{"id":27738,"date":"2021-08-20T12:49:45","date_gmt":"2021-08-20T15:49:45","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27738"},"modified":"2021-08-27T03:07:19","modified_gmt":"2021-08-27T06:07:19","slug":"pandemia-racismo-e-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27738","title":{"rendered":"Pandemia, racismo e capitalismo"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/pw\/AM-JKLVxhCtxqfNOKjRL489c0wo5-uEGoHHsq6Flb7ivqzu4P0QkNs3wd_VB7Dn_PbGp50L0Ed3sPUs1wvv_6CAj4fuDb7OtIk8Uuh22sYbwbZLS5BEgfO7R0o3wa02LpWjm_4CystssxKjB645bVXmIWwAA=w590-h656-no\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Nego drama<\/p>\n<p>Cabelo crespo e a pele escura<\/p>\n<p>A ferida, a chaga, \u00e0 procura da cura<\/p>\n<p>Negro drama &#8211; Racionais MC&#8217;s<\/p>\n<p>COLETIVO NEGRO MINERVINO DE OLIVEIRA<\/p>\n<p>\u2013 N\u00daCLEO MARING\u00c1<\/p>\n<p>A pandemia escancarou a l\u00f3gica de classes da sociedade brasileira e arrancou o v\u00e9u do mito da democracia racial. O racismo brasileiro \u00e9 um dos determinantes das mortes por COVID-19, fazendo com que negros sejam os mais infectados e, consequentemente, os que mais morrem. At\u00e9 julho de 2020, 55% dos negros positivados foram a \u00f3bito, em contraposi\u00e7\u00e3o aos 38% dos brancos. Neste mesmo per\u00edodo, foram 250 \u00f3bitos a cada 100 mil habitantes, enquanto o n\u00famero de brancos estava em 157 a cada 100 mil. A cada dez pessoas que relatam mais de um sintoma de covid, sete s\u00e3o pretas ou pardas.<\/p>\n<p>O mito da democracia racial serviu, em um primeiro momento, para demonstrar um suposto car\u00e1ter democr\u00e1tico do v\u00edrus. Por\u00e9m, os n\u00fameros de \u00f3bitos desmentem essa teoria e comprovam as rela\u00e7\u00f5es racializadas e como elas provocam rela\u00e7\u00f5es desiguais.<\/p>\n<p>Nas grandes cidades, o maior n\u00famero de mortes vem dos bairros com maior n\u00famero de negros. At\u00e9 julho de 2020, Brasil\u00e2ndia em S\u00e3o Paulo era o bairro com mais mortes e, tamb\u00e9m, com mais negros (mais de 50%). Na contram\u00e3o, Moema era o bairro que tinha o menor n\u00famero de mortes e possu\u00eda tamb\u00e9m o menor n\u00famero de residentes negros na regi\u00e3o, somando apenas 6%. O v\u00edrus n\u00e3o discrimina, quem faz isso \u00e9 a l\u00f3gica da sociedade capitalista.<\/p>\n<p>No Brasil todo temos 25% mais mortes de negros. Na idade at\u00e9 29 anos, morreram 4 vezes negros mais que brancos em 2020.<\/p>\n<p>A primeira v\u00edtima da covid-19 no Brasil foi uma mulher negra, empregada dom\u00e9stica de 63 anos. Ela realizava esse trabalho que \u00e9 um dos que possuem a maior participa\u00e7\u00e3o de mulheres negras. A regra na pandemia \u00e9 essa: ou morre trabalhando ou por desemprego. O trabalho dom\u00e9stico foi (juntamente com com\u00e9rcio, servi\u00e7os e constru\u00e7\u00e3o civil) um dos setores que teve maior impacto com a pandemia, resultando em uma grande popula\u00e7\u00e3o desempregada \u2013 ou seja, desempregaram-se, em regra, mulheres negras. Todos esses setores s\u00e3o aqueles que possuem a maior quantidade de negros e negras \u2013 lado a lado com o setor informal.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das mortes, a pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o de combate ao v\u00edrus \u00e9 mais prec\u00e1ria na popula\u00e7\u00e3o negra. As a\u00e7\u00f5es de isolamento e distanciamento social s\u00e3o importantes estrat\u00e9gias de contingenciamento da pandemia. Mas quem pode fazer isolamento? Sem prote\u00e7\u00e3o social n\u00e3o h\u00e1 isolamento. As rela\u00e7\u00f5es de trabalho exigem aglomera\u00e7\u00f5es, as cidades e bairros pobres concentram pobreza e, portanto, mais dificuldades de manter as condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias. Os deslocamentos dos trabalhadores em transportes lotados demonstram a impossibilidade de distanciamento. Os negros est\u00e3o, portanto, numa condi\u00e7\u00e3o maior de riscos.<\/p>\n<p>Racismo \u00e9 essa rela\u00e7\u00e3o social de domina\u00e7\u00e3o \u2013 extremamente funcional \u00e0 l\u00f3gica capitalista \u2013 que faz com que negros ocupem os piores trabalhos, condi\u00e7\u00f5es de vida prec\u00e1rias, os mais baixos sal\u00e1rios e as maiores jornadas de trabalho. O que isso significa?<\/p>\n<p>Significa que, pagando menos a trabalhadores negros e em jornadas de trabalho maiores, \u00e9 poss\u00edvel lucrar ainda mais. Como diz a m\u00fasica: \u201ca carne mais barata do mercado \u00e9 a carne negra\u201d.<\/p>\n<p>As pessoas negras est\u00e3o geralmente nas \u00e1reas mais vulner\u00e1veis, o que diz respeito a piores condi\u00e7\u00f5es de moradia, saneamento b\u00e1sico, trabalho e renda mais baixa, al\u00e9m de serem as mais inseridas no mercado informal. At\u00e9 2018 os negros eram 64% dos desocupados e 66,1% dos subutilizados.<\/p>\n<p>Para grupos oprimidos historicamente, a condi\u00e7\u00e3o de vida os tornou mais expostos ao adoecimento e \u00e0 morte na pandemia. Para piorar ainda mais essa situa\u00e7\u00e3o, 49% dos negros brasileiros deixaram de pagar contas b\u00e1sicas, em oposi\u00e7\u00e3o a 32% dos brancos. A renda m\u00e9dia hoje \u00e9 de pessoas negras \u00e9 1.700 reais e a dos brancos 3.100 reais. A condi\u00e7\u00e3o de sobreviv\u00eancia em situa\u00e7\u00e3o normal n\u00e3o \u00e9 a mesma. Na pandemia essa l\u00f3gica se agravou. At\u00e9 mesmo a renda b\u00e1sica emergencial demonstra o corte racial: 74% dos negros que pediram a renda emergencial tiveram resposta positiva. Entre os brancos, foi 81%. Ou seja, se voc\u00ea \u00e9 branco, ter\u00e1 maiores facilidades de acessar pol\u00edticas sociais.<\/p>\n<p>Somam-se \u00e0 pandemia os ataques aos servi\u00e7os p\u00fablicos. N\u00e3o podemos nos esquecer do teto de gastos estabelecido em 2016 pela emenda constitucional 95, que congelou por 20 anos os investimentos em pol\u00edticas sociais como sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A pandemia e a destrui\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos e da prote\u00e7\u00e3o social<\/p>\n<p>Como enfrentar a pandemia em um processo cada vez maior de sucateamento do sistema de sa\u00fade? Sabe quem s\u00e3o as pessoas mais assistidas pelo SUS? Bingo: as que comp\u00f5em a popula\u00e7\u00e3o negra. A cada 5 brasileiros que possuem somente o SUS como servi\u00e7o de sa\u00fade, 4 s\u00e3o negros. Neste \u00ednterim, um dos principais respons\u00e1veis pela agenda de desgaste do SUS \u00e9 um cavalo de Tr\u00f3ia de Maring\u00e1: Ricardo Barros. O ex-prefeito pulador de janelas \u00e9 o principal representante do setor privado da sa\u00fade na pol\u00edtica n acional. O financiamento de suas campanhas eleitorais vem, em maior parte, destes setores.<\/p>\n<p>Vivemos um processo constante de precariza\u00e7\u00e3o dos direitos trabalhistas, que afeta a possibilidade de distanciamento e isolamento. Al\u00e9m do potencial de mortalidade do v\u00edrus, a precariza\u00e7\u00e3o da vida e a a\u00e7\u00e3o do presidente (Fora) Bolsonaro pioram o quadro nacional, principalmente porque sucateia a\u00e7\u00f5es e pol\u00edticas que s\u00e3o diretamente ligadas \u00e0 sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o negra.<\/p>\n<p>A crise sanit\u00e1ria e pol\u00edtica que enfrentamos, bem como a forma como os diferentes grupos sociais foram impactados pelo COVID-19 t\u00eam rela\u00e7\u00e3o direta com aquilo que chamamos de \u201cluta de classes\u201d, isto \u00e9, uma sociedade forjada por classes distintas, com interesses antag\u00f4nicos, que lutam tentando colocar as suas necessidades na ordem do dia.<\/p>\n<p>Enquanto a classe dominante preocupava-se com a manuten\u00e7\u00e3o da sua taxa de lucro, a classe trabalhadora tentava manter as suas condi\u00e7\u00f5es de vida e, mesmo sob a press\u00e3o da morte, buscavam conservar seus empregos. Os dois interesses colocaram os trabalhadores sob os mais variados riscos e, dessa forma, a parte mais afetada \u00e9 a classe trabalhadora negra.<\/p>\n<p>A luta contra o racismo deve ser tamb\u00e9m uma luta contra o capitalismo<\/p>\n<p>Combater o genoc\u00eddio da popula\u00e7\u00e3o negra \u00e9 combater as rela\u00e7\u00f5es sociais capitalistas que pioram as condi\u00e7\u00f5es de vida da classe trabalhadora e, principalmente, dos seus setores mais fragilizados. Not\u00edcias sobre fome e inseguran\u00e7a alimentar gritam nos jornais, pessoas buscam restos de comida em a\u00e7ougues. O encarecimento dos produtos nas prateleiras tem deteriorado ainda mais a mesa da popula\u00e7\u00e3o negra. \u00c9 preciso questionar urgentemente a produ\u00e7\u00e3o social da alimenta\u00e7\u00e3o, a agropecu\u00e1ria e o agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de lutarmos por melhorar as condi\u00e7\u00f5es atuais da classe trabalhadora negra, precisamos chamar aten\u00e7\u00e3o para os limites dessa atua\u00e7\u00e3o. \u00c9 imprescind\u00edvel romper com o capitalismo para acabar com a l\u00f3gica que d\u00e1 origem e fun\u00e7\u00e3o social ao racismo. O racismo brasileiro n\u00e3o \u00e9 uma reminisc\u00eancia da escravid\u00e3o. Ele possibilita uma maior explora\u00e7\u00e3o capitalista com base na opress\u00e3o racial. Portanto, todo projeto antirracista no Brasil deve ser tamb\u00e9m anticapitalista.<\/p>\n<p>Na atual conjuntura \u00e9 importante lutar para reverter os retrocessos que a classe trabalhadora vem sofrendo e que incide com ainda mais peso sobre negras e negros. \u00c9 urgente articular formas de luta e organiza\u00e7\u00e3o antirracista que relacione o problema racial com a ordem que lhe d\u00e1 sustenta\u00e7\u00e3o. A cada crise do capitalismo os elementos raciais v\u00eam \u00e0 tona com maior for\u00e7a.<\/p>\n<p>A ssim, a ideologia da democracia racial serve para que a classe dominante se exima das responsabilidades pol\u00edticas com a popula\u00e7\u00e3o negra. Pois se somos todos iguais, a \u00fanica responsabilidade pela mis\u00e9ria e morte \u00e9 do pr\u00f3prio negro. Essa ideologia acaba culpabilizando a popula\u00e7\u00e3o negra pela sua condi\u00e7\u00e3o. Isenta-se, assim, o Estado burgu\u00eas de qualquer responsabilidade.<\/p>\n<p>Todavia, esse n\u00e3o \u00e9 um defeito de funcionamento, mas \u00e9 a pr\u00f3pria l\u00f3gica da sociedade capitalista. Por isso nos declaramos socialistas e lutamos por uma sociedade sem classes sociais, porque s\u00f3 assim poderemos p\u00f4r fim ao racismo e a outras formas de opress\u00e3o.<\/p>\n<p>Pretos e vermelhos,<\/p>\n<p>Venceremos!<\/p>\n<p>PELO PODER POPULAR!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27738\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[20,27],"tags":[222],"class_list":["post-27738","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c1-popular","category-c27-ujc","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7do","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27738","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27738"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27738\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27738"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27738"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27738"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}