{"id":27712,"date":"2021-08-13T23:53:31","date_gmt":"2021-08-14T02:53:31","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27712"},"modified":"2021-08-13T23:53:31","modified_gmt":"2021-08-14T02:53:31","slug":"tinhorao-uma-vida-em-defesa-da-musica-popular","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27712","title":{"rendered":"Tinhor\u00e3o: uma vida em defesa da m\u00fasica popular"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/veja.abril.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/josetinhorao.png\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Henric\u00e3o, Jos\u00e9 Ramos Tinhor\u00e3o e Carmen Costa no programa &#8220;Tudo \u00e9 m\u00fasica&#8221; da TV Educativa do Rio \/ Acervo IMS<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Ramos Tinhor\u00e3o: uma vida destinada \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o, cr\u00edtica e defesa da m\u00fasica popular brasileira<\/p>\n<p>Rodrigo Alencastre &#8211; UJC &#8211; Rio de Janeiro<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Ramos nasceu em Santos &#8211; SP, em 1928. Marxista e nacionalista, atuou como cr\u00edtico m\u00fasical e, enquanto estudioso da cultura, se debru\u00e7ou sobre grande parte da hist\u00f3ria da m\u00fasica popular brasileira, passando pelo Brasil Col\u00f4nia, Primeira Rep\u00fablica, Era Vargas e o per\u00edodo da ditadura empresarial-militar, per\u00edodos que est\u00e3o presentes em suas obras.<\/p>\n<p>Jornalista, historiador e cr\u00edtico da m\u00fasica popular brasileira, se formou em direito e jornalismo e ainda jovem come\u00e7ou a escrever para o \u201cDi\u00e1rio Carioca\u201d, assinando como Jos\u00e9 Ramos. Por conta da sua postura \u00e1cida, cr\u00edtica dura e sarc\u00e1stica que transpareciam em seus textos, ganhou o apelido de \u201cTinhor\u00e3o\u201d, uma esp\u00e9cie de planta t\u00f3xica e espinhosa. Gostou do apelido e passou a assinar com esse pseud\u00f4nimo em suas produ\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias. Como cr\u00edtico musical, escreveu artigos e colunas para diversos ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o, como Jornal do Brasil, Tribuna da Imprensa, Jornal Rural, Singra, Esp\u00edrito Santo Agora entre outros.<\/p>\n<p>Autor de mais de 25 livros publicados, como \u201cOs sons dos Negros no Brasil\u201d (1988), \u201cM\u00fasica Popular &#8211; Um Tema em Debate\u201d (1966), \u201cO Samba Agora: A Farsa da M\u00fasica Popular no Exterior\u201d (1969), &#8220;M\u00fasica Popular, teatro e Cinema&#8221; (1972), \u201cHist\u00f3ria Social da M\u00fasica Popular Brasileira\u201d (1998), entre v\u00e1rios outros, no auge dos seus 90 anos de idade, lan\u00e7ou seu \u00fatlimo, \u201cPrimeiras Li\u00e7\u00f5es do Samba e outras mais\u201d, em 2018. O livro re\u00fane um conjunto de artigos sobre \u201csamba\u201d produzidos no tempo em que trabalhava no Jornal do Brasil.<\/p>\n<p>Possu\u00eda tamb\u00e9m um grande acervo que contava com documentos, livros, revistas, CDs, LPs, entre outros, que foi, posteriormente, comprado pelo Instituto Moreira Salles.<\/p>\n<p>A obra de Tinhor\u00e3o \u00e9 marcada por seu car\u00e1ter nacional-popular, anti-imperialista, de combate \u00e0 invas\u00e3o estrangeira na m\u00fasica popular, a den\u00fancia da imposi\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica norte-americana e o aprofundamento da depend\u00eancia cultural, pol\u00edtica e econ\u00f4mica do Brasil, da qual, de acordo com sua vis\u00e3o, se aprofundou com o golpe de 1964.<\/p>\n<p>O pensamento de Tinhor\u00e3o \u00e9 desenvolvido em um momento no qual o Brasil vivia fortes embates e debates sobre a constru\u00e7\u00e3o do programa da revolu\u00e7\u00e3o brasileira. Na esfera da cultura, o movimento nacionalista ganhava for\u00e7a ainda sob os impactos da semana de Arte Moderna de 1922, debates esses que giravam em torno da identidade nacional, das miss\u00f5es de pesquisa e registro do nosso folclore feitos por M\u00e1rio de Andrade, do movimento de defesa da cultura nacional contra a massifica\u00e7\u00e3o dos g\u00eaneros musicais estrangeiros trazidos pela ind\u00fastria cultural vinda dos EUA, que estacionavam em solo brasileiro. Processos esses que se intensificaram ap\u00f3s a queda de Get\u00falio Vargas.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso destacar o papel da Juventude Comunista \u00e0 frente da UNE na cria\u00e7\u00e3o dos CPCs (Centros Populares de Cultura), impulsionando o movimento do Cinema Novo, os escritos sobre o viol\u00e3o de roda presentes nos &#8220;Cadernos do Povo Brasileiro&#8221;, a influ\u00eancia dos artistas e intelectuais ligados ao PCB como Cl\u00e1udio Santoro, C\u00e9sar Guerra Peixe e Oswald de Andrade que ganhavam notoriedade pela for\u00e7a da sua arte e ideias originais em defesa da soberania cultural brasileira em meio a ascens\u00e3o do movimento comunista nacional e internacional. A partir disso, cresce tamb\u00e9m a necessidade de contar a hist\u00f3ria da cultura do nosso povo. Tinhor\u00e3o traz \u00e0 tona os debates e a sua vis\u00e3o de toda a efervesc\u00eancia cultural e pol\u00edtica de seu tempo.<\/p>\n<p>Durante o per\u00edodo da ditadura empresarial-militar, Tinhor\u00e3o denunciou aquilo que classificou como o apagamento da cultura popular em detrimento da invas\u00e3o da m\u00fasica norte-americana, que passava a dominar os espa\u00e7os das r\u00e1dios e TVs. Nos seus artigos, Tinhor\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 fazia a cr\u00edtica e ataques \u00e0 pol\u00edtica da ditadura, mas tamb\u00e9m a outros g\u00eaneros musicais, que, na sua vis\u00e3o, possu\u00edam uma estrutura pr\u00e9-fabricada, falsamente brasileiros e que tinham todo seu conte\u00fado musical originados na matriz da ind\u00fastria cultural estrangeira.<\/p>\n<p>Foi respons\u00e1vel, tamb\u00e9m, por dar visibilidade a uma s\u00e9rie de artistas da cultura popular que caminhavam no ostracismo por n\u00e3o conseguirem muito espa\u00e7o nas grandes gravadoras. Tinhor\u00e3o, alinhado com o movimento e corrente te\u00f3rica do nacional-popular, trazia \u00e0 tona todos esses artistas capazes, segundo o autor, de traduzir a nossa identidade nacional, mas que eram desconhecidas pelo grande p\u00fablico, como foi o caso do Z\u00e9 Coco do Riach\u00e3o. O m\u00fasico que, pela sua genialidade musical de compor, tocar e fabricar seu instrumento, ganhou o apelido de \u201cDa Vinci Brasileiro\u201d.<\/p>\n<p>Por sua postura \u00e1cida, sarc\u00e1stica, pol\u00eamica, muitas vezes foi alvo de cr\u00edticas pertinentes, mas tamb\u00e9m de acusa\u00e7\u00f5es infundadas. O fato \u00e9 que as pol\u00eamicas, frutos de debates e embates, das quais as mais evidentes foram os confrontos com a bossa nova e tropic\u00e1lia, por si s\u00f3, n\u00e3o s\u00e3o capazes de resumir sua vasta obra liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m dos enfrentamentos, ressalvas, brigas e posicionamentos \u00e1cidos, \u00e9 importante destacar que, em seus livros e artigos, Tinhor\u00e3o buscava entender a hist\u00f3ria, a cultura e a m\u00fasica como um fen\u00f4meno social de um povo, partindo sempre do m\u00e9todo materialista hist\u00f3rico-dial\u00e9tico. Percebia que a cultura precisava ser analisada na sua totalidade, sujeita a contradi\u00e7\u00f5es e domina\u00e7\u00f5es pr\u00f3prios de um pa\u00eds que adere o sistema capitalista, mas que n\u00e3o ocupa posi\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7a internacional, pois est\u00e1 subordinado aos pa\u00edses ricos, a um sistema de domina\u00e7\u00e3o imperialista que atua na esfera global, seus impactos e desdobramentos na nossa cultura.<\/p>\n<p>&#8220;Assim como nos pa\u00edses capitalistas, entre os quais o Brasil se enquadra, o modo de produ\u00e7\u00e3o determina a hierarquiza\u00e7\u00e3o da sociedade em classes, a cultura constitui, em \u00faltima an\u00e1lise, uma cultura de classes.<\/p>\n<p>Como os fatos hist\u00f3ricos no livro demonstram, essa diversidade cultural \u00e9 normalmente simplificada atrav\u00e9s da divis\u00e3o da cultura em apenas dois planos: o da cultura das elites detentoras do poder pol\u00edtico-econ\u00f4mico e das diretrizes para os meios de comunica\u00e7\u00e3o &#8211; que \u00e9 a cultura do dominador &#8211; e a cultura das camadas mais baixas do povo urbano e das \u00e1reas rurais, sem poder de decis\u00e3o pol\u00edtica &#8211; que \u00e9 a cultura do dominado.<\/p>\n<p>Acontece que nas na\u00e7\u00f5es em que a capacidade de decis\u00e3o econ\u00f4mica n\u00e3o pertence inteiramente aos detentores pol\u00edticos do poder, como \u00e9 o caso de pa\u00edses de economia dependente &#8211; e entre eles o Brasil em estudo -, a pr\u00f3pria cultura dominante revela-se uma cultura dominada.<\/p>\n<p>Como resultado, a cultura das camadas pobres acaba sendo submetida a uma dupla domina\u00e7\u00e3o: em primeiro lugar, porque se situa em posi\u00e7\u00e3o de desvantagem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cultura das elites dirigentes do pa\u00eds; e, em segundo lugar, porque esta cultura dominante n\u00e3o \u00e9 sequer nacional, mas importada e, por isso mesmo, dominada.\u201d (Hist\u00f3ria Social da M\u00fasica Popular Brasileira).<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que a obra de Tinhor\u00e3o ainda se mostra atual em v\u00e1rios aspectos, carregando tamb\u00e9m os avan\u00e7os e limites de seu tempo. A despeito das ressalvas, o autor foi e \u00e9 um dos maiores historiadores da M\u00fasica Popular Brasileira. Em vida, sempre manteve firme nas suas ideias nacionalistas e marxistas, ainda que precisasse, muitas vezes, remar contra a mar\u00e9 das ideias dominantes de seu tempo. Sua contribui\u00e7\u00e3o permanece viva e merece ser estudada por todos os artistas, lutadores e intelectuais da cultura do nosso Brasil.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Ramos Tinhor\u00e3o morreu no dia 3 de agosto de 2021, mas seu legado permanecer\u00e1 vivo por muito tempo.<\/p>\n<p>Presente hoje e sempre!<\/p>\n<p>Fontes:<\/p>\n<p>Muitas hist\u00f3rias da MPB, as ideias de Jos\u00e9 Ramos Tinhor\u00e3o; Lu\u00eds Quarti Lamar\u00e3o (disserta\u00e7\u00e3o de mestrado).<\/p>\n<p>Hist\u00f3ria Social da M\u00fasica Popular Brasileira. TINHOR\u00c3O, Jos\u00e9 Ramos (livro).<\/p>\n<p>Instituto Moreira Salles<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27712\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[13],"tags":[226],"class_list":["post-27712","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s14-cultura","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7cY","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27712","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27712"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27712\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27712"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27712"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27712"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}