{"id":27457,"date":"2021-06-26T14:10:59","date_gmt":"2021-06-26T17:10:59","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27457"},"modified":"2021-06-26T14:10:59","modified_gmt":"2021-06-26T17:10:59","slug":"paraguai-um-estado-feminicida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27457","title":{"rendered":"Paraguai: um Estado feminicida"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/pw\/AM-JKLXfanS5Z0qNxl-34kKccZEa7zrFfWPJq0dvakGGe89JKDVPCyRozGZbMPmPIW9RdlPwTkRxAGG0IwyKSOeg6mzQHFYnFot60FDoajOGRg6y4ZgV4ra0oJe1SdfAXJkPiWyY2-2aPqnRyi5-0U0TZoK4=s608-no\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Desenho: Javier Laterra<\/p>\n<p>N\u00e3o as procuram<\/p>\n<p>Por Elisa Marecos<\/p>\n<p>ADELANTE! &#8211; Jornal do Partido Comunista Paraguaio<\/p>\n<p>Encontram-nas por acidente, porque seus ossos emergem do solo, porque algu\u00e9m acidentalmente entrou em um terreno baldio transformado em uma sepultura clandestina. N\u00e3o as procuram.<\/p>\n<p>O mecanismo repete-se indefinidamente, at\u00e9 que os seus nomes n\u00e3o sejam ouvidos na r\u00e1dio, at\u00e9 que os seus rostos n\u00e3o apare\u00e7am na televis\u00e3o, at\u00e9 que a pergunta sobre o seu paradeiro n\u00e3o se torne tend\u00eancia nas redes, n\u00e3o as procuram.<\/p>\n<p>Para o Estado paraguaio, as pessoas desaparecidas s\u00e3o mais um dado estat\u00edstico que dorme em uma delegacia de pol\u00edcia. Sem a m\u00eddia e a press\u00e3o social as autoridades nada fazem para saber o que aconteceu com elas. Segundo dados da Pol\u00edcia Nacional, apenas no m\u00eas de maio deste ano desapareceram 121 pessoas, a maioria mulheres menores de idade. Quantos desses casos foram atendidos pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico?<\/p>\n<p>Numa sociedade como a nossa, marcada pela viol\u00eancia de g\u00eanero, essa neglig\u00eancia e inefic\u00e1cia estatal \u00e9 duplamente criminosa com as mulheres, visto que as institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o implementam mecanismos de prote\u00e7\u00e3o preventiva e, no momento do desaparecimento, tamb\u00e9m n\u00e3o se aplica a perspectiva de g\u00eanero nos procedimentos de busca, embora os n\u00fameros da realidade sejam avassaladores.<\/p>\n<p>At\u00e9 agora em 2021 houve 11 feminic\u00eddios, 10 dos quais ocorreram na casa das v\u00edtimas. O Minist\u00e9rio da Mulher revelou que, desde o in\u00edcio da pandemia, as chamadas decorrentes de viol\u00eancia aumentaram 78%. Mesmo assim, as investiga\u00e7\u00f5es ainda n\u00e3o se concentram no ambiente pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Quando uma mulher desaparece, a principal suspeita \u00e9 ela mesma, as primeiras hip\u00f3teses e as perguntas visam consider\u00e1-la respons\u00e1vel em vez de descobrir seu paradeiro. Uma opera\u00e7\u00e3o que sai das pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es do Estado e \u00e9 promovida e amplificada pela m\u00eddia hegem\u00f4nica.<\/p>\n<p>A primeira coisa que ouvimos a respeito da desaparecida s\u00e3o refer\u00eancias a seu estilo de vida, apar\u00eancia pessoal, gostos pessoais, comportamento sexual, dados que se apresentam apenas para acentuar a morbidade e que em \u00faltima an\u00e1lise n\u00e3o fornecem ind\u00edcios relevantes para uma investiga\u00e7\u00e3o. \u201cQue bebia \u00e1lcool, que sa\u00eda sozinha \u00e0 noite, que era tatuada, que sofria de depress\u00e3o, que tinha um ou mais parceiros\u201d.<\/p>\n<p>O perfil constru\u00eddo para iniciar a busca \u00e9 apresentado do ponto de vista da curiosidade, tra\u00e7ando um panorama prov\u00e1vel onde o que aconteceu com elas aconteceu enquanto caminhavam pela rua, presas em sabe-se l\u00e1 o qu\u00ea, como se o espa\u00e7o p\u00fablico nos fosse proibido, como se a escolha de vida que temos justificasse nosso desaparecimento.<\/p>\n<p>Chegaram tarde<\/p>\n<p>Anal\u00eda Rodas estava desaparecida desde 27 de novembro de 2020; sete meses depois encontraram seu corpo enterrado a menos de 1 metro de profundidade em sua pr\u00f3pria casa. Isaura Bogado foi encontrada em uma propriedade perto do local onde foi vista pela \u00faltima vez. Estava desaparecida h\u00e1 mais de um m\u00eas. O corpo de Meliza Fleitas foi encontrado um ano e quatro meses ap\u00f3s seu desaparecimento, tamb\u00e9m no quintal da casa onde morava com seu ent\u00e3o companheiro, Jaime Vera Fern\u00e1ndez, fugitivo at\u00e9 hoje e acusado de feminic\u00eddio.<\/p>\n<p>O que esses tr\u00eas casos t\u00eam em comum? S\u00f3 foram levados em considera\u00e7\u00e3o pelas institui\u00e7\u00f5es quando parentes, amigos e organiza\u00e7\u00f5es come\u00e7aram a exigir que fossem investigados. As tr\u00eas eram mulheres de origem humilde.<\/p>\n<p>A promotoria explicou que Anal\u00eda costumava sair sem dizer para onde ia, forneciam a informa\u00e7\u00e3o que Isaura usava tatuagem, sobre Meliza especificaram que ela era metaleira: o que essas caracter\u00edsticas explicam sobre o que aconteceu com elas? Que tipos de preconceito buscam configurar em rela\u00e7\u00e3o a estas mulheres que n\u00e3o foram procuradas?<\/p>\n<p>O fundo do p\u00e1tio vira abismo quando ningu\u00e9m as procura, o fundo do p\u00e1tio \u00e9 um po\u00e7o, um buraco sem fundo de dor onde n\u00e3o cabe a justi\u00e7a. A casa, o ambiente imediato \u00e9 um cen\u00e1rio de perigo que n\u00e3o \u00e9 contemplado quando n\u00e3o se faz um trabalho s\u00e9rio, quando o Minist\u00e9rio P\u00fablico n\u00e3o \u00e9 respons\u00e1vel pelos seus poderes, n\u00e3o as procuraram como n\u00e3o procuram Yuyu, Dahiana Espinoza, Carmen Elizabeth Villalba &#8220;Lichita&#8221; e tantas outras pessoas desaparecidas.<\/p>\n<p>Enquanto isso, o n\u00famero de mulheres assassinadas est\u00e1 aumentando.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27457\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[35],"tags":[228],"class_list":["post-27457","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c40-paraguai","tag-5b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-78R","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27457","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27457"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27457\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27457"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27457"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27457"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}