{"id":27736,"date":"2021-08-20T12:44:55","date_gmt":"2021-08-20T15:44:55","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27736"},"modified":"2021-08-20T12:44:55","modified_gmt":"2021-08-20T15:44:55","slug":"kollontai-marxismo-e-revolucao-sexual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27736","title":{"rendered":"Kollontai: marxismo e revolu\u00e7\u00e3o sexual"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lavrapalavra.com\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/kollontai-1.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->LAVRA PALAVRA<\/p>\n<p>Por Judith Stora-Sandor, via Obras Escolhidas, traduzido por Mait\u00ea Peixoto<\/p>\n<p>Para historiadores dos movimentos comunistas dos \u00faltimos cinquenta anos, o nome de Alexandra Kollontai est\u00e1 ligado \u00e0 primeira oposi\u00e7\u00e3o importante que o Partido Bolchevique conheceu, em 1920, a Oposi\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria. Para o sovi\u00e9tico m\u00e9dio, ela foi a primeira mulher na hist\u00f3ria a portar o t\u00edtulo de Embaixadora, no entanto, o dom\u00ednio pelo qual Alexandra Kollontai tinha predile\u00e7\u00e3o, a atividade que ela considerava como essencial em sua vida, exercia-se num plano completamente diferente.<\/p>\n<p>Partid\u00e1ria, confiante da emancipa\u00e7\u00e3o da mulher, ela pretendia liderar essa luta a partir de dois planos paralelos: a liberta\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e a emancipa\u00e7\u00e3o sexual. Ela exprimia, incansavelmente, em todos os seus escritos que a independ\u00eancia econ\u00f4mica n\u00e3o era suficiente para resolver os problemas das mulheres. Marxista, ela esperava a realiza\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o sexual a partir da revolu\u00e7\u00e3o socialista e do advento de uma sociedade sem classes, que veria o esfacelamento da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Se essa \u00faltima teoria era aceita por v\u00e1rios marxistas da \u00e9poca, as ideias de Kollontai sobre a nova moral sexual jamais foram partilhadas pelos dirigentes bolcheviques da \u00e9poca revolucion\u00e1ria \u2013 inclusive por L\u00eanin \u2013 e seus escritos, assim como ela mesma, tornaram-se rapidamente objeto de esc\u00e2ndalos. O puritanismo que vigorava no per\u00edodo stalinista apenas confirmou sua desgra\u00e7a e se ao longo dos anos 1930 seu nome ainda era citado, de tempos em tempos, para servir como bode expiat\u00f3rio dos defensores da moral tradicional, logo ela n\u00e3o seria mais mencionada.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos dez anos ela voltou a ser o centro das aten\u00e7\u00f5es na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, mas apenas algumas alus\u00f5es muito discretas relembram suas ideias sobre o amor livre e a sexualidade, seu combate contra a \u201cdupla moral\u201d1. Uma sele\u00e7\u00e3o de textos publicados em Moscou, em 1972, n\u00e3o continha nenhum de seus escritos referentes \u00e0 fam\u00edlia. Numa \u00e9poca em que os movimentos de liberta\u00e7\u00e3o das mulheres de diferentes pa\u00edses ocidentais se desenvolvem cada vez mais, parece-nos necess\u00e1rio retirar do esquecimento os textos de Alexandra Kollontai e apresentar, em l\u00edngua francesa, as ideias defendidas por ela, a mais apaixonada e a mais ativa na causa das mulheres.<\/p>\n<p>Quem foi Alexandra Kollontai? Deixemos que ela nos fale, ela que em sua autobiografia publicada na Encyclop\u00e9die Granat2, contou sua vida:<\/p>\n<p>\u201cNascida em 1872, cresci numa fam\u00edlia da nobreza latifundi\u00e1ria. Meu pai, um general russo, era de origem ucraniana. Quanto \u00e0 minha m\u00e3e, finlandesa, tinha origem camponesa3. Eu passei minha inf\u00e2ncia e minha juventude entre Petrogrado e a Finl\u00e2ndia. Ca\u00e7ula da fam\u00edlia e filha \u00fanica do meu pai (era o segundo casamento de minha m\u00e3e), fui objeto de todos os cuidados e aten\u00e7\u00f5es por parte da minha numerosa fam\u00edlia que conservava costumes patriarcais. Eu n\u00e3o estava indo \u00e0 escola porque eles temiam que as m\u00e1s companhias me influenciassem. Aos 16 anos, estava apta a ingressar na universidade, tive aulas particulares e assisti confer\u00eancias de hist\u00f3ria, literatura, etc. Meus pais me proibiram, igualmente, de assistir os cursos de Bestoujev4. Eu trabalhava bastante, principalmente sob a dire\u00e7\u00e3o direta do c\u00e9lebre historiador de literatura, Victor Petrovitch Ostrogorski. Ele percebia dons liter\u00e1rios em mim e me incentivava ao jornalismo. Casei-me muito nova, em parte movida por um sentimento de revolta contra os meus pais, mas depois de tr\u00eas anos eu me separei do meu marido, o engenheiro V. Kollontai, levando comigo meu pequeno menino (meu nome de solteira \u00e9 Domontovitch).<\/p>\n<p>Nesse momento, minhas concep\u00e7\u00f5es pol\u00edticas come\u00e7aram a ficar mais precisas. Eu trabalhava em sociedades de difus\u00e3o de cultura que j\u00e1 serviam, por volta dos anos de 1890, de fachada para uma s\u00e9rie de organiza\u00e7\u00f5es clandestinas. Assim, pelo famoso \u2018museu itinerante de assist\u00eancia escolar do material did\u00e1tico\u2019, n\u00f3s estabelecemos contato com os presos da fortaleza de Schl\u00fcsselburg. Gra\u00e7as \u00e0 nossa atividade nas sociedades de instru\u00e7\u00e3o e \u00e0s li\u00e7\u00f5es que transmit\u00edamos aos oper\u00e1rios foi que pudemos estabelecer com eles um contato muito v\u00edvido. Organiz\u00e1vamos sociedades de caridade para recolher dinheiro para a Cruz Vermelha Pol\u00edtica. O ano de 1896 foi decisivo na minha vida. Passei a primavera desse ano em Narva, na famosa f\u00e1brica de Kremgolska\u00efa. A vis\u00e3o da escraviza\u00e7\u00e3o de doze mil tecel\u00f5es me impressionou profundamente. Nesse momento, eu ainda n\u00e3o era marxista e pendia mais para o \u2018populismo\u2019 e o terrorismo.<\/p>\n<p>Depois de minha visita \u00e0 Narva, pus-me a estudar o marxismo e a economia. Nesse momento sa\u00edram, uma ap\u00f3s a outra, as duas primeiras revistas marxistas legais, Natchalo e Novoe Slovo. Essa leitura abriu, consideravelmente, os meus olhos. Eu acabara de encontrar a via que procurei com particular persist\u00eancia durante minha visita \u00e0 Narva. A famosa greve dos oper\u00e1rios t\u00eaxteis de Petrogrado, em 1896, a qual tomaram parte trinte e seis mil homens e mulheres, propiciou a defini\u00e7\u00e3o das minhas ideias pol\u00edticas. Com El. D. Stassova e um grande n\u00famero de outros camaradas que ainda trabalhavam \u00e0 margem do Partido, organizamos uma coleta em benef\u00edcio dos grevistas.<\/p>\n<p>Esse exemplo espetacular de crescimento da consci\u00eancia do proletariado escravizado e privado de direitos me incitou, de maneira definitiva, a passar para o campo marxista. No entanto, eu ainda n\u00e3o trabalhava como publicista marxista e n\u00e3o tomava qualquer posi\u00e7\u00e3o direta no movimento. Eu me considerava ainda pouqu\u00edssimo preparada. Em 1898, escrevi meu primeiro estudo sobre psicologia e educa\u00e7\u00e3o. \u2018Bases da educa\u00e7\u00e3o segundo Dobrolioubov\u2019. Ele foi publicado em setembro de 1898, na revista Obrazovanie, que ainda tinha um car\u00e1ter pedag\u00f3gico antes de se transformar em um dos \u00f3rg\u00e3os legais que mais se apoiavam no pensamento marxista. Seu redator chefe era A. l. Ostrogorski. Em 13 de agosto desse mesmo ano, parti para o exterior para estudar ci\u00eancias econ\u00f4micas e sociais.<\/p>\n<p>Em Zurique, ingressei na universidade para acompanhar os cursos do professor Herkner. A segunda edi\u00e7\u00e3o de seu livro sobre a quest\u00e3o oper\u00e1ria me interessara demasiadamente. Era carater\u00edstico, quanto mais eu avan\u00e7ava no estudo aprofundado das leis econ\u00f4micas, mais eu me tornava uma marxista \u201cortodoxa\u201d, enquanto meu professor e orientador de estudos se tornava cada vez mais um homem de direita e se distanciava da teoria revolucion\u00e1ria de Marx, tornando-se, a partir da quinta edi\u00e7\u00e3o de seu livro, um verdadeiro renegado. Foi um per\u00edodo curioso, quando ele apareceu no Partido Alem\u00e3o, com a leviandade de Bernstein, numa tend\u00eancia \u00e0 concilia\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica aberta, ao oportunismo, ao \u2018revisionismo\u2019, quer dizer, \u00e0 revis\u00e3o da teoria de Marx. Meu venerado professor entoava elogios a Bernstein. Eu, no entanto, permanecia, resolutamente, \u00e0 esquerda. Eu me entusiasmava por Kautsky, devorava a revista Neue Zeit que ele editava, e os artigos de Rosa Luxemburgo. Fiquei particularmente interessada por sua brochura \u2018Reforma ou revolu\u00e7\u00e3o\u2019 na qual ela refutava a teoria integracionista de Bernstein.<\/p>\n<p>Seguindo o conselho do meu professor, em posse de suas recomenda\u00e7\u00f5es, parti, em 1899, para a Inglaterra com o objetivo de estudar o movimento oper\u00e1rio ingl\u00eas, o qual deveria, segundo ele, me convencer de que a verdade estava do lado dos oportunistas e n\u00e3o dos \u2018esquerdistas\u2019.<\/p>\n<p>Eu cheguei at\u00e9 mesmo a receber recomenda\u00e7\u00f5es de Sydney e Beatrice Webb, mas desde as nossas primeiras conversas compreendi que n\u00f3s fal\u00e1vamos l\u00ednguas diferentes e era sob a dire\u00e7\u00e3o deles que eu come\u00e7ava a me familiarizar com o movimento oper\u00e1rio ingl\u00eas. Esse encontro, no entanto, me persuadiu no sentido contr\u00e1rio. Me mostrou toda a viol\u00eancia das contradi\u00e7\u00f5es sociais existentes na Inglaterra e a impot\u00eancia das reformas que buscavam lhes corrigir pela pr\u00e1tica dos sindicalistas ou gra\u00e7as aos c\u00e9lebres assentamentos (c\u00e9lulas culturais nos bairros oper\u00e1rios) do g\u00eanero de \u2018Toymbee-Hall\u2019, \u2018Pal\u00e1cio do Povo\u2019, cooperativas, clubes, etc.<\/p>\n<p>Eu deixei a Inglaterra ainda mais convencida da precis\u00e3o da concep\u00e7\u00e3o das pessoas de esquerda, dos marxistas ortodoxos, e retornei n\u00e3o para Zurique, mas para a R\u00fassia.<\/p>\n<p>Entrei em contato com os militantes das organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias clandestinas desejando dedicar o mais r\u00e1pido poss\u00edvel as minhas for\u00e7as \u00e0 a\u00e7\u00e3o verdadeira, \u00e0 luta. Quando sa\u00ed da R\u00fassia, em 1898, todo apoio da vanguarda intelectual, os estudantes, tendiam para o marxismo. Os \u00eddolos iam al\u00e9m de Beltov, Struve5 e Tougan-Baranovski6. Os populistas e os marxistas se enfrentavam numa luta feroz. As for\u00e7as jovens, como Ilitch [L\u00eanin], Maslov, Bogd\u00e1nov, etc., elaboravam, na clandestinidade, o fundamento te\u00f3rico da t\u00e1tica revolucion\u00e1ria do Partido Social-Democrata. Eu cheguei com a esperan\u00e7a de me colocar entre meus companheiros de ideias pol\u00edticas, mas, no outono de 1899, a R\u00fassia n\u00e3o era mais aquela do ver\u00e3o. Uma mudan\u00e7a se produzira, a \u2018lua de mel\u2019 da uni\u00e3o entre o marxismo legal e o marxismo clandestino chegara ao fim.<\/p>\n<p>O marxismo legal passou, abertamente, para o lado do grande capital industrial. A ala esquerda entrou na clandestinidade, defendendo, ainda mais resolutamente, a t\u00e1tica revolucion\u00e1ria do proletariado. Os estudantes e a intelectualidade se apaixonavam com muito mais for\u00e7a pelo revisionismo de Bernstein ao inv\u00e9s de se apaixonarem por Marx. Nietzsche e seu \u201cautocratismo de esp\u00edrito\u201d viraram moda.<\/p>\n<p>Eu lembro, como se fosse ontem, de um encontro organizado no apartamento do pai de El. D. Stassova, na rua Fourchtadska\u00efa, em prol da Cruz Vermelha Pol\u00edtica. Struve fez uma confer\u00eancia sobre Bernstein. O p\u00fablico ficou dividido, muitos militantes clandestinos estavam l\u00e1, contudo, o discurso de Struve foi acolhido com simpatia e aprova\u00e7\u00e3o. Apenas Avilov dirigiu-se contra Struve: tudo que brilhava e tinha nome nessa \u00e9poca apoiava Struve. Eu tomei a palavra. Concederam-na com hesita\u00e7\u00e3o, como que a algu\u00e9m pouco conhecida. Minha defesa apaixonada dos \u2018ortodoxos\u2019 (esquerda) foi, em geral, desaprovada e acolhida com um dar de ombros indignado. Um achava que era de uma impertin\u00eancia sem precedente tomar a palavra para se colocar contra autoridades reconhecidas como Struve e Tougan, outro dizia que tal ataque vinha de uma \u2018rea\u00e7\u00e3o\u2019, um terceiro dizia que j\u00e1 t\u00ednhamos ultrapassado o est\u00e1gio das \u2018frases\u2019 e que dever\u00edamos nos tornar pol\u00edticos realistas.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, eu escrevia artigos contra Bernstein, sobre o papel da luta de classes, defendendo os \u2018ortodoxos\u2019 na revista Naoutchnoe Obozrenie, mas a censura considerou que os meus textos eram impublic\u00e1veis e grifou-os em vermelho e azul. Decidi, ent\u00e3o, dedicar-me a um trabalho cient\u00edfico no dom\u00ednio da economia.<\/p>\n<p>Eu tinha guardado v\u00ednculos reais com a Finl\u00e2ndia. Enquanto isso, o povo finland\u00eas teve que passar por um per\u00edodo de viol\u00eancia e opress\u00e3o por parte da autocracia russa. As bases da autonomia do povo eram abaladas, a constitui\u00e7\u00e3o, as leis do pa\u00eds escandalosamente pisoteadas. Teve in\u00edcio a luta entre o povo finland\u00eas e a autocracia russa. Eu estava de todo o cora\u00e7\u00e3o ao lado dos finlandeses e n\u00e3o somente por minha simpatia intelectual: eu via na Finl\u00e2ndia a for\u00e7a crescente do proletariado industrial a qual poucas pessoas tinham consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Percebendo os sinais acentuados dos antagonismos de classe e a forma\u00e7\u00e3o de uma nova Finl\u00e2ndia oper\u00e1ria que fazia contrapeso aos partidos nacionalistas burgueses \u2013 suecos, finlandeses, pequeno-finlandeses \u2013 eu entrei em contato direto com os camaradas finlandeses para ajud\u00e1-los na organiza\u00e7\u00e3o do primeiro fundo de greve. Meus artigos sobre a Finl\u00e2ndia foram publicados, em 1900, na revista econ\u00f4mica alem\u00e3 Soziale Praxis, na Naoutchnoe Obozrenie, na Obrazovanie. Um artigo de estat\u00edsticas baseadas em pesquisas concretas foi publicado na revista Rousskoe Bogatstvo. Ao mesmo tempo, entre 1900 e 1903, juntei material para uma importante obra s\u00f3cio-estat\u00edstica sobre a Finl\u00e2ndia, que foi publicada sob o t\u00edtulo, inocente para a censura, de \u201cA vida dos oper\u00e1rios finlandeses\u201d.<\/p>\n<p>Esses anos n\u00e3o foram, evidentemente, dedicados, somente, para os meus trabalhos liter\u00e1rios e cient\u00edficos. Aconteceu de eu participar de atividades clandestinas, mas, sobretudo, \u00e0 margem do Partido, tais como dirigir os c\u00edrculos no bairro de Nevskaia Zastava, redigir chamados, guardar e distribuir publica\u00e7\u00f5es ilegais, etc.<\/p>\n<p>Em 1901, parti para o exterior. Atuei pessoalmente com Kautsky, Rosa Luxemburgo, Lafargue, em Paris, e Plekh\u00e1nov, em Genebra. Na Zaria foi publicado um de meus artigos sobre a Finl\u00e2ndia, sem assinatura, e na revista Neue Zeit, de Kautsky, foi publicado um artigo meu sob o pseud\u00f4nimo de Helena Astuta. Da\u00ed em diante mantive contato constante com meus camaradas no exterior. No in\u00edcio de 1903, foi publicado meu livro A vida dos oper\u00e1rios finlandeses, pesquisa econ\u00f4mica sobre a situa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores finlandeses e sobre o desenvolvimento da Finl\u00e2ndia. Ele foi redigido no esp\u00edrito marxista e os militantes clandestinos acolheram-no muito bem, mas muitos marxistas legais manifestaram sua desaprova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 1903, tomei pela primeira vez a palavra numa reuni\u00e3o p\u00fablica organizada por estudantes da Santa Tatiana para opor \u00e0 concep\u00e7\u00e3o idealista do mundo, a concep\u00e7\u00e3o de mundo socialista. No ver\u00e3o deste mesmo ano eu parti, novamente, para o exterior. Era a \u00e9poca das revoltas camponesas na R\u00fassia. Os oper\u00e1rios do sul se levantavam. Os esp\u00edritos foram libertados. Duas for\u00e7as antag\u00f4nicas se opunham de maneira cada vez mais feroz: a R\u00fassia clandestina caminhando em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o e a autocracia obstinadamente agarrada ao poder.<\/p>\n<p>O grupo Osvobojdenie, com Struve na sua dire\u00e7\u00e3o, ocupava uma posi\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria. Muitos dos meus amigos \u00edntimos se juntaram aos membros do grupo vendo neles a \u2018for\u00e7a real\u2019 e considerando o socialismo puro como uma utopia na R\u00fassia de ent\u00e3o. Eu precisei me separar brutalmente dos meus recentes companheiros de armas e dos meus amigos pol\u00edticos. Na emigra\u00e7\u00e3o socialista, as discuss\u00f5es continuavam, agora n\u00e3o mais entre populistas e marxistas, como nos anos precedentes, mas entre mencheviques e bolcheviques. Eu tinha amigos nos dois campos, mas me sentia mais pr\u00f3xima dos bolcheviques. Eu admirava sua intransig\u00eancia e seu esp\u00edrito revolucion\u00e1rio, mas o prest\u00edgio e a personalidade de Plekh\u00e1nov me continham em condenar os mencheviques.<\/p>\n<p>Quando retornei do exterior, em 1903, n\u00e3o aderi a nenhum dos grupos do partido, oferecendo \u00e0s duas fra\u00e7\u00f5es a possibilidade de me utilizar como agitadora, redigindo proclama\u00e7\u00f5es e outras tarefas corriqueiras. Fui surpreendida na rua pelo O Domingo Sangrento, de 1905. Eu me dirigia, junto a outros manifestantes, para o Pal\u00e1cio de Inverno e a vis\u00e3o do massacre cruel dos oper\u00e1rios desarmados ficou gravada para sempre na minha mem\u00f3ria, um dia de janeiro extraordinariamente ensolarado, olhares confiantes \u00e0 espera de um sinal fat\u00eddico das tropas dispostas em torno do pal\u00e1cio\u2026, mar de sangue sobre o branco da neve, os chicotes de couro, os gritos, os policiais, os mortos, os feridos\u2026, as crian\u00e7as fuziladas. O Comit\u00ea do Partido desconfiava dessa manifesta\u00e7\u00e3o do dia nove de janeiro. Um grande n\u00famero de camaradas que se encontraram nas reuni\u00f5es oper\u00e1rias convocadas para esse fim tentou dissuadir os oper\u00e1rios de participarem dessa manifesta\u00e7\u00e3o que lhes parecia ser uma provoca\u00e7\u00e3o, uma armadilha. Quanto a mim, eu acreditava que era preciso estar l\u00e1. Essa manifesta\u00e7\u00e3o provava a determina\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria, era uma escola de atividade revolucion\u00e1ria. Eu estava encantada pelas decis\u00f5es do Congresso de Amsterd\u00e3 sobre as \u2018a\u00e7\u00f5es de massa\u2019.<\/p>\n<p>Depois das jornadas de janeiro, a atividade clandestina retornou com ainda mais energia e mais for\u00e7a. Os bolcheviques de Petrogrado come\u00e7aram a editar o seu jornal clandestino (o qual n\u00e3o me recordo mais o nome). Eu colaborava n\u00e3o apenas como jornalista, mas tamb\u00e9m me ocupando dos problemas t\u00e9cnicos da edi\u00e7\u00e3o. Entre os manifestos que eu redigia naquele momento, aquele no qual eu me pronunciei por uma Assembleia Constituinte e contra o Zemskii Sobor teve particular sucesso.<\/p>\n<p>Tendo conservado, durante todos esses anos, um contato estreito com a Finl\u00e2ndia, eu contribu\u00eda ativamente para a unidade de a\u00e7\u00e3o dos dois partidos social-democratas, russo e finland\u00eas, dirigida contra o czarismo.<\/p>\n<p>Fui uma das primeiras socialistas russas a assentar os fundamentos de uma organiza\u00e7\u00e3o de mulheres oper\u00e1rias, organizando encontros especiais em sua inten\u00e7\u00e3o, etc. A partir de 1906, eu defendi a ideia de que a organiza\u00e7\u00e3o das oper\u00e1rias n\u00e3o deveria ser aut\u00f4noma, mas que deveria existir dentro do partido um escrit\u00f3rio especial ou uma comiss\u00e3o para defender e representar os seus interesses.<\/p>\n<p>Trabalhei com os bolcheviques at\u00e9 1906. Eu me separei deles quando surgiu a quest\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o dos oper\u00e1rios na Primeira Duma do Estado e a quest\u00e3o do papel dos sindicatos.<\/p>\n<p>Entre 1906 e 1915, fiz parte da fra\u00e7\u00e3o menchevique e, a partir daquela data, tornei-me membro do Partido Comunista Bolchevique. Em 1908, fugi da R\u00fassia porque eu era acusada em dois processos, um por organiza\u00e7\u00e3o das oper\u00e1rias do setor t\u00eaxtil e outro pela convoca\u00e7\u00e3o \u00e0 insurrei\u00e7\u00e3o que fizera na brochura \u201cA Finl\u00e2ndia e o socialismo\u201d. Vivi como exilada pol\u00edtica do final de 1908 at\u00e9 1917, isto \u00e9, at\u00e9 a primeira revolu\u00e7\u00e3o burguesa. No exterior, aderi imediatamente ao partido alem\u00e3o, depois ao partido belga, etc. Eu militava na qualidade de \u2018agitadora\u2019, escritora, propagandista, na Alemanha, Fran\u00e7a, Inglaterra, Su\u00ed\u00e7a, B\u00e9lgica, It\u00e1lia, Dinamarca, Noruega e Estados Unidos (1915-1916).<\/p>\n<p>Fui presa na Alemanha durante a guerra, expulsa da Su\u00e9cia e presa novamente por propaganda antimilitarista. Apesar disso, eu militava sistematicamente durante os anos de guerra na Uni\u00e3o de Zimmerwald contra a II Internacional e pelo internacionalismo. Nos Estados Unidos, a convite do grupo alem\u00e3o do partido socialista americano, na Noruega e na Su\u00e9cia servindo, clandestinamente, a R\u00fassia.<\/p>\n<p>De volta \u00e0 R\u00fassia, em 1917, fui a primeira mulher a ser eleita para o Comit\u00ea Executivo do Soviet de Petrogrado e, em seguida, [eleita] membra do Comit\u00ea Executivo Panrusso. Antes da revolu\u00e7\u00e3o bolchevique, fui presa, juntamente com outros l\u00edderes bolcheviques, pelo governo de Kerensky, mas fui liberada pouco antes da Revolu\u00e7\u00e3o Bolchevique de Outubro a pedido do Soviet de Petrogrado.<\/p>\n<p>No momento da revolu\u00e7\u00e3o bolchevique, eu era membra do CC do Partido Bolchevique e me pronunciei pela tomada do poder pelos oper\u00e1rios e pelos camponeses. Fui Comiss\u00e1ria do Povo para o Bem-estar Social no primeiro gabinete do governo bolchevique revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Desde o meu retorno \u00e0 R\u00fassia eu me ocupei da organiza\u00e7\u00e3o das oper\u00e1rias. A partir de 1920, fui respons\u00e1vel pelo setor feminino do partido pela organiza\u00e7\u00e3o das trabalhadoras. Como Comiss\u00e1ria do Povo para o Bem-estar Social, promulguei decretos pela prote\u00e7\u00e3o e pela seguridade materna e da inf\u00e2ncia. Fui representante comercial plenipotenci\u00e1ria da U.R.S.S. a partir de maio de 1923, na Noruega, e em seguida integrada ao corpo diplom\u00e1tico na qualidade de Embaixadora, em maio de 1924, e, finalmente, Ministra Plenipotenci\u00e1ria enviada extraordin\u00e1ria da U.R.S.S. na Noruega, em agosto de 1924.<\/p>\n<p>Eis a lista das minhas obras mais importantes de teoria socialista e de economia: A situa\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria na Finl\u00e2ndia (1903), A luta de classes (1906), Primeiro calend\u00e1rio oper\u00e1rio (1906), Bases sociais da quest\u00e3o feminina (1908), A Finl\u00e2ndia e o socialismo (1907), Sociedade e Maternidade (600 p\u00e1ginas), Para quem a guerra \u00e9 necess\u00e1ria? (tiragem de milhares de exemplares), A Nova Moral e a Classe Oper\u00e1ria e mais um grande n\u00famero de artigos, cr\u00f4nicas sobre os problemas sexuais e de literatura de propaganda contra a guerra e pela liberta\u00e7\u00e3o das mulheres trabalhadoras\u201d.<\/p>\n<p>Essa autobiografia, que se encerra em 1924, pode ser completada em poucas frases, no entanto, restava ainda \u00e0 Kollontai vinte e seis anos de vida. Ela continuava exercendo uma carreira diplom\u00e1tica que nada podia parar. N\u00e3o se exclui a hip\u00f3tese de que ela deveu sua vida ao distanciamento da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Em efeito, todos os velhos bolcheviques que tomaram parte ativa numa oposi\u00e7\u00e3o qualquer no seio do partido pereceram durante os expurgos stalinistas.<\/p>\n<p>Ora, Kollontai, uma das lideran\u00e7as da Oposi\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria, da qual falaremos mais adiante, sobreviveu. De 1926 a 1927, ela dirigiu a delega\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica sovi\u00e9tica no M\u00e9xico. Por motivos de sa\u00fade \u2013 ela era card\u00edaca \u2013 solicitou sua transfer\u00eancia, a qual obteve, retomando o seu posto na Noruega at\u00e9 1930. De 1930 a 1945, ela foi Embaixadora na Su\u00e9cia e desempenhou um papel ativo na prepara\u00e7\u00e3o do Tratado de Paz com a Finl\u00e2ndia. Em 1945, ela retornou a Moscou, onde terminou sua vida pacificamente. Veio a falecer no dia 9 de mar\u00e7o de 1952.<\/p>\n<p>Nenhuma das tr\u00eas biografias existentes de Kollontai s\u00e3o isentas de preconceitos7. Elas nos fornecem, no entanto, um certo n\u00famero de informa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o poderiam figurar numa autobiografia \u201coficial\u201d. \u00c9 bem verdade que sua vida de militante ocupou a maior parte do seu tempo, mas, segundo sua pr\u00f3pria confiss\u00e3o, sua vida sentimental n\u00e3o era independente de suas ideias pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Ela sempre tentou viver de acordo com as suas ideias acerca do comportamento de uma mulher emancipada. Esfor\u00e7ou-se para nunca colocar em primeiro lugar na sua vida as suas preocupa\u00e7\u00f5es amorosas. Era uma mulher muito bonita, culta e elegante, oradora de um grande talento que se exprimia com facilidade em v\u00e1rias l\u00ednguas. Segundo todos os que a conheceram, ela era extremamente sedutora. Suas biografias s\u00e3o muito discretas sobre sua vida sentimental durante os anos em que viveu na clandestinidade. Ainda mais c\u00e9lebre \u00e9 sua hist\u00f3ria de amor com Pavel Dybenko, um dos her\u00f3is da revolu\u00e7\u00e3o, o chefe dos marinheiros do B\u00e1ltico. Dybenko, de origem camponesa, um homem muito bonito, era bem mais jovem que Kollontai. Como os velhos preconceitos que Kollontai combateu durante toda a sua vida ainda estavam muito v\u00edvidos, mesmo entre os bolcheviques, ela terminou por ceder \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica e, por insist\u00eancia de seu amante, casou-se com ele sob a nova lei sovi\u00e9tica. O casamento durou apenas alguns anos. Dybenko desapareceu mais tarde, ele foi fuzilado em 1938. Um destino semelhante aguardava um outro homem com o qual Kollontai fora ligada, Chliapnikov, um dos l\u00edderes da Oposi\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria.<\/p>\n<p>Kollontai era muito criticada por sua eleg\u00e2ncia, seu gosto por vestimentas com bons cortes. Ela conservou certa amargura a esse respeito, sobretudo quando essas cr\u00edticas lhe eram endere\u00e7adas em per\u00edodos de mis\u00e9ria nos quais ela possu\u00eda um \u00fanico vestido que portava com muita distin\u00e7\u00e3o. Seu aspecto f\u00edsico fez jorrar muita tinta durante os primeiros anos de sua miss\u00e3o diplom\u00e1tica. A primeira embaixadora da hist\u00f3ria, representante do \u00fanico Estado do mundo onde o partido dos trabalhadores tomou o poder, n\u00e3o tinha passado indiferente pela imprensa ocidental. Os jornais parisienses da \u00e9poca descreviam com uma certa complac\u00eancia ir\u00f4nica suas vestimentas, com fotografias que provassem essa ironia. Insinuaram que o governo sovi\u00e9tico a tinha endere\u00e7ado advert\u00eancias em fun\u00e7\u00e3o de seus \u201cgastos de representa\u00e7\u00e3o muito elevados\u201d8. Conforme sua idade avan\u00e7ava, os jornalistas se desinteressavam pela \u201cbela embaixadora\u201d, fato que confirmava perfeitamente bem as convic\u00e7\u00f5es de Kollontai sobre os preconceitos de uma sociedade dirigida pelos homens.<\/p>\n<p>Retornemos \u00e0 sua autobiografia, que \u00e9 muito interessante em v\u00e1rios aspectos.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de suas atividades como militante na clandestinidade ocupa a maior parte do texto, enquanto a metade de uma p\u00e1gina pareceu suficiente para relatar a sua vida depois de 1917. Nisso a obra se parece com todas as outras autobiografias publicadas nessa \u00e9poca9. A de Alexandra Kollontai cont\u00e9m duas omiss\u00f5es significativas. Em uma parte ela n\u00e3o menciona a sua participa\u00e7\u00e3o na Oposi\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria, em outra ela n\u00e3o faz nenhuma alus\u00e3o \u00e0s suas ideias sobre a sexualidade, somente uma frase discreta na sua bibliografia assinala que ela era a autora de \u201cum grande n\u00famero de artigos, de contos sobre os problemas sexuais\u2026\u201d, entre outros.<\/p>\n<p>Existe, ainda, uma segunda autobiografia de Kollontai publicada em alem\u00e3o, em 1926, na cidade de Munique10. Ela \u00e9 um pouco mais detalhada do que aquela da Enciclop\u00e9dia Granat, mas seu interesse vai al\u00e9m. Ao revisar o texto, Kollontai suprimiu um n\u00famero bastante consider\u00e1vel de frases. A vers\u00e3o original foi conservada e duas edi\u00e7\u00f5es recentes, uma em alem\u00e3o e outra em ingl\u00eas11, foram reproduzidas incluindo as frases suprimidas.<\/p>\n<p>O que poderia ter acontecido entre a reda\u00e7\u00e3o da primeira vers\u00e3o e a revis\u00e3o da segunda?<\/p>\n<p>N\u00e3o temos como saber. \u00c9 prov\u00e1vel que amigos, vivendo em Moscou e conhecendo melhor que ela a atmosfera da capital sovi\u00e9tica, que havia se instalado ali apenas em pequenos intervalos de tempo, aconselharam-na fazer uso da prud\u00eancia. Examinando as duas variantes, constatamos que a autocensura de Kollontai se exercia, principalmente, sobre os mesmos temas na sua autobiografia oficial: suas ideias sobre a emancipa\u00e7\u00e3o sexual da mulher e o lugar que ela ocupara na Oposi\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria, na qual foi uma das agitadoras ao lado de Schiapnikov.<\/p>\n<p>O projeto original j\u00e1 continha uma vaga alus\u00e3o a esse per\u00edodo de sua vida, no qual, pela primeira vez desde o seu alinhamento com os bolcheviques, ela correu o risco de ser exclu\u00edda do Partido. Em 1918, quando ocorreram os debates sobre o Tratado de Paz de Brest-Litovsk12, ela perde o seu lugar no Comit\u00ea Central, mas continua exercendo um papel ativo como militante.<\/p>\n<p>As teses da Oposi\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria que se formou no interior do Partido, em 1920, s\u00e3o expostas numa brochura redigida por Kollontai, no ano de 1921. Denunciando a burocracia, tanto no interior do Partido quanto em todos os n\u00edveis do Estado Sovi\u00e9tico, ela insistiu sobre o papel dos sindicatos, verdadeiras organiza\u00e7\u00f5es de massa dos trabalhadores:<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o e sua organiza\u00e7\u00e3o constituem a ess\u00eancia do comunismo. Excluir os trabalhadores da organiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, priv\u00e1-los (eles ou suas pr\u00f3prias organiza\u00e7\u00f5es) da possibilidade de criar novas formas de produ\u00e7\u00e3o na ind\u00fastria por meio dos seus sindicatos, recusar suas express\u00f5es de organiza\u00e7\u00e3o de classe do proletariado para confiar inteiramente na habilidade de especialistas habituados e treinados para operar na produ\u00e7\u00e3o sob um sistema completamente diferente, \u00e9 abandonar os trilhos do pensamento marxista cient\u00edfico. No entanto, \u00e9 exatamente isso o que est\u00e3o fazendo os dirigentes do nosso partido13.<\/p>\n<p>A Oposi\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria, naquele III Congresso da Internacional Comunista, negou o seu apoio e foi condenada no XI Congresso do Partido, em 1922. Apesar da recomenda\u00e7\u00e3o do Comit\u00ea Central, seus membros n\u00e3o foram expulsos do Partido, mas, como sinal de sua desgra\u00e7a, bem como para se desvencilhar dela, o Comit\u00ea Central enviou-a para a Noruega.<\/p>\n<p>Sua miss\u00e3o diplom\u00e1tica s\u00f3 interveio mais tarde. Mesmo longe de Moscou, suas preocupa\u00e7\u00f5es n\u00e3o terminavam. St\u00e1lin, que em 1923 era o Secret\u00e1rio Geral do Partido, j\u00e1 tinha come\u00e7ado sua luta para suceder L\u00eanin, que estava meio paralisado e praticamente privado por completo do contato com o mundo exterior. Era importante para St\u00e1lin conhecer as inten\u00e7\u00f5es dessa antiga opositora.<\/p>\n<p>Foi sem d\u00favidas por influ\u00eancia de St\u00e1lin que artigos assinados por \u201cA.M.K.\u201d come\u00e7avam e ser publicados regularmente no Pravda. Os seus artigos tratavam de ideias sobre a fam\u00edlia, o casamento, os problemas sexuais que constitu\u00edam, at\u00e9 aqui, o interesse de Kollontai, mas eles estavam deformados e exagerados de tal maneira que suscitavam apenas ataques.<\/p>\n<p>Kollontai voltou apressadamente da Noruega. Convocada muitos dias seguidos por uma comiss\u00e3o de controle para prestar esclarecimentos acerca dos seus relat\u00f3rios perante os membros da Oposi\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria, ela acabou solicitando uma audi\u00eancia com St\u00e1lin para pedir sua ajuda. Depois dessa audi\u00eancia, os artigos pararam de aparecer e a comiss\u00e3o n\u00e3o lhe enviou mais convoca\u00e7\u00f5es14. Esse foi sem d\u00favida o primeiro passo dado por ela em dire\u00e7\u00e3o ao seu alinhamento com St\u00e1lin, na sua luta contra Tr\u00f3tski.<\/p>\n<p>Em 1925, ela envia para os arquivos do Partido cartas que L\u00eanin lhe endere\u00e7ara durante a guerra. Uma dessas cartas continha a opini\u00e3o pessoal de L\u00eanin sobre Tr\u00f3tski, o qual ele tratava como \u201celemento hesitante\u201d com o qual era \u201cperigoso se deixar engolfar\u201d15. Em 1926, ela se recusou a se juntar \u00e0 Oposi\u00e7\u00e3o dirigida por Tr\u00f3tski. Em 1930, tomou posi\u00e7\u00e3o clara a favor de St\u00e1lin em dois de seus artigos publicados no Pravda16.<\/p>\n<p>Dando um passo atr\u00e1s nas atividades pol\u00edticas depois da derrota da Oposi\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria, Kollontai continuava exprimindo suas ideias sobre a liberta\u00e7\u00e3o da mulher e sobre a nova moral, mas, a partir de 1920, cada um de seus escritos suscitou controv\u00e9rsias apaixonadas, ataques \u00e1cidos. Ela fez alus\u00e3o a esses ataques em sua autobiografia. Basta ler atentamente as frases que Kollontai preferia n\u00e3o ver impressas, em 1926, para perceber a atmosfera repressiva que devia reinar na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica naquela \u00e9poca.<\/p>\n<p>Eis aqui, como exemplo, um dos par\u00e1grafos suprimidos:<\/p>\n<p>Quando, de tempos em tempos, algu\u00e9m me dizia que era realmente extraordin\u00e1rio que uma mulher fosse nomeada a um tal posto de responsabilidade [como embaixadora], eu me dizia sempre que no fim das contas a vit\u00f3ria principal referente \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o das mulheres n\u00e3o residia nesse \u00fanico fato. O que adquire um significado particular nesse caso \u00e9 o fato de que uma mulher como eu acertou suas contas com a dupla norma moral sem nunca se esconder, sendo aceita numa casta onde at\u00e9 o presente se apoiava firmemente a tradi\u00e7\u00e3o e a pseudomoralidade. Assim, minha vida pode servir de exemplo para ca\u00e7ar o velho espectro da dupla moral na vida de outras mulheres tamb\u00e9m. Esse \u00e9 o ponto crucial da minha pr\u00f3pria exist\u00eancia, que tem um certo m\u00e9rito social e psicol\u00f3gico e contribui para a luta pela liberta\u00e7\u00e3o das mulheres trabalhadoras17.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos seus estudos, panfletos, brochuras, etc., Alexandra Kollontai tamb\u00e9m tentou o caminho liter\u00e1rio. O objetivo da sua cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria era representar o novo tipo de mulher cujo advento se daria na sociedade comunista. As rea\u00e7\u00f5es provocadas por suas tr\u00eas novelas, publicadas pela primeira vez em 1923 sob o t\u00edtulo comum de \u201cO amor das abelhas trabalhadoras\u201d, foram particularmente violentas.<\/p>\n<p>Em 1936, ainda quando da discuss\u00e3o sobre o novo C\u00f3digo da Fam\u00edlia, um dos oradores citou a novela intitulada \u201cO amor de tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es\u201d para condenar, sem d\u00f3, sua \u201clibertinagem pequeno-burguesa\u201d dos anos vinte. A cole\u00e7\u00e3o publicada em alem\u00e3o, em 1926, n\u00e3o teve uma acolhida muito favor\u00e1vel por parte do Partido Comunista Alem\u00e3o. Um dos argumentos do autor do relat\u00f3rio no \u00f3rg\u00e3o do Comit\u00ea Central contra a hero\u00edna da novela \u00e9 muito surpreendente, \u201cela estima que n\u00e3o \u00e9 um bom sinal para um comunista ter ideias t\u00e3o avan\u00e7adas a ponto das vis\u00f5es de homens razo\u00e1veis do passado lhe parecerem estranhas\u201d18.<\/p>\n<p>Em 1927, foi publicado o \u00faltimo escrito de Alexandra Kollontai, um romance intitulado \u201cUm grande amor\u201d. Supomos que a intriga do romance seja inspirada na liga\u00e7\u00e3o de L\u00eanin com Inessa Armand19. Parece que nenhum relat\u00f3rio cr\u00edtico foi dedicado na imprensa sovi\u00e9tica \u00e0 \u00faltima obra de Alexandra Kollontai.<\/p>\n<p>Uma das armas mais absolutas e mais eficazes da estrat\u00e9gia stalinista, o sil\u00eancio, foi tamb\u00e9m empregado contra Kollontai. Marcel Body20 constata com estupor que nenhum artigo necrol\u00f3gico foi publicado na imprensa sovi\u00e9tica na ocasi\u00e3o da morte dessa velha bolchevique, companheira de L\u00eanin. O sil\u00eancio foi rompido por volta do final dos anos 50, quando parte das mem\u00f3rias de Kollontai foi publicada21. Artigos e alguns estudos se seguiram e uma biografia foi publicada, em 1964. A hist\u00f3ria de sua vida, mais ou menos romanceada, foi editada em 1970, e, para o cent\u00e9simo anivers\u00e1rio de seu nascimento, lan\u00e7aram um filme consagrado \u00e0 sua carreira diplom\u00e1tica.<\/p>\n<p>Apesar desse interesse renovado, Alexandra Kollontai n\u00e3o saiu ilesa do longo esquecimento stalinista. Sua obra foi truncada na sua parte mais original. Em efeito, se a sua luta pela emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f4mica da mulher \u00e9 relatada com bastante fidelidade, suas ideias relativas \u00e0 nova moral sexual s\u00e3o pudicamente escamoteadas em todas as fontes sovi\u00e9ticas.<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>As ideias de Alexandra Kollontai sobre a desagrega\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia partem da an\u00e1lise de Marx e Engels, reconhecida como base para a reflex\u00e3o entre os socialistas da \u00e9poca. Sem d\u00favida, a fam\u00edlia burguesa teve o seu tempo, uma nova sociedade ir\u00e1 engendrar uma nova forma de rela\u00e7\u00e3o entre os sexos. Mas enquanto grande parte das ideologias se contenta em deixar para mais tarde a resolu\u00e7\u00e3o do problema, diga-se de passagem, um problema capital, Kollontai se esfor\u00e7ou para sair das generaliza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Como Auguste Bebel no seu livro \u201cA Mulher e o Socialismo\u201d (1879), ela denunciou com naturalidade que o casamento oprime as mulheres de todas as classes. Na sua primeira obra dedicada ao problema feminino, \u201cAs bases sociais da quest\u00e3o feminina\u201d (1909), apoiando-se na argumenta\u00e7\u00e3o de Engels, ela analisa a crise da fam\u00edlia em todas as classes da sociedade.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as ao desenvolvimento da produ\u00e7\u00e3o capitalista, a fam\u00edlia burguesa, enquanto c\u00e9lula produtiva, n\u00e3o cumpre mais o seu antigo papel. Os objetos de primeira necessidade n\u00e3o s\u00e3o mais fabricados no seio da fam\u00edlia. A educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as escapa cada vez mais dos pais pequeno-burgueses que confiam suas crian\u00e7as a estabelecimentos de ensino p\u00fablico. Uma das fun\u00e7\u00f5es essenciais da fam\u00edlia, o consumo, reduz-se paulatinamente, a moradia familiar \u00e9 frequentemente substitu\u00edda por restaurantes, casas mobiliadas, hot\u00e9is, etc. (Essa \u00faltima afirma\u00e7\u00e3o, um pouco apressada, foi modificada mais tarde pela autora em um panfleto escrito em 1918, \u201cA Fam\u00edlia e o Estado Comunista\u201d, onde ela descreve a fam\u00edlia como unidade de consumo, e n\u00e3o como uma unidade produtiva).<\/p>\n<p>O papel principal da fam\u00edlia burguesa \u00e9 a transmiss\u00e3o, em linha direta, do patrim\u00f4nio adquirido. \u00c0 luz dessa constata\u00e7\u00e3o, a m\u00e1scara da hipocrisia expressa em frases tais como \u201co amor conjugal\u201d, \u201ca uni\u00e3o de dois cora\u00e7\u00f5es que se amam\u201d, encobre os interesses econ\u00f4micos, caiu definitivamente. Al\u00e9m do adult\u00e9rio, largamente praticado pela burguesia, tamb\u00e9m o n\u00famero crescente de div\u00f3rcios soa como uma senten\u00e7a de morte para o mito do casamento monog\u00e2mico feito por contrato \u201cpara o melhor e para o pior\u201d em nome de um amor eterno. Outro fator que mina a solidez dessa fam\u00edlia burguesa \u00e9 a tend\u00eancia das mulheres, de diferentes camadas da burguesia, buscarem um emprego assalariado j\u00e1 que, como consequ\u00eancia, a onipot\u00eancia econ\u00f4mica do chefe de fam\u00edlia se reduz notadamente.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia camponesa, com sua estabilidade, tende igualmente a se modificar \u00e0 medida que as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o capitalistas se desenvolvem. Se \u00e9 verdade que a passagem \u201cda grande fam\u00edlia patriarcal\u201d \u00e0 \u201cpequena fam\u00edlia\u201d garantiu maior independ\u00eancia \u00e0 mulher camponesa, ela, por outro lado, suporta cada vez menos a manuten\u00e7\u00e3o dos antigos costumes de outra \u00e9poca que ainda regem a sua vida. Na R\u00fassia, onde o trabalho sazonal mobiliza centenas de milhares de trabalhadores agr\u00edcolas, onde homens e mulheres deixam suas casas durante v\u00e1rios meses por ano para ganhar um sal\u00e1rio agr\u00edcola, a mentalidade da camponesa se modificou sensivelmente, os elos familiares n\u00e3o t\u00eam mais a mesma import\u00e2ncia de antes.<\/p>\n<p>Quanto ao proletariado, a fam\u00edlia nessa classe social tem apenas uma exist\u00eancia nominal. Kollontai d\u00e1 uma descri\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica da mis\u00e9ria da prolet\u00e1ria, esposa e m\u00e3e. A oper\u00e1ria, depois do seu trabalho extenuante na usina, deve se ocupar dos trabalhos dom\u00e9sticos. Suas crian\u00e7as ficam abandonadas, desde a primeira idade, aos cuidados da rua, isso quando n\u00e3o morrem antes. A mortalidade infantil, os abortos espont\u00e2neos devido aos trabalhos pesados, os abortos clandestinos, frequentemente mortais, s\u00e3o fatos cotidianos na vida das mulheres prolet\u00e1rias. Nesse caso, quem ousaria falar na \u201csantidade da fam\u00edlia\u201d?<\/p>\n<p>Foi no seio do proletariado que o verdadeiro processo de desintegra\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia come\u00e7ou. Mas a classe prolet\u00e1ria n\u00e3o \u00e9 apenas o lugar onde a moral burguesa se decomp\u00f5e, ela tamb\u00e9m cont\u00e9m em si os germes da nova moral. A uni\u00e3o livre, o amor livre que as feministas de esquerda proclamam de cor e salteado, \u00e9, muitas vezes, visto dentre os oper\u00e1rios, imposta, \u00e9 verdade, pelas necessidades econ\u00f4micas. Mas, este \u00e9 o problema principal da mulher trabalhadora?<\/p>\n<p>Quer ela seja casada, ou n\u00e3o, as obriga\u00e7\u00f5es familiares, o cuidado com as crian\u00e7as, lhe s\u00e3o atribu\u00eddos da mesma maneira. Esses verdadeiros problemas s\u00e3o de ordem econ\u00f4mica e eles v\u00e3o cessar, somente, com o fim das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o atuais. O Estado tomar\u00e1 para si todas as fun\u00e7\u00f5es da fam\u00edlia. As coletividades sociais ser\u00e3o organizadas para assegurar as tarefas das fam\u00edlias individuais, assim, a mulher trabalhadora ficar\u00e1 livre das restri\u00e7\u00f5es impostas pelo duplo fardo do trabalho assalariado e das tarefas dom\u00e9sticas e quando a mulher, livre de todas as limita\u00e7\u00f5es de ordem econ\u00f4mica, escolher livremente seu parceiro, somente ent\u00e3o se realizar\u00e1 o sonho das feministas: a uni\u00e3o livre dos indiv\u00edduos livres.<\/p>\n<p>A paix\u00e3o e o entusiasmo de Kollontai, que muitas vezes envolvem sua pena nas descri\u00e7\u00f5es id\u00edlicas de um futuro radioso, n\u00e3o apagam sua lucidez. Ela sabia perfeitamente que nenhuma revolu\u00e7\u00e3o poderia mudar, da noite para o dia, os costumes profundamente ancorados na mentalidade de homens e mulheres. A moral sexual, assim como a psicologia humana, deveria passar por uma evolu\u00e7\u00e3o profunda. O \u201camor livre\u201d permanece como express\u00e3o vazia de sentido enquanto as rela\u00e7\u00f5es entre os sexos continuam dominadas pelos sentimentos de ci\u00fames, pela vontade de possuir o outro, corpo e alma, e por esse medo intrusivo da solid\u00e3o que toma conta, sobretudo, das mulheres, habituadas, depois de s\u00e9culos, a enxergarem no amor o \u00fanico meio de sua exist\u00eancia. A contribui\u00e7\u00e3o mais original do pensamento de Kollontai diz respeito aos problemas do amor e foram precisamente essas ideias que serviram de alvo para os ataques mais ferozes.<\/p>\n<p>A nova moral e a classe oper\u00e1ria, escrito em 1918 e que reproduzimos aqui por inteiro, \u00e9, entre os escritos de Kollontai, aquele no qual ela exp\u00f5e de maneira mais aberta as suas ideias sobre a sexualidade. Dir\u00edamos, hoje, que \u00e9 o seu \u201ccredo\u201d sobre a revolu\u00e7\u00e3o sexual. O ponto de partida de suas reflex\u00f5es \u00e9 um livro sobre \u201ca crise sexual\u201d de uma autora alem\u00e3, Greta Meisel-Hess, publicado em 1910. Existe, segundo Meisel-Hess, tr\u00eas formas fundamentais de rela\u00e7\u00e3o entre os sexos: o casamento legal, a prostitui\u00e7\u00e3o e a uni\u00e3o livre. O exame dessas tr\u00eas formas nos conduz \u00e0 uma constata\u00e7\u00e3o de falha. O casamento legal, fundado sobre o princ\u00edpio da \u201cindissociabilidade\u201d e sobre \u201ca ideia de possess\u00e3o absoluta dos c\u00f4njuges, um pelo outro\u201d, leva, inevitavelmente, ao adult\u00e9rio e \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A segunda forma de uni\u00e3o entre os sexos tem consequ\u00eancias muito graves sobre a psicologia tanto feminina quanto masculina. Um dos fen\u00f4menos que da\u00ed decorre \u00e9 a ignor\u00e2ncia quase completa dos homens n\u00e3o somente acerca da psicologia como, tamb\u00e9m, da psicologia feminina. O homem e a mulher, deformados por essas formas imperfeitas de rela\u00e7\u00f5es psicossexuais, s\u00e3o incapazes de viver rela\u00e7\u00f5es amorosas harmoniosas e florescentes, mesmo quando se trata de uma \u201cuni\u00e3o livre\u201d como, por exemplo, e em princ\u00edpio, qualquer limita\u00e7\u00e3o de ordem econ\u00f4mica ou social.<\/p>\n<p>A humanidade carece de \u201cpotencial amoroso\u201d e a sociedade capitalista, fundada sobre a concorr\u00eancia, sobre a luta pela vida, que leva \u00e0 aus\u00eancia de comunica\u00e7\u00e3o entre os membros dessa sociedade, n\u00e3o poderia remediar essa pobreza afetiva. As reivindica\u00e7\u00f5es dos socialistas s\u00e3o necess\u00e1rias, claro. A independ\u00eancia econ\u00f4mica da mulher, a prote\u00e7\u00e3o da inf\u00e2ncia e da maternidade, a supress\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de filho ileg\u00edtimo, a liberdade de div\u00f3rcio, etc., s\u00e3o reformas sem as quais a igualdade das mulheres n\u00e3o poderia ser realizada. Mas nenhuma medida social ou jur\u00eddica pode resolver a crise sexual.<\/p>\n<p>Uma transforma\u00e7\u00e3o profunda da psicologia deve acompanhar a transforma\u00e7\u00e3o da sociedade. \u201cO grande amor\u201d, uni\u00e3o profunda da alma e do corpo, \u00e9, e continuar\u00e1 sendo sempre, o ideal da humanidade. Mas poucos s\u00e3o aqueles capazes de viver essa experi\u00eancia. Os outros devem passar por uma esp\u00e9cie de \u201cescola do amor\u201d, que Kollontai, depois de Meisel-Hess, chamou de \u201co amor-jogo\u201d ou \u201camizade er\u00f3tica\u201d.<\/p>\n<p>O amor-jogo est\u00e1 fundado sobre a estima rec\u00edproca dos parceiros, o respeito do \u201ceu\u201d e do outro, uma atitude dedicada e atenciosa que exclui a vontade da domina\u00e7\u00e3o que normalmente caracteriza as rela\u00e7\u00f5es amorosas. No amor-jogo, a mulher guardaria a mesma independ\u00eancia afetiva que o homem e seria ainda mais capaz de manter tais rela\u00e7\u00f5es amorosas se perdesse o h\u00e1bito de enxergar o amor como ess\u00eancia de sua vida.<\/p>\n<p>No plano pr\u00e1tico, a sociedade deve reconhecer todas as formas de uni\u00e3o entre os sexos, o ideal sendo a \u201cmonogamia sucessiva\u201d (diz respeito, preferencialmente, \u00e0 uni\u00e3o livre e n\u00e3o ao casamento por registro). Para que a mulher n\u00e3o seja v\u00edtima de rela\u00e7\u00f5es passageiras que a deixaria s\u00f3 e sem recursos, de um lado a sociedade tem a obriga\u00e7\u00e3o de socorr\u00ea-la durante suas gesta\u00e7\u00f5es, e de outro ela deve estar preparada para a vida profissional, precisa sair do isolamento de sua casa. Mas \u00e9 suficiente decretar que o princ\u00edpio da liberdade deve ser o fundamento de toda rela\u00e7\u00e3o entre os sexos? Essa escola do amor que \u00e9 o \u201camor-jogo\u201d levar\u00e1, obrigatoriamente, ao cruzamento do \u201cpotencial amoroso\u201d da humanidade?<\/p>\n<p>Contanto que se trate da sociedade capitalista e da classe burguesa, Kollontai respondeu com um n\u00e3o. Ela coloca toda sua esperan\u00e7a na classe ascendente, o proletariado, no qual os interesses comuns de classe fazem nascer esse esp\u00edrito de solidariedade e de camaradagem que determinar\u00e3o as novas rela\u00e7\u00f5es entre os sexos. No Abram caminho ao Eros Alado, artigo de 1923, ela descreve a nova forma de amor que chamou de \u201camor camaradagem\u201d. Uni\u00e3o livre, casamento legal ou liga\u00e7\u00e3o passageira, a f\u00f3rmula pouco importa, desde que o amor seja \u201cmultiforme\u201d por natureza. \u00c9 o conte\u00fado espiritual e moral desse amor que lhe confere o seu valor.<\/p>\n<p>Na primeira fase de desenvolvimento da sociedade socialista, a ideologia prolet\u00e1ria exige que o amor individual seja subordinado ao \u201camor-dever\u201d direcionado \u00e0 coletividade. A nova grande for\u00e7a ps\u00edquica que determina as rela\u00e7\u00f5es amorosas \u00e9 a solidariedade-camaradagem. O \u201cEros sem asas\u201d (a atra\u00e7\u00e3o puramente f\u00edsica) cede lugar ao \u201cEros alado\u201d, que n\u00e3o exclui a concord\u00e2ncia dos corpos, mas no qual o dever em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 coletividade precede os sentimentos amorosos individuais.<\/p>\n<p>Ideal bem austero, reconhece Kollontai, mas ele \u00e9 tempor\u00e1rio. A sociedade comunista ver\u00e1 o advento de uma nova forma de amor, o \u201cEros transfigurado\u201d, no qual a uni\u00e3o dos sexos ser\u00e1 fundada sobre a atra\u00e7\u00e3o sexual saud\u00e1vel, livre e natural\u201d. Kollontai est\u00e1 profundamente convencida de que a defini\u00e7\u00e3o de moral sexual \u00e9 uma tarefa importante e que, portanto, ela deve ser realizada no processo de transforma\u00e7\u00e3o das bases econ\u00f4micas da sociedade. Esse \u00e9 um dos pontos, como veremos adiante, onde ela encontrava uma forte oposi\u00e7\u00e3o por parte de outros dirigentes bolcheviques.<\/p>\n<p>Kollontai n\u00e3o era somente uma te\u00f3rica. Como Comiss\u00e1ria do Povo para o Bem-Estar Social, ela se esfor\u00e7ou para colocar em pr\u00e1tica as medidas necess\u00e1rias para libertar as mulheres das pesadas tarefas de sua vida cotidiana. \u201cA separa\u00e7\u00e3o entre cozinha e casamento\u201d era uma das principais palavras de ordem p\u00f3s-revolucion\u00e1rias. Para tanto, a organiza\u00e7\u00e3o da alimenta\u00e7\u00e3o coletiva deveria ser tarefa primordial.<\/p>\n<p>N\u00e3o menos importante era a abertura de lares infantis, creches, jardins de inf\u00e2ncia, que permitissem \u00e0s mulheres se dedicar inteiramente ao trabalho \u00fatil \u00e0 comunidade. Isso n\u00e3o significa, de maneira alguma, que a maternidade n\u00e3o fosse respeitada. Ao contr\u00e1rio, para Kollontai, a m\u00e3e, carregando e alimentando seu filho, cumpre um dever sagrado em benef\u00edcio da coletividade e, como tal, tem todos os direitos \u00e0 prote\u00e7\u00e3o por parte dessa mesma coletividade.<\/p>\n<p>Na sociedade comunista do futuro, esse dever de m\u00e3e se modificaria no sentido que toda a diferen\u00e7a entre o seu filho e o filho de outra desapareceriam. Examinando as medidas tomadas pelo governo sovi\u00e9tico depois da tomada do poder22, ela constata que muitas coisas ainda precisavam ser feitas, mas que a via estava aberta em dire\u00e7\u00e3o ao desaparecimento total da fam\u00edlia. N\u00e3o apenas os c\u00e1lculos materiais s\u00e3o menos frequentes na origem do casamento, mas a mulher toma gosto pelas atividades coletivas, ela n\u00e3o quer mais se dedicar \u00e0 constru\u00e7\u00e3o e ao embelezamento do \u201cninho\u201d familiar.<\/p>\n<p>Um outro problema grave, o da prostitui\u00e7\u00e3o, uma das falhas da sociedade burguesa, come\u00e7ava a encontrar sua solu\u00e7\u00e3o. As prostitutas n\u00e3o s\u00e3o mais perseguidas por suas atividades sexuais, mas como membros \u201cociosos\u201d de uma comunidade inteira que se voltou ao trabalho produtivo. No entanto, ela n\u00e3o tem mais ilus\u00f5es, enquanto n\u00e3o adquirir completa independ\u00eancia econ\u00f4mica, a prostitui\u00e7\u00e3o continuar\u00e1 existente, muitas vezes de forma dissimulada. Tanto a mulher que se d\u00e1 quanto aquela que se casa por enxergar no casamento o \u00fanico meio para obter certas vantagens materiais, s\u00e3o prostitutas. Quem ousar\u00e1 dizer que a prostitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o existe mais na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica dos nossos dias, sob essa forma \u201catenuada\u201d?<\/p>\n<p>E o que aconteceu com as outras reivindica\u00e7\u00f5es avan\u00e7adas de nossa autora? Em que a sociedade sovi\u00e9tica de hoje parece com aquela que sonhara Kollontai na aurora de um mundo novo? S\u00e3o essas quest\u00f5es que tentaremos responder nos cap\u00edtulos seguintes.<\/p>\n<p>III<\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro de 1917 respondeu \u00e0s expectativas que todos os revolucion\u00e1rios do mundo depositaram nela? Esse \u00e9 um questionamento aberto a controv\u00e9rsias.<\/p>\n<p>Existe, no entanto, uma constata\u00e7\u00e3o sobre a qual nenhuma discuss\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel: a revolu\u00e7\u00e3o sexual falhou. A igualdade entre os dois sexos em todos os dom\u00ednios da vida, proclamada desde a tomada do poder pelos bolcheviques, nunca negada desde ent\u00e3o pelos textos oficiais, n\u00e3o foi realizada. A moral tradicional reina como mestre absoluta. A fam\u00edlia monog\u00e2mica ao inv\u00e9s de desaparecer, viu-se refor\u00e7ada ao longo dos \u00faltimos cinquenta anos. Lendo a autobiografia de Alexandra Kollontai, escrita em 1926, e sobretudo levando em conta a autocensura, \u00e9 poss\u00edvel vislumbrar qual seria o destino das novas ideias antecipadas por ela. A \u00faltima frase, barrada da vers\u00e3o definitiva, diz muito sobre esse assunto: \u201cpouco importa quais ser\u00e3o as tarefas que eu cumprirei a seguir; est\u00e1 muito claro para mim que a liberta\u00e7\u00e3o completa da mulher trabalhadora e a cria\u00e7\u00e3o de uma nova moral sexual permanecer\u00e3o sempre o objetivo supremo da minha atividade e da minha vida23\u201d.<\/p>\n<p>Kollontai, com segura intui\u00e7\u00e3o decorrente de sua experi\u00eancia como mulher, abordou, imediatamente, as duas quest\u00f5es-chave para a verdadeira revolu\u00e7\u00e3o sexual: a sexualidade e a fam\u00edlia. \u00c9 nisso que reside seu interesse, assim como o seu maior m\u00e9rito. As ideias que ela antecipa podem parecer ing\u00eanuas, muitas vezes at\u00e9 mesmo retr\u00f3gradas aos nossos olhos, mas n\u00e3o se pode esquecer que os seus primeiros escritos datam de 1919, e que eles s\u00e3o fruto de uma reflex\u00e3o solit\u00e1ria. Apesar disso, em v\u00e1rios pontos, eles em nada perderam sua atualidade. Tamb\u00e9m a pr\u00f3pria leitura desses textos \u00e9, ao mesmo tempo, cautelosa: a via de liberta\u00e7\u00e3o da mulher \u00e9 dif\u00edcil, nenhuma batalha foi ganha em definitivo. O que parece adquirido pode recuar a qualquer momento. O destino das ideias de Alexandra Kollontai na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e as flutua\u00e7\u00f5es sobre o plano jur\u00eddico pelas diferentes leis a respeito da fam\u00edlia devem nos suscitar a vigil\u00e2ncia e a mod\u00e9stia.<\/p>\n<p>\u201cOs piores inimigos da mulher s\u00e3o a moral tradicional e a concep\u00e7\u00e3o conservadora acerca do casamento\u201d24, escreveu Kollontai na sua autobiografia de 1926, frase que foi barrada em seguida, portanto, a luta deve ser conduzida em duas frentes simultaneamente.<\/p>\n<p>Aparentemente, era mais f\u00e1cil obter os resultados atacando a institui\u00e7\u00e3o do casamento no campo jur\u00eddico, especialmente depois do primeiro C\u00f3digo da Fam\u00edlia na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, aprovado em 1918, que apenas preencheu a lacuna que separava a R\u00fassia czarista de certos pa\u00edses ocidentais. Kollontai diz em sua autobiografia, embora tenha preferido censurar em seguida:<\/p>\n<p>Um debate apaixonado se seguiu \u00e0 publica\u00e7\u00e3o das minhas teses sobre a nova moral, pois a nossa lei sovi\u00e9tica sobre o casamento, que o separou da Igreja, evidentemente, n\u00e3o era algo em ess\u00eancia mais progressista do que as leis que j\u00e1 existem em outros pa\u00edses progressistas. [\u2026] Quanto ao problema das crian\u00e7as ileg\u00edtimas, n\u00f3s ainda n\u00e3o chegamos t\u00e3o longe quanto os Noruegueses25.<\/p>\n<p>O tom desiludido de Kollontai prova que ela n\u00e3o se adaptava mais a essa \u00e9poca, \u00e0 uma evolu\u00e7\u00e3o r\u00e1pida da legisla\u00e7\u00e3o nesse dom\u00ednio, mas ela previa que aquilo que parecia ter sido conquistado, em 1926, n\u00e3o era definitivo, que pouco a pouco as novas vit\u00f3rias da revolu\u00e7\u00e3o seriam assumidas por um Estado \u201ctodo poderoso\u201d e que os diferentes c\u00f3digos da fam\u00edlia que o sucederiam iriam soar como a senten\u00e7a de morte para as esperan\u00e7as de um mundo melhor, o qual nossa autora descreve de uma maneira t\u00e3o cativante, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Para compreender esse processo e dele extrair conclus\u00f5es, \u00e9 indispens\u00e1vel examinar as diversas etapas da legisla\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica concernentes ao casamento, o div\u00f3rcio, o aborto, etc.<\/p>\n<p>Os fundadores do marxismo exprimiam ideias muito matizadas sobre a fam\u00edlia. Tamb\u00e9m as interpreta\u00e7\u00f5es mais diversas podiam terminar do mesmo jeito. Marx e Engels jamais preconizaram o desaparecimento completo da fam\u00edlia monog\u00e2mica. Se tratava muito mais de fornecer um conte\u00fado novo \u00e0 fam\u00edlia burguesa. Engels coloca a quest\u00e3o: \u201cTendo a monogamia nascido de causas econ\u00f4micas, ela desapareceria se suas causas desaparecessem?\u201d26 Sua resposta vem sem equ\u00edvoco:<\/p>\n<p>poder\u00edamos responder, n\u00e3o sem raz\u00e3o: desaparecer\u00e1 t\u00e3o pouco que \u00e9 justamente a partir desse momento que ela ser\u00e1 plenamente realizada. De fato, com a transforma\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o em propriedade social, o trabalho assalariado e o proletariado desaparecer\u00e3o, ent\u00e3o, ao mesmo tempo, desaparecer\u00e1, tamb\u00e9m, a necessidade para um certo n\u00famero de mulheres (n\u00famero que a estat\u00edstica permite calcular) de recorrer \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o para ganhar dinheiro. A prostitui\u00e7\u00e3o desaparece, a monogamia, em vez de perecer, se torna, enfim, uma realidade, mesmo para os homens27.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia monog\u00e2mica burguesa est\u00e1 fundada sobre interesses econ\u00f4micos, ela ser\u00e1 extinta \u201cenquanto unidade econ\u00f4mica da sociedade\u201d28. Essa forma de casamento j\u00e1 \u00e9 realizada na classe prolet\u00e1ria, onde a propriedade privada n\u00e3o exerce qualquer papel a partir do momento em que se contrai casamento. A forma superior da monogamia ser\u00e1 realizada quando a escolha do c\u00f4njuge pela mulher n\u00e3o for mais determinada por fatores econ\u00f4micos, quando desaparecerem a produ\u00e7\u00e3o capitalista e as condi\u00e7\u00f5es de propriedade que dela decorrem. \u201cEnt\u00e3o, n\u00e3o restar\u00e1 outro motivo al\u00e9m da inclina\u00e7\u00e3o rec\u00edproca29\u201d. E mais adiante: \u201co que desaparecer\u00e1 com certeza da monogamia, s\u00e3o, de uma parte, a preponder\u00e2ncia do homem, e de outro a indissolubilidade do casamento30\u201d.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 forma que a fam\u00edlia adotar\u00e1 na sociedade futura onde o comunismo ser\u00e1 realidade, encontramos uma indica\u00e7\u00e3o na brochura de Engels \u201cOs princ\u00edpios do comunismo\u201d. No vig\u00e9simo primeiro ponto: \u201cQual repercuss\u00e3o ter\u00e1 o regime comunista sobre a fam\u00edlia?\u201d, Engels responde:<\/p>\n<p>Ela transformar\u00e1 as rela\u00e7\u00f5es entre os sexos em rela\u00e7\u00f5es puramente privadas, concernindo somente \u00e0s pessoas envolvidas, as quais a sociedade n\u00e3o interferir\u00e1. Essa transforma\u00e7\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel a partir do momento em que a propriedade privada for suprimida, que as crian\u00e7as forem criadas em comum, destruindo, assim, as bases principais do casamento atual, inclusive, a depend\u00eancia da mulher em rela\u00e7\u00e3o ao homem e das crian\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o aos pais. Aqui est\u00e1 a resposta para a gritaria dos moralistas burgueses sobre a comunidade de mulheres que os comunistas desejam, ao que parece, querer introduzir. A comunidade das mulheres \u00e9 um fen\u00f4meno que pertence unicamente \u00e0 sociedade burguesa e que \u00e9 realizada hoje pela prostitui\u00e7\u00e3o. Mas a prostitui\u00e7\u00e3o repousa sobre a propriedade privada e desaparece com ela. Consequentemente, o regime comunista, longe de introduzir a comunidade das mulheres, ao contr\u00e1rio, a extinguir\u00e131.<\/p>\n<p>Marx retoma no Manifesto Comunista os argumentos de Engels e sublinha com vigor que a fam\u00edlia burguesa desaparecer\u00e1. Mas n\u00e3o encontramos nenhuma indica\u00e7\u00e3o quanto a seguinte quest\u00e3o: qual forma de uni\u00e3o vai substituir a antiga fam\u00edlia burguesa?<\/p>\n<p>De acordo com David Riazanov, antigo diretor do Instituto Marx-Engels que publicou, por volta de 1926, um texto intitulado A Doutrina comunista do casamento, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida: \u201cN\u00e3o encontraremos nem em Marx nem em Engels nenhuma raz\u00e3o para questionar hoje: se as rela\u00e7\u00f5es sexuais desordenadas ou o \u2018comunismo sexual\u2019 s\u00e3o compat\u00edveis com a sociedade comunista? [\u2026] Toda a poligamia demonstra o grau cultural inferior de seus sujeitos \u2018e de seus\u2019 objetos\u201d32.<\/p>\n<p>Segue um ataque bem direcionado contra: \u201cnossos pequenos c\u00e2nticos tolos sobre \u2018o direito ao amor\u2019\u201d, e ele acrescenta adiante:<\/p>\n<p>Nos nossos antigos c\u00edrculos, havia te\u00f3ricos defensores do \u2018casamento de curta dura\u00e7\u00e3o\u2019 que falavam com desprezo da \u2018honra estampada no rosto de esposos e esposas\u2019 e que estavam no mesmo n\u00edvel inferior que os pav\u00f5es lascivos dos c\u00edrculos nobres e burgueses, ou desses indiv\u00edduos provenientes da classe oper\u00e1ria e que os nossos oper\u00e1rios costumam chamar de \u2018touros de f\u00e1brica\u2019: \u00e9 verdade que nessa \u00e9poca essas teorias \u2018radicais\u2019 n\u00e3o eram apresentadas sob o v\u00e9u marxista e comunista33.<\/p>\n<p>Sem nenhuma d\u00favida, esses ataques s\u00e3o dirigidos contra as ideias de Alexandra Kollontai, muito minorit\u00e1rias entre os dirigentes e os ide\u00f3logos do partido. Kollontai considerava o \u201camor-jogo\u201d ou \u201co amor er\u00f3tico\u201d como a forma ideal de aprendizado sobre o amor entre os jovens. Essas novas rela\u00e7\u00f5es, gra\u00e7as \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o da sociedade comunista, deveriam conduzir, atrav\u00e9s da camaradagem e da solidariedade, cada vez mais ancoradas na psicologia individual, a uma nova forma de fam\u00edlia: a coletividade socialista.<\/p>\n<p>Essas concep\u00e7\u00f5es, contrariamente ao que afirma Wilhelm Reich em A Revolu\u00e7\u00e3o sexual, n\u00e3o representavam, em nenhum momento, a linha oficial do Partido Bolchevique. Abordaremos adiante a controv\u00e9rsia acerca do \u201camor livre\u201d entre L\u00eanin e alguns militantes comunistas. Dessa \u201ccoletividade socialista\u201d que implica, segundo Wilhelm Reich, \u201cuma coletividade sexual\u201d, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida sobre o grande debate que est\u00e1 ocorrendo no Parlamento antes da promulga\u00e7\u00e3o do segundo C\u00f3digo da Fam\u00edlia, em 1926.<\/p>\n<p>Fala-se de sexualidade unicamente para denunciar certos perigos que o novo c\u00f3digo poderia trazer, como \u201ca devassid\u00e3o\u201d. No centro das discuss\u00f5es, nas quais o tom \u00e9 com frequ\u00eancia bastante pol\u00eamico, encontra-se o seguinte problema: o casamento n\u00e3o registrado, dito casamento de fato, deve gozar dos mesmos direitos aos olhos da lei que o casamento registrado?<\/p>\n<p>O primeiro c\u00f3digo da fam\u00edlia sovi\u00e9tica, publicado em 1918, institu\u00eda o casamento civil como o \u00fanico v\u00e1lido. O casamento religioso n\u00e3o era mais reconhecido. A escolha de um nome comum para ambos os membros do casal era obrigat\u00f3ria, podendo ser tanto o nome da mulher quanto o do marido, ou ainda uma combina\u00e7\u00e3o desses dois. As crian\u00e7as, nascidas de um casamento registrado, ou n\u00e3o, eram beneficiadas dos mesmos direitos. O div\u00f3rcio poderia ser obtido pela simples solicita\u00e7\u00e3o de qualquer um dos membros do casal. O aborto livre e gratuito foi instaurado.<\/p>\n<p>Essas leis, \u00e0s quais algumas eram realmente revolucion\u00e1rias para a \u00e9poca, como a legisla\u00e7\u00e3o sobre o aborto, n\u00e3o podiam mudar num passe de m\u00e1gica a mentalidade arcaica da popula\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds onde a servid\u00e3o tinha sido abolida, somente, em 1861. As massas camponesas que constitu\u00edam a maioria do pa\u00eds n\u00e3o estavam prontas para aceitar, da noite para o dia, mudan\u00e7as t\u00e3o radicais.<\/p>\n<p>O que se passou no dom\u00ednio dos costumes se repetiu em todas as outras esferas da vida cultural russa. M\u00e1ksim G\u00f3rki, em um panfleto escrito no ano de 1922 e intitulado O campon\u00eas russo, tirou algumas conclus\u00f5es sobre os primeiros anos da revolu\u00e7\u00e3o e previu o futuro que ele vislumbrava de maneira muito sombria. Depois de estudar os diferentes aspectos da vida dos camponeses russos que atestavam a manuten\u00e7\u00e3o de todos os costumes e uma mentalidade extremamente atrasada, ele concluiu: \u201cMuito frequentemente, os homens que amam verdadeiramente e os fan\u00e1ticos da ideia distorcem conscientemente sua alma para o bem de outro. Isso se aplica, sobretudo, \u00e0 maioria dos intelectuais russos ativos: eles sempre subordinaram a quest\u00e3o da qualidade de vida aos interesses e \u00e0s necessidades de uma massa de homens primitivos34\u201d.<\/p>\n<p>Quais ser\u00e3o as mudan\u00e7as que se produzir\u00e3o no seio do povo russo? \u201cDo meu ponto de vista\u201d, escreve G\u00f3rki, n\u00e3o ser\u00e1 o \u201ct\u00e3o charmoso e simp\u00e1tico povo russo\u201d, mas ser\u00e1, enfim, um povo de neg\u00f3cios, desconfiado e indiferente a tudo o que n\u00e3o diz diretamente respeito \u00e0s suas necessidades [\u2026] Uma boa mem\u00f3ria hist\u00f3rica se desenvolver\u00e1 nesse povo e, lembrando-se do seu recente e doloroso passado \u2013 os primeiros momentos de constru\u00e7\u00e3o da nova vida \u2013 ele tratar\u00e1 com desconfian\u00e7a, sen\u00e3o com grande hostilidade, o intelectual e o oper\u00e1rio, dos quais nascem toda a sorte de desordens e de problemas35\u201d.<\/p>\n<p>As discuss\u00f5es em torno do novo C\u00f3digo da Fam\u00edlia provam os profundos m\u00e9ritos dessas reflex\u00f5es36. A maior resist\u00eancia contra o reconhecimento dos casamentos sem registro vinha das aldeias. As reuni\u00f5es organizadas no campo demonstravam uma liga\u00e7\u00e3o profunda com a velha fam\u00edlia patriarcal. Os casamentos religiosos continuavam sendo celebrados em grande n\u00famero. Foi, ali\u00e1s, para combater essa tend\u00eancia que o governo sovi\u00e9tico quis aumentar o valor legal do casamento de fato. Mas a resist\u00eancia contra essa nova lei n\u00e3o vinha apenas dos camponeses. A unanimidade estava longe de alcan\u00e7ar os dirigentes e os te\u00f3ricos do Partido.<\/p>\n<p>O texto de Riazanov que mencionamos foi concebido para a defesa do casamento registrado. Descrevendo a sociedade futura como um espa\u00e7o onde \u201ctoda depend\u00eancia das mulheres em rela\u00e7\u00e3o aos homens desaparecer\u00e1, a mulher n\u00e3o ser\u00e1 mais escrava de seu \u2018lar\u2019\u201d. Ele coloca a quest\u00e3o: \u201cNessa sociedade superior, o registro dos casamentos ser\u00e1 mantido?\u201d, e ele responde sem hesita\u00e7\u00e3o: \u201cSim. Mas esse registro se tornar\u00e1 um dever t\u00e3o natural para a sociedade quanto ser\u00e1 o trabalho. O comunismo \u00e9 inconceb\u00edvel sem o registro de todas as for\u00e7as produtivas e de todas as necessidades da sociedade, o homem \u00e9 a for\u00e7a produtiva mais preciosa tamb\u00e9m para sociedade comunista\u201d37.<\/p>\n<p>Por outro lado, o camarada Kursky, Comiss\u00e1rio do Povo para a Justi\u00e7a, em seu relat\u00f3rio diante do Parlamento, declarou: \u201cEu estou profundamente convencido de que chegar\u00e1 o tempo em que os casamentos registrados e os casamentos de fato ter\u00e3o os mesmos direitos sob todas as rela\u00e7\u00f5es e onde n\u00f3s aboliremos os registros\u201d38. Depois de muitas discuss\u00f5es, o segundo C\u00f3digo da Fam\u00edlia foi aprovado e o casamento sem registro foi reconhecido. Deve-se acrescentar que, no caso de um casamento sem registro, devidamente comprovado, a prote\u00e7\u00e3o da lei se exercia apenas na defesa da propriedade conjugal e no direito \u00e0 pens\u00e3o aliment\u00edcia. O casamento sem registro n\u00e3o dava o direito, por exemplo, a moradia num im\u00f3vel coletivo. Na verdade, essa lei servia tamb\u00e9m para defender centenas de milhares de mulheres que ficavam sem recursos com um ou mais filhos depois da partida de um homem com o qual elas viviam h\u00e1 muitos anos. As liga\u00e7\u00f5es passageiras n\u00e3o se beneficiavam dessas vantagens, as quais, contrariamente \u00e0s descri\u00e7\u00f5es otimistas de Kollontai sobre a sociedade comunista onde o Estado tomaria para si a responsabilidade sobre as crian\u00e7as, as m\u00e3es solteiras n\u00e3o tinham as mesmas vantagens que as mulheres casadas ou aquelas que comprovavam um casamento de fato.<\/p>\n<p>Afora o reconhecimento dos casamentos n\u00e3o registrados, o novo c\u00f3digo n\u00e3o trazia muitas mudan\u00e7as. Em 1924, entretanto, um decreto suprimira a obrigatoriedade para os c\u00f4njuges de escolher um nome em comum. O div\u00f3rcio permanecia livre, assim como o direito ao aborto gratuito foi mantido. Mas esses debates apaixonados em torno dos problemas relativos \u00e0 fam\u00edlia, que se desenrolavam ao longo de 1926, apontam que para a maior parte dos participantes, deputados de diferentes rep\u00fablicas, a preocupa\u00e7\u00e3o principal era preservar \u201ca moral\u201d e colocar um fim nas desordens sexuais provocadas pela guerra e pela guerra civil.<\/p>\n<p>Se houve \u201cdeslocamento familiar\u201d foi, principalmente, devido \u00e0s circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas. Os debates animados sobre \u201ca nova moral\u201d se desenrolavam entre os jovens dos ambientes urbanos. As aldeias russas continuavam ligadas aos antigos costumes e, por raz\u00f5es estritamente t\u00e1ticas, os dirigentes bolcheviques n\u00e3o queriam despertar sua hostilidade. Assim, toda a evolu\u00e7\u00e3o do regime sovi\u00e9tico mostra uma tend\u00eancia clara \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o da c\u00e9lula familiar. O exame de diferentes c\u00f3digos da fam\u00edlia que se sucederam ap\u00f3s 1926 n\u00e3o nos deixa qualquer d\u00favida a esse respeito.<\/p>\n<p>O novo c\u00f3digo da fam\u00edlia entrou em vigor em 1936 e aboliu o aborto. O editorial do Pravda que comentou o projeto insistiu, v\u00e1rias vezes, sobre o aspecto essencial da nova jurisdi\u00e7\u00e3o: \u201co refor\u00e7o da fam\u00edlia sovi\u00e9tica\u201d e \u201ca luta contra a atitude leviana e negligente em rela\u00e7\u00e3o ao casamento\u201d39. O autor do artigo acrescentou:<\/p>\n<p>quando falamos em refor\u00e7o da fam\u00edlia sovi\u00e9tica, n\u00f3s nos referimos, precisamente, \u00e0 luta contra as sobreviv\u00eancias de uma atitude burguesa em rela\u00e7\u00e3o ao casamento, \u00e0s mulheres e \u00e0s crian\u00e7as. O chamado \u2018amor livre\u2019 e toda a vida sexual desordenada s\u00e3o demasiadamente burgueses e n\u00e3o t\u00eam nada a ver com os princ\u00edpios socialistas, nem com a \u00e9tica e o comportamento de um cidad\u00e3o sovi\u00e9tico40.<\/p>\n<p>O \u00faltimo par\u00e1grafo do artigo merece ser citado integralmente posto que lembra determinada linguagem largamente utilizada na Alemanha hitlerista: \u201cUma mulher sem filho merece nossa piedade porque ela n\u00e3o conhece a verdadeira alegria de viver. Nossas mulheres sovi\u00e9ticas, cidad\u00e3s florescentes do pa\u00eds mais livre do mundo, conhecem a ben\u00e7\u00e3o da maternidade. N\u00f3s devemos proteger nossas fam\u00edlias e criar e treinar saud\u00e1veis her\u00f3is sovi\u00e9ticos!\u201d41.<\/p>\n<p>Depois da vota\u00e7\u00e3o definitiva do novo c\u00f3digo, no \u00f3rg\u00e3o filos\u00f3fico do Partido Comunista s\u00e3o publicados uma s\u00e9rie de artigos que tecem coment\u00e1rios sobre as novas medidas. O soci\u00f3logo S. Wolffson, que, em 1929, publicou um livro intitulado A Sociologia do casamento e da fam\u00edlia, no qual preconizou o desaparecimento da fam\u00edlia, faz sua autocr\u00edtica sobre esse assunto, com abundantes cita\u00e7\u00f5es de Marx, Engels e de L\u00eanin.<\/p>\n<p>Ele ataca violentamente Kollontai, qualificando suas ideias como \u201cbasicamente animalescas\u201d e \u201cantimarxistas42\u201d. A explica\u00e7\u00e3o acerca da nova lei sobre o aborto acabou sendo relativamente simples: as raz\u00f5es que pressionam as mulheres a abortarem numa sociedade burguesa n\u00e3o existem mais na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, \u201cassim, os abortos em s\u00e9rie, solicitados por raz\u00f5es ego\u00edstas, n\u00e3o devem mais ser tolerados\u201d43.<\/p>\n<p>O div\u00f3rcio continua liberado, todavia, algumas restri\u00e7\u00f5es ao procedimento legal s\u00e3o acrescentadas, como, por exemplo, a inscri\u00e7\u00e3o do div\u00f3rcio nos passaportes e no pagamento de uma taxa um pouco alta em cada ato de div\u00f3rcio. Aqui tamb\u00e9m a explica\u00e7\u00e3o \u00e9 confort\u00e1vel: o casamento dos jovens sovi\u00e9ticos n\u00e3o est\u00e1 mais fundado sobre os interesses econ\u00f4micos. A fragilidade de certas uni\u00f5es resulta de uma atitude pouco s\u00e9ria em rela\u00e7\u00e3o ao casamento onde pode penetrar, certas vezes, um pouco de \u201cc\u00e1lculo\u201d ou de \u201ccarreirismo\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 natural que esses comportamentos sejam combatidos. Essas restri\u00e7\u00f5es que dizem respeito ao div\u00f3rcio tamb\u00e9m s\u00e3o importantes do ponto de vista da defesa das crian\u00e7as que, na maioria das vezes, ficam sob responsabilidade da m\u00e3e. Tamb\u00e9m, o n\u00e3o pagamento da pens\u00e3o aliment\u00edcia pode levar a penas de pris\u00e3o. \u00c9 not\u00e1vel que n\u00e3o se considere mais, mesmo num futuro distante, a quest\u00e3o do Estado comunista se encarregar da educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as. A \u00faltima frase desse longo artigo exprime todo um programa que jamais ser\u00e1 negado no futuro pelos legisladores sovi\u00e9ticos: \u201cA fam\u00edlia n\u00e3o desaparecer\u00e1 no socialismo: ela se refor\u00e7ar\u00e1\u201d44.<\/p>\n<p>Os pr\u00f3ximos decretos relativos \u00e0 fam\u00edlia foram publicados em 1944. As imensas perdas humanas sofridas pela Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica durante a Segunda Guerra Mundial explicam o aumento da ajuda material dada pelo Estado \u00e0s m\u00e3es, casadas ou solteiras. As m\u00e3es solteiras se beneficiavam de altas pens\u00f5es mensais, de acordo com o n\u00famero de filhos. Em contrapartida, elas eram privadas do direito de reivindicar a paternidade e solicitar pens\u00e3o aliment\u00edcia. Essa \u00faltima disposi\u00e7\u00e3o ainda suscitaria muitos conflitos e problemas para as crian\u00e7as nascidas dessas uni\u00f5es. Ser\u00e1 preciso aguardar a nova legisla\u00e7\u00e3o, de 1968, para que essa flagrante injusti\u00e7a seja reparada.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0s novas leis concernentes \u00e0 fam\u00edlia, a evolu\u00e7\u00e3o esbo\u00e7ada em 1936, continua em 1944. Os casamentos de fato n\u00e3o s\u00e3o mais reconhecidos, somente os casamentos registrados se beneficiavam da prote\u00e7\u00e3o da lei. As m\u00e3es de fam\u00edlias grandes tinham direito a um t\u00edtulo honor\u00edfico de \u201cM\u00e3e Heroica\u201d, seja a Ordem da Gl\u00f3ria Materna, seja a Medalha da Maternidade. O aborto continua proibido, mas a mulher que faz o aborto n\u00e3o \u00e9 mais penalmente responsabilizada. A mudan\u00e7a mais importante nesse novo C\u00f3digo concerne ao div\u00f3rcio. At\u00e9 1944 os pedidos de div\u00f3rcio passam pelos escrit\u00f3rios de estado civil. Segundo o novo decreto, eles precisam passar pelos tribunais e os tribunais tinham o direito de rejeitar o pedido. A taxa, paga por uma das partes no caso de um div\u00f3rcio acordado, poderia alcan\u00e7ar a soma de 2000 rublos45.<\/p>\n<p>A legisla\u00e7\u00e3o de 1944 contribuiu, e muito, para a consolida\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, respondendo, assim, aos votos expressos pelos legisladores, pelos dirigentes, pela imprensa, em s\u00edntese, por todos aqueles que tinham emitido suas reflex\u00f5es sobre o assunto.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o texto da nova lei de 1968 sublinha, orgulhosamente, que \u201c\u00e9 na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica que est\u00e3o reunidas as condi\u00e7\u00f5es mais favor\u00e1veis para o refor\u00e7o e florescimento da fam\u00edlia\u201d46, no entanto, o C\u00f3digo de 1968 modificou dois pontos das leis que exprimiam um sentido \u201cliberal\u201d. De um lado a respeito do div\u00f3rcio, de outro sobre a situa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as naturais.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio dos anos 1950, uma campanha foi desenhada na imprensa em favor da simplifica\u00e7\u00e3o do processo de div\u00f3rcio. Assim, a nova lei tornou poss\u00edvel o div\u00f3rcio por consentimento m\u00fatuo, nesse caso ele reca\u00eda sob as autoridades de registro dos atos de estado civil. A maior car\u00eancia da legisla\u00e7\u00e3o de 1944 dizia respeito \u00e0s crian\u00e7as naturais, nascidas dos casamentos de fato, que n\u00e3o estavam cobertas pela lei. Os \u201cpais fugitivos\u201d se tornaram figuras comuns na vida russa.<\/p>\n<p>Segundo as novas disposi\u00e7\u00f5es, o tribunal podia obrigar o pai, ao qual a paternidade \u00e9 estabelecida por via judicial, a assumir uma responsabilidade material. Essa disposi\u00e7\u00e3o dizia respeito \u00e0s crian\u00e7as nascidas de rela\u00e7\u00f5es ocasionais. J. Andreiev apresenta, assim, a nova lei na revista Izvestia: \u201cnossa sociedade, defensora dos interesses da crian\u00e7a, n\u00e3o encoraja e n\u00e3o mais incentiva os v\u00ednculos ocasionais, tampouco um modo de vida dissoluto. A moral e o direito protegem a fam\u00edlia, consolidando-a e encorajando-a\u201d47.<\/p>\n<p>Um outro problema que suscitava muitas discuss\u00f5es dizia respeito \u00e0s famosas men\u00e7\u00f5es deixadas em branco. Na verdade, o decreto de 1944 interditava a men\u00e7\u00e3o do nome do pai no registro de nascimento de uma crian\u00e7a nascida fora do casamento, mesmo se o pai solicitasse. A partir do c\u00f3digo de 1968, no entanto, o sobrenome da m\u00e3e era mencionado, no masculino, no registro substituindo o sobrenome do pai, seguido pelo nome e pelo patron\u00edmico do pai[acho que vale uma nota de rodap\u00e9 igual do que fazer], segundo as informa\u00e7\u00f5es fornecidas pela m\u00e3e, portanto, segundo V. Bil\u2019cha\u00ef, candidato a ci\u00eancias jur\u00eddicas que dedicou um artigo \u00e0 nova lei na Literatuna\u00efa Gazeta, o problema do reconhecimento das crian\u00e7as naturais ainda n\u00e3o tinha uma resolu\u00e7\u00e3o. O par\u00e1grafo que segue merece ser citado integralmente porque nos faz ter uma ideia do \u201ccaminho\u201d percorrido pela Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, de 1917 at\u00e9 os nossos dias:<\/p>\n<p>Qual l\u00f3gica presidir\u00e1 a diferencia\u00e7\u00e3o de um amor s\u00e9rio e infeliz das rela\u00e7\u00f5es passageiras coroadas pelo nascimento de uma crian\u00e7a? Do que somente a mulher poder\u00e1 ser culpada? Podemos conceber que o mesmo comportamento seja imoral na mulher e \u2018leg\u00edtimo e moral\u2019 no homem. Mesmo que seja necess\u00e1rio seguir essa concep\u00e7\u00e3o da moral que recomenda de uma vez por todas que as jovens mo\u00e7as se guardem dos homens e preservem sua inoc\u00eancia at\u00e9 a fixa\u00e7\u00e3o de um selo sobre o seu passaporte, mesmo que se deva admitir que algumas dessas jovens n\u00e3o ouviram esse aviso, as crian\u00e7as devem, contudo, pagar pelos seus pais?48.<\/p>\n<p>O casamento em que a jovem mo\u00e7a entra, de prefer\u00eancia virgem, deve ser, ent\u00e3o, um neg\u00f3cio muito s\u00e9rio. Andreiev ressalta que \u201cpara que esse evento capital de nossa vida assuma um car\u00e1ter memor\u00e1vel e oficial\u201d o texto da lei prev\u00ea uma regra: \u201co casamento deve comportar uma cerim\u00f4nia solene\u201d49. Al\u00e9m disso, \u00e9 a primeira vez que a lei exige um prazo de um m\u00eas entre os proclames do casamento e sua celebra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em todo caso, o C\u00f3digo da Fam\u00edlia de 1968 prova que \u00e9 muito f\u00e1cil acusar St\u00e1lin por todos os males da sociedade sovi\u00e9tica, por todas as ideias retr\u00f3gradas que regiam a vida na URSS. No que diz respeito aos problemas relativos \u00e0 fam\u00edlia, as ideias reacion\u00e1rias tinham os seus defensores, como acabamos de mostrar, j\u00e1 no in\u00edcio dos anos 1920. Sem d\u00favida, eles eram maioria, e a press\u00e3o das massas camponesas com sua mentalidade arcaica terminou por se fazer sentir em todos os dom\u00ednios da vida sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p>E quanto \u00e0 igualdade entre mulheres e homens? A Constitui\u00e7\u00e3o da URSS lhes garantia igualdade em todos os dom\u00ednios da vida p\u00fablica, sociopol\u00edtica, material e cultural do pa\u00eds, mas, vimos anteriormente, que ao menos num dom\u00ednio, aquele da moral sexual, essa igualdade n\u00e3o existiu. E suas consequ\u00eancias s\u00e3o graves n\u00e3o apenas para a mulher como, tamb\u00e9m, para a crian\u00e7a.<\/p>\n<p>A \u201cdupla moral\u201d, contra a qual Kollontai lutou energicamente durante toda a sua atividade pol\u00edtica, era igualmente denunciada por todos os te\u00f3ricos do marxismo, sem exce\u00e7\u00e3o. A mulher sovi\u00e9tica continuava sofrendo por seus maus passos. Os preconceitos t\u00eam vida longa. Nenhuma lei pode mudar a estrutura ps\u00edquica do indiv\u00edduo da noite para o dia. Mas na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, as coisas se passaram de maneira inversa. Pouco a pouco a legisla\u00e7\u00e3o se conformou com a moral tradicional, frequentemente por raz\u00f5es t\u00e1ticas. As pr\u00f3prias mulheres sovi\u00e9ticas pertenciam, em grande parte, ao meio rural e, carentes de educa\u00e7\u00e3o, e sobretudo de uma verdadeira reflex\u00e3o coletiva, continuavam vivendo segundo os antigos esquemas, impostos por um Estado todo-poderoso, dirigido, majoritariamente, por homens.<\/p>\n<p>Citemos um exemplo para demonstrar o quanto as mulheres na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica tinham poucas possibilidades de se impor no que quer que seja. A lei do aborto foi modificada em 1955 e, ent\u00e3o, o aborto voltou a ser liberado, mas os abortos realizados nos hospitais aconteciam sem anestesia. Conforme veremos adiante, uma das profiss\u00f5es mais feminizadas \u00e9 a profiss\u00e3o m\u00e9dica. \u00c9 prov\u00e1vel, ent\u00e3o, que a maior parte desses abortos fossem executados por mulheres. \u00c9 preciso um certo grau de interioriza\u00e7\u00e3o das ideias correntes numa sociedade dominada por homens para que tamb\u00e9m as pacientes e as m\u00e9dicas aceitassem esse regulamento.<\/p>\n<p>Tem pelo menos um dom\u00ednio no qual a mulher sovi\u00e9tica obteve grandes satisfa\u00e7\u00f5es: no trabalho feminino. Por raz\u00f5es econ\u00f4micas \u2013 bem evidentes \u2013 a utiliza\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho feminina se tornou indispens\u00e1vel desde o in\u00edcio. Seria profundamente injusto dizer que os dirigentes do novo Estado Sovi\u00e9tico eram animados, apenas, por interesses econ\u00f4micos. L\u00eanin nunca deixou de sublinhar que a independ\u00eancia econ\u00f4mica da mulher era uma das condi\u00e7\u00f5es mais fundamentais para a vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o. A partir de 1917, todas as restri\u00e7\u00f5es tradicionais que separavam as profiss\u00f5es \u201cfemininas\u201d e \u201cmasculinas\u201d foram abolidas, basta consultar as estat\u00edsticas desses \u00faltimos anos para se convencer de que, em todos os ramos da economia, o trabalho feminino ocupava uma posi\u00e7\u00e3o importante. Mas a igualdade foi realmente realizada?<\/p>\n<p>As estat\u00edsticas tamb\u00e9m s\u00e3o eloquentes sobre esse assunto e a resposta \u00e9: n\u00e3o. Na verdade, observamos que quanto mais alta a hierarquia, menos encontramos mulheres. \u201cCom qualifica\u00e7\u00e3o profissional id\u00eantica, os postos de dire\u00e7\u00e3o s\u00e3o, via de regra, ocupados por representantes do sexo forte\u201d. \u00c9 um economista sovi\u00e9tico, M. Sonine, quem faz essa constata\u00e7\u00e3o num artigo dedicado ao problema do trabalho feminino, publicado em 1969 na Literatuna\u00efa Gazeta50.<\/p>\n<p>Um exemplo flagrante: 85% do corpo m\u00e9dico \u00e9 constitu\u00eddo por mulheres, por\u00e9m, mais da metade dos m\u00e9dicos-chefes e dos diretores dos estabelecimentos m\u00e9dicos \u00e9 formada por homens. \u00c9 preciso acrescentar que a profiss\u00e3o m\u00e9dica tem baixa remunera\u00e7\u00e3o na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. A mesma despropor\u00e7\u00e3o existe em, praticamente, todos os ramos da vida socioprofissional. Citemos mais uma vez Sonine: \u201cNa esmagadora maioria dos casos, os homens s\u00e3o os l\u00edderes das administra\u00e7\u00f5es, das empresas, dos organismos de gest\u00e3o\u201d51. Como \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o na vida pol\u00edtica?<\/p>\n<p>\u00c9 a mesma em toda parte. Em 1921, Alexandra Kollontai lamentava que \u201cos Soviets dos distritos contavam com 574 mulheres, enquanto os Soviets do governo contavam com, apenas, sete mulheres\u201d52. A situa\u00e7\u00e3o, evidentemente, melhorou depois dessa data. A propor\u00e7\u00e3o de mulheres em todos os Soviets Supremos das Rep\u00fablicas atingiu a casa dos 30%, mas \u00e9 preciso considerar que os Soviets desempenhavam um papel muito restrito nas tomadas de decis\u00f5es mais importantes.<\/p>\n<p>O verdadeiro poder pertencia ao governo central da URSS, o qual sobre 57 membros cont\u00e1vamos apenas uma mulher. Quanto ao Partido Comunista, a situa\u00e7\u00e3o era bem parecida. Kollontai se alegrou com o recrutamento feminino entre os militantes comunistas, de 9 a 10% de mulheres. No 1\u02da de janeiro de 1965, o n\u00famero de mulheres estava em torno de 20% no conjunto dos membros. Nenhuma mulher no escrit\u00f3rio pol\u00edtico e, dos 195 membros titulares do Comit\u00ea Central, havia apenas cinco mulheres.<\/p>\n<p>Em outro dom\u00ednio, aquele do trabalho medicalizado, a situa\u00e7\u00e3o das mulheres era bastante preocupante. A for\u00e7a de trabalho n\u00e3o qualificada era constitu\u00edda, em grande parte, por mulheres. Os trabalhos mais pesados e, ao mesmo tempo, de pior remunera\u00e7\u00e3o eram executados por mulheres, enquanto o trabalho que requer uma qualifica\u00e7\u00e3o maior era reservado aos homens. Na agricultura encontramos o mesmo tipo de problema.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o das mulheres, em certos setores da economia, se tornou t\u00e3o grave que v\u00e1rios juristas e economistas reclamavam uma nova legisla\u00e7\u00e3o sobre o trabalho feminino. Quais conclus\u00f5es podemos tirar disso? \u00c9 indiscut\u00edvel que a mulher sovi\u00e9tica conquistou um lugar importante no mundo do trabalho em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher ocidental. A distin\u00e7\u00e3o entre \u201cprofiss\u00e3o de homem\u201d e \u201cprofiss\u00e3o de mulher\u201d praticamente deixou de existir na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Apesar disso, dois fatos precisam ser constatados: de um lado, os homens continuavam ocupando os postos de comando, de outro, o n\u00edvel de qualifica\u00e7\u00e3o das mulheres ainda era, em m\u00e9dia, inferior ao dos homens.<\/p>\n<p>A igualdade n\u00e3o foi realizada nesse campo privilegiado, assim como em tantos outros, numa sociedade orientada para um crescimento cont\u00ednuo da produtividade.<\/p>\n<p>Nesse sentido, \u00e9 evidente que uma quest\u00e3o se imp\u00f5e: por qu\u00ea?<\/p>\n<p>A primeira resposta \u00e9 simples: a mulher sovi\u00e9tica tinha muitas outras obriga\u00e7\u00f5es. Retornemos \u00e0 Alexandra Kollontai. Em uma de suas confer\u00eancias, pronunciada em 1921, lemos a seguinte frase: \u201cA separa\u00e7\u00e3o entre a cozinha e o casamento \u2013 eis uma grande reforma n\u00e3o menos importante que a separa\u00e7\u00e3o entre o Estado e a Igreja, ao menos para o destino hist\u00f3rico da mulher\u201d53.<\/p>\n<p>Parece que a segunda reforma foi mais f\u00e1cil de realizar que a primeira. A alimenta\u00e7\u00e3o coletiva, as resid\u00eancias coletivas, dispondo de lavanderia central, creche, jardim de inf\u00e2ncia ou os servi\u00e7os de limpeza, s\u00e3o realizados por profissionais e n\u00e3o fazem mais parte do arsenal de propaganda do regime sovi\u00e9tico. Uma c\u00e9lula familiar s\u00f3lida e inquebr\u00e1vel pressup\u00f5e fam\u00edlia individual. Somente o lar individual continua perpetuando a escravid\u00e3o das mulheres.<\/p>\n<p>As tabelas estat\u00edsticas s\u00e3o ainda mais eloquentes. A mulher sovi\u00e9tica, seja ela oper\u00e1ria, intelectual ou camponesa, passa, em m\u00e9dia, duas vezes mais tempo cuidando da casa do que o homem. O mesmo ocorre para o tempo destinado aos cuidados com as crian\u00e7as. \u00c9 interessante notar que \u00e9 nos meios intelectuais que a mulher \u00e9 menos auxiliada. Para tomar consci\u00eancia das dificuldades de uma mulher que cumpre os dois pap\u00e9is concomitantemente, o de trabalhadora e o de m\u00e3e de fam\u00edlia, \u00e9 preciso ter em mente que o aparelhamento das fam\u00edlias com eletrodom\u00e9sticos est\u00e1 longe de ser uma realidade e que as intermin\u00e1veis filas nas lojas de alimenta\u00e7\u00e3o continuam a ser uma verdadeira maldi\u00e7\u00e3o na vida cotidiana sovi\u00e9tica. O tempo gasto com os trabalhos dom\u00e9sticos \u00e9 retirado, logicamente, do descanso ou do lazer.<\/p>\n<p>As reflex\u00f5es da hero\u00edna da novela de N. Baranskaia54, Uma semana como outra qualquer, s\u00e3o bastante reveladoras disso. Nina deve responder a uma pesquisa que comporta, entre outras, uma quest\u00e3o relativa aos lazeres:<\/p>\n<p>Lazeres, lazeres, tu falas! N\u00e3o h\u00e1 nada de errado. Mulheres, defendam o seu direito aos lazeres culturais. Que piada, os lazeres. Assim, meu esporte favorito \u00e9 a corrida. Corro numa dire\u00e7\u00e3o e volto em outra. Uma sacola em cada m\u00e3o, eu corro para embarcar no trem, no \u00f4nibus, nos t\u00faneis do metr\u00f4, subo e des\u00e7o. Todos os dias a p\u00e9. N\u00e3o existem lojas no nosso bairro. Faz mais de um ano que n\u00f3s estamos l\u00e1 e as lojas ainda s\u00e3o um projeto de Estado55.<\/p>\n<p>Nina vive num grande conjunto habitacional onde a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais dif\u00edcil que no centro da cidade, mas tem horas que os problemas parecem quase sem solu\u00e7\u00e3o, como no caso dos cuidados com as crian\u00e7as pequenas. O n\u00famero de creches e de jardins de inf\u00e2ncia est\u00e1 muito abaixo das necessidades.<\/p>\n<p>Foi publicado, em 1968, na revista Novyi Mir56, uma reportagem dedicada \u00e0 Medvedkovo, um novo bairro constru\u00eddo no sub\u00farbio de Moscou57. Esse grande conjunto se assemelha a todos aqueles que conhecemos na Fran\u00e7a ou no exterior. Os problemas que se apresentam aos novos habitantes s\u00e3o bastante familiares: abastecimento, transporte, falta de comunica\u00e7\u00e3o, etc. O aparelhamento de creches e jardins de inf\u00e2ncia \u00e9 igualmente inferior \u00e0s necessidades, mas como na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica a esmagadora maioria das mulheres trabalha, esse problema \u00e9 ainda mais agudo. Assim, sobre os murais, vemos uma vasta quantidade de an\u00fancios que pedem \u201cempregadas dom\u00e9sticas\u201d ou \u201cbab\u00e1s\u201d. Conforme diz a reportagem, esse fen\u00f4meno na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica prop\u00f5e a organiza\u00e7\u00e3o da profiss\u00e3o de empregadas dom\u00e9sticas para dar dignidade a essa profiss\u00e3o, j\u00e1 que aquelas que a exercem se sentem constantemente humilhadas. \u00c9 um pouco chocante ler tais frases sob a pena de uma mulher de um pa\u00eds onde, cinquenta anos antes, aconteceu a primeira revolu\u00e7\u00e3o socialista do mundo.<\/p>\n<p>A queda da natalidade, preocupa\u00e7\u00e3o constante de todos os pa\u00edses do Leste, \u00e9 muitas vezes imputada \u00e0 sobrecarga de trabalho que recai sobre a mulher. Alguns pensam que a solu\u00e7\u00e3o ideal seria permitir que a mulher se ausentasse do seu emprego por um per\u00edodo de dois a tr\u00eas anos, para se dedicar inteiramente \u00e0 educa\u00e7\u00e3o de seus filhos pequenos. Essa experi\u00eancia foi realizada na Hungria, onde durante dois anos ap\u00f3s o nascimento da crian\u00e7a, a m\u00e3e se beneficiava de uma indeniza\u00e7\u00e3o mensal de 600 florins, aproximadamente quinhentos euros, tendo garantido o seu retorno ao emprego depois da licen\u00e7a.<\/p>\n<p>Muitos na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica s\u00e3o partid\u00e1rios dessa solu\u00e7\u00e3o, mas ela tamb\u00e9m encontra seus opositores. Enquanto os economistas denunciam os preju\u00edzos que essa licen\u00e7a poderia causar para a economia nacional, algumas vozes de mulheres se erguem contra o car\u00e1ter retr\u00f3grado de tal projeto. M. Pavlova, candidata ao curso de hist\u00f3ria, escreve na Literatuna\u00efa Gazeta, em 1970: \u201cem rela\u00e7\u00e3o \u00e0 tal solu\u00e7\u00e3o do problema, um equ\u00edvoco insuspeito ser\u00e1 cometido contra a nossa sociedade pelo reconhecimento dos preconceitos concernentes \u00e0 necessidade de recolocar a mulher dentro de casa, da n\u00e3o rentabilidade do trabalho feminino, etc.\u201d58.<\/p>\n<p>O que pensa a sovi\u00e9tica m\u00e9dia? Ela retornaria, voluntariamente, para o fog\u00e3o e o tanque? \u00c9 muito dif\u00edcil responder esta quest\u00e3o de maneira definitiva. As \u00fanicas fontes dispon\u00edveis s\u00e3o sondagens variadas da opini\u00e3o p\u00fablica nos jornais, e n\u00f3s sabemos o quanto valem essas sondagens.<\/p>\n<p>Em 1967, A Literaturna\u00efa Gazeta publicou os resultados de uma pesquisa aplicada simultaneamente entre as oper\u00e1rias de Leningrado e de Vars\u00f3via59. Dentre as 53,8% das mulheres entrevistadas, em Leningrado, que afirmaram trabalhar para obter um sal\u00e1rio de apoio, 13,6% trabalham para participar da produ\u00e7\u00e3o. Segundo outra pesquisa, essa mais recente60, das duas mil mulheres entrevistadas, 70% responderam afirmativamente \u00e0 quest\u00e3o \u201cvoc\u00ea trabalharia se o seu marido fosse duas vezes melhor remunerado?\u201d.<\/p>\n<p>O jornalista que conduziu a reportagem sobre essa grande maioria afirma, com certa raiva, que nenhuma mulher renunciaria ao seu trabalho se tentassem aliviar um pouco sua sobrecarga. As jovens hero\u00ednas da novela de Baranska\u00efa n\u00e3o parecem vislumbrar, apesar de todas as suas dificuldades, o retorno ao lar, mas elas trabalham num instituto de pesquisa. As mulheres entrevistadas em Leningrado eram oper\u00e1rias. Encontrar\u00edamos situa\u00e7\u00e3o an\u00e1loga a essa nos pa\u00edses ocidentais, onde, na maioria dos casos, as mulheres intelectuais t\u00eam consci\u00eancia da independ\u00eancia que o trabalho lhes garante?<\/p>\n<p>Marcuse, em sua an\u00e1lise sobre o marxismo sovi\u00e9tico, examinando as condi\u00e7\u00f5es para a emancipa\u00e7\u00e3o da mulher, concluiu: \u201cEnquanto a produtividade crescente n\u00e3o for controlada pelos pr\u00f3prios indiv\u00edduos, a emancipa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e cultural das mulheres lhes garantir\u00e1 apenas uma parte igual no sistema de trabalho alienado\u201d61. Quanto mais descemos na hierarquia do trabalho, mais a aliena\u00e7\u00e3o se faz sentir. N\u00e3o h\u00e1 nada de surpreendente, portanto, no fato de que as mulheres que exercem uma profiss\u00e3o liberal tenham um n\u00edvel de consci\u00eancia mais elevado.<\/p>\n<p>Se o trabalho da mulher \u00e9 visto como uma das raz\u00f5es da baixa taxa de natalidade, alguns n\u00e3o hesitam em, igualmente, responsabiliz\u00e1-lo pelo crescente n\u00famero de div\u00f3rcios, no entanto, e apesar das cont\u00ednuas incita\u00e7\u00f5es no sentido do refor\u00e7o da fam\u00edlia, apoiadas por uma legisla\u00e7\u00e3o adequada, essa n\u00e3o se comporta assim t\u00e3o bem.<\/p>\n<p>V. Perevedentsev, dem\u00f3grafo que elogiou a fam\u00edlia rural, de longe a mais s\u00f3lida, analisou as mudan\u00e7as respons\u00e1veis pela \u201cnova\u201d atitude fr\u00edvola em rela\u00e7\u00e3o ao casamento62. Entre as raz\u00f5es indicadas encontramos a autonomia econ\u00f4mica da mulher. Perevedentsev vai ainda mais longe e emite uma opini\u00e3o bastante gen\u00e9rica e segundo a qual n\u00e3o se atribui valor suficiente para os trabalhos dom\u00e9sticos.<\/p>\n<p>O trabalho dom\u00e9stico da mulher integra o trabalho social em geral. Nossas contempor\u00e2neas \u2018ultra progressistas\u2019 protestam. N\u00e3o contra esse trabalho mal organizado e pouco mecanizado que absorve muito tempo, mas contra o trabalho em si, como se quisessem superar isso o mais r\u00e1pido poss\u00edvel. Mas n\u00e3o podemos superar isso. N\u00f3s apenas damos aos jovens uma percep\u00e7\u00e3o negativa em rela\u00e7\u00e3o a este trabalho63.<\/p>\n<p>Essas declara\u00e7\u00f5es dispensam coment\u00e1rios. Para refutar essas ideias e outras tantas que encontramos nas colunas de jornais e revistas sovi\u00e9ticas, bastaria opor-lhes os argumentos de Marx e Engels que polemizaram contra os defensores da fam\u00edlia burguesa.<\/p>\n<p>IV<\/p>\n<p>Como a sociedade sovi\u00e9tica chegou nesse ponto? Uma das raz\u00f5es, e sobre a qual avan\u00e7amos, \u00e9 a da predomin\u00e2ncia cada vez maior da mentalidade tradicional do campesinato, encorajada pelos dirigentes do pa\u00eds. Por outro lado, os \u201ccostumes\u201d dissolvidos, uma fam\u00edlia abalada, n\u00e3o podia servir aos interesses de um regime que se tornava cada vez mais autorit\u00e1rio e policialesco.<\/p>\n<p>\u201cO comunismo \u00e9 inconceb\u00edvel sem o registro de todas as for\u00e7as produtivas\u201d64, escreveu David Riazanov, em 1926, a prop\u00f3sito da discuss\u00e3o sobre o casamento. Isso significa, claramente, que o indiv\u00edduo \u00e9 visto sob o \u00fanico \u00e2ngulo da produ\u00e7\u00e3o de bens. E isso \u00e9 verdade tanto para a sociedade capitalista quanto para a socialista, a \u00fanica diferen\u00e7a \u00e9 que a \u00faltima o declara abertamente. Como ambas as sociedades s\u00e3o fundadas sobre a moral do trabalho, todos os outros valores est\u00e3o subordinados a esse dever supremo que \u00e9 o aumento da produtividade.<\/p>\n<p>Marcuse analisa a moral sovi\u00e9tica e avan\u00e7a sobre a ideia de que<\/p>\n<p>As exig\u00eancias comuns da industrializa\u00e7\u00e3o trazem grande semelhan\u00e7a entre os valores caracter\u00edsticos das \u00e9ticas \u2018burguesa\u2019 e \u2018sovi\u00e9tica\u2019. Tal semelhan\u00e7a se manifesta tanto na moral do trabalho quanto na moral sexual. A pr\u00f3pria filosofia moral sovi\u00e9tica considera essa rela\u00e7\u00e3o entre os dois sistemas antag\u00f4nicos, sustentando que os valores \u00e9ticos que estavam viciados na sociedade burguesa est\u00e3o sendo realizados na sociedade sovi\u00e9tica65.<\/p>\n<p>Ele ainda afirma, igualmente, que desde o in\u00edcio para a sociedade sovi\u00e9tica, \u201ca nova moral era aquela de uma coletividade do trabalho mais do que de uma comunidade de indiv\u00edduos livres\u201d66, e ele cita Alexandra Kollontai para sustentar sua tese. Mas as ideias de Kollontai eram muito mais matizadas. Se ela saudava o novo esp\u00edrito de camaradagem no trabalho, fundado sobre uma solidariedade de classe, era porque pensava que novas rela\u00e7\u00f5es livres entre os sexos andariam lado a lado com o desenvolvimento do senso de coletividade.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que muitas dessas ideias defendidas por Kollontai, hoje em dia, soam ing\u00eanuas e ut\u00f3picas, mas os problemas que ela exp\u00f5e s\u00e3o ainda atuais e t\u00eam a autenticidade pr\u00f3pria da experi\u00eancia vivida. Enquanto mulher ela sentia a opress\u00e3o, para ela isso se tratava de quebrar suas pr\u00f3prias correntes, por isso, tamb\u00e9m, ela ia mais longe nas suas an\u00e1lises do que os marxistas homens de sua \u00e9poca.<\/p>\n<p>Em A Nova Moral e a classe oper\u00e1ria67, ela chama a aten\u00e7\u00e3o do leitor para as proposi\u00e7\u00f5es feitas nessa \u00e9poca de crise sexual. O campesinato, poupado durante muito tempo dessa crise, sofria agora, tanto quanto as outras camadas sociais, suas consequ\u00eancias. Estamos em 1918, as convuls\u00f5es hist\u00f3ricas levam \u00e0 desregula\u00e7\u00e3o completa da vida cotidiana. As normas bem estabelecidas da vida sexual, \u00e0s quais se esfor\u00e7am, em maior ou menor medida, para se adaptarem homens e mulheres, colapsaram com a queda dessa sociedade.<\/p>\n<p>As antigas normas perderam validade e, quanto \u00e0s novas, uma desordem maior ainda reina nos esp\u00edritos. Os dirigentes do pa\u00eds, os te\u00f3ricos, pensam ou declaram terem coisas mais importantes a fazer do que se ocupar de problemas assim t\u00e3o f\u00fateis como a vida sexual. Todos, ou quase todos, exceto uma, Alexandra Kollontai que, j\u00e1 em 1918, lastimou amargamente aquilo que Wilhelm Reich, em 1936, denunciara: a falta de reflex\u00e3o sobre essas quest\u00f5es, a retra\u00e7\u00e3o dos problemas sexuais.<\/p>\n<p>\u201cDe onde vem a nossa imperdo\u00e1vel indiferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o a uma das tarefas mais essenciais da classe trabalhadora?\u201d, escreveu ela. \u201cComo explicar o rebaixamento hip\u00f3crita do problema sexual no arm\u00e1rio dos \u2018assuntos de fam\u00edlia\u2019, desprezando o esfor\u00e7o coletivo como se as rela\u00e7\u00f5es n\u00e3o aparecessem em todo o curso da hist\u00f3ria como uma porta entre os sexos, nos limites de um grupo social determinado, como se n\u00e3o influenciassem de maneira fundamental no resultado da luta entre as classes sociais antag\u00f4nicas?\u201d68.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o poderia estar mais claro. De fato, \u00e9 um ato de acusa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o seria correto que L\u00eanin n\u00e3o fosse tamb\u00e9m visado por ele. As famosas reuni\u00f5es de Clara Zetkin e de L\u00eanin n\u00e3o d\u00e3o uma vis\u00e3o geral das ideias deste \u00faltimo sobre o assunto. Rememoremos as passagens mais c\u00e9lebres.<\/p>\n<p>Depois de repreender Clara Zetkin durante as sess\u00f5es de discuss\u00e3o com as oper\u00e1rias, muitas vezes tratando sobre sexo e casamento, L\u00eanin declara: \u201cEu desconfio desses que est\u00e3o constante e obstinadamente absorvidos por quest\u00f5es de sexo, como o faquir hindu na contempla\u00e7\u00e3o do seu pr\u00f3prio umbigo\u201d69. Ele tamb\u00e9m lastimou que na R\u00fassia houvesse tantas discuss\u00f5es dedicadas \u00e0 reflex\u00e3o te\u00f3rica dessas quest\u00f5es entre os jovens. Criticando violentamente \u201ca teoria do copo d\u2019\u00e1gua\u201d (na sociedade comunista, satisfazer seu desejo sexual ser\u00e1 t\u00e3o simples quanto beber um copo de \u00e1gua) ele termina:<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o quero com a minha cr\u00edtica pregar o ascetismo. Longe disso! O comunismo n\u00e3o deve trazer ascetismo, mas alegria de viver e acolhimento, ambos devidos \u00e0 plenitude do amor. [\u2026] O que os jovens precisam, alegria de viver e acolhimento. Esportes, gin\u00e1stica, excurs\u00f5es, toda sorte de exerc\u00edcios f\u00edsicos, interesses morais variados: estudos, an\u00e1lises, pesquisas, e tudo isso aplicado simultaneamente oferece \u00e0 juventude bem mais do que rela\u00e7\u00f5es e discuss\u00f5es sem fim sobre as quest\u00f5es sexuais e sobre a maneira de \u2018gozar\u2019 a vida, segundo a express\u00e3o corrente. Uma alma s\u00e3 num corpo s\u00e3o. Nem monge, nem don Juan, nem filisteu alem\u00e3o como meio termo70.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante examinar com aten\u00e7\u00e3o esse par\u00e1grafo porque ele comporta todo o arsenal de preconceitos burgueses contra a sexualidade. A alegria de viver, o acolhimento e, para terminar, a sa\u00fade do corpo e da alma s\u00e3o opostos \u00e0 sexualidade que s\u00f3 pode prejudicar a juventude. Por outro lado, essa \u00faltima encontrar\u00e1 tudo o que \u00e9 necess\u00e1rio para o seu bem-estar apenas nos exerc\u00edcios f\u00edsicos e intelectuais.<\/p>\n<p>Cartas endere\u00e7adas \u00e0 Inessa Armand71, dif\u00edceis de serem resumidas em poucas palavras, fazem emergir os mesmos princ\u00edpios retr\u00f3grados, ind\u00edcios de um indiscut\u00edvel medo da sexualidade. N\u00e3o se trata, aqui, de tecer um ato de acusa\u00e7\u00e3o contra L\u00eanin; n\u00f3s queremos, simplesmente, assinalar que em mat\u00e9ria de sexualidade os marxistas mais eminentes da \u00e9poca se mostraram bastante reacion\u00e1rios. Somente algumas mulheres sentiam, mais do que sabiam, que se tratava de problemas fundamentais da revolu\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 por acaso que as mulheres s\u00e3o frequentemente mais conscientes que os homens sobre a import\u00e2ncia dos problemas sexuais. S\u00e3o elas as verdadeiras v\u00edtimas da moral sexual, elas que suportam todas as consequ\u00eancias dessa \u201cdupla moral\u201d. A prostitui\u00e7\u00e3o \u00e9 talvez um flagelo do qual sofre toda a sociedade, mas s\u00e3o elas que se prostituem. As mulheres revolucion\u00e1rias, conscientes o bastante sobre a import\u00e2ncia dos problemas sexuais, eram pouco numerosas entre os bolcheviques. Alexandra Kollontai, a mais l\u00facida, aquela que foi mais longe nesse dom\u00ednio, foi muito rapidamente eliminada da vida pol\u00edtica e n\u00e3o \u00e9 certo que suas ideias sobre a fam\u00edlia e a nova moral n\u00e3o tenham a ver com a causa disso tanto quanto sua participa\u00e7\u00e3o na Oposi\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria.<\/p>\n<p>N\u00f3s deixaremos que leitor analise com cuidado os textos de Kollontai, que compare suas ideias com aquelas dos movimentos de mulheres atuais. Seus erros s\u00e3o muitos, mas \u00e9 mais f\u00e1cil n\u00f3s detect\u00e1-los agora, meio s\u00e9culo depois. Seu entusiasmo, suas descri\u00e7\u00f5es ut\u00f3picas de um futuro maravilhoso que surgiria como por magia, sobre as cinzas do velho mundo, dariam origem \u00e0 sorrisos se n\u00e3o tocassem o acorde sens\u00edvel de uma esperan\u00e7a mais ou menos viva em cada um de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Sua inquebr\u00e1vel f\u00e9 em uma classe oper\u00e1ria portadora da moral revolucion\u00e1ria \u00e9, talvez, o erro mais fundamental de Kollontai. Wilhelm Reich, que conhecia muito bem a juventude oper\u00e1ria, escrevia, em 1932,<\/p>\n<p>A moral sexual burguesa (na qual o essencial consiste em considerar a vida sexual n\u00e3o de maneira natural, mas em liga\u00e7\u00e3o estreita com a ordem social atual, \u00e9 negar a sexualidade, ter uma atitude t\u00edmida e recuada em rela\u00e7\u00e3o a ela) se encontra cravada na nossa pele, em n\u00f3s, comunistas, mais profundamente do que possamos crer72.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia sovi\u00e9tica, assim como as nossas constata\u00e7\u00f5es di\u00e1rias, confirma as palavras de Wilhelm Reich. Tamb\u00e9m as tarefas s\u00e3o claras, as li\u00e7\u00f5es a tirar do exemplo sovi\u00e9tico s\u00e3o evidentes. A revolu\u00e7\u00e3o, se houver uma revolu\u00e7\u00e3o, deve ser realizada em todos os dom\u00ednios e ao mesmo tempo. A crise sexual, cujo in\u00edcio remonta ao s\u00e9culo XIX, n\u00e3o foi resolvida. Estamos convencidos que os textos de Alexandra Kollontai servir\u00e3o como refer\u00eancia preciosa a todos aqueles que pensam que uma verdadeira emancipa\u00e7\u00e3o da mulher \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o b\u00e1sica para a mudan\u00e7a de toda a sociedade.<\/p>\n<p>1 Express\u00e3o que retorna frequentemente sob a pena de Kollontai. Ela sugere a exist\u00eancia de \u201cdois pesos e duas medidas\u201d para julgar o comportamento de algu\u00e9m. O julgamento incorre em diferencia\u00e7\u00f5es entre homens e mulheres.<\/p>\n<p>2 \u201cDeiateli S.S.S.R. i Oktriabrsko\u00ef Revolutsii\u201d, Entsiklopeditcheskii slovar Rousskovo bibliografitcheskovo institouta Granat, Moscou, 7 ed., 1927-1929. N\u00f3s retomamos a tradu\u00e7\u00e3o publicada em: HAUPT, Georges e MARIE, Jean-Jacques. Os Bolcheviques por si mesmos. Paris: Maspero, 1969. pp. 311-317.<\/p>\n<p>3 Na realidade, a origem camponesa do ramo materno remonta \u00e0 bisav\u00f3 de Alexandra. Seu av\u00f4 era exportador de madeira. Esse tipo de \u201cengano\u201d era corriqueiro nas autobiografias da \u00e9poca onde cada palavra era pesada e escolhida com cuidado.<\/p>\n<p>4 Alexandre Bestoujev: famoso autor de romances que fez sensa\u00e7\u00e3o entre as jovens da \u00e9poca.<\/p>\n<p>5 Peter Berngardovich Struve (1870-1944) foi um economista, pol\u00edtico, fil\u00f3sofo, historiador e editor russo que passou pelo marxismo, tornou-se liberal e, ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica se juntou ao movimento branco.<\/p>\n<p>6 Mikhail Tugan-Baranovsky (1865-1919) foi um economista, pol\u00edtico e estadista russo, lembrado como um dos fundadores da Academia Nacional de Ci\u00eancias da Ucr\u00e2nia. Foi um dos primeiros Ministro das Finan\u00e7as da Ucr\u00e2nia do Secretariado Geral do Conselho Central da Ucr\u00e2nia de Vynnychenko. No meio profissional ele \u00e9 lembrado como um dos expoentes do Marxismo Legal no Imp\u00e9rio Czarista Russo, al\u00e9m de um dos autores a publicar livros sobre a teoria do valor, a distribui\u00e7\u00e3o do lucro, hist\u00f3ria do desenvolvimento gerencial e dos fundamentos das atividades gerenciais cooperativas.<\/p>\n<p>7 Cf. bibliografia ao final do volume.<\/p>\n<p>8 Existe um \u201cdossi\u00ea de imprensa\u201d sobre A. Kollontai na biblioteca de documenta\u00e7\u00e3o feminina Marguerite-Durand, na prefeitura do V Arrondissement, Pra\u00e7a do Panth\u00e9on, Paris.<\/p>\n<p>9 Cf. Les Bolcheviks par eux-m\u00eames, [Os bolcheviques por eles mesmos], op. cit., Introdu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>10 \u201cZie um Wert meines Lebens\u201d, in: Fuhrende Frauen Europas, 1 s\u00e9rie, publicada por Elga Kern, Munique, 1926.<\/p>\n<p>11 KOLLONTAI, Alexandra. Autobiographie einen sexuellemanzipierten Kommunistin, Herausgegeben und mit einem Nachwort von Iring Fetscher, Rogner e Bernhard, M\u00fcnchen, 1970; KOLLONTAI, Alexandra. Autobiography of a Sexually Emanciped Woman, Introdu\u00e7\u00e3o de Germaine Greer, editado e revisado por Iring Fetscher. [As cita\u00e7\u00f5es foram retiradas da edi\u00e7\u00e3o inglesa e traduzidas por n\u00f3s \u2013 nota da edi\u00e7\u00e3o francesa]<\/p>\n<p>12 O Tratado de Paz de Brest-Litovsky, assinado em 03 de mar\u00e7o de 1918 entre a R\u00fassia, sob o governo bolchevique, e as Pot\u00eancias Centrais (Alemanha, \u00c1ustria-Hungria, Bulg\u00e1ria e Imp\u00e9rio Otomano), firmou a retirada russa da Primeira Guerra Mundial.<\/p>\n<p>13 KOLLONTAI, Alexandra. A oposi\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria, 1928. p. 28. (brochura que reagrupa os textos publicados pela revista Socialisme ou barbarie, n\u02da 35, jan. -mar. 1964).<\/p>\n<p>14 BODY, MARCEL, \u201cAlexandra Kollontai\u201d, Preuves [Provas], abril de 1952. Marcel Body servia ao mesmo tempo que Kollontai na miss\u00e3o diplom\u00e1tica sovi\u00e9tica na Noruega. Seu estudo traz informa\u00e7\u00f5es muito interessantes sobre a vida de Kollontai depois de 1922.<\/p>\n<p>15 Ibid. p. 18<\/p>\n<p>16 Ibid. p. 23.<\/p>\n<p>17 KOLLONTAI, A. Autobiography.., Op. cit., p. 6<\/p>\n<p>18 MORITZ, Martha. In: Die Internationale, 9, n\u02da 27, 1926.<\/p>\n<p>19 Para uma an\u00e1lise desse romance, ver o estudo de KENDALL E. BAILLES, \u201cAlexandra Kollontai e a nova moral\u201d, Cahiers du monde russe et sovi\u00e9tique, n\u02da 4, 1965, pp. 471-496. Esse estudo cont\u00e9m, igualmente, vasta refer\u00eancia bibliogr\u00e1fica.<\/p>\n<p>20 BODY, Marcel, op. cit.<\/p>\n<p>21 Segundo v\u00e1rios testemunhos, entre as quais o de Marcel Body, Kollontai escreveu um trabalho detalhado que deve estar em posse do Instituto Marx-Engels de Moscou.<\/p>\n<p>22 Cf. parte IV da presente obra: \u201cPrimeiras experi\u00eancias\u201d.<\/p>\n<p>23 KOLLONTAI, A. Autobiography\u2026, op. cit. pp. 47-48.<\/p>\n<p>24 Ibid., p. 6.<\/p>\n<p>25 Ibid., p. 43.<\/p>\n<p>26 ENGELS, Friedrich. L\u2019Origine de la famille, de la propri\u00e9t\u00e9 priv\u00e9e et de l\u2019\u00c9tat. Paris: \u00c9ditions sociales, 1971, p. 73.<\/p>\n<p>27 Ibid.<\/p>\n<p>28 Ibid., p. 72.<\/p>\n<p>29 Ibid., p. 78.<\/p>\n<p>30 Ibid., pp. 78-79.<\/p>\n<p>31 Cf. Les Communistes er la condition de la femme. Paris: Editions sociales, 1970. pp. 91-92.<\/p>\n<p>32 RIAZANOV, David. Communisme et mariage. Reproduzido no Partisans, n\u02da 32-33, 1966. pp. 80-81.<\/p>\n<p>33 Ibid.<\/p>\n<p>34 GORKI, Maxime. L\u00e9nine et le paysan russe. Paris: Gallimard, 1924. pp. 180-181.<\/p>\n<p>35 Ibid. pp. 184-186.<\/p>\n<p>36 A melhor obra consagrada \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o sobre a fam\u00edlia na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica \u00e9 de autoria de Rudolf Schlesinger, Changing Attitudes in Soviet Russia. The Family. Londres: Routledge and Paul Kogan, 1949. Cf. tamb\u00e9m PIERRE, Andr\u00e9. Les femmes en Union Sovi\u00e9tique. Paris: S.P.E.S., 1960, e as publica\u00e7\u00f5es de La Documentation fran\u00e7aise.<\/p>\n<p>37 RIAZANOV, David. Op. cit. p. 88<\/p>\n<p>38 SCHLESINGER, Rudolf. Op. cit. p. 129.<\/p>\n<p>39 Ibid., p. 251.<\/p>\n<p>40 Ibid., pp. 251-252.<\/p>\n<p>41 Ibid., p. 254.<\/p>\n<p>42 Ibid., p. 305.<\/p>\n<p>43 Ibid., p. 310.<\/p>\n<p>44 Ibid., p. 315.<\/p>\n<p>45 Equivalendo, de acordo com a cota\u00e7\u00e3o de 2021, cerca de R$ 143,00.<\/p>\n<p>46 La Documentation Fran\u00e7aise, s\u00e9rie U.R.S.S., n\u02da 4, julho-agosto 1968, p. 27. Esse n\u00famero reproduz integralmente o C\u00f3digo da Fam\u00edlia de 1968.<\/p>\n<p>47 Ibid., p. 33.<\/p>\n<p>48 Ibid., p. 36.<\/p>\n<p>49 Ibid., p. 32.<\/p>\n<p>50 La Documentation fran\u00e7aise. S\u00e9rie U.R.S.S., n\u02da 31-32, 31 de julho \u2013 7 de agosto de 1970, p. 31. Esse n\u00famero da s\u00e9rie cont\u00e9m um estudo muito bem documentado de R. Berton-Hogge dedicado \u00e0 condi\u00e7\u00e3o atual da mulher sovi\u00e9tica. Ver tamb\u00e9m PIERRE, Andr\u00e9, op. cit., mas esse livro data de 1960. Para informa\u00e7\u00f5es mais detalhadas consultar: DODGE, N.T., Women in the Soviet Economy, John Hopkins Press, 1966.<\/p>\n<p>51 Ibid.<\/p>\n<p>52 KOLLONTAI, Alexandra. L\u2019Ouvri\u00e8re et la paysanne dans la republique sovi\u00e9tique. Paris: Librairie de L\u2019Humanit\u00e9, 1921. P. 12.<\/p>\n<p>53 Cf. Parte IV da presente obra.<\/p>\n<p>54 Natalya Baranskaia (1908-2004) foi uma novelista e escritora sovi\u00e9tica cujo reconhecimento internacional deve-se \u00e0 forma como descrevia a realidade social das mulheres sovi\u00e9ticas.<\/p>\n<p>55 Les Temps Modernes, julho de 1970, p. 6.<\/p>\n<p>56 Revista liter\u00e1ria russa fundada em Moscou, em 1925. Ainda em circula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>57 POLIAKOVA, E., Bolcha\u00efa Moskva, Medvedkovo. Paris: Institut d\u2019\u00e9tudes slaves, 1968.<\/p>\n<p>58 PAVLOVA, M. Les Femmes \u00e0s la Maison et au travail\u201d, Literaturna\u00efa Gazeta, n\u02da 22, 1970.<\/p>\n<p>59 La Documentation fran\u00e7aise, s\u00e9rie U.R.S.S., n\u02da 6, 1967, p. 19.<\/p>\n<p>60 POLIAKOVA, E. op. cit.<\/p>\n<p>61 MARCUSE, Herbert. Le Marxisme sovi\u00e9tique. Paris: Gallimard, 1968. p. 351.<\/p>\n<p>62 La Documentation fran\u00e7aise, n\u02da 31-52, op. cit. p. 37.<\/p>\n<p>63 Ibid., p. 38.<\/p>\n<p>64 RIAZANOV, D. op. cit. p. 88.<\/p>\n<p>65 MARCUSE, H. op. cit. p. 359.<\/p>\n<p>66 Ibid., p. 344.<\/p>\n<p>67 Cf. partes II e II da presente obra.<\/p>\n<p>68 Cf. parte II da presente obra.<\/p>\n<p>69 Les Communistes et la condition de la femme. op. cit. p. 109.<\/p>\n<p>70 Ibid., pp. 116-117.<\/p>\n<p>71 SCHLESINGER, Rudolf. Op. cit. pp. 27-29.<\/p>\n<p>72 REICH, Wilhelm. La Lutte sexuelle des jeunes. Paris: Maspero, Petite Collection Maspero, 1972. p. 129<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27736\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[33],"tags":[224],"class_list":["post-27736","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c34-marxismo","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7dm","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27736","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27736"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27736\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27736"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27736"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27736"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}