{"id":27734,"date":"2021-08-19T12:36:05","date_gmt":"2021-08-19T15:36:05","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27734"},"modified":"2021-08-19T12:36:05","modified_gmt":"2021-08-19T15:36:05","slug":"os-anos-socialistas-do-afeganistao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27734","title":{"rendered":"Os anos socialistas do Afeganist\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.peoplesworld.org\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Socialist-Women-Afghanistan-2.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Um futuro promissor destru\u00eddo pelo imperialismo estadunidense<\/p>\n<p>LAVRA PALAVRA<\/p>\n<p>Por Marilyn Bechtel, via People\u2019s Word, traduzido por Red Yorkie, revisado por Ot\u00e1vio Losada<\/p>\n<p>[Na foto, mulheres participando de uma manifesta\u00e7\u00e3o em Cabul no final dos anos 1970.]<\/p>\n<p>Em meados da d\u00e9cada de 1970 e no in\u00edcio da de 1980, a correspondente da People\u2019s World, Marilyn Bechtel, era editora da revista bimensal New World Review. Ela visitou o Afeganist\u00e3o duas vezes: em 1980 e 1981. O artigo abaixo apareceu pela primeira vez nas nossas p\u00e1ginas em 6 de outubro de 2001 \u2013 um dia antes de os EUA lan\u00e7arem sua guerra no Afeganist\u00e3o \u2013 sob o t\u00edtulo \u201cAfeganist\u00e3o: uma hist\u00f3ria negligenciada\u201d. Com a administra\u00e7\u00e3o Biden retirando todas as tropas do pa\u00eds, apresentamos este artigo como um lembrete de que a guerra mais longa dos EUA tinha ra\u00edzes que iam al\u00e9m dos ataques terroristas de 11 de setembro, estendendo-se at\u00e9 o anticomunismo da Guerra Fria.<\/p>\n<p>Desde os eventos terr\u00edveis de 11 de setembro, muito foi dito sobre a desesperadora situa\u00e7\u00e3o dos afeg\u00e3os, agora esmagados sob a ditadura teocr\u00e1tica do Talib\u00e3, e sobre o papel da Alian\u00e7a do Norte e de outros opositores do Talib\u00e3 que, agora, figuram nos planos de Washington para a regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Se, por um lado, e em grande medida, o papel da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica no Afeganist\u00e3o de 1978 a 1989 \u00e9 distorcido, por outro lado, a atua\u00e7\u00e3o dos EUA no desenvolvimento dos Mujahidin, inclusive do Talib\u00e3, \u00e9 consideravelmente minimizada.<\/p>\n<p>Mas quase ningu\u00e9m fala sobre o esfor\u00e7o empreendido pelo povo afeg\u00e3o, no final da d\u00e9cada de 1970 e durante os anos 1980, de se livrar do legado de lideran\u00e7as feudais e tribos incessantemente beligerantes e come\u00e7ar a construir um estado democr\u00e1tico moderno. Nem sobre o longo papel da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica antes de 1978.<\/p>\n<p>Algum panorama hist\u00f3rico ajuda a lan\u00e7ar uma luz sobre a crise atual. O Afeganist\u00e3o era um pr\u00eamio geopol\u00edtico para os imperialistas do s\u00e9culo XIX, disputado tanto pela R\u00fassia tsarista quanto pelo Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico. Ele foi finalmente for\u00e7ado a uma semidepend\u00eancia pelos brit\u00e2nicos.<\/p>\n<p>Quando Amanullah Khan \u2013 algumas vezes chamado de \u201co Kemal Ataturk do Afeganist\u00e3o\u201d\u2013 ascendeu ao poder em 1921, ele buscou reafirmar a soberania de seu pa\u00eds e lev\u00e1-lo em dire\u00e7\u00e3o ao mundo moderno. Como parte desse esfor\u00e7o, ele se aproximou do novo governo revolucion\u00e1rio em Moscou, que respondeu reconhecendo a independ\u00eancia do Afeganist\u00e3o e firmando o primeiro tratado de amizade afeg\u00e3o-sovi\u00e9tico.<\/p>\n<p>De 1921 a 1929 \u2013 quando elementos reacion\u00e1rios, auxiliados pelos brit\u00e2nicos, for\u00e7aram Amanullah a abdicar \u2013 os sovi\u00e9ticos ajudaram a lan\u00e7ar as bases de projetos de infraestrutura econ\u00f4mica, como usinas de for\u00e7a, recursos aqu\u00e1ticos, transportes e comunica\u00e7\u00f5es. Milhares de estudantes afeg\u00e3os se formaram em escolas t\u00e9cnicas e universidades sovi\u00e9ticas.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a partida for\u00e7ada de Amanullah, os projetos definharam, mas o relacionamento entre sovi\u00e9ticos e afeg\u00e3os reemergiria mais tarde.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1960, uma ressurg\u00eancia de projetos conjuntos afeg\u00e3o-sovi\u00e9ticos incluiria o Instituto Polit\u00e9cnico de Cabul \u2013 o principal polo educacional para engenheiros, ge\u00f3logos e outros especialistas. O Centro para a Ci\u00eancia e a Cultura foi constru\u00eddo em Cabul como um presente do povo da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Assim que as for\u00e7as Muhajidin, apoiadas pelos EUA, tomaram o poder, essas instala\u00e7\u00f5es foram destru\u00eddas.<\/p>\n<p>O Afeganist\u00e3o n\u00e3o esteve imune \u00e0 fermenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social que caracterizou o mundo em desenvolvimento no s\u00e9culo passado. Desde 1920, muitas correntes da luta progressista tomavam nota das experi\u00eancias da URSS, onde uma sociedade nova e mais igualit\u00e1ria estava emergindo nas terras do antigo imp\u00e9rio russo. O Afeganist\u00e3o n\u00e3o foi exce\u00e7\u00e3o. Em meados da d\u00e9cada de 1960, correntes revolucion\u00e1rias democr\u00e1ticas nacionais se amalgamaram para formar o Partido Democr\u00e1tico Popular (PDP).<\/p>\n<p>Em 1973, for\u00e7as burguesas locais, auxiliadas por alguns elementos do PDP, derrubaram o reinado de mais de 40 anos de Mohammad Zahir Shah \u2013 o homem que agora, aos 86 anos, est\u00e1 sendo promovido pelos republicanos direitistas dos EUA como a personagem ao redor da qual os afeg\u00e3os poderiam se unir.<\/p>\n<p>Quando, em 1978, o PDP assumiu o poder, eles come\u00e7aram a trabalhar na promo\u00e7\u00e3o de uma distribui\u00e7\u00e3o mais equitativa dos recursos econ\u00f4micos e sociais. Entre seus objetivos estavam dar continua\u00e7\u00e3o \u00e0 emancipa\u00e7\u00e3o de mulheres e meninas da ancestral servid\u00e3o tribal (um processo iniciado sob Zahir Shah), promover direitos iguais para minorias nacionais, inclusive o grupo mais reprimido do pa\u00eds, os Hazara, al\u00e9m de aumentar o acesso \u00e0 sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, moradia decente e saneamento b\u00e1sico para as pessoas comuns.<\/p>\n<p>Durante duas visitas, em 1980 e 1981, vi o in\u00edcio do progresso: mulheres trabalhando juntas em cooperativas de artesanato, onde pela primeira vez podiam ser pagas de maneira decente por seu trabalho e controlar o dinheiro que ganhavam. Adultos, tanto homens quanto mulheres, estavam aprendendo a ler. As mulheres trabalhavam como profissionais e ocupavam posi\u00e7\u00f5es de destaque no governo, inclusive a de Ministra da Educa\u00e7\u00e3o. Fam\u00edlias pobres de trabalhadores conseguiam arcar com os custos de um m\u00e9dico e enviar seus filhos \u2013 meninas e meninos \u2013 \u00e0 escola. O cancelamento da d\u00edvida dos camponeses e o in\u00edcio da reforma agr\u00e1ria. A forma\u00e7\u00e3o de cooperativas de camponeses. Controles e redu\u00e7\u00f5es de pre\u00e7os de alguns alimentos essenciais. Ajuda a n\u00f4mades interessados em adotar uma vida em povoado.<\/p>\n<p>Naqueles anos, tamb\u00e9m vi os resultados amargos dos ataques dos mujahidin \u2013 pelos mesmos grupos que agora comp\u00f5em a Alian\u00e7a do Norte \u2013, visando especialmente escolas e professores em \u00e1reas rurais.<\/p>\n<p>Os avan\u00e7os p\u00f3s-1978 tamb\u00e9m incluem a ajuda sovi\u00e9tica para projetos econ\u00f4micos e sociais em uma escala muito maior, com um novo Tratado de Amizade Afeg\u00e3o-Sovi\u00e9tico e uma variedade de novos projetos, inclusive de infraestrutura, prospec\u00e7\u00e3o de recursos naturais e minera\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de servi\u00e7os de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e projetos de inova\u00e7\u00e3o agr\u00edcola. Depois de dezembro de 1978, esse papel tamb\u00e9m passou a incluir a introdu\u00e7\u00e3o de tropas sovi\u00e9ticas, a pedido de um governo do PDP cada vez mais acossado pelos senhores da guerra feudais e tribais que eram ajudados e organizados pelos EUA e Paquist\u00e3o.<\/p>\n<p>O resto, como se diz, \u00e9 hist\u00f3ria. Mas \u00e9 significativo que, depois que as tropas sovi\u00e9ticas foram retiradas em 1989, o governo do PDP continuou a atuar, embora sob press\u00e3o cada vez maior, por quase tr\u00eas anos mais.<\/p>\n<p>Em algum lugar, embaixo dos escombros do Afeganist\u00e3o despeda\u00e7ado e ensanguentado do presente, est\u00e3o as sementes que permanecem mesmo nos piores momentos dentro dos cora\u00e7\u00f5es das pessoas que sabem que h\u00e1 um futuro melhor para a humanidade. Em um mundo em luta por justi\u00e7a \u2013 e n\u00e3o vingan\u00e7a \u2013 econ\u00f4mica e social, essas sementes germinar\u00e3o novamente.<\/p>\n<p>Marilyn Bechtel escreve para a People\u2019s World desde a \u00c1rea da Ba\u00eda de S\u00e3o Francisco. Ela se uniu \u00e0 equipe da PW em 1986 e, atualmente, participa como volunt\u00e1ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27734\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[374],"tags":[234],"class_list":["post-27734","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-afeganistao","tag-6b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7dk","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27734","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27734"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27734\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27734"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27734"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27734"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}