{"id":27682,"date":"2021-08-10T01:53:38","date_gmt":"2021-08-10T04:53:38","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27682"},"modified":"2021-08-10T01:53:38","modified_gmt":"2021-08-10T04:53:38","slug":"tinhorao-adeus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27682","title":{"rendered":"TINHOR\u00c3O, ADEUS?"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.redebrasilatual.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Tinhorao.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Foto: Rovena Rosa (Fotos P\u00fablicas)<\/p>\n<p>Victor Nevesi<\/p>\n<p>Filha de aventuras n\u00e3o t\u00e3o secretas, nas vastas periferias do mundo, com variantes do nacionalismo e do tradicionalismo, a cr\u00edtica musical de Jos\u00e9 Ramos Tinhor\u00e3o, no que se refere \u00e0 maternidade, viveu o drama que se apresenta ainda hoje a certas correntes cr\u00edticas da teoria social: nascida de pai conhecido e crescentemente respeitado (ainda que nem sempre querido), sua enigm\u00e1tica maternidade a conduziu a n\u00e3o poucos impasses.<\/p>\n<p>Tinhor\u00e3o, nascido Jos\u00e9 Ramos em Santos a 07 de fevereiro de 1928, se graduou em direito e em jornalismo no Rio de Janeiro em 1953 e iniciou sua vida profissional no mesmo ano, contratado em setembro como redator \/ copidesque pelo Di\u00e1rio Carioca \u2013 onde ganhou o apelido que o acompanharia pelo resto da vidaii. Passou posteriormente, sempre na fun\u00e7\u00e3o de redator, pelo Jornal do Brasil (1958-63), TV Excelsior (1963 a 31 de mar\u00e7o de 1964), TV Rio, TV Globo (1966-1968), revista Veja (1968-1973), revista Nova. Colaborou como cr\u00edtico de m\u00fasica, at\u00e9 os anos 1990, com diferentes jornais e revistas. Essa atividade se iniciara j\u00e1 em 1961, quando, provocado por Reynaldo Jardim, passou a escrever no Caderno B do Jornal do Brasil, na p\u00e1gina de S\u00e9rgio Cabral, uma coluna intitulada Primeiras Li\u00e7\u00f5es de Samba. Come\u00e7ou assim a atividade que o consagraria como figura incontorn\u00e1vel no campo da cultura brasileira em geral, e, em particular, da m\u00fasica urbana: a reda\u00e7\u00e3o de textos cr\u00edticos sobre a m\u00fasica popular brasileira, inicialmente sob a forma de artigos de jornal.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o se trata aqui somente da reda\u00e7\u00e3o. Tinhor\u00e3o se engajou, a partir de ent\u00e3o, em dedicad\u00edssimo trabalho de pesquisa, ainda mais exigente e importante porque, no momento em que iniciou tal trabalho, eram extremamente escassas e raras as fontes sistematizadas sobre o assunto. Ele pr\u00f3prio afirmou que \u00e0 \u00e9poca estavam dispon\u00edveis, sobre o tema, muito poucos livros, assim como depoimentos esparsos. A bibliografia mais abundante era a que tratava a m\u00fasica popular como tema secund\u00e1rio. Por isso, o pesquisador se aplicou a entrevistar figuras de refer\u00eancia da constitui\u00e7\u00e3o da m\u00fasica popular urbana no Brasil, como Ismael Silva, Bide, Donga, Pixinguinha, Almirante, Sinh\u00f4, Heitor dos Prazeres, Ademar Cas\u00e9. Empenhou-se, ainda, a recolher material espalhado, estudos publicados em revistas, suplementos liter\u00e1rios, fonogramas, partituras, folhetos, em diferentes localidades do Brasil (sobretudo Rio de Janeiro e Salvador) e de Portugal, chegando a reunir, em seu acervo maduro, mais de 6 mil discos de 76 e 78 rpm gravados entre 1902 e 1964; mais de 4 mil discos de 33 rpm (LPs) lan\u00e7ados entre 1960 e 1990; mais de 35 mil partituras; al\u00e9m de livros e outros documentos raros como cartas, cole\u00e7\u00f5es inteiras de revistas desaparecidas, suplementos liter\u00e1rios de jornais extintos, folhetos impressos desde o s\u00e9culo XIX no Brasil, exemplares de livros rar\u00edssimos impressos, no Brasil e em Portugal, ao longo de s\u00e9culos&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e0 toa, se constru\u00edram diversas lendas em torno de sua figura \u2013 algumas largamente baseadas em fatos reais. \u00c9 verdade, por exemplo, que o pesquisador habitou por muitos anos uma quitinete de cerca de 30m2 na rua Maria Ant\u00f4nia, na Consola\u00e7\u00e3o, em S\u00e3o Paulo, na qual o principal morador n\u00e3o parecia ser exatamente ele, mas sim o enorme acervo que colecionara ao longo da vida adulta. Ali, dormia inicialmente em um saco de dormir presenteado por um dos filhos, posteriormente substitu\u00eddo pelo \u201cconforto\u201d de dois colchonetes empilhados, que era o que havia espa\u00e7o para colocar. \u00c9 tamb\u00e9m verdade que ele autofinanciou sua pesquisa ao longo de toda a vida adulta, primeiro com seu ordenado como jornalista, e, posteriormente, com a aposentadoria que recebia do INSS. N\u00e3o ingressou com ela na academia a n\u00e3o ser tardia e marginalmente, quando da realiza\u00e7\u00e3o do mestrado em Hist\u00f3ria Social na USP. J\u00e1 era ent\u00e3o pesquisador conhecido e maduro, tendo defendido em 1999, j\u00e1 septuagen\u00e1rio, a disserta\u00e7\u00e3o intitulada A imprensa carnavalesca no Brasil. Ao receber uma bolsa nesse mestrado, empregou-a na realiza\u00e7\u00e3o de viagens de pesquisa e aquisi\u00e7\u00e3o de material. Fora esse breve interregno, jamais encontrou para sua pesquisa financiamento p\u00fablico, malgrado sua enorme import\u00e2ncia \u2013 cada vez mais reconhecida quanto mais o pesquisador trazia a p\u00fablico seus resultados, sob a forma de mais de vinte livros de sua autoria editados entre Brasil e Portugal ao longo de cerca de cinco d\u00e9cadas. \u00c9 verdade, ainda, que se envolveu ou foi envolvido em brigas com v\u00e1rios dos mais conhecidos nomes da assim chamada MPB entre os anos 1960 e 1990, devido ao que escreveu. E esse \u00faltimo ponto conduz a um assunto que gostaria de aprofundar nesse necrol\u00f3gio.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Ramos Tinhor\u00e3o sempre afirmou que o travejamento te\u00f3rico-metodol\u00f3gico sobre o qual se amparava n\u00e3o apenas seu trabalho como pesquisador\/historiador, mas tamb\u00e9m seu tratamento cr\u00edtico-ensa\u00edstico da m\u00fasica popular urbana brasileira, era o materialismo hist\u00f3rico-dial\u00e9tico. Trata-se, como se sabe, de nome um pouco mais pomposo para o bom e velho marxismo (apenas elidindo a refer\u00eancia demasiado direta ao indiv\u00edduo que o fundou). Mas o marxismo n\u00e3o \u00e9 apenas um conjunto de ideias impressas em tinta no papel: ele \u00e9, sobretudo, a express\u00e3o te\u00f3rica viva de movimentos pr\u00e1ticos de luta por emancipa\u00e7\u00e3o das classes trabalhadoras no contexto de consolida\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria do modo capitalista de produ\u00e7\u00e3o e de vida. Sendo assim, quando tais classes sofrem inflex\u00f5es, transforma\u00e7\u00f5es, experimentam altera\u00e7\u00f5es em suas formas de ser e de luta, tamb\u00e9m o marxismo se metamorfoseia \u2013 ainda que, como a lagarta que se torna borboleta, sempre restem certos elementos essenciais.<\/p>\n<p>A recep\u00e7\u00e3o do pensamento de Marx, assim como aquela dos cl\u00e1ssicos do marxismo, n\u00e3o costuma se dar movida pelo interesse te\u00f3rico desvinculado da pr\u00e1xis pol\u00edtica. Isso n\u00e3o \u00e9, em si, um problema: \u00e9 condizente com a pr\u00f3pria fecundidade desse pensamento enquanto express\u00e3o te\u00f3rica do movimento do real. Articulam-se na recep\u00e7\u00e3o do marxismo, assim como na sua reprodu\u00e7\u00e3o particular no pensamento concreto de cada pensador que se reivindica atrelado a essa vertente da teoria social, todo um conjunto de conhecimentos anteriormente acumulados, posi\u00e7\u00f5es assumidas, fragmentos de pol\u00eamicas, lutas, interpreta\u00e7\u00f5es do processo hist\u00f3rico no qual tal pensamento se desenvolveu, e daquele que se desenvolveu a partir dele.<\/p>\n<p>No caso do pensamento de Tinhor\u00e3o, apresento aqui as seguintes hip\u00f3teses. Primeira, de que a forma particular que assumiu seu marxismo foi profundamente marcada por uma assimila\u00e7\u00e3o conservadora da no\u00e7\u00e3o de tradi\u00e7\u00e3o (em uma palavra: tradicionalismo), vinculada a uma leitura pouco cr\u00edtica dos limites da na\u00e7\u00e3o como categoria interpretativa e do nacionalismo como projeto pol\u00edticoiii. Segunda, de que, contraditoriamente, esses limites est\u00e3o na base do principal ponto forte do pensamento do autor: seu interesse infatig\u00e1vel pelas formas tradicionais da cultura popular urbana brasileira \u2013 ou seja, aquelas que se desenvolveram e consolidaram entre, aproximadamente, fins do s\u00e9culo XVIII e metade do XX, ao longo do lapso temporal em que no Brasil se processou hist\u00f3rico-concretamente a constitui\u00e7\u00e3o de uma na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa marca se faz notar na dire\u00e7\u00e3o de diversas das afirma\u00e7\u00f5es que fez enquanto cr\u00edtico de m\u00fasica, assim como no rumo dado pelo pensador a algumas das mais importantes pol\u00eamicas em que esteve envolvido. \u00c9 o caso, por exemplo, da conhecida controv\u00e9rsia sobre a bossa nova, que, para ele, \u00e0 semelhan\u00e7a dos assim chamados carros nacionais, seria m\u00fasica norte-americana apenas montada no Brasil \u2013 o que ele tamb\u00e9m afirmou, por exemplo, sobre o rock brasileiro. Ou ainda de sua insist\u00eancia no tratamento sarc\u00e1stico e \u00e1cido dispensado a \u00edcones daquele g\u00eanero musical, que lhe custou n\u00e3o poucas acusa\u00e7\u00f5es de malvadeza e deslealdade. Tinhor\u00e3o afirmou verbalmente e por escrito, em diferentes ocasi\u00f5es, que Tom Jobim seria um americanizado plagi\u00e1rio, uma vez que teria tomado algumas de suas principais can\u00e7\u00f5es de pe\u00e7as da tradi\u00e7\u00e3o oral brasileira, apenas rearranjando-as ao gosto da est\u00e9tica do jazz norte-americano; Jo\u00e3o Gilberto seria um crooner americanizado tocando um viol\u00e3o gago; Johnny Alf seria um m\u00fasico brasileiro-americano incapaz de resgatar a verdadeira tradi\u00e7\u00e3o brasileira, um velho m\u00e1gico tirando da gasta cartola sempre as mesmas flores etc. Note-se a reincid\u00eancia da constata\u00e7\u00e3o acusat\u00f3ria: o problema central estava em que tais m\u00fasicos n\u00e3o expressavam a cultura tida por Tinhor\u00e3o como verdadeiramente brasileira, aquela \u201cdo povo\u201d, quando incorporavam a seu vocabul\u00e1rio art\u00edstico elementos de uma linguagem tida como estrangeira, estranha, imposta.<\/p>\n<p>Tais acusa\u00e7\u00f5es remetem \u00e0 considera\u00e7\u00e3o do momento hist\u00f3rico em que se formou o marxismo de Jos\u00e9 Ramos Tinhor\u00e3o. Um conhecido ensaio sobre cultura e pol\u00edtica no Brasil dos anos 1960 demonstra que, entre os anos 1950 e 1964, ventos do nacionalismo e do desenvolvimentismo compuseram parte de um vibrante mosaico sociocultural em que o pa\u00eds teria estado irreconhecivelmente inteligente. Foram anos em que se formou uma cultura majorit\u00e1ria, ou, pelo menos, hegem\u00f4nica (sobretudo a partir da segunda metade dos anos 1950), em que a incid\u00eancia de palavras de ordem como pol\u00edtica externa independente, reformas estruturais, liberta\u00e7\u00e3o nacional, combate ao imperialismo e ao latif\u00fandio indicam intensa movimenta\u00e7\u00e3o na vida pol\u00edtica e cultural brasileira. Essa movimenta\u00e7\u00e3o expressava, no plano ideol\u00f3gico, o curso realmente ocorrente de conclus\u00e3o da transi\u00e7\u00e3o capitalista da forma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mico-social brasileira, atrav\u00e9s de uma moderniza\u00e7\u00e3o conservadora com caracter\u00edsticas classicamente assinaladas como uma revolu\u00e7\u00e3o pelo alto, que ocorreu atrav\u00e9s da reiterada concilia\u00e7\u00e3o entre progresso e atraso. Resultou disso uma forma social marcada por abissal desigualdade social, mantida e reproduzida por uma forma estatal autocr\u00e1tica e extremamente brutal.<\/p>\n<p>Tinhor\u00e3o foi um obstinado cr\u00edtico de ilus\u00f5es que propagavam que o desenvolvimento capitalista conduziria \u00e0 supera\u00e7\u00e3o desse quadro e, com ela, das mazelas sociais do pa\u00eds. Ele enxergou claramente que o processo se dava acentuando a subordina\u00e7\u00e3o das classes trabalhadoras brasileiras, assim como se fundava sobre a amplia\u00e7\u00e3o de sua explora\u00e7\u00e3o e, mesmo, de sua espolia\u00e7\u00e3o \u2013 pense-se nas in\u00fameras remo\u00e7\u00f5es de popula\u00e7\u00f5es como parte da reconfigura\u00e7\u00e3o espacial e urban\u00edstica das grandes cidades brasileiras; no assim chamado \u201c\u00eaxodo rural\u201d, sinal da expropria\u00e7\u00e3o dos camponeses; na submiss\u00e3o de amplos contingentes, anteriormente autossuficientes, aos imperativos do trabalho assalariado e do mercado para manuten\u00e7\u00e3o da subsist\u00eancia. Isso acarretava consequ\u00eancias de monta no modo de vida de tais popula\u00e7\u00f5es, o que obviamente, por si s\u00f3, j\u00e1 impunha desdobramentos no plano cultural, alimentando uma press\u00e3o sempre crescente pela reconfigura\u00e7\u00e3o de formas de express\u00e3o tradicionais, na medida em que os trabalhadores (e sim, \u00e9 disso que se trata, inclusive quando falamos de m\u00fasica e de m\u00fasicos) viam radicalmente alteradas suas condi\u00e7\u00f5es de vida, locais de moradia, redes de sociabilidade, formas de inser\u00e7\u00e3o no mundo do trabalho etc.<\/p>\n<p>O pesquisador quis se colocar ao lado dos que sofriam mais diretamente na pele as consequ\u00eancias do desenvolvimento capitalista, e compreendeu, acertadamente, que ocorria na m\u00fasica popular urbana um processo de transi\u00e7\u00e3o que expressava a moderniza\u00e7\u00e3o em curso no Brasil \u2013 e que, portanto, tamb\u00e9m deveria expressar as enormes desigualdades e os mecanismos de domina\u00e7\u00e3o, explora\u00e7\u00e3o e expropria\u00e7\u00e3o colocados por ela. \u00c9 dessa tomada de posi\u00e7\u00e3o que parte sua decidida defesa da tradi\u00e7\u00e3o, tida como do povo, contra a moderniza\u00e7\u00e3o, tida como da elite e das classes m\u00e9dias. E \u00e9 da\u00ed que dimana sua paix\u00e3o pela cultura popular e pela m\u00fasica popular urbana, que o impulsionou \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da mais importante obra individual no campo da historiografia da m\u00fasica popular de que se tem not\u00edcia no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 a\u00ed mesmo que residem alguns problemas not\u00e1veis. Primeiro, as concep\u00e7\u00f5es de tradi\u00e7\u00e3o e de povo presentes nos escritos de Tinhor\u00e3o s\u00e3o tendencialmente reificadoras, ou seja, tendem a tratar como seres est\u00e1ticos, desligados do conjunto da vida social, e, no limite, desumanizados, aqueles que se afirma querer proteger, elegendo algumas de suas objetiva\u00e7\u00f5es como mat\u00e9ria de resguardo e secundarizando a concretude das transforma\u00e7\u00f5es que os empurravam a adapta\u00e7\u00f5es e agenciamentos. Acontece que a roda da hist\u00f3ria n\u00e3o gira para tr\u00e1s. Uma vez estabelecido o modo de produ\u00e7\u00e3o e de vida capitalista, n\u00e3o cabe resistir a ele propondo uma volta ao passado ou a sobreviv\u00eancia, isolada e apartada, de formas de vida e sociabilidade que se pretendam imperme\u00e1veis \u00e0 arrasadora for\u00e7a do capital. Tais propostas s\u00e3o incompat\u00edveis com a l\u00f3gica de desenvolvimento do capital, que tende a destru\u00ed-las e\/ou assimil\u00e1-las subordinadamente, como sobejamente demonstrado por Marx, Engels, pelo melhor pensamento marxista posterior, e pelo pr\u00f3prio desenvolvimento do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista. Trata-se aqui de uma simples constata\u00e7\u00e3o: essa for\u00e7a satura cada poro da sociabilidade em cada classe social, inclusive nas classes trabalhadoras e no proletariado, e ainda, como largamente demonstrado por correntes progressistas da psican\u00e1lise, cada interst\u00edcio da pr\u00f3pria configura\u00e7\u00e3o da subjetividade e da individualidade.<\/p>\n<p>Assim, uma vez estabelecido o modo de produ\u00e7\u00e3o e de vida capitalista, que hoje se encontra planetarizado, abarcando, sob sua tit\u00e2nica for\u00e7a expansiva, a humanidade em seu conjunto, s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se contrapor eficazmente a ele atrav\u00e9s da pr\u00e1xis pol\u00edtica comprometida com sua evic\u00e7\u00e3o. Essa atividade, que \u00e9 necessariamente coletiva, deve apontar para a constru\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os pr\u00f3prios das classes trabalhadoras em que se d\u00ea a articula\u00e7\u00e3o entre formas de resist\u00eancia e de assimila\u00e7\u00e3o, conjurando certas express\u00f5es da vida alienada e reificada e voltando-as revolucionariamente contra a ordem. Donde um segundo limite, digno de aten\u00e7\u00e3o, da posi\u00e7\u00e3o de Tinhor\u00e3o: ele encarava o marxismo como uma teoria desvinculada da pr\u00e1tica, jamais tendo se vinculado a espa\u00e7os de organiza\u00e7\u00e3o coletiva do enfrentamento aos problemas que ele pr\u00f3prio denunciava, ainda que tais espa\u00e7os tenham existido ao longo de toda a sua vida e atividade. Sua indigna\u00e7\u00e3o e sua tomada de posi\u00e7\u00e3o se limitaram, por isso, a uma dimens\u00e3o moral \u2013 o que ajuda a entender a reincid\u00eancia do modo moralizador como apresentava sua cr\u00edtica.<\/p>\n<p>Que formas s\u00e3o pass\u00edveis de combina\u00e7\u00e3o na luta coletiva pela supera\u00e7\u00e3o do capitalismo, e como as reconfigurar e\/ou inventar, s\u00e3o duas das quest\u00f5es \u00e0s quais o marxismo vem encontrando respostas diversas desde sua funda\u00e7\u00e3o em meados do s\u00e9culo XIX. Algumas dessas respostas j\u00e1 passaram pelo duro teste da realidade pr\u00e1tica, tendo obtido importantes \u00eaxitos. As derrotas n\u00e3o foram menos impactantes&#8230; Mas o que se sabe, decerto, \u00e9 que sem o engajamento em uma aposta pol\u00edtica coletiva, e que busque ser massiva, n\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda do modo de vida a cujas delet\u00e9rias consequ\u00eancias Tinhor\u00e3o, a seu modo, se opunha.<\/p>\n<p>Haveria muitos outros elementos a debater com o potente intelectual que foi Jos\u00e9 Ramos Tinhor\u00e3o neste 04 de agosto, dia seguinte a seu falecimento, em que estou, j\u00e1 h\u00e1 muitas horas, afundado em meio a seus livros e discutindo com ele em frente ao computador. Para meu azar e pesar, n\u00e3o corro o risco de enfrentar sua dura verve me contradizendo e indicando as insufici\u00eancias deste texto. Encerro ent\u00e3o apenas me despedindo, por ora, de um homem que realizou a proeza de se tornar refer\u00eancia obrigat\u00f3ria at\u00e9 mesmo para aqueles que o detestavam. Refer\u00eancia essa que n\u00e3o cessa com seu falecimento: Tinhor\u00e3o ainda estar\u00e1 neste mundo por muito tempo.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Finalizo com uma nota pessoal. Vivo, atrav\u00e9s deste texto, meu luto e minha grande tristeza por n\u00e3o t\u00ea-lo conhecido pessoalmente, nem ter feito dois doutorados ao inv\u00e9s de apenas um. Minha proposta inicial de tese era sobre ele, para o que teria sido orientado pelo professor, e, hoje, fraterno amigo, Samuel Ara\u00fajo. Mas eis que chegou a roda viva e me arrastou em dire\u00e7\u00e3o diversa \u2013 dediquei-me, naqueles anos, a estudar a obra de outra grande figura do pensamento social brasileiro, Carlos Nelson Coutinho. Com esse necrol\u00f3gio deixo uma pequena e sentida homenagem, com meu respeito e admira\u00e7\u00e3o, a Jos\u00e9 Ramos Tinhor\u00e3o, sob a forma que a ele tanto instigava \u2013 a da pol\u00eamica.<\/p>\n<p>i Victor Neves \u00e9 professor efetivo na Universidade Federal do Esp\u00edrito Santo, vinculado ao Departamento de Teoria da Arte e M\u00fasica e ao Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Pol\u00edtica Social (PPGPS\/UFES). Coordena os grupos de pesquisa Pol\u00edtica, Ideologia e Estrat\u00e9gias de Transforma\u00e7\u00e3o Social (UFES), Laborat\u00f3rio de Estudos Musicais e Sonoros (UFES) e atua como pesquisador colaborador no Laborat\u00f3rio de Etnomusicologia (UFRJ).<\/p>\n<p>ii Para sint\u00e9tica e informada abordagem de sua vida e obra, cf. Elizabeth Lorenzotti, Tinhor\u00e3o: o Legend\u00e1rio. S\u00e3o Paulo: Imprensa Oficial, 2010. Cf. ainda a riqu\u00edssima cole\u00e7\u00e3o de entrevistas realizada e disponibilizada pelo Instituto Moreira Salles nos 39 v\u00eddeos da playlist \u201cDepoimento de Jos\u00e9 Ramos Tinhor\u00e3o\u201d no YouTube.<\/p>\n<p>iii O problema da rela\u00e7\u00e3o entre tradi\u00e7\u00e3o e tradicionalismo na cr\u00edtica da m\u00fasica popular brasileira \u00e9 trabalhado detalhadamente por Eduardo Coutinho, Velhas hist\u00f3rias, mem\u00f3rias futuras: o sentido da tradi\u00e7\u00e3o na obra de Paulinho da Viola. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2002. H\u00e1 nesse trabalho observa\u00e7\u00f5es interessantes sobre o tratamento da tradi\u00e7\u00e3o por Tinhor\u00e3o, aproveitadas aqui.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27682\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[226],"class_list":["post-27682","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7cu","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27682","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27682"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27682\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27682"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27682"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27682"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}