{"id":27749,"date":"2021-08-22T07:27:55","date_gmt":"2021-08-22T10:27:55","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=27749"},"modified":"2021-08-22T07:27:55","modified_gmt":"2021-08-22T10:27:55","slug":"capitalismo-e-agencias-de-noticias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27749","title":{"rendered":"Capitalismo e ag\u00eancias de not\u00edcias"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\"  alt=\"imagem\"  src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistaopera.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/pera-11.jpeg\"\/><!--more-->Dividindo a informa\u00e7\u00e3o, informando a divis\u00e3o: capitalismo e ag\u00eancias de not\u00edcia<\/p>\n<p>O pesquisador e professor de jornalismo da UFF, Pedro Aguiar, fala sobre o surgimento das ag\u00eancias de not\u00edcia, seus la\u00e7os com o capital financeiro e sua presen\u00e7a ainda centralizadora no mundo.<\/p>\n<p>Por Pedro Marin | Revista Opera \u2013 (Foto: David \/ flickr.com\/ramdomwire)<\/p>\n<p>Mais profundamente ou menos, os grandes jornais de todo o mundo s\u00e3o conhecidos ou reconhecidos por seus povos. Alguns ligam os nomes das gazetas aos seus respectivos donos, outros s\u00e3o capazes de apontar as predile\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de cada peri\u00f3dico, e h\u00e1 uma gama ainda menor capaz de descrever a import\u00e2ncia de um di\u00e1rio espec\u00edfico para eventos hist\u00f3ricos de seu pa\u00eds, estado, cidade ou bairro. Dificilmente, no entanto, o p\u00fablico saber\u00e1 discorrer sobre a infraestrutura global de informa\u00e7\u00f5es que alimenta os jornais. As ag\u00eancias de not\u00edcia, em acordo com seus pr\u00f3prios desejos, mant\u00eam-se ocultas, quase invis\u00edveis, apesar de sua vultosa presen\u00e7a nas m\u00eddias de todo tipo e lugar.<\/p>\n<p>Pesquisador de ag\u00eancias de not\u00edcia e da Economia Pol\u00edtica da Comunica\u00e7\u00e3o, o jornalista e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Pedro Aguiar, fala em entrevista \u00e0 Revista Opera sobre o surgimento das ag\u00eancias de not\u00edcia, seus la\u00e7os hist\u00f3ricos com o capital financeiro, sua presen\u00e7a ainda centralizadora no mundo, sua ordena\u00e7\u00e3o de tipo industrial; sobre a fome do capital por informa\u00e7\u00f5es e a fome das informa\u00e7\u00f5es por capital. Mas fala tamb\u00e9m sobre a hist\u00f3ria e a continuidade da luta por uma comunica\u00e7\u00e3o descentralizada, pelos percal\u00e7os, boicotes, vit\u00f3rias e atos her\u00f3icos do jornalismo no Terceiro Mundo, da tentativa de cria\u00e7\u00e3o de uma Nova Ordem Mundial na Informa\u00e7\u00e3o e Comunica\u00e7\u00e3o (NOMIC) e de Armand Mattelart, soci\u00f3logo belga que analisou a propaga\u00e7\u00e3o de uma mentalidade pr\u00f3-imperialista nos pa\u00edses perif\u00e9ricos no seu famoso Para Ler o Pato Donald.<\/p>\n<p>Revista Opera: O tema das ag\u00eancias de not\u00edcia para o p\u00fablico em geral j\u00e1 \u00e9 uma coisa um pouco desconhecida, e aparentemente na academia existe tamb\u00e9m uma falta de estudos e interesse por esse campo. Queria que falasse um pouco \u2013 at\u00e9 do ponto de vista pessoal \u2013 do porqu\u00ea voc\u00ea se interessou por esse tema e quis se dedicar a estudar as ag\u00eancias de not\u00edcia e Economia Pol\u00edtica da Comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pedro Aguiar: Eu fui estudar ag\u00eancias de not\u00edcias porque trabalhei em ag\u00eancias de not\u00edcias, fui editor j\u00fanior na ag\u00eancia EFE, antes disso tinha sido estagi\u00e1rio na sucursal dela aqui no Rio de Janeiro, que atende aos clientes brasileiros. E enquanto estava l\u00e1, costumo dizer que eu sa\u00eda [do turno] como o Charles Chaplin no \u201cTempos Modernos\u201d: saindo da linha de montagem com o tique de apertar parafusos. No meu caso sa\u00eda com os dedos ainda teclando, porque a opera\u00e7\u00e3o da ag\u00eancia de not\u00edcias \u00e9 basicamente fordista, \u00e9 an\u00e1loga a uma linha de montagem fabril no sentido de ter uma opera\u00e7\u00e3o altamente linear, padronizada e que ganha em economia de escala, ganha mantendo seu custo unit\u00e1rio de produ\u00e7\u00e3o tanto mais rent\u00e1vel quanto maior for a base de distribui\u00e7\u00e3o. A gente tinha que trabalhar sempre em um esquema extremamente repetitivo, cont\u00ednuo, acelerado, de pegar uma mat\u00e9ria, editar para a publica\u00e7\u00e3o dos clientes brasileiros, enviar e pegar a pr\u00f3xima. Ent\u00e3o nesse circuito incessante surgem as ideias sobre o que estou fazendo, que tipo de trabalho \u00e9 esse, que papel esse trabalho ocupa dentro do cen\u00e1rio do mercado de comunica\u00e7\u00e3o, especificamente do jornalismo. Isso j\u00e1 me despertou muito interesse.<\/p>\n<p>E a\u00ed, quando eu comecei a procurar o que j\u00e1 tinha sido escrito a esse respeito, eu me deparei com duas coisas: primeiro, uma falta de estudos; de fato, no mundo em geral n\u00e3o \u00e9 um tema que se pesquise muito, e no Brasil parece que h\u00e1 um desd\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o ao tema entre os jornalistas e pesquisadores do jornalismo, como se n\u00e3o fosse sequer um setor de atua\u00e7\u00e3o dos jornalistas digno de ser pesquisado. J\u00e1 foi um primeiro inc\u00f4modo. O segundo foi que reparei que o pouco que havia em geral fazia uma abordagem pela economia pol\u00edtica, e isso foi interessante, porque era exatamente o que respondia \u00e0 minha inquieta\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao fato de estar trabalhando numa f\u00e1brica, uma f\u00e1brica atendendo jornalismo, com menos margem para criatividade, experimenta\u00e7\u00e3o, para mexer com a linguagem, do que h\u00e1 num ve\u00edculo, em um jornal, revista ou site.<\/p>\n<p>Nisso resolvi investir. Me aproximei da Economia Pol\u00edtica da Comunica\u00e7\u00e3o (EPC), e uma peculiaridade brasileira \u00e9 que o campo da EPC aqui \u00e9 muito voltado para estudar televis\u00e3o, radiodifus\u00e3o, regula\u00e7\u00e3o da radiodifus\u00e3o, e pouco para outras \u00e1reas de atua\u00e7\u00e3o \u2013 mesmo o pr\u00f3prio jornalismo impresso \u00e9 pouco estudado pelo vi\u00e9s da EPC no Brasil. Fiz a minha monografia sobre as ent\u00e3o novas ferramentas digitais que poderiam auxiliar a cobertura internacional perif\u00e9rica a n\u00e3o depender dos servi\u00e7os das ag\u00eancias; como usar essas ferramentas digitais para conseguir fazer mat\u00e9rias de internacional sem ter que usar s\u00f3 conte\u00fado da Reuters, France-Presse (AFP), Associated Press (AP).<\/p>\n<p>Depois disso, pensei em analisar as ag\u00eancias em si. Apareceu na minha pesquisa preliminar que havia existido todo um sistema de coopera\u00e7\u00e3o entre as ag\u00eancias dos pa\u00edses perif\u00e9ricos nos anos 70, exatamente para oferecer um servi\u00e7o que fosse pragm\u00e1tico, que de fato atendesse \u00e0 imprensa, e que fosse um contraponto \u00e0 Reuters, AFP, AP, EFE, DPA, mesmo a TASS e a Xinhua, do bloco socialista. E isso me interessou; foi isso que quis pesquisar, e fui parar em Belgrado, na S\u00e9rvia, e tive acesso ao acervo da ag\u00eancia Tanjug, que coordenou essa coopera\u00e7\u00e3o; era um pool (colabora\u00e7\u00e3o) das ag\u00eancias de not\u00edcia dos Pa\u00edses N\u00e3o-Alinhados, NANAP na sigla em ingl\u00eas (Non-Aligned News Agencies Pool). E eu esperava chegar l\u00e1 e encontrar uma biblioteca, com os arquivos: era um arm\u00e1rio de um metro de altura, e tinha l\u00e1 umas oito pastas e fich\u00e1rios.<\/p>\n<p>Quando cheguei no doutorado, pensei \u201clegal, tratei de um tema que existiu, que funcionou durante um tempo, nos anos 70, antes da internet, agora quero ver como est\u00e3o as ag\u00eancias de not\u00edcia dos pa\u00edses perif\u00e9ricos hoje, no contexto atual\u201d; e fiz praticamente um recenseamento dessas ag\u00eancias, de todas que existem. Pesquisei que servi\u00e7os elas usam, em que l\u00ednguas elas operam \u2013 inclusive para saber se eram l\u00ednguas dos colonizadores ou l\u00ednguas nativas: para o Brasil n\u00e3o pensamos nisso, mas a ag\u00eancia de not\u00edcias do Paraguai, a IP, n\u00e3o tem servi\u00e7o em guarani; a Press Trust of India (PTI) s\u00f3 opera em ingl\u00eas, sendo um pa\u00eds que tem l\u00ednguas como guzerate, marata, canar\u00e1, hindi, bengal\u00eas; por outro lado a ag\u00eancia de Botsuana opera em pelo menos seis l\u00ednguas africanas nativas. Ent\u00e3o isso variava bastante. E mais: quantos jornalistas elas tinham, faturamento (dado que n\u00e3o consegui, porque elas simplesmente n\u00e3o revelam), se operavam servi\u00e7os jornal\u00edsticos e n\u00e3o-jornal\u00edsticos \u2013 descobri que h\u00e1 ag\u00eancias que para sobreviver organizam eventos, alugam seu sal\u00e3o para coletivas de imprensa e organiza\u00e7\u00e3o de eventos, fazem websites [risos]. Ent\u00e3o a realidade das ag\u00eancias nos pa\u00edses perif\u00e9ricos \u00e9 bem diferente, e como falei h\u00e1 pouca literatura acad\u00eamica; e a pouca que tem \u00e9 quase toda focada na realidade das grandes ag\u00eancias dos pa\u00edses centrais: falam de Reuters, de AFP, AP, Bloomberg\u2026 Agora vai falar da T\u00e9lam, na Argentina; da SLENA, na Serra Leoa; da MCOT, da Tail\u00e2ndia; s\u00e3o realidades distintas que est\u00e3o nas periferias do sistema-mundo.<\/p>\n<p>Revista Opera: E como eu disse, o p\u00fablico via de regra n\u00e3o conhece, talvez nem saiba como funciona uma transa\u00e7\u00e3o internacional de not\u00edcia da Alemanha para publicar em um jornal no Brasil. Queria que falasse um pouco sobre como surgem as ag\u00eancias, e mais importante do que isso: como elas ganharam dinheiro ao longo da hist\u00f3ria e como ganham hoje?<\/p>\n<p>Pedro Aguiar: N\u00e3o me surpreende que o p\u00fablico desconhe\u00e7a, porque as ag\u00eancias s\u00e3o historicamente empresas que prezam pela discri\u00e7\u00e3o e pelo sigilo. Eu detesto esses termos corporativos, mas tem uma \u201ccultura organizacional\u201d do sigilo; n\u00e3o divulgam os dados. Mesmo os pesquisadores que fazem at\u00e9 hist\u00f3ria institucional \u2013 ou seja, ag\u00eancias contratam historiadores para irem nos arquivos e fazer um livro sobre a ag\u00eancia \u2013, mesmo esses pesquisadores n\u00e3o t\u00eam acesso a tudo, t\u00eam dificuldade em dar n\u00fameros sobre faturamento, informa\u00e7\u00e3o sobre quem s\u00e3o os clientes, etc.<\/p>\n<p>Elas s\u00e3o um modelo de neg\u00f3cios intracorporativo, \u201cbusiness to business\u201c, n\u00e3o atendem ao p\u00fablico final, mas sim pessoas jur\u00eddicas, que s\u00e3o os pr\u00f3prios ve\u00edculos de m\u00eddia, mas tamb\u00e9m muitas empresas n\u00e3o midi\u00e1ticas \u2013 muito do setor financeiro, mas tamb\u00e9m \u00f3rg\u00e3os de Estado (\u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos, embaixadas, consulados, instala\u00e7\u00f5es militares) podem assinar o servi\u00e7o de ag\u00eancias de not\u00edcias para ter informa\u00e7\u00e3o mais r\u00e1pida, sem esperar pela publica\u00e7\u00e3o na m\u00eddia e sem passar pelo filtro dos jornalistas que est\u00e3o na m\u00eddia, ou seja: ter acesso ao conjunto de informa\u00e7\u00f5es no atacado, n\u00e3o no varejo. Investidores financeiros e \u00f3rg\u00e3os estrat\u00e9gicos de Estado t\u00eam interesse nisso, e o grande p\u00fablico, em forma geral, n\u00e3o tem. Quando atendem pessoas f\u00edsicas \u2013 e h\u00e1 algumas \u2013 estamos falando, a\u00ed sim, da elite m\u00e1xima, alta burguesia, propriet\u00e1rios de meios de produ\u00e7\u00e3o que podem pagar somas vultosas para serem assinantes individuais dos servi\u00e7os das ag\u00eancias.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a origem das ag\u00eancias est\u00e1 extremamente relacionada a esse processo: de atender, por um lado, ao mercado jornal\u00edstico, especialmente no in\u00edcio, no s\u00e9culo 19, os jornais; e por outro lado, que n\u00e3o \u00e9 nada desprez\u00edvel, ao mercado financeiro. Eu tenho aqui alguns livros sobre hist\u00f3ria das ag\u00eancias; todos s\u00e3o gringos, todos s\u00e3o estrangeiros. Tirando os livros que s\u00e3o de autores assumidamente marxistas, todos os outros contam a hist\u00f3ria das ag\u00eancias como se fossem fruto do g\u00eanio individual de certos indiv\u00edduos, certos homens na Europa Ocidental de meados do s\u00e9culo 19. E n\u00e3o \u00e9 assim. Temos que considerar as condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas objetivas que permitiram e que criaram a demanda para o surgimento de um setor de fornecimento em atacado de informa\u00e7\u00e3o. \u00c9 a ascens\u00e3o definitiva da burguesia; as revolu\u00e7\u00f5es liberais de 1830 a 1848; o fim do modelo absolutista de Estado que inclusive censurava a imprensa; o estabelecimento da liberdade de imprensa como uma liberdade comercial, de explorar o mercado da informa\u00e7\u00e3o e o p\u00fablico: isso tudo \u00e9 fundamental. \u00c9 claro que, dentro disso, de fato houve movimentos individuais que levaram \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do modelo, mas se n\u00e3o fosse uma ou outra figura, teria aparecido de qualquer maneira, tanto que pipocaram v\u00e1rias ag\u00eancias diferentes na Europa Ocidental por essa \u00e9poca, anos 30 e 40 do s\u00e9culo 19.<\/p>\n<p>O primeiro deles teria sido Charles-Louis Havas, que era um financista; um cara que estava acostumado a investir em com\u00e9rcio. Tinha morado em Portugal e trabalhado com importa\u00e7\u00e3o de algod\u00e3o de Pernambuco para Portugal no finzinho do per\u00edodo colonial \u2013 1806, 1807. Quando h\u00e1 a invas\u00e3o napole\u00f4nica contra Portugal, em 1808, como franc\u00eas morando na cidade do Porto, ele sai, volta para a Fran\u00e7a, se instala em Ru\u00e3o \u2013 ele era da Normandia, do norte da Fran\u00e7a, e estava acostumado a lidar com com\u00e9rcio mar\u00edtimo, ent\u00e3o fica sempre em cidades portu\u00e1rias, Ru\u00e3o, Le Havre, tudo por ali. E ent\u00e3o ele ganha dinheiro com com\u00e9rcio e come\u00e7a a virar um dos burgueses que financiam as campanhas do Napole\u00e3o. Quando aprendemos no col\u00e9gio que Napole\u00e3o expandiu o ide\u00e1rio burgu\u00eas pela Europa\u2026 Sim, mas tinha que ter dinheiro para isso, para pagar os soldos dos soldados, armas, e de fato a burguesia ascendente financiou. O Havas era um desses caras; s\u00f3cio de um sujeito chamado Gabriel-Julien Ouvrard, que tamb\u00e9m era do mercado financeiro e concorrente dos Rothschild.<\/p>\n<p>O Ouvrard come\u00e7ou a entrar no mercado financeiro, na bolsa, fazendo o que hoje se chamaria de investimentos futuros, apostas para comprar a\u00e7\u00f5es que iriam subir ou descer. E ele tinha acesso a informa\u00e7\u00e3o privilegiada de dentro do Estado franc\u00eas, do imp\u00e9rio do Napole\u00e3o, e eles, sabendo que se tratava de um ciclo de ascens\u00e3o, ao menos at\u00e9 a invas\u00e3o da R\u00fassia, come\u00e7aram a ganhar dinheiro com isso, e Havas come\u00e7ou a investir em jornais. Assim foi at\u00e9 a Batalha de Waterloo. Quando houve a derrota definitiva do Napole\u00e3o, os dois perderam muito dinheiro, e o Havas, que tinha menos reservas, foi \u00e0 fal\u00eancia. A partir dessa fal\u00eancia ele come\u00e7a a procurar o que fazer para voltar a ter capital, e o que ele faz \u00e9 usar a rede de relacionamentos \u2013 de novo trazendo uma palavra extempor\u00e2nea, o \u201cnetworking\u201d [risos] \u2013 para que remetessem jornais de diferentes lugares da Europa para ele, que centralizaria tudo em seu escrit\u00f3rio em Paris, onde traduzia para o franc\u00eas, para vender tanto para os jornais parisienses quanto para os investidores da bolsa. Tanto que ele instalou seu escrit\u00f3rio na Place de la Bourse, a Pra\u00e7a da Bolsa. Ou seja: mudou o regime, Napole\u00e3o ganhou, Napole\u00e3o perdeu, mas a bolsa de valores continua funcionando, o capital financeiro n\u00e3o descansou [risos].<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o inventou completamente o modelo, j\u00e1 existiam as chamadas correspond\u00eancias privadas, que faziam esse tipo de recep\u00e7\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o de jornais, mas ele inovou em fazer isso de uma forma cont\u00ednua, montando a sua clientela e tendo uma rela\u00e7\u00e3o extremamente estreita com o Estado, porque a\u00ed ele come\u00e7ou a fornecer para os \u00f3rg\u00e3os do Estado franc\u00eas, j\u00e1 da monarquia Bourbon restaurada. Ent\u00e3o ele passou por todo o per\u00edodo das revolu\u00e7\u00f5es liberais \u2013 revolu\u00e7\u00e3o de 30, jornadas de junho, e agita\u00e7\u00f5es, at\u00e9 1848, quando ele recebe dois prussianos exilados. <\/p>\n<p>E a\u00ed \u00e9 interessante porque chegamos perto de Karl Marx, porque Marx tamb\u00e9m era um prussiano exilado em Paris por essa \u00e9poca, e havia toda uma comunidade de exilados de origem alem\u00e3 em Paris com matizes ideol\u00f3gicos diversos, que iam dos protocomunistas e socialistas ut\u00f3picos at\u00e9 os liberais. E havia um desses sujeitos, Sigmund Engl\u00e4nder, que fazia parte do c\u00edrculo pessoal do Marx e tamb\u00e9m do c\u00edrculo pessoal de um judeu chamado Israel Beer Josaphat, que era filho do rabino de Kassel, na Alemanha, que estava morando em Paris e foi trabalhar com o Havas. Israel, por falar franc\u00eas, alem\u00e3o e ter aprendido ingl\u00eas, depois de aprender o of\u00edcio com o Havas, resolveu montar o pr\u00f3prio escrit\u00f3rio, e nessa mesma \u00e9poca estava acontecendo a liga\u00e7\u00e3o do tel\u00e9grafo el\u00e9trico conectando diferentes cidades europeias. Ele identificou um ponto onde ainda n\u00e3o havia conex\u00e3o, entre Bruxelas e a cidade de Aachen. Ele se instala em Aachen para fazer algo como a \u201c\u00faltima milha\u201d, porque os cabos n\u00e3o tinham conectado esse \u00faltimo trecho, usando pombos-correio. E ele conseguiu ganhar dinheiro transmitindo informa\u00e7\u00f5es, especialmente econ\u00f4micas. Conseguiu juntar capital e se mudou para Londres. L\u00e1 ele quis se inserir na sociedade londrina, especialmente para fazer contatos junto ao mercado de capitais; se converteu ao cristianismo e mudou de nome para Paul Julius Reuter, transformando sua nova empresa, com o nome de Mr. Reuter\u2019s Telegraph Office (Escrit\u00f3rio Telegr\u00e1fico do Sr. Reuter). Aos poucos esse ap\u00f3strofo se perdeu e isso virou a ag\u00eancia Reuters.<\/p>\n<p>Um outro prussiano que tinha trabalhado com o Havas foi Bernhard Wolff, que era jornalista e livreiro de carreira e que tamb\u00e9m fundou um jornal na Alemanha, em Berlim. Fez a mesma coisa: aprendeu o of\u00edcio com o Havas e voltou para sua cidade, depois da revolu\u00e7\u00e3o, em 1849, e fundou a ag\u00eancia Wolff. Ao longo do resto do s\u00e9culo 19 essas tr\u00eas ag\u00eancias, Havas, Wolff e Reuters, ganharam dinheiro vendendo informa\u00e7\u00e3o especialmente para investidores do mercado financeiro. Estamos falando de bancos, de fundos de investimento, de seguradoras. O que uma seguradora faz? Ela tem que ter uma capacidade preditiva o mais f\u00e1cil poss\u00edvel, ent\u00e3o tem que ter informa\u00e7\u00e3o sobre a realidade para saber se paga pr\u00eamio, como precificar uma ap\u00f3lice, etc. Ent\u00e3o esse segmento foi o principal mercado para a sustenta\u00e7\u00e3o financeira das ag\u00eancias. Em segundo lugar vem a imprensa. A imprensa dava visibilidade, dava prest\u00edgio, mas n\u00e3o dava tanto dinheiro. E o terceiro agente pol\u00edtico com quem as ag\u00eancias sempre tiveram uma rela\u00e7\u00e3o muito forte era o Estado. Ent\u00e3o mais adiante, Otto Von Bismarck vai se aproximar do Wolff, fazer acordos, tenta inclusive uma estatiza\u00e7\u00e3o da ag\u00eancia Wolff \u2013 n\u00e3o consegue, mas ao menos cria subs\u00eddios para sustent\u00e1-la como uma esp\u00e9cie de \u00f3rg\u00e3o paraestatal alem\u00e3o. O governo brit\u00e2nico faz coisa parecida com a Reuters, a usa como uma esp\u00e9cie de diplomacia paralela do imp\u00e9rio brit\u00e2nico; e ela vai aproveitando a instala\u00e7\u00e3o dos cabos telegr\u00e1ficos ao redor do globo, muitos deles indo na mesma dire\u00e7\u00e3o das demandas coloniais \u2013 depois que cabeiam a Europa, v\u00e3o para a \u00cdndia, cruzando o Oriente M\u00e9dio. Porque pense do ponto de vista do administrador colonial: uma coisa era ter que esperar meses de tr\u00e2nsito de navio para receber uma informa\u00e7\u00e3o do seu preposto colonial perguntando \u201cO que eu fa\u00e7o? Est\u00e1 tendo uma revolta de sipaios!\u201d e o governo da sede do imp\u00e9rio iria responder. Com o tel\u00e9grafo, \u00e9 muito mais r\u00e1pido, conseguiam dar respostas para a administra\u00e7\u00e3o colonial do imp\u00e9rio com muito mais facilidade, e a Reuters agiu nisso \u2013 tanto que ela abriu escrit\u00f3rios em basicamente todos os lugares onde havia col\u00f4nias brit\u00e2nicas.<\/p>\n<p>Essas ag\u00eancias dividem o mundo. Primeiro fazem um acordo para trocar informa\u00e7\u00f5es sobre suas respectivas bolsas de valores, com cada uma cuidando de uma bolsa e enviando para as outras. Come\u00e7aram com esse acordo e perceberam que conseguiam poupar recursos e explorar melhor os seus mercados se fizessem divis\u00f5es territoriais de atua\u00e7\u00e3o exclusiva. Ent\u00e3o de fato elas fizeram um cartel \u2013 isso come\u00e7ou em 1859, e depois v\u00e3o fazendo v\u00e1rios termos aditivos para dividir o mundo inteiro. Dividiram basicamente nas linhas de divis\u00e3o imperialista, at\u00e9 mais ou menos 1874, onde a \u00faltima parte que faltava era justamente a Am\u00e9rica do Sul, quando h\u00e1 a inaugura\u00e7\u00e3o do cabo telegr\u00e1fico submarino que vem de Lisboa, passa por Cabo Verde, chega a Recife, e de l\u00e1 distribui ao longo do litoral brasileiro. Na Am\u00e9rica do Sul elas fazem uma joint venture (empreendimento conjunto) entre a Havas e a Reuters. E esse cartel durou at\u00e9 a d\u00e9cada de 1930: em 1934 \u00e9 o fim oficial desse esquema de cartel, que acabou precisamente pela press\u00e3o das ag\u00eancias dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Revista Opera: \u00c9 interessante que em uma das suas pesquisas, creio que na \u201cMarx explica a Reuters\u201c, voc\u00ea diz que esse modo de produ\u00e7\u00e3o fordista nas ag\u00eancias de not\u00edcia de certa forma antecede o fordismo em si, e que essa carteliza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m antecede ao menos um ordenamento oficial dos cart\u00e9is imperialistas, em algo como 20 anos. Isso \u00e9 interessante porque \u00e0 primeira vista n\u00e3o pensamos que o ordenamento do fluxo de informa\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento das ag\u00eancias de not\u00edcias teriam essa import\u00e2ncia, quer dizer, o capitalismo precisa de informa\u00e7\u00e3o, de alguma forma. Queria que falasse sobre isso, o papel que esse esquema das ag\u00eancias e o fluxo de informa\u00e7\u00e3o cumpre para o desenvolvimento capitalista mesmo\u2026 Porque \u00e9 algo meio vanguardista; estavam com um modo de produ\u00e7\u00e3o fordista e carteliza\u00e7\u00e3o antes.<\/p>\n<p>Pedro Aguiar: Isso \u00e9 fundamental. As ag\u00eancias de not\u00edcia s\u00e3o parte intr\u00ednseca do processo de industrializa\u00e7\u00e3o. De fato s\u00e3o uma manifesta\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o industrial no setor da comunica\u00e7\u00e3o, talvez inclusive a primeira, antes mesmo da industrializa\u00e7\u00e3o dos jornais, que demoraram a ter prensa rotativa e prensa a vapor; processos que v\u00e3o come\u00e7ar na virada do s\u00e9culo 18 para o 19, mas que demoram a se espalhar para o mundo \u2013 os jornais aqui no Brasil usaram prelo manual at\u00e9 o final do s\u00e9culo 19.<\/p>\n<p>E elas se antecedem, sim, nisso. O fordismo ao p\u00e9 da letra, nas f\u00e1bricas automobil\u00edsticas de Henry Ford, acontece pouco antes da Primeira Guerra Mundial\u2026 Mas as ag\u00eancias operam dentro de uma mesma l\u00f3gica de produ\u00e7\u00e3o linear, padronizada e massificada. \u00c9 claro que \u00e9 muito mais f\u00e1cil fazer boletins de imprensa do que carros. Mas a l\u00f3gica que  permeia a produ\u00e7\u00e3o de ambos \u00e9 id\u00eantica, muito parecida.<\/p>\n<p>Revista Opera: Por outro lado, o boletim de not\u00edcia demanda uma infraestrutura muito maior do que a de uma f\u00e1brica, por exemplo\u2026<\/p>\n<p>Pedro Aguiar: Geograficamente muito maior, mas em termos de complexidade tecnol\u00f3gica muito mais simples, porque basta estender os cabos de cobre pelo mundo inteiro, enrolados em guta-percha, que \u00e9 uma resina tipo l\u00e1tex extra\u00edda do sudeste asi\u00e1tico.<\/p>\n<p>Bom, \u00e9 importante olhar esse contexto de industrializa\u00e7\u00e3o: na Europa Ocidental, nos Estados Unidos, s\u00f3 a partir da Revolu\u00e7\u00e3o Meiji no Jap\u00e3o. Esse processo vai se espalhando com o imperialismo para o resto do mundo, para as col\u00f4nias. E havia imprensa nessas col\u00f4nias, imprensa inclusive gerida pelos colonizadores; os brancos europeus na \u00c1frica mantinham jornais, que eram o meio pelo qual mantinham contato com suas metr\u00f3poles e tamb\u00e9m organizavam suas a\u00e7\u00f5es imperialistas. Um imperialista como Cecil Rhodes, na \u00c1frica, que queria ligar o Cabo, na \u00c1frica do Sul, ao Cairo, no Egito; ele n\u00e3o queria ligar s\u00f3 com ferrovia, queria ligar tamb\u00e9m com o cabo telegr\u00e1fico. E em muitos casos o modelo de expans\u00e3o das ferrovias se aliou ao modelo de expans\u00e3o da telegrafia: em v\u00e1rios pa\u00edses, inclusive no Brasil, impuseram como uma norma do modelo de concess\u00e3o de linhas ferrovi\u00e1rias que se constru\u00edssem junto delas os cabos telegr\u00e1ficos.<\/p>\n<p>E para ir pro modelo norte-americano, que ainda n\u00e3o falamos: nos Estados Unidos as ag\u00eancias tiveram um modelo interessante, que foi inovador naquela \u00e9poca e que depois se tornou hegem\u00f4nico em outros lugares. Enquanto na Europa t\u00ednhamos tido esses \u201cempreendedores individuais\u201d \u2013 com muitas aspas \u2013, o que aconteceu nos Estados Unidos foi um modelo de associa\u00e7\u00e3o de diferentes jornais; depois esses jornais se juntam em conglomerados de imprensa, em associa\u00e7\u00f5es dos conglomerados, para montar cons\u00f3rcios que fornecessem not\u00edcias para todos eles. Que tivessem uma opera\u00e7\u00e3o centralizada de coleta, capta\u00e7\u00e3o e apura\u00e7\u00e3o das not\u00edcias, tivessem um pool de reportagem, mas uma distribui\u00e7\u00e3o descentralizada para cada um usar o que recebesse como preferisse. Isso come\u00e7ou em Nova Iorque, em 1846, no in\u00edcio da Guerra Mexicano-Americana, quando os Estados Unidos invadiram metade do M\u00e9xico, com seis jornais de Nova Iorque que eles chamavam de Harbor News Association (Associa\u00e7\u00e3o da Imprensa da Ba\u00eda), da Ba\u00eda de Hudson, em Manhattan. E essa associa\u00e7\u00e3o foi o embri\u00e3o da Associated Press (AP), que tem esse nome, \u201cassociated\u201d, n\u00e3o \u00e0 toa; de fato era uma associa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ela se define at\u00e9 hoje como uma entidade sem fins lucrativos, o que parece meio rid\u00edculo, porque \u00e9 uma gigante multinacional \u2013 mas ela se define assim porque ao inv\u00e9s de ter a ideia de ter lucros e dividendos a distribuir, ela diz que na verdade tem um custo de produ\u00e7\u00e3o e os associados dividem proporcionalmente esses custos. Ou seja: dizem que o que essas associadas pagam pela associa\u00e7\u00e3o \u00e9 anulado pelo que recebem de lucros; claro que gera lucros para os associados.<\/p>\n<p>Hoje em dia \u00e9 uma associa\u00e7\u00e3o dos grandes conglomerados de m\u00eddia dos Estados Unidos \u2013 a Disney faz parte da Associated Press; a Gannett, que atualmente \u00e9 o principal grupo de imprensa; o grupo Knight Ridder; o Cox Media Group. L\u00e1 nos Estados Unidos muito do que se criou do chamado \u201cdeserto de not\u00edcias\u201d \u00e9 resultado do fechamento de jornais locais por causa da associa\u00e7\u00e3o a esses conglomerados que s\u00e3o extremamente financeirizados, que dependem de capital financeiro, do investimento feito neles.<\/p>\n<p>As outras ag\u00eancias dos Estados Unidos come\u00e7am como uma esp\u00e9cie de rea\u00e7\u00e3o dos outros conglomerados que ficaram de fora da AP; por exemplo a United Press, que come\u00e7ou com o grupo Scripps, depois chamado de Scripps Howard \u2013 esse Howard era um dos empregados da United Press que depois virou s\u00f3cio. Outra foi a do grupo Hearst, figura que inspirou o Cidad\u00e3o Kane, o William Randolph Hearst. Ele fundou a International News Service, que funcionou separada da United Press e s\u00f3 em 1858 se fundiram, nascendo a UPI, que foi extremamente importante no contexto da Guerra Fria na Am\u00e9rica Latina, e depois, nos anos 1980, quase faliu, sendo vendida cinco vezes e parando na m\u00e3o do reverendo Moon, o l\u00edder evang\u00e9lico sul-coreano ultraconservador.<\/p>\n<p>Esse modelo das ag\u00eancias \u201ccooperativas\u201d \u2013 n\u00e3o s\u00e3o cooperativas dos jornalistas, \u00e9 um cons\u00f3rcio empresarial dos conglomerados \u2013 \u00e9 o modelo que predomina hoje na Alemanha, It\u00e1lia e Jap\u00e3o: a DPA na Alemanha \u00e9 uma associa\u00e7\u00e3o dos conglomerados alem\u00e3es; a ANSA da It\u00e1lia a mesma coisa, com o grupo do Berlusconi, o grupo do Corriere della Sera; e no Jap\u00e3o a ag\u00eancia Kyodo, que quer dizer a mesma coisa, \u201cimprensa associada\u201d. \u00c9 interessante porque essa ideia come\u00e7ou a ser ventilada no Brasil no in\u00edcio dos anos 60, no governo do J\u00e2nio Quadros, que chamou uma vez para conversar os Mesquita, do Estad\u00e3o, Nascimento Brito, do Jornal do Brasil, os Di\u00e1rios Associados e o Correio da Manh\u00e3, para que os jornais brasileiros montassem uma ag\u00eancia unificada. Teria sido incr\u00edvel, mas o J\u00e2nio renunciou dias depois e a ideia nunca mais foi adiante.<\/p>\n<p>Revista Opera: Quando a internet surge, ou melhor, quando come\u00e7a a se popularizar, h\u00e1 uma expectativa, uma esperan\u00e7a, de que ela iria significar uma descentraliza\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o, uma democratiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e da circula\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o\u2026 E se aponta a ascens\u00e3o da internet at\u00e9 como uma das raz\u00f5es do decl\u00ednio dos jornais. Como \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o da internet com as ag\u00eancias de not\u00edcia? Esse fluxo de informa\u00e7\u00e3o foi impactado? Porque continuamos vendo a Reuters e a AP nas manchetes [risos].<\/p>\n<p>Pedro Aguiar: Teve um impacto. A rela\u00e7\u00e3o no in\u00edcio n\u00e3o foi muito conflituosa nem amea\u00e7adora, porque as ag\u00eancias se informatizaram cedo. Na d\u00e9cada de 70 elas j\u00e1 estavam usando mainframes, grandes computadores, para informatizar a sua capacidade de distribui\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os informativos. A reda\u00e7\u00e3o continuava com m\u00e1quina de escrever, mas o setor de distribui\u00e7\u00e3o j\u00e1 estava informatizado.<\/p>\n<p>Depois, nos anos 80, eles come\u00e7aram a informatizar as reda\u00e7\u00f5es. E a\u00ed quando a internet se torna acess\u00edvel, especialmente por conta da web \u2013 que \u00e9 a interface gr\u00e1fica, vamos lembrar que nos anos 80 estamos falando de puro texto \u2013 elas n\u00e3o se assustam, porque j\u00e1 estavam com sistemas digitais de distribui\u00e7\u00e3o para seus clientes usando intranet, redes de acesso fechado. A Reuters j\u00e1 fazia isso, especialmente com o mercado financeiro, mas quem come\u00e7ou em 1982 a fazer esse servi\u00e7o de tr\u00e1fego de informa\u00e7\u00e3o em tempo real da bolsa de valores para os clientes foi a Bloomberg \u2013 n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que o Michael Bloomberg chegou a virar prefeito de Nova Iorque, ser quase duas vezes presidenci\u00e1vel. Esse cara poderia ter sido presidenci\u00e1vel mesmo do Partido Republicano, n\u00e3o teria havido o Trump\u2026 Mas voc\u00ea veja, um cara que \u00e9 fundador de ag\u00eancia de not\u00edcias, o equivalente ao Charles Havas no s\u00e9culo 21, e ele poderia ter sido presidente dos Estados Unidos. Ent\u00e3o n\u00e3o estamos falando de empresas que n\u00e3o tenham rela\u00e7\u00f5es com a classe dominante, mas de gente que de fato faz parte da classe dominante, toma u\u00edsque com os donos dos meios de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E quando a internet se torna algo no qual todos os jornais t\u00eam de participar, e nascem ali os portais na virada dos anos 90 para os anos 2000, muda-se o paradigma da produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fado. Depois deixa de ser aquela produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fado centrada nos portais, que eram jardins murados dos quais o usu\u00e1rio n\u00e3o deveria sair, e passa a ser o modelo de web 2.0, do produza voc\u00ea mesmo: voc\u00ea cria a plataforma e o pr\u00f3prio usu\u00e1rio coloca conte\u00fado l\u00e1 dentro, \u00e9 nesse est\u00e1gio que estamos atualmente. Tudo isso gerou demanda de mercado para as ag\u00eancias, ent\u00e3o se voc\u00ea entrar, at\u00e9 hoje, em qualquer portal \u2013 UOL, IG, R7, G1 \u2013 e for naquela se\u00e7\u00e3o de \u00faltimas not\u00edcias, praticamente tudo o que vem de l\u00e1 vai ser de ag\u00eancia. Era uma \u00e9poca de produ\u00e7\u00e3o e republica\u00e7\u00e3o t\u00e3o automatizada, sem um ser humano olhando o que est\u00e1 sendo publicado\u2026 Eu me lembro de enviar, da ag\u00eancia, um aviso do tipo \u201ccaros clientes, informamos que nesta quarta-feira n\u00e3o teremos informa\u00e7\u00e3o da bolsa de Bangkok por ser um feriado local\u201d, e isso ir parar na se\u00e7\u00e3o de \u00faltimas not\u00edcias\u2026 Uma comunica\u00e7\u00e3o interna, da ag\u00eancia pro cliente, mas eles tinham algoritmos de republica\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica. Ent\u00e3o isso gerou mercado, de fato, e as ag\u00eancias n\u00e3o se abalaram de in\u00edcio.<\/p>\n<p>O que come\u00e7ou a abalar foi justamente o fato de, a partir de certo momento, parecer que o servi\u00e7o delas estava sendo republicado t\u00e3o na \u00edntegra que terceiros, n\u00e3o clientes das ag\u00eancias, passaram a usar \u2013 era muito comum voc\u00ea ver um site por exemplo fora do eixo Rio-S\u00e3o Paulo republicando uma mat\u00e9ria internacional que originalmente veio de alguma dessas ag\u00eancias, mas tirado, por exemplo, do G1. Mas o G1 n\u00e3o \u00e9 uma ag\u00eancia; \u00e9 um cliente da ag\u00eancia que paga pelo servi\u00e7o da ag\u00eancia, e esse terceiro n\u00e3o. As ag\u00eancias come\u00e7aram a perceber que a\u00ed estavam perdendo dinheiro, e isso foi um primeiro problema: come\u00e7aram a apertar o controle sobre a reprodu\u00e7\u00e3o de seu conte\u00fado \u2013 em texto, mas mais fortemente ainda em foto.<\/p>\n<p>O segundo ponto de conflito das ag\u00eancias com a internet \u2013 ou melhor, com as big techs, Google, Amazon, Facebook, Apple e Microsoft (GAFAM) \u2013 vem do fato dessas cinco gigantes tecnol\u00f3gicas se apropriarem do material das ag\u00eancias e republic\u00e1-lo, ganhando dinheiro com publicidade em cima disso. Ent\u00e3o as ag\u00eancias em alguns lugares est\u00e3o enfrentando essas gigantes tecnol\u00f3gicas, fazendo lobby para que os Estados regulem essas gigantes e repassem uma parte do dinheiro ganho com publicidade para as ag\u00eancias. Repare: as ag\u00eancias n\u00e3o est\u00e3o brigando com a m\u00eddia, que \u00e9 o seu cliente, mas brigando com as gigantes tecnol\u00f3gicas. Isso \u00e9 interessante, \u00e9 uma batalha em andamento agora que \u00e9 interessante acompanhar; est\u00e1 em andamento especialmente na Uni\u00e3o Europeia e um pouco na Austr\u00e1lia.<\/p>\n<p>Mas as grandes ag\u00eancias n\u00e3o est\u00e3o amea\u00e7adas, n\u00e3o est\u00e3o com sua economia fr\u00e1gil; pelo contr\u00e1rio, est\u00e3o bastante fortalecidas. Agora, as ag\u00eancias de n\u00edvel nacional ou local, se n\u00e3o forem de nicho, essas sim t\u00eam seus mercados amea\u00e7ados exatamente pelo oligop\u00f3lio que as ag\u00eancias transnacionais operam. E essa situa\u00e7\u00e3o de oligop\u00f3lio \u00e9 muito curiosa, porque como a gente viu, desde a hist\u00f3ria do cartel do s\u00e9culo 19, a impress\u00e3o que d\u00e1 \u00e9 que as ag\u00eancias n\u00e3o sabem operar em outra situa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o seja de monop\u00f3lio, justamente por conta de sua economia de escala. Ela s\u00f3 \u00e9 rent\u00e1vel se ela tiver uma base de clientela enorme. Como \u00e9 que voc\u00ea vai ter uma base de clientela enorme se houver ampla concorr\u00eancia? Voc\u00ea precisa de poucos concorrentes; e atualmente \u00e9 raro um jornal, mesmo um grande, assinar v\u00e1rias ag\u00eancias \u2013 ele escolhe duas ou tr\u00eas, normalmente uma que seja boa em esportes, outra que seja boa em economia, etc. Mas mesmo um grande jornal, como a Folha de S. Paulo ou O Globo, n\u00e3o tem bala na agulha para ter todas as ag\u00eancias do mundo \u2013 os jornais do in\u00edcio do s\u00e9culo 20 sim. O Jornal do Brasil colocava no alto de sua primeira p\u00e1gina: \u201ccom os servi\u00e7os de Havas, Reuters, AP, UP\u2026\u201d, a lista de todas as ag\u00eancias.<\/p>\n<p>Revista Opera: No Brasil n\u00f3s n\u00e3o desenvolvemos um mercado de ag\u00eancias; para citar uma de suas pesquisas, \u201cnunca houve um mercado nacional expressivo de ag\u00eancias de not\u00edcias\u201d, a n\u00e3o ser o mercado de syndication \u2013 ou seja, um mercado de redistribui\u00e7\u00e3o das mat\u00e9rias dos pr\u00f3prios jornais. A que voc\u00ea atribui isso? Quer dizer, temos um pa\u00eds gigantesco, num ponto importante do continente sul-americano e da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Pedro Aguiar: Um primeiro elemento \u00e9 o nosso patrimonialismo, que existe nessa rela\u00e7\u00e3o imbricada entre Estado e capital privado. Um pouco aquela frase que atribuem ao Dirceu, cuja fonte seria o Requi\u00e3o, em que disseram para ele: \u201cDirceu, precisamos criar a nossa pr\u00f3pria televis\u00e3o\u201d, ao que o Dirceu teria dito \u201cn\u00f3s j\u00e1 temos nossa pr\u00f3pria televis\u00e3o, \u00e9 a Globo.\u201d Ent\u00e3o o patrimonialismo j\u00e1 seria um elemento, o capital privado pensando: \u201cpara que vou criar uma estrutura pr\u00f3pria de redistribui\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o, se eu j\u00e1 posso usar a do Estado?\u201d. Esse \u00e9 um ponto.<\/p>\n<p>Outro ponto \u00e9 que temos um pa\u00eds com desigualdades imensas com um mercado consumidor de jornalismo que historicamente foi muito pequeno. At\u00e9 a pol\u00edtica de integra\u00e7\u00e3o pelo consumo do governo Lula, dos governos petistas, t\u00ednhamos uma imprensa, de forma geral, voltada para a elite. E para as massas eram os meios de comunica\u00e7\u00e3o de radiodifus\u00e3o, r\u00e1dio e televis\u00e3o. Houve um ensaio de mudan\u00e7a nos governos petistas com a cria\u00e7\u00e3o dos jornais populares \u2013 Extra, Meia Hora, Agora S\u00e3o Paulo, Aqui \u2013 e os jornais gratuitos, o Destak e o Metro. Esses jornais eram para ser lidos pelas classes C, D e E. Isso faria aumentar o mercado. Se voc\u00ea n\u00e3o tem esse mercado expandido, n\u00e3o h\u00e1 mercado para ag\u00eancias de not\u00edcias. Ent\u00e3o o desenvolvimento do setor de ag\u00eancias costuma ser muito atrelado \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de um forte mercado de consumo interno, porque mesmo as grandes ag\u00eancias d\u00e3o prioridade para seus mercados internos. Era muito claro quando eu trabalhava em uma ag\u00eancia espanhola que a prioridade dela n\u00e3o eram os clientes da Am\u00e9rica Latina, mas os clientes na Espanha, at\u00e9 para pautar certos assuntos ou dar cobertura a certos personagens \u2013 por exemplo, para cobrir F\u00f3rmula 1, era basicamente Fernando Alonso de um lado e o resto do outro.<\/p>\n<p>Isso fica muito evidente: a AP tem metade de seus escrit\u00f3rios dentro dos Estados Unidos, a outra metade no resto do mundo; a AFP tamb\u00e9m \u00e9 voltada para a Fran\u00e7a e em segundo lugar para os clientes do resto do mundo \u2013 ganha dinheiro com isso, mas a prioridade \u00e9 o mercado interno. Ent\u00e3o n\u00e3o tendo um mercado interno fortalecido no Brasil, j\u00e1 era um pequeno problema. <\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, se criou tamb\u00e9m uma imagem errada de que as ag\u00eancias s\u00e3o revendedoras de conte\u00fado, e isso vem l\u00e1 de tr\u00e1s, e \u00e9 um modelo que se cristalizou no Brasil, isso que se chama de syndication. As ag\u00eancias que vieram depois \u2013 Ag\u00eancia Estado, Folhapress e Ag\u00eancia O Globo \u2013 fazem exatamente isso. E atualmente ganham mais dinheiro com foto do que com texto. Elas revendem not\u00edcia? Revendem. Mas o que d\u00e1 renda \u00e9 revenda de fotografia e de colunas, de colunistas, agenciada por uma ag\u00eancia e revendida para jornais do norte, centro-oeste, sul, que queiram republicar.<\/p>\n<p>H\u00e1, como \u00faltimo fator, uma falta de vis\u00e3o estrat\u00e9gica do nosso empresariado. Eu n\u00e3o gostaria de recorrer \u00e0quela explica\u00e7\u00e3o do Fernando Henrique, dos capit\u00e3es de ind\u00fastria, mas me parece que o nosso empresariado realmente n\u00e3o tem uma vis\u00e3o de conjunto, porque mesmo na Argentina os donos do Clar\u00edn, do La Naci\u00f3n, do Cr\u00edtica, chegaram a montar uma ag\u00eancia cooperativa, que era a DYN, que fechou no governo Macri. E era exatamente isso: uma ag\u00eancia dos jornais para fornecer para jornais menores ainda e para o exterior. Em Portugal, a LUSA \u00e9 uma parceria p\u00fablico-privada em que o Estado portugu\u00eas tem pouco mais de 50% das a\u00e7\u00f5es e todo o resto s\u00e3o a SIC, o grupo do jornal P\u00fablico, do Correio da Manh\u00e3, etc. H\u00e1 v\u00e1rios modelos de cons\u00f3rcios empresariais puramente, o modelo estatal e o modelo de parceria p\u00fablico-privada. E n\u00f3s aqui n\u00e3o seguimos nenhum destes, n\u00e3o temos de fato uma ag\u00eancia que seja realmente nacional, em que nossa imprensa possa confiar e em que a imprensa estrangeira possa confiar para usar como fonte quando for a hora de cobrir o Brasil. O que a gente viu de desinforma\u00e7\u00e3o\u2026 Quando chegou 2013 os correspondentes estavam todos desorientados, ningu\u00e9m sabia dar uma interpreta\u00e7\u00e3o porque n\u00e3o havia uma cobertura cont\u00ednua de nossa realidade. As ag\u00eancias t\u00eam esse fator; a gente conhece os Estados Unidos porque cobrem continuamente; conhecemos Fran\u00e7a porque a cobertura \u00e9 cont\u00ednua. A ag\u00eancia tem esse papel de organizar a circula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o primeiro em um n\u00edvel nacional e depois no n\u00edvel internacional. E aqui a gente realmente est\u00e1 desprovido disso.<\/p>\n<p>Revista Opera: O que essa centraliza\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o, e mais do que na produ\u00e7\u00e3o, na distribui\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o, implica em termos de ideologia, representa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds? Por que seria importante um jornal ter um correspondente em cada estado ou ter correspondentes l\u00e1 fora que n\u00e3o estejam em Nova Iorque para cobrir tudo, em Buenos Aires para cobrir Am\u00e9rica Latina inteira? Faz sentido ainda falar em imperialismo cultural ou midi\u00e1tico? <\/p>\n<p>Pedro Aguiar: Faz todo sentido, o meu autor predileto para falar de ag\u00eancias de not\u00edcia, o Oliver Boyd-Barrett, acabou de lan\u00e7ar um livro para refor\u00e7ar o conceito de imperialismo de m\u00eddia, ent\u00e3o \u00e9 algo que est\u00e1 plenamente de acordo com o que vemos na realidade emp\u00edrica de circula\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o. E acho que modelos te\u00f3ricos que tenham sido pensados em um contexto tecnol\u00f3gico pr\u00e9-internet n\u00e3o est\u00e3o envelhecidos no seu cerne conceitual, talvez na an\u00e1lise dos procedimentos, que de fato mudou muito. N\u00e3o vamos negar, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel negar que exista imperialismo de m\u00eddia quando a gente tem praticamente toda a m\u00eddia dos pa\u00edses perif\u00e9ricos do planeta dependendo dessas tr\u00eas ag\u00eancias que est\u00e3o sediadas em Nova Iorque, Paris e Londres. Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma impress\u00e3o [risos].<\/p>\n<p>Ter uma rede de correspondentes \u00e9 algo muito caro. Voc\u00ea pode escolher entre ter um escrit\u00f3rio todo, que tenha uma estrutura, luz, energia, computadores, conex\u00e3o via sat\u00e9lite; voc\u00ea pode ter um correspondente sozinho, que trabalha de casa mas tem que fazer tudo, \u00e9 seu pr\u00f3prio produtor, motorista, int\u00e9rprete; e voc\u00ea pode ter os freelas, os chamados stringers, que s\u00e3o chamados eventualmente quando h\u00e1 alguma demanda de cobertura do local onde est\u00e3o instalados. As ag\u00eancias usam esses diferentes n\u00edveis para escolher o quanto investem em cada lugar. Em cidades nas quais elas sabem que h\u00e1 um mercado local e uma demanda de not\u00edcias cont\u00ednua, elas montam um escrit\u00f3rio, um bir\u00f4 ou, no jarg\u00e3o das ag\u00eancias latinas, uma delega\u00e7\u00e3o. Em cidades grandes, mas que n\u00e3o t\u00eam uma cobertura cont\u00ednua, elas botam um correspondente. E em cidades especialmente de pa\u00edses mais pobres, que elas quase n\u00e3o cobrem, elas t\u00eam contatos de stringers que s\u00e3o acionados de vez em quando.<\/p>\n<p>Quando eu fiz o mapeamento de onde estavam esses correspondentes, foi chocante ver que os stringers estavam praticamente todos concentrados na zona equatorial do planeta, nos pa\u00edses mais quentes; na Am\u00e9rica Central, Caribe, na \u00c1frica Ocidental, no Sahel, no Chifre da \u00c1frica, e depois essa linha continuava para a \u00c1sia, no sudeste asi\u00e1tico. Eu fiquei muito surpreso. Elas n\u00e3o d\u00e3o muita aten\u00e7\u00e3o para esses pa\u00edses; t\u00eam o contato de algu\u00e9m, \u201cse precisar eu aciono\u201d. E quando voc\u00ea ia para as zonas temperadas e mais perto dos polos, voc\u00ea via a instala\u00e7\u00e3o ou de correspondentes f\u00edsicos ou de escrit\u00f3rios. E essa geografia n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa, elas tem um certo preconceito, sim, com esses pa\u00edses. <\/p>\n<p>E no entanto eu vou defend\u00ea-las num ponto, quanto a essa vis\u00e3o sobre os pa\u00edses: quando se diz por exemplo que a m\u00eddia n\u00e3o cobre a \u00c1frica, \u00e9 muito f\u00e1cil apontar o dedo para as ag\u00eancias de not\u00edcias. Quando eu trabalhava em ag\u00eancia eu reparava que t\u00ednhamos uma cobertura cont\u00ednua de \u00c1frica, em basicamente todos os pa\u00edses, e o que acontece \u00e9 que os clientes que recebiam essas not\u00edcias muitas vezes n\u00e3o tinham interesse em publicar. A n\u00e3o ser quando fosse caso de guerra, golpe de estado, crise humanit\u00e1ria. E da\u00ed se forma, sim, um conceito no p\u00fablico de que \u201cpuxa, \u00e9 s\u00f3 isso que tem na \u00c1frica\u201d. Claro. Sempre dou esse exemplo para os alunos: voc\u00ea nunca escuta falar do Malawi na sua vida. Quando voc\u00ea escuta, dez anos atr\u00e1s, \u00e9 a not\u00edcia de uma crise humanit\u00e1ria; cinco anos atr\u00e1s a de um golpe de estado; hoje de uma cat\u00e1strofe, voc\u00ea pensa: \u201cs\u00f3 tem coisa errada no Malawi.\u201d Ao longo de dez anos voc\u00ea ouviu tr\u00eas vezes, s\u00f3 coisa negativa, ent\u00e3o \u00e9 claro que acaba formando essa ideia. Mas nesse caso a culpa n\u00e3o \u00e9 das ag\u00eancias, mas dos ve\u00edculos, que n\u00e3o t\u00eam esse interesse.<\/p>\n<p>E eu digo isso porque muitas das pesquisas que foram feitas nos anos 70 para subsidiar a campanha por uma Nova Ordem Mundial na Informa\u00e7\u00e3o e Comunica\u00e7\u00e3o (NOMIC) foram pesquisas quantitativas, para quantificar quanto das mat\u00e9rias internacionais que sa\u00edam nos jornais advinham das ag\u00eancias; nada de \u00c1frica, Am\u00e9rica Central, Oceania. Mas isso foi medido a partir da ag\u00eancia ou a partir do jornal? Porque se for de jornal h\u00e1 de se acrescentar o filtro que o jornal botou na ponta final do processo. Ent\u00e3o n\u00e3o d\u00e1 pra dizer que a ag\u00eancia n\u00e3o d\u00e1 a not\u00edcia; muitas vezes d\u00e1, e inclusive porque ela tem interesses econ\u00f4micos ali para seus clientes.<\/p>\n<p>Agora, do ponto de vista estrat\u00e9gico de um pa\u00eds, realmente\u2026 Eu vou tentar n\u00e3o ser caio-pradista aqui, acreditar em uma burguesia nacional benevolente, mas veja bem: os casos que eu consegui relatar de ag\u00eancias de pa\u00edses perif\u00e9ricos que conseguiram ter uma estrutura e manter a sua distribui\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o de maneira sustent\u00e1vel ou s\u00e3o de pa\u00edses socialistas \u2013 China, Vietn\u00e3 \u2013, sustentadas por investimento estatal; ou s\u00e3o associa\u00e7\u00f5es entre Estado e capital privado, por isso disse que queria evitar acreditar nessa quimera da burguesia nacional.<\/p>\n<p>A Notimex, do M\u00e9xico, \u00e9 uma ag\u00eancia grande, sediada na Cidade do M\u00e9xico, com correspondentes por todos os estados do M\u00e9xico e mais na Am\u00e9rica Latina, alguns poucos na \u00c1frica, mas tem tamb\u00e9m na \u00c1sia e Europa, e por que ela se sustenta? Porque ela \u00e9 estatal, totalmente estatal, mas a imprensa e a m\u00eddia privada do M\u00e9xico contrata, assina e usa os servi\u00e7os da Notimex. N\u00e3o havendo isso \u00e9 dif\u00edcil manter uma ag\u00eancia de porte nacional que tenha tamb\u00e9m servi\u00e7o internacional.<\/p>\n<p>Eu s\u00f3 vejo isso acontecendo no Brasil se de fato os tr\u00eas jornal\u00f5es decidissem acabar com suas ag\u00eancias pr\u00f3prias e unificassem as tr\u00eas. E se isso fosse feito em associa\u00e7\u00e3o com o Estado brasileiro e com a Empresa Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o (EBC), seria um passo al\u00e9m, mas pensando s\u00f3 numa reuni\u00e3o dos tr\u00eas jornal\u00f5es, ao inv\u00e9s deles terem correspondentes s\u00f3 no circuito Nova Iorque, Londres, Paris (correspondentes redundantes), eles poderiam ter correspondentes permanentes em Buenos Aires, em Luanda \u2013 n\u00e3o estou falando s\u00f3 de ideologia, \u201cnossos amigos africanos\u201d; \u00e9 interesse econ\u00f4mico brasileiro, diamante, petr\u00f3leo, mercado consumidor, at\u00e9 Igreja Universal. Temos la\u00e7os econ\u00f4micos e pol\u00edticos com Angola que v\u00eam do s\u00e9culo 17. E n\u00e3o temos uma cobertura permanente de l\u00e1. Ent\u00e3o pensando em termos estrat\u00e9gicos daria para fazer, mas n\u00e3o vejo isso sendo feito; ou \u00e9 pelo Estado ou por uma alian\u00e7a do capital privado, ou os dois juntos.<\/p>\n<p>Por enquanto, o que a gente v\u00ea em termos de mapeamento de fluxos de informa\u00e7\u00e3o no sistema-mundo repete o tr\u00e1fego de mercadorias tang\u00edveis e de transportes. O Atl\u00e2ntico Norte com um fluxo intenso \u2013 Am\u00e9rica do Norte e Europa Ocidental \u2013, um fluxo bem mais recente no Pac\u00edfico \u2013 Am\u00e9rica do Norte, China e Jap\u00e3o \u2013, algum fluxo do sul para o norte, e quase nenhum fluxo no eixo sul-sul. O incentivo ao tr\u00e1fego, tanto de mercadorias tang\u00edveis quanto de transportes e de informa\u00e7\u00e3o, est\u00e1 atrelado. E eu gostaria de ser otimista, mas cairia na utopia de achar que isso aconteceria somente com boa vontade. O capitalismo se alimenta da concentra\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica, dentro de um capitalismo global n\u00e3o haver\u00e1 esse fluxo sul-sul.<\/p>\n<p>Revista Opera: N\u00f3s tivemos no bojo da Guerra Fria uma s\u00e9rie de processos de liberta\u00e7\u00e3o nacional, tanto na Am\u00e9rica Latina quanto na \u00c1frica e \u00c1sia, e esses estados, digamos, nascentes, come\u00e7aram a fazer suas pr\u00f3prias ag\u00eancias, tivemos o Movimento dos N\u00e3o-Alinhados, e tivemos a proposta por uma Nova Ordem Mundial da Informa\u00e7\u00e3o e Comunica\u00e7\u00e3o e depois o famoso Relat\u00f3rio MacBride, \u201cUm Mundo e Muitas Vozes\u201d na UNESCO. Uma reuni\u00e3o para propor um novo ordenamento da informa\u00e7\u00e3o considerando as desigualdades. Como foi essa rela\u00e7\u00e3o dessas ag\u00eancias nascentes dos pa\u00edses libertados com essa infraestrutura central? E como a NOMIC e o Relat\u00f3rio MacBride foram mortos? Ou, melhor, como um matou o outro? Por que n\u00e3o frutificamos um fluxo mais democr\u00e1tico de informa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Pedro Aguiar: Come\u00e7ando pelo final: isso remete ao que acabei de falar, de que dentro do capitalismo hist\u00f3rico globalizado, como temos hoje, n\u00e3o haver\u00e1 fluxo sul-sul de grande porte. N\u00e3o matizei esse detalhe: fluxo sul-sul existe, mas n\u00e3o numa escala relevante. <\/p>\n<p>Eu costumava achar, como muita gente de comunica\u00e7\u00e3o internacional, que o Relat\u00f3rio MacBride coroou o processo pela NOMIC. A NOMIC foi um processo constru\u00eddo especialmente pelos pa\u00edses perif\u00e9ricos, pa\u00edses descolonizados, que conseguiu emplacar isso na UNESCO, uma esfera de representa\u00e7\u00e3o leg\u00edtima que juntava todos os pa\u00edses do mundo \u2013 afinal, sistema ONU, muito respeitado e legitimado \u2013, e a Comiss\u00e3o MacBride teria recebido essas cr\u00edticas feitas pela NOMIC e feito o Relat\u00f3rio MacBride como um ponto, assim, \u201cuau, agora provamos, a campanha pela NOMIC \u00e9 justa, vamos mudar tudo isso\u201d, e que teria sido escamoteado. Hoje n\u00e3o acho mais isso. Hoje estou convicto de que o Relat\u00f3rio MacBride matou a NOMIC.<\/p>\n<p>A NOMIC foi uma campanha antissist\u00eamica, essencialmente anticapitalista, por mais que v\u00e1rios dos pa\u00edses n\u00e3o-alinhados fossem capitalistas. Ela exigia uma reforma profunda na economia global para que as transforma\u00e7\u00f5es no campo da comunica\u00e7\u00e3o e informa\u00e7\u00e3o conseguissem ser implementadas. Era uma cr\u00edtica antissist\u00eamica. E, se n\u00e3o nos m\u00e9todos, ao menos nos princ\u00edpios, revolucion\u00e1ria. O Relat\u00f3rio MacBride \u00e9 um documento de concilia\u00e7\u00e3o. Ele foi feito por uma comiss\u00e3o que tinha jornalistas, mas tamb\u00e9m escritores, intelectuais, gestores de \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos de comunica\u00e7\u00e3o, e que vinham de origens diferentes. T\u00ednhamos Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, Iugosl\u00e1via, o Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez, da Col\u00f4mbia, o Juan Somav\u00eda, do Chile, e tinha gente dos Estados Unidos e Canad\u00e1. E muitos deles haviam trabalhado em ag\u00eancias de not\u00edcias em algum momento; havia gente com uma vis\u00e3o extremamente cr\u00edtica e gente com uma vis\u00e3o extremamente favor\u00e1vel \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o do status quo na comunica\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, embora quando a gente leia o Relat\u00f3rio MacBride haja um apanhado hist\u00f3rico e uma an\u00e1lise de conjuntura muito boa, o grau de proposi\u00e7\u00e3o dele, de partir para a a\u00e7\u00e3o, \u00e9 muito gen\u00e9rico. \u00c9 muito a linguagem ONU, \u201cestimulamos que os Estados estabele\u00e7am pol\u00edticas para estimular a democratiza\u00e7\u00e3o, para aumentar a propor\u00e7\u00e3o de not\u00edcias\u2026\u201d.<\/p>\n<p>A NOMIC n\u00e3o era nada disso; era fazer legisla\u00e7\u00e3o, puni\u00e7\u00e3o, regula\u00e7\u00e3o internacional a ser cumprida pelos Estados, monop\u00f3lios nacionais ou cons\u00f3rcios dos monop\u00f3lios nacionais entre os pa\u00edses perif\u00e9ricos. Era muito mais a\u00e7\u00e3o, e o lado pragm\u00e1tico dela n\u00e3o foi o Relat\u00f3rio MacBride, foi o NANAP, a Ag\u00eancia de Not\u00edcias Comum dos Pa\u00edses N\u00e3o-Alinhados, que funcionou muito bem de 1975 at\u00e9 1980. Em 1980 n\u00e3o s\u00f3 h\u00e1 o Relat\u00f3rio MacBride como havia tido, poucos meses antes, a morte de Josip Broz Tito, presidente da Iugosl\u00e1via socialista. Como a ag\u00eancia iugoslava Tanjug era organizadora da NANAP, houve uma mudan\u00e7a na lideran\u00e7a da Iugosl\u00e1via que ajudou a deixar mais inst\u00e1vel a dire\u00e7\u00e3o da ag\u00eancia, e houve tamb\u00e9m o in\u00edcio da guerra Ir\u00e3-Iraque. Tanto a ag\u00eancia do Ir\u00e3 quanto a do Iraque faziam parte do cons\u00f3rcio e cooperavam, e no momento em que elas passam a guerrear\u2026 Como voc\u00ea vai circular not\u00edcias de dois lados que est\u00e3o em guerra agora? Isso ajudou a parar a NANAP, e ela nunca mais voltou.<\/p>\n<p>Mas as ag\u00eancias nacionais tentaram sim estabelecer parcerias com as ag\u00eancias transnacionais, muitas vezes de suas antigas col\u00f4nias. O Boyd-Barrett conta no livro dele uma coisa que eu sempre reproduzo: que uma boa parte das ag\u00eancias dos novos pa\u00edses africanos, daquelas independ\u00eancias do final dos anos 50, da d\u00e9cada de 60, foram montadas a partir dos escrit\u00f3rios que as ag\u00eancias transnacionais tinham nas suas col\u00f4nias. A Reuters tinha l\u00e1 um escrit\u00f3rio em Lagos, na Nig\u00e9ria \u2013 quando a Nig\u00e9ria ficou independente, transformou esse escrit\u00f3rio da Reuters em sua ag\u00eancia nacional, a News Agency of Nigeria (NAN); a mesma coisa, sei l\u00e1, com a AFP no Senegal. E especialmente a AFP fazia treinamento para os jornalistas dos pa\u00edses rec\u00e9m-independentes. De uma maneira bastante colonialista, preconceituosa, \u00e9 claro; h\u00e1 documentos dizendo \u201celes n\u00e3o sabem escrever em franc\u00eas, cometem muitos erros\u201d, ou criticando que \u201cest\u00e3o fazendo propaganda do governo\u201d \u2013 mas voc\u00eas nunca falaram desses governos! Ficam s\u00f3 dizendo que o governo \u00e9 corrupto, isso e aquilo; e a\u00ed se o governo inaugura uma ponte \u00e9 claro que a ag\u00eancia vai falar dessa ponte porque \u00e9 uma obra do governo. N\u00e3o \u00e9 pra fazer propaganda, mas para dizer que est\u00e1 tendo desenvolvimento, que est\u00e3o caminhando, construindo infraestrutura para o pa\u00eds, n\u00e3o mais nas linhas de exporta\u00e7\u00e3o das mat\u00e9rias-primas para os portos, como foi sempre.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o as ag\u00eancias dos pa\u00edses africanos, mas tamb\u00e9m latino-americanos e asi\u00e1ticos, fizeram sim essas parcerias para capacita\u00e7\u00e3o, empr\u00e9stimo de equipamento, e a NOMIC come\u00e7ou como um conjunto delas tentando brigar por isso, por aloca\u00e7\u00e3o de tempo de sat\u00e9lite, por tarifas mais baixas de Telex, etc. Esse tipo de briga foi o que acabou motivando o in\u00edcio da campanha pela NOMIC. A primeira vez em que essa ideia aparece foi na Confer\u00eancia dos Pa\u00edses N\u00e3o-Alinhados em Argel, capital de uma Arg\u00e9lia rec\u00e9m-independente, em que primeiro se fazia uma campanha por uma Nova Ordem Econ\u00f4mica Internacional, que era justamente para tratar das quest\u00f5es dos mercados, numa an\u00e1lise muito cepalina, falando da degrada\u00e7\u00e3o dos termos de troca, do com\u00e9rcio sempre agroexportador dos pa\u00edses perif\u00e9ricos\u2026 E dentro disso, os jornalistas, professores e economistas disseram: \u201colha, al\u00e9m dessa parte dos bens tang\u00edveis, h\u00e1 tamb\u00e9m o fluxo de informa\u00e7\u00e3o que \u00e9 extremamente desigual\u201d. Pensando ent\u00e3o que talvez n\u00e3o tivessem tanto sucesso em modificar a quest\u00e3o do com\u00e9rcios dos bens tang\u00edveis, mas que poderiam ganhar algo se investissem nessa quest\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o, foi aprovada pela primeira vez uma resolu\u00e7\u00e3o de que uma nova ordem econ\u00f4mica teria que estar atrelada a uma nova ordem de comunica\u00e7\u00e3o. E a partir da\u00ed, em 1973, come\u00e7ou uma s\u00e9rie de confer\u00eancias no Equador, Belgrado, Sri Lanka, Costa Rica, para discutir essa quest\u00e3o. Em 1975 surge o pool das ag\u00eancias n\u00e3o-alinhadas, e at\u00e9 1977 se pressionou a UNESCO para que esse tema fosse atendido, e no final desse ano a UNESCO aceita formar uma comiss\u00e3o internacional para analisar os problemas denunciados pela NOMIC; mas montou uma comiss\u00e3o, como eu disse, super plural, e acabou, muito no estilo ONU, chegando a uma solu\u00e7\u00e3o de compromisso.<\/p>\n<p>S\u00f3 para falar da Prensa Latina: eu visitei a reda\u00e7\u00e3o da Prensa Latina em 2015, em Havana, e fiquei particularmente emocionado, porque eu sabia que era uma empresa grande que alimenta ve\u00edculos em v\u00e1rios lugares do mundo \u2013 aqui no Brasil basicamente o pessoal do jornal INVERTA, mas em outros pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina alimenta jornais grandes, o P\u00e1gina12 na Argentina, jornais no Chile, a Telesur. Produzem textos, v\u00eddeos, fotos, uma ag\u00eancia com porte operacional razo\u00e1vel, respeit\u00e1vel. Quando eu cheguei no lugar \u2013 fico at\u00e9 arrepiado \u2013 eu vi uma empresa com talvez 40 funcion\u00e1rios em uma casa \u2013 uma casa, uma casa mesmo \u2013 com a tinta da parede descascando, com rachaduras nas paredes, com computadores dos anos 90, com aqueles monitores fundos, de tubo, impressoras matriciais fazendo seu barulhinho de impress\u00e3o sobre o papel de formul\u00e1rio cont\u00ednuo. E eu me senti de volta aos anos 90. Essa empresa, com essa precariedade de estrutura e de materiais, consegue fazer um servi\u00e7o internacional jornal\u00edstico, em fluxo cont\u00ednuo, operando 24 horas por dia, sete dias por semana. Eu fiquei comovido com o qu\u00e3o her\u00f3ico \u00e9 o trabalho deles. Ent\u00e3o a quest\u00e3o \u00e9: \u00c9 caro? \u00c9. Basta decis\u00e3o pol\u00edtica? N\u00e3o, n\u00e3o basta, n\u00e3o serei voluntarista na an\u00e1lise. Mas \u00e9 poss\u00edvel. Eles fazem, sabem fazer.<\/p>\n<p>Revista Opera: At\u00e9 o Relat\u00f3rio MacBride, que em tese era uma vers\u00e3o um pouco aguada da NOMIC, acaba boicotado, n\u00e3o \u00e9? Reagan entra no governo, amea\u00e7a sair da UNESCO\u2026<\/p>\n<p>Pedro Aguiar: N\u00e3o, ele saiu. De fato saiu. <\/p>\n<p>Revista Opera: Sai da UNESCO, acaba com o financiamento dos Estados Unidos para a UNESCO, e a Margaret Thatcher depois acompanha, sai tamb\u00e9m. A Gr\u00e3-Bretanha e os EUA abandonando uma subag\u00eancia da ONU em fun\u00e7\u00e3o de um relat\u00f3rio que trata do fluxo de informa\u00e7\u00e3o a n\u00edvel mundial. Agora, na sua tese, o seu foco \u00e9 justamente as ag\u00eancias de not\u00edcia do Terceiro Mundo, voc\u00ea fez algumas visitas a essas ag\u00eancias, e fazer comunica\u00e7\u00e3o nesses termos\u2026 Eu penso que a Xinhua, da China, deve ter uma estrutura inacredit\u00e1vel em compara\u00e7\u00e3o com a Prensa Latina \u2013 a pr\u00f3pria Telesur, cheguei a ir l\u00e1, um pr\u00e9dio grande. Mas queria saber do que viu em termos desse fluxo sul-sul: temos uma nova pot\u00eancia emergindo, em tese. Existem placas tect\u00f4nicas se movendo no campo da comunica\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Pedro Aguiar: H\u00e1. Mas elas n\u00e3o s\u00e3o exatamente com as melhores inten\u00e7\u00f5es\u2026 As maiores respons\u00e1veis por movimentos tect\u00f4nicos, por grandes abalos e tsunamis, s\u00e3o justamente as big techs \u2013 Google e Facebook acima de tudo. E a Amazon tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>O que eu vi nas ag\u00eancias perif\u00e9ricas foi gente muito s\u00e9ria trabalhando. Eu perco a paci\u00eancia quando vejo gente acusando ag\u00eancias estatais de fazerem propaganda de governos, como se todo mundo fosse chapa-branca que est\u00e1 ali para puxar o saco do governante da vez. N\u00e3o \u00e9 isso. N\u00e3o \u00e9 isso nem na Ag\u00eancia Brasil, conhe\u00e7o profissionais ali de dentro que s\u00e3o extremamente s\u00e9rios, est\u00e3o muito incomodados com o que est\u00e1 acontecendo l\u00e1 dentro, denunciam da maneira que podem e que s\u00e3o alvos de persegui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Bom, visitei as ag\u00eancias de Cuba, Prensa Latina e ACN, que \u00e9 uma ag\u00eancia secund\u00e1ria, mais bem equipada, mais jovem, e voltada para os trabalhadores cubanos espalhados pelo mundo, especialmente na Am\u00e9rica Latina e \u00c1frica; a ANDINA, do Peru, fundada no final do governo do general Velasco Alvarado, uma ditadura militar progressista, nacionalista de esquerda que houve aqui na Am\u00e9rica Latina sobre a qual pouco se fala, e que confiscou os jornais, coisa que muitos amea\u00e7avam fazer e s\u00f3 ele fez; visitei a Ag\u00eancia Brasil, em Bras\u00edlia; e a ag\u00eancia ANDES, em Quito, que foi criada pelo Rafael Correa como parte da estrutura da empresa p\u00fablica de r\u00e1dio e televis\u00e3o, e que foi extinta pelo Len\u00edn Moreno \u2013 e agora \u00e9 claro que o Guilherme Lasso n\u00e3o vai fazer nada tamb\u00e9m para restaur\u00e1-la. <\/p>\n<p>A sa\u00edda dos Estados Unidos e do Reino Unido nos anos 80 n\u00e3o acabou com o Relat\u00f3rio MacBride, que j\u00e1 estava aprovado, mas o que aconteceu \u00e9 que naquela mesma confer\u00eancia em Belgrado, em outubro de 1980, em que o MacBride foi aprovado \u2013 e foi aprovado n\u00e3o por vota\u00e7\u00e3o, mas por aclama\u00e7\u00e3o \u2013, foi aprovada tamb\u00e9m a cria\u00e7\u00e3o do Programa Internacional para o Desenvolvimento das Comunica\u00e7\u00f5es (IPDC na sigla em ingl\u00eas), que era um programa de a\u00e7\u00e3o da UNESCO para equipar, treinar e criar estruturas de comunica\u00e7\u00e3o nos pa\u00edses em que n\u00e3o existissem ou onde a estrutura fosse muito prec\u00e1ria. Era para isso que precisava de dinheiro, o IPDC seria uma esp\u00e9cie de inst\u00e2ncia para botar em pr\u00e1tica as recomenda\u00e7\u00f5es do Relat\u00f3rio MacBride, por mais aguadas e dilu\u00eddas que fossem. E para isso que o dinheiro fez falta: o IPDC que serviria, por exemplo, para montar a estrutura de uma reda\u00e7\u00e3o de uma ag\u00eancia de not\u00edcias em um pa\u00eds africano, p\u00f4de fazer, ao inv\u00e9s disso, o que d\u00e1 pra fazer com pouco dinheiro, que \u00e9 basicamente treinamento educacional e valores, princ\u00edpios, cultura.<\/p>\n<p>Essa quest\u00e3o, ali\u00e1s, ainda acontece hoje. H\u00e1 alguns anos alguns colegas do departamento de comunica\u00e7\u00e3o da UFF foram para S\u00e3o Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe dentro de um programa de coopera\u00e7\u00e3o do governo brasileiro, nessa esfera de coopera\u00e7\u00e3o sul-sul que ainda existia, antes de 2016. Eles fizeram treinamento e capacita\u00e7\u00e3o em comunica\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria para funcion\u00e1rios de r\u00e1dio, ag\u00eancias de not\u00edcias e televis\u00e3o do pa\u00eds. Uma das perguntas que eles mais faziam, os professores me contaram, era: \u201cvoc\u00eas v\u00e3o deixar o equipamento a\u00ed?\u201d. Quer dizer, eles levaram equipamento para os treinos, transmissores, microfones, c\u00e2meras, e perguntavam: \u201co equipamento vai ficar?\u201d. Porque sem isso n\u00e3o tinha acesso. Ent\u00e3o eles at\u00e9 gostavam do treinamento, mas o material vai ficar? Porque essa precariedade tecnol\u00f3gica \u00e9 important\u00edssima, n\u00e3o h\u00e1 transfer\u00eancia de tecnologia, e \u00e9 claro que a digitaliza\u00e7\u00e3o reduziu muito a disparidade de custos na esfera da produ\u00e7\u00e3o \u2013 realmente, antes do digital, voc\u00ea precisa de um equipamento para cada coisa: uma c\u00e2mera de v\u00eddeo, um gravador de som, um computador ou m\u00e1quina de escrever. Quando voc\u00ea pode juntar tudo isso em um celular, a diferen\u00e7a do custo entre fazer comunica\u00e7\u00e3o no centro e faz\u00ea-la na periferia se reduz. Mas essa disparidade ainda \u00e9 muito alta na esfera da circula\u00e7\u00e3o. Porque distribuir esse material n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 caro, mas os canais de comunica\u00e7\u00e3o est\u00e3o mais oligopolizados do que nunca.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade, todo mundo agora pode abrir um canal no YouTube \u2013 mas \u00e9 o YouTube que controla o algoritmo de distribui\u00e7\u00e3o. Fui aluno de gente que acreditava piamente nisso, em democratiza\u00e7\u00e3o pela internet, descentraliza\u00e7\u00e3o pela internet, gente que inclusive defendia o fim da exig\u00eancia do diploma de jornalismo. Onde est\u00e3o essas pessoas quando propomos regula\u00e7\u00e3o e taxa\u00e7\u00e3o das big techs? O momento agora \u00e9 esse. Tudo bem, \u00e9 f\u00e1cil fazer um conte\u00fado, mas ningu\u00e9m faz ele circular sozinho, por conta pr\u00f3pria, se n\u00e3o tiver regula\u00e7\u00e3o, se n\u00e3o tiver o Estado operando ali, e se n\u00e3o tiver taxa\u00e7\u00e3o para fazer esse dinheiro que essas empresas est\u00e3o concentrando voltar a circular. Porque por enquanto elas est\u00e3o recebendo toda a verba publicit\u00e1ria. E est\u00e3o determinando quem recebe essa verba: tem o dinheiro grande que eles ganham e as migalhas que quem tem um canal no YouTube ou um site ou uma p\u00e1gina no Facebook recebe de retorno, mas at\u00e9 essas migalhas eles regulam a partir do momento que eles controlam o algoritmo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o precisar\u00edamos de uma nova campanha mundial de NOMIC, mas estamos em um contexto global completamente desfavor\u00e1vel para isso acontecer. A situa\u00e7\u00e3o de concentra\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o de comunica\u00e7\u00e3o hoje \u00e9 menor do que era nos anos 70, mas a concentra\u00e7\u00e3o de distribui\u00e7\u00e3o \u00e9 maior. Se j\u00e1 apontavam os dedos naquela \u00e9poca para as grandes operadoras de telecomunica\u00e7\u00f5es, para as ag\u00eancias de not\u00edcias que faziam isso circular entre os pa\u00edses, como uma situa\u00e7\u00e3o de oligop\u00f3lio global, esse oligop\u00f3lio agora tem menos atores, est\u00e3o mais concentrados ainda nos Estados Unidos, nessas cinco empresas GAFAM, todas norte-americanas.<\/p>\n<p>A China entra correndo por fora, um pouco, com a Tencent, TikTok, e at\u00e9 com a Xinhua, que hoje \u00e9 a maior ag\u00eancia de not\u00edcias do mundo em termos de funcion\u00e1rios, opera\u00e7\u00f5es, clientes, estruturas \u2013 faturamento n\u00e3o sabemos, porque n\u00e3o revelam. Mas a comunica\u00e7\u00e3o est\u00e1 muito oligopolizada e concentrada em m\u00e3os estadunidenses, mais do que era nos anos 70: se nos anos 70 houve briga, naquele contexto de bipolaridade, hoje precisaria haver briga tamb\u00e9m. O problema \u00e9 esse, o desequil\u00edbrio \u00e9 tanto que n\u00e3o h\u00e1 nem sequer um outro lado para concorrer. Porque a campanha de descr\u00e9dito da NOMIC feita no Ocidente foi muito dizendo que ela era coisa dos comunistas, dos N\u00e3o-Alinhados manipulados pelos sovi\u00e9ticos. E havia uma desconfian\u00e7a sim\u00e9trica do lado sovi\u00e9tico sobre a proposta dos N\u00e3o-Alinhados. E hoje em dia n\u00e3o tem essa bipolaridade, n\u00e3o tem sequer um outro lado para fazer um contraponto, tem um lado s\u00f3.<\/p>\n<p>Revista Opera: Um dos grandes te\u00f3ricos da comunica\u00e7\u00e3o, e talvez um dos grandes esquecidos \u2013 mais uma dessas figuras esquecidas que existem no mundo \u2013 \u00e9 o famoso coautor de Para Ler o Pato Donald, Armand Mattelart. Quem \u00e9 Mattelart, qual \u00e9 a import\u00e2ncia desse belga do Terceiro Mundo?<\/p>\n<p>Pedro Aguiar: Exatamente, belga do Terceiro Mundo. O Mattelart, al\u00e9m de ser belga e n\u00e3o franc\u00eas, como muita gente pensa, tem uma trajet\u00f3ria intelectual muito interessante. Primeiro, ele veio de uma esquerda cat\u00f3lica, que era muito ativa nos anos 40 e 50 em pol\u00edticas de comunica\u00e7\u00e3o, especialmente na funda\u00e7\u00e3o de r\u00e1dios nas periferias: r\u00e1dios rurais, de camponeses, nas periferias urbanas, como se fez muito na Col\u00f4mbia, na Bol\u00edvia e na Am\u00e9rica Central. E o Mattelart veio dessas correntes.<\/p>\n<p>Agora, a \u00e1rea de estudo em que ele come\u00e7ou era Demografia. E quem tamb\u00e9m era dem\u00f3grafo \u00e9 o Alfred Sauvy, que foi quem criou o termo \u201cTerceiro Mundo\u201d. E o Mattelart, fazendo estudos sobre popula\u00e7\u00f5es e pol\u00edticas de planejamento familiar e controle populacional \u2013 uma coisa em que a Igreja Cat\u00f3lica sempre teve muito interesse \u2013 foi parar no Chile, nos anos 60, e testemunhou as candidaturas que o Allende perdeu. Allende consegue vencer as elei\u00e7\u00f5es no momento em que faz acenos ao centro e \u00e0 democracia crist\u00e3; da\u00ed que os cat\u00f3licos entram. Mas diferente do Lula, o Allende manteve o n\u00facleo do governo e as decis\u00f5es das pol\u00edticas p\u00fablicas na m\u00e3o dos socialistas, inclusive no \u00e2mbito da comunica\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o os estudos que o Mattelart desenvolve no Chile, n\u00e3o s\u00f3 testemunhando, mas participando do governo Allende, remeteram a isso \u2013 o que era contempor\u00e2neo aos chilenos que j\u00e1 estavam l\u00e1 fazendo estudos sobre a concentra\u00e7\u00e3o do notici\u00e1rio internacional na m\u00e3o das ag\u00eancias; o Juan Somav\u00eda e o Fernando Reyes Matta.<\/p>\n<p>O Mattelart estava circulando no meio desse pessoal enquanto ele produzia o Para Ler o Pato Donald, que \u00e9 uma das primeiras cr\u00edticas sistematizadas ao imperialismo cultural, onde demonstra, por meio de an\u00e1lise do discurso e exemplos concretos, como \u00e9 que conglomerados como a Disney e outros grupos ocidentais de comunica\u00e7\u00e3o lan\u00e7am produtos culturais que acabam formando mentalidades para acatar a hegemonia dos pa\u00edses centrais. Os exemplos que ele d\u00e1 s\u00e3o da ordem de, por exemplo, o Tio Patinhas indo com os sobrinhos a pa\u00edses subdesenvolvidos e interpelando as pessoas de l\u00e1 como incultos, prec\u00e1rios, intelectualmente rebaixados, pobres coitados que n\u00e3o tiveram acesso \u00e0s benesses da nossa civiliza\u00e7\u00e3o. Muito parecida com a ideia imperialista do s\u00e9culo 19, praticamente a mesma mentalidade do Cecil Rhodes \u2013 mas com 100 anos de diferen\u00e7a, de 1870 a 1970. E esse estudo dele \u00e9 formid\u00e1vel.<\/p>\n<p>Mas a partir da\u00ed ele come\u00e7ou a se interessar pelo estudo sistem\u00e1tico das empresas, da infraestrutura e das concep\u00e7\u00f5es intelectuais de comunica\u00e7\u00e3o internacional. E o Mattelart, sem nenhum dem\u00e9rito, \u00e9 menos um cara que lan\u00e7a conceitos pr\u00f3prios e mais um cara com uma capacidade assombrosa de ler e organizar esses conceitos. Ent\u00e3o das v\u00e1rias obras dele, as em que ele faz hist\u00f3ria das ideias s\u00e3o as melhores.<\/p>\n<p>Ele tem um livro pequenininho que \u00e9 o Hist\u00f3ria da sociedade da informa\u00e7\u00e3o; o Hist\u00f3ria das teorias da comunica\u00e7\u00e3o, escrito junto da esposa dele, a Mich\u00e8le Mattelart, que tamb\u00e9m \u00e9 uma intelectual extremamente respeit\u00e1vel; o Comunica\u00e7\u00e3o Mundo, lan\u00e7ado na \u00e9poca da Guerra do Golfo, em que ele adapta muito do conhecimento do Wallerstein, aplicando o sistema-mundo \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o (mas sem trabalh\u00e1-lo como um conceito, ele joga isso no livro algumas vezes), e tamb\u00e9m a concep\u00e7\u00e3o de Fernand Braudel de economia-mundo. E ele logo no in\u00edcio desse livro faz uma par\u00e1frase de um texto de um ge\u00f3grafo, o Yves Lacoste, que tem um livro chamado A geografia \u2013 isso serve, antes de tudo, para fazer a guerra, e nesse contexto da CNN cobrindo a Guerra do Golfo ao vivo, Mattelart diz: \u201cA comunica\u00e7\u00e3o serve, antes de tudo, para fazer a guerra\u201d.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ele sistematiza muito bem essas ideias, e h\u00e1 dois livros dele que n\u00e3o s\u00e3o muito conhecidos no Brasil, porque um n\u00e3o teve edi\u00e7\u00e3o brasileira, somente em Portugal \u2013 A inven\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o \u2013, onde ele tra\u00e7a uma genealogia, no sentido foucaultiano mesmo, da ideia de comunica\u00e7\u00e3o, e volta l\u00e1 no s\u00e9culo 17 para dizer que a ideia de comunica\u00e7\u00e3o nasce atrelada \u00e0 ideia de transporte e s\u00f3 vai se desvencilhar disso com o tel\u00e9grafo, quando o meio se separa da mensagem (porque at\u00e9 ent\u00e3o voc\u00ea tinha que levar a mensagem fisicamente, por estradas, trilhas, hidrovias, canais, etc.)<\/p>\n<p>E tem outro livro, Hist\u00f3ria da utopia planet\u00e1ria, que n\u00e3o pega tanto na comunica\u00e7\u00e3o em um sentido estrito, mas no qual ele retra\u00e7a a genealogia das ideias de globaliza\u00e7\u00e3o, das ideias de como seria um mundo harm\u00f4nico desde a Utopia do Thomas More at\u00e9 a aldeia global do McLuhan e as outras ideias de uma comunidade global que pode ser descrita como livre, democr\u00e1tica, dist\u00f3pica ou n\u00e3o. E tive o privil\u00e9gio de estar com ele duas vezes, e quando comentei com ele que li o livro, ele disse \u201cAh, que bom! Porque escrevi esse livro pensando nos brasileiros\u201d. E \u00e9 o menos lido no Brasil [risos]. Porque logo no in\u00edcio ele lembra de como boa parte das ideias de utopia do Thomas More foram inspiradas nas descri\u00e7\u00f5es que chegaram \u00e0 Europa sobre os \u00edndios brasileiros, especialmente os tupinamb\u00e1s da regi\u00e3o do Rio de Janeiro e Cabo Frio. Os franceses comercializavam pau-brasil com os tupinamb\u00e1s de Cabo Frio por volta de 1510, e havia descri\u00e7\u00f5es sobre como os tupinamb\u00e1s eram um povo sem Estado mas com uma organiza\u00e7\u00e3o social harm\u00f4nica, que viviam de uma maneira sustent\u00e1vel com a natureza, sem a ideia de acumula\u00e7\u00e3o, produ\u00e7\u00e3o de excedente. E o Thomas More teria lido isso e usado de inspira\u00e7\u00e3o para descrever o que seria a utopia no seu livro.<\/p>\n<p>Enfim, Mattelart \u00e9 um g\u00eanio para conseguir conectar ideias. E sobre ag\u00eancias de not\u00edcias, ele leu o Boyd-Barrett, presenciou algumas coisas nos seus ex\u00edlios no M\u00e9xico, nas vezes em que foi a Cuba, e ele foi um observador cr\u00edtico na \u00e9poca da NOMIC. N\u00e3o estava engajado pessoalmente, mas leu bastante sobre, e ele achava \u2013 o que \u00e9 uma vis\u00e3o t\u00edpica do pensamento \u00fanico liberal dos anos 90 \u2013 que o problema da NOMIC foi ter atrelado \u00e0s suas pol\u00edticas de comunica\u00e7\u00e3o ao Estado, que se tivesse sido a partir de organismos n\u00e3o-estatais, ONGs, Terceiro Setor, toda essa nomenclatura muito comum aqui nos anos 80 e 90, poderia ter sido bem-sucedida. Nesse ponto n\u00e3o estou de acordo, vejo o Estado como agente do est\u00edmulo ao desenvolvimento, inclusive na comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas o Mattelart merece muito ser lido hoje como um organizador de ideias, e a partir dessas organiza\u00e7\u00f5es fascinantes que ele faz, desses trabalhos de genealogia de ideias, n\u00f3s conseguimos extrair muita coisa para nossas pr\u00f3prias pesquisas \u2013 no meu caso o que se refere a ag\u00eancias, \u00e0 circula\u00e7\u00e3o internacional da informa\u00e7\u00e3o. Mas muita gente que procura outras coisas pode encontrar grandes respostas nele.<\/p>\n<p>S\u00f3 pra encerrar, tenho que recontar uma hist\u00f3ria que ele contou em um congresso, em 2015: ele escreveu nos anos 1970 sobre o poder de uma ind\u00fastria como a Disney para criar uma mentalidade contra o Terceiro Mundo e pr\u00f3-imperialista na cabe\u00e7a de muita gente, inclusive crian\u00e7as. E a\u00ed ele contou que um dia estava com o filho em Paris e foi levar o neto na escola, uma creche. E quando chegou na creche ele olhou para a parede da creche e teve uma paralisia, congelou. O filho dele n\u00e3o entendeu, \u201cvamos l\u00e1 pai, temos que levar o menino\u201d. E ele viu que a parede da creche estava pintada com desenhos do Mickey, Pato Donald, Margarida. E ele falou: \u201cVoc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 vendo? Eles venceram!\u201d.<\/p>\n<p>Revista Opera: Imagino que fosse inclusive uma creche p\u00fablica.<\/p>\n<p>Pedro Aguiar: \u00c9 poss\u00edvel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/27749\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9],"tags":[227],"class_list":["post-27749","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-7dz","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27749","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27749"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27749\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27749"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27749"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27749"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}