{"id":27672,"date":"2021-08-07T00:04:55","date_gmt":"2021-08-07T03:04:55","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27672"},"modified":"2021-08-07T00:04:55","modified_gmt":"2021-08-07T03:04:55","slug":"tres-decadas-de-liberalizacao-economica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27672","title":{"rendered":"Tr\u00eas d\u00e9cadas de liberaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/resistir.info\/patnaik\/imagens\/museu_do_neoliberalismo.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->\u2013 Uma an\u00e1lise indiana que pode ser estendida ao resto do mundo<\/p>\n<p>por Prabhat Patnaik [*]<\/p>\n<p>Fazem trinta anos desde a ado\u00e7\u00e3o pela \u00cdndia das pol\u00edticas neoliberais, em 1991 \u2013 embora alguns datem a sua introdu\u00e7\u00e3o ainda mais cedo, em 1985. Os jornais est\u00e3o cheios de avalia\u00e7\u00f5es dos impactos destas pol\u00edticas sobre a economia e muitos liberais, desde Manmohan Singh at\u00e9 por a\u00ed abaixo, subitamente tornaram-se vis\u00edveis a louvar a sua obra. Na melhor das hip\u00f3teses eles lamentam que os benef\u00edcios da liberaliza\u00e7\u00e3o tenham sido desigualmente distribu\u00eddos. Manmohan Singh disse recentemente que &#8220;uma vida saud\u00e1vel e dignificada para todos os indianos deve ser priorizada&#8221;. Algu\u00e9m pode perguntar o que \u00e9 que o impediu de fazer isso quando estava \u00e0 frente do Estado.<\/p>\n<p>Uma tal avalia\u00e7\u00e3o, de que a liberaliza\u00e7\u00e3o promoveu muito a taxa de crescimento do PIB e portanto melhorou a vida de quase todo indiano, tirando vastas massas das garras da pobreza absoluta, apesar de ter aumentado a desigualdade de renda e riqueza no pa\u00eds, seria aceita habitualmente n\u00e3o s\u00f3 pelos devotos da liberaliza\u00e7\u00e3o como tamb\u00e9m pelos seus cr\u00edticos, incluindo mesmo alguns na esquerda. As diferen\u00e7as, aparentemente, referem-se apenas ao peso que cada um d\u00e1 \u00e0 igualdade em rela\u00e7\u00e3o ao crescimento. Os neoliberais argumentariam mesmo que os malef\u00edcios da desigualdade desapareceriam se a taxa de crescimento na economia reanimasse e aumentasse, pois os &#8220;esp\u00edritos animais&#8221; dos capitalistas que determinam quanto investimento fazem t\u00eam de ser promovidos. E o governo Modi afirmaria que promover os &#8220;esp\u00edritos animais&#8221; dos capitalistas \u00e9 precisamente o que est\u00e1 fazendo, atrav\u00e9s das suas pol\u00edticas anti-trabalhadores e anti-campesinato, algumas das quais o Congresso, apesar de n\u00e3o ter uma an\u00e1lise diferente, curiosamente se op\u00f5e. Assim, a alega\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es de Bretton Woods de que existe um amplo &#8220;consenso&#8221; sobre as pol\u00edticas neoliberais entre os principais partidos pol\u00edticos parece tamb\u00e9m estender-se \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o dos seus efeitos na economia ao longo das \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Contudo, toda esta percep\u00e7\u00e3o \u00e9 errada devido a pelo menos duas raz\u00f5es. A primeira v\u00ea o setor capitalista da economia como sendo mais ou menos independente, destacado do resto da economia, cujo principal efeito sobre o seu ambiente circundante \u00e9 simplesmente atrair cada vez mais trabalho do mesmo \u2013 e o lamento \u00e9 que n\u00e3o tenha feito isso suficientemente. Na realidade, contudo, a acumula\u00e7\u00e3o dentro do setor capitalista invariavelmente choca-se com o mundo exterior existente de m\u00faltiplas formas. Ele atrai n\u00e3o s\u00f3 trabalho do mundo exterior a si, o que numa economia com reservas massivas de trabalho \u00e9 uma coisa boa, como tamb\u00e9m terra e outros recursos, incluindo recursos fiscais (exemplo: subs\u00eddios aos capitalistas para promoverem os seus &#8220;esp\u00edritos animais&#8221; ocorrem \u00e0s expensas de subs\u00eddios para a agricultura camponesa que tradicionalmente tem contribu\u00eddo para a sua viabilidade). E o crescimento do setor capitalista tamb\u00e9m puxa a procura para longe dos setores tradicionais.<\/p>\n<p>Portanto, a acumula\u00e7\u00e3o de capital invariavelmente mina a economia de pequena produ\u00e7\u00e3o circundante (um processo a que Marx chamou de &#8220;acumula\u00e7\u00e3o primitiva de capital&#8221;), mesmo quando retira pouco trabalho da mesma. Ao contr\u00e1rio do que diz a teoria econ\u00f4mica burguesa convencional, nomeadamente que uma taxa r\u00e1pida de acumula\u00e7\u00e3o de capital simplesmente absorver\u00e1 as reservas de trabalho, reduzindo dessa forma o desemprego e a pobreza (e se assim n\u00e3o fizer ent\u00e3o a panaceia est\u00e1 numa taxa de acumula\u00e7\u00e3o de capital ainda mais r\u00e1pida), tal acumula\u00e7\u00e3o mina a economia circundante de pequenos produtores sem absorver muito trabalho. Isto significa um aumento do desemprego e da pobreza. E se a taxa de acumula\u00e7\u00e3o de capital for aumentada, ent\u00e3o isso apenas piora esta tend\u00eancia ao inv\u00e9s de alivi\u00e1-la.<\/p>\n<p>Isto \u00e9 de fato exatamente o que tem acontecido, refletindo-se mesmo nas pr\u00f3prias estat\u00edsticas do governo. O enfraquecimento da agricultura camponesa sob o regime neoliberal, o qual lhe retirou toda a prote\u00e7\u00e3o dada durante o per\u00edodo anterior, \u00e9 \u00f3bvio. Manifesta-se na queda da lucratividade da agricultura camponesa; manifesta-se tamb\u00e9m no fato de, entre os censos de 1991 e 2011, o n\u00famero de &#8220;cultivadores&#8221; (tal como definido pelo censo) ter diminu\u00eddo em 15 milh\u00f5es; e \u00e9 dolorosamente evidente pelos suic\u00eddios de mais de 300 mil agricultores durante as \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>N\u00e3o surpreendentemente, a magnitude da pobreza, no sentido mais elementar do acesso \u00e0s calorias, e n\u00e3o apenas da desigualdade, aumentou desde o in\u00edcio das reformas neoliberais. A percentagem de pessoas com acesso a menos de 2200 calorias por pessoa por dia na \u00cdndia rural (que era a refer\u00eancia oficial original para a pobreza rural), aumentou de 58 em 1993-94 para 68 em 2011-12 (ambos os anos de grandes amostras da pesquisa do NSS &#8211; National Sample Survey &#8211; Pesquisa Nacional por Amostra). Os n\u00fameros correspondentes para a \u00cdndia urbana, onde a refer\u00eancia original era de 2100 calorias por pessoa por dia, s\u00e3o respectivamente 57 e 65.<\/p>\n<p>As quest\u00f5es tornaram-se ainda piores desde 2011-12. A pesquisa por amostragem de 2017-18 do NSS revelou n\u00fameros t\u00e3o surpreendentes que o governo Modi decidiu suprimi-los por completo e tamb\u00e9m descontinuar estas pesquisas na sua forma antiga. No entanto, algumas informa\u00e7\u00f5es escaparam antes de os resultados serem suprimidos e estes mostram que, entre 2011-12 e 2017-18, a despesa de consumo per capita em todos os itens em termos reais caiu 9% na \u00cdndia rural. Nada igual havia antes acontecido em tempos normais (ou seja, excetuando grandes preju\u00edzos nas colheitas) na \u00cdndia independente.<\/p>\n<p>O assalto \u00e0 agricultura camponesa sob o neoliberalismo est\u00e1 realmente se intensificando. A sua manifesta\u00e7\u00e3o mais recente, sob a forma de tr\u00eas leis agr\u00edcolas destinadas a promover os interesses do grande capital \u00e0 custa dos camponeses, \u00e9 t\u00e3o prejudicial que trouxe grandes massas camponesas dos estados vizinhos para Deli, exigindo a sua retirada.<\/p>\n<p>Deixem-me agora passar \u00e0 segunda falha na percep\u00e7\u00e3o neoliberal. O investimento dos capitalistas n\u00e3o depende apenas de alguma coisa intang\u00edvel chamada de &#8220;esp\u00edritos animais&#8221;, mas est\u00e1 enraizado em c\u00e1lculos tang\u00edveis que fazem sobre as perspectivas de crescimento nos mercados. \u00c9 verdade que a resposta a tais c\u00e1lculos dentro de limites pode depender do seu estado de otimismo ou pessimismo (o qual \u00e9 captado pela express\u00e3o &#8220;esp\u00edritos animais&#8221;), mas claramente se o mercado n\u00e3o estiver crescendo ou se o crescimento abrandar, ent\u00e3o o investimento dos capitalistas sofre, n\u00e3o importa quantos subs\u00eddios lhes sejam concedidos.<\/p>\n<p>Agora, o neoliberalismo ampliou a desigualdade de rendimentos por toda a parte, incluindo a \u00cdndia: de acordo com Piketty e Chancel, a parcela de 1% no topo da popula\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 renda nacional total era de apenas 6% em 1982, mas aumentou para 22% em 2013-14 (o valor mais alto desde h\u00e1 quase um s\u00e9culo). Como os trabalhadores consomem mais dos seus rendimentos do que os ricos, uma amplia\u00e7\u00e3o da desigualdade de renda equivale a uma transfer\u00eancia de rendimentos dos primeiros para os \u00faltimos, produzindo o efeito de reduzir o consumo e, consequentemente, a procura agregada, a qual por sua vez reduz o investimento e o crescimento. Em suma, o neoliberalismo \u00e9 afligido por uma tend\u00eancia estagnacionista, a qual, para o mundo capitalista como um todo, havia sido mantida sob controle por &#8220;bolhas&#8221; na economia dos EUA, primeiro a &#8220;bolha dotcom&#8221; nos anos 90 e depois a &#8220;bolha habitacional&#8221; na primeira d\u00e9cada deste s\u00e9culo. Com o colapso da &#8220;bolha habitacional&#8221;, a economia mundial entrou numa crise prolongada que n\u00e3o tem solu\u00e7\u00e3o sob o neoliberalismo (que se op\u00f5e \u00e0 interven\u00e7\u00e3o do Estado na &#8220;gest\u00e3o da procura&#8221;).<\/p>\n<p>Isto afetou tamb\u00e9m a economia indiana, na qual, mesmo antes da pandemia, a taxa de desemprego em 2019 era a mais alta j\u00e1 verificada durante 45 anos. Isto tem duas esp\u00e9cies de efeitos sobre o povo: uma, que agravou consideravelmente as condi\u00e7\u00f5es de vida dos trabalhadores, mesmo antes da pandemia, os quais j\u00e1 estavam sendo atacados pela a\u00e7\u00e3o do neoliberalismo. A recente queda dr\u00e1stica do emprego e do consumo refor\u00e7a este fato.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, a crise levou \u00e0 conforma\u00e7\u00e3o de uma alian\u00e7a entre o grande capital e grupos fascistas Hindutva, os quais apoiam o governo Modi. Uma tal alian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 espec\u00edfica da \u00cdndia. Em per\u00edodos de crise, o grande capital promove e financia a ascens\u00e3o pol\u00edtica de grupos fascistas com os quais forma uma alian\u00e7a. Ele assim o faz como um meio de alterar o discurso, destinado a vilipendiar o &#8220;outro&#8221;, a fim de distrair o povo da sua dif\u00edcil situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Embora tais grupos no poder cumpram as ordens do grande capital, eles derivam a sua for\u00e7a pol\u00edtica n\u00e3o de qualquer solu\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica que ofere\u00e7am para combater a crise, mas sim por afastar a aten\u00e7\u00e3o para longe do \u00e2mbito econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>O neoliberalismo, em suma, embora esmagasse os trabalhadores mesmo quando experimentava um crescimento elevado, quando entrou em crise ampliou o massacre e anunciou um arranjo que \u00e9 inimigo das premissas b\u00e1sicas da constitui\u00e7\u00e3o indiana, tais como democracia, laicidade e igualdade social.<\/p>\n<p>Os devotos da liberaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o percebem que, embora possa ter aumentado a taxa de crescimento do PIB, ela tem piorado as condi\u00e7\u00f5es dos trabalhadores e minado os princ\u00edpios fundadores sobre os quais uma na\u00e7\u00e3o indiana moderna pode ser constru\u00edda.<\/p>\n<p>01\/Agosto\/2021<br \/>\n[*] Economista indiano, ver Wikipedia<\/p>\n<p>O original encontra-se em peoplesdemocracy.in\/2021\/0801_pd\/three-decades-economic-liberalisation<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o de JF.<\/p>\n<p>Este artigo encontra-se em https:\/\/resistir.info\/ .<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27672\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9],"tags":[227],"class_list":["post-27672","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7ck","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27672","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27672"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27672\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27672"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27672"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27672"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}