sua vez, n\u00e3o s\u00f3 corrobora a dimens\u00e3o recessiva do ciclo econ\u00f4mico como transfere ainda mais renda aos mais ricos, via mecanismos de encarecimento dos custos financeiros.<\/p>\n<p>Ou seja, o fen\u00f4meno inflacion\u00e1rio atual e a forma como a autoridade monet\u00e1ria atua para combat\u00ea-lo \u2013 mediante persistentes altas na taxa b\u00e1sica de juros \u2013 \u00e9 mais um elemento de transfer\u00eancia de renda da classe trabalhadora para os donos do capital. A infla\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno t\u00e9cnico ou estritamente monet\u00e1rio. Celso Furtado j\u00e1 nos alertava o quanto a infla\u00e7\u00e3o brasileira est\u00e1 ligada ao conflito distributivo, ou seja, \u00e0 luta de classes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27442\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7,20],"tags":[224],"class_list":["post-27442","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","category-c1-popular","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-78C","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27442","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27442"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27442\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27442"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27442"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27442"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}