{"id":27700,"date":"2021-08-11T04:08:57","date_gmt":"2021-08-11T07:08:57","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27700"},"modified":"2021-08-20T12:45:27","modified_gmt":"2021-08-20T15:45:27","slug":"rj-operacoes-policiais-e-grupos-armados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27700","title":{"rendered":"RJ: opera\u00e7\u00f5es policiais e grupos armados"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/o-brasil-contra-a-mare.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->(Foto: T\u00e2nia R\u00eago\/ Ag\u00eancia Brasil)<\/p>\n<p>\u201cO Bope pede calma, ele n\u00e3o quer negociar<br \/>\nN\u00e3o d\u00e1 pra confiar nesse povo de farda suja<br \/>\nLembra da ditadura? Esse tal Coronel Ustra<br \/>\nMatou o meu av\u00f4 com maquin\u00e1rios de tortura\u201d<br \/>\n\u2013 \u201cSem mem\u00f3ria\u201d, de DK 47<\/p>\n<p>Bra\u00e7o armado, m\u00e3o amiga<br \/>\nA rela\u00e7\u00e3o entre opera\u00e7\u00f5es policiais e os Grupos Armados no Rio de Janeiro<\/p>\n<p>As opera\u00e7\u00f5es no Rio de Janeiro por vezes focam num \u00fanico grupo armado, enfraquecendo-o no conflito direto com seu inimigo territorial. Por Thiago Sardinha | Revista Opera<\/p>\n<p>Por Thiago Sardinha<\/p>\n<p>Revista Opera<\/p>\n<p>A concep\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a p\u00fablica que impera no Brasil e especificamente na cidade do Rio de Janeiro \u00e9 algo que merece um extraordin\u00e1rio cuidado por conta da complexidade do tema. O que n\u00e3o faltam s\u00e3o reflex\u00f5es que, em vez de se debru\u00e7ar sobre a realidade, apontam conclus\u00f5es e respostas antecipadas, num exerc\u00edcio cujo fim \u00e9 antes dissertar de forma que o funcionamento da realidade confirme essas an\u00e1lises do que o contr\u00e1rio. Marx dizia que \u201cn\u00e3o basta que o pensamento procure se realizar, a realidade deve compelir a si mesma em dire\u00e7\u00e3o ao pensamento\u201d. Portanto, para analisar o que se concebe por aqui como seguran\u00e7a p\u00fablica, \u00e9 primordial compreender a forma social na qual ela est\u00e1 atrelada, ou seja, uma forma social capitalista e um modo de vida social burgu\u00eas, com as especificidades da depend\u00eancia e forma\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica. Este fato n\u00e3o \u00e9 menos importante, perfaz-se determinante, e demarca o fio condutor de minha an\u00e1lise sobre seguran\u00e7a p\u00fablica no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Nesse sentido, defendo a tese de que a pol\u00edcia do Rio de Janeiro, associada a esta concep\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a p\u00fablica, age como um grupo armado militarizado. Isto porque, a meu ver, as pr\u00e1ticas policiais se assemelham em muito com as de alguns grupos armados, por isso tamb\u00e9m defendo a exist\u00eancia de fac\u00e7\u00f5es dentro da pr\u00f3pria pol\u00edcia, que lhe permitem comportamentos e a\u00e7\u00f5es sistem\u00e1ticas com certa autonomia e independ\u00eancia. Ora funciona de acordo com seus interesses e diferentes motiva\u00e7\u00f5es, ora sob os mandos da classe dominante que podem ser resumidos no exterm\u00ednio de pobres e favelados. Tudo isso com respaldo social, jur\u00eddico e pol\u00edtico. Na hist\u00f3ria da forma\u00e7\u00e3o social brasileira temos not\u00f3rios exemplos dessa rela\u00e7\u00e3o entre oficial e extraoficial, aut\u00f4nomo e estatal: Esquadr\u00f5es da Morte, Mil\u00edcias, Grupos de Exterm\u00ednio, Cavalos Corredores. Uma caracter\u00edstica importante correspondente \u00e0 militariza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o urbano no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Esse fato se explica por um conjunto de movimenta\u00e7\u00f5es que vem causando estranheza at\u00e9 para quem n\u00e3o est\u00e1 muito familiarizado com a tem\u00e1tica da seguran\u00e7a p\u00fablica: a concentra\u00e7\u00e3o de opera\u00e7\u00f5es policiais em territ\u00f3rios do Comando Vermelho. Uma planilha de registro de opera\u00e7\u00f5es policiais do Minist\u00e9rio P\u00fablico divulgada na imprensa apontou que a regi\u00e3o onde as incurs\u00f5es policiais se concentram \u00e9 onde atuam determinados grupos armados, na sua maioria fac\u00e7\u00f5es do varejo do tr\u00e1fico: Zona Norte: 58,45%; Zona Oeste: 33,33%; Centro: 4,35%; Zona Sul: 2,9% [1]. Um relat\u00f3rio publicado em janeiro de 2021 pelo GENI (Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos), que destaca a rela\u00e7\u00e3o das opera\u00e7\u00f5es policiais com os grupos armados, apontou que 40,9% das opera\u00e7\u00f5es ocorrem em \u00e1reas do Comando Vermelho, enquanto que 6,9% foram em territ\u00f3rios do Terceiro Comando e 6,5% em \u00e1reas de mil\u00edcias [2]. Al\u00e9m destes n\u00fameros, que por si s\u00f3 espantam, cumpre destacar a natureza destas opera\u00e7\u00f5es. Em tempo que em favelas do CV a ordem \u00e9 deixar corpo no ch\u00e3o, nas outras \u00e1reas n\u00e3o \u00e9 bem assim. Em territ\u00f3rios de mil\u00edcias, nem troca de tiro \u00e9 percept\u00edvel. Um c\u00f3digo que circula entre os milicianos \u00e9 o de que nunca se deve atirar ao ver uma viatura policial, pois n\u00e3o se troca tiro com policiais, principalmente em servi\u00e7o.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o territorial entre os grupos armados no Rio de Janeiro \u00e9 tamb\u00e9m algo que merece aten\u00e7\u00e3o. Existem grupos armados com territ\u00f3rio rigorosamente definido, por\u00e9m, outros territ\u00f3rios est\u00e3o em constante disputa, alguns deles mudando de controle \u00e0 medida que os grupos armados se enfrentam. Nessa trama, o papel da pol\u00edcia fluminense se faz imprescind\u00edvel. A mil\u00edcia \u00e9 o grupo com maior n\u00famero de bairros sob seu dom\u00ednio: 27,7%. J\u00e1 o Comando Vermelho possui 26,4%; enquanto o Terceiro Comando Puro e o Amigos dos Amigos t\u00eam 8,8% e 2,0% respectivamente. No entanto, territ\u00f3rios em disputa perfazem 35,1%. Isto \u00e9, est\u00e3o em constante movimenta\u00e7\u00e3o de territorializa\u00e7\u00e3o e desterritorializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O mesmo relat\u00f3rio citado acima mostra que 45,5% das opera\u00e7\u00f5es policiais notificadas no ano de 2019 foram em territ\u00f3rios em disputa entre os grupos armados. O que o estudo n\u00e3o aponta s\u00e3o as raz\u00f5es e o \u201clado\u201d dessas opera\u00e7\u00f5es, que por vezes servem de ajuda aos milicianos e at\u00e9 mesmo prote\u00e7\u00e3o. Por exemplo, na regi\u00e3o da Pra\u00e7a Seca, Zona Oeste do Rio de Janeiro, j\u00e1 h\u00e1 algum tempo v\u00eam ocorrendo intensas disputas entre a mil\u00edcia e o Comando Vermelho. No Morro da Bar\u00e3o, especificamente, ocorreram 17 opera\u00e7\u00f5es policiais, 10 delas realizadas pelo BOPE (Batalh\u00e3o de Opera\u00e7\u00f5es Especiais) entre junho de 2020 e maio de 2021. A mil\u00edcia possui interesses log\u00edsticos e geogr\u00e1ficos nesta regi\u00e3o, que a permitiria avan\u00e7ar para Zona Norte da cidade, formando uma esp\u00e9cie de complexo miliciano, com um largo per\u00edmetro sob controle \u00fanico da mil\u00edcia. \u00c9 o caso da outra parte da Zona Oeste, em que o controle territorial da mil\u00edcia vai do bairro de Campo Grande a Sepetiba, sem dividir fronteiras com algum territ\u00f3rio controlado por outro grupo armado. Contudo, nesta, n\u00e3o h\u00e1 registros de opera\u00e7\u00f5es de combate ao \u201ccrime organizado\u201d ou \u00e0 mil\u00edcia.<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o de 2021 a pol\u00edcia realizou uma robusta opera\u00e7\u00e3o no bairro de Quintino, bairro estrat\u00e9gico para controle territorial de grupos armados, pois possui territ\u00f3rios que fazem fronteiras entre as Regi\u00f5es Zona Norte e Zona Oeste, ou seja, dominados por diferentes grupos armados [3]. Na opera\u00e7\u00e3o a pol\u00edcia utilizou trezentos homens do Batalh\u00e3o de Opera\u00e7\u00f5es Especiais (Bope) e do Batalh\u00e3o de Choque, no morro da Caixa D\u2019\u00c1gua, Dezoito e Sa\u00e7u, para evitar a expans\u00e3o territorial do CV; onze pessoas foram mortas. E n\u00e3o parou por a\u00ed. Algumas opera\u00e7\u00f5es na Cidade Deus tamb\u00e9m foram realizadas para \u201ccombater o tr\u00e1fico de drogas.\u201d Em fevereiro deste ano a pol\u00edcia militar fez uma opera\u00e7\u00e3o da Cidade de Deus [4] para impedir que traficantes se deslocassem at\u00e9 a Pra\u00e7a Seca para ajudar comparsas que estavam em conflito com milicianos. Os relatos dos moradores eram de que, no meio desta opera\u00e7\u00e3o, havia a presen\u00e7a de milicianos que aproveitaram a incurs\u00e3o policial, pois a Favela da Cidade de Deus \u00e9 um projeto antigo de tomada pelos milicianos que atuam pela regi\u00e3o. Um estudo publicado pela plataforma Fogo Cruzado apontou que o bairro da Pra\u00e7a Seca \u00e9 o bairro com mais registros de tiroteios. Nos primeiros seis meses deste ano j\u00e1 houve quase o mesmo n\u00famero de tiroteios de 2019 (153) e tr\u00eas vezes mais do que os registrados em 2020 (41). Isso demonstra como essa regi\u00e3o vem sendo disputada intensamente por grupos armados e com o envolvimento da a\u00e7\u00e3o policial.<\/p>\n<p>Quero de antem\u00e3o esclarecer algo que pode causar uma interpreta\u00e7\u00e3o equivocada diante da minha exposi\u00e7\u00e3o: n\u00e3o estou fazendo defesa alguma do Comando Vermelho, apenas estou analisando os dados oferecidos pelo grupo de estudos, que mostram como opera\u00e7\u00f5es policiais concentram-se em \u00e1reas do Comando Vermelho, sendo que \u00e9 a mil\u00edcia quem possui maior n\u00famero bairros sobre seu dom\u00ednio. Ora, se a pol\u00edcia diz que combate o \u201ccrime organizado\u201d, faz \u201cguerras \u00e0s drogas e seus impactos na fam\u00edlia carioca\u201d, esses dados no m\u00ednimo causam estranheza. Estou convencido que cada vez mais a guerra \u00e0s drogas perde sua sustenta\u00e7\u00e3o, pois se seu objetivo era conter a circula\u00e7\u00e3o e venda de drogas, n\u00e3o \u00e9 exatamente bem isso que ocorre. De acordo com o levantamento da Consultoria Legislativa da C\u00e2mara dos Deputados, realizado em agosto de 2016, o tr\u00e1fico de drogas movimenta 15,5 bilh\u00f5es de reais por ano; 6,6 bilh\u00f5es em maconha, 4,6 bilh\u00f5es em coca\u00edna, 2,95 bilh\u00f5es em crack e 1,1 bilh\u00e3o em ecstasy, portanto, a chamada guerra \u00e0s drogas nunca se preocupou em atingir seus \u201cobjetivos\u201d. Ali\u00e1s, ser\u00e1 mesmo que a pol\u00edtica de guerra \u00e0s drogas \u00e9 contra as drogas? Estou convencido que n\u00e3o! [5].<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o fica ainda mais insustent\u00e1vel quando se descobre que as armas que circulam nas favelas s\u00e3o de responsabilidade da pol\u00edcia e das for\u00e7as armadas [6]. Em uma apreens\u00e3o de armas e muni\u00e7\u00e3o feita na favela do Jacarezinho, a identifica\u00e7\u00e3o mostrava que elas pertenciam ao Estado, \u00e0s pol\u00edcias cariocas e \u00e0s For\u00e7as Armadas. O mercado do capitalismo dependente funciona com suas duas m\u00e3os ao mesmo tempo: a m\u00e3o invis\u00edvel do mercado liberal e a m\u00e3o de sangue de pobres e favelados, \u201cos ningu\u00e9ns que valem menos que a bala [ou arma] que os matam\u201d, como escreveu Galeano. N\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia que em mar\u00e7o de 2020 o presidente Jair Bolsonaro tenha revogado a portaria COLOG n\u00ba 46, 60, 61, que tratava exatamente do rastreamento, identifica\u00e7\u00e3o e marca\u00e7\u00e3o de armas e muni\u00e7\u00f5es por, segundo ele, \u201cn\u00e3o estar de acordo com suas diretrizes.\u201d Portanto, a chamada guerra \u00e0s drogas n\u00e3o possui lastro quando analisa-se o com\u00e9rcio lucrativo das mesmas, ao mesmo tempo \u00e9 catastr\u00f3fico do ponto de vista da circula\u00e7\u00e3o de armas, das mortes produzidas e do racismo combinando com o higienismo social. Portanto, pode ser uma guerra, mas longe de ser \u00e0s drogas.<\/p>\n<p>Em 2017, na Cidade Alta, territ\u00f3rio que hoje pertence ao Terceiro Comando Puro e que tem como principal lideran\u00e7a o \u201cPeix\u00e3o\u201d, passou por um per\u00edodo bastante cabuloso. Como se sabe, o objetivo de Peix\u00e3o \u00e9 consolidar o j\u00e1 reconhecido Complexo de Israel, envolvendo bairros da Cidade Alta, Cordovil e Parada de Lucas. Neste mesmo ano, o Comando Vermelho organizou uma ofensiva contra o TCP para retomar a Cidade Alta, que havia perdido em 2016. Na elabora\u00e7\u00e3o deste plano militar e territorial, o CV teria contado com a ajuda policial, segundo relato de moradores e de um traficante (ou pelo menos era o que acreditava). No dia da invas\u00e3o, o Comando Vermelho mobilizou muitos dos seus homens e mais o pagamento de propina aos policiais que o ajudariam na empreitada. No final, quando os traficantes do CV acreditaram ter tomado o territ\u00f3rio do Terceiro Comando Puro sob a vista grossa policial, veio a surpresa: os policiais ao mesmo tempo em que fizeram acordo com o Comando Vermelho, fizeram acordo com o Terceiro Comando Puro, que na ocasi\u00e3o pagou mais.<\/p>\n<p>Quem denunciou esse esquema foi um integrante do Comando Vermelho, ao ser preso. O traficante Carlos Alberto de Assis Farias, conhecido como Cachoeira, declarou que \u201co combinado com os PMs era que eles apreendessem apenas o blindado para marcar o GPS\u201d, arrecadar um s\u00f3 fuzil e sair do local de imediato, \u201cpara apresentar a ocorr\u00eancia \u00e0 Pol\u00edcia Civil\u201d[7]. Neste dia, 45 membros do CV foram presos, e PMs foram denunciados por transportarem integrantes do TCP no Caveir\u00e3o. Desde ent\u00e3o o Complexo de Israel se expandiu territorialmente, estabelecendo tr\u00e9guas e acordos com milicianos do Quitungo, bairro estrat\u00e9gico para uma poss\u00edvel expans\u00e3o pr\u00f3ximo do Complexo do Alem\u00e3o. Ap\u00f3s a \u201cden\u00fancia\u201d do traficante, nove policiais do Grupo de A\u00e7\u00f5es T\u00e1ticas Especiais (GATE) do 16\u00ba BPM (Olaria) foram presos e transferidos. Em 2020 o Comando da Pol\u00edcia Militar avaliou que os policiais envolvidos deveriam ser levados para o Conselho de Disciplina para serem julgados, enfrentando expuls\u00e3o. At\u00e9 hoje nenhum deles foi julgado. Um dos policiais envolvidos no suposto acordo descumprido possui den\u00fancias de participa\u00e7\u00e3o na mil\u00edcia do Rio de das Pedras.<\/p>\n<p>Em 2019, a disputa entre o Comando Vermelho e o Terceiro Comando Puro ganharia mais um violento epis\u00f3dio. Integrantes do Comando Vermelho do Fallet-Fogueteiro orquestraram uma ofensiva contra o TCP no morro da Coroa, centro do Rio, o que para o CV seria um passo decisivo. Tudo indicava que o Comando Vermelho conquistaria mais um territ\u00f3rio, at\u00e9 que agentes do BOPE e do Batalh\u00e3o de Choque realizaram uma opera\u00e7\u00e3o \u201cpara intervir na guerra entre fac\u00e7\u00f5es, tendo como principal preocupa\u00e7\u00e3o preservar vidas\u201d[8]. A opera\u00e7\u00e3o resultou na morte de 13 pessoas com sinais de execu\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria dentro de uma casa na favela do Fallet. Parentes das v\u00edtimas informaram que alguns dos mortos foram executados a facadas. Todos pertenciam ao Comando Vermelho.<\/p>\n<p>Poderia citar outros exemplos de opera\u00e7\u00f5es policiais sob a justificativa de combater o \u201ccrime organizado\u201d que cumpriram a fun\u00e7\u00e3o de quase exclusivamente focar num \u00fanico grupo armado, enfraquecendo-o de certa maneira no conflito direto com seu inimigo territorial. Este foco pode ser interpretado como \u201cajuda\u201d a outros grupos armados tanto do varejo, concorrente direto no neg\u00f3cio da venda de drogas, quanto de grupos armados de controle territorial militarizado que exercem extors\u00e3o generalizada, como a mil\u00edcia. Nesse sentido \u00e9 que volto na tese que defendo: se isso de fato ocorre, \u00e9 poss\u00edvel afirmar que a pol\u00edcia atua como um grupo armado? Ou pode se tratar apenas de uma coincid\u00eancia? A conclus\u00e3o deste racioc\u00ednio deixarei para o leitor. De toda forma, as opera\u00e7\u00f5es policiais e sua funcionalidade n\u00e3o se encerram nesses aspectos que exemplifiquei, mas conjuntamente aos mandamentos burgueses de exterm\u00ednio sistem\u00e1tico de uma for\u00e7a de trabalho sup\u00e9rflua e exclu\u00edda do processo produtivo direto, isto \u00e9, dos pobres e favelados.<\/p>\n<p>No \u00faltimo semestre, no Rio de Janeiro e regi\u00e3o metropolitana, segundo a plataforma Fogo Cruzado [9], foi registrado um n\u00famero total de 37 chacinas com 166 pessoas mortas. Comparando com 2020, houve um aumento exponencial, de 54% e 78%. Em oito de cada dez chacinas havia a presen\u00e7a das for\u00e7as de seguran\u00e7a do Estado burgu\u00eas! Pode parecer que sejam apenas n\u00fameros, mas s\u00e3o n\u00fameros que representam vidas dos que sempre assumem o destaque neste tipo de an\u00e1lise. \u00c9 desta forma que se construiu o Estado em uma realidade de capitalismo dependente, \u00e9 desta maneira que a forma\u00e7\u00e3o social brasileira trata uma classe trabalhadora negligenciada e marginalizada por esta forma social esgar\u00e7ada. \u00c9 assim que \u00e9, em resumo, a pol\u00edcia do Rio de Janeiro em seu estado puro.<\/p>\n<p>Dessas chacinas, a que mais chocou foi a do Jacarezinho, ocorrida em maio deste ano. Numa a\u00e7\u00e3o genocida, a pol\u00edcia, seguindo os preceitos sociais sintetizados no Estado burgu\u00eas, assassinou 27 pessoas, em um ato de vingan\u00e7a que atropelou qualquer desautoriza\u00e7\u00e3o, fosse via STF ou outro representante da institucionalidade, pois \u00e9 regra que uma pol\u00edcia no capitalismo perif\u00e9rico aja como um grupo armado. A prop\u00f3sito, uma propriedade da norma que se convencionou chamar de seguran\u00e7a p\u00fablica, a vingan\u00e7a \u00e9 um ente org\u00e2nico presente na atua\u00e7\u00e3o policial contra pobres e favelados. Desta vez foram vinte e sete pessoas executadas sumariamente por conta da morte de um policial civil, mas em 2017 ocorreu algo parecido na mesma favela, quando um policial civil foi morto de forma contenciosa. A resposta do Estado burgu\u00eas foi executar mais um epis\u00f3dio da permanente vingan\u00e7a contra indesej\u00e1veis da cidade maravilhosa. Oficialmente a opera\u00e7\u00e3o foi chamada de \u201copera\u00e7\u00e3o vingan\u00e7a\u201d, por\u00e9m, na imprensa burguesa, o destaque era para \u201ca S\u00edria do Jacarezinho\u201d [10]. Com mandado de busca e apreens\u00e3o coletivos emitido pela Justi\u00e7a, for\u00e7as de seguran\u00e7a e For\u00e7as Armadas ocuparam por onze dias a favela da zona norte da cidade, garantindo invas\u00f5es a quaisquer casas. Seis mil agentes das pol\u00edcias civil e militar estavam envolvidos, al\u00e9m de agentes das For\u00e7as Armadas, num ensaio para a calamitosa interven\u00e7\u00e3o militar de 2018. Neste cen\u00e1rio de repress\u00e3o ordenada, sitiados pelo Estado, moradores da favela do Jacarezinho tiveram que estocar comida por onze dias e mais de 6 mil crian\u00e7as ficaram sem aulas, pela magnitude desta ocupa\u00e7\u00e3o motivada por vingan\u00e7a.<\/p>\n<p>Tudo isso prefigura um retrato habitual da seguran\u00e7a p\u00fablica na cidade do Rio de Janeiro capaz de oferecer elementos suficientes para convencer, seja quem for, que \u00e9 imposs\u00edvel tratar de seguran\u00e7a p\u00fablica de forma dissociada da realidade capitalista. Portanto, \u00e9 plaus\u00edvel debater, a partir desta tem\u00e1tica, a transforma\u00e7\u00e3o radical de uma situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica na qual, sai ano e entra ano, somos condicionados a contar corpos de gente pobre e favelada executada pelo Estado burgu\u00eas atrav\u00e9s de suas for\u00e7as de seguran\u00e7a, que agem como grupo armado para preencher estat\u00edsticas. J\u00e1 chega!<\/p>\n<p>Notas:<br \/>\n[1]https:\/\/g1.globo.com\/rj\/rio-de-janeiro\/noticia\/2021\/06\/29\/favela-na-zona-oeste-do-rio-tem-mais-operacoes-da-policia-e-zona-norte-concentra-60percent-delas.ghtml<br \/>\n[2]http:\/\/geni.uff.br\/2021\/04\/30\/a-expansao-das-milicias-no-rio-de-janeiro-uso-da-forca-estatal-mercado-imobiliario-e-grupos-armados-4\/<br \/>\n[3]https:\/\/g1.globo.com\/rj\/rio-de-janeiro\/noticia\/2021\/02\/03\/policia-diz-que-mortos-em-operacao-trocaram-tiros-com-pms-moradores-nao-conseguiram-sair-de-casa.ghtml<br \/>\n[4]https:\/\/extra.globo.com\/casos-de-policia\/pm-faz-operacao-na-cidade-de-deus-para-evitar-reuniao-de-bandidos-que-invadiriam-praca-seca-24898212.html<br \/>\n[5] https:\/\/revistaopera.com.br\/2017\/09\/19\/drogas-e-politica-parte-1-legalizar-e-solucao\/<br \/>\n[6]https:\/\/extra.globo.com\/casos-de-policia\/trafico-do-jacarezinho-atira-com-municao-das-forcas-armadas-de-policias-25102903.html<br \/>\n[7]https:\/\/oglobo.globo.com\/rio\/parte-dos-45-presos-na-cidade-alta-se-renderam-por-acreditarem-que-estavam-se-entregando-para-pms-que-receberam-propina-21462509<br \/>\n[8]https:\/\/noticias.uol.com.br\/cotidiano\/ultimas-noticias\/2019\/02\/12\/o-que-se-sabe-sobre-as-13-mortes-em-operacao-policial-no-rio.htm<br \/>\n[9] https:\/\/oglobo.globo.com\/rio\/a-siria-do-jacarezinho-21751184#ixzz4qyE8Buc9<br \/>\n[10]https:\/\/fogocruzado.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Instituto-Fogo-Cruzado-relatorio-semestral-Grande-Rio-2021.pdf<\/p>\n<p>Thiago Sardinha \u00e9 militante do PCB, ge\u00f3grafo e professor de Geografia, pesquisa a militariza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o urbano desde 2011 e atualmente vem realizando pesquisas sobre a expans\u00e3o territorial militarizada das mil\u00edcias na Zona Oeste do Rio de Janeiro para a tese de doutoramento do programa de p\u00f3s gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Sociais da UFRRJ.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27700\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[20,244],"tags":[222],"class_list":["post-27700","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c1-popular","category-violencia","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7cM","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27700","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27700"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27700\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27700"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27700"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27700"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}